Dumbledore desceu por uma pequena passagem, acima de uma pequena ponte, e ao erguer os olhos se deparou com uma porta de madeira, recoberta de símbolos em relevo. Bateu, e logo uma figura agradável surgiu para recebê-lo. À sua frente, usando um belo vestido florido, estava Dame Perrenelle, a esposa de seu grande amigo Nicolau Flamel.
- Albus querido, Nicolau te espera na biblioteca. – Deu-lhe um beijo carinhoso no rosto. - Você sabe o caminho; daqui a pouco levo algo para vocês beliscarem.
Dumbledore seguiu pelos corredores sombrios e conhecidos que cheiravam a rosas; a casa escura bocejava. Ele não conseguia suportar a idéia de voltar ao pequeno apartamento e encontrar Brianna. Tanta coisa girava em sua cabeça que achava difícil se concentrar na reunião com Flamel.
Abriu a pesada porta da biblioteca com um movimento displicente da varinha. Ao entrar encontrou a lareira acesa, o fogo queimando forte, com um aroma delicioso e tranqüilizador, enquanto a acha grande e grossa era devorada pelas chamas alaranjadas.
Não viu o amigo, mas sabia que ele devia estar por perto.
Jogou-se numa das poltronas de couro e fechou os olhos, tentando acalmar a confusão de sentimentos.
Um pequeno estalido. Uma porta que se fechava. E o ruído de passos no assoalho atapetado.
Flamel entrou no salão e ficou olhando muito tempo para seu amigo, que parecia perdido em pensamentos sombrios. No espelho acima da lareira viu o reflexo de sua esposa, que chegava com uma bandeja; fez um movimento com a mão para indicar que seria melhor que ela voltasse depois.
- Você veio do inferno, Albus? Está com uma aparência horrível.
Ele se virou, tirando o olhar da lareira. Estava cansado e sentia como se o peso do mundo estivesse sobre seus ombros.
- Você está brincando? Eu estou no inferno! Mas vamos conversar e quem sabe você me ajuda a sair dele.
Flamel sorriu e estendeu ao amigo uma taça de vinho.
- As coisas não estão boas na Alemanha; os aliados de Grindewald estão misturados ao regime criado por aquele trouxa terrível e fazem com que ele se torne cada vez mais cruel, muito embora, justiça seja feita, aquele homem não precise da ajuda de ninguém para ser cruel... Mas esse estado de coisas favorece as trevas.
Dumbledore concordou acenando levemente.
- Ele tem perseguido e matado um número enorme de pessoas, alguns bruxos também foram mortos nessa confusão, especialmente entre os nascidos trouxas. Recebi muitos relatos nesse sentido; conseguimos salvar muitas crianças através dos trens e da adoção.
Ele fechou os olhos ao pensar na ajuda que Brianna tinha dado nessa etapa do trabalho, e crispou os lábios ao lembrar de Black.
Flamel percebeu a alteração, mas prosseguiu dizendo.
- Aliás, Albus, aquela sua amiga trouxa foi um verdadeiro achado, todos ficaram satisfeitos com o trabalho dela no episódio das crianças, embora tenham ficado um pouco confusos com seu súbito desaparecimento. Você não saberia o que houve com ela, saberia?
Dumbledore voltou o olhar para uma labareda especialmente interessante.
- Não creio que se preocupem realmente com o sumiço de uma moça trouxa no Ministério. Mas diga aos burocratas que ela está bem.
Flamel sorriu e continuou.
- Sabe, encontraram o Black num estado miserável no apartamento dele em Praga, mas ele não sabe, ou não quis dizer, o que houve, nem disse quem foi que o atacou, já que obviamente não foi a moça... Como é mesmo que se chama...?
- Brianna - completou Dumbledore, distraído. - Brianna Doyle.
Ainda olhando para a lareira, disse sorrindo:
- Sente-se, Nicolau, vamos parar com esse jogo de gato e rato, vou te contar toda a estória, já que parece interessado.
E contou a Flamel tudo que tinha acontecido até ali.
- O que você pretendia fazer, Albus? Manter a moça guardada em alguma torre, segura e à sua espera?
Dumbledore se sentia inquieto como um adolescente frente ao seu professor, depois de alguma travessura; deu uma risada extremamente cúmplice e irônica.
- Se eu disser que a idéia me ocorreu, você me colocaria numa detenção?
