Capítulo 6
A Senhora do Castelo
Quando Harry finalmente adormeceu naquela noite, uma parte significativa dele ficou esperando que, no dia seguinte, fosse acordado pela voz aguda de tia Petúnia e que tudo se revelasse um sonho. A sacudidela suave o fez imaginar, por um instante, sua mãe tentando poupá-lo dos berros da tia. Porém, quando abriu os olhos, foi o rosto enrugado e sorridente de Dumbledore que ele teve de colocar em foco.
– Tenho um presente para você – anunciou o alquimista.
Isso foi o bastante para Harry ficar imediatamente desperto. Dumbledore estava ali, não fora um sonho. E presente? A palavra era tão rara que por si só já parecia mágica.
O garoto praticamente pulou do colchão de penas e lã em que fora acomodado na noite anterior e se espreguiçou. Nunca tinha dormido com tanto conforto em sua vida e, na verdade, em pé, seu corpo reclamou um pouco da cama fofa demais.
–Venha – chamou Dumbledore com entusiasmo, enquanto caminhava à frente dele.
O sol mal havia aparecido, mas Harry notou que nenhum dos colchões que foram espalhados pela casa estava ocupado. De fato, a não ser o que ele tinha usado junto com sua mãe (que também não estava ali), todos tinham sumido. Harry não tinha visto, nem soube, como Dumbledore dormira.
Esfregando os olhos para acordar melhor, ele acompanhou o bruxo que, por sobre o ombro, respondeu sua pergunta muda.
– Ah, claro, todos já levantaram. Há muito que fazer antes de partirem. Venha! Eu quero ver se ficou bom. Sua mãe me confirmou que você tem o mesmo problema do seu pai, então eu copiei dos que eu vinha aperfeiçoando para ele. Mas não sei... Bem – ele parou diante de uma das mesas pequenas que tinha por toda a casa, abarrotadas de pergaminhos e instrumentos – é melhor que você o experimente.
O alquimista estendeu a Harry uma armação de ferro fino com dois pedaços redondos de vidro. A não ser pelo formato dos vidros, o objeto era muito parecido com o que o próprio Dumbledore usava diante dos olhos.
– Para o que é?
– É uma pequena invenção minha. Infelizmente não temos bons feitiços para melhorar algumas falhas físicas – lamentou. – Eu venho testando, há algum tempo, várias espessuras de vidros e acabei chegando neste pequeno aparelho. Ele serve para ajudar homens que, como nós, vêem melhor com a alma do que com os olhos. – Ele lhe piscou o olho e ajudou Harry a colocar a pequena armação de ferro no rosto. – Ainda estou em busca de um bom nome para eles. O que acha?
Assim que a visão do garoto atravessou os pedaços de vidro, uma espécie de vertigem o entonteceu e ele não teve certeza de que aquilo poderia ajudá-lo em qualquer coisa. Os objetos ficaram maiores e se aproximaram. Harry piscou sentindo seus olhos lacrimejarem como se estivessem sendo puxados para fora.
– É estranho – falou sinceramente, mas logo a seguir teve receio de que Dumbledore achasse que ele não tinha gostado do presente.
– Com certeza – adiantou-se o alquimista antes que ele se desculpasse. – Você precisará de um tempo para se ajustar a eles. De início, aconselho-o a não usá-los de contínuo. O melhor é que vá se acostumando. Quando nos encontrarmos novamente, poderemos ajustá-lo, se for necessário.
A porta da frente abriu e James entrou recortado pela luz da manhã. Harry ficou contente em reconhecer tão rápido a silhueta do pai.
– Que bom que já está em pé, filho. Logo estaremos prontos para partir.
– Como ficaram? – perguntou Dumbledore a James, e Harry notou que o pai usava uma armação igual a sua diante dos olhos.
– Muito bem. Os ajustes ficaram ótimos. Espero que melhorem a minha mira e sirvam para calar a boca do Sirius.
– Não me peça milagres, James – retrucou Dumbledore com bom humor. – Posso melhorar sua visão e com isso a sua mira, mas calar a boca do Sirius é um poder além das minhas capacidades.
James deu uma gargalhada e Harry notou que ele parecia mais solto, mais a vontade.
– E você, filho, o que acha? Aprova a invenção de Dumbledore?
Ser chamado de filho duas vezes só serviu para melhorar ainda mais o humor de Harry. Ele puxou a armação do rosto, piscou e olhou sem os vidros diante dos olhos. A sala lhe pareceu menos nítida, menos colorida. Ele colocou o aparelho no rosto novamente e a tontura foi menor, porém, a cor, a forma e as linhas que dividiam os objetos voltaram a ficar muito firmes diante dele. Harry repetiu o teste e disse, por fim:
– Acho que vou me adaptar rápido. Talvez possa até usar o arco decentemente. Obrigado – disse para Dumbledore.
– Não há de quê, meu rapaz.
– Você me ameaçou com um arco sem saber usá-lo com precisão? – a pergunta de James envergonhou Harry, mas ele não demorou a perceber que o pai o olhava com um orgulho tão evidente que fez seu rosto esquentar.
Foi a vez de Dumbledore rir.
– Parece que não há nenhuma dúvida sobre a paternidade do garoto – comentou.
James se aproximou sorrindo largamente e passou o braço sobre os ombros do filho, como a garantir comparações.
– Absolutamente nenhuma – concordou. – Sobre o seu aparelho, Dumbledore, tenho evitado ser visto com ele. Não acha que os comuns irão estranhar algo assim?
– Hum... acho que eles estranhariam se soubessem o que é – o comentário fez pai e filho rirem. – Tenho um jovem amigo de Oxford, um não bruxo chamado Robert de Grosseste, com quem tenho feito estudos a respeito dessas pequenas lentes (1). Acho que logo estaremos prontos para apresentar nossas pesquisas para os doutos da universidade. Assim, acho que pode usá-los sem medo, James. Mas ainda precisamos de um bom nome...
Remus apareceu na porta aberta e chamou.
– Little John chegou.
Do lado de fora, ao sol fumacento da manhã, esperavam: Sirius, seis belos cavalos encilhados, um feio e pesado cavalo de tração e o maior homem que Harry já tinha visto em toda a sua vida. O cabelo era de um louro sujo e caía na altura do queixo quadrado, sombreado de uma barba espinhosa. Ele era pelo menos uma cabeça mais alto que Dumbledore e, certamente, umas duas vezes, mais largo. As roupas simples não se assemelhavam às de um cavaleiro como as de seu pai e dos outros.
– Hey Sir! – ele cumprimentou com um sotaque forte ao qual Harry não reconheceu.
– Hey Little John – o pai de Harry saudou o homenzarrão.
– Como vai, meu senhor Dumbledore?
– Muito bem, John, muito bem – respondeu o alquimista com satisfação.
