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6. Os Traidores do Próprio Sangue


Fic: O Filho das Trevas - COMPLETA


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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I



Para completa desgraça do Mistério da Magia, as únicas pessoas que os aurores conseguiram pegar foram as coitadas d'As Esquisitonas, que não tinham nada a ver com a história toda. O Profeta Diário parecia extremamente interessado em requentar os boatos que incluíam o nome da famosa banda, até que Gina cansou de ler as coisas horríveis que falavam sobre as pobres cantoras e escreveu ao jornal (por intermédio de Taurus Goldenfire) contando a verdade. Foi a maior gozação da história da magia.

Gina não sabia mais o que fazer ou pensar, já estava grávida de dois meses e isso a assustava. Contudo, tentava agir como se nada tivesse acontecido, embora as pessoas nos corredores de Basilisk Hall agora não parassem de chamá-la de "Lady das Trevas". Ela sabia que não poderia adiar por muito tempo; logo sua barriga iria crescer e todos iriam tem a mais concreta certeza dos boatos que andavam correndo nas bocas dos Comensais da Morte.

Para piorar a situação, em pleno fim do mês de novembro uma nota foi publicada por um leitor, e que, no dia seguinte, já virara primeira página.

Voldemort estava lendo, absorto, na sua cadeira na ponta da mesa. Ela sabia o que o preocupava tanto. Voltou os olhos para a primeira página do seu jornal.


CONFIRMAÇÃO DO RETRATO FALADO DE G.W. - bruxo alega ter visto o misterioso Comensal da Morte



Bruxo que prefere se manter anônimo diz ter presenciado uma possível briga entre Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado e G.W., entidade anônima desde então, acusado de planejar vários dos ataques da Ordem das Trevas.

A Redação do
Profeta Diário falou com ele exclusivamente ontem e ouviu coisas inacreditáveis.

"Eu estava no St. Mungus cuidando de um ferimento. Foi no dia que os aurores invadiram o quartel-general deles. Não sei o que aconteceu, nem como é que eles conseguiram entrar lá, mas só sei que no meio da noite uma jovem havia sido transferida para o nosso quarto. Não devia ter mais de dezenove anos de idade, não muito alta, cabelos vermelhos muito compridos e pele clara. Um homem foi buscar ela no dia seguinte. Ninguém desconfiava, é claro; todos pensam que pelo menos num hospital cheio de aurores eles não ousariam, mas... Bem, ele mal chegou perto dela e a moça já começou a gritar com ele.

Sabemos o que é crise. Todo mundo se calou quando ele chamou ela de G.W. Então acho que todo mundo meio que começou a reconhecer, sei lá. Ela xingava ele de toda coisa. Então acho que ele cansou e atirou uma Cruciatus nela. Foi horrível. Só não falei mais cedo porque ele ameaçou matar todo mundo se nós falássemos alguma coisa."

Não sabemos se é confiável, mas, um fato estranho: quando fomos ao St. Mungus tentar saber de alguma coisa, recusaram-nos a nos dar alguma informação. Silvana Fawcet, que estava de plantão na hora do ocorrido, não nos disse mais: "Não me perguntem nada. Eu não sei de nada. Me deixem em paz!"

A diretoria do famoso hospital se nega a dar maiores informações e diz que não vai investigar. Alguns outros pacientes do quarto foram encontrados, mas também se recusaram a prestar depoimento.




Ela tinha a impressão de que todo o sangue sumira de seu rosto. Ela abaixou o jornal, as mãos trêmulas, e olhou para ele. Como se percebesse o olhar dela, ele levantou os olhos também. Ela viu uma sombra de preocupação se passar pelos seus olhos escuros.

- Taurus - chamou ele em voz baixa na mesa silenciosa. O Comensal levantou os olhos. - Tenho trabalho para você.

Goldenfire parecia saber mais ou menos o que se passava. Voldemort atirou o jornal para ele.

- Descubra quem é esse idiota. - Ele não parecia no seu melhor humor e foi a única coisa que falou.

- E...? - perguntou Taurus, cauteloso.

- Mate-o.

Voldemort tornou a se concentrar no seu café da manhã. Depois que Taurus Goldenfire se retirou do salão, ninguém mais falou uma palavra.

Gina terminou de tomar o seu café (embora não tivesse comido quase nada), levantou-se e virou-se para o arco que levaria à Ala Norte. Ainda tinha meia hora, ela percebeu, antes de ter que começar o trabalho. Ia para sua sala.

Estava no meio do caminho quando alguém a alcançou. Era Tom.

Eles se entreolharam.

- Preciso falar com você, Gina - disse ele, lentamente.

Uma porta se abriu ao lado e um Comensal saiu. Parecia bem sonolento e não percebeu que estavam ali até dar de cara com eles.

- Ah - ele disse, assustado, arregalando os olhos - De-desculpem.

Tom se prostrou na frente de Gina para ele não ver seu rosto.

- O que faz aqui a essa hora? - perguntou com rispidez.

O outro pensou um pouco, depois deu ombros.

- Volte para seu quarto! - mandou Tom, irritado.

O Comensal franziu a sobrancelha e fez uma breve reverência, antes de voltar para o quarto. Quando este bateu a porta, o Lord das Trevas olhou para Gina.

- Aqui não - disse em voz baixa.

- Vamos para minha sala - murmurou ela, olhando-o mutuamente.

Ele concordou com a cabeça. Seguiram em frente até o penúltimo andar, silenciosos, apenas o som dos passos audíveis.

Quando chegaram na última sala do corredor, ela abriu a porta com um toque de varinha e entrou; ele vindo logo atrás. A lareira se acendeu magicamente.

- O que é? O que você queria me falar? - perguntou ela, depois de sentar-se em sua poltrona em frente a mesa.

Ele estava em pé ao lado da lareira e olhava-a estranhamente.

- Gina, aquele dia, no hospital... - começou ele lentamente, como se escolhesse as palavras certas.

Ela abaixou os olhos; ele queria falar sobre aquilo. Ela pensava que já tinham se entendido.

- ...o curandeiro que falou comigo antes de eu falar com você, ele, bem... - ele pareceu desconcertado de repente, como se não quisesse falar sobre isso - ele me disse que você está grávida.

Ela engoliu em seco. Ele descobrira. Olhou-o quase desesperada.

- Eu... eu sei - respondeu Gina com a voz fraca.

Ele encarou-a.

De primeira impressão ela pensou que ele gritaria com ela, mas a voz que se seguiu foi quase displicente e não parecia que estava bravo. De fato, parecia meio temeroso de tocar nesse assunto.

- Precisamos falar sobre isso. Você não pode ter um filho meu - disse ele sombriamente.

Ela olhou-o de cabeça baixa.

- Não é minha culpa - murmurou.

- Sei que não - respondeu Tom. - Mas não é só isso. Você não pode ter esse filho - repetiu.

Ela encolheu-se.

- Não vou matar meu filho, Tom - disse, a voz fraca.

- Mas...

- Não adianta, eu não posso - sussurrou ela, olhando aterrorizada.

- Você não precisa fazer isso - disse ele em voz baixa.

Ela arregalou os olhos para ele.

- Você mataria seu próprio filho? - perguntou com a voz fraca, sentindo um aperto engraçado no peito. - Mataria um filho seu?

Ele não desviou os olhos dela.

- Sim, eu mataria - respondeu numa voz calma.

Gina sentiu a boca ficar seca. Num gesto involuntário ela colocou as mãos no ventre e debruçou-se levemente sobre as pernas, olhando para baixo.

- Eu não vou deixar, Tom... Eu não vou deixar... - murmurou, a voz mais fraca do que antes.

Fez-se silêncio.

Ela viu os pés dele aparecerem em seu campo de visão. Um segundo depois ele levantava o rosto dela para si. Com uma expressão preocupada, ele limpou uma lágrima de um dos olhos dela.

- Você devia saber antes de se envolver que comigo seria diferente do que se fosse com outro - disse ele gentilmente, agachando-se para seus rostos ficarem na mesma altura.

Ela deu um soluço.

- Eu não posso deixar, Tom; você sabe que eu não consigo... - gemeu ela, as lágrimas descendo rapidamente.

Fez-se mais silêncio, até que ele deu um suspiro baixo.

- Está bem - suspirou ele -, está bem. Quando fizer três meses, eu te mando para outro lugar. Mas depois você tem que se livrar dele.

- O quê? - perguntou ela. Não ouvira direito, só podia.

- Deixe-o. Você pode ter o filho, mas então não vai cuidar dele. Sei lá, você pode deixar em um orfanato... - disse ele, revirando os olhos.

Gina não podia acreditar no que estava ouvindo. Encarou-o perplexa. Agora realmente se irritara.

- NÃO! VOCÊ NÃO ENTENDE QUE EU QUERO?! [I]EU QUERO TER ESSE FILHO! EU QUERO CUIDAR DELE! EU QUERO VER ELE CRESCER![/I] ELE É [I]MEU[/I] FILHO! - gritou ela, a raiva sobrepondo-se à perplexidade.

- Quem não entende é você! - retrucou ele, cerrando as sobrancelhas. - Se um filho meu cresce, Gina, é arriscado...

Então ela compreendeu. Encarava-o, mas não escutava ao que ele dizia. Subitamente, uma lembrança lhe veio à cabeça.

- É incrível, Tom, como você se parece com o seu pai... - disse em voz baixa, encarando-o com absoluto horror.

Ele parou de falar. A pouca cor que havia em seu rosto desapareceu completamente, mas ele não disse nada. Levantou-se e virou-se para a lareira, observando o fogo, a cabeça baixa.

- Olha, eu não vou dar a luz a outro assassino, está bem? Eu não vou - disse ela, furiosa. - Se você quer fazer isso... Olha o que aconteceu com você! Acha que ele não vai descobrir, assim como você descobriu? Ele te mata, Tom, assim como você fez...

- Cale essa boca - sibilou ele, de costas para ela.

Mais uma vez fez-se silêncio - um silêncio pesado, incômodo. Tom continuou calado por muito tempo, Gina chorando silenciosamente.

- Tom... Eu... eu acho que se a gente cuidasse dele... talvez... talvez se ele soubesse quem é o pai e a mãe dele... Você poderia tê-lo como aliado, e não como inimigo. Você entende o que eu estou dizendo, não entende?

Ele não respondeu de imediato. Meteu as mãos no bolso e respirou fundo.

- Sim - murmurou em voz baixa, mas clara.

Ela levantou-se e se aproximou, com cautela.

- E... o que você acha? - perguntou timidamente, pousando a mão no ombro dele.

Ele respirou fundo novamente.

- Eu acho que significa dizer a todo mundo que eu e você somos mais do que amigos, mais do que colegas. Significa deixar completamente pública a nossa relação...

- E o que os outro têm com isso? - perguntou Gina calmamente.

