Capítulo 4
Duelos
Harry e Lily sempre se deram muito bem. Eram os melhores amigos, tinham o mesmo humor e sempre souberam que, ao fim de tudo, tinham apenas um ao outro. Três dias de segredos e revelações haviam modificado isso de forma irremediável. Harry não conseguia parar de olhar para a mãe cheio de suspeita. Tentava entendê-la, saber o que ela pensava, embora ela lhe parecesse, cada vez mais, uma estranha, uma completa desconhecida. Ainda confiava em Lily, claro. Mais do que em qualquer outra pessoa, mas tinha certeza de que ela voltaria a lhe mentir. Especialmente se achasse que isso o deixaria seguro. Essa certeza mudava tudo, e a idéia de ser poupado, de não saber, não o agradava nem um pouco.
Enquanto caminhavam pela Rua da Costa em direção à ponte que os levaria a Southwark, Harry sentia ser corroído por perguntas, não apenas sobre o seu passado, mas também sobre o que o futuro lhe reservava. Lily falara em treiná-lo, ensiná-lo a se defender, mas também falara em fugir, em ir para o continente. Seu coração perdia o compasso cada vez que lembrava isso. Em que tipo de jornada eles se envolveriam? Que tipo de proteção esse treinamento lhe daria? Seria rápido? Longo? E se alguma coisa acontecesse a Lily? Harry olhou seu perfil altivo e sua postura desconfiada de soslaio. Ela disse que seu inimigo não desistiria, que continuaria a caçá-lo. Isso o fez pensar que, de alguma forma, ele era importante para impedir a tal escuridão de que a cigana falara. E se Voldemort o achasse? E se ele o matasse antes de Harry poder se defender? O que aconteceria? Quem o impediria? Mais do que isso: Harry não queria morrer.
Era muita coisa, em muito pouco tempo, e sua cabeça parecia não ter espaço para tantos pensamentos, tantas perguntas sem respostas. Os dois pararam no início da ponte que levava ao outro lado do rio. Havia muita gente por ali: pessoas que cruzavam a ponte para ambos os lados, uma grande aglomeração ainda maior em torno das docas, operários carregando blocos cinzentos de pedra e se erguendo nos andaimes usados na edificação da ponte, ainda inacabada. A própri ponte, em si, já era algo impressionante. Era muito larga e estava sendo construída em pedra. Pelo menos era o que se via até mais ou menos a sua metade, depois ela seguia, até o outro lado, ainda em madeira.
– Quando terminarem será toda de pedra – disse Liy. Depois, olhou para o filho. – Pronto?
Harry, no entanto, tinha tido sua atenção capturada pelos três navios ancorados nas docas. Rampas de madeira os ligavam a terra e por elas subiam homens carregando fardos, caixas e armas. Pareciam formigas grandes. Ele já ia responder à mãe, quando um homem, parado perto da rampa mais próxima lhe chamou a atenção. Ele tinha um arco nas costas e a cabeça coberta por um capuz escuro, contudo, não lembrava nem um guarda, nem um caçador. Harry achou que sua roupa tinha algo de vagamente familiar e quando o homem olhou rapidamente para trás, o garoto soube por quê.
– Mãe! Eu já volto!
– O quê? – Lily o segurou pelo braço impedindo-o de correr. – Onde você pensa...?
– Eu não posso explicar agora – disse com urgência. – Eu tenho... – os dois continuavam lutando com o braço de Harry convertido em cabo de guerra. – Mãe, eu vou perdê-lo!
– Perder quem, garoto? Você enlouqueceu?
Harry deu um safanão e mesmo assim Lily parecia mais forte. Parou de lutar.
– Confia em mim?
– Claro que confio – ela falou, mas não parecia ter realmente dado importância à pergunta. – Que maluquice é...?
– Então, me solte! Eu disse: eu já volto!
Os dedos de Lily soltaram o seu braço como se tivessem sido queimados. Os olhos verdes arregalaram, mas Harry não viu mais nada. Apenas se virou e correu. Desviou o que pode das pessoas que andavam por ali e quase derrubou um rapaz alto de cabelos vermelhos que estava prestes a embarcar, mas não tirou os olhos de seu objetivo. Instantes depois ele pegava o braço do homem que se virou para ele, apavorado.
– Tudo bem – sussurrou, enquanto levava a outra mão para segurar uma dor aguda no lado do corpo. – Sou eu!
O rapaz lhe abriu um grande sorriso.