Remus se postou ao lado de Sirius que estava escorado negligentemente sobre o muro baixo que separava a casa da rua. O padrinho de Harry foi o único a parecer notar a armação no seu rosto. Fez-lhe um breve sinal que o garoto não entendeu ser de pilhéria ou aprovação.
– Então, vamos voltar mais cedo para casa Sir? – perguntou Little John.
– Sim John, e levando uma carga preciosa – James deu uma batidinha no ombro de Harry.
O garoto se sentiu um pouco desconfortável com a avaliação do grandão e no instante seguinte ficou um pouco indignado porque ele o olhava como se estivesse diante de um bebê. Little John tinha passado um momento contando semelhanças até arregalar os olhos verde-amarelados.
– Por Deus, nosso senhor, mas é... é o Harry? Milord encontrou o nosso menino?
No instante seguinte, Harry se viu agarrado pelos ombros e abraçado por aquele homem estranho e enorme, como se fossem amigos de toda a vida. Ele obviamente estava feliz e era amigo do seu pai ou servia a ele, mas Harry ainda assim congelou. Quando ele o soltou tinha lágrimas nos olhos e parecia verdadeiramente maravilhado. Harry escutou Sirius disfarçar o riso com um acesso de tosse, logo atrás deles. Não pode negar que se não fosse o alvo do destempero emocionado de um homem daquele tamanho, faria o mesmo. Contudo, Little John estava encantado demais com a situação para perceber.
– Eu o carreguei bebê, sabia? E olhe agora! Está quase um homem! Nossa, o pessoal do castelo vai enlouquecer em ter o senhor de volta. – Harry olhou para o pai. Era a ele quem aquele homem chamava de senhor? James não pareceu notar seu espanto. – Ah, eu estou falando como um idiota, minha mulher sempre reclama disso. Sou John, sirvo à casa do seu pai. Pode me chamar de Little Jonh como todo mundo.
O garoto lhe estendeu a mão e o homem consumiu com a sua ao apertá-la, fazendo Harry pensar se não teria de dar novamente adeus aos seus sonhos de manejar um arco.
– E por que o chamam de Little? – não resistiu em perguntar. – É uma piada?
– Não – respondeu Sirius ainda rindo da cena – é porque ele é um tampinha perto do irmão dele.
Little John fechou a cara.
– É verdade – resmungou para Sirius com cara de poucos amigos – mas ainda sou maior que você, capitão. – Depois se virou para James. – Falando no meu irmão, Sir, não seria melhor pedir que ele nos encontrasse no meio do caminho? Ele põe medo, sabe? E, bem, pode fazer mágicas, como vocês. Acho que assim o Harry estaria mais seguro. Desculpe, milord, mas tem uns garotos naquela comitiva que eu acho uns babões. Ainda não confio neles, estão mais preocupados em beber e correr atrás de garotas.
Harry registrou que o homem não era um bruxo, mas seu irmão era e pensou que deviam ser como sua mãe e sua tia. Com a diferença de que ele em poucos instantes simpatizara mais com Little John do que em uma vida inteira morando com sua tia. Observou seu pai consultar Dumbledore, a respeito da sugestão.
– Concordo com o John – disse o alquimista – pode deixar que eu mesmo mando um recado para o seu irmão vir encontrá-los. Nossos meios são mais rápidos, John. Logo adiante de Oxford, James?
– O mais rápido que ele puder chegar – respondeu o pai de Harry.
O grandão fez menção de comentar algo quando parou com os olhos mais arregalados que nunca. Todos os outros seguiram o seu olhar.
Vinda dos fundos da casa, Lily apareceu, ainda vestindo suas roupas masculinas, mas tinha os cabelos molhados, aos quais trançava com atenção. Harry só percebeu que havia algo diferente quando ouviu Remus pigarrear e Sirius soltar uma imprecação em voz baixa. Ele olhou para os dois, que estavam parados logo atrás dele, e viu Sirius passar uma moeda dourada para Remus. Seu padrinho parecia levemente irritado, mas Remus sorria. Harry ergueu os ombros para perguntar, enquanto ouvia Dumbledore saudar Lily. Sirius respondeu com um sussurro desgostoso.
– A maternidade amoleceu a sua mãe. Ela já foi mais teimosa.
Harry olhou novamente para mãe e então viu. Mesmo molhados era possível perceber que os cabelos não eram mais escuros como os dele e os do pai, mas de um vermelho profundo. Seus olhos correram imediatamente para James, contudo, este não parecia ter notado a aproximação dela, estava ocupado demais informando a Little Jonh sobre o itinerário da viagem. O pobre homem mal o ouvia. Assim, que Lily chegou perto, ele a cumprimentou com grande respeito e assombro.
– Lady Lily!
Ela sorriu.
– Olá John, que bom vê-lo novamente.
Ele assentiu, mas parecia não saber como agir com ela. Harry se perguntou quais histórias os servos de James contavam a respeito do sumiço dele e de sua mãe. Dumbledore pareceu pensar o mesmo, mas James continuou com seus preparativos, sem dar atenção ao olhar severo que o alquimista lhe lançou.
– Pronta para partir, Milady? – perguntou James.
Harry notou que, dessa vez, seu pai se dirigiu a Lily muito respeitosamente, sem qualquer traço de ironia na voz. Muito embora, algo no seu sorriso contradissesse a cortesia. Harry suspeitou que teria a ver com a mudança do cabelo. Talvez, não fosse apenas Sirius e Remus que considerassem a mudança uma vitória dele, contudo, Harry apostava mais em outro motivo para a mudança. Pelo que conhecia da mãe, ela tinha querido simplesmente tirar de James um motivo de arreliá-la.
Em resposta à pergunta educada de James, Lily seguiu o mesmo caminho. Também não pareceu querer mostrar, diante de Little John, que a viagem não a agradava.
– Sim, estou – respondeu docemente e depois caminhou até o filho.
Se Harry achou que a mudança no cabelo lhe traria uma nova mãe se enganou. Ela aprovou o presente que ele tinha ganhado, mas logo depois já o estava crivando de perguntas e reclamando por ele não se ter lavado ou desamassado os cabelos. Desamassar era o máximo a se fazer pelos cabelos sempre revoltos do garoto, embora agora ele achasse que qualquer luta com eles era desnecessária, em vista de ser igual ao pai. Obviamente, Lily não tinha a mesma opinião.
Apesar do tempo levado para o carregamento dos cavalos e para que Lily considerasse que Harry estava decentemente preparado – o que incluiu fazê-lo comer o dobro de seu desjejum normal – o grupo conseguiu partir antes que as brumas da manhã se desfizessem totalmente. Dumbledore garantiu a Harry que eles voltariam a se ver em breve e pediu para que o garoto tomasse cuidado. Mesmo com a grande seriedade com que ele fez isso, Harry não achou necessário dar muita atenção ao zelo do alquimista. Sentia-se mais seguro do que nunca, quase inatingível. Ele era um bruxo, tinha seu pai e sua mãe, tinha seu padrinho e Remus e, claro, achava que podia contar também com Little John. Que mal poderia lhe acontecer?
