Tudo isso é tão diferente que se na semana passada alguém viesse me dizer que eu estaria passando por isso hoje eu chamaria essa pessoa de louca. Desde que saímos de casa e aparatamos em Sutton, conhecemos o tal Old Wilson Pub, e as bebidas começaram a ser servidas, tudo que consigo fazer é rir. E agora, como se tudo isso não fosse suficiente, chegam essas mulheres e começam a... hum... tirar a roupa!
O único problema seria se Hermione e Ginny chegarem, porque não acho que elas ficariam muito satisfeitas ao verem Jen e Sonia, as convidadas de Fred e George, sendo tão..., sei lá, ousadas, por assim dizer. Mas Fred garantiu que a idéia dele as atrasaria pelo menos uns quarenta minutos, e isso é mais do que o suficiente. Ok, talvez não seja.
O Fred também reservou uma sala privada no pub, para que as convidadas pudessem ficar mais à vontade. Tudo bem que elas estão dando mais atenção pro Bill, porque ele é o noivo, e pro Harry, porque ele é o aniversariante, e os dois estão meio tímidos, como se fosse errado passar a mão nelas ou algo assim... não os culpo, mas você tem que ser forte, quero dizer, uma mulher dessas sentada no seu colo e você não fazer nada?
A sala que o Fred reservou é uma portinha modesta num corredor depois do bar do pub, mas por dentro é quase um outro pub. Eu estou no meu primeiro copo de Vinho dos Elfos, e eles me chamaram de mulherzinha, mas mesmo assim eu quis começar com algo fraco. O Harry parece meio alterado, e serão precisos só mais uns três goles de Firewhisky pra que ele pare de resistir aos encantos da Jen. Não quero dizer que ele vai... fazer sexo com ela ou algo assim. Nem tem quartos aqui, e acho que a intenção de Fred e George não é essa. Mas é que o Harry está realmente tenso, como se ele não pudesse estar fazendo isso. E ele não namora mais com a minha irmã, então não tem nada de errado, tem? Ele prometeu que ia aproveitar os nossos últimos dias.
Vou até ele, que se vira. De perto, me surpreendo com sua cara – parece apavorado. O suor escorre pela testa e ele parece pálido. “Harry, quem te visse diria que você está diante de um dementador e não de uma mulher dessas. Pra ser sincero acho que diante dos dementadores você é até mais corajoso. O que é que há cara?”
Ele olha pros lados e se certifica que os outros estão entretidos com as mulheres. Me olha nervosamente e começa a cochichar. “Eu não sei, cara. Elas são... lindas e tudo mais, mas não parece... não é certo, entende? Eu não me sinto bem.”
“Harry, pode me dizer. Você é gay?”, não consigo deixar de dizer, com um sorriso largo. Antes que ele possa me socar ou algo assim, me desculpo. “É brincadeira, cara. Eu acho que eu te entendo, mesmo sendo meio estranho. Só não deixe os gêmeos perceberem, vai ser combustível pras piadas deles sobre você até o próximo século.” Ele faz menção de sorrir em gratidão pela minha compreensão mas parece nervoso demais pra isso.
Volto à mesa em que eu estava e olho ao redor. Lupin está ao meu lado, bebendo de um copo com um líquido azulado. Ele olha divertido para os meus irmãos, na outra mesa; Harry pega sua cadeira e se junta a mim e ao Lupin, ainda um pouco pálido. Fred e Charlie estão bem entretidos com Sonia, embora Fred pareça meio contido – o que deve ser impressão minha -, enquanto George tenta convencer Bill de que não há nada de errado em tirar o top de Jen, a outra stripper. Eu realmente adoraria que Bill tivesse coragem, porque não faria nenhum mal vê-la de sutiã, mas acho que ele não vai fazer isso. E eu realmente admiro essa fidelidade por parte dele, que é ainda mais valiosa se considerarmos que Fred e George jamais o perdoarão por isso. Mas, de certa forma, acho que é um pouco de preocupação demais da parte dele. Quero dizer, ok, ele vai se casar amanhã, a mulher dele é uma veela, ele a ama e tudo mais. Mas ela não vai saber de nada, em primeiro lugar; em segundo, que mal faz se ele aproveitar isso tudo hoje? Se ele ama a Fleur, então não há nada de mais, já que não vai significar nada tocar na stripper, não emocionalmente. Além disso, ele vai se casar, o que significa em teoria que ele nunca mais terá outra mulher na vida. Enfim, essa fidelidade dele deve ser algum tipo de extensão do poder de veela, agindo sobre ele até quando ela não está por perto.
Por outro lado, eu entendo o nervosismo do Harry. Acho que falta um pouco de bebida pra ele se soltar. Toda essa história com a Ginny, e o fato de sermos irmãos dela, devem estar deixando o cara constrangido – não que ele tenha motivos, até porque já terminou o namoro. Ou então a presença do Remus, que é quase como um... tio ou algo assim pra ele – isso também deve estar deixando Harry envergonhado.
“Pensando na vida?”
Remus me tira do transe e olha pra mim, divertido, o copo de bebida na mão. Harry parece muito concentrado em algo no fundo da garrafa de Cerveja Amanteigada.
“É, Lupin, não é exatamente o que eu deveria estar fazendo diante dessas duas moças mas sim, estou pensando na vida.” Ele me oferece o copo para um brinde e eu me pergunto se já estaria bêbado. “À vida, então” , ele diz. “Gostaria muito de me divertir com vocês junto a essas belas damas, mas a minha bela dama está estranhamente atrasada e eu acho que devo ver o que aconteceu.”
“Como assim? A Tonks foi convidada?”
“Digamos que ela foi tão convidada quando sua irmã e a Hermione. Mas sim, ela virá, e já deveria estar aqui. Vou aparatar em casa pra ver por que ela ainda não veio.”
“Certo. Pode deixar que eu aviso Fred e George.” Ele meneia a cabeça e desaparata. Será que aconteceu algo com a Tonks? Porque se ela não viesse teria avisado, e se fosse vir já teria vindo. Já passa mais de uma hora desde que chegamos. Sinto arrepios só de imaginar que algo possa ter acontecido com a Tonks, porque seria nossa culpa; Quando viemos, Remus aparatou na frente para checar as redondezas e ver se seria seguro para nós, e por isso ela ficou sozinha. De qualquer maneira, a Tonks sabe se cuidar, e mulheres sempre demoram anos pra ficarem prontas, então é provavelmente algo relacionado à maquiagem que saiu errada ou um cacho de cabelo fora do lugar. Fora que a Tonks pode mudar a aparência o quanto quiser, então ela deve ficar realmente indecisa quando sai. Pobre Remus.
“Será que aconteceu algo sério, Ron? Sabe, eu acho que vou junto. O que você acha?” Harry se vira pra mim e parece ligeiramente mais solto, a voz levemente mole. “Harry, mesmo se você fosse a algum lugar com o Remus, não poderia mais porque ele já se foi. Vejo que você está mais relaxado. Acha que já dá pra irmos até a outra mesa?” Digo, com um sorriso enviesado. Ele faz que sim com a cabeça e se levanta, apoiado na mesa. “É, acho que posso fazer isso, sim.”
A outra mesa está bem mais animada, é claro. George cansou de tentar fazer Bill entender que não tem nada demais interagir com as moças e está interagindo ele mesmo – com as duas. Fred, Charlie e Bill conversam animadamente e nós nos juntamos a eles.
Charlie nota nossa presença. “E aí, rapazes! Como está sendo a primeira festa de despedida de vocês, ahn? Aposto que nunca tinham visto nada assim!” , e acredito que o ‘assim’ se referia a Jen e Sonia. Antes que possamos responder, ele olha intrigado. “Onde foi o Remus?”