De repente ele virou-se. Encarava-a com tal fúria nos olhos que ela não entendeu.

- Será que você ainda não percebeu que todo esse tempo eu estou tentando te proteger? - rosnou ele, agarrando os punhos dela. - Será que você não percebe que não posso simplesmente chegar aos outros e dizer "Gina Weasley é minha amante"? É tão difícil assim perceber que tudo o que eu toco vira ?! É difícil notar que todo mundo que tem alguma coisa comigo morre?! Você não vê? Não percebe que eu não quero que você sofra por minha causa?

Ela olhou espantada para ele, que ainda segurava suas braços com força, sacudindo-a.

- Tom - disse, assustada - o que isso tem a ver com...

- Eu não acredito em ninguém, Gina, ninguém! - disse ele, parecendo desesperado. - Você... oras, você é a maior arma que alguém pode ter contra mim. Imagine descobrir que eu...que nós... Eles te pegam, Gina. Você será o maior alvo dos aurores! Quem quer me ver derrotado vai fazer de tudo para colocar as mãos em você! E um filho, Gina! Um filho seria tudo o que me faria cair!

Ela observou-o por um momento, aterrorizada. Mal podia acreditar nos seus ouvidos. Ele dizendo que ela significava tudo para ele.

Gina esperou que ele a soltasse e abraçou-o. Abraçou-o como nunca fizera antes. Não era um abraço dela para o sexo oposto, mas para uma pessoa que ela amava. Ela ficou ali, sentindo-se mais extasiada do que nunca. Beijou-o. Beijou-o e acariciou seu rosto, atenciosamente. Entendia-o como nunca. Podia quase sentir o mesmo que ele sentia.

- Você me ama, não é? - perguntou ela baixinho, os rostos a uma pequena distância, os olhos brilhando.

Tom não respondeu, olhou para o outro lado, incomodado, como se amar fosse proibido. Gina fê-lo olhar para ela de novo.

- Não se preocupe - disse baixinho. - Não vai acontecer nada comigo - disse ela, encostando o rosto no peito dele. - Não vai acontecer nada com a gente.

Ela afagou-o carinhosamente.

- Precisamos tentar - falou Gina, séria. - Temos que arriscar... Será melhor assim, acredite-me.

As mãos dele encontraram as costas dela. Por um momento nenhum dos dois falou nada, somente sentindo as batidas do coração um do outro, que até aquele momento ela nunca reparara que nele existisse algum.

- Você quer assim? - perguntou ele numa voz rouca, acima da cabeça dela. - Você quer tentar, então?

Ela confirmou com a cabeça, séria.

- Não vai ser fácil, minha querida... Não terá como voltar atrás... - falou ele pesadamente, num sussurro.

- Eu te amo. Nada nem ninguém vai tirar isso de mim, Tom - murmurou ela, sentindo o calor do abraço dele.

Gina sorriu um sorriso tímido e nervoso. Sussurrou:

- Eu quero você, meu amor... Eu não me importo que você seja quem você é, mas me aceite. Aceite a mim e ao nosso filho, Tom. Eu amo os dois mais do que todo...

O abraço dele tornou-se mais forte.

- Me desculpe - disse ele em voz baixa. - Me desculpe se fui rude...

Ela sorriu.

- Não precisa pedir desculpas. Eu entendo o que você sente - Gina suspirou, cansada.

Ele beijou sua testa afetuosamente. Ela tocou seu braço e deixou que a mão dele ficasse em seu rosto. Não tinha vontade de sair dali. Tinha tanto medo de perdê-lo que temia que ele desaparecesse no instante em que saíssem dali, daquele abraço. O rosto marcado de lágrimas afundou-se no calor dele.

Ficaram assim por muito tempo. Se dependesse dela, nunca mais se separavam daquele abraço, mas tinham coisas a fazer. Tinham pessoas esperando-os...

- Vamos tentar, então... Não estou dizendo que vai ser fácil, mas não será impossível - disse ele, olhando-a calorosamente. - Nenhum de nós dois podemos desistir, agora. Temos que ir até o fim...

Ela estremeceu. "O fim". Ela não queria escutar a palavra "fim". Significava que um deles seguiria sozinho. Era o que ela mais temia, o que ia acontecer... Sentiu o frio familiar a assaltar e levantou os olhos para a janela. Lá fora, o céu, azul claro pela primeira vez em dois meses, não parecia ter conhecimento de seus problemas. Ninguém tinha.


II



Parecia meio desconcertante o modo com que todos olhavam para ela. Fazia apenas uma semana e algumas pessoas pareciam achar que ela era alguma espécie de vencedora em alguma modalidade, enquanto outras a encaravam com incômoda desconfiança sempre que ela passava pelo corredor, atulhada de rolos de pergaminhos e penas, indo de sala em sala e tornando a voltar para a escura sala de planejamentos. Tudo isso porque agora ela e Tom não faziam mais questão de se beijarem apenas quando estavam sozinhos em um aposento.

De início, os outros Comensais receberam isso com um choque. Naturalmente, o caso da festa não foi inteiramente levado em conta, já que todos pensavam que ambos estavam muito bêbados para raciocinar direito, e as provocações e apelidos para o lado dela não eram realmente sérios, mas mais uma gozação. Em fator disso, agora as pessoas pareciam assustadas que as insinuações fossem verdades.

No começo, Gina achava estranho. Antes todos debochavam com o título de "Lady das Trevas", mas agora pareciam temê-lo. Com o tempo, porém, ela começou a achar divertido.

Na primeira vez que lhe chamaram assim, depois da conversa, ela respondeu "com muito prazer", o que confundiu o autor da piada, e depois um "agora me dê licença, que meu 'marido' está me esperando."

O grupo cinco, embora sempre tivesse tido com ela uma boa convivência, parecia meio distante dela - um pouco mais do que o normal -, o que ela não sabia dizer se era ou não ciúmes, ou outro motivo, que Gina sinceramente não saberia dizer qual era.

A questão é que já se cansara por muito de esconder o jogo. Não estava disposta a manter segredo, agora que lhe fora dada licença para falar.

Tom, embora a autoridade máxima naquele lugar, parecia estar sendo também, de alguma forma, vítima dos comentários. De fato, sempre que ele passava, fazia-se silêncio absoluto, porém, assim que estava o suficientemente longe, os Comensais desatavam a falar sobre o caso "Lord das Trevas/Garota Misteriosa."

Mas, longe de incomodá-los, ninguém os importunava com perguntas indelicadas - quem dera; mexer com os dois mais poderosos naquele lugar não era bem uma opção.

Agora o conselho de planejamentos cinco se reunia no escritório, a fim de estudar com mais afinco o próximo passo da Ordem. Para o poder maior era preciso uma peça única e de valor inestimável, que estava sabiamente guardada em Hogwarts, fortemente protegida por Dumbledore. Fazia-se silêncio absoluto, exceto pelo barulho de penas arranhando os pergaminhos e do relógio de parede, cujo ponteiro movimentava-se pesadamente com pequenos estalinhos audíveis.

Embora não fosse a primeira vez, Gina conseguira cair em um estupor profundo, a pena girando entre seus dedos e os grandes olhos parados e vazios mirando vagamente os ponteiros do relógio trabalharem. Com o rosto apoiado na mão, seus pensamentos vagavam livremente e ela se esquecera completamente do que tinha que fazer. Também pudera, com todas as coisas que tinha para pensar, com tudo que estava acontecendo... Mas de um ponto muito distante do seu cérebro, algo pareceu se lembrar que tinha trabalho à fazer, porque ela abaixou os olhos para o pergaminho à sua frente.

Suspirou. Certamente que não ia conseguir fazer aqueles cálculos todos hoje. Desejou estar dormindo confortavelmente na sua cama - desde o começo da semana que não dormia direito.

Alguém pareceu ter notado isso.

- Weasley, se não está com vontade de trabalhar, retire-se, por favor. Você não melhora nada o estado de ânimo com essa cara de paisagem...

Ela levantou os olhos para encarar os claros e cinzentos do outro. Nem percebera que Lúcio Malfoy estava ali parado na sua frente, com uma braçada de pergaminhos rasurados para entregar-lhe.

Ela levantou-se e o outro mirou-a, um pouco surpreso. Obviamente que falara com tanta seriedade quanto Fred e Jorge, porque pareceu constrangido. Gina viu-o olhar de relance para Tom, mas este não dava sinal de ter visto nem ouvido nada, de sua escrivaninha às sombras.

- É exatamente isso que vou fazer - bocejou ela. - Com licença.

E, para surpresa de todos, ela contornou a escrivaninha e chegou até a porta, saindo silenciosamente como um fantasma. Tom não fez objeção, então ela continuou seu caminho calmamente.

Não pretendia realmente abandonar o serviço que tinha a fazer; iria só até a cozinha tomar uma xícara de café e ao seu quarto lavar o rosto. Colocou a máscara e seguiu seu rumo.

No corredor, um Comensal, também mascarado, passou em sentido contrário e deteu os olhos nela, quando percebeu que esta tinha cabelos ruivos. Mesmo ela estando de máscara, deduziu que agora todos saberiam descrever o perfil garota que conseguira alguma coisa com o Lord das Trevas. Com um pouco de irritação, perguntou friamente, parando:

- Algum problema?

O outro pareceu pasmo.

- Ah, não, claro que não, milady... - disse, corando por trás da máscara.

- Então pare de me olhar como se fosse atração turística - sibilou, e continuou como se nem tivesse parado.

Gina não sabia explicar, mas não gostava tanto desse novo reconhecimento. Antes ninguém a olhava, porque desconheciam que ela fosse G.W.; agora ainda desconheciam sua identidade, mas os focos tinham caído em cima dela, de repente, e todos pareciam saber como ela era.

Desceu as escadas da Ala Norte e contornou a parede até o arco que levava até o salão de refeições. É claro que o grupo dois estava lá, porque ela escutou-os conversando antes de entrar.

A conversa parou abruptamente e todos os olhos viraram-se para ela. Ninguém fazia um único movimento e acompanhavam-na com os olhos até que ela passasse por trás da mesa e se detivesse na garrafa de café na mesinha de canto.

- Salve, Lady das Trevas - disse uma vozinha disfarçada de algum lugar à mesa as suas costas. Ela não respondeu, mesmo porque estivesse ocupada bebendo o café.

Houve alguns risinhos dispersos e a conversa entre eles recomeçou meio morna. Ela sacudiu a cabeça lentamente, incrédula com o grau de bobeira em que alguém podia chegar. Virou o último gole e virou-se para sair, quando alguém apressado entrou pela porta.

- Me perdi - anunciou o rapaz para as pessoas ali, que o miravam com curiosidade, a pele geralmente pálida um pouco rosada de agitação e vestia a blusa desajeitado sobre a cabeleira loura prateada.