Os três cavaleiros decidiram seguir por estradas menos freqüentadas, ao menos, até estarem longe o suficiente de Londres. Eram caminhos semi-abandonados, e, por isso, mais difíceis e com um trajeto mais longo. Eles temiam tanto que a presença de Harry pudesse ser identificada, quanto uma represália por parte dos duendes encrenqueiros que haviam encontrado na noite anterior. Little John, montado pesadamente no lento cavalo de tração, duvidou. Deu uma cusparada no chão antes de comentar.
– Duendes não prestam, mas não virão atrás de nós sem ter certeza de poderem nos enfrentar – falou se incluindo e acariciando sugestivamente uma clava que Harry notara amarrada à sela do seu cavalo. – Mas não devemos acampar à noite sem vigia. Isso não. Podem se aproveitar. – Ele rosnou baixo e voltou a cuspir no chão com desdém ainda maior. – Covardes é o que são.
Em algumas partes do caminho a mata ficava muito densa sobre eles, a ponto de o céu sumir e ser preciso afastar galhos e espinheiros com as mãos. O tecido ordinário das roupas de Harry protegia bem pouco e logo ele se viu arranhado em várias partes do rosto, mãos e corpo. Little John assumiu a frente e, com um facão e os braços grandes, ia abrindo a picada com o auxílio de Sirius. Este, porém, ao invés do facão, usava a varinha com feitiços de corte e desaparição certeiros. Logo após iam James e Harry e, por fim, Lily e Remus.
Assim que se afastaram o suficiente da capital, as lições começaram. James não havia brincado sobre treinar o filho e Harry não teve dúvidas de que ele levaria isso muito a sério. Logo, ele, Sirius e Remus se revezavam corrigindo a postura do garoto para cavalgar, passando-lhe lições teóricas sobre cavalaria, armas, feitiços e, depois, fazendo-o repetir, tudo o que ouvia, várias e várias vezes. Quando o sol se tornou forte o suficiente para romper a barreira das árvores e os cavalos deram mostras de sede, o grupo resolveu parar para uma pequena refeição. James dispensou Little John do trato dos animais e ficou testando Harry tanto em seus conhecimentos sobre montaria, como no que ele deveria fazer para deixá-los descansar para que seguissem viagem. Ele lhe disse tudo o que um escudeiro deveria fazer e depois ficou observando e corrigindo cada ação do garoto.
– O fato de que na maior parte das vezes terá pessoas a quem poderá mandar fazer isso por você, não o isenta de saber fazer – lhe disse James. – Além disso, nenhum cavaleiro pode se dar ao luxo de depender de outros para cuidar de suas coisas.
Harry ajustava uma das selas, evidentemente mais pesada que suas forças, mas não quis demonstrar.
– Não seria mais fácil fazer isso com magia?
– É mais fácil com magia. Mas você só fará direito com magia se souber exatamente onde ajustar a pressão de cada arreio. E isso...
– Só sabendo o jeito comum – repetiu monotonamente e o pai sorriu.
– Fico feliz que aprenda rápido.
Quando Harry finalmente pode sentar para se alimentar se sentia um bronco. Era óbvio que perdera anos importantes de treinamento. A maioria dos garotos que seriam cavaleiros já eram pagens aos sete, seu pai lhe confirmara isso, e ele tinha quase quatorze. Harry sabia que não passava de um camponês rude que mais parecia um saco de batatas em cima da montaria. E mesmo com toda a paciência do pai e dos outros, toda vez que errava, seu estômago ardia de vergonha e medo de fracassar. Ele provavelmente estava longe de ser o filho especial que o pai imaginava. O tal Voldemort teria frouxos de riso se o visse e iria correndo perguntar as tais Irmãs do Destino se acaso elas estavam brincando ou se daria conta de que tinha errado na hora de escolher o menino da profecia.
Lily lhe passou uma boa quantidade de pão, queijo e chouriço defumado (cortesia de Dumbledore) e lhe fez um carinho nos cabelos revoltos. O garoto preferiu não encarar seu sorriso condescendente. Ela também devia ter visto a quantidade de vezes que ele tinha errado e sido repreendido. Ouviu-a se afastar alguns passos e caminhar resoluta até James, que havia voltado até os cavalos para apanhar uma garrafa de chifre com cerveja. O garoto teve vontade de berrar com a mãe, sabia o que ela ia fazer, mas seu movimento foi parado imediatamente por um gesto de Sirius, que o mandou ficar quieto. Com certeza ouvir o diálogo que se seguiu entre seus pais não teria feito com que ele se sentisse melhor.
Lily esperou chegar bem perto de James para lhe falar.
– James – ele não pareceu surpreso nem com sua presença, nem com a voz baixa. – Não seja muito duro com o Harry. Ele não teve nenhuma vida fácil até agora. Vá com calma com ele.
Com certeza Lily sabia o risco que corria em dizer aquilo. Estava estampado no rosto de James a resposta de que se a vida de Harry tinha sido dura até ali, a culpa não era dele. Contudo, ele se limitou a colocar o braço por sobre a cela do cavalo e encará-la por muito tempo, até sentir que ela estava bem irritada. Então, perguntou com um sorriso calmo.
– Me diga, Lily, em que momento você acha que eu fui duro demais com o Harry?
Ela chegou mais perto, os olhos verdes faiscando.
– Caso não tenha percebido, Harry está entusiasmado com você. Olha para você como se fosse um deus encarnado. Até que ele o conheça de verdade, vai se sentir miserável cada vez que você disser que ele está errado. Tudo o que estou dizendo é que...
– Lily – James a interrompeu sem alterar a voz – Harry está sendo treinado para ser um cavaleiro e não uma dama de companhia. Não exigirei nada que ele não possa fazer ou se superar. Isso é ser um aprendiz. – Ele parou e também deu um passo na direção dela. – Mas o problema não é esse, é? O problema sou eu e não os sentimentos do Harry.
– É muito óbvio que o problema é você! – ela reclamou com teimosia.
A expressão até então debochada de James sumiu, no seu lugar uma máscara escura toldou-lhe os olhos.
– Ninguém sente mais o seu engano do que eu, Lily. Pode ter certeza. E eu ainda vou provar a minha inocência e você irá pedir desculpas por ter jogado nossas vidas neste inferno. Até lá, se acostume com a minha presença e não ouse interferir entre mim e o meu filho.
– Escute aqui...! – começou, erguendo o dedo para o rosto dele.