Uma tontura o dominou enquanto pensava nela, segura. Um súbito prazer por ter toda aquela vida e beleza esperando por ele.
-Você é tão inteligente, Albus, mas está se comportando como um adolescente irresponsável com essa moça. E não está agindo de modo muito diferente do Black.
- Não, não eu...
Seus olhos se encontraram. Dumbledore foi o primeiro a desviar o olhar, erguendo suas sobrancelhas lentamente e depois inclinando de leve a cabeça.
- Eu não a forcei a nada Nicolau. - Uma nuvem de tristeza o envolvia. - Ela me ama, Nicolau. Eu sei. Por Merlin! Quando a toco, eu sinto! Droga, eu me sinto responsável por ela!
Flamel assentiu e juntando as pontas dos dedos, disse:
- E você, com seu amor e sua presença junto a ela, está usando as antiqüíssimas ferramentas bruxas à sua disposição para mantê-la perto de você, mesmo que isso seja contrário à vontade dela. É isso? Suprimiu o direito de ir e vir de Brianna, para sua própria proteção.
Dumbledore se permitiu um longo suspiro.
- Não vamos discutir meu amor e minhas decisões sobre Brianna, Nicolau. Voltemos ao tema da nossa reunião: a guerra.
Nicolau Flamel então se recostou na cadeira, encarou o amigo nos olhos e esperou. Havia ainda outros que deveriam chegar para a reunião.
- Continuaremos assim que os outros chegarem, enquanto isso, Albus, beba seu vinho.
A porta da biblioteca se abriu e um homem entrou; parecia ter vinte e poucos anos, com cabelos pretos desalinhados que desciam até os ombros, mas roupas de corte impecável. A lareira era a única luz na sala, mas aqueles homens não precisavam se ver para se reconhecer.
Dumbledore não chegou a se mexer, mas apenas olhou com calma e em silêncio para o recém chegado, depois continuou a olhar as labaredas que dançavam na lareira.
Alphard Black permaneceu em silêncio, aprofundando-se nas sombras da sala.
Mais uma vez a porta se abriu e um homem alto, de pele morena entrou. Seu cabelo era ligeiramente ondulado, mas cortado curto demais para que alguém notasse. Esguio e ágil de aparência, ele apresentava uma silhueta magra e roupas amarrotadas. Flamel se adiantou para recebê-lo.
- Como vai, Úrico.
Úrico Tolce sorriu e prendeu Nicolau num abraço apertado, depois foi até Dumbledore e apertou efusivamente sua mão.
- Albus, Flamel, que bom vê-los! E quem é esse que se esconde nas sombras?
Alphard se adiantou e acenou um cumprimento.
- Estou habituado às sombras, Úrico. Falta alguém mais para começarmos?
- Sim, falta apenas uma pessoa, Alphard - disse Flamel.
Uma luz esverdeada surgiu da lareira e dela surgiu Septimus Weasley .
Alphard ergueu o corpo, sentou-se sobre uma mesa e ficou com os pés balançando, como uma criança.
- Finalmente! Comecemos logo essa reunião. Afinal é disso mesmo que o mundo precisa: um punhado de bruxos loucos dispostos a enfrentar todo o mal! — resmungou. - A Brigada dos loucos.
Dumbledore finalmente se mexeu e levantou da poltrona em que se havia refugiado. Lançou um olhar demorado.
— Por que não? —quis saber. — Creio que podemos e devemos fazer alguma coisa. Podemos também organizar outros e atraí-los para essa luta.
Alguém acendeu um fósforo.
O homem ruivo, encostado em uma parede, levou a chama até a ponta do cigarro e deu uma tragada profunda.
— Acho que o nosso amigo quer dizer que tudo isso pode ser mais difícil do que parece. O mundo trouxa está imerso em uma confusão enorme, maior até que a nossa e não creio que possamos interferir nos fatos terríveis que estão para se desenrolar. É preciso respeitar certos limites e até o livre-arbítrio deles.
— Por que não, Septimus? — Dumbledore quis saber. — E não comece a falar do livre-arbítrio, porque podemos ficar uma semana discutindo isso. Acho que devemos respeitar o livre-arbítrio até certo ponto. Podemos ignorá-lo quando a segurança e o bem maior de alguém ou de uma comunidade estão em jogo.