Por um momento ela teve impulso de gritar com ele, perguntando-lhe o que estava fazendo ali, tomando café com o grupo dois, quando percebeu que fora chamado por uma semana para ajudar nos planejamentos do mês. Talvez porque não confiasse nada nela, talvez porque tinha ficado com má impressão dele desde o primeiro dia, ela não se sentiu nada à vontade vendo-o ali.

Por um momento, Draco não a viu, depois, com a blusa já devidamente no seu lugar, fixou os olhos cinzentos nela.

- Bom-dia, G.W. - disse, sorridente (talvez um pouco menos do que estaria se a tivesse visto antes da festa), mas foi cortado bruscamente.

- Cale a boca! - sibilou ela numa ordem, a cor desaparecendo totalmente de seu rosto. Virou o rosto cautelosamente para as pessoas ali, que haviam se calado pela segunda vez aquele dia por causa dela. Todos miravam-na um tanto boquiabertos; as colheres, copos e torradas à meio cominhos da boca, estacados.

- G.W., foi o que ele disse? - perguntou um deles ao amigo do lado num murmúrio quase inaudível.

Ela voltou seu rosto furioso para Draco.

- Continuem a refeição - rosnou ela em alto e bom som, os dentes cerrados, os olhos fixos no rapaz. - E você - disse ela, a voz pulsando de ódio, brandindo o dedo na cara perplexa dele - Se você me... me importunar de novo, vai realmente se arrepender de ter nascido, está me ouvindo, Draco Malfoy?

Ele parecia inteiramente perplexo com a acusação, mas não soube o que dizer, por isso Gina passou reto por ele e correu para seu quarto, ainda rilhando os dentes de raiva.

Quando chegou, bateu a porta com força e sentou-se na cama, respirando com força.

- Droga! - silvou ela, fechando os punhos e dando um murro no travesseiro.

Depois de um tempo em silêncio, levantou-se, prendeu os cabelos e lavou o rosto. Mais calma, decidiu voltar à sala de planejamentos.

Já, perto da sala, ouvia-se gritos que eram audíveis desde o começo do corredor. Meio curiosa, meio hesitante, apertou o passo. Na frente da porta, girou a maçaneta e olhou para dentro, as sobrancelhas erguidas.

- NÃO é engraçado! - dizia Tom em altos brados. Estavam quase todos na mesa grande, encarando estarrecidos o seu mestre, que parecia por algum motivo muito bravo com eles. Este estava no seu devido lugar na ponta, mas não estava sentado na cadeira de espaldar alto e apoiava as palmas das mãos na madeira plana da mesa. - Se não terminarmos o mais rápido possível, não vamos conseguir o que queremos à tempo e não vamos ser completamente capazes de enfrentar a Ordem da Fênix da próxima vez que os encontrar-mos!

- Mas não é nossa culpa! - retrucou Bellatrix assustada. - Algum doido nos traiu e tivemos que adiar os planos por alguns dias, só isso...!

- "Só isso" é a oportunidade perfeita que temos de fazer ir tudo por água abaixo! - urrou ele, encarando-a com fúria.

- Mas se o senhor e Weasley não tivessem desaparecido... - começou Lúcio Malfoy ríspido, mas parou abruptamente, como se somente agora entendesse a gravidade do que dissera.

A cor desapareceu do rosto de Tom. Gina fechou a porta, cautelosa, atrás de si, preparando-se para a explosão que estava por vir.

- NÃO INTERESSA ONDE EU E GINA ESTIVEMOS! EU NÃO TRAÍ A ORDEM! - gritou ele, dando um porrada na mesa. Como se uma onde se vento varresse a mesa, todas as folhas e penas voaram para cima e os tinteiros tombaram de lado.

- Não foi isso que eu quis dizer - murmurou Lúcio, empalidecendo também.

- Não me interessa o que você teve ou não a intenção de dizer - sibilou Tom no seu tom de voz mais venenoso, e os pelinhos da nuca de Gina se arrepiaram (sem dúvida, pensou ela, os dos outros também). - O que importa é o que você disse.

Lúcio engoliu em seco.

- Se ao menos eu soubesse quem foi o maldito traidor que pôs aqueles filhos da mãe dos aurores dentro do castelo... - sibilou Tom, os dentes cerrados, os olhos escuros e cinzentos em fendas mirando insistentemente o outro, deixando a frase no ar.

- Isso não é o maior problema; o traidor é Tales Haster, do grupo seis - informou ela calmamente. Todos os olhos se viraram para ela.

Tom piscou.

- Sério? E como é que você sabe? - perguntou, com acentuado cinismo que ela não gostou.

- Eu o vi conversando com Dawlish, na noite da festa - respondeu, caminhando calmamente até sua escrivaninha e sendo acompanhada pelos olhares dos colegas.

Tom ergueu as sobrancelhas, incrédulo.

- Você sabia disso esse tempo todo e não me disse nada?

Ela resistiu bravamente ao impulso de responder "você não me perguntou", e respondeu insolentemente:

- Eu me esqueci - disse, encolhendo os ombros, enquanto arrumava os papéis que, meia hora antes, Malfoy lhe havia levado. - Depois de tudo aquilo que aconteceu eu... bem, você não ia esperar que eu fosse me lembrar, ia?

Fez-se silêncio por um momento.

- Ia - respondeu-lhe vagamente. - Eu esperava que coisas importantes assim não acontecessem todos os dias e que seria a primeira coisa que você me diria quando me encontrasse.

Ela ergueu os olhos.

- Por que disse que não era o maior problema? - perguntou ele suavemente, encarando-a com seus olhos, que agora mais pareciam feitos de vapor gelado sob uma parede escura de pedra.

Ela hesitou.

- Porque agora o grupo dois inteiro sabe que a "Lady das Trevas" e G.W. são a mesma pessoa, logo, o castelo inteiro - respondeu, inexpressivamente.

- O quê? - perguntou ele, perplexo, numa voz baixa que só podia significar "perigo".

- Foi... - respondeu ela, procurando desviar os olhos dele.

- O que aconteceu? - perguntou no mesmo tom de voz suave de antes, embora seus olhos faiscassem visivelmente.

- Bem, eu desci para tomar café agora à pouco e... - ela hesitou. Não queria incriminar Malfoy de alguma maneira. Sabia que a fúria de Voldemort era bem maior que a dela e não sentia vontade de ser responsável por mais um ato de crueldade.

Porém, os olhos dela pareciam querer olhar os dele como algum tipo de atração magnética, por mais que ela tentasse desviá-los. Um segundo depois, o castanho dos olhos dela se encontraram com o escuro grafite dos dele, que se fixaram por um momento tenso. Depois, com um espasmo de horror, ela viu os lábios dele proclamarem um inconfundível "Malfoy".

- Malfoy - repetiu ele num sussurro, de repente, e Narcissa e Lúcio encararam-no.

Mas como se raciocinasse do mesmo jeito que ela, Lúcio e Narcissa estiveram ali debaixo dos olhos dele enquanto ela estivera fora, só restara Draco.

"Draco Malfoy", afirmou ele em voz baixa, os olhos ainda mirando-a incansavelmente.

Ele endireitou-se imediatamente. Ao mesmo tempo que procurava contornar a mesa, uma das mãos que estivera em cima da mesa escorregou para o bolso interno das vestes e retirou a varinha, a qual apertava com força. Ele virou-se para a porta.

Como se ao mesmo tempo entendessem o que ele iria fazer, Lúcio, Narcissa, Bellatrix e Gina avançaram, impedindo a porta. Narcissa derrubou a cadeira com estrépito quando correu para alcançá-lo.

- Não - disse Lúcio, com a voz fraca, prostrado em frente à passagem.

- Saia da minha frente - falou Tom em voz baixa, a varinha a apertada na mão direita.

- Por favor, mestre, tenha piedade...! - choramingou Narcissa, espantada.

- Saiam da minha frente! - repetiu ele.

- Tom, não faça isso - pediu, Gina, agarrando a capa dele com força.

- Mestre, dê mais uma chance ao garoto - pediu Bellatrix, receosa, ajudando ao cunhado a tampar a porta.

- Se não saírem da minha frente por bem, vai ser por mau. - Ele cerrara os dentes.

Gina também deu alguns passos e ficou na frente dele.

- Não é preciso, alguém ia descobrir isso de qualquer jeito, Tom... - implorou ela, embora não se negasse que tinha medo de enfrentá-lo. Os olhos dele se cerraram ainda mais, tornando sua face mais ameaçadora do que nunca. - Precisamos de gente; quanto mais, melhor, lembra?

- Não preciso de um Comensal que me trás problemas - disse ele, sem olhá-la, os dentes ainda cerrados.

- É claro que não - concordou Gina -, mas ele é útil! Pelo menos o Ministério não desconfia dele!

- Bellatrix! - ralhou Tom, fingindo não ter ouvido-a.

- Desculpe, mas ele é meu sobrinho, não posso deixar - disse ela com indulgência.

Ele encarou-os de mal-humor por muito tempo; Lúcio tapando a porta com uma perna empurrando o outro lado da batente, Bellatrix com os braços e pernas abertas na frente do cunhado, Narcissa atirada ao chão com as mãos em unidas em súplica e Gina prostrada na sua frente, segurando-o. Depois abriu um pouquinho mais os olhos.

- Bem... muito bem... - resmungou ele, com inconfundível raiva. - ...Tudo bem... dessa vez eu vou deixar passar... Mas dessa vez!

Depois parou de falar por um momento, depois virou-se para Gina.

- Ele não deu em cima de você de novo, deu? - perguntou, com fingida indiferença.

Ela ergueu as sobrancelhas.

- Pensei que esse assunto já estivesse encerrado - disse ela lentamente.

- E eu pensei que você não fosse querer defendê-lo, como acabou de fazer - disse ele, como se não estivesse fazendo mais do que comentando o tempo.

Os outros miravam-nos um pouco surpresos. Ela piscou.

- Não seja ridículo - retrucou ela, olhando-o de cara feia.

- Quero dizer - continuou ele, insistente, como se não tivesse escutado o que ela disse -, talvez você não tenha decidido descer para tomar café agora à pouco de propósito, sabe... talvez pudesse ter outros motivos; para ver o grupo dois, por exemplo...

Gina franziu a testa.

- Seja o que for que você esteja pensando, não passa nem perto do que... - começou ela, mas foi cortada bruscamente.

- E eu pensando que ele é quem estava atrás de você... Mas pelo visto me enganei - comentou maliciosamente.

Ela boquiabriu-se de incredulidade.

- Escuta aqui - disse, um pouquinho mais alto do que pretendia. - Draco Malfoy não é nem metade do que você...!

- Como é que você sabe? - cortou ele, encarando-a com um ciúmes doentio. Parecia completamente indiferente aos olhares do resto do grupo cinco.

Ela levou um tempo para entender do que ele estava falando.