– Ora, ora, se não é o meu pequeno salvador! O que faz aqui? – o prisioneiro que Harry havia libertado em Surrey parecia agradavelmente surpreso. – Não me diga que seu trabalho de libertador incluiu longas despedidas nas docas. Não sou exatamente um cara emotivo, sabe?
Harry se curvou recuperando o fôlego sem conseguir responder ou xingar o outro pela piada ridícula. O jovem, no entanto, levou o braço para evitar que ele perdesse o equilíbrio enquanto se recuperava da corrida.
– Arrumei problemas para você, foi? – ele perguntou preocupado.
O garoto negou, endireitou o corpo e fez sinal para que o outro o seguisse. Os dois se afastaram do meio da multidão que cercava a entrada dos navios e se esconderam, por escolha de Harry, atrás de uma enorme e vacilante pilha de caixas.
– Você vai embarcar? Vai para as Cruzadas? – Harry conseguiu, finalmente, perguntar.
– É – concordou o outro, olhando por cima do ombro para ver se não haviam sido seguidos. – Acho que devo ganhar uma folga por aqui, se for até lá e matar uns infiéis. Como vou dar a chance de eles me matarem também, não fico em dívida com ninguém. É um bom plano para os próximos anos. Dá tempo do machado que me espera enferrujar um pouco.
Harry revirou os olhos enquanto o outro debochava. O cara tinha um senso de humor no mínimo esquisito. Seria bom se ele o ouvisse.
– Escute! – Tomou fôlego. – Preciso te fazer uma pergunta. Seu nome é Locksley, não é?
O prisioneiro parou e estreitou seus olhos escuros, considerando o garoto.
– É apenas o nome de um lugar. Qual o problema? – desconversou.
– Bem – respondeu Harry, um pouco sem paciência – se você é Locksley é bom saber que tem um cara querendo te matar.
A gargalhada dele tirou ainda mais o humor e a vontade de ajudar de Harry.
– Só um? Garoto, você lembra onde me encontrou a primeira vez? Não quero me gabar, mas acho que pelo menos meia Inglaterra, no momento, está querendo a minha cabeça.
– Eu não estou falando dos homens do rei – revidou Harry, com rispidez. Ele se ergueu nas pontas dos pés para ver, por cima do ombro do outro, se ninguém os ouvia. – Você sabe o que é um bruxo?
Um instante de incompreensão passou pelo rosto do rapaz, antes do ar debochado tomar conta dele mais uma vez.
– A pergunta não deveria ser se eu acredito em gente capaz de fazer mágica com as mãos?
– Não! – respondeu Harry em desafio.
– É, eu achei que não – disse o outro com lentidão. – Ao menos, não depois do que eu vi você fazer, não é mesmo?
O tom de ameaça não passou despercebido a Harry, mas ele, estranhamente, não sentiu nenhum receio disso. Parecia estar diante de um animal acuado que rosnava.
– Certo. Então, se sabe o que é, imagine um muito poderoso – disse Harry com pressa. Era melhor dizer de uma vez o que ele tinha vindo falar e fazer com que o outro entendesse. – Poderoso e cruel.
– É uma descrição que se aplica a muitos homens que eu conheço.
– Pois bem, imagine isso em alguém que não é comum. Alguém que faz mágica. De verdade. Você está na mira deste bruxo e ele não vai descansar enquanto não matá-lo.
– Por quê?
– Eu bem que gostaria de saber – respondeu Harry, sinceramente.
– Como você sabe disso?
– Não importa. Eu só quis avisá-lo.
Locksley obviamente notou que ele sabia mais e não queria falar. Coçou o queixo parecendo pensar um pouco. Não havia traços de deboche ou descaso no seu rosto agora. Harry agradeceu mentalmente por ele, finalmente, parecer levar algo a sério. Com um gesto de cabeça, o garoto fez menção de partir e o outro o segurou.
– Obrigado.
– Não tem de quê.
O rapaz voltou a sorrir de lado.
– Pelo visto, as Cruzadas estão quase parecendo um passeio, não é?
Harry se lembrou dele desfazendo das Cruzadas e do empenho do rei em atravessar o mundo para libertar o túmulo de Jesus das mãos dos infiéis e perguntou.
– Eu pensei que você não concordasse com elas.
– Eu preciso que esqueçam um pouco a minha cara. E... lutar ao lado do rei pode, diminuir a minha pena, não é? Mas não se preocupe, amigo, eu pretendo voltar.
– Mas você realmente não devia...
– Por quê? Por que querem me matar? – Ele se inclinou um pouco e olhou diretamente nos olhos de Harry. – Eu também quero matar alguns deles, garoto. É só uma questão de quem chegar primeiro.
