CAP-16 – Uma voz na mata
CAP-16 – Uma voz na mata
Xingu,
Lina tinha dormido pesadamente após o incidente com a mulas sem cabeça. Acordou ainda se sentindo cansada, encontrou Miranda arrumando suas coisas num canto da barraca. Era incrível como ela permanecia linda e bem arrumada apesar de estarem no meio da mata e de todos os perigos que passaram.
- Bom dia - Disse Miranda friamente sem se virar para ela.
- Bom dia - Respondeu Lina educadamente.
Apesar de serem as duas únicas mulheres no grupo, as duas não se falavam muito. Eram completamente diferentes. E Lina sentia que Miranda não tinha muita simpatia por ela.
- Foi você que me ajudou ontem, não foi? Eu acabei desmaiando, Você deve me julgar uma fraca.
- Não é fraqueza, sucumbir a uma criatura daquelas. Mesmo aurores treinados não conseguem resistir. Me lembro de uma vez quando ainda estava na academia de aurores, e minha turma foi convidada, para uma palestra com o Prof. Matias Ferraz. Todos estavam ansiosos, o Homem é uma lenda. Nos fizeram entrar numa sala ampla e aguardar o Sr. Ferraz. Só que ao invés dele, foi um monstro desses que entrou na sala. Não tinha nem metade do tamanho desses que enfrentamos ontem à noite. Mas todos os alunos se descontrolaram, poucos conseguiram se lembrar de como agir. No final o Sr. Ferraz entrou na sala e controlou rapidamente o animal. E assim, com todos abalados pelo pavor ele começou sua palestra.
Miranda se virou para Lina – Eu posso não ter treinamento de auror, mas isso não me faz uma bruxa mais fraca. Mas não é o momento para discutirmos isso. – E saiu da barraca sem dar chance de Lina responder.
Harry e Rony estavam sentados comendo, quando Miranda passou por eles sem cumprimenta-los, se dirigiu direto a Virgílio que ajudava Julião a desmontar a barraca.
- Parece que esses dois se dão muito bem, não acha? – Perguntou Rony provacando Harry.
- Isso não é problema nosso, ou por acaso se esqueceu por que estamos aqui?
Rony fechou a cara e não respondeu, se levantou e foi ajudar Emílio a desmontar a outra barraca. Harry foi atrás, percebendo a bobagem que havia dito.
- Desculpe cara, eu sei que você não esqueceu de Hermione.
- Tudo bem – respondeu Rony ainda carrancudo.
Harry achou melhor deixar o amigo esfriar a cabeça. E foi observar junto com Julião os restos do acampamento anterior.
- Não há duvidas, foram eles mesmos que passaram por aqui. Vamos seguir o rastro deles, parece que saíram da trilha – Disse Julião. – Agora estou em dúvida, o Mapa diz para seguirmos a trilha, mas a expedição anterior era acompanhada pelos curupiras, por isso devem Ter tomado o caminho mais correto.
- Vamos seguir os rastros para ver até onde vão se o caminho estiver estranho, voltamos e seguimos pela trilha. – Sugeriu Emílio. Rony concordou pois achava que a primeira expedição podia ter seguido por um atalho. E com isso ganhado tempo.
E acabaram por seguir o rastros, para fora da trilha, novamente o caminho se tornou tortuoso. Estavam subindo, os rastros eram claros e levavam para uma área escura da floresta, mas parecia definitivamente ser um caminho. Julião consultou o mapa e julgou que aquele caminho contornaria um pequeno morro que teriam que subir se continuassem pela trilha. Então acho melhor prosseguir por ali.
Caminharam umas duas horas dentro da mata fechada, quando começaram a ouvir um som ao longe. Parecia uma pessoa chamando.
Todos pararam intrigados. Miranda reconheceu a voz da Prof. Bruni. Rony achou que a voz parecia com a de Neville. Porém o som parou e não ouviram mais nada apenas o silencio na mata fechada.
Voltaram a avançar, Os rastros continuavam bastante claros e Julião parecia bastante seguro do caminho que agora começava a subir lentamente.
Enquanto caminhava Harry ainda pensava nas conversas que teve com Lina e Virgílio, o passado do Iaguara não lhe saia da cabeça, seu instinto lhe dizia que essa expedição estava ligada diretamente com os atos do bruxo maligno. Aproveitando que Virgílio estava a sua frente. Harry se dirigiu a ele.
- O que acha do Diretor Ferraz? – Perguntou, direto sem rodeios, mas com a voz baixa como se falasse algo secreto.