– Também não acho que xingamentos e agressões físicas façam bem aos sentimentos do garoto, Lily. Sabe, talvez, esteja na hora de voltar a fingir que é uma dama. Pelo bem do nosso filho.
Ela tremia de fúria na frente dele, mas nenhum dos dois parecia disposto a dar as costas e deixar a arena de combate. Foi com esforço que Lily controlou a voz.
– Eu quase tinha esquecido essa sua habilidade incomum. – James arqueou a sobrancelha, curioso. – Basta que diga um par de frases para que eu tenha vontade de matá-lo.
– Vou me lembrar disso quando me dirigir a você – respondeu com pouco caso. Depois, fazendo menção de se afastar, ele colocou a garrafa de chifre sob um dos braços e arrancou as luvas de couro das mãos. – Tome – disse empurrando-as para ela – use. Suas mãos estão sangrando por causa dos espinheiros – e seguiu para a clareira, deixando Lily respirando profundamente e contando até vinte.
A teimosia de Lily não a tornava burra, ela aceitou as luvas, mas fez tudo o que pode para não voltar a falar com James. Ele também não fez nenhum esforço para voltar a lhe dirigir a palavra. Parecia não pensar em outra coisa que não fosse transmitir a Harry a maior quantidade possível de conhecimentos. Exortou Remus a assumir especialmente a instrução do garoto em feitiços. Lily não pode reclamar da escolha. Remus era um excelente professor, atencioso e capaz de extrair verdadeiras maravilhas de Harry. Uma tarde aprendendo feitiços básicos com ele rendeu o suficiente para que Harry dormisse a primeira noite satisfeito consigo mesmo e Lily agradecesse ao amigo por isso.
– Faço com muito prazer Lily – foi sua resposta ao agradecimento na manhã seguinte. Os dois estavam sentados lado a lado em torno da fogueira onde Little John preparava ovos. James e Sirius tinham se afastado com Harry e o estavam instruindo a encilhar os cavalos ora sem magia, ora com magia. – E confesso que estou bastante impressionado.
– Com o Harry?
Remus deu um sorriso cansado para seu jeito ansioso.
– Sim, com o Harry. Quando está atento, ele reage com grande agilidade, pensa rápido e faz feitiços numa potência parecida com a sua e do James, mas me atrevo a dizer que ele pode ser melhor, se quiser.
O elogio foi o suficiente para deixá-la com o ego inflado. Sem conter a felicidade, dobrou o corpo e deu um sonoro beijo na bochecha de Remus.
– Autumn teve sorte em escolher você, sabia? Muito obrigada, Remus.
O capitão assentiu com a cabeça sem mudar o sorriso e Lily o notou um pouco pálido. Na verdade, parecia estar com uma cor levemente acinzentada e com grandes olheiras sob os olhos. Seu aspecto acabou fazendo Lily se distrair de enchê-lo de perguntas sobre Autumn e a família que eles já deviam ter àquela altura.
– Você está bem, Remus? Parece um pouco doente.
– Apenas uma pequena indisposição. Nada que mascar algumas ervas não resolva. – Unindo ação às palavras, Remus levantou e disse que voltaria logo.
A viagem do segundo dia foi mais fácil, puderam usar estradas melhores, embora sempre evitando chegar perto das povoações. Lily notou que James não permitira que nenhum dos homens ostentasse o seu estandarte durante a viagem, o que dava ao grupo um visual ordinário e pouco chamativo.
Com um suspiro resignado, ela pode ver o quanto Harry registrava de cada uma das atitudes do pai e as aprovava. James tinha um jeito realmente diferente de lidar com as pessoas e sabia cativá-las como ninguém. “Mesmo quando é um cretino”, pensou Lily a contragosto. Contudo, tinha de admitir que suas ordens geralmente não soavam como ameaças e que ele tratava a Sirius (que era seu igual em termos de família), Remus (com quem se criara) e Little John (que era um servo) quase sem fazer-lhes diferença. A camaradagem e a familiaridade não faziam com que ninguém o respeitasse menos e Lily podia ler nos olhos de filho que, mesmo surpreso, isso o fazia gostar do pai ainda mais. A questão era que a possibilidade de perder Harry, de ele preferir James a ela, estava começando a colocá-la, lentamente, em completo desespero. E o que mais a incomodava era dar-se conta de que fora ela quem ensinara o filho a admirar aquelas qualidades. As qualidades que por muito tempo ela achou que James tivesse.
Na manhã do terceiro dia, pouco antes de voltarem a margear o rio para acessarem a cidadezinha de Oxford, Lily observou que um pouco da adoração que Harry já devotava ao pai, se deslocava também para o padrinho. Ele havia acabado de descobrir a verdade sobre Sirius e estava perplexo. Lily não podia culpá-lo por isso, ela tinha ficado do mesmo jeito ao saber toda a história e também admirara Sirius por isso.
O padrinho de Harry era um Black e isso significava um bocado de coisas. Os Blacks eram uma das mais antigas famílias bruxas que se conhecia. O próprio Sirius brincava que Deus não fabricara nem um Potter e os Blacks já infestavam a terra como moscas. Eles tinham vindo do continente há uns duzentos anos e, desde então, só fizeram crescer em poder e riqueza. Orgulhavam-se de manter o sangue bruxo sem misturas, mas também adoravam ostentar os títulos que tinham ganhado em suas batalhas e negócios com a realeza. Sirius contou isso com o mesmo desdém que Lily o vira exibir há treze anos atrás. Continuava a agir e pensar como o mesmo garoto rebelde que renegara a linhagem e a família.
– E eles? – perguntou Harry, muito impressionado. – O que pensam de você?
– Sentem vergonha de mim – respondeu Sirius com pouco caso. – Quando eu saí de casa após minha última grande briga com o meu pai, ele e a minha mãe ergueram uma fogueira com todas as minhas coisas. Queriam esquecer que tinham tido um filho como eu. Não fique espantado Harry, eu preferia ter sido encontrado em uma chocadeira. Detesto toda aquela gente.
– Sirius perdeu a primogenitura – explicou Remus. Ele falou com alguma dificuldade, parecia não ter se recuperado da indisposição do dia anterior. Lily o achava até um pouco pior. – Isso significa que perdeu seu título, terras, fortuna...
– Foi tudo para o meu irmão perfeito, quero dizer, para o Black perfeito. Acho que isso deu aos meus pais verdadeira felicidade antes de morrerem. O nome da família... bem representado.
– Mas você disse que ele morreu? – perguntou Harry. – O seu irmão.
– Disse – a expressão taciturna de Sirius teria barrado outras perguntas, mas a curiosidade de Harry venceu.
– E as suas terras, o título e tudo o mais?
– O rei Henrique achou que já que eu havia aberto mão de tudo uma vez, não havia porque insistir. Achou que encontraria um vassalo mais adequado aos seus propósitos entre um de seus favoritos.
