N/A: SPOILERS até o livro 6. Depois não digam que eu não avisei...
Observação importante para quem deseja compreender a fic: me dei a liberdade de imaginar várias coisas que gostaria de ler no universo Potter. Portanto, aqui o Sirius não morreu no livro 5, o Snape é do bem e a derrota de Voldemort se deu ao final do sétimo ano do trio em Hogwarts.
Dublin, Irlanda.
Hermione voltava para seu apartamento após mais um longo plantão no hospital irlandês para doenças e acidentes mágicos, onde trabalhava como medibruxa. Ela retirou os sapatos e sentou-se ao sofá, apreciando a vista da bela cidade de Dublin, ao mesmo tempo que Bichento vinha saudar a chegada da dona com um carinho ronronante em suas pernas. A garota então pegou o gato suavemente e o colocou em seu colo, onde o bichano ficou recebendo os afagos da dona enquanto a imaginação dela voava longe.
Mesmo após a queda de Voldemort, muito ainda tinha de ser feito para a restauração da paz e da normalidade. Além da existência de Comensais que restavam a ser capturados, havia as seqüelas deixadas pela Grande Guerra: casas precisavam ser reconstruídas, memórias de trouxas modificadas, famílias buscavam encontrar seus parentes desaparecidos, muitos feridos precisavam de cuidados médicos... Trabalhar num hospital foi a forma que Hermione encontrou de dar sua contribuição para a reconstrução da bruxidade.
A garota tinha dentro de si esse aguçado senso humanitário e não pensou duas vezes em se mudar para a Irlanda quando o Ministério da Magia passou a recrutar pessoas para trabalharem naquele país, totalmente devastado pela guerra entre o Bem e o Mal. Era fato que ela sentia muitas saudades de seus parentes e amigos que deixara na Inglaterra, mas sua terra natal saíra menos castigada da batalha, justamente porque era o local que concentrava o maior número de aurores e membros da Ordem da Fênix. Já a Irlanda tinha sofrido com mais intensidade os horrores da guerra, e o hospital irlandês precisava de recursos financeiros e humanos de forma urgente. Isso foi o suficiente para convencer Hermione a passar alguns meses afastada da Inglaterra. Afinal, seria apenas uma mudança temporária e o país não era tão distante, de forma que poderia combinar encontros esporádicos com seus amigos.
Contudo, a realidade foi bem diferente. Os poucos meses que Hermione passaria na Irlanda viraram cinco anos, e os encontros com os amigos tornavam-se cada vez mais raros, devido aos diferentes compromissos de cada um. Na verdade, a única coisa que impedia Hermione de sentir-se solitária era a companhia de Vítor Krum, que jogava quadribol por um time da primeira divisão do campeonato irlandês. No início, ela tentou manter com Vítor apenas uma amizade, mas a solidão fez triplicar sua carência e, quando se deu conta, já estava namorando o búlgaro há 3 anos.
Hermione às vezes ficava horas refletindo se o seu relacionamento com Vítor era a coisa certa a se fazer. Não que eles não se dessem bem; pelo contrário, Krum a amava e cuidava dela como uma pedra preciosa. Ela podia ficar horas conversando com ele que não enjoaria de sua companhia, coisa que vinha ocorrendo com certa freqüência agora que Vítor passava muitas de suas noites no apartamento dela. Mas faltava alguma coisa no relacionamento deles e Hermione sentia raiva de si mesma quando chegava a essa inevitável conclusão. Eles se davam bem e Vítor era um fofo com ela, mas simplesmente não havia paixão no relacionamento deles. Não havia química, nem friozinho na barriga quando se beijavam, nem calor quando se tocavam... Às vezes ela se resolvia a pôr um fim no namoro, mas então Vítor aparecia com um ramalhete de rosas e dizia que a amava, fazendo toda a sua resolução ir por água abaixo.
Ao voltar do hospital naquela noite, Hermione pensou que deveria ser honesta com Krum no encontro que teria com ele dali algumas horas. Em vez de tentar abandoná-lo, ela iria expôr os problemas que identificava no relacionamento deles, para que juntos trabalhassem uma solução e tudo ficasse bem. Parecia a coisa mais sensata a se fazer; mesmo que Krum não conseguisse despertar paixão nela, ele merecia ao menos que ela tentasse fazer o namoro dar certo.