Havia uma seriedade marcada de ódio em cada palavra que ele dizia. Harry ficou se perguntando como alguém, que parecia ter apenas alguns anos a mais do que ele, podia agir como se nada temesse ou tivesse a perder. Locksley endireitou o corpo e seu olhar suavizou.
– Será que posso saber o nome do homem a quem estou devendo a minha vida pela segunda vez?
O garoto sorriu. Gostou de ser tratado como homem.
– Harry. Meu nome é Harry.
O outro sorriu e lhe estendeu a mão.
– Como eu disse: Locksley é um lugar. O lugar onde nasci. Meu nome é Robert. Robin, para os meus amigos.
Harry devolveu o aperto de mão, aceitando de bom grado o convite de amizade.
– Se cuide, então, Robin.
O rapaz voltou a rir.
– Você também. Afinal, um dia eu tenho de salvar a sua vida, não é? Não pretendo morrer te devendo esta.
Quando Harry voltou a atravessar a ponte para reencontrar a mãe, viu Robin se esgueirando pela rampa do primeiro navio ancorado e sumindo atrás de um cordame.
– Quer me explicar o que foi aquilo?
Como se viesse do nada, Lily surgiu ao lado dele sacudindo-o pelo ombro. Estava pálida, ofegante e seus olhos saltavam chispas. Ela precisou de algum tempo até compreender tudo o que Harry contou. Os dois voltaram a andar atravessando a ponte em direção a Southwark. Só pararam uma vez para que Lily olhasse demoradamente para o barco em que Robin embarcara.
– Pobre rapaz – ela murmurou – Perdeu o pai, a mãe, e agora tem de deixar toda a sua vida para trás.
Harry ficou sem saber se ela falava de Robin, dele ou dela mesma. Talvez, ele só tenha realizado naquele instante que, por sua causa, sua mãe também era uma fugitiva. Alguém condenada a deixar a própria vida, constantemente, para trás.
Quando finalmente chegaram ao outro lado da ponte, foi como se houvessem saído de Londres e voltado para alguma pequena aldeia. Southwark era formado por uma estrada geral com algumas casas esparsas em ruelas de terra, sulcadas por carroças de bois. Logo na saída da ponte, havia uma construção um pouco maior. “Mais um convento”, lhe informou Lily. Os dois seguiram uma boa distância pela estrada principal até que as casas começaram a ficar mais e mais raras. Então, finalmente, Harry avistou o que não teve dúvidas de ser o seu objetivo. O sorriso de Lily só confirmou que ele estava certo.
A última casa era diferente de todas as outras. Toda feita em pedra e não em barro, possuía inúmeras janelas (o que era bem incomum), que, no momento, estavam fechadas por folhas de madeira. À frente se destacava um jardim de flores coloridas. Nem mesmo tia Petúnia, que gostava de ter flores na volta da casa, tinha tantas. Algumas delas, Harry jamais tinha visto. Haviam sido plantadas de forma a parecerem um mato colorido cercando a casa por todos os lados. Aos fundos, Harry conseguiu ver canteiros com ervas e hortaliças. De onde estava, as abóboras lhe pareceram gigantescas.
Os dois contornaram o muro pequeno que cercava a casa e entraram por um portão baixo. A porta da frente era igualmente singular. Pintada num azul forte e chamativo, tinha sido salpicada de estrelas prateadas, um sol dourado e algumas bolas coloridas. Uma delas estava no meio de um anel. O conjunto era tão estranho que Harry demorou a perceber que bem ao centro, incrustada na porta, havia uma cabeça de leão e, sob ela, uma aldrava, ambas em ferro. Lily ergueu a mão e bateu com a aldrava três vezes. A resposta fez Harry dar vários passos para trás. O leão de ferro abriu as pálpebras antes fechadas e sorriu.
– Bom dia – disse com uma voz masculina e melodiosa. O queixo de Harry caiu. – Em que posso ajudá-los?
Lily não pareceu surpresa ao responder.
– Bom dia. Estamos procurando o Grande Alquimista. Ele está?
– Oh! Eu sinto muito. O patrão saiu cedo hoje e parece que não tem hora para voltar.
A expressão de Lily era a própria decepção.
– Mas ele está em Londres, não está?
– Sim, sim. Creio que foi ao palácio real. O patrão anda se metendo demais em política, se posso dar a minha opinião. Mas, eu não posso. Sou só o porteiro.
Lily sorriu.
– Acha que se o esperarmos, poderemos lhe falar?
