CAPÍTULO 10
“Mãe!!! Teddy voltou de viagem!! Ele vem aqui hoje!!” Emma falou assim que viu a mãe descendo as escadas.
“Sua tia Ginny já me contou, querida. Que ótima notícia!” Hermione falou sorrindo, beijando o rosto da garota.
“Estou morrendo de saudades dele...” Emma falou, sonhadora, abraçando a mãe.
“Querida, pensei que você e David iam visitar seu pai hoje...” Hermione falou.
“Hummm... passamos em casa ontem, mas não o achamos...” Emma falou rapidamente, desvencilhando-se do abraço e ficando de costas, foi mexer em algumas revistas sobre a mesa da cozinha.
“É mesmo? Pensei que tinham ido ao cinema...” Hermione falou, desconfiada.
“Nós... nós fomos ao cinema! Fomos ver papai depois!” Ela explicou, atrapalhada.
“Ah, claro, entendo.” Hermione disse. “ A propósito, filha, não encontrei seus livros em Hogwarts...”
“Não? Oh... bem, acho que vou procurar melhor lá em casa, então...” A garota falou, sem conseguir disfarçar o embaraço, ainda folheando as revistas.
“Filhinha... o que você e seu irmão estavam tramando?” Hermione pressionou.
Emma voltou-se para a mãe. Não adiantava tentar enganá-la. “Nós só queremos que você e papai voltem...” Ela confessou.
“Emma, esse é um assunto meu e de seu pai...” Hermione falou, com suavidade.
“Eu sei, mãe. Mas ele te ama tanto... aposto que está afogando as mágoas no uísque de fogo... se ele tiver uma cirrose bruxa, ninguém vai conseguir suportá-lo!” Ela falou, preocupada.
Hermione riu, imaginando Snape com cirrose bruxa. Se o humor do morcego não era dos melhores quando todos os órgãos internos funcionavam, imagine com o fígado comprometido? Não queria nem pensar na possibilidade!
“Não se preocupe, filha. Eventualmente, seu pai e eu vamos conversar. Mas queremos fazer isso de forma natural e não por um encontro arranjado, entende?” Hermione explicou. Os filhos nem sonhavam que a idéia deles acabara dando certo.
“Tá bom, mãe. Desculpa...” A garota pediu.
Hermione ia responder quando ouviram batidas na porta. Aparentemente, os Lupin haviam chegado. Emma saiu correndo. Ah, os jovens apaixonados... Hermione pensou, olhando a filha. E, lembrando da tarde anterior com Severus, percebeu que sentia-se exatamente como a filha adolescente.
Snape aparatou em casa, ansioso pelo dia que se anunciava. Se tivesse sorte, Hermione viria junto com os filhos. E ele usaria todo o seu poder de persuasão para fazê-la ficar. Para sempre.
Animado, o bruxo, com a varinha, fez uma faxina geral na casa. Tudo precisava estar impecável!! Sobre a estante de livros, encontrou a carta do Ministério da Magia. Xingando baixinho, guardou-a no bolso das vestes. Precisava resolver isso, antes que o prazo se esgotasse e ele ficasse sem a varinha. Uma pena que Dumbledore tivesse morrido. Ele conhecia todo mundo no ministério e poderia dar um jeitinho no seu problema. Pensando em pessoas ‘vivas’ que poderiam auxiliá-lo, Severus foi listando mentalmente os nomes. Arthur Weasley, Percy Weasley, Ronald Weasley... não... não pediria nada a ninguém daquela família! O mundo bruxo precisava tomar cuidado! Logo os cabeças-de-fósforo dominariam o ministério! Kingsley Shaklebolt! Não... o ex-ministro não ia com a cara dele... E ele desconfiava que o tal tinha uma queda por Hermione. Nem pensar! Ted Lupin... NUNCA! Snape havia esgotado as possibilidades, mas jamais pediria qualquer favor àquela colônia de férias para pulgas! Sentando-se no sofá da sala, o bruxo passou a mão pelos cabelos longos. Como poderia se livrar das aulas de reciclagem em magia? Será que o título de diretor de Hogwarts não lhe valia para nada? Olhou o pergaminho mais uma vez. Voltou a listar o nome dos conhecidos que trabalhavam lá dentro, repensando nos motivos que o fizeram rejeitá-los como potenciais facilitadores.