Harry não parece estar querendo responder, então eu explico. “Parece que a Tonks está atrasada e ele foi ver o que houve ou algo assim.” Fred pula da cadeira na mesma hora. “George, é hora de compartilhar as digníssimas senhoras. Logo mais nossas convidadas estarão aí e não queremos chocá-las, não é?”
“Claro, claro Fred. Rapazes” , ele se desvencilha das moças e começa, de forma pomposa, “agora o show realmente começa. Acomodem-se e encham seus copos.” George se senta e as moças sorriem, uma do lado da outra, e vão para o fundo da sala.
Harry e eu enchemos os copos de Firewhiskey e nos olhamos. “De uma vez?”, eu pergunto, e ele afirma com a cabeça. “Um..., dois... TRÊS!” , ele diz, e bebemos num gole só. De imediato parece ruim e eu faço uma careta. Mas no final eu sinto tudo muito quente por dentro e uma sensação de estremo bem-estar e conforto toma conta de mim. As moças voltam do fundo da sala e uma música... sensual, por assim dizer, começa a tocar. A batida é lenta e suave, e parece tão embriagante quanto o copo que eu tomei – certo, exagerei, não é pra tanto, mas é realmente bem... envolvente. E elas começam a dançar, sem sincronia, mas da maneira mais incrível que eu já vi uma mulher dançando (provavelmente porque eu nunca tinha visto nenhuma, mas ainda assim é incrível).
E eu não sei muito bem o que acontece depois, porque durante alguns minutos, tudo o que consegui pensar foi em o quão transparente pode ser uma lingerie, ou em quanto tempo eu tiraria a roupa dela, - delas – e eu tenho certeza que seria rápido. Meus pensamentos foram invadidos por imagens de mãos e corpos em movimento e peças de roupa sendo jogadas.
Passado um tempo de dança e mais uns copos de bebida, minha mente ficou branca, vazia, durante alguns minutos. Elas dançavam cada vez mais perto e, quando isso acontecia, eu ficava mais e mais ofegante – agora entendo porque o Harry suava frio. E tudo pareceu realmente um sonho quando ela se sentou no meu colo. Eu realmente não sei qual foi, Jen ou Sony ou seja lá quais forem os nomes. Ela estava sentada de frente pra mim, e não parou de dançar a tal música hipnotizante um momento sequer, nem enquanto estava sentada, o que provocou uma leve sensação de formigamento no meu... baixo ventre.
Ouço risadas ao fundo, provavelmente uma reação dos meus irmãos à minha falta de ação. Mais um gole do Firewhiskey e ponho as mãos nas pernas dela – reparei que ela já estava quase sem roupa, aquele sutiã é bem pequeno – ou os peitos dela que são grandes? Ela continua dançando por muito tempo, e a minha calça jeans começa a ficar constrangedoramente apertada. Depois de um tempo ela me beija no rosto, – bem perto da boca, tenho que admitir – sorri de uma maneira incrivelmente sexy e se levanta para atacar outro Weasley indefeso.
E eu não sei quem é o felizardo agora, porque estou com um problema aqui embaixo e preciso resolver isso com urgência. Passo a mão pela testa e tiro o suor, enquanto respiro fundo pra ver se meu coração bate mais devagar. Quero dizer, é... vergonhoso ficar assim, mesmo que seja normal. Afinal, eu tinha uma mulher seminua no meu colo, tenho 17 anos e sou um garoto. Se nada acontecesse comigo aí sim eu que poderia considerar que tenho algum problema. Mesmo assim, não acho bonito ficar andando por aí desse jeito.
“Agora entende porque eu suava frio? Não sabia que você também era gay, Ron”, Harry me dá um tapinha nas costas e sorri, malicioso. “Acha que é fácil agüentar isso?” , e eu concordo, mas apenas sorrio de volta - um sorriso meio amarelo, porque na verdade reconheci que essa stripper é muito cruel. Percebo que Charlie nota meu ‘nervosismo’. “Ron, tem algo errado aí embaixo, cara?” Ele gargalha e me olha na direção da cintura, e eu imediatamente torço pra que os gêmeos não tenham escutado. “É, meu irmãozinho cresceu. Desculpe, sei que isso é horrível” , ele diz, provavelmente diante da minha careta, “mas acho que posso te ajudar.”
“Hey, como assim Charlie?!”, eu digo em voz alta, e Harry olha pra ele com cara de assustado. “Não, não, não...” , ele se apressa em dizer, as mãos levantadas, “nada disso, tá louco? Quero dizer, tem algo que nós costumamos tomar quando não tem jeito... enfim, quando acontece algum acidente e você não pode... quando não há um banheiro por perto, nem nenhum outro jeito de se... aliviar. Entende?”
Ainda tô achando meio estranho, mas dou o crédito. “Ahn. E o que é?”
“As presas do Dragão Peruano são conhecidas por seu efeito afrodisíaco...”
Eu o interrompo. “Charlie, pelo amor de Merlim. Se tem algo que eu realmente não preciso agora é de ficar mais... animado.”
“Ron, dá pra parar de me interromper e ouvir até o final? Como eu ia dizendo, as presas servem como ingrediente principal para poções afrodisíacas. Mas também têm o efeito contrário naqueles que já estão, digamos, prontos para a festa. Ou seja, a poção acaba com seus problemas assim que tomada. Ela... te desanima, caso você esteja animado. E te anima caso você não esteja dando conta, mas esse não é o seu caso, claro.”
Ignoro a piada e o sorriso malicioso no final. “Não, mas... e se eu tomar uma quantidade muito grande e as presas provocarem o efeito contrário? Ou pior, que a poção me... me... desabilite permanentemente! Além do mais, como vou fazer uma poção com presas de dragão agora, por Merlin, onde vou arrumar uma presa de dragão peruano agora?”
Ele suspira. “Ron, nessa idade que você está é normal precisar de poções assim. Eu tomava sempre que era necessário e posso te garantir que não tive problemas posteriores nesse campo.” Faço uma careta pela simples imagem mental do meu irmão precisando de algo assim. “É constrangedor ficar... desse jeito, e é claro que você não vai precisar fazer a poção agora e nem morder as presas ou algo assim. Eu já tenho um vidrinho aqui comigo, sabia que seria útil hoje.”
“Tem certeza que é seguro? E quantas horas depois eu posso... hum...”
Ele dá uma risada e fala “irmãozinho, eu tenho certeza de que você não vai precisar do seu amigo aí embaixo hoje. Mas fique tranqüilo, porque a dose resolve o problema imediatamente, e dentro de uma hora você já estará pronto pra outra.”
Não gostei do “tenho certeza de que você não vai precisar do seu amigo aí”, como ele pode saber? Mas mesmo assim aceito o vidrinho que ele me dá. Ele explica que antes de tomar é só pingar sete gotas de Firewhiskey na poção, pois assim ela se ativa, e termina: “Só uma coisa. Essa poção só deve ser usada em casos de emergência – tanto pra uma intenção quanto prá outra. É sempre mais seguro fazer tudo da maneira mais natural. E não use pro outro fim, quero dizer, para te deixar pronto pra diversão. Porque você é novo e não precisa disso, e pode acabar se acostumando e não conseguir mais... sem a poção.”
Eu respiro fundo e reconheço que a gravidade da situação pede medidas drásticas, mas prometo a mim mesmo nunca mais vou tomar isso se não for realmente necessário. Hermione provavelmente virá à festa e não quero que ela me veja assim. Ou quero? Ohn não, pensar nela só piorou a situação toda. Agora a poção certamente será necessária. Pingo as gotas de Firewhisky e bebo o líquido âmbar do vidrinho, fluido como água.
Alguns segundos depois, sinto minha calça ficando mais larga e o sangue fluindo de volta para o meu corpo, e agradeço Charlie, que agora conversa com Harry sobre as possibilidades caso alguém erre na dose de pó de presa de dragão peruano na poção. Nem tinha notado, mas olhando pro lado vejo que as moças já se foram. Fred e George estão largados em suas cadeiras, com sorrisos de orelha a orelha, e parecem exaustos. Bill beberica de um copo à esquerda deles.