– Com certeza. O patrão sempre recebe quem o procura. Mas não posso convidá-los a entrar. A senhora me entende, não?
– Claro – disse Lily sem ocultar o desapontamento. – Nesse caso, muito obrigada.
Ela se voltou para ir embora, mas a cabeça de ferro chamou:
– Não gostaria de dizer seu nome? Ou onde vai ficar? Talvez o patrão a procure.
– Acho que ficaremos na estalagem, ali adiante – respondeu Lily. – Obrigada pela gentileza.
– Não há de quê – respondeu a cabeça, com um pouco de despeito. Obviamente ela não gostou de Lily ter se recusado a dizer os nomes deles. – Mas devo avisá-los que aquele lugar é bem mal freqüentado e eu usaria meu próprio copo, se fosse beber algo lá.
A mulher riu e curvou a cabeça num gesto de despedida. Harry só voltou a falar quando os dois retornaram a estrada principal.
– O que foi aquilo?
– Uma cabeça de leão entalhada em metal e enfeitiçada para servir como porteiro – explicou Lily calmamente. – O Grande Alquimista é, provavelmente, o bruxo mais poderoso que existe. E tem um grande senso de humor também, como pode perceber pelo seu guardião.
Harry olhou para trás, para ver a casa novamente.
– Nunca imaginei que se pudesse fazer algo assim com magia.
– Meu bem, isso não é nada – ela disse num sorriso cheio de promessas, e logo depois voltou a ficar séria. – Mas precisamos pensar no que fazer agora.
– Vamos esperá-lo, não vamos?
– Sim, apenas... fiquei pensando que se falássemos com ele logo, poderíamos aproveitar os navios...
– Você diz... os que vão para as Cruzadas?
– É um transporte até o continente, não é? Poderíamos ir escondidos neles.
– Péssima idéia – resmungou Harry imediatamente e Lily lhe arregalou os olhos. – Você é mulher, mãe. Acha que seria fácil fazer essa viagem com você escondida?
– Oh! – Harry não gostou da expressão dela. Lily tinha o dom de reduzir a sua idade em quase uma década quando se expressava daquele jeito. – Você é um amor, querido, mas a sua mãezinha não é exatamente uma donzela indefesa. Um homem comum precisaria de bem mais que força para encostar um dedo em mim. E a verdade, é que me incomoda a idéia de continuar aqui por muito tempo.
– Mas você disse que o Grande Alquimista me ensinaria – Harry baixou a voz – a usar mágica. Se partirmos, como ele poderá me ensinar?
Lily deu um grande suspiro.
– Eu sei – disse contrariada. – Vamos para a estalagem. Precisamos descansar e eu preciso pensar um pouco. Pedirei um quarto em que possa ficar de olho na casa. Assim que o Alquimista chegar, viremos falar com ele. Tenho certeza de que ele saberá nos aconselhar.
Harry a seguiu em silêncio. Não sabia exatamente porque, mas a idéia de ir para o continente cada vez lhe parecia mais incomoda. Tinha uma sensação de que o que ele realmente precisava saber e descobrir, estava ali e não do outro lado do mar. Foi por isso que, antes mesmo que eles entrassem na estalagem, Harry tomou uma decisão. Só concordaria com os planos da mãe depois que ela lhe contasse tudo o que ainda estava escondendo. Talvez assim, ela conseguisse aplacar aquela sensação que lhe queimava a boca do estômago, a sensação de que, deixar a Inglaterra era um grande e grave erro.
O leão não tinha mentido sobre a estalagem. Era um lugarzinho asqueroso, abafado, com chão de terra úmida e um balcão arenoso, atrás do qual um homem servia bebidas tiradas de garrafas empoeiradas. Havia mulheres circulando pela taberna, rindo alto e escandalosamente. Algumas estavam servindo bebidas, outras se sentavam despudoradamente no colo dos homens que ocupavam as mesas do lugar. Harry só vira decotes como aquele nas mulheres que o tinha chamado nas ruas de Londres. Mais adiante, num canto escuro da taberna, havia um grupo que imediatamente chamou a sua atenção. Eram os menores e mais feios homens que ele já vira em toda a sua vida.
– Não encare – censurou Lily, imediatamente. – São duendes.
O aviso tornou mais difícil para Harry não olhar. Já ouvira falar de duendes, nas histórias, claro, mas nunca tinha visto um. Eram realmente muito feios, com suas peles bexiguentas, orelhas enormes e narizes curvos. Os que estavam ali tinham também expressões malvadas e cheias de malícia. Olhavam tudo de soslaio, cochichavam e pareciam tramar. Mas não eram os únicos estranhos ali.