Ted Lupin... Teddy Lupin... Teddy... Namoradinho de sua filha... Filho de Remus John Lupin! ‘Moony’ Remus Lupin... Snape sentiu uma náusea súbita e recostou-se contra o encosto do sofá. Teddy gostava muito de sua filhinha... Faria qualquer coisa para ter a aprovação do pai dela... Snape arregalou os olhos. Endireitou-se no sofá. Teddy Lupin resolveria sua situação junto ao ministério e ele facilitaria o namoro dos dois! Fazendo uma cara de deboche, Snape deu uma risadinha. Ele fingiria que aceitaria o namoro por uns tempos. Depois, arrumaria uma forma de separar o acampamento juvenil para pulgas da sua doce filhinha!
Satisfeito, Snape levantou-se do sofá e continuou a arrumação da casa. Por onde será que andava a alcatéia de dois lobos raquíticos? Precisava encontrar o garoto o quanto antes. Pelo que lera no jornal, ele não lembrava do feitiço da aparatação inversa. Mas, se lembrasse, não seria nada que um ‘obliviate’ não resolvesse! Snape deu de ombros. Estava resolvido! Bastava encontrar o garoto! Quanto tempo ele precisaria fingir que aceitava o namoro? Umas duas horas seriam suficientes? Snape ponderava, enquanto andava pela casa, ajeitando tudo. O bruxo até arriscou-se a assoviar uma canção dos seus tempos de garoto...
“Hermione, não sabia que você estaria aqui em Grimmauld Place hoje!” Remus Lupin falou, sorrindo para ela.
“Oh, Lupin... pois é... eu e as crianças estamos aqui há alguns dias...” Ela falou sem entrar em detalhes.
“Mione finalmente largou aquele bruxo ensebado!” Harry falou, feliz.
“Obrigada, Harry, mas acho que consigo conduzir uma conversa com Remus sem sua ajuda...” Hermione alfinetou o amigo.
“Hermione? É verdade mesmo? Separou-se de Severus?” Remus perguntou, não disfarçando o interesse.
“Digamos que nós demos um tempo, Remus. Apenas isso.” Ela falou a contragosto.
“Até ontem pela manhã você dizia que era para sempre...” Harry acusou.
Hermione o olhou com cara de poucos amigos. “Harry, pela milésima vez, fique fora disso, ou eu estuporo você!” Ela ameaçou.
Harry olhou para Lupin. “Remus, quer beber alguma coisa? Acho que tenho um uísque de fogo envelhecido em algum lugar...”
Lupin assentiu. “Gostaria muito, Harry.” Ele aceitou, esperando o amigo sair da sala para falar novamente.
“Desculpe-me, Mione. Não queria causar uma situação entre vocês...” Ele falou, aproximando-se dela.
“Tudo bem, Remus... Harry detesta Severus de qualquer jeito! Ele sempre vai arrumar alguma desculpa para falar mal dele...”
“Mas, então vocês estão separados mesmo?” Lupin insistiu.
“Estávamos.” Ela confirmou.
“Devo supor que estão voltando?” Ele insistiu mais uma vez.
“Ah, Remus... acho que sim... não sei ainda.” Ela admitiu, confusa.
“Desculpe-me a insistência, Hermione, mas se quiser falar sobre o assunto, sabe que sou um bom ouvinte.” Ele se ofereceu.
“Eu sei, Remus. Obrigada.”
“Espero que o motivo não tenha sido o feitiço que ele lançou em mim e Teddy...” Ele falou, baixinho.
“Você lembra do feitiço?” Hermione perguntou, apavorada.
“Claro, Mione... Teddy pensa que eu não lembro mesmo, como ele. E eu não vou revelar a verdade, para não prejudicar o namoro dele com Emma.” Lupin explicou.
“Oh, Remus... nem sei o que dizer...” Ela falou, com vergonha.
“Não precisa dizer nada. Não é culpa sua.” Ele a tranqüilizou.
“Bom, não foi o feitiço... o motivo...” Ela falou.
“Humm... e quer me contar qual foi? O motivo?” Remus perguntou.
“Lily.”