“Pessoal” , ele diz, “agora que o espetáculo acabou, acho que podemos ir para a área comum do pub, não é? Até porque as bebidas aqui já acabaram” , ele gesticula em direção às garrafas vazias nas duas mesas de madeira. A maioria de nós concorda, e aqueles que não estão em condições físicas de esboçar reações apenas levantam e nos seguem. Algumas portas e corredores depois entramos numa sala enorme, com um bar ao fundo, uma música tocando e dezenas de “cantos” com algumas almofadas no chão e várias mesas redondas e baixas. No canto, têm algumas mesas altas com cadeiras, mas todos preferimos as do chão. São como ambientes dentro do pub. Escolhemos um que ainda não está ocupado e providenciamos mais algumas almofadas, porque Ginny e Hermione, junto com Remus e Tonks, segundo os cálculos dos gêmeos, já estão quase chegando.
Bill pede mais bebidas e eu cutuco o Harry, que parece muito concentrado na parede, para ouvir as piadas do Fred. “E então o duende disse” , ele diz, e o ponto alto é a imitação da voz e dos trejeitos do duende, “o dinheiro não era pra você, era pra mim!” , e todos explodem em gargalhadas, provavelmente mais do que a piada mereceria se estivéssemos todos sóbrios.
“Eu vou ao banheiro”, digo, e me levanto. “Uoooou”, e me apóio na mesa pra não cair no chão. Agora percebi que estou um pouco tonto. Harry me segura pelo braço, mas também não parece muito bem, porque começa a falar e engasga nas primeiras palavras. Nós rimos e ele começa de novo, falando mole.
“Opa, cuidado aí, camarada. Não vai cair na frente dos seus irmãos, esses ruivos podem ser realmente maus, sabia?” , ele diz, a fala enrolada e um olhar que me lembra o da Luna, e nós rimos de novo disso porque foi realmente engraçado. Chego até o banheiro com algum esforço, me apoiando nas paredes.
E quando volto de lá, já aliviado e meio bêbado, reconheço de longe uma silhueta de cabelos meio cheios – só um pouco, porque parece que ela fez alguma coisa para tirar o volume ou algo assim. Alguém deveria dizer a ela que ela não deveria fazer isso, porque os cabelos dela são incríveis com todo aquele volume. Me aproximo da almofada onde ela está sentada, mas ela nem percebe, porque ri alto com a Ginny de alguma coisa. Ri alto? Ela não ri alto muito freqüentemente - mas deveria, porque fica linda quando faz isso. Me aproximo dela e sorrio.
“Oi, Hermione!”
“Já sei. Que tal um aquecimento?”
Ouço a voz da Tonks e olho pra ela, confusa. “Aquecimento?”, pergunto. “Pra quê? Como assim?” Não estou com paciência pra essas brincadeiras, depois de tudo o que houve. Já esperava algum tipo de reação por parte de Fred, depois que Ginny contou a maneira como agiu com ele – a chantagem e tudo mais. Mas já estávamos prontas! Quero dizer, se trocar à toa? Porque eu não vejo uma maneira de irmos tão cedo. Tonks não sabe onde é, e quem garante que Remus vai voltar para buscá-la logo? Pode ser daqui a dez minutos ou daqui a quatro horas. E, também, agora esse negócio de festa até perdeu a graça.
Ela se agacha na nossa frente, falando baixo. “Um aquecimento, ué. Já que não estamos na festa, a gente começa a nossa festa, por aqui mesmo. Uma garrafa de vinho deve dar.” Ela faz um movimento com a varinha e uma garrafa aparece em cima da mesa de centro. “Vamos? A gente pode esperar a Sra. Weasley ir dormir, o que não deve demorar, e ir até o jardim.”
Ahn, é claro que tinha que ter a ver com álcool. “Me desculpe, Tonks. Mas francamente, a Ginny é menor de idade, e eu não bebo, porque certamente não preciso disso pra me divertir.”
“Hey!” , Ginny diz, indignada. “Hermione, você não é minha mãe! Tonks, eu gostei da idéia, mas a gente não precisa esperar minha mãe ir dormir, podemos sair pela porta da sala de jantar! Vamos!”
“Não é possível que vocês sejam tão irresponsáveis!”, digo, descrente, enquanto observo-as levantarem-se. “Como é que vão aparatar se estiverem bêbadas, vocês sabem que é muito mais difícil aparatar-“
“Hermione,” Tonks interrompe, “ninguém vai ficar bêbada. A gente só vai beber um pouquinho pra relaxar. Vinho dos elfos é só um pouco mais forte que cerveja amanteigada, e...”
Vinho dos elfos? Essa foi a gota d’água. “Além de tudo, oferece Vinho dos elfos. Como se você não soubesse que eu jamais tomaria uma bebida fruto do trabalho escravo das pobres criaturas injustiçadas!”
“Hermione...” , Tonks diz calmamente, mas dessa vez ela vai me escutar. “Olha, Tonks, não compactuo com esse tipo de coisa, sinto muito. Você devia ter previsto, já não sou grande fã desse negócio de bebidas alcoólicas, agora, um vinho feito por elfos domésticos, francamente...”
“HERMIONE!” , ela grita, e eu páro de falar.
Ela suspira e começa, o tom maternal evidente. Me irrita no começo, mas eu não ouso interromper de novo porque embora ela soe compreensiva, parece bem enérgica. “Eu sei que você deve estar nervosa com tudo isso. O fato dos gêmeos terem passado vocês duas pra trás, a guerra e outros problemas... Você tem 17 anos, sei que não é justo enfrentarem tudo isso de uma vez. Mas eu não tenho culpa de nada, portanto não desconte em mim nem na Ginny. Você devia aproveitar momentos como esse pra deixar a tensão um pouco de lado e relaxar. Lembre-se que teremos tempos cada vez mais difíceis daqui pra frente e uma noite como a de hoje é como um.. oásis no meio de tudo isso.”
Eu já devo exibir algum tipo de expressão culpada, porque ela abranda mais o tom e continua. “Quanto ao Vinho dos elfos, é só o nome, porque a receita é de fato, originalmente, dos elfos domésticos. Mas não é fabricado por eles. E como eu dizia quando você me interrompeu, o Vinho é quase tão fraco quanto Cerveja Amanteigada, uma garrafa não deixaria nem a Winky bêbada. Eu não tenho a intenção de embebedar ninguém aqui, seria aliás muito difícil com a quantidade de Vinho que temos. Eu não seria irresponsável o bastante, como você disse – e você não precisa beber se não quiser, ninguém vai te obrigar.”
Mesmo um pouco contrariada, tenho que pedir desculpas, pelo menos por causa do escândalo dos Elfos domésticos. É curioso perceber como a gente pode mudar em tão pouco tempo; talvez, há uns seis meses atrás, eu não admitisse que a Tonks sequer falasse assim comigo. Mas, de qualquer forma, ela parece... estar com a razão - embora eu não concorde com a questão do álcool ainda.
“Hum,... ok, Tonks, desculpe. E desculpe, Ginny, por... querer dizer que você pode beber ou não. A vida é sua, mas ainda não acho certo, que fique registrado.” Ginny torce o nariz mas logo em seguida sorri pra mim. Tonks faz o mesmo. “Não esquenta”, Ginny diz. Tonks concorda e continua. “Essas coisas acontecem, só acho que você deveria... se preocupar menos com as coisas. Sei que é essa sua função, quero dizer, se você não se preocupar quem vai fazer isso?, mas às vezes isso faz com que pareça ter 30 anos a mais. E nós sabemos que você é uma pessoa incrível. Não pelos outros, mas por você – você deveria relaxar um pouco mais às vezes.”