Hermione foi subitamente interrompida em seus devaneios pela chegada de uma bela coruja castanha adulta, que batia o bico na vidraça de sua janela pedindo passagem. A garota levantou-se rapidamente, fazendo Bichento saltar de seu colo com um ar ofendido. Ela abriu o vidro para que a coruja pudesse entrar e no instante seguinte a ave voava descontrolada pela sala, fazendo com que Hermione tivesse uma certa dificuldade em conseguir apanhar a carta que ela trazia amarrada à perna.
- Francamente, que coruja mais agitada! – exclamou Hermione para si mesma enquanto começava a abrir o envelope, que por fora dizia apenas “Srta. Hermione Jane Granger”, numa caligrafia que ela desconhecia. No interior da carta, porém, a letra lhe era adoravelmente familiar.
Cara Mione,
Faz tempo que não nos vemos, hein? É triste que nossas atribuições ocupem tanto de nossas agendas que até as visitas para os amigos fiquem prejudicadas. Mas esse pequeno problema será resolvido em breve, porque você será obrigada a vir para a Inglaterra passar alguns dias. Sinto ter de lhe informar isso por carta, mas o fato é que seu caro amigo aqui resolveu tomar um rumo na vida e... vai se casar! De papel passado e tudo! Eu e a Mel fazemos questão que você seja nossa madrinha de casamento e, portanto, se você não aparecer até a véspera do dia feliz vou mandar alguns de meus amigos aurores seqüestrarem você e trazerem até Londres! Brincadeiras à parte, é muito importante para nós a sua presença. Venha o quanto antes. Estão todos morrendo de saudades!
Grande abraço,
Ron
Hermione não conseguiu deixar de sorrir. Um de seus melhores amigos iria se casar! Ela imaginou o quanto Rony e Melanie deveriam se amar e ser felizes para quererem trocar juras de amor eterno. Além da alegria pelo casamento do amigo, ela ainda teria a oportunidade perfeita para rever as pessoas queridas! Era bom demais para ser verdade. Junto com a carta, ela notou, vinha o convite para o casamento, com todos os detalhes sobre data, hora, local etc. Faltava apenas duas semanas para o grande dia e ela ainda tinha tanta coisa para providenciar antes da viagem! Precisava pedir uns dias de folga para o chefe, comprar o presente de casamento, procurar por um belo vestido de madrinha... e tinha a pior parte, que era falar com Vítor.
Rony sequer mencionara o nome de seu namorado na carta e ela não o censurava por isso. Mesmo nunca tendo acontecido nada entre ela e o ruivo, Krum nutria um ciúme doentio de Ron por causa do clima que rolara entre os dois amigos quando eram adolescentes. Isso era coisa do passado, mas Vítor fez tudo o que estava a seu alcance para atrapalhar a amizade dos dois e, certa vez, quando Hermione havia ido escondida (porque ela não se sentia mais à vontade de contar isso para o namorado) para uma cidade vizinha a fim de encontrar Rony e Harry num bar, apenas para conversarem como bons amigos, Krum descobriu, apareceu no local do encontro e deu vários socos na cara de Rony. Desde então o ruivo nunca mais falara sobre o búlgaro com Hermione; ele não aprovava o relacionamento dela, mas também sentia que essa decisão era algo que pertencia apenas à garota, de forma que Ron nunca fizera um discurso claro se opondo ao namoro deles. Mas convidar para o próprio casamento já era uma história bem diferente...
Hermione então se deu conta de que a coruja continuava a voar desarvorada por sua sala, aguardando a carta de resposta que teria de levar para Ronald. A garota pegou um pergaminho e uma pena que estavam sobre a mesa de centro e escreveu rapidamente:
Não poderia ficar mais feliz com a notícia! Ainda não sei em que dia serei liberada pelo meu chefe, mas certamente estarei presente no dia do seu casamento. Mal posso esperar!
Quando foi tentar prender a carta na pata da coruja agitada, Hermione finalmente se deu conta de algo que deveria ter notado muito antes:
- Você é Píchi, não é? – perguntou maravilhada – Já está adulta! Não tinha lhe reconhecido!