Sirius parecia pretender falar mais alguma coisa, mas mudou de idéia no meio do caminho. Deu uma risada breve e rouca e sacou um tapa amistoso nas costas de James.
– Como vê Harry, se não fosse pelo seu pai, que me acolheu como a um irmão, eu estaria morrendo de fome, jogado em algum caminho.
James protestou e Remus rolou os olhos e fez negativas com a cabeça, mas o comentário acabou saindo de Lily, antes que ela pudesse contê-lo. Parecia vindo da época em que eles conversavam e riam juntos quase o tempo todo.
– Eu duvido Sirius. A não ser, é claro, que os anos tenham gastado você em demasia. Até onde me recordo, imagino que não faltariam damas e donzelas para lhe darem um pratinho de comida. Talvez, você até engordasse um pouco.
Os quatro homens gargalharam muito e alto e só pararam com lágrimas nos olhos, quando Oxford se fez visível além do rio por entre as árvores.
A pequena cidade de Oxford era uma das favoritas dos reis. Sempre que Londres se mostrava pestilenta demais, a corte vinha tomar seus ares campestres, caçar em seus amplos bosques e se deixar enlevar pelas partes tranqüilas do rio Ísis (o Tâmisa trocava de nome nessa altura), onde os nobres passeavam com suas damas em canoas e se permitiam desfrutar. A universidade, que há mais de um século vinha tomando a cidade, era um conjunto de diversas casas, onde se reuniam estudantes e professores para estudar e pesquisar sobre tudo.
– É, mas nosso destino não é a cidade. Andaremos ainda um pouco – disse James. – Hermione está num lugar um pouco adiante do vilarejo. Uma velha amiga de Dumbledore dirige um pequeno Hall de ensino apenas para jovens bruxas. O que acabou sendo bem a propósito – ele explicou – pois eu jamais a deixaria ir para um desses conventos para estudar. Além de não aprender nada de magia, eles acabariam matando-a de tédio.
– O que é um Hall de ensino? – quis saber Harry.
– Todas as casas que formam a universidade começaram como Halls de ensino – respondeu Remus, um pouco arfante. – Obviamente são todos masculinos.
– Os comuns acham que mulheres não foram feitas para o estudo – falou Sirius com despeito.
– O que é digno apenas de piedade – comentou James.
– Eles não conhecem a nossa Hermione – disse Remus com evidente orgulho e os outros dois concordaram. – Eu desafiaria qualquer doutor desses a discutir com ela.
Sirius deu uma de suas risadas roucas e debochadas.
– Ela os esmagaria.
– De qualquer forma – prosseguiu James – não há muitas opções para os bruxos que queiram aprender mais do que os pais possam ensinar ou tenham nascido entre as pessoas comuns. Ouvi dizer que a escola que foi criada no norte está cada vez melhor, mesmo depois da morte dos grandes mestres. O problema é que é difícil levar os jovens até lá e eu não iria querer Hermione tão distante e por tanto tempo.
Lily segurou o desejo insuportável de repetir a pergunta que fizera a James. Registrou com mais curiosidade ainda o fato de Remus tê-la chamado de nossa Hermione e de Sirius ter concordado com esse tratamento. Mas as últimas frases a haviam incomodado mais. Se a tal estava sendo tutoriada, então ela devia ser ainda bem jovem. Aquilo a estava deixando confusa e, mesmo que não quisesse admitir, razoavelmente indignada com o que quer que tivesse feito outra mulher (“bem mais jovem”, repetiu mentalmente) entrar na vida de James.
– Quem é essa Hermione? – Lily achou que poderia beijar Harry por ele ter perguntado.
James se adiantou aos dois amigos e respondeu.
– Você vai conhecê-la e, tenho certeza, vai gostar muito dela.
Sirius deu uma risadinha que Little John acompanhou. James fechou a cara para os dois.
– O que é? – quis saber Harry.
– Bem, talvez, er... você não goste dela assim... imediatamente – respondeu Sirius.
– Bobagem – resmungou Remus. – Hermione é maravilhosa.
– Eu não disse que não – reclamou Sirius.
Os dois pareciam prontos a debater o assunto, mas Harry interrompeu com outra uma curiosidade súbita.
– Mãe, seus pais eram comuns como a tia Petúnia, não eram? – ela confirmou. – Quem ensinou magia para você? Dumbledore?
– Não – respondeu Lily com voz neutra. Preferia que Harry não tivesse desviado o assunto. – Quando comecei a fazer magia, eu chamei a atenção de uma vizinha nossa, que era bruxa. Ela se ofereceu para me ensinar, desde que meus pais permitissem que eu fosse morar com ela. Porém, logo ela resolveu deixar o marido, que era um homem comum (eu não a culpo, ele vivia bêbado). Então veio para o norte e me trouxe com ela.
– E foi ela quem te ensinou tudo?
Lily notou que James ergueu o rosto com um pouco de arrogância.
– Eu não... me dava muito bem com ela, Harry. Era uma pessoa difícil. Estava mais preocupada com minha força de trabalho do que em me ensinar.
– Use as palavras corretas, Lily: ela escravizava você.
A informação de James fez Harry arregalar os olhos e esperar que a mãe negasse. Lily desviou o rosto do filho por um instante, não gostou da interferência, mas James dissera a verdade e ela não podia ir contra isso.
– Bem – resmungou, sabendo que ele queria que ela contasse era a segunda parte da história – então porque não conta como me resgatou e me apresentou a uma professora de verdade?
– Eu não a apresentei – disse James – trouxe-a para o castelo especialmente para ensinar você. E admita Lily: você a adorava.
– É difícil não gostar de Minerva McGonagall. Ela é severa, mas é uma das pessoas mais maravilhosas que já conheci.
Ninguém pareceu discordar dela, e os três cavaleiros sorriram. Foi Little John, mais atento ao caminho que a conversa, quem alertou.
– Acho que o senhor Harry vai poder dizer o que acha de Hermione logo – ele apontava para uma casa, distante do amontoado da vila e que podia ser vista do outro lado do rio. – E Lady Lily vai poder matar as saudades de sua velha professora.
Lily pulou sobre a cela.
– É verdade, James? O Hall de ensino pertence à McGonagall?
– A quem mais seria? – Perguntou James satisfeito. – Ela o chama de Escola de Jovens Bruxas. Mas acho que vou convencê-la a aceitar o Harry.
– Eu não vou vir para uma escola de garotas!
A indignação do garoto provocou uma gargalhada geral.
– Não, filho – James procurou acalmá-lo assim que pode se controlar – estava pensando em pedir a McGonagall que passasse um tempo conosco. Ninguém será capaz de lhe ensinar transfiguração como ela.
– Há controvérsias – Sirius falou de um jeito arrogante, mas o olhar de Remus o fez engolir o que diria a seguir.