E quando acabou de falar, Dumbledore lançou um olhar significativo para Flamel.
Flamel sorriu e balançou negativamente a cabeça.
— Concordo com Albus quanto ao fato de ser nossa responsabilidade interferir nesse assunto, temos grandes poderes e não podemos ficar impassíveis,mas creio que devemos sim respeitar o livre-arbítrio e as leis de proteção aos trouxas,agindo sem grande alarde e interferindo o mínimo possível e de preferência contra os bruxos das trevas que estimulam e se beneficiam dessa confusão.
Claro que os outros reconheciam sua sabedoria. Era muito óbvia, até mesmo para alguém de moral ambivalente, como Black.
Úrico pigarreou e bebeu um grande gole do seu vinho antes de falar.
— Não há como evitar, vai haver uma grande matança, em setembro um jovem Judeu dominado pela Imperius matou um funcionário da embaixada alemã em Paris - afirmou mantendo o tom de voz neutro. — Desde então as hostilidades contra os Judeus tem aumentado e não tem sido mais reprimidas. Misturados às tropas de Hitler estão vários bruxos das trevas e posso lhes garantir que eles têm se divertido bastante torturando e matando trouxas e bruxos. E eles estão preparando algo grandioso para novembro, ainda não consegui descobrir o que exatamente, mas seria realmente bom se pudéssemos ajudar a frear todo esse ódio.
Black suspirou.
— Tudo bem. Não vou mais discutir com vocês, chefes. Qual é o seu plano?
Dumbledore quase sorriu. Black era petulante sempre, até quando tinha que se render.
— Vamos iluminar o maior número de Bruxos que pudermos menino.
Disse Flamel.
— Mostraremos a eles o que a magia é de verdade, que o amor é sempre um caminho melhor. Usaremos todos os que conseguirmos para salvar o maior número possível de pessoas. Essa é a nossa missão.
E deixou a afirmação no ar.
— Estamos de acordo?
Virou-se para onde Dumbledore estava parado, perto da lareira.
— Concordo — respondeu Dumbledore com um aceno de cabeça brusco. — Vamos salvar o maior número possível de pessoas.
Septimus?-Perguntou Flamel.
— Se vocês molengas concordam quem sou para discordar.
Disse sorrindo.
–Então vamos em busca de mais loucos.
Três deles dirigiram-se à porta.
Black demorou-se um instante, e murmurou rindo para Flamel.
— É disso mesmo que o mundo precisa da Brigada dos Loucos, liderada pelo defensor das trouxas ruivas e bonitas.
Nicolau Flamel assumiu o comando, passou o braço pelo ombro do homem e o encaminhou para a poltrona em frente à lareira de onde Dumbledore tinha acabado de sair.
Black se jogou na poltrona displicente e desconfiado.
-Você também parece gostar de trouxas ruivas e bonitas.
Disse Flamel depois de um longo silêncio.
Black riu baixinho e disse num sussurro.
— Então, você é amigo dela, também?É uma ruiva bem relacionada então.
— Não meu caro, na verdade nunca a vi. — Flamel não pôde deixar de sorrir. — Quero apenas entender alguns fatos que chegaram até mim.
Um leve calafrio atravessou Black enquanto olhava nos olhos do velho bruxo. Tinha uma vergonha que não entendia completamente. Levantou-se de um salto.
— Eu vou embora. Tenho um trabalho a centenas de quilômetros daqui. Você ficará com saudades meu velho?
— Sente-se — disse Flamel, com determinação. - Quero ajudar você a entender algumas coisas, que estão lhe perturbando.
Black sentou-se consciente do olhar de Flamel sobre ele.
Acomodou-se melhor à poltrona, passou as mãos de dedos longos e brancos pelos cabelos desalinhados e finalmente olhou para o velho bruxo que o lhe lançava um olhar calmo e tranqüilo.
-Sem dúvida, você me considera algum tipo de monstro. Um bruxo muito mal. - Disse Black após um suspiro. -E tecnicamente, eu sou mesmo, e se não fosse pela surra que o Dumbledore me deu, eu teria saído impune. –
Olhou para Flamel e esperou a resposta.
Flamel meneou a cabeça devagar.