Harry logo percebeu que o lugar parecia ser ponto de encontro para gente de todo o tipo e com gostos bem incomuns. Muitos usavam capas e a maioria escondia o rosto. O garoto teve certeza de ver pelo menos duas pessoas portando varinhas. E, ao menos uns três, olharam Harry com excessiva familiaridade. Isso fez o garoto desistir de analisar o ambiente e ficar logo atrás da mãe. Lily notou os olhares para eles e pareceu não gostar. Com rapidez, ela se encaminhou para o bar e negociou um quarto. Assim, que o conseguiu, ela passou a mão por trás do pescoço do filho e os dois subiram para o andar de cima. Este era todo feito em madeira e, por isso, mais abafado que o de baixo.
Um monte de palha suja num canto, para servir de cama, e um toco de madeira para sentar, eram os únicos móveis ali. Harry não achou do que reclamar, embora a mãe se desculpasse pelo aspecto imundo do lugar. Puxando a varinha, Lily sugou um pouco da terra que cobria o chão e depois lançou um feitiço na palha, deixando-a mais limpa e menos fedorenta. Harry observou-a fazer magia, encantado. Ele tirou a própria varinha de dentro da camisa e ficou olhando, imaginando o que poderia fazer com ela. Enquanto isso, Lily cobriu a palha com um pano limpo, tirado do saco de coisas que carregava, e depois estendeu outro no chão e convidou Harry a comer. Já tinha passado muito da hora do almoço e o garoto sentia o estômago doer e rosnar.
– Depois durma um pouco, querido – ela lhe disse, observando-o devorar um dos últimos pedaços de porco defumado. – Eu vou tentar arrumar umas coisas de que precisaremos e volto logo.
– Eu vou com você – protestou o garoto.
– Não precisa, Harry. Prefiro que você fique aqui e tome conta das nossas coisas.
– Eu pensei que íamos conversar enquanto esperávamos o Alquimista.
Lily respirou fundo.
– Vamos, sim. Mas eu realmente preciso procurar umas coisas...
– Que coisas?
– Bem, comida. Está acabando e... eu quero começar a ensiná-lo, ora! Eu achei que poderíamos começar com poções. Sempre fui boa em poções, então, vou ver se consigo alguns ingredientes. O que acha de começar a treinar para ser um bruxo de verdade?
Nem o sorriso, nem a animação enganaram Harry. Ela tinha falado rápido demais e, ele não tinha dúvidas, estava mentindo.
– Quanto tempo mais, mãe?
Lily baixou os olhos, parecendo envergonhada.
– Desculpe, querido... – ela voltou a encarou o filho. – Tive a impressão de que alguém o reconheceu lá embaixo. Não posso deixar que você fique andando por aí. É perigoso para nós.
– Me reconheceu? Como alguém pode me reconhecer... eu... – ele parou, a fala do Sr. Olivaras voltando a sua mente. – Eu sou parecido com o meu pai. É isso, não é?
– É. E acredite – ela lhe apertou as bochechas daquele jeito irritante que as mães fazem – se eu não fosse louca por essa sua carinha já tinha transfigurado você. – Lily sorriu. – Ok, eu não sou muito boa em transfiguração, e é por isso que preciso que você fique aqui.
– Certo – concordou Harry de má vontade. – O que vai realmente fazer?
– Vou confundir o homem que acho que o reconheceu e também vou mesmo atrás de ingredientes e de mais comida. Não podemos depender da chegada do Alquimista. Você me espera aqui? Por favor?
– Eu não tenho muita escolha, não é? – resmungou Harry.
Lily se inclinou e lhe deu um beijo no rosto.
– Eu amo você, querido!
– Também te amo, mãe.
Ela se levantou e puxou a varinha. Com um gesto largo, Lily fez aparecer um arco e uma aljava com flechas. O conjunto lembrava o que Harry tinha para caçar quando morava na casa dos tios.
– Se precisar, use – ela lhe disse com seriedade.
– Sabe que eu sou péssimo com isso. Eu não consigo fazer a mira direito.
– Eu sei, meu bem. Mas os outros não precisam saber, não é?
Pouco depois, ela deixava Harry sozinho. O garoto terminou de comer e se estendeu sobre a palha. Não pretendia dormir, apenas pensar, mas o cansaço e o estômago forrado acabaram lhe roubando a consciência. Acordou com risadas masculinas bem altas, logo abaixo da sua janela. Havia pouca claridade e Harry deduziu que o sol já estivesse se pondo. Não pretendia ter dormido tanto. Os homens sob a janela estavam amarrando os cavalos e conversando alto.