O grupo seguiu pela margem contrária do rio ainda algum tempo. Finalmente, puderam ultrapassar uma estreita ponte de madeira e ficaram praticamente diante da casa. Um muro quatro vezes mais alto que o da morada de Dumbledore cercava a propriedade. A hera fresca cobria a maior parte das pedras cinzentas e apenas a copa das árvores do interior era visível. Contornaram com os cavalos até chegarem a um arco de onde era possível ver ao longe a casa. Lily viu Harry vasculhar o contorno das pedras em busca de um porteiro como o de Dumbledore, mas nada se mexeu ou falou. Assim que eles cruzaram a entrada sem portão, o garoto pareceu um pouco decepcionado. Sirius notou.
– Estamos sendo esperados Harry. Só por isso a porta nos deixou passar.
– Deixou passar? – Harry virou o corpo para trás tentando compreender as palavras do padrinho e Lily o imitou.
Ela também nunca tinha vindo à casa de Minerva, logo, foi com um pouco de surpresa que viu os lados da entrada começarem a se mover, como se novas pedras brotassem de dentro das outras até cobrir totalmente a entrada, bem diante dos olhos deles.
– Um viajante não esperado – continuou Sirius – rodaria os muros por horas sem conseguir entrar.
Seguiram por uma avenida margeada porerva rasteira e árvores grandes se dispunham em torno da casa e dos muros. Havia menos flores do que em torno da casa de Dumbledore, mas ao longe, era possível que se divisassem vários canteiros de ervas. Mais perto da casa, o caminho ganhava um calçamento em pedra e os guiava para um pequeno pátio interno, em torno do qual se dispunham três amplas construções, todas em pedra e com telhados de chapas de madeira. A casa maior era adornada por trepadeiras de hera, e havia uma construção auxiliar, onde devia ficar a cozinha, que era quase toda coberta pela erva; no outro estremo uma capela pequena com torre e sino completava o conjunto. No centro do pátio, havia apenas um poço limpo e bem cuidado.
O grupo segurou os cavalos diante do poço e James foi o primeiro a apear. Tão logo ele encostou os pés no chão, uma das portas verdes da casa grande se abriu e surgiu por ela uma garota que, Lily calculou rápido, não devia ter mais que a idade de Harry. Ela soltou um gritinho ao vê-los, e correu pulando no pescoço de James. Ele pareceu adorar a recepção, pois tomou a garota nos braços e a rodou pelo pátio rindo feliz. Uma sensação viscosa e nojenta subiu pelo estômago de Lily. Ela já sentira aquilo uma vez. Um misto de humilhação e raiva surda. Mas havia algo pior. Ela podia odiar Bellatrix, a prima de Sirius a quem surpreendera com James treze anos atrás, com todas as suas forças. Mas aquela ali... Meu Deus, era pouco mais que uma menina. Uma esperança fugaz lhe passou pela cabeça, ela apeou e parou ao lado de Remus que observava a cena com ar satisfeito.
– Me diga que James teve uma filha com outra mulher – pediu.
O capitão a olhou um pouco confuso antes de responder.
– Não, Lily! Hermione não é filha do James. Onde você... – uma luz de compreensão se fez no seu rosto, mas ele não conseguiu dizer mais nada.
A garota havia soltado James, abraçado Sirius e, agora, corria para ele. A tal Hermione abalroou Remus quase o derrubando por conta de sua fragilidade nos últimos dias, mas ele devolveu o abraço com grande carinho.
– Ah, eu senti tanta falta de vocês – suspirou ela.
Lily aproveitou a proximidade para observá-la. Tinha cabelos castanhos, crespos, domados em uma trança longa que fugia de um toucado simples, semelhante ao usado pelas alunas de conventos. O vestido também nada tinha de extraordinário e sem dúvida não se assemelhava ao que seria usado pela mulher de um grande senhor. Era cinza e sem enfeites, túnicas ou cintos, o que a fazia parecer ainda mais jovem. Não era feia, mas tinha os dentes um pouco para frente e, como falava o tempo todo, não era possível não lhe notar a boca.
– Eu quase não acreditei quando recebi a coruja dizendo que vocês viriam antes. Não estou reclamando. Gosto muito de ficar com madame McGonagall e as outras professoras, mas o verão começou há um mês e eu estou doida para ir para casa. Como estão todos? Você está abatido Remus! E James emagreceu, você não acha? Foi na viagem? Aconteceu algo?
– Hermione – Sirius a chamou com carinho e colocou a mão sobre o seu ombro – respire...
– Ah Sirius, estou perguntando porque vocês não me contam nada e... Little John!
Ela correu para cumprimentar o grandalhão. Lily e Harry estavam tontos com a quantidade de energia da garota, cujos arroubos estavam divertindo muito a James e Sirius. Remus, no entanto, parecia um pouco preocupado.
– Onde está Minerva? – perguntou James erguendo a voz para se sobrepor a falação da garota que estava perguntando por todas as pessoas que conhecia para o servo. Isso a fez parar.
– Ela pediu desculpas, James. Madame Sprout e ela tiveram de ir ajudar madame Pomfrey no parto de uma jovem senhora a um dia de distância daqui. Tiveram de sair antes do amanhecer porque foram de vassouras. Madame McGonagall achou que aparatar seria complicado, pois madame Sprout está bem gripada. Ela tentou aqui dentro do pátio, mas cada espirro a jogava pelo menos cinco metros longe da sua meta. Levamos um bocado de tempo para tirá-la de cima do salgueiro e... – só naquele momento Hermione pareceu perceber Harry e Lily parados ali. – Santo Deus! Que grosseria inominável a minha. – Ela se virou para os dois e fez uma pequena reverência. – Desculpem a minha falação. Sou Hermione... – Ela parou e se voltou para James com autoridade. – Quer fazer o favor de nos apresentar!
Sem parecer nem um pouco incomodado com a ordem da garota, James se aproximou.
– Você fala sem parar e depois a culpa é minha? – ele riu ao ver Hermione sem graça. – Bem, olhe este rapaz aqui – James passou o braço por cima dos ombros de Harry – e me diga com quem ele se parece.
Hermione analisou Harry por alguns instantes até que, num saltinho, arregalou os olhos e cobriu a boca com as mãos.
– Pela mãe de todas as bruxas, mas é... James é o Harry? – Ele confirmou. A garota deu um gritinho de felicidade e perdeu novamente a compostura, abraçando um Harry completamente apavorado. – Ah, que feliz! Você voltou!
Os homens riram e finalmente ela pareceu dar-se conta de que o garoto estava completamente congelado ao seu abraço.
– Oh, desculpe! Eu posso abraçar você, não é? Fico tão contente que James o tenha encontrado e... – ela se virou para Lily e respirou se contendo – imagino, por seu cabelo, que você deve ser Lady Lily, não é?