- Ah... Tom, francamente! - ralhou ela, fechando as mãos para retardar o impulso de dar-lhe um tapa. - Você sabe perfeitamente do que estou falando - rosnou para o chão.

Fez-se silêncio por um momento. Bellatrix encarava-os com os olhos um tanto arregalados, o que era meio raro para ela. A reação dos outros não era totalmente diferente; de fato, somente Jack Miller parecia encarar o teto.

Passado um tempo, para surpresa de todos, ele deu um muxoxo e disse:

- Porque estamos discutindo sobre Draco Malfoy quando devíamos estar pensando como entrar em Hogwarts sem ninguém nos ver? - E Gina ficou horrorizada em ver que ele sorria debilmente.

- Retardado - resmungou ela, andando a passos duros até sua escrivaninha e socando o monte de pergaminhos ali. Não acreditava que ele estivesse gozando com a cara dela todo esse tempo.

O resto do período não foi mais divertido, tampouco. Todas as alternativas de passar pela segurança de Hogwarts dada por eles pareciam não satisfazer ao Lord das Trevas e ele sempre achava algum ponto fraco. Acabaram retornando ao silêncio maçante de antes, até a hora do almoço.

Nesse meio período, a tensão se desanuviou um pouco. Durante a refeição, começaram com uma longa discussão sobre bichos-papões que renderam boas gargalhadas, inclusive quando Gina contou que o bicho de seu antigo amigo Neville tomava a forma de seu velho professor de Poções, Snape.

- Snape? - perguntou Tom sem voz, à beira das lagrimas de tento rir. - O velho Severo Snape? Não acredito - disse por fim.

- Acredite - disse Gina, indiferente. - À propósito, qual é o seu?

O sorriso em sua boca embaçou um pouco e ele encarou-a por alguns segundos, como se a avaliasse antes de decidir se deveria ou não responder. Todos abaixaram um pouco a voz, curiosos. Ele tornou a sorrir, por fim, e, levando o seu cálice aos lábios, respondeu brevemente:

- Não é da sua conta.

Ela não disse nada imediatamente, mas depois...

- Bom, eu não devia ter perguntado - respondeu ela, encolhendo os ombros. - Sabemos exatamente o que é, não? - perguntou ela, olhando para todos na mesa ao redor. Ele levantou os olhos e abaixou o cálice; Jack e Narcissa olharam para ela com sorrisinhos misteriosos no rosto.

- Quê? - perguntou ele, olhando dela para os outros dois.

- Bem... - começou Gina, com uma cara pensativa enquanto os outros dois deram risadinhas. - Talvez seu bicho-papão seja barbudo, e... hum... de olhos azuis - (Jack e Narcissa agora tinham alguma dificuldade para segurar o riso e Bellatrix também parecia ter começado a entender) - e... hã... bastante alto e magro... deixe-me ver... e velho, também...

Ele franziu a testa, encarando-os. Gina não conseguia mais manter a cara séria.

- ...Enfim, atende pelo nome de Alvo Dumble... - disse ela, segurando o riso com toda a força de vontade que tinha, mas foi interrompida ao mesmo tempo em que vários na mesa finalmente riam.

- Não termine a frase - sibilou ele, as mãos de dedos compridos amassando violentamente o guardanapo. Realmente ele estava com uma expressão tão brava que ela pediu desculpas.

- Dumbledore foi uma fase - disse ele entre os dentes, como se não ouvisse as desculpas de Gina. - Quero ver um bicho-papão tentar se transformar naquele velho ridículo na minha frente... Vai voltar para o lugar de onde veio molhando as calças!

Gina sorriu.

O resto do dia foi mais proveitoso. Como era hora de desocuparem a sala de planejamentos, cada um se entrincheirou na sua sala e tentou fazer mais alguma coisa. Por volta das três da tarde, Taurus apareceu na sua sala para trazer o que esperava desde a semana passada: o mapa de Hogwarts.

Ela olhou. Reparou que várias das passagens secretas que ela sabia que existiam não estavam ali - inclusive as que davam para fora do castelo -, mas que pelo menos era um grande avanço conseguir o mapa das partes conhecidas (cujas algumas, ela percebeu, nunca visitada durante os sete anos em que estivera lá).

- E o que mais você conseguiu descobrir, Taurus? As janelas são protegidas? - perguntou ela com os olhos no mapa.

- São, sim; tem um feitiço Expurgante em cada uma delas - informou o colega.

- E as portas...?

- Nem sempre, mas as vezes estão trancadas com um Colloportus e amaldiçoadas com... como se chama mesmo?... aquele feitiço que pessoas não autorizadas queimam a mão ao tocar...

- Restritus? - chutou ela.

- É, esse mesmo...

- E o lago...?

- Impossível de se entrar sem ser estrangulado pela lula gigante.

- Bem... E pela floresta... Só se quisermos lutar com uma tropa de centauros, acromântulas, lobisomens, um gigante e sem contar com as outras coisinhas asquerosas que vamos encontrar lá... Ótimo - fungou ela. - E se conseguimos entrar, ainda temos que passar por cima de feitiços protetores e professores, talvez McGonagall e o seboso do Snape, sem contar com o próprio Dumbledore...

- Ah, o Lord das Trevas me mandou avisar que já nos livramos desse, por enquanto - disse o outro, observando uma pena comprida demais na sua mesa.

Ela ergueu as sobrancelhas.

- Como assim?

- Parece que ele bolou algum plano para manter Dumbledore longe da escola quando nós estivermos lá - contou Taurus, maquinalmente.

- ...certo - concordou ela, tornando a olhar para o mapa. - E suponho que a Ordem da Fênix também estará longe o suficiente do nosso objeto quando chegarmos lá...

- Ah, bem... isso eu não sei - disse o outro, parecendo um tantinho preocupado.

- Bem, então informe-o desse infeliz deslize, por favor - pediu ela.

Ele não se moveu, fazendo uma cara estranha.

- Er...

- O que foi? - perguntou Gina, erguendo uma sobrancelha, surpresa.

Ele olhou calado por um momento, depois fez um barulhinho estranho.

- É que... bem, eu iria, mas quando saí ele recebeu alguns dementadores na sua sala e... - Gina indagou-o com um olhar, imaginando se estaria parecendo-se com algum expressão que a professora Minerva costumava fazer, devido à rápida confissão dele. - E-eu não gosto de dementadores - disse rapidamente.

Gina encarou-o, surpresa.

- Credo, Taurus... Que mistério. Quem gosta de dementadores?

Ele deu um sorrisinho nervoso.

- Bem, então fique na sua sala e daqui à alguns minutos você fala com ele, sim?

Ele concordou com a cabeça, fez uma pequena reverência com ela e saiu do aposento imediatamente, deixando-a à sós na sala.

Ela sentou-se e ficou olhando o mapa. Involuntariamente ela riscou as passagens para fora do castelo que ali faltavam e escreveu onde iria dar. Rabiscou também a Sala do Requerimento, quando percebeu sua ausência, e passagem da Câmara Secreta, no banheiro da Murta-Que-Geme.

Como se fizesse luz no seu cérebro, ela começou a arquitetar o plano rapidamente, no pergaminho ao lado. Ela teve certeza de que não haveria nenhum erro e que, se fosse aprovado, iria querer fazer a missão com o grupo apenas para gozar o sucesso de seu feito.


III



Por um segundo, estavam visíveis nas estreitas ruas nevoentas de Hogsmeade e, no outro, todos já haviam desaparecido. Se espremeram num beco, longe dos olhares dos lojistas da silenciosa vila. Tinham que chegar na Dedosdemel sem que ninguém os visse.

A primeira parte do plano correu calmamente. Chegaram à loja vazia, renderam os donos e chegaram ao porão.

Gina empurrou uma grande caixa com a varinha, abaixou-se, procurando ver sob a poeira e achou o que estava procurando. Abriu o alçapão calmamente.

Por cima dos ombros, viu os rostos surpresos dos outros.

- Bem, primeiro as damas - disse Lúcio, com a voz fraca. Gina desceu.

Enquanto descia as escadas íngremes, ouvia os passos dispersos dos Comensais às suas costas. Alguém perguntou como ela sabia da passagem.

- Isso se deve ao fato de eu ser irmã dos gêmeos Weasley - disse calmamente, na liderança do grupo.

Continuaram o caminho em silêncio. Depois de saíram pela estátua da bruxa de um olho só, correram furtivamente pelos corredores, desceram dois lances de escadas sem encontrar ninguém.

Gina notava calmamente a ausência de alunos, graças à idéia completamente geniosa de invadirem a escola nas férias de natal.

Chegaram ao topo da escada que levava ao Saguão de Entrada, mas não tomaram-na. Agora Tom tomara a frente, chefiando-os rumo ao lugar onde iriam.

Olharam para os dois lados, atentos à qualquer ruído. Correram silenciosamente pelo corredor do primeiro andar.

- Cuidado com Madame Nor-r-ra - aconselhou Gina numa voz baixíssima.

- Não se preocupe - disse a voz de Jack na penumbra, o mais novo do grupo depois dela e que, com certeza, conhecia os dotes do animal. - Se ela aparecer, faço aquela gata nojenta se afogar num vaso sanitário com o maior prazer.

Passaram por um arco. Tom parecia saber exatamente onde ia, porque liderava o grupo em direção à sala de Dumbledore. Subiram uma escada, tomaram o caminho da direita... Parecia que fora ontem mesmo que Gina estivera ali.

Passaram em frente à tapeçaria de Barnabás e dos trasgos e Gina instintivamente olhou para a parede paralela. Ela sabia que ali existia a Sala do Requerimento e lembrou-se das aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas que tinha ali. Lembrou-se que dera o nome para o grupo, como a Armada de Dumbledore. Lembrou-se de Harry. Lembrou-se que traíra a todos aqueles que compartiam as aulas com ela e que agora passava ali, como aliada de Voldemort. Ela sentiu uma pontada de culpa.

Eles subiram mais uma leva de escadas até chegarem ao corredor da gárgula de pedra. Eles deslizaram com muita cautela para frente dela.

- Agora - começou Tom em voz baixa, enquanto paravam ao lado da gárgula -, se tudo correu bem, o grupo três já fez confusão suficiente no Ministério para Dumbledore ter ido ajudar. Isso o tira do caminho por alguns minutos.

- Não sabemos a senha - disse Gina, cerrando as sobrancelhas. - Como vamos entrar?

- Não posso fazer muita coisa. Com certeza Dumbledore colocou alguma magia de proteção na entrada que ele sabe que eu não poderia desfazer - disse Tom pesadamente, como se lhe doesse admitir isso.

- Vem vindo alguém aí - sibilou Jack, olhando para o outro lado do corredor.

Tom olhou, depois ao redor. Não haviam outras portas no corredor. Gina poderia se desesperar, mas sabia que isso não faria bem nenhum e, que, certamente um aluno, ou seja lá quem fosse, não teria chance nenhuma contra o Lord das Trevas mais uma dúzia dos melhores Comensais da Morte. Recuaram para as sombras.