– Eu ainda não acredito que você o deixou escapar – disse um dos homens. – Estava na sua mira.
– Sou sensível quando se trata de matar cervos – respondeu outro.
– Bem, é como diz o ditado, não? – comentou um terceiro. – Infelizes na caça, felizes no... – ele parou. – Felizes no que mesmo?
O que havia falado primeiro deu uma gargalhada.
– Se esse é o caso, deveríamos só olhar para o bicho que ele morreria na hora. Somos o trio mais infeliz que eu conheço e, graças à sensibilidade do nosso amigo aqui, ainda teremos um péssimo jantar!
Os outros o acompanharam nas risadas altas.
– Estou entendo a sua cena. Você quer que eu pague o jantar, não é?
– O ricaço olho ruim aqui é você. Acho que está devendo, Milord.
– Faça essa reverência de novo e eu chuto o seu traseiro.
Ainda rindo os homens se afastaram da janela de Harry e fizeram a volta para entrar na estalagem. O garoto, então, se sentou no chão, no escuro, os pensamentos indo imediatamente para a mãe. Ela já devia ter voltado. Uma preocupação impotente o varreu. Não sabia se devia ou não sair para procurá-la, logo seria noite fechada e, se sua mãe não voltasse, era porque algo havia acontecido.
Foi quando um alvoroço chegou aos seus ouvidos. Vinha da entrada da estalagem. Barulhos indistintos de estouros e berros. Harry ouviu alguns gritos de mulher e, quando achou ter identificado entre eles a voz da mãe, pegou o arco e a aljava, pôs a varinha na cintura e saiu correndo em direção ao andar de baixo.
Harry parou no meio da escada, atônito. Uma enorme confusão estava instalada na taberna da estalagem. Coisas voavam, se estraçalhavam contra as paredes. Um homem veio rodando e caiu com o queixo na escada. No instante seguinte, o garoto precisou se abaixar quando uma cadeira voou na sua direção. A briga era generalizada, mas no centro dela, mesmo com dificuldade, Harry reconheceu os duendes. Eles atacavam com raiva e as pessoas se defendiam como podiam dos raios que lançavam. Havia berros de ambos os lados e o garoto não demorou a identificar que o lugar estava repleto de bruxos, pois estes revidavam o os ataques dos duendes com feitiços poderosos e procuravam proteger os que não sabiam fazer magia.
O feitiço de um dos duendes fez uma das mulheres da taberna ficar com cara de porco. Em retaliação, um bruxo alto, de longos cabelos escuros, lançou uma quantidade de faíscas azuis com sua varinha e o duende saltou no ar três vezes antes de cair desacordado no chão. Facas partiram voando da mão de outro duende e um bruxo de cabelos claros e capa fez uma mesa se erguer no ar e proteger umas pessoas, que estavam paradas em um canto. O ar se cobria de raios luminosos, gritos e impropérios. Harry tentou identificar a mãe no meio da confusão, mas era difícil.
Um duende saltou sobre o bruxo de cabelos claros com as unhas em riste e este caiu para trás passando pela porta. Foi como um sinal e logo a briga passou para o lado de fora como se precisasse de mais espaço. Harry seguiu assim que pode. Pulou por cima do homem caído na escada, de um duende estatelado de borco no chão e percebeu que havia mais dois corpos humanos jogados pelo bar. Ele tinha certeza de que Lily estava ali, no meio daquela confusão.
Do lado de fora, a briga pareceu se polarizar rapidamente. Harry pode perceber que, de um lado, ficaram os duendes, que lançavam ataques de aparência mortal; do outro, havia quatro bruxos que defendiam um punhado de pessoas. Harry deduziu que estes eram gente comum, pois não estavam com as varinhas em riste. Havia outros bruxos ali, mas todos acabaram ficando atrás dos quatro. Harry percebeu, pela rapidez e pontaria, que eles eram incrivelmente habilidosos. Jamais tinha presenciado um duelo como aquele e, foi com o ar faltando nos pulmões, que ele identificou, entre os quatro bruxos, a sua mãe.
Nunca tinha visto Lily daquele jeito. O capuz havia caído e o cabelo escapava da trança, mas ela golpeava e agitava a varinha com precisão. Parecia até feliz em lutar. A boca do menino simplesmente não fechava. Estava impressionado, deslumbrado e assustado. Era como se nunca tivesse visto aquela mulher antes na sua vida.