Sei que ela... ok, eu assumo. Sei que ela tem razão, e dou um sorrisinho discreto em retribuição. Mas não gostei da maneira como ela falou, como se fosse a dona da razão, nem do momento, nem... Não gostei de ela ter falado, oras! Quem ela pensa que é?
Certo, não é pra tanto. A Tonks é uma pessoa legal, tem esse jeito descontraído e despreocupado que me irrita às vezes, mas é uma ótima pessoa. Não gosto que se intrometa na minha maneira de fazer as coisas, quero dizer, essa sou eu! E tenho consciência que me preocupo com as coisas, mas como ela mesma mencionou, é preciso me preocupar porque senão ninguém se preocupa. E nem é tanto assim; só o suficiente.
Eu até melhorei nos últimos tempos... Goste ou não, o incidente com o Ron e a Lavender me fez perceber o quão frágil eu posso ser – eu nem fazia idéia. E por isso me fizeram rever uma porção de coisas, inclusive na maneira como me comporto. Talvez a vida não seja feita apenas de reações racionais, fórmulas prontas e lógica, por mais que eu odeio admitir.
Ginny e Tonks saem em direção ao jardim e eu as sigo. Procuramos não fazer barulho pra não chamar a atenção dos Sr. e Sra. Weasley e, no jardim, nos acomodamos entre as raízes de uma árvore a leste da cozinha, não muito longe da casa. Sinto um arrepio; um vento meio frio começa a soprar e eu cruzo os braços. Tonks conjura três copos, enche-os e me oferece um. “Beba um gole. Ajuda a esquentar” , ela diz, amigável. Sinto remorso por ter pensado tão mal dela – ela não tem nada a ver com a minha vida, mas tenho certeza que falou porque se importa comigo. Aceito o copo, tomo um gole grande e a sensação de conforto e aquecimento se espalha pelo meu corpo.
Não tenho grandes problemas com bebidas, ainda mais se forem fracas, até porque sou maior de idade. Só me irritam os excessos, as pessoas bêbadas que não se lembram do que fazem, ou a necessidade de beber para socializar. Acho patético. De qualquer forma, tomo mais um gole grande do vinho, porque ela tinha razão – ajuda a esquentar.
“Eu conheço um jogo” , Tonks nos olha, ansiosa. “Chama-se ‘Eu nunca’. Conhecem?” Diante das nossas caras de confusão, ela explica. “É assim: quem começar diz algo que nunca fez. Tipo, ‘eu nunca fui no show das Esquisitonas’. Aí quem já tiver ido ao show bebe um gole do que tiver no copo. E assim por diante.”
“Ah. E a graça, naturalmente, está em falar coisas pessoais pra descobrir coisas sobre as outras pessoas”, constato em voz alta, e tento não parecer muito espantada nem agressiva, porque já não basta o escândalo que fiz agora há pouco. É óbvio que essa é uma daquelas brincadeiras que têm conotação... sexual, quero dizer, onde o objetivo é descobrir coisas bem pessoais sobre os participantes. E é traiçoeira, veja só, pois à medida que a brincadeira vai acontecendo, você vai bebendo mais e ficando mais solto pra falar sobre sua vida.
De qualquer forma, não vejo problema em brincar, mesmo porque não tenho muito pra denunciar da minha vida sexual – bem, eu não tenho uma vida sexual, de maneira que não vou ter problemas. Quando falo de vida sexual não me refiro ao... ato em si, mas de qualquer tipo de atividade com outra pessoa (que eu não tenho tido há um bom tempo), porque isso tudo é de certa forma vida sexual. Além disso, pela lógica do jogo, eu não vou beber muito porque não fiz muitas coisas pra poder beber. E, em terceiro, talvez a Tonks tenha razão – talvez eu devesse, só hoje, deixar as coisas acontecerem sem me preocupar muito com elas. Não que seja tão fácil fazer quanto é fácil falar, mas acho que posso tentar, ao menos hoje, diante de tudo que nos espera. Apago rápido da mente a imagem de “tudo que nos espera”, porque ela me inclina fortemente a ir pesquisar mais sobre os Horcruxes, enquanto Tonks concorda com a minha afirmação. “Claro que a graça é essa. Topam?” Eu faço que sim com a cabeça e Ginny me imita, e concorda em começar.
Ela faz uma cara de quem está bolando uma afirmação realmente bombástica, mas quando abre a boca tudo o que sai é a pérola “Eu nunca... tomei banho de roupa” , quase gaguejado. Claro que não esperava que ela mandasse uma boa assim, na lata, afinal ela teria um pouco de vergonha, e eu teria vergonha até por ela, também. Mas essa foi muito estúpida.
“Que tipo de afirmação é essa, Ginny?” , eu e Tonks perguntamos. Ela apenas ri, meio sem-graça. “Ah, eu não sabia o que falar.” Nenhuma de nós já tomou banho de roupa e, portanto, ninguém bebe nada.
Agora é minha vez, e eu me arrependo de ter falado da frase da Ginny. Quero dizer, o que você fala numa hora dessas? Dá vontade de afirmar várias coisas meio... picantes, só pra ver o que os outros fazem, se bebem ou não, mas as palavras não saem da boca. Ouço as duas dizendo pra eu ir logo, resmungo um “calma, tô pensando!” de volta, e bebo mais um pouco do vinho no meu copo. “Ahn, Tonks. É a primeira vez que brinco de algo assim, não faço idéia do que falar. Vai você, assim você dá um exemplo de como deve ser.” Boa.
Ela entorta o nariz mas concorda, talvez diante da minha cara de ‘por favooooooor?!’
“Ok, vou com uma leve então, mas é só pra vocês pegarem o espírito. Eu nunca... vi um cara pelado.”
A minha primeira reação foi a mesma da Ginny. Arregalamos os olhos e olhamos uma pra outra, um pouco de constrangidas, um pouco descrentes que a Tonks nunca tenha visto um cara pelado. Dou risada da afirmação, porque ela é absurda – é claro que a Tonks já viu um cara pelado. Dou um gole no vinho e sinto novamente a sensação de aquecimento e aconchego.
“Hey! Você já viu um cara pelado, Hermione!” Ginny me aponta acusadoramente, um sorriso malicioso na face. “E você nunca me contou!”
Ops, acho que bebi na hora errada. “Não!”, e tento parar de rir pra explicar. “Não, só me deu vontade de dar um gole, eu esqueci que tinha relação com o ‘Eu já’ da brincadeira, como sou idiota... Desculpem”, eu digo, entre gargalhadas de novo. As duas não param de rir da minha cara, é claro.
“Eu realmente nunca vi um cara pelado, a não ser... em fotos...” As duas arregalam os olhos e eu explico. “Não, não... não foi isso que quis dizer de novo, não é que eu compre essas revistas... é que eu li alguns livros sobre, vocês sabem... educação para... esses momentos.” A situação parece engraçada e eu rio no final. Tonks olha pra mim incrédula.
“Hermione, querida, aceite um conselho – os livros podem ser ótimos pra algumas horas, mas nesse caso, só a prática ensina.” Ela termina com um gole e Ginny não ri, apesar da expressão engraçada em seu rosto. Eu rio e me justifico. “É, eu acho que percebi isso... quero dizer, não é que eu esperasse que o livro me tornasse uma expert em algo assim, era só pra entender mais a fundo algumas questões, mas isso foi no 4º ano...”
“Sei, mais a fundo...” Ginny diz, rindo, e embora ela tenha distorcido totalmente o sentido das minhas palavras, não posso deixar de rir. “O ano do Baile de Inverno... Isso me lembra Krum!”
“Não, não teve nada a ver com ele...” Digo, mas acho que não sei mentir, porque eu mesma acho minha frase tão mentirosa que rio no final. Faço menção de tomar mais um gole do vinho e percebo que o copo está vazio – e como me sinto bem, quero dizer, não estou bêbada, e mais um pouco de vinho não vai fazer nenhum mal. Encho meu copo e as duas fazem o mesmo com os delas.