“Ãhnn?”
“Lily. O motivo.”
“Lily Potter?”
“Sim.”
“Como Lily, morta há quase 40 anos, pode ser o motivo?” Ele perguntou, espantado.
“Ah... Remus... você não entenderia...” Ela falou.
“Posso lhe surpreender... Conte-me. Talvez eu possa lhe ajudar.” Ele se ofereceu.
Hermione, então, confidenciou as suas inseguranças para o amigo e ele a escutou por um longo tempo.
“Mione, você sabe que Snape e eu temos problemas... Na verdade, ele tem problemas comigo e eu não lhe tiro a razão! Em nosso tempo como estudantes, posso não tê-lo atacado pessoalmente, mas certamente pequei por omissão, e isso é imperdoável.”
Ela permaneceu quieta.
“Mas, apesar de tudo, tenho absoluta certeza de que ele a ama. E, por ter acompanhado de perto a relação dele com Lily, posso afirmar que nada se compara ao que vocês dois têm. Estou falando de cumplicidade, entendimento, atração física... eu percebo essas coisas mais do que as outras pessoas, por conta dos meus instintos aguçados, você sabe.” Lupin fez uma pausa. “E você tem idéia do risco que Snape correu ao lançar o feitiço do aparatação inversa? Ele poderia ter tido sua varinha suspensa! Imagino que o ministério tenha relevado tal contravenção devido aos feitos dele no passado... ou ele estaria em maus lençóis bruxos, Hermione!” Lupin completou.
Hermione concordou com um movimento de cabeça. “Remus, por quê está se dando ao trabalho de defender Severus de forma tão veemente? Ele não faria isso por você!” Ela perguntou, curiosa.
Remus sorriu. “Aí é que você se engana, Mione! Severus faria isso por mim, se fosse necessário. Ele me detesta, é verdade. Mas ao mesmo tempo, seu senso de ética é mais forte. Veja só, ele preparou a poção do acônito para mim por muitos anos... Você sabe disso, acompanhou de perto... Inclusive, se não me engano, não fosse pelo lobisomem aqui presente, talvez você e Severus nem tivessem se envolvido romanticamente! Estou errado?” Lupin quis saber, ainda sorrindo.
“É verdade, Lupin.” Ela concordou, pensativa.
“E ele somente lançou o feitiço em mim e Teddy porque sabia que não nos causaria um mal irremediável...” Ele completou.
Hermione o olhou, desconfiada. “Não sei se Severus tem este tipo de discernimento, Remus...”
Remus deu uma risadinha. “Ah! Não espere que ele fique se mortificando com as atitudes extremas que toma! Essa característica realmente ele não tem! Afinal, minha amiga, ele só foi um comensal da morte porque tinha o perfil apropriado para isso! Ou você acha que Voldemort o aceitaria se ele tivesse o temperamento como o meu? Ou de Ron?” O lobo explicou.
“Então, devo entender que, apesar de Severus o tratar sempre com desprezo e grosseria, você o admira?” Ela perguntou, incrédula.
“Digamos que eu o admire, até certo ponto.” Lupin ponderou. “Teve um tempo em que eu cheguei a invejá-lo... Mas isso são águas passadas...” Ele falou, pensativo. Voltando a sorrir, Lupin concluiu. “E, como seu amigo, interessado na sua felicidade e na tranqüilidade do meu filho, sugiro que vá procurar por este bruxo insuportável que chama de marido!”
Hermione riu. “Já entendi! Todo esse discurso só para que eu volte para Severus e, assim, ele não atrapalhe o namoro do seu filho, não é? Lupin, você é um cachorro!” Ela brincou, abraçando o amigo.
Lupin retribuiu o abraço. “Se Severus não a tratar como você merece, me avise. Eu vou pessoalmente lá dar uma mordida naquele morcego velho!” Ele falou, dando-lhe uma piscadinha.
Harry voltava à sala com uma garrafa muito empoeirada nas mãos. Aproveitando a chegada do amigo, ela despediu-se com a desculpa de que tinha assuntos a resolver. Na verdade, ela os tinha. Seu assunto estava, no exato momento, em Northon Street, na Londres Bruxa. E foi para este endereço que Hermione aparatou, com o coração saltando no peito.
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