Gina viu, prendendo a respiração, um garoto virar o corredor. Viu uma insígnia brilhar no peito dele. Teve uma idéia.

- De que cor é aquela insígnia? - perguntou Gina num sussurro.

- Para que quer saber? - retrucou outra voz igualmente baixa.

- Por que se aquele for um monitor da Grifinória ou Lufa-Lufa, posso conseguir tirar a senha dele.

- Grifinória - respondeu a voz de Tom.

- Posso...? - perguntou baixinho.

Ele esperou um pouco, como se esperando que alguém sugerisse alguma idéia, mas como ninguém mais disse nada, ele respondeu:

- Vá.

Ela tirou a máscara e guardou-a no bolso da capa. Esperou o garoto se aproximar mais alguns passos e saiu das sombras. O garoto parou de andar. Devia ter pouco mais de quinze anos.

- Por favor, eu estou aqui faz alguns minutos, Dumbledore me chamou para tratar de uns assuntos, mas eu não sei a senha. Você é monitor; será que não poderia me dizer? - disse ela docemente.

O rapaz não disse nada por um breve instante, sem olhar nos olhos dela.

- Eu não sei se deveria - disse-lhe por fim, levantando os olhos para Gina. - O prof. Dumbledore disse para não dar a senha para ninguém estranho.

Ela hesitou por um momento, mas depois deu um sorriso.

- Entendo, claro... Pudera, com todos esses bruxos das trevas por aí... - ela pode jurar que algumas pessoas atrás dela se seguraram para não rir. - Mas ele está me esperando, pode acreditar.

O garoto o olhou por um momento, como se a avaliasse.

- Ora, vamos! Você acha que eu tenho cara de Comensal da Morte? - perguntou ela, rindo-se.

- OK, está bem - disse o garoto, meio divertido, e ela deu um grande sorriso. - É "Poção de Mandrágoras".

Ela deu um sorrisinho malvado e se virou.

- Vocês ouviram - disse ela para as sombras, recolocando a máscara.

- Ei, espera aí! - disse o rapaz atrás dela, parecendo meio irritado -, quem é você?

Ela virou-se e viu ele dar um passo para trás.

- Pode me chamar de G.W. - respondeu ela sadicamente. Apontava a varinha para ele.

- É incrível como você consegue as coisas sem levantar a varinha, G. - disse Tom. Pelo seu tom de voz, devia ter achado muito divertido.

- Garoto, nunca te ensinaram que as aparências enganam? - disse a voz suave de Narcissa.

- O que vamos fazer como ele - perguntou Bellatrix, emergindo do seu lado direito.

- Tanto faz - respondeu a voz de Tom ao outro lado. - Contanto que não estrague nossos planos...

O menino engoliu em seco, empalidecendo com rapidez incrível.

- V-você é Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado! - gaguejou o garoto, prendendo os olhos em Tom.

- É mesmo? Meus amigos me chamam de Voldemort - respondeu ele cinicamente, fazendo uma reverência. Gina repreendeu com um sorriso.

- Não assuste o garoto! - disse ela com rispidez, mas segurando o riso.

- C-como conseguiram entrar aqui? - perguntou o garoto assustadíssimo.

- Bem, pela porta. Por onde mais seria? - respondeu Voldemort numa voz monótona. Alguns outros Comensais riram.

Ela sorriu.

- Não seria preciso matá-lo, seria? - perguntou Gina, fitando o rapaz, a varinha ainda apontada diretamente para ele.

- Ele viu seu rosto, G.W. - respondeu o Lord das Trevas sem rodeios.

- Sim, mas podemos apagar a memória dele... - começou ela.

- Um bruxo poderoso pode desfazer um feitiço da memória - respondeu rispidamente.

- Hogwarts tem mil alunos. Quem suspeitaria que um deles viu Comensais da Morte entrarem na sala de Dumbledore? - retrucou-lhe, começando a ficar irritada.

Tom encarou-a.

- Que geniozinho dos infernos você tem, heim, garota?

Todo o grupo cinco riu agora.

- Certo, certo; modifique a memória dele, então. Se alguém descobrir quem é você, além de desvendada você vai se ver comigo, estamos entendidos? - ameaçou ele secamente.

- Certamente, milorde - disse ela, a voz estremecendo de leve. Apontou a varinha para o garoto e proclamou "Obliviate" em voz alta.

- Estupefaça - grunhiu Tom, levantando a varinha, antes que o jovem monitor soubesse o que estava acontecendo.

Eles deram um jeito de empurrar o garoto para as sombras e disseram a senha.

- Espero que esteja satisfeita, Gina - murmurou Tom, enquanto subiam pela escada rolante. - Que perda de tempo, francamente.

Ela não respondeu.

Chegaram em frente à porta de carvalho. Tom não se arriscou; mandou Rodolphus abrir, o que fez com cautela. Mas a porta se abriu sem que nada acontecesse.

- Sabem o que têm que procurar - sussurrou Tom. - Se Dumbledore estiver aí, quero que o ataquem.

Os Comensais concordaram com a cabeça e pegaram suas varinhas. Entraram.

A sala estava vazia, reparou Gina assim que cruzou a soleira da porta. Tudo que estivera ali quando ela estudava em Hogwarts ainda estava lá, como sempre esteve: os curiosos instrumentos de prata em cima da mesa, o poleiro de Fawkes, os retratos dos antigos diretores que cochilavam... De repente ela se lembrou de que os retratos falavam com o diretor. Sobressaltou-se.

Sentiu um movimento à sua direita e virou-se rapidamente. Era Fawkes. A fênix piou baixinho. Todos se viraram.

- Pelo amor de Deus, Fawkes, não faça barulho... - implorou ela em voz baixa e desesperada.

Fawkes piou baixinho de novo. Mirou-a com seus redondos olhos negros. Parecia esta reconhecendo-a; soltou um pio feliz e abriu as grandes asas vermelhas e douradas.

Gina sorriu e passou a mão pela cabeça da fênix.

- Isso, garoto... Eu sabia que a gente ia acabar se entendendo - sussurrou ela, aliviada.

Os Comensais tornaram a se virar, procurando pelo pentagrama. Gina olhou, vendo-os revirar gavetas e papéis, armários, prateleiras, e hesitou, antes de ir para algum lado procurar.

Os retratos começaram a acordar com o barulho.

- Ei, o que...? - começou um deles, arregalando os olhos para os invasores.

- Silêncio! - sibilou Voldemort e, apontando rapidamente a varinha, reduziu o retrato à cacos. Olhou para os outros ameaçadoramente. - Mais uma palavra de qualquer um de vocês...

Os antigos diretores consentiram em silêncio. Gina reparou que alguns deles desapareceram de suas molduras assim que ele deu costas, mas seus instintos a mandaram não dizer nada.

Ela andou até o outro lado da mesa, subiu sorrateiramente a pequena escada. Empurrou a porta do dormitório e entrou, confiante de que estava totalmente sozinha.

Gina nunca tinha visto o quarto de Dumbledore antes. Era de um bom tamanho, havia uma pequena e discreta sacada na parede oposta, uma escrivaninha, uma cama; as paredes eram de uma pedra de tom amarelado e o sol da tarde que entrava pela porta da sacada entreaberta as deixavam mais ainda. Ela reparou que o quarto era muito bem arrumado.

Caminhou por entre ele, pensando um procurar na escrivaninha ou na mesa de cabeceira. Parou, atenta. Tinha certeza de que havia ouvido um barulho. Agarrou a varinha dentro do bolso da capa.

Virou-se subitamente, apontando a varinha fixa e defensivamente. Era realmente quem pensava que era.

- Não ouse, Gina - disse-lhe Dumbledore, que não parecia nem surpreso e nem furioso. Não se moveu nem fez nada diante da varinha que ela lhe apontava. Depois, porém, deu um sorriso. - Imaginei encontrá-la aqui.

- Como sabe que sou eu? - perguntou ela. Mesmo estando do outro lado, não tinha como ter medo dele.

- Harry me contou. - Ele disse com simplicidade, como se estivesse conversando com algum amigo.

Ela meneou com a cabeça.

- Eu deveria ter imaginado - resmungou ela.

Ele ficou em silêncio por um momento, fitando-a. Seus olhos azuis claríssimos percorreram sua face encoberta pela máscara e encontrou seus olhos. A mão que empunhava a varinha estremeceu.

- De onde o senhor surgiu? - perguntou ela em voz baixa. No escritório eram ouvidos barulhos de vidros quebrando, mas ele não parecia se importar.

Ele sorriu, mas não respondeu.

- Veja isso... - disse ele, pegando algo no bolso.

Ela levantou um pouco mais a varinha e ele levantou as mãos um pouco.

- Ah, juro que não vou fazer nada de mais - disse ele, sério. - Vou só pegar alguma coisa do seu interesse. Posso?

Ela hesitou, mas depois concordou com a cabeça. Ele colocou a mão no bolso e tirou de lá alguma coisa. Ela boquiabriu-se por um momento. Ele virou a mão para baixo e deixou cair o que estava segurando, salvo por um cordão metálico e brilhante que prendera entre o polegar e o indicador. Um círculo ofuscante, preenchido por uma estrela de cinco pontas e feita de fino fio dourado - o pentagrama.

"Isso te interessa, não é?", desse-lhe, segurando o pentagrama em frente a ela.

- Sim - respondeu maquinalmente, os olhos fixos na estrela.

- Eu posso lhe dar sem resistir, se você me responder o que eu quero saber - disse ele calmamente, ainda empunhando o pingente firmemente. Ela ainda mantinha o olhar na peça.

"Farei o possível para responder", murmurou ela.

Ele recolheu o pingente com a mão. Ela acordou.

- Você gosta dele? - perguntou Dumbledore, olhando-a nos olhos.

- O quê? - perguntou ela, confusa.

- Você gosta dele? - repetiu. - Gosta de Voldemort?

Ela ergueu as sobrancelhas. Sabia que, assim como não tinha sentido mentir para Tom, não tinha sentido mentir para Dumbledore. Respondeu com sinceridade.

- Sim, eu gosto.

Ele sorriu. Seus olhos brilharam estranhamente.

- Eu te dou o pentagrama, Gina, se você prometer ficar com ele, sempre. Prometa-me que não vai desistir dele - disse com pressa.

Gina estranhou completamente.

- É claro que eu vou ficar com ele! O que quer dizer com isso? - esbravejou num sussurro. Saíram algumas fagulhas da ponta de sua varinha.

- Apenas prometa-me.

Ela olhou por um momento, mas não hesitou.

- Sim, eu prometo.

Dumbledore cumpriu a promessa e passou-lhe o pentagrama. Ela observou a estrela fascinada. Então tornou a olhar para Dumbledore.