“Mas, Hermione” Tonks respira depois de tanta gargalhada, “cá entre nós. O que aconteceu com vocês dois... quero dizer, você e o Krum?”
Essa é a pergunta que eu temia, mas agora que ela veio não parece tão difícil de responder – não agora, não diante delas. Sorrio de lado e começo. “Não foi nada demais, Tonks. Ele... realmente gostava de mim e era um cara legal, e eu tinha 14 anos. Fiquei deslumbrada, só isso.”
“Ficou deslumbrada e...?” Ela diz, e eu sinto meu rosto ficando quente, provavelmente ruborizando. “É, eu... droga, tiveram um ou dois beijos, mas não foi nada mais que isso. Foi bem inocente, até.” Olhando pra trás, acho que não chamaria aquilo de beijo. Eu não tive nenhuma outra experiência, mas mesmo sem comparação sei que um beijo não é aquilo – sim, foi um beijo, mas... sei que deve existir mais do que aquilo. No campo dos beijos, quero dizer.
O mais curioso é que nós não conhecíamos a Tonks no 4º ano, o que me faz pensar como é que ela sabe de mim e do Krum. “Tonks, como é que você soube? Quero dizer, sobre o Baile de Inverno, eu e Krum...?”
“Hum... Essas estórias correm por aí, não é? Quero dizer, o Krum não é qualquer um, é um jogador de quadribol famoso, por Merlim. Além do mais, você não se lembra da manchete sensacionalista do Profeta Diário na época?” , ela respira, e continua. “E você, Ginny? Porque anda tão quieta? Tem algo a esconder e tem medo de falar se abrir a boca?”
Ginny só ri, meio ingênua, diante da provoção de Tonks. “Pelo contrário” , ela diz, as orelhas muito vermelhas e a tristeza evidente na voz. “Eu queria é ter mais coisas a contar a esse respeito...”
“Como assim, Ginny? Quero dizer, você passou por algumas coisas... não é como se não tivesse nada pra dizer a respeito.” Tento soar solidária, mas no fundo, meio inconscientemente, percebo que dei uma alfinetada pra ver se ela falava algo. De repente, percebo que só eu fiz confissões a respeito da minha vida e que ninguém falou nada.
“Não” , ela fala, e toma um pouco do vinho, “vocês me entenderam. Queria...ter tido mais estórias... pra contar. Especificamente... entendem?” Claro que eu já tinha entendido que se tratava do Harry, só não entendo porque ela não fala abertamente sobre isso, já que não é segredo pra nenhuma de nós. Mas ela parece não estar tão à vontade com Tonks ainda.
“Ginny” , Tonks diz, “não queria falar disso agora, porque acho que te deixa triste. Mas se você tocou no assunto, quero te dizer uma coisa. Não desista dele... sei o quanto essas atitudes heróicas podem ser irritantes, porque tenho um igualzinho. Mas, quer saber? Ainda bem que tenho um desse. São corações grandes, você sabe disso. Sei que pra você não é fácil ficar de fora só olhando, mas dê a ele esse tempo. E não fique pensando nisso, não hoje – faça como a Hermione aqui, que seguiu meu conselho de não se preocupar tanto e parece bem mais leve agora.” Pareço? As palavras da Tonks são incrivelmente sábias e apropriadas, quero dizer, pra uma pessoa da idade dela.
Ginny sorri levemente de volta e toma mais um gole. “É, você tem razão. A brincadeira parece que já era né?”
“É, mas o papo tá mais legal. Falando em pessoas enroladas... e aí, Hermione? ‘Ele’ não tomou nenhuma iniciativa?”
Não, a pergunta sobre o Krum não era a que eu mais temia. Sinto um frio na barriga e não consigo nem pronunciar a primeira palavra, tamanha a vergonha que sinto em falar disso. Não adianta mandar um ‘ele quem?’ e tentar despistar, porque elas não são idiotas. “Bem, eu não... não acho que...”, pigarreio, paro de falar e dou uma risada, daquelas que você dá quando está constrangido pra fingir que não está constrangido.
“Sim ou não?” , Ginny pressiona, a ansiedade na expressão. Será que sim? Os olhares, os toques aparentemente acidentais, as brincadeiras... Será que eu estou ficando louca? Não, eu tenho certeza que estou ficando louca. “Eu não agüento mais”, digo, e solto a respiração. “Não sei como agir, eu realmente não... não tenho certeza. Não acho que ele... que seja recíproco. Às vezes tenho certeza que sim, e às vezes tenho certeza que não. Não sei se devo entender certas coisas como sinais ou não, ou se devo ignorá-lo pra que ele se aproxime mais... Aaahh, eu nunca sei”, desabafo e viro o último gole de vinho, afundando a cabeça nas as duas mãos.
Sinto duas mãos nos ombros. “Ahn, Hermione. Sinto muito pelo meu irmão cabeça-dura, mesmo, mas vocês se merecem, porque sua cabeça é tão dura quanto a dele.” Não ouso interromper. “É absurdamente óbvio o que acontece entre vocês dois, tanto a sua parte como da dele. É claro que ele se importa, e muito, eu já te disse isso milhares de vezes, mas sei que na sua... posição é difícil de acreditar.”
“É” , Tonks suspira, “Merlim perdoe a lentidão desses homens. Eles são incríveis, mas é claro que tinham que ter um defeito...”
Ela fala de um jeito meio cômico e eu dou risada e levanto a cabeça. Me dou conta, de novo, que a Tonks foi quem mais nos incentivou a falarmos de nós, mas ela mesma não falou nada a respeito de sua vida. Ginny parece perceber isso também, porque aproveita o gancho da frase engraçada dela e vai direito ao ponto, com um sorrisinho. “’Nossos’, Tonks? O Lupin também tem esse problema?”
Ela parece pega de surpresa, mas logo se recompõe, ri e enche nossos copos mais uma vez, esvaziando a garrafa. “Não, quero dizer... Às vezes é bom quando o cara é devagar e demora, se é que vocês me entendem...” Ela ri e só então eu entendo... coloco a mão na boca e dou risada. Ginny fica vermelha e eu também, provavelmente. “Brincadeira” , ela corrige, entre um sorriso malicioso. “Disse isso porque ele não veio ainda pra ver o que houve conosco, ou seja, está devagar. Mas foi só por isso.” Eu só finjo que acredito e acho que Ginny tabém, porque ela olha pra mim e levanta a sobrancelha quando Tonks se vira para colocar a garrafa atrás da raiz da árvore.
“Mas, me digam...” Tonks olha de mim pra ela, suspeita. “Como é que vocês entenderam a piada? Sei que, bem, vocês não são crianças, e bem, são muito perspicazes, mas essa... nem esperei que vocês fossem rir. Como é que têm tanta experiência assim pra entender uma dessas?”
A resposta óbvia, é claro, é: ‘eu leio nos livros’, porque não teria outro jeito de eu saber uma coisa dessas... quero dizer, a respeito de caras... demorarem ou irem rápido demais,... na hora h. Mas antes que eu pudesse explicar isso ouço um barulho dentro da casa e me viro, assustada. Minha mão vai instintivamente à varinha, no bolso traseiro, mas relaxa assim que vejo Lupin saindo pela porta dos fundos da cozinha, o andar tranqüilo. Tonks se levanta num pulo, joga os braços ao redor de seu pescoço e o beija sonoramente. “Você demorou!” , diz, enquanto ele explica que levou um tempo pra se dar conta que ela estava atrasada. “Fui prá casa mas aí então desconfiei que você estaria aqui” , ele disse. “Porque não foram antes?”
“Lupin” , ela responde, descrente. “Você vive no mundo da lua mesmo. Como eu poderia ir se você saiu antes e não me disse onde seria?”