A coruja sossegou um pouco com a menção a seu nome e veio pousar no braço estendido de Hermione, onde piscou lentamente com os olhos, como se confirmasse a suposição da garota. Ela então pôde prender o bilhete à perna da coruja, que logo saiu batendo as asas freneticamente, voando em direção ao sudeste. Bichento ficou com a cara na janela, olhando desgostoso o seu “lanche” que partia, inalcançável.
- Não fique assim, Bichento. Vamos arrumar uma comidinha bem gostosa pra você...
Aparentemente isso não consolou muito o gato, que ignorou o prato de ração oferecido por Hermione e foi se esconder sob uma cadeira da sala, onde ficou vários minutos batendo a cauda no chão, em sinal de frustração. A garota decidiu que era melhor ignorar o mau humor do felino e apressou-se a tomar um banho e vestir roupas limpas, já que Vítor chegaria a qualquer momento.
Largo Grimmaud, Londres, Inglaterra.
Apesar da derrota de Voldemort, a antiga mansão dos Black permanecia como sede da Ordem da Fênix, uma vez que ainda existiam Comensais da Morte que pudessem ameaçar a segurança dos agentes do Bem. Era verdade, porém, que as atividades dos membros da Ordem estavam cada vez mais escassas, já que a maioria dos partidários das Trevas havia sucumbido na Grande Guerra ou estava trancafiado em Azkaban.
Atualmente moravam na casa do Largo Grimmauld o herdeiro Sirius Black, seu afilhado Harry (que ficara imensamente satisfeito de abandonar de uma vez por todas a Rua dos Alfeneiros), o vigarista Mundungo Fletcher e os ora casados Remo Lupin e Ninfadora Tonks.
Sirius havia passado por tempos difíceis antes de finalmente concretizar seu sonho de morar com Harry, por conta da miopia do Ministério da Magia em enxergar sua inocência. Não bastassem os doze anos que ficou preso injustamente em Azkaban, Sirius havia vivido como foragido até um ano após a queda de Voldemort, pois só foi inocentado quando Peter Petigrew foi finalmente detido. Nesses seis anos em que passou banido da sociedade, o único período em que havia convivido mais com o afilhado havia sido no ano em que a Ordem se instalara naquela casa. Todavia, após a batalha no Departamento de Mistérios, ficou claro para os aurores que Sirius tinha ligação com a Ordem da Fênix e ele não pôde mais retornar ao convívio dos amigos ante a iminência de ser detido ou até morto.
Fazia agora quase quatro anos que Sirius votara a freqüentar o mundo como um homem livre, mas ele havia deixado de viver tantas coisas durante a caçada humana que o Ministério empreendeu contra si que ele sentia que ainda tinha muito o que experimentar e redescobrir.
Talvez as únicas coisas que o impediam de se abater diante do quanto a vida lhe fôra amarga eram o amor que sentia pelo afilhado e a determinação em exterminar todos os bruxos das Trevas. Seu objetivo era tão forte que ele hoje se associava aos próprios aurores que um dia o procuraram, a fim de montar estratégias de captura dos Comensais. Tudo isso demonstrava o bom coração que Sirius possuía, embora ele não chegasse ao ponto de relevar os erros passados de sua própria família.
- Eu juro por Merlim que vou jogar removedor de tinta nessa velha! – exclamou Sirius furioso com mais uma gritaria promovida pelo quadro de sua mãe no corredor que ligava o hall de entrada à cozinha.
- Deixa que eu fecho as cortinas, Sirius. – atalhou Harry rindo da expressão exasperada do padrinho - Deve ter sido a Gina quem apertou a campainha...
- Gina? Que legal! Não sabia que ela viria para cá hoje – gritou Tonks entusiasmada, para se sobrepor à algazarra promovida pela Sra. Black – Aposto que veio resolver coisas do casamento.
Segundos depois, os gritos da mãe de Sirius foram abafados e um leve tilintar da porta da frente revelou que Harry já havia franqueado a entrada para a namorada. Na cozinha, Tonks prosseguiu conversando com o primo:
- Não é estranho ver que o Rony vai ser o primeiro do trio a se casar? Sempre achei que Harry e Gina o fariam antes...