- Obrigada, professor.

Ele sorria misteriosamente e Gina abaixou a varinha.

Ela deu alguns passos em direção à porta, mas nesse momento Tom apareceu na sua frente.

- Tudo bem, achei o pentagrama - disse ele, antes que ele perguntasse alguma coisa. Ergueu a mão é mostrou-o.

- Ótimo - disse ele com uma voz radiante de felicidade. - Parece que você acertou em vir dessa vez, Gina - completou em voz baixa, para os outros Comensais não ouvirem, depois de pegar o pentagrama e observá-lo na sua própria mão.

Depois ele virou os olhos para Gina, passou as mãos pelos cabelos dela afetuosamente e deu-lhe um abraço com uma mão.

- Eu sabia que podia confiar em você - sussurrou nos ouvidos dela. Depois falou, mas sério e tomando novamente o jeito autoritário - Vamos.

Ela olhou para trás, depois que Tom já virara-se, mas não havia mais ninguém à vista.

Gina se imaginou se não estaria sendo fácil demais. Tom dera ordens para atacar se encontrassem Dumbledore, e ela não obedecera. Ela prometera que não deixaria Tom por nada nesse mundo... Ela tinha medo.

Seguiu Tom para fora do quarto. Reparou que ele não fizera menção de desconfiar dela e tentar olhar para o fundo do quarto. De certa forma isso era satisfatório e ao mesmo tempo preocupante. Significava que a cada dia ele estava mais confiante nela, mais perto de amá-la, e que o que dizia a profecia se aproximava mais e mais. Ela sentiu um tremor involuntário se espalhar pelo corpo, porque se lembrou das palavras da profecia, como elas soavam terríveis aos seus ouvidos.

Fechou os olhos por um momento, fazendo esquecer o pensamento, e não voltou a lembrar disso até quando chegariam a sair do castelo.

Voldemort informou o ocorrido aos outros Comensais numa voz baixa e rápida. Deu a ordem para que seguissem; Gina passou a mão pela cabeça da fênix antes de sair e deu um última olhada para a sala do diretor.

Sorriu calorosamente para a cena, porque de alguma forma o Prof. Dumbledore confiara nela. Não pôde deixar de se sentir mais calma, porque ambos os bruxos mais poderosos desse mundo acreditavam nela, porque raios ela não sabia explicar, mas que confiavam. Com exceção talvez de Harry, ela tinha todo o apoio do mundo, fosse na Ordem da Fênix, fosse na Ordem das Trevas, porque os seus líderes tinham uma estranha simpatia por ela, mesmo aparentando estar do lado oposto para ambos. Sim, ela tinha certeza de que estava do lado de Tom, mas tampouco desejava fazer mal à alguém do lado de Dumbledore.

Saíram para o corredor e andaram em passos rápidos e silenciosos em direção à saída. Ouviam-se vozes nas salas e ela tinha certeza de que havia muitos jovens ali fazendo alguma coisa naquele momento. Se esgueiraram por um corredor, e na frente de uma porta que pareceu a Gina extremamente familiar. Ao fim dele, havia um único archote, onde, muito vagamente, ela se lembrou de Madame No-r-ra dependurada pelo rabo. Involuntariamente ela se virou para Tom, e não se surpreendeu de ver que ele sorria por baixo do capuz.

- O basilisco está definitivamente morto, então? - perguntou ele, sem olhá-la, mas obviamente tendo consciência do olhar dela.

- Sim, ele está - disse-lhe, lembrando-se do seu primeiro ano, relacionando rapidamente a vaga lembrança com o corredor onde estava: era o corredor do banheiro da Murta-Que-Geme, a entrada da Câmara Secreta.

"Oh, acabo de me lembrar...", disse ela sorrindo, com a voz baixa. "Não sei se você fez muito bem matando a Murta, Tom. Ela se tornou um empecilho para as garotas com dor de barriga".

Ele deu uma risada baixa.

- Aquela menina idiota? Ninguém mandou ela estar no banheiro na hora em que eu chamei o basilisco - disse ele, muito indiferente, mas parecendo estar achando alguma graça naquilo.

- Oh, isso é tão... horrível! - desaprovou ela, mas ainda sentindo vontade de rir.

- Obrigado, eu sei que foi - disse ele, como se tivesse feito algo muito especial. Ela sentiu vontade de rir da expressão dele, mas um jato de luz vermelha passou raspando por cima da seu ombro direito e ela estacou, empalidecendo.

Todos se viraram muito rapidamente, as varinhas em punho, procurando ver o autor do disparo. Era visível apenas uma pessoa no fim do corredor: um garoto louro com o uniforme de Hogwarts que empunhava a varinha. Se ele estava se sentindo corajoso a segundos atrás, certamente que não estava mais. Este tinha os olhos arregalados e a boca meio entreaberta, como se duvidasse da própria ousadia, lançando olhares meio abobados para eles e em seguida para a própria varinha. Depois de um curto espaço de tempo, pode ser que ele tenha se dado conta em quem tentara atirar, soltou um gemido agudo e correu para a curva do corredor, ao mesmo tempo que os outros Comensais se recuperavam do choque e lançavam disparos verdes para a mesma direção.

- POR QUE NÃO VOLTA AQUI E LUTA COMO UM HOMEM, SEU PIRRALHO MALUCO?! - berrou Tom, cerrando os punhos e sus olhos escuros virando fendas, tomando um alucinado brilho avermelhado que ela só via quando sabia que ele estava muito furioso. As vozes nas salas de aula cessaram muito de repente com o berro dele.

- Que quer dizer com isso? - perguntou outra voz alta, vinda do outro lado do corredor.


IV



- Que eu saiba vocês não lutam como homens, mas sim como porcos...

Gina se virou lentamente, imaginando se não estava ouvindo coisas. Ela reconhecia a voz, reconhecia a irritação e a fúria dolorida que continha aquela voz. Ela reconhecia a voz de seu antigo noivo como se tivesse conversado com ele ainda no dia anterior.

Por um segundo ela pôde jurar que os olhos espantosamente verdes dele tivesse se encontrado com os dela, mas quando tentou olhar com mais atenção, ele fixava os olhos furiosos em Voldemort, ao seu lado. Atrás dele estava um grupo de bom tamanho composto de aurores e integrantes da Ordem da Fênix, entre eles, sua família toda.

- Não nos confunda com seu bando, Potter - rebateu Voldemort, ocultando a surpresa numa voz calma e irônica.

Harry deu uma risada forçada.

- Um bando de arruaceiros de segunda não poderia nos manter longe daqui por muito tempo.

"Ataquem!", ordenou Harry, fazendo sinal para passarem à frente dele.

Gina se assustou com o tanto de gente que pulou para frente quando ele disse aquela palavra. De repente, ela estava em meio à uma chuva de feitiços e maldições. Agindo por instinto, ela agarrou a varinha e azarou um auror mais à frente, em meio aos outros Comensais do grupo cinco.

- Vocês estão em nosso território agora - gritou a voz de Harry do meio dos bruxos.

- Vocês sabem o que tem que fazer - ofegou Voldemort para os Comensais, depois de lançar um Avada Kedavra. - Não os percam de visão, mas se tiverem uma oportunidade, quero que corram para o corredor de Feitiços. Lúcio...?

O bruxo confirmou com a cabeça, enquanto disparava uma maldição da morte contra os outros.

Um jato roxo passou por entre ele e Gina e os dos se esquivaram. Pela primeira vez depois que saíram da sala de Dumbledore ele a olhava nos olhos. O olhar dele quase que perguntava se ela conseguiria. Ela confirmou com a cabeça. Ele tornou a olhar para o exército inimigo.

- Por que não trouxemos dementadores...? - perguntou-se ele, aborrecido, enquanto lançava outro feitiço.

Foram indo para trás, recuando lentamente, atirando feitiços e maldições convulsivamente, até chegarem ao fim do corredor. Aconteceu rapidamente, na hora exata em que ele disse "agora" e os Comensais se dividiram em dois grupos, tendo um tomado a direita e outro a esquerda. Ele tomara a liderança de um e Lúcio Malfoy de outro. Ela agora estava separada dele e tinha medo, enquanto corria sem olhar para trás. Ela tinha medo de perdê-lo de vista, mas continuou correndo, sabendo que sua vida dependia disso.

Pelo que ela conseguia ouvir, a maioria dos aurores seguira o outro grupo, sendo que escutava apenas alguns passos seguindo-os. Virou o corredor derrapando, sabendo que estava na frente, e arriscou um olhar para além da gárgula de pedra na curva. Com uma reviravolta desconfortável no estômago, viu sua mãe, seu pai e todos os seus irmãos correndo atrás deles. Parecia que nenhum outro tinha seguido-os, apenas eles. Rony corria na frente, a varinha segura na mão direita.

Ela correu inconsciente de onde seus pés a levavam, mas sabia que estavam direcionando para o corredor de Feitiços, porque à um lugar no andar de cima ouvia muitos gritos.

Uma porta se abriu e o corredor repentinamente foi invadido por alunos que estavam na escola saindo da sala, curiosos - e, sendo férias, até que eram bastantes. Ela arregalou os olhos: na velocidade em que estava, seria difícil para sem jogar um longe e sem os membros da Ordem pegá-la.

- Saiam da frente! - gritou ela no meio do lugar, os alunos intrigados com o movimento estranho no fim do corredor.

Inesperadamente, uma garotinha gritou com uma voz aguda:

- MAS ELES SÃO COMENSAIS DA MORTE!

De repente, como se percebessem que o grupo à frente usava máscaras negras, eles se desesperaram e começaram a correr por todos os lados.

- POR MERLIN, SAIAM DA FRENTE SE NÃO QUISEREM MORRER! - gritou ela mais alto ainda, e alguns alunos correram para dentro das salas novamente.

Ela abriu caminho por entre os alunos, sem olhar para trás, fixando o fim do corredor e sua escada logo em frente, para o departamento de feitiços. "Estou chegando, Tom", pensou ela, enquanto ofegava de correr, sentindo uma pontada no ventre, tentando por tudo não desesperar-se. "Estou chegando, meu amor... Estou quase chegando".

Foi quando ela caiu, tropeçou na barra da veste. A única coisa que viu foi seu pai parando na frente dela, levantando a varinha para rogar-lhe uma maldição, sem saber que era a própria filha ali, caída...

- Não, pai...! - gritou ela, esticando os braços na frente do corpo e do rosto, protegendo-se de um possível ataque, os olhos apertados.

- G.W.! - ela discerniu a voz de Bellatrix Lestrange no meio da barulheira. - NÃO! EXPELLIARMUS!

Mas a voz de Bella não foi a única que disse o feitiço. Ela pôde ouvir também a voz de Jack Miller e Athena Evrard. Seu pai disparou para trás, a varinha tendo voado uns cinco metros, mas depois caindo no meio do tumulto de estudantes.