Ele se desculpa com um beijo e uma cara de atrapalhado. Me levanto com algum esforço da raiz onde estou encostada e Ginny faz o mesmo, quase tropeçando e caindo, e nós duas rimos. “Vocês andaram bebendo, né?” , ele diz, um sorriso de lado.
“Só um pouco, nada demais” , Tonks diz, e nós concordamos.
“Vamos? Mas saibam que aparatação acompanhada sob efeito de álcool é mais difícil de fazer...” , Lupin diz, e nos olha, um pouco mais sério.
Ginny me soca no ombro. “Nem ouse fazer essa cara de ‘eu não disse’” , ela diz, rindo, e eu rio também. Lupin explica a Tonks onde fica o pub, e ela pega no meu braço. “Com você vai ser mais fácil, você já sabe fazer isso” , ela diz. Ginny segura no braço do Lupin e eu tenho tempo de vê-los desaparecer antes de sentir meu umbigo virando do avesso.
Aparatamos na rua e seguimos até o pub. Lá dentro, de longe reconhecemos o espaço que eles adotaram ‘para si’. O lugar parece ter vários ambientes – Fred, Geroge e os outros escolheram um canto não muito longe do balcão, com mesas de centro e almofadas no chão, além de umas mesas laterais mais altas. Cumprimento todos e os gêmeos não parecem mais incomodados com a nossa presença.
“Ginny, você beijou alguém?” , ouço a voz do Harry da outra mesa - um pouco baixa por causa do barulho, e muito arrastada por causa... provavelmente por causa dos copos vazios diante dele. A falta de sentido da pergunta também se deve provavelmente aos mesmos copos vazios. “Ahn?” , ela diz, sem entender, mas assim que vê os copos compreende. “Harry, você está bêbado.”
Nos aproximamos dele e sentamos nas almofadas ao redor da mesa. Harry chega pero de mim, o hálito forte de Firewhisky. “Hermione, diga a ela que eu não estou bêbado. O Ron sim, ele foi ao banheiro, ele estava bêbado... estava apertado, coitado.”
Ahn, explicada a ausência do Ron. O excesso de bebida deve acarretar muita vontade de fazer xixi. Rio diante da afirmação do Harry, que tem a expressão séria e a voz mole, enrolada. “Ginny, ele não está bêbado”, digo a ela mecanicamente, só repetindo o que ele pediu, mas é óbvio que ele está.
“Obrigada, Hermione. Você é realmente uma ótima amiga... você sabe disso, não sabe?”
Começo a rir descontroladamente e a Ginny também. A expressão dele continua séria, embora ele comece a rir depois que nós começamos. Mas é adorável ver como a bebida permite que você expresse certas coisas que não teria coragem caso estivesse sóbrio. Não consigo agradecer a declaração de amizade do Harry porque não consigo parar de rir. “Não, sério. É verdade. Gosto muito de vocês, Hermione, você é a melhor amiga que alguém pode ter...” , e aí é a gota d’água. Minha barriga dói e vejo Ginny chorando de rir, a cabeça jogada pra trás. Harry parece não entender muito bem o que há de errado com o que ele disse e ri também.
“Ginny, você não me respondeu... Não vá pensando que eu me esqueci, porque eu não esqueci. Você beijou alguém?”
Que tipo de pergunta é essa, Harry? Eu respondo: é o tipo de pergunta que deixa a terceira pessoa, no caso, eu, muito sem graça. Ele insiste nessa estória maluca do beijo e eu não sei pra onde ir, porque sinto que a coisa é entre eles. Olho pro lado em busca de algo pra me concentrar, tipo os detalhes da madeira na cadeira do Bill, na mesa vizinha, e-
“Oi, Hermione!”
Não sei se foi a bebida ou o efeito inebriante que essas mulheres sem roupa causaram... Quero dizer, aquelas mulheres sem roupa, porque elas já foram embora. Ao menos não estão mais aqui. Mas eu passei meio mal hoje – frio na barriga, suor gelado e tremedeiras, quase como uma febre. Nem bebi o suficiente pra passar mal assim, foram só uns dois copos de Firewhisky. Certo, uns três ou quatro, talvez. Mas não é suficiente para me derrubar, não o grande Harry Potter.
O grande Harry Potter que mal teve coragem de encostar em nenhuma das duas strippers – nem no começo e nem depois, no show. Depois que ela agradou o Ron, com todas aquelas coisas, fui tirar sarro da cara dele e me dei mal – porque depois ela veio pra cima de mim e mais uma vez eu não soube como agir. Ela estava muito perto, com pouca roupa – as mãos passeando pelo meu corpo, a boca tão próxima da minha, e um perfume meio acre, não exatamente bom, mas tão... provocativo. E eu não sabia o que fazer com as mãos, com o meu corpo e nem com tudo aquilo que estava no meu colo.
Não que eu não tivesse... vontade, isso seria impossível. Mas a situação toda era intimidadora... Aquela mulher se atirando em cima de mim com todos os irmãos da minha ex-namorada em volta? E cada vez que eu os olhava, lembrava dela, e tudo vinha por terra. Não é que eu seja... careta, eu sei que terminamos e que portanto eu sou livre para apalpar a stripper que eu quiser. Mas... o perfume, as curvas, a boca daquela mulher tudo me lembrava ela. A Ginny. De como eu gostaria que fosse ela ali – e então tudo me vinha à cabeça de novo, mesmo que não por muito tempo, por causa da bebida, acho.
A mulher, Jen ou Sonia, não sei qual das duas era, a certa altura fez aquilo que eu mais temia ou mais queria, ainda não sei. Dançando no meu colo, com um sorriso, desabotoou o sutiã. Tudo o que eu tinha que fazer era esticar a mão e abaixar as duas alças – o sutiã estava pendurado só pelo ombro dela, as alças soltas. Dependia de mim agora – e qual era a dúvida? Tirar o sutiã dela, ser aclamado como um verdadeiro homem pelos irmãos Weasley e ter acesso a um belo par de peitos ou agir como um frouxo, não ver nada e ainda ser ridicularizado pelo resto da vida pelos mesmos irmãos Weasley. Eu tremia, e os dois ou três segundos pelos quais hesitei pareceram durar meia hora. Eu não tinha opção, afinal; estiquei a mão e abaixei a alça do lado esquerdo, depois do direito. O tecido foi caindo, parecia em câmera lenta, e então eu os vi – ela riu, se atirou em direção ao meu rosto e antes que eu pudesse me dar conta ela se cobriu com o sutiã, o dedo em riste, de um lado por outro dizendo ‘não’ – o sorriso malicioso nunca deixava seu rosto.
Como eu disse, não era falta de vontade – era algo com falta de coragem e umas lembranças de tardes em Hogwarts. Ela saiu do meu colo, não sem antes correr a mão pelo meu peito até o umbigo e dizer ‘Você é meio tímido, não?’ Senti, claro, a usual manifestação na região... da cintura, por assim dizer. Mas passou rápido, ainda mais depois do copo de Firewhisky que eu virei com o Ron. O mais engraçado é perceber que, se a stripper tivesse feito tudo isso agora, eu talvez tivesse aproveitado muito mais. Por um lado porque estou me sentindo estranhamente corajoso e relaxado, e por outro porque agora, olhando para trás, nem parece tão grave assim. Ela é uma stripper, está acostumada com isso – quero dizer, a passarem a mão nela – e eu poderia tentar acabar não pensando na Ginny, e talvez eu conseguisse se me concentrasse na imagem à minha frente, o que não seria realmente difícil. Encho meu copo de novo com a bebida que alguém foi buscar e tomo um gole grande, ainda observando as pessoas em outro canto do pub, rindo alto.
“Acorda, Harry!” Ron me cutuca entre gargalhadas. “Você vai perder as piadas de duendes do Fred.” Presto atenção, mas só ouço o final.