- Não se ele puxou alguma coisa do padrinho aqui! Tenho asco à idéia de me amarrar permanentemente a alguém.
- E desde quando o Harry poderia “puxar” alguma coisa de você, Sirius? Nem parentes vocês são!
O homem aparentou constrangimento, sem saber como responder àquela verdade incontestável que lhe fôra lançada de forma tão repentina. Não precisou, contudo, preocupar-se por muito tempo, pois o jovem casal havia chegado à cozinha e Gina interrompeu a conversa:
- Boa noite! – quando reparou quem era a outra pessoa sentada à mesa, a ruiva exclamou: - Tonks, você está aqui! Que ótimo! Precisamos conversar algumas coisinhas sobre a festa...
- Por que as mulheres ficam tão agitadas sempre que há alguma festa em vista? – perguntou Harry discretamente para o padrinho, mas não o suficiente para não ser ouvido por Tonks, que disse:
- Porque se as mulheres não organizassem as festas, todas elas se resumiriam a baldes de bebida alcoólica e filmes proibidos para menores de 17 anos.
Todos riram com o comentário dela. Gina aproveitou o hiato para perguntar como estavam as coisas ali na Sede da Ordem.
- Felizmente tranqüilas. – respondeu Sirius enquanto pegava garrafas de cerveja amanteigada na despensa para todos os presentes - Parece que os Comensais são uma raça em extinção.
- Ainda bem – respondeu a garota ao sentar-se à mesa – Não agüento mais essa situação de ter tantas pessoas queridas correndo perigo. Pelo menos vamos poder curtir o casamento do Rony como se deve, sem medo de um bando de Comensais nos atacar a qualquer momento.
- Mesmo assim, teremos uma guarda de aurores de prontidão nos arredores d’A Toca – explicou Harry – Não custa sermos precavidos.
- Para quê uma guarda se entre os convidados da festa teremos metade da Ordem e meia dúzia de aurores? – quis saber a garota ruiva enquanto apanhava sua caneca cheia de cerveja.
- Não se esqueça que boa parte dessas pessoas vai ficar levemente embriagada no decorrer da festa – brincou Sirius com um sorriso zombeteiro – Pelo menos, eu vou ficar! – acrescentou ele, sorvendo grandes goles da bebida na seqüência. Todos riram da atitude bonachona do maroto.
- Falando em convidados da festa, Melanie já distribuiu todos os convites? – quis saber Tonks.
- Quase todos. – esclareceu Gina - Hoje o Rony mandou o Píchi até a Irlanda para entregar o da Hermione... estou tão ansiosa para revê-la!
- Nossa, eu também! – concordou a mulher mais velha – Desde que ela foi embora, só a vi duas vezes: naquele Natal lá n’A Toca e no dia do meu casamento com o Remo. Já faz tempo que ela não vem para a Inglaterra, né?
- Piorou muito desde que ela começou a namorar. – opinou Harry – Sabe como é, acabou ficando difícil de ela arrumar um fim de semana livre para vir nos visitar. Das últimas vezes que nós a encontramos foi porque tínhamos algum missão nos arredores de Dublin...
De repente todos se calaram, observando o olhar perdido de Sirius em algum ponto distante.
- O que foi, primo?
- Estava tentando me lembrar quando foi a última vez que vi Hermione. – disse ele pensativo - Veja bem, desde a batalha no Ministério até conseguirmos provar minha inocência, passei três anos escondido entre os trouxas, época em que não encontrei nenhum de vocês. A única exceção foi no dia do seu casamento, Tonks, mas tive de ir em minha forma animaga e fiquei observando de longe. Não vi Hermione nesse dia tampouco. Quando voltei a conviver com vocês, ela já estava há um ano na Irlanda.
- Mas e o Natal n’A Toca? Você não passou aquele feriado com a gente? – indagou Harry.