Lily estranhou um pouco ser tratada por lady, mas assentiu. Hermione fez uma reverência e depois lhe estendeu a mão. Não havia nenhuma animosidade nas maneiras dela para com Lily, contudo, a jovem a observava com uma curiosidade que beirava a descortesia. Sem se conter mais, Lily resolveu falar.
– Acho que não fomos apresentadas propriamente, Hermione. Sou a mãe do Harry.
– Eu sei – respondeu a garota, com um sorriso. Mas ela não pareceu achar necessário acrescentar o que Lily queria ouvir, isto é, quem era ela.
– Já que McGonagall não está, vamos partir logo depois do almoço – anunciou James.
– Tão rápido? – Harry finalmente conseguiu romper o mutismo.
– Quanto mais rápido partirmos, mais rápido você estará em casa – respondeu Sirius com súbita seriedade. – Já arrumou suas coisas, Hermione?
– Sim – respondeu a garota – só falta carregá-las ao meu cavalo, mas... eu estou com uma certa dificuldade.
Os três homens rodaram os olhos como que sabendo qual era a dificuldade.
– Quantos livros dessa vez? – perguntou Remus.
A menina corou.
– Alguns... acho que ficou um pouco pesado.
– Vou ajudá-la a resolver isso – disse Remus.
Ele fez um sinal para Little John e o homem puxou os cavalos para acompanhá-los, certamente lhes daria água e um pouco de feno. Os três se encaminharam para as baias, mas Lily ouviu nitidamente quando Remus passou pelo amigo e disse.
– Já chega James! Esclareça isso de uma vez.
Assim que eles se afastaram, Sirius fez um sinal com a cabeça demonstrando que concordava com o outro, depois disse que iria até as cozinhas cumprimentar as pessoas e ver se eles poderiam apressar uma refeição para o grupo. Lily cruzou os braços e esperou. James coçou o pescoço e segurou o riso, o que deu a Lily a certeza de que ele, deliberadamente, a fizera chegar às conclusões erradas.
– Er... Hermione é minha irmã – anunciou.
– Irmã? – Harry estava menos chocado que a mãe, mas também pareceu surpreso. – Mas ela tem quase a minha idade, não é?
– É um pouco mais velha – respondeu James.
– Você nunca teve irmã! – Lily sibilou inconformada. Aquilo lhe parecia mais uma mentira.
James soltou o ar lentamente e depois começou a contar, mas se dirigiu a Harry, como se somente devesse satisfações ao filho.
– Sua avó faleceu quando eu tinha uns dezessete anos, Harry. Não pense que achei que meu pai fosse viver uma viuvez celibatária, até pensei que ele se casaria novamente, mas não aconteceu – havia um claro tom de censura em sua voz. – Há alguns anos fui procurado por uma mulher, uma não-bruxa, e ela contou ter tido encontros com meu pai e que ele havia morrido deixando-a grávida de uma menina. De início, ela não quis que eu soubesse da garota, temia que eu a tomasse. Após a morte do meu pai, ela se casou com um homem que, surpreendentemente, aceitou a garota de bom grado. O problema é que por volta dos sete anos, Hermione começou a fazer mágica e isso os assustou. Eles me procuraram por não saberem o que fazer com ela.
James fez uma pausa e olhou brevemente para Lily, mas Harry parecia bem impressionado com a história.
– Eles a entregaram a você?
– Bem, eu e Dumbledore primeiro conferimos a história da mulher, já que eu nunca soubera desta relação do meu pai. E sim, depois que não houve dúvidas, eu pedi que Hermione ficasse comigo e eles se visitam, às vezes.
– Uau! – falou Harry. – Isso é muito estranho.
– Por quê?
– Bem, ela é minha tia, não é? Será estranho tratá-la assim, sendo quase da minha idade.
James riu.
– Acho que ela não irá gostar que a chame de tia – o garoto pareceu aliviado. – Mas é provável que se comporte como uma.
– Como assim?
– Aguarde – respondeu o pai com um sorriso. Depois, ele se virou para Lily. – Hermione tem ocupado o lugar de castelã há mais ou menos um ano. Claro que é Molly quem administra tudo, mas minha irmã já tem idade para receber convidados ao meu lado. Como lhe disse Lily, ela é a senhora do castelo, já que você não está por lá.
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(1) Os óculos só são citados, já como um instrumento de trabalho conhecido, por volta de 1283. Mais ou menos 100 anos após o “nosso” período (Ano de 1191). Não se sabe ao certo quem foi o seu inventor ou inventores, mas se acredita que os estudos sobre ótica feitos pelo inglês Robert de Grosseste e seu discípulo Roger Bacon tenham sido fundamentais para a criação deste objeto tão útil. Ocorre que, por volta de 1191, o brilhante Robert de Grosseste estudava em Oxford e... por minha conta, era um grande amigo de um alquimista chamado Alvo Dumbledore.
N/B: Aaaaahhhhhhhh, esse James é danado, (pra não dizer aquela outra que rima)!!!! Quase matou a Lily, (e eu ouso afirmar) todos nós do coração! =D – Ufa, essa nota eu escrevo com o coração bem mais aliviado, pode crer! – Então, vamos à ex, ou futura, enfim... à senhora do castelo e seu formoso ex, ... não, futuro,... provável...enfim! James Potter ;D – As brigas desses dois prometem. Vem diversão das grandes por aí! E frustração também, acho, mas daquelas boas de sentir! *esfrega as mãozinhas, antecipando* OBAAA!!!! – Eu gostei do Little John! Simpático, fortão, sem papas na língua... Ele me lembra muito alguém! Hi! Hi! Hi! – A MacGonagalll!!! A MACGONAGALL!!!!! *.* *.* *.* EEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!! – Eu estava com uma saudade da Hermione aos quatorze, toda falante e carregada de livros, que você não tem idéia, Anam! MUITO BOM vê-la ali!!! – Bom, especifiquei essas passagens, porque não dá para comentar cada linha, como eu gostaria... ;D Entretanto, tenha certeza de que EU AMEI, cada linha! E não não duvide disto!!! ;D – Amei seu capitulo e amo você, Anam! Estou aqui, aplaudindo, sempre e muito! Beijo grande no seu coração! Se cuida muito! Até o próximo! =D
N/A: Ok, gente, demorou uns dias a mais, mas está aí! Obrigada por todos os desejos de melhoras, vocês são muito queridos. Estou novinha em folha, muito obrigada.
Eu pretendia um capítulo com revelações e ação. Mas as revelações ocuparam 20 páginas de word e achei que vcs mereciam pelo menos mais 20 com ação. Logo, deixei para o próximo que já comecei a escrever. Assim, no capítulo 7 haverá ação e algumas revelações.