- Vamos! - Bellatrix pegou sua mão para fazê-la levantar-se.

Elas recomeçou a correr, Gina e Bellatrix lado à lado.

- Não matei seu pai - ofegou Bella, olhando a frente. - Me deve essa.

- Sou muito grata, Bella...! Muito grata mesmo - disse lhe, também arfando enquanto corria.

Não disseram mais nada até subirem as escadas. Ali, logo na virada do corredor, uma grande batalha acontecia. Ela podia escutar os gritos das pessoas. Gritos de dor, gritos que proclamavam as maldições em voz alta, que azaravam.

Ela, embora não gostasse de lutar, sentia uma pequena chama nascer dentro dela, como uma esperança. Essa chama aqueceu seu corpo, disse-lhe que tinha que fazer isso. Ela concordou, apertou a varinha nas mãos e virou. E nunca iria esquecer o que estava vendo no momento: parecia que todos tinham um desejo súbito e assassino naquele momento. Indiferente de ser auror os Comensal da Morte, todos pareciam ter um único pensamento fixo na mente: matar. Todos estavam concentrados, atacando, machucando... Ela procurou por Tom no meio da bagunça. Não encontrou. Começou a desesperar-se.

Alguém segurou seu ombro. Ela virou-se e viu, ao mesmo tempo, um par de olhos escuros, furiosos e frios. Aqueles olhos que ela fitava toda noite pareciam mais negros, mais assassinos que nunca. Era tanto seu desejo de matar que ela pôde sentir irradiando de sua pele. O contato visual foi por apenas alguns milésimos de segundos, porque ele passou reto por ela como se não a visse.

Mas quando fez isso, ela pôde sentir, deixou escorregar o cordão entre suas mãos.

- Guarde - disse prontamente, numa voz alta o suficiente apenas para ela ouvir. Ela obedeceu sem hesitar, colocando o pentagrama do bolso de dentro do sobretudo.

Ele tinha a varinha em punho e olhava atentamente para todos os lados. Gina, involuntariamente, fazia o mesmo.

- Não saia do castelo até minha ordem - disse ele novamente, depois se afastou rapidamente. Se separaram novamente.

Gina seguiu com cautela. Mais à frente, Gina via uma nuvem de poeira e luzes que eram uma luta escarniçada de Comensais e aurores. Às suas costas, ela podia escutar as vozes do pai e dos irmãos. Ela sabia que não havia como eles a reconhecerem e, mesmo sem saber se eles a atacariam ou não, entrou no fogo cruzado.

Num instante, que pareceu a Gina conter uma eternidade, a luta estava equilibrada entre os dois grupos; no outro, porém, os Comensais se sobrepuseram e no próximo, os aurores já estavam no chão, grande parte estuporada, alguns inconscientes e outros mortos e estendidos no chão. Os feitiços cessaram.

Apenas o som de duas pessoas ainda era audível: Harry e Voldemort, que ainda duelavam. Mas logo os gritos dos feitiços que os dois lançavam pararam, no instante em que, num gesto rápido, Tom ferira Harry gravemente na perna. Este caiu, sangrando muito e, no instante seguinte, com um alto estampido, fora atirado longe, perto do pequeno grupo de cabelos ruivos da Ordem da Fênix. Caiu no chão de pedra rolando, com um baque que dava náuseas. Alguns Comensais riram, mas o próprio Tom não parecia estar achando tanta graça, porque nem zombou de Harry e, talvez, porque seu nariz estivesse sangrando.

Rapidamente, Gina pôde discernir sua mãe levantando a varinha e, com um único tiro, derrubar estuporado um Comensal à sua esquerda. Errou-a por pouco. Os dentes dela bateram por um momento.

Mesmo que os Comensais fossem muitos, ela pôde ver que não se deveria mesmo subestimar sua família: como se agindo em formação, eles dispararam entre os Comensais, que, pegos de surpresa, não agiram à tempo. Logo os dois grupos se separaram novamente, todos os Weasley - tirando ela - já estavam próximos a Harry, que sentara-se com dificuldade. Tinham um deles como refém.

Gui, Rony e Carlinhos, com sorrisos que expressavam vitória, apontavam as varinhas para um homem que mantinha as mãos levantadas, o rosto encoberto, mas inconfundivelmente que era Halley.

Gina respirou profundamente. Viu Tom irromper ao seu lado, onde instantes atrás, estava o Comensal que sua mãe estuporara. Ele apontava a varinha para um deles, Gina não pôde dizer qual, e que, com surpresa, Gina pôde identificar um sorriso demente.

"Há tempos que eu queria fazer isso" disse simplesmente com muita calma e, um segundo depois, disse "Avada Kedavra" no mesmo tom de voz, onde, em meio ao momentâneo silêncio de incredulidade, acertara Halley violentamente com um jato verde no rosto.

- Você errou - disse Gina, surpresa, sem pode se conter.

- Ah, não necessariamente - respondeu ele à pergunta que ela pensou que ele não tinha ouvido. Ela olhou para ele brevemente, horrorizada, mas quase instantaneamente voltou a olhar para frente.

De todos do outro lado, apenas Harry parecia não estar surpreso; de fato, parecia quase calmo, não fosse o fato de que seu rosto estava torcido pela dor que sentia na perna.

- Esqueçam reféns! Está com a Comensal do meio! Recuperem o pentagrama! - gritou ele do chão, parecendo acordar os outros do horror que estavam sentindo.

Gina deu um passo para trás, com receio.

- Accio! - gritaram Fred, Jorge, Gui, seu pai e sua mãe ao mesmo tempo, apontando para ela. Gina empalideceu.

Ela tentou reagir, pulou à frente tentando segurar a correntinha que escapava de seu bolso, mas foi tarde demais: a corrente prateada com o pingente estrelado já voava em direção a eles.

- Não! - gritou ela, correndo à frente, mas alguém segurou sua capa para impedi-la, quem ela teve certeza de que era Tom, mesmo sem olhar.

"Rony!", gritou Harry prontamente, e este pulou à frente, pegou a pentagrama de ouro e apontou a própria varinha para ela.

- Se reagirem, Rony destrói o pentagrama - ameaçou Harry com altivez, um brilho faminto nos olhos.

Não dando nem tempo de se sentir culpada, Gina sentiu alguém segurá-la por trás, um braço que a prendia firmemente pela cintura e outro que apontava a varinha diretamente para sua têmpora.

- O que...? - começou ela assustada, mas foi cortada rispidamente.

- Você queria sua vingança? Você terá sua vingança - disse-lhe a voz que ela reconheceu sendo a de Tom apressada ao seu ouvido. - Não é sério. Faça tudo que eu mandar e quando eu disser "Finite" você finge estar saindo de uma Maldição Imperius. Acha que entendeu o que tem que fazer?

Ela sorriu. Iria ser divertido encenar aquilo.

- Deixa comigo - sussurrou ela confiante.

Prestou atenção nas pessoas à sua frente. Todas, à exceção de Harry, que ao contrário dos outros parecia indiferente, estavam estranhando o ato suspeito. Rony, porém, parecia ter compreendido, porque arregalou os olhos com incredulidade.

- Espera um pouco... Não ataquem! - gritou ele, de repente, levantando um braço para impedir um possível ataque de sua família. - Solte ela, Voldemort! Ela não tem nada a ver com isso!

Gina sorriu.

- Ela não tem nada a ver com isso, Weasley? Ela planejou isso. E não preciso mais dela, não é? O plano falhou.

- O que está acontecendo? - perguntou Percy com brandura, atrás de Rony. - O que tem o Comensal?

- O que foi, Rony? - perguntou sua mãe, que, como os outros, ainda apontava a varinha para eles.

- Não - atirem! - repetiu Rony, sublinhando as palavras.

- Não liguem para isso! Ataquem! - disse Harry bem alto, de repente, depois de um tempo sem falar nada. Seus olhos faiscavam em direção à ela. Parecia totalmente indiferente à dor dilacerante que devia estar sentindo na sua cicatriz.

Tom riu baixinho ao seu lado.

- Vocês podem atacar, mas... Por que você não tira essa máscara e deixa eles verem seu rosto, Gina Weasley?

Ela viu todos se entreolharem brevemente, as sobrancelhas erguidas. Rony mantinha os olhos fixos nela; Harry, em Tom.

Gina obedeceu, não sentindo nada além de cruel satisfação. Puxou a máscara para cima do rosto e o capuz caiu, descobrindo os cabelos flamejantes e acobreados. O ar fresco bateu na sua face e ela sorriu de um jeito estranhamente diabólico.

Sua mãe levantou a mão à boca; Gui, Carlinhos, Fred e Jorge boquiabriram-se, parecendo bem pálidos; Percy e seu pai abaixaram ligeiramente suas varinhas num momento confuso de surpresa.

O que seguiu-se foi um silêncio tenso de incredulidade.

- Oh, meu Deus! Gina! - gritou sua mãe de repente, os olhos arregalados e os lábios tremendo.

- Mamãe - disse ela, ainda sorrindo calmamente.

- O que fizeram com você, minha filha? - perguntou Molly Weasley incrédula demais para parar de tremer.

- Ora... Depende do que a senhora quer ouvir - retrucou ela ironicamente, e sentiu o dono do corpo que a segurava firmemente e lhe ameaçava com a varinha não conseguir se esforçar para não rir. Alguns outros Comensais deram risadinhas abafadas.

Ela sentia-se extremamente aconchegada e protegida nos braços dele, e sentiu-se de alguma forma feliz por ninguém ali saber o que ela estava sentindo.

- Suponho que vocês não estejam entendendo nada - disse-lhe para eles o temido assassino que a fazia de refém com desdém. - À não ser que Potter queira fazer esse grande favor, permita-me explicar a vocês - falou ele calmamente, uma profunda nota de triunfo emaranhada nas palavras, e esperou. Como ninguém disse ou fez nada, ele prosseguiu: - Há dois anos e meio atrás, aproximadamente...

- Há exatamente dois anos, quatro meses e seis dias...

- ...uma moça ruiva e encantadora me apareceu, pedindo um lugar para ficar, querendo provar sua capacidade, em troca de trabalhinhos sujos para mim...

- Não tão sujos...

- Não tanto quanto poderiam ser...

- Deixo os outros sujarem as mãos por mim - disse ela, revirando os olhos, numa expressão de pouco caso.

- Exatamente... Assim como faria um legítimo Comensal da Morte de primeira. E manda em muito gente lá dentro...

- Em grande parte...

- Em mais da metade. Nela, só quem manda sou eu...

- E olha lá...

- Ela realmente causaria um estrago, se quisesse...

- A chacina do Ministério não foi nada...

- ...ela poderia causar mais caos do que imaginam...

- Muito mais do que vocês acham que G.W. é capaz...

- ...essa criaturinha doce que vocês estão vendo poderia causar mais pânico do que suas mentes são capazes...