- Não. Na época eu estava saindo com a Susie, lembra? E ela fez a maior pressão para a gente ir esquiar com a família dela... Tá vendo porque eu nunca vou conseguir casar com ninguém? Mulher dá muito trabalho... – debochou Sirius, ao que os outros riram. Nenhum deles se atrevia a discutir com o maroto quando o assunto era relacionamento. Sirius era um solteiro convicto.
- Isso quer dizer – começou Gina com uma careta de descrença – que você não encontra a Mione há... sete anos?
Todos, inclusive Sirius, ficaram espantados como o tempo havia passado depressa sem que eles notassem.
- Pôxa, eu nunca tinha me dado conta disso. E, apesar de nós termos nossas divergências em relação a elfos domésticos – brincou Sirius, arrancando uma risadinha do afilhado -, Hermione é uma garota muito bacana. Gostava de conversar com ela quando vocês estavam na escola... o que ela faz lá na Irlanda mesmo?
- É medibruxa. Eu te contei quando você pôde voltar a freqüentar o mundo como um homem livre – respondeu Harry com uma pontada de orgulho pelo padrinho.
- É, agora me lembro... – respondeu Sirius ainda com ar pensativo.
- Bem, Tonks, queria saber se você estará livre amanhã para me acompanhar até o Beco Diagonal – disse Gina
- Vou com você sim. Meu plantão é só no próximo sábado.
- Ótimo. Quero passar na Madame Malkin para provar meu vestido da festa e depois ir ao Magia das Flores para buscar os arranjos de mesa que a Mel escolheu.
- Certo, Gina. Assim eu aproveito para passar na Floreios e pegar uns livros que o Remo havia encomendado...
- A gente conversa mais sobre o casamento amanhã, Tonks. – explicou Gina já se levantando da mesa e nela depositando sua caneca vazia – Vou me deitar cedo porque o dia vai ser corrido...
- Sabemos muito bem porque você tem pressa de subir, bruxinha. – provocou Sirius, dando uma piscadela para Harry – Aliás, a Molly sabe que você vai passar a noite aqui?
Gina ficou escarlate com a insinuação e respondeu com a maior dignidade que conseguiu reunir:
- Claro que sabe! É que a Toca é muito longe do centro da cidade, fica mais fácil sair daqui para ir ao Beco Diagonal.
- Não tem nada demais a Gina dormir aqui comigo, ou tem? Ela é minha namorada... – interveio Harry também sem graça.
- Só que por mais que eu dê apoio ao romance de vocês, a Molly me mataria se soubesse que eu deixei os dois dormirem no mesmo quarto. Sinto muito, Gina, mas vou arrumar a sua cama aos pés da minha, já que o Remo não está aqui hoje mesmo. – explicou Tonks visivelmente chateada por ter que separar os dois pombinhos.
- Mas é claro, Tonks, eu nem cogitaria algo diferente disso! – apressou-se a dizer a garota.
- Então vamos subir para arrumar as camas enquanto os dois “homens da casa” conversam um pouco mais...
Apesar da aparente resistência de Tonks, quando estavam as duas a sós no quarto, a mais velha disse em meia voz para Gina, com uma cara marota:
- Sabia que eu tenho um sono muito pesado? Não consigo ouvir nada nem ninguém entrando ou saindo do quarto durante a noite... Isso é um perigo para uma auror como eu!
Gina ficou da cor dos cabelos flamejantes e não teve outra reação senão rir em agradecimento à cumplicidade da outra.
A campainha soou enquanto Hermione fazia um feitiço secante no cabelo que acabara de lavar. Ela suspirou resignada ante a iminência da briga que sabia que iria ter com Vítor. Falar em Rony com o namorado era prelúdio de discussão, e dessa vez ela não teria como fugir do assunto. Ao menos ela tinha se livrado temporariamente de ter que admitir para Krum que não se sentia apaixonada por ele, já que ela não seria louca de colocar os dois problemas na mesma conversa. Perto dessa espinhosa questão, o casamento de Ron era um tema muito mais ameno.
Ela correu ainda descalça e enrolada num roupão felpudo para abrir a porta para o namorado. Não foi surpresa quando o viu carregando uma linda cesta de flores do campo para presenteá-la. Vítor fazia esses mimos com freqüência.
- Oi, querido... – disse depositando-lhe um selinho discreto nos lábios - São lindas! Não precisava se incomodar comigo...