“E então o duende disse: o dinheiro não era pra você, era pra mim!” , e é claro que eu não entendo a piada, mas a imitação que Fred faz da voz dos duendes é impagável, e eu não consigo parar de rir, assim como todos na mesa.
“Eu vou ao banheiro” , ouço Ron dizer. “Uoooou” , ele diz ao se levantar e eu percebo que ele não vai se sustentar em pé. Seguro o braço dele.
“Opa, cuidado aí, camarada. Não vai cair na frente dos seus irmãos, esses ruivos podem ser realmente maus, sabia?” Minha voz sai arrastada, quase como se fosse um grande sacri... safric... sa-cri-fí-ci-o, essa é uma palavra realmente difícil de dizer, também... Ron olha pra mim, já em pé e devidamente estabilizado, e ri, acho que da situação idiota, afinal eu estou falando sozinho e tentando pronunciar a palavra sa-cri-fí-ci-o – e começo a rir de novo.
Assim que perco Ron de vista, ouço risadas altas no corredor e me viro pra olhar. Eu conheço aquele cara, é o Lupin. E junto com ele estão minhas grandes amigas Tonks, Hermione e Ginny. Ela vem por último, a Ginny – os cabelos lisos e vermelhos um pouco despenteados, como se ela tivesse vindo voando numa vassoura. Quando ela se aproxima da nossa mesa, reparo nas bochechas e nas orelhas, tão vermelhas quando o cabelo, e nos lábios... Estão muito vermelhos, levemente inchados, como ficavam quando eu a beijava. Mas se eu não a beijei... hey, será que ela beijou alguém?
“Ginny!”, eu grito, e ela se vira. “Você beijou alguém?”
Ela me olha com uma cara de incompreensão, mas logo esboça o sorriso mais perfeito que eu já vi em toda minha vida. “Ahn? Harry, você está bêbado.” Mesmo assim, pela reação dela acho que não entendeu direito a pergunta. Tem música no bar e as pessoas falam alto ao redor, então é provável que ela não tenha escutado.
É claro que eu não estou bêbado, eu bebi tão pouco, nem seria possível que eu estivesse bêbado, seria? Hermione ouve a afirmação de Ginny e se vira para me olhar. Ela sorri e se senta na almofada ao meu lado – Ginny a acompanha e se acomoda ao lado dela, junto conosco na mesa em que estou. Tonks me cumprimenta de longe e eu retribuo. “Hermione”, eu me aproximo dela pra que ela possa ouvir e completa, “diga a ela que eu não estou bêbado. O Ron sim, ele foi ao banheiro, ele estava bêbado... ele estava apertado, coitado.”
“Ginny, ele não está bêbado” , ela diz, um sorriso misterioso no rosto. “Obrigada, Hermione. Você é realmente uma ótima amiga... você sabe disso, não sabe?”
As duas riem, e eu não entendo porque, mas rio também. “Não, sério. É verdade. Gosto muito de você, Hermione, você é a melhor amiga que alguém pode ter...”, e quanto mais eu me justifico, mais elas dão risada então eu não sei o que falar. Ginny ri tanto que joga a cabeça pra trás, os olhos lacrimejando, e então eu reparo novamente nos lábios, vermelhos... “Ginny, você não me respondeu... Não vá pensando que eu me esqueci, porque eu não esqueci. Você beijou alguém?”, eu pergunto, ainda tomando fôlego das risadas.
Ela pareceu um pouco surpresa. Me olhou como se pra ter certeza de que era aquilo que eu tinha perguntado, e eu percebo que a Hermione fez repentinamente uma cara de paisagem. Ouço um ‘Oi Hermione’ e olho pro lado pra ver o Ron, um sorriso largo estampado na cara. Ela se vira pra conversar com ele, então eu volto a me concentrar na Ginny.
“Como assim, Harry, beijei alguém? Você quer dizer, desde que...?”
“Não, não... não é nada disso, não é isso que eu quis dizer.” Percebo que ela também fala um pouco arrastado. “Quero dizer, agora. Sua boca, tá vermelha... E você está um pouco despenteada e seu rosto também está vermelho... Agora ficou mais”, sorrio, e ela retribui, um pouco envergonhada. Mas quem ela teria beijado? Não posso pensar em ninguém, mas juro que vou descobrir e o desgraçado vai desejar ter sido beijado por um Dementador depois do que eu fizer com ele.
“Ah. Isso” , ela responde, a voz um pouco baixa. “É porque eu estava na Toca com Hermione e Tonks, e tinha um pouco de vinho dos elfos, e nós rimos um pouco... E estava ventando, então meu cabelo deve ter despenteado, também.” O som da voz dela soa ao mesmo tempo distante e próximo, como se fosse uma música ou algo assim. Eu fecho os olhos para aproveitar melhor o som da voz dela.
“Harry? Tá tudo bem?” , ouço ela dizendo, a preocupação clara na voz, e é tão egoísta mas eu fico radiante de perceber que ela se preocupa, ainda mais depois de saber que ela não beijou ninguém.
“Tudo ótimo, tudo realmente bom, mas eu fico pensando que eu poderia estar melhor. Ah, sim, como eu poderia”, falo, já de olhos abertos. Ela desvia o olhar e eu estico a mão pra tocar o seu rosto, porque já não agüento estar tão perto dela sem tocá-la.
“Pára, Harry” , ela murmura, a voz firme. “Não é... justo.” Eu me aproximo mais dela. “Não pode ser assim, eu... eu também quero, você sabe que sim, mas nós não podemos. Você está bêbado e amanhã vai vir pra mim com o mesmo papo de sempre, não é justo comigo... E depois? Eu não quero assim, se for só por hoje... Se for pra esperar, então vamos esperar.” Ela suspira e beija a palma da minha mão, e eu fecho os olhos porque agora dói. E me afasto um pouco, porque acho que ela está certa e não quero nunca machucá-la, então se é isso que ela quer é o que vou fazer.
“Me desculpe”, digo. “Eu... é que eu não consigo, às vezes. Quero dizer, ficar perto de você e não fazer essas coisas... é meio natural. Mas... você tem razão, eu... me desculpe.” Ela consente. “Vou pegar algo pra beber na outra mesa” , diz, e me deixa ali sozinho – pra me dar conta que Ron e Hermione ainda estão do nosso lado, protagonizando a cena mais incrível de todos os tempos. Ela está encostada na mesa e ele está de frente pra ela, uma mão encostada na mesa, muito próximo, falando algo em seu ouvido. Não consigo deixar de dar uma gargalhada, alta, e os dois se afastam de repente e olham pra mim, procurando a graça.
“Desculpem”, digo, “mas é que é demais. Não vou sair daqui porque deixar vocês dois aí sozinhos vai chamar a atenção dos gêmeos, e vocês certamente não querem isso, mas fiquem à vontade.” Hermione olha pro outro lado e Ron, um braço apoiado na mesa atrás dela, olha pra baixo, um sorriso sem graça nos lábios. “Pára, Harry” , ele diz, e eu me viro para cumprir a promessa de deixá-los a sós. Vejo Ginny chegando com dois copos – um pra mim e outro pra ela.
“Hey” , ela me olha, empolgada, “o que é isso?”, e aponta com a cabeça para Ron e Hermione ao nosso lado. Eu compartilho da empolgação e respondo: “Não sei direito, acho que não é nada ainda, mas está mais próximo do que jamais esteve. É incrível, não?” Ela confirma com a cabeça.
“Que Ironia” , ela diz, rindo. “A Hermione vive reclamando do absurdo que é as pessoas beberem – provavelmente ela devia achar isso um disparate, coisa de gente fraca, porque ‘ela não precisa disso pra se divertir e blá blá blá’” , e eu choro de rir da imitação de Hermione dela, “e agora vai morder a língua, porque se eles não tivessem bebido, isso não ia estar acontecendo. A bebida abre portas!”