- O atentado ao Ministro da Magia foi mais fácil de comandar do que fazer com que todos os Weasley se reunissem quietos na sala em uma reunião de família...

Esse último comentário de Gina fez alguns Comensais rirem.

- Eu não posso acreditar. Que tipo de piada é essa? - perguntou Gui perplexo, meio irritado. Ele não abaixara a varinha e, embora continuasse a apontar para Gina, parecia meio hesitante.

- Não é piada, meu irmão. Sua irmã é uma foragida da lei, louca, perigosa e procurada - disse ela com simplicidade, arrancando novas risadas dos Comensais.

- Gina! Eu quase morri no Ministério naquele dia! Então foi você...! - urrou seu pai, perplexo.

Surpreso?, pensou ela. Ergueu as sobrancelhas, autoritariamente, mas não respondeu. Ainda tinha certo respeito pelo seu pai.

Harry cerrou as sobrancelhas, embora Gina não o visse, porque tinha os olhos vazios e fixos em seu pai, que cerrara os punhos de desgosto.

- Comensais, saiam daqui! Nos encontramos em B.Hall em meia hora - ordenou Voldemort claramente, em tom autoritário, mas calmo.

Gina ouviu a movimentação atras deles. Ninguém falou nada até que o ruído dos passos cessassem ao longo da curva do corredor.

Harry deu uma risada nervosa que ecoou sinistramente alta pelo amplo corredor de pedra.

- Por Merlin, ataquem! Ela é uma Comensal da Morte, acabou de confessar. ATAQUEM! - berrou ele, furioso, do chão onde estava.

Voldemort fez um barulhinho de desdém ao lado dela.

- Ora, não estou impedindo... Mas vocês não vão querer acabar com a festa agora, vão? Ela vai ficar muito mais interessante... Finite Incantatem.

Uma luzinha azulada pairou sobre sua cabeça, mas como ela não estava sob efeito de feitiço nenhum, nada aconteceu. Ela, porém, não deixou isso transparecer; seus olhos saíram de foco e suas sobrancelhas se ergueram. Por um momento pareceu uma pessoa que não sabia quem era, onde estava ou o que estava fazendo.

Ela olhou para a família piscando sem entender e depois, sentindo que a seguravam, olhou de relance para a sua direita e soltou um barulhinho esganiçado.

- Ah, por favor... Por favor, de novo não... - choramingou ela, com uma voz desesperada. Se divertia bastante por dentro.

- Então, Gina, porque não conta a eles exatamente o que aconteceu? - disse Tom em voz alta, num tom muito calmo.

Ela percebeu a perplexidade dos pais e dos irmãos. Conseguiu que seus olhos se enchessem de lágrimas para dar mais realidade ao que estava acontecendo.

- Eu... eu não queria, juro - suplicou ela desesperadamente, soluçando. - Ele me obrigou a fazer isso... Eu não queria...!

Ele encostou a varinha lenta e ameaçadoramente na sua têmpora. Ela soluçou e encolheu-se.

- Pelo amor de Deus, mamãe, não deixa ele me prender de novo...! - chorou ela, uma grande lágrima de mentira escorrendo de seu olho esquerdo. - Não deixa ele me bater de novo, por favor... - implorou Gina.

Ela fechou os olhos com força. Antes disso só teve uma visão de todos olhando-a com um misto de culpa, piedade e incredulidade. Parecia que ela estava convencendo-os, mas ainda era pouco.

Ela engoliu em seco e continuou.

- Eu... eu fui até ele sim, mas... mas então eu me arrependi, eu... Eu estava muito nervosa, eu não sabia o que estava fazendo... - ela soluçava tanto agora que mal conseguia falar. - Então eu queria fugir, mas ele não deixou, mamãe, eu juro...! Ele me enfeitiçou, eu não consegui fazer nada...! Por favor, acreditem em mim!

Ela tentava olhar para os familiares, os olhos cheios d'água. Viu que eles ainda estavam assustados com a falsa invenção, mas inacreditavelmente pareciam estar acreditando. Ela percebeu que era muito mais fácil para eles acreditar que a filha fora enfeitiçada por Lord Voldemort do que acreditar que ela era uma Comensal da Morte porque queria.

- Eu quero o pentagrama e quero agora, então... por que você não me dá ele, Rony Weasley, e poupa a miserável vida de sua irmã? - negociou Tom, falando em voz alta e clara, ao lado da orelha dela, um quê de ansiedade. Ela podia sentir o calor que irradiava dele.

Abriu os olhos devagar, uma expressão penalizada.

- Não dêem! Não façam isso...! - mas a varinha pressionou-se mais forte no lado de sua cabeça, dando a impressão de que estava sendo seriamente ameaçada. Engoliu em seco e continuou seu apelo: - Eu... eu não sou importante... Eu não sou mais importante que o pentagrama. Não obedeçam!

- Esse é o tipo de pedido que vai fazer eu ganhar o pentagrama, Gina - sussurrou Tom ao ouvido dela.

Gina continuou como estava, mas discretamente pisou em seu pé, em sinal de censura. Ele entendeu o recado.

- Quero que abaixem as varinhas agora - falou Tom lentamente - se não quiserem que ela morra...

- Não façam isso! Não obedeçam! - guinchou ela miseravelmente, em vão. Os familiares obedeceram, em meio aos protestos dela e de Harry.

Lembrando-se de Harry, Gina arriscou um rápido olhar a ele. Parecia uma pessoa que queria intimamente acreditar no que estava vendo, mas que resistia fortemente a isso. Ele franzia a testa e murmurava para si mesmo "Não é verdade, não é verdade..." Gina sentiu uma pontada de culpa e de pena.

- Agora - continuou a voz desdenhosa de Tom - Me dêem o pentagrama e deixem-me ir, e ela não sofre um arranhão.

Gina arregalou os olhos molhados de lágrimas. O braço que a prendia ao redor de sua cintura se enroscou mais para cima, ao redor do seu pescoço. Ele pressentiu seu medo. Parou, apertando apenas o suficiente para impedi-la de fugir. No fundo ela também sentia que ele a acolhia em seus braços.

Ela olhou para Rony. Este olhou para os pais e os irmãos, indeciso. Para espanto dela, Percy foi o primeiro a concordar com a cabeça, depois Fred e Jorge, Gui, Carlinhos, seu pai e, por fim, sua mãe, que parecia meio relutante.

- Não façam isso! - gritou ela desesperadamente, sentindo uma grande vontade de rir. Segurou-se, parecendo mais desesperada que nunca.

- NÃO! - gritou Harry. Gina olhou para ele; percebeu, com espanto, que seus olhos se enchiam de lágrimas. - DEIXEM QUE ESSA VADIA MORRA! NÃO É VERDADE! NÃO ACREDITEM NELES! NÃO ACREDITEM NELES!

Gina olhou com espanto e, cinicamente, choramingou, tremendo.

- Harry... Não, Harry, não foi minha culpa... Foi... - Ela mordeu o lábio inferior, uma vozinha fraca dizendo essas palavras.

Rony gemeu. Concordou com a cabeça e atirou o pentagrama para Tom, que apanhou-o com a mesma mão da varinha. Voltou rapidamente a apontá-la contra Gina.

- Que bom que entenderam o recado - disse, triunfante, abraçando Gina com o braço esquerdo com mais força. - Foi bom negociar com vocês - acrescentou ironicamente.

E foram se afastando para trás, devagar. Gina escutava a respiração rápida de Tom, acalmando-se. Estava terminando, finalmente... Ela estava feliz, muito feliz, com a cara de espanto de seus familiares. Estavam tendo o que mereciam, por repreendê-la. Estavam sofrendo.

Ela sentiu que chagavam ao fim do corredor. Podia ver, com o canto dos olhos, o corredor perpendicular àquele. Tom começou a sussurrar instruções rapidamente.

- Mais cinco passos, nós paramos e corremos para a direita. Temos que sair do castelo o mais rápido possível. E fique perto de mim.

Ela concordou com a cabeça, os olhos marejados fixos em sua família. Despediu-se em silêncio, depois deu uma risada alta, sem nenhum sinal de quem estivera chorando, que ecoou no corredor perversamente.

- Ela não é uma ótima atriz? - perguntou Voldemort em voz alta, mal se contendo de excitação.

- Me admira vocês, que sempre me ensinaram a não confiar em ninguém suspeito, tenham cometido esse erro. Como puderam confiar em mim, quando Harry dizia que não deveriam? Por que acham que eu seria de confiança, sem dar sinal de vida por quase dois anos e meio? Por que seguiram seus corações quando deveriam usar a cabeça? - perguntou ela friamente, um sorriso demente no rosto. - Porque acham que G.W. não é fiel ao seu mestre? Como puderam acreditar por um momento que eu estava sendo dominada pela Maldição Imperius? Seus tolos!

Tom riu. Ela observou os rostos à sua frente ficarem brancos de horror, incrédulos, certamente sofrendo da maior angústia de toda a vida.

Eles deram o último passo. Correram sem aviso para o lado, rindo-se de se acabar. Ela se sentia tão feliz como não se sentia a muito tempo. Atravessaram o Departamento de Transfiguração correndo. Ela não perdia Tom de vista, embora escutasse os passos atrasados dos irmãos atrás de si. Desceram duas levas de escadas pulando três degraus por vez. Não podiam parar, não tinham tempo de olhar para trás. Chegaram ao Saguão de Entrada. Ela não sabia a quanto tempo ficaria sem ver esse lugar de novo, mas não se importava mais; nada mais era importante. Voaram pela porta, viram o entardecer por entre as copas das árvores da Floresta Proibida. Correram em direção ao portão, não sentindo o tempo correr. Chegaram.

Ela pulou à frente, os jatos quentes zunindo ao seu ouvido, mas virou-se e viu-se de frente para ele. Seu desejo incontrolável de beijá-lo foi cessado. Um instante depois, então, ele transportava-os para longe.



Dumbledore observava pela janela e viu, com indiferença, quando Voldemort e Gina desaparataram. Piscou, pensativo. Teria feito a coisa certa de se fazer?

- Não importa que você tenha o pentagrama, Tom, porque você confia em Gina, e ela é a sua destruição - disse baixinho para si mesmo, observando o jardim iluminado pela luz avermelhada do sol, as árvores balançando os vento. Os Weasley voltavam para o castelo. Ele virou-se.

Os retratos dos antigos diretores o observavam.

- O que foi que você fez, Dumbledore? - perguntou Dippet, espantado, com um tom de voz que fez ele perceber que não havia escutado o que havia dito à pouco.

- O que tinha de ser feito - respondeu calmamente. - O que tinha de ser feito...


Nota: Special thanks para Sandie, miga ^^, para Moody e Lua, pelos comentários, e para Nani Potter, que se voluntariou para fazer a capa da fic. Bjusss!!!

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