– Certamente você não foi correto e se comportou como um verdadeiro Black,sem se preocupar com os sentimentos da moça,sem aceitar a recusa dela.Usou seus poderes para subjugar e abusar de alguém indefeso.Mas o que me intriga é porque está aqui nessa reunião hoje,porque a ajudou no resgate das crianças nascidas trouxas e porque não denunciou Albus depois da sua merecida surra?
- Não sei - respondeu num sussurro. - Não sei.
Olhava o fogo e torcia as mãos num gesto compulsivo.
– Não é fácil ser um Black,todos esperam que você siga e respeite as tradições da mui antiga e nobre casa dos black,entre essas tradições está odiar os trouxas.
Flamel concordou acenando com a cabeça e Black continuou,parecia de repente precisar falar.
-Aí o Ministério e Dumbledore me dão aquela tarefa estranha de ajudar uma trouxa qualquer a resgatar crianças bruxas no meio daquela confusão.Reclamei,resmunguei mas alguém parecia achar que eu era o bruxo certo para o trabalho.Fazer o que!!
Passou de novo a mão pelos cabelos,num gesto impaciente.
-Minhas ordens eram encontrar a tal moça e ajudá-la a identificar entre os refugiados as crianças bruxas e convencer as famílias a deixá-las vir conosco. Disseram que seria fácil encontrar Brianna era uma moça ruiva muito bonita. Eu a encontrei conversando com um grupo de ciganos, sorrindo, com uma criança morena nos braços.
Parou um pouco olhando o fogo e organizando as idéias, Flamel ouvia num silêncio interessado.
-Como posso explicar se nem eu entendo??A visão dela naquele dia foi como um soco, com seu rosto sorridente, suas sardas claríssimas e sua longa cabeleira ruiva. Ela era um acontecimento. As pessoas se voltavam para olhar, ela deve ter algo de veela, só pode ter!!Trabalhamos juntos e ela era hábil em convencer as famílias sem dar muitas explicações sobre o mundo bruxo,dizia apenas que queria salvar as crianças e com aquele jeito doce e aquela voz ela os convencia,estavam todos desesperados para salvar seus filhos. E eu buscava todas as desculpas para estar perto dela, sonhava com ela à noite e corria pela manhã para ficar perto daquele perfume. Estava obcecado. Naquele dia no apartamento, ela estava tão perto e me tratando com aquela gentileza fria, me mandando embora.
Black fez uma pausa, apoiou o queixo numa das mãos e continuou sem olhar para Flamel.
- Agi então como o idiota que fui treinado para ser,parei de questionar minhas tradições e preconceitos.Mas foi pior.Desde que a tive nos braços não consigo parar de pensar nela.Voltei ao apartamento para me desculpar e para vê-la de novo,foi quando o professor me encontrou,não reagi nem denunciei porque acho que mereci a surra.E vim a reunião para tentar ajudar e me redimir.
Ele não conseguia prosseguir.
Olhava ansioso, para Flamel. Encostado no consolo da lareira, com a luz do fogo iluminando parte do seu rosto, e os olhos ardendo.
Flamel pôs a mão em seu ombro.
- Eu sei, eu compreendo, a beleza e a bondade dela te encantaram. O que importa é que você reconheceu seu erro e o erro dessas tradições estúpidas. Aceito sua ajuda e seu arrependimento, mas espero que compreenda se Albus não fizer o mesmo. Espero também que se mantenha longe de Brianna.
Flamel encarou-o, sério. Black olhou para o fogo.
- Não se zangue, sei que não devia ter agido como agi e você está sendo gentil em confiar em mim.
Disse ele, aproximando-se mais. Acariciou distraído seu próprio lábio com as pontas dos dedos. Ficou sério. E inúmeras rugas foram se formando em redor dos seus olhos negros. Dando a Black uma expressão astuta.
–É claro que entendo se Dumbledore não confiar em mim, mas não posso prometer que vou ficar longe dela sem mentir, e não quero mentir para você.
O sorriso voltando ao seu rosto lhe dando um ar jovem e despreocupado. Fez uma mesura e saiu sem dizer mais nada.
Flamel suspirou, tinha o pressentimento que aquela moça não terminaria bem cercada como estava por forças maiores do que podia controlar. Era sem dúvida corajosa e leal, e pensou que seria bastante interessante conhecê-la e quem sabe ajudar a impedir que o mundo bruxo a ferisse. Apagou a lareira e foi se juntar a sua esposa.
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