- Não é incômodo algum, você sabe... além disso, hoje não é uma noite qualquer...
Um pânico gelado tomou conta do estômago de Hermione. Que data importante ela havia esquecido dessa vez? O aniversário de namoro fôra há poucos meses... o Dia dos Namorados estava longe... “Merlim! Que dia é hoje mesmo?”
Krum pegou docemente nas mãos de Hermione e a conduziu até o sofá. Eles se sentaram um de frente para o outro e o búlgaro explicou com ternura:
- Tenho grandes novidades pra você... Lembra que eu lhe disse sobre aquela equipe búlgara que estava sem apanhador?
- Não me diga que você foi contratado?! – exclamou Hermione. O sorriso do namorado respondeu por si. – Vítor, isso é maravilhoso! Você vai poder voltar para perto da sua família!
- Sim, Mione, e não é só isso. Pelo valor que pagaram pelo meu passe, poderei construir uma bela casa para nós em Sófia (*) e... – a garota interrompeu sua explicação:
- Como assim, para nós?
- Ora, meu amor, você não está achando que eu vou te abandonar aqui na Irlanda, está?
- Vítor, não diga uma coisa dessas... – pediu a garota calma - meu emprego é aqui.
- Nós lhe arranjaremos outro lá na Bulgária. Não me incomodo se eu tiver que te sustentar nos primeiros meses, aliás, não me incomodo nem se você não trabalhar nunca. Só quero ter você perto de mim.
Pela primeira vez Hermione ficou chateada com ele e se levantou do sofá num impulso:
- Como assim “não trabalhar”? Será que depois de três anos comigo você não conhece nada sobre mim?
- Tudo bem... calma... não fica brava comigo. – pediu o rapaz - Sei que a carreira é importante pra você. Mas meu pai é amigo do dono de um grande hospital bruxo de lá e talvez a gente possa conseguir uma vaga e...
- Vítor! Pare de falar insanidades! Acha que meus pais ficariam satisfeitos de saber que eu fui morar com o meu namorado em outro país? Eles sequer imaginam que você passa algumas noites aqui comigo...
Krum riu como se tivesse de explicar algo a uma criança muito teimosa, o que fez com que Hermione ficasse ainda mais exaltada.
- Querida, não vou simplesmente morar com você. Será que ainda não percebeu o que eu quero dizer?
- Não!
- Quero me casar com você, Hermione. Você é a mulher da minha vida!
Um silêncio perturbador seguiu essas palavras. Quando Hermione chegara em casa naquela noite, antes da carta de Rony e de Vítor lhe contar sobre a contratação, tudo estava claro em sua cabeça: ela iria dar uma última oportunidade de fazer seu namoro com Vítor dar certo, pois nenhum homem jamais lhe tratara daquela maneira ou lhe amara tanto. Mas agora aquele mesmo sujeito que era incapaz de lhe despertar paixão estava lhe pedindo em casamento. E ela sabia que corria o risco de se arrepender mais tarde se dissesse que não aceitava o pedido. Krum aguardava ansioso pela resposta dela, mas a garota, incapaz de se decidir, disse apenas:
- Tenho que ir para Londres semana que vem, ou, no mais tardar, na semana seguinte.
Mal essas palavras saíram de sua boca e Hermione já estava arrependida. “Ele falando em juras de amor eterno e eu digo simplesmente que vou viajar? Que espécie de louca ele deve achar que sou?”. Aparentemente, porém, Krum gostou da resposta.
- Ótimo, meu doce! Vá mesmo providenciar os preparativos do casamento... – disse ele dando beijos entusiasmados nas mãos dela.
- Como você sabe sobre o casamento? - perguntou ela perplexa, sem se dar conta de que falavam de cerimônias diferentes.
- Como assim, Mione? Eu acabei de pedir a sua mão! E fico satisfeito que tenha entendido que a data tem que ser marcada para breve, pois já começo no novo time no mês que vem...