“É, de vez em quando ela meio que enche o saco com essas coisas, mas ela evoluiu bastante nos últimos tempos... Olha aí!”, aponto com a cabeça para o copo de Firewhisky na mão de Hermione. Ron continua com a boca no mesmo lugar do ouvido dela, dizendo algo que parece muito engraçado porque ela não pára de rir. Olho de novo pra Ginny e lá está ela, maravilhosa, tão perto de mim.
“Ginny, não fique tão perto”, peço, “mas, por favor, será que a gente pode ficar assim sempre? Quero dizer, até as coisas... porque eu não agüento mais agir como se você fosse só a irmã do Ron, como se nós não fôssemos.. tão próximos quanto somos. Quero dizer, não sei se vou agüentar ficar perto de você e rindo com você sem fazer nada, mas acho que vai ser pior se eu ficar longe, porque quando você está longe eu não...”
“Harry” , ela diz, rindo, e põe um dedo nos meus lábios, me silenciando. “Você parece estar fazendo um esforço tão grande pra dizer isso, porque as palavras saem tão devagar, então é melhor parar. Eu não sei como eu gostaria que fosse, também. Não sei se agüentaria passar horas com você se não fosse como... se não fosse ao seu lado. Talvez fosse melhor a gente ficar longe mesmo. Mas amanhã a gente decide isso, quando estivermos sóbrios, ok?”
“É, acho que sim.”, digo baixinho, embora eu não sei o que eu ache.
“Ronald, se você não é capaz de entender algo tão simples, sinto muito!” A voz de Hermione se sobressai mesmo no meio das vozes e da música, e algumas cabeças se viram pra olhar. Ahn não, de novo não. Ela sai andando em direção ao banheiro, e Ginny pede licensa e vai atrás dela. Ron me olha com a típica expressão de ‘aquela sabe-tudo insuportável’ e eu olho na direção dele, a voz resignada.
“Cara, o que foi que você fez desta vez?”
Ia ser um pouco embaraçoso se o Remus não tivesse chegado, o timing perfeito. A Tonks esqueceu completamente da pergunta, ainda bem, senão eu ia ter que dar um jeito de responder. E ia ser estranho dizer que eu sei por causa... do Harry, porque é claro que elas iam pensar que eu e ele... fizemos algo, e nós não fizemos - não esse algo. De qualquer forma, conversávamos bastante sobre essas coisas, e é por isso que eu entendi a piada.
Eu nunca tinha aparatado antes, então senti um leve enjôo quando percebi a sensação estranha de estar sendo virada pelo avesso. Aterrisei desastrosamente, e Remus me ajudou a levantar do chão. Nós aparatamos num beco, e a bebida parece não ter prejudicado a aparatação – a queda não foi culpa do vinho, foi só porque eu nunca tinha feito isso antes. Acho.
Saímos em uma rua iluminada, cheia de pequenos clubes, e eu vi uma estação do metrô lá no final da rua. A entrada do pub era discreta, uma porta pequena que passa despercebida no meio daqueles lugares cheios de gente e de letreiros fluorescentes. Entramos e, lá dentro, não foi muito difícil de achá-los – difícil foi agüentar o Harry bêbado, e depois o Harry apaixonado. Não, não foi difícil, foi ótimo. Era difícil vê-lo tão... vulnerável e ser forte como eu fui, ter resistido. Ele estava tão engraçado, os óculos meio tortos e os olhos verdes tão brilhantes, aquele brilho de quando a gente bebe demais. E ele estava tão perto... ao mesmo tempo, foi ótimo tê-lo de volta por perto, os sorrisos, a mão dele na minha, ver que ele ainda se importa... que, por mais idiota que ele possa ser, é o idiota mais apaixonante que eu já conheci.
E quando ele me pede pra ficarmos assim sempre, eu percebo que não vou agüentar – nem bêbada nem sóbria. Porque tê-lo assim, sempre por perto como no ano passado, e não poder tê-lo de verdade, doeria demais. Então talvez, por pior que fosse, seria melhor nos mantermos formalmente afastados por enquanto , como estava sendo antes. Digo que não vou agüentar nem bêbada nem sóbria mas é força de expressão, porque olho em volta e percebo que não estou bêbada – não, não comparada a todo mundo aqui. Quero dizer, estou um pouco alegre, mas nada mais que isso. Não...
“Ronald, se você não é capaz de entender algo tão simples, sinto muito!” Ah, não. Tudo parecia tão bem entre eles – claro que algo ia dar errado. Ela corre em direção do banheiro e eu peço licença pro Harry. Levanto e empurro meu irmão. “Idiota”, digo, e vou atrás dela.
Alcanço-a antes de chegar ao banheiro. Ela corre com as pernas meio bambas, provavelmente efeito do copo de Firewhisky. Seguro-a pelo braço e percebo que ela chora compulsivamente, soluçando, as mãos no rosto. “Cretino” , ela grita entre os dedos, e encosta na parede do corredor antes do banheiro.
“Vem, vamos.” Puxo ela levemente em direção ao banheiro. “Vem aqui, lava o rosto. O que houve?”
“Ginny” , ela toma fôlego, entre suspiros, “estava tudo tão bem, sabe?”
“É, eu percebi...”, sorrio, pra descontrair.
Ela quase sorri. “Ahn, pára. Mas tava mesmo, e aí ele trouxe de novo essa história do Krum. Eu não agüento mais isso, Ginny. Se eu pudesse voltar atrás, jamais teria conhecido esse búlgaro idiota, ele tem sido a origem de todos os meus problemas com seu irmão nos últimos três anos! Aahhh!”
Ela já parece melhor. Parou de chorar e agora só a raiva parece ter ficado. “Hermione, não é que o que eu vou falar justifique as atitudes dele... Mas é que você sabe como ele é inseguro. Essa do Krum, sei que não tem nada a ver e que você não deve nada pra ele, mas isso esmagou o ego dele. Não se sinta culpada!”, digo, ao perceber a expressão dela entristecendo. “A culpa não é sua – é dele, que não tem auto-estima.”
“E agora?” , ela pergunta.
“Não sei”, digo. “Se vocês beberem um pouco mais, talvez amanhã não se lembrem de nada. Mas isso não vai ser bom, porque aí você também não vai lembrar da parte boa, né...”
Ela ri, o rosto vermelho. “Eu já bebi o bastante.”
“É, dá pra ver – não só por você estar falando mole e andando com dificuldade, mas o quanto você estava perto dele sem se envergonhar ou fazer aquelas coisas idiotas que vocês fazem quando estão perto do outro. Merlim, ele estava cochichando no seu ouvido!”
Ela ri de novo. “É, ele estava... e eu não vou dizer o que era, não insista.”
“Eu hein, não quero detalhes sobre o linguajar que meu irmão usa para conquistar as mulheres. É bom não contar mesmo.” Ela ri de novo. “Acho que já podemos voltar né? Vai deixar o copo de Firewhisky aí?”
“Não” , ela diz, e pra minha surpresa, vira toda a bebida de uma vez.
“Hermione! Você já não tinha bebido o suficiente?”
Ela ri de novo, de um jeito tão 'risadinha' que eu nunca vi Hermione rir assim. “É, acho que eu me enganei... Vamos!” , ela termina, e decidida, me puxa pra fora do banheiro.
N/A: Essa nota é diferente da postada no FF.net, porque aqui o capítulo foi postado depois. Já tinha postado o cap. mas como o FeB deu pau no carnaval eu perdi tudo, inclusive uns comentários. Peço desculpas àqueles que tiveram comentários apagados mas não tive culpa.
Gostaria de agradecer a todos que estão lendo ou lendo e comentando, aqui, no FF.net ou no 3V. Muito obrigada! Outro agradecimento pra minha beta, porque sem ela essa estória não ia sair. Valeu pessoal!
O cap. é meio polêmico mas foi o mais legal de escrever até agora. Espero que seja o mais legal de ler, também!
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