Não demorou muito e os duendes perceberam que não poderiam vencer. Um sinal rápido de um deles e os cinco duendes restantes começaram a se agrupar. Harry sentiu o perigo na manobra, mas não houve tempo para nada. Unidos, eles lançaram uma bola de fogo que explodiu entre os lutadores e avançou sobre os quatro bruxos. Harry berrou pela mãe e um dos homens que estava lutando pôs o corpo na frente do dela e gritou:
– Protego!
A bola de fogo bateu numa parede invisível, porém ela se curvou e envolveu os três bruxos e Lily. Harry sentiu que sua garganta era arrancada dele enquanto urrava por ela. Logo, ele se pôs a espernear porque alguém o tinha segurado, impedindo-o de se jogar nas chamas. Seu pânico, porém, durou pouco. Como que sugadas, as chamas voltaram ao ponto onde tinham batido na parede invisível. Dois dos homens estavam caídos no chão, mas obviamente conscientes. O outro, o que lançara o feitiço de proteção, se mantinha em pé e, com um novo movimento de varinha, fez com que as chamas se adensassem de novo e saíssem voando na direção de onde tinham vindo. Os duendes, contudo, haviam sumido na confusão.
Harry viu Lily sentada no chão. Ela havia caído com os outros bruxos. Os três pareciam tontos, mas bem. Houve um segundo de silêncio, então as vozes de todos irromperam. Xingavam os duendes, falavam de uma tentativa de roubo de varinhas, elogiavam os bruxos que tinham brigado. As mãos que haviam segurado Harry o soltaram. O garoto pensou em correr para a mãe, mas mal tinha se movido e viu o bruxo que tinha se colocado à frente dela se virar e lhe oferecer a mão. Lily aceitou e ficou em pé. Porém, assim que os dois se olharam, Harry percebeu que havia algo errado. O rosto da mãe se transformou numa máscara de pânico e ela puxou o braço, mas o bruxo, igualmente transtornado, não soltou. Pelo contrário, ele a prendeu com firmeza. Isso fez as pernas de Harry se soltarem e ele correu para ajudar a mãe.
Os outros dois homens ajudavam um ao outro a levantar do chão e pareciam não ter percebido o que estava acontecendo. Harry teria pouco tempo, pois ele e a mãe não poderiam lutar contra aqueles bruxos. Será que eram os homens de quem fugiam? Do tal Lord? Não tinha a menor idéia do que fazer se empunhasse a sua varinha, então... Sem pensar direito ele puxou uma flecha e armou o arco apontando para o homem que segurava sua mãe.
– SOLTE-A! – Ordenou.
O pânico de Lily pareceu ainda maior ao ver o filho. Mas Harry não recuou. Retesou o arco ainda mais. O homem seguiu o olhar dela até ele e pareceu congelar. Harry olhou de soslaio para os outros dois, mas estes também pareciam presos no lugar e, o que quer que fosse que os paralisava, Harry interpretou como vantagem.
– Eu disse para soltá-la! – berrou. – Solte-a ou eu atiro!
Mas para a sua surpresa, Lily jogou o corpo na frente do homem, protegendo-o.
– NÃO! – ela gritou apavorada. – Não atire! Baixe o arco, Harry!
Se o mundo ainda fizesse algum sentido depois daquilo, Harry teria se impressionado com o fato de que o homem não ergueu a varinha para ele, nem tentou enfeitiçá-lo. Pelo contrário, ele soltou o braço de Lily e ergueu as mãos deixando-as bem visíveis. Ele o encarava abertamente e sem medo. Parecia que poderia devorar o seu rosto, tal a intensidade com que o fixava.
Os olhos do menino se desviaram da mãe para o bruxo parado atrás dela. Era alto e tinha cabelos escuros pela altura dos ombros, mas de um jeito completamente bagunçado. Um cavanhaque marcava uma expressão séria e Harry não tinha dúvidas de que ele era também um homem de linhagem. Usava roupas de aparência cara e uma longa capa vermelha. Os homens que o acompanhavam usavam roupas parecidas. Harry identificou-os rapidamente. Um deles tinha também cabelos escuros e longos, o outro era mais claro, e parecia um pouco mais velho. Nenhum deles sacou a espada ou apontou a varinha para Harry e isso fez o menino, lentamente, baixar o arco, embora o mantivesse armado.