Finalmente a garota compreendeu o mal-entendido. Absolutamente sem graça, ela explicou, tomando-lhe as mãos:
- Olhe, Vítor, melhor deixarmos as coisas claras por aqui. Você é o namorado que qualquer garota gostaria de ter... é sensível, romântico, atencioso, protetor... mas o seu pedido me pegou de surpresa. Minha intenção nunca foi abandonar a Inglaterra durante tanto tempo... e cá estou eu, cinco anos depois. E sofrendo muito com a distância! Não estou pronta ainda para decidir se quero ir de vez para a Bulgária.
- Você não me ama, Hermione? – perguntou o rapaz sério.
- Não é isso, Vítor. Mas a minha família e os meus amigos estão em Londres... Preciso... preciso de um tempo para pensar na proposta que você me fez.
O garoto se desvencilhou do abraço que Hermione tencionava lhe dar e passou a andar nervosamente de um lado para outro da sala. De baixo da cadeira, Bichento o acompanhava com os olhos como se assistisse a uma partida de tênis. De repente ele estacou, perguntando sisudo:
- Há um minuto você me perguntou como eu sabia sobre o casamento. Se não era o nosso, era de quem?
Hermione suspirou longamente antes de responder. Sabia que recomeçariam a discutir.
- Do Rony com a Melanie. O convite chegou ainda hoje.
- Quer dizer que aquele palhaço continua se comunicando com você?
- Não ouse chamar o Ron assim! Palhaçada foi o que você fez naquele dia, batendo nele sem motivo! – justificou a garota
- Veja que eu tenho um motivo, se a primeira coisa que ele faz assim que eu viro as costas é arrumar uma desculpa para te ver.
- Uma desculpa? Francamente, Vítor! Você acha que alguém com o juízo perfeito se casaria com uma terceira pessoa só para estar perto da menina que gosta? Rony e Melanie se amam! E eu estou absolutamente feliz com a união deles, pois a Mel faz um bem tremendo para o meu amigo. E, diferente de você, ela não fica implicando comigo só por causa de um ciúme bobo que eu e o Ron tivemos na época de colégio! – exaltou-se Hermione.
- Então você espera que eu vá assistir ao casamento do infeliz que fica dando em cima da minha namorada como se nada estivesse acontecendo?
- Não! Aliás, nem convidado você está.
- Ahá! Eu disse que era tudo uma farsa montada por ele só para se aproximar de você!
- Vítor, vamos fazer uma coisa – propôs a garota tentando controlar o tom de voz – Eu não estou nem um pouco disposta a brigar com você no mesmo dia em que me pediu em casamento. Por favor, me dê um tempo para pensar! Vá resolver os assuntos da sua mudança para a Bulgária, o fim do seu contrato com o time daqui e tudo mais. Eu vou para o casamento do Rony e volto com uma resposta ao seu pedido, ok?
- Você quer vê-lo primeiro, para saber como andam seus sentimentos? – exigiu saber Krum inquisitivamente.
- Claro que não! Só estou aproveitando a oportunidade de tirar licença uns dias para refletir um pouco. Já disse que o Ron não tem nada a ver com isso. Você tem que ter mais segurança a respeito de si mesmo... e mais confiança em mim. – acrescentou ela aborrecida.
- Essa não era a resposta que eu esperava depois de tudo que fiz por você nesses últimos anos, Mione. – disse o rapaz com a voz embargada – Mas vou respeitar o tempo que você me pediu. Apenas me comunique quando voltar da Inglaterra.
A garota limitou-se a assentir, enquanto Krum deu um beijo leve na testa dela e saiu porta afora. Hermione ficou olhando um tempo naquela direção, pensando se tinha feito a escolha certa. A cesta de flores sobre a mesa a fazia se sentir ainda mais culpada por não conseguir se apaixonar por Vítor. E pior, a pergunta dele “Você não me ama?” fez com que ela tivesse um novo problema para solucionar nas duas próximas semanas. Sentindo-se indigna do presente que ele havia lhe dado, a garota baixou a cesta diante de seu gato alaranjado, que prontamente se refestelou em meio aos ramos de flor, espalhando folhas por todo o tapete.
- É, Bichento... às vezes eu queria ser um gatinho como você... a vida deve ser tão mais simples... – disse a garota com um leve pesar na voz, antes de se recolher para dormir.
*capital da Bulgária
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