Virgílio sorriu, parou para beber água do seu cantil, aproveitando para deixar que os outros passassem por eles, quando todos já estavam um pouco a frente ele falou.
- Parece que você concorda com as suspeitas de Lina. Marcos Ferraz, filho do grande Matias Ferraz, é um burocrata sempre ofuscado pela fama do pai. Acho que é o homem certo no cargo certo, comandando e cobrando das pessoas. Ele mesmo não era um auror muito brilhante, mas sempre foi político e se valeu do renome do pai para conseguir cargos importantes. O pai o apoia em tudo talvez por se sentir culpado pela morte do outro filho.
Harry fez uma cara de quem estava interessado em saber mais e Virgílio prosseguiu.
O irmão dele eu um Guarapaka. Você pode imaginar isso? O filho de Matias Ferraz era partidário do Iaguara. E pior acabou morto em batalha.
- Muito interessante e surpreendente – Disse Harry quase num sussurro, a mente do rapaz girava tentando ligar os pontos e comprovar uma possível colaboração do diretor com o Iaguara.
Virgílio sorriu maliciosamente e disse: - Resta saber se o diretor também está ligado aos Guarapakas. Alguém no ministério fornece informações, e ele em grande acesso a elas. – Fez uma pausa e como Harry ficou parado e pensativo ele voltou a caminhar. Harry foi atrás apertando o passo para alcançarem os outros
A Mata foi ficando bem mais fechada e uma névoa fraca começava a subir da vegetação, efeito do calor do dia sobre a umidade acumulada durante a noite. O clima era estranho. As plantas pareciam diferentes, antigas e hostis, O bonito verde da mata era substituído por uma cor escura de musgo, o chão era cheio de raízes e muitos cipós pendiam das copas das árvores e atrapalhavam ainda mais o caminho. Uma escuridão quase noturna dominava o ambiente.
Devido as dificuldades Julião resolveu fazer mais uma parada. Consultou o mapa e olhou os rastros. Continuavam claramente indicando um caminho ladeira acima. Só que subitamente ele entendeu o que estava havendo.
- Uma armadilha, essa trilha deve ser falsa os Curupiras estão tentando nos confundir – Disse sem muita certeza. Mas deixou todos inseguros, Logo se iniciou uma calorosa discussão sobre que caminho deveriam seguir.
Nesse instante voltaram a ouvir o som que lembrava alguém chamando. Harry teve quase certeza de que era Neville, apesar do som parecer estar muito distante.
Emílio de um passo e tropeçou em algo, quando se virou para ver o que era, seu pé foi puxado para o alto, um enorme cipó o agarrara e a agora se enrolava, por todo seu corpo enquanto era carregado para o alto da copa das árvores.
Julião caiu sentado enquanto lutava com outro cipó. Vários deles desciam das árvores ou se levantavam do chão.
- Endiab – Uma forte luz saiu da varinha de Miranda e os cipós se afastaram dela.
- Essa planta não gosta de luz, por isso está na parte mais escura da floresta. – Avisou. E logo depois apontou a luz na direção de Emílio.
A estratégia de Miranda deu certo, enquanto todos acendiam suas varinhas fazendo os cipós recuarem para longe deles, Emílio despencava abandonado pelas plantas.
Com muita rapidez Rony consegui fazer o corpo de Emílio flutuar amortecendo sua queda.
Tudo parecia ter se acalmado, quando a voz misteriosa voltou, agora muito próxima e claramente pedindo por socorro.
- Alguém está pedindo ajuda! – Disse Lina.
- Devemos voltar para a trilha. – Disse Julião – Já perdemos muito tempo com essa artimanha dos curupiras. E esses gritos não me soam bem.
- Temos que ajudar – disse Harry – E a voz é muito parecida com a de Neville. – Sua tendência para o heroísmo sempre o metia em encrencas e Rony sabia disso, estava muito indeciso sobre o que fazer e não se manifestou, O Sr. Vaques também não disse nada mas obviamente concordava com Julião.
- Temos que pensar com calma e não tomarmos decisões precipitadas – Disse Virgílio, mostrando sensatez.
A voz chamou novamente ainda mais próxima,
- Fiquem aqui eu vou lá – disse Harry já andando em direção ao som.
- Vou com você - disse Lina.
- Então vamos todos – Disse Emílio e essa foi a decisão final pois todos foram atrás de Harry, Julião ainda hesitou, ficou parado por um breve instante, mas balançando a cabeça negativamente seguiu os outros.