Sei que vocês estão impacientes pelos Weasley, mas acreditem, quando eles chegarem será com força total. Não pretendo dar tempo para ninguém respirar. Então, como diria um mestre zen (imaginem a Sally em pose de lótus e entoando OMS): a paciência é a maior de todas as virtudes, rsrs.
Sobre o capítulo passado um comentário que eu devia ter feito, mas a gripe impediu meu raciocínio. O nome do filho mais velhos dos Weasley, como vcs sabem, em inglês é William. A JK optou por colocar como apelido Bill, porém, nesta fic, eu decidi chamá-lo de Will. Isso porque há um importante personagem na lenda do Robin Hood com este nome e eu o escolhi para ser um dos elos de ligação entre as duas histórias. Assim, William Weasley é também o famoso Will Scarlett ou Will, o vermelho, grande amigo do Robin e seu companheiro de aventuras.
Sobre este capítulo: ó gente de pouca fé! Hehe
Um convite importante
Ganhei mais uma belíssima capa do Henrique Malfoy – só não vou colocá-la agora porque ele combina com coisas que vem mais adiante na fic, mas quem quiser vê-la, passe no meu Multiply (www.salyowens.multiply.com) ou no Orkut da Sally, ok?
Ganhei belas dicas de música da Maionese. Foram tão perfeitas que logo vou colocá-las na playlist do Multiply.
Depois:
Well, acho que vou ficar muito metida gente. Acabei de ganhar uma fanartista. Não é o máximo!!! Quem quiser ver os desenhos maravilhosos que a Sô tem feito para mim vai tb no multiply e no orkut. Vou sempre atualizar junto com a fic. Acho que ajuda a sonhar mais e estimular a imaginação.
Recados:
Drika Granger – Obrigada, querida, inclusive pela receita, hehe, mas especialmente pela capa. Espero que eu tenha respondido mais perguntas neste. Bjs grandões.
Clara – *assobia e olha para o lado* Lindo dia não? Rsrsrs Pode deixar, vou tomar conta do seu intocável direitinho. Beijos amada!
Kelly – Valeu querida, especialmente sobre o Dumbledore. Vou ir abrindo devagarinho a vida de cada um. Sim, vc captou o James muito bem. Um beijão.
Guida Potter – Espero ter explica tanto o Will quanto a Mione e que vc tenha ficado mais calma, rsrs. Sobre o ensopado, realmente não sei, mas as comidas medievais sempre me soam estranhas. Imagino que seja melhor que sopa de repolho. Um beijão.
Aluada – Sobre as surpresas, eu nem comecei, Duda. Querida, anotei o link, e assim que der eu dou uma passada lá, ok? Beijo grande.
Bernardo Cardoso – Hihi, sim, vc me arrancou a verdade, sob tortura, hahaha. Na verdade nem tanto. Espero que tenha gostado da revelação. Bjs
Danielle Pereira – Muito, mas muito mesmo, obrigada Danielle. Nossa, fiquei muito vaidosa com seu comentário. Nem sem como agradecer. Um beijo enorme.
Maionese – Suzy, muito obrigada. Sim, está aí tudo o que vc perguntou, hehe. Valeu novamente pelas músicas. Um beijão!
Bruna Perazolo – Eu? Malvada? Que isso? É um exagero! Aceito... humm ruinzinha, rsrs. Obrigada e beijos.
Myrthes – Fico muito contente que a fic esteja agradando tanto e olha que eu tinha medo em me aventurar numa UA. Obrigada por todos os elogios. Bjs!
Bruna Weasley – Que bom que gostou. Ah vc não sabe como eu tenho dó do James nessa história. Bjs.
Pedro Henrique Freitas – Nossa! Fã de J/L por minha causa? Uau!! Fiquei me sentindo, rsrs. Sabe que gostar deles é uma coisa recente para mim tb? Acho que os curti mais depois do livro sete. Bjs, querido.
Lica Martins – Ahh querida que coisa maravilhosa o seu comentário. Fico tão feliz! Muito obrigada mesmo. Um beijo enorme.
Sô – Lindaaa!!!! Minha vez de dizer o que acho de vc e do seu trabalho: estupendos!!!! Muito obrigada, tenho adorado nossos papos. Um beijão.
Ginny Potter – E aí? Me perdoou? Um beijão, querida, para vcs dois.
Sônia Sag – Rsrs... Amada, vc sabe que eu te conto tudo é só mandar, digo pedir, rsrs. Beijos querida.
Escarlet Esthier Petry – Quem agradece sou eu! =D
Charlotte Ravenclaw – Ah querida, de novo eu fico devendo a vc. Muito obrigada pela leitura prévia e pela ajuda. Um beijo enorme.
Kika – Rsrs, estou com a impressão de que tirei o sono de muita gente, hihi. Bjs.
Tonks Butterfly – Valeu querida!!! Hii, acho que logo teremos fila para dar colo ao James e ao seu Remus tb, hehe. Aguarde o próximo. Bjs
Regina McGonagall – Que bom, amiga. Adorei a história dos sonhos, hehe. Bjs
Lili Coutinho – O pior é que vou continuar colocando fogo nas dúvidas, hehe. Mas este é o bom da história, não é? Muito obrigada por voltar e comentar de novo. Bj.
Eleonora – Muito obrigada mesmo. Nossa nem é minha pretensão superar o Retorno, mas se vcs gostarem tanto quanto já fico super satisfeita. Um beijão.
Doug Potter – Outro, rsrs Ahh, vc não imagina em como fico feliz em ler isso. Obrigada. A Gina e o Rony chegarão arrasando, aguarde. Bjs.
Naty L. Potter – Que bom, Naty. E eu sei que você confia em mim e eu agradeço por isso. Um beijo carinhoso Pichichinha.
Thaíse Couto – Querida, vc captou direitinho. Os dois têm suas parcelas de razão e dor. Superá-las é que são elas. Obrigada pelos elogios! Bjs.
Tatiane Evans – Hihihi!! Espero ter esclarecido. Beijos!
Bruna Briti – Espero que vc esteja melhor Bru. Se cuide, ok? Suas respostas... algumas aqui, outras mais adiante. Bjs.
Mirella Silveira – Rsrsrs. Pronto, pronto. Passou? Espero que sim. Beijos.
Fabíola Cardoso – Muito obrigada, Fabíola. Adorei o “viciante”, rsrs. Sim, a Molly é completamente a mesma, hehe. Bem, o mistério Hermione está resolvido. Beijos!
Luísa Lima – Luuuuuuuuuuuuu!! Saudade de vc minha linda! Vc e o Vítor sumiram! Me abandonaram, não querem mais saber de mim, buááááá!!! Que bom que vc apareceu e com um comentário bem “você”, hehe. Adorei. Beijo e cheiro!
Beijos estalados e até o próximo (que já estou escrevendo).
Sally
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