Com passos estudados, Harry se aproximou deles. As outras pessoas tinham perdido a importância. Harry nem sabia se elas continuavam ali ou se tinham entrado de volta para o bar. Tudo o que ele registrava era a atitude estranha de sua mãe e daqueles homens. Eles o olhavam como se o conhecessem e ela... Lily deixava lágrimas imensas correrem dos seus olhos.
– Mãe... – chamou assim que chegou perto. – O que está acontecendo?
Ela mordeu os lábios, mas não pode responder. O homem logo atrás dela foi quem falou.
– É Lily... Acho que todos aqui querem uma explicação, não é mesmo? – Ela fechou os olhos ao ouvir a voz ferina, cheia de raiva mal controlada, do bruxo. – Porque não começa apresentando o Harry ao pai dele? Ao pai de quem você o roubou!
O arco caiu das mãos de Harry com um baque. Ele olhou desesperadamente para mãe, esperando que ela negasse ou confirmasse o que aquele homem dizia. Mas Lily apenas fechou os olhos, como se toda a força que Harry conhecia nela desde sempre, e que fora tão poderosa nos últimos dias, falhasse. Harry ouviu os outros dois homens se aproximarem, ambos murmurarem os nomes deles com absoluta incredulidade. Contudo, o homem que dizia ser o seu pai lhe pareceu bem frio ao erguer a voz novamente.
– Remus, pegue os cavalos. Vamos direto para a casa de Dumbledore.
As palavras dele fizeram Lily se agitar, mas o homem manteve os olhos fixos em Harry. O bruxo de cabelo claro e grisalho se afastou sem retrucar. Harry avaliou imediatamente quem era o chefe ali.
– Sirius – o outro, o de cabelos longos e negros, se aproximou até quase encostar o ombro nele – faça alguma coisa com esse pessoal. Confunda-os, estupore, o que for necessário. Precisamos de tempo! Veja se alguém me reconheceu ou ouviu eu me declarar pai do garoto.
– Você quem manda. – Disse voltando-se para alguns retardatários que pareciam ter ficado assistindo a cena toda. – Ei pessoal, o espetáculo acabou! Vamos entrar! – Falou alto e fanfarronamente batendo nas costas de alguns homens e rindo. – Que tal uma rodada por conta do patrão aqui, hein? Vamos, vamos!
A menção a cerveja de graça fez com que os mais relutantes entrassem logo. Em instantes, restavam apenas Lily, Harry e o homem que dizia ser o seu pai. Lily pareceu finalmente ter recobrado a voz. Ela se virou para o homem diante dela com o queixo erguido.
– Jamais deixaria que Harry tivesse de carregar o remorso de matar você, mas eu não terei nenhum escrúpulo em fazer isso com as minhas próprias mãos se...
– Treze anos sem me ver e no reencontro ameaças de morte. Estou tocado, Lily. – Ele a interropeu com frieza. Harry olhava de um para o outro, assustado. Sua mãe parecia à beira da histeria e o homem... Por Deus, ele nunca tinha visto ninguém se controlar com tanta força quanto ele. Seu olhar, porém era suave ao se dirigir para Harry. – Não tenho idéia do que ela lhe falou a meu respeito, Harry, mas tem a minha palavra de cavaleiro que nem você, nem ela, tem qualquer coisa a temer de mim.
Lily soltou um bufo descrente e cruzou os braços, com raiva. Harry sentia-se ainda mais perdido.
– O senhor... O senhor é realmente o meu pai?
O homem sorriu. Um sorriso franco, feliz.
– Sou. Eu sou James Potter, filho, o seu pai.
Harry piscou. O nome Potter veio-lhe imediatamente à mente. O que era mesmo que os homens tinham dito? Potter estava na região com os homens dele. Ele não valia nada sem o outro garoto. Outro garoto? Será que estavam falando dele? Também tinham dito que Potter era problema e que o Lord não queria enfrentá-lo ainda. Apenas lembrar isso, fez Harry, instintivamente, dar um passo na direção do pai. Lily se colocou imediatamente entre os dois e o sorriso de James sumiu.
– Ele ao menos sabia o meu nome Lily? Sabia o nome dele?
– Quanto menos soubesse, mais seguro ele estaria.
– Harry estaria seguro na casa dele! Haveria exércitos para protegê-lo!
– E quem o protegeria de você?
Os olhos de James saltaram das órbitas, mas ele não chegou a responder. Remus já retornava guiando os três cavalos, ao mesmo tempo em que Sirius saía da estalagem mexendo despreocupadamente a varinha entre os dedos.
– Deu algum trabalho – comentou ao chegar perto deles. – Com sorte, não havia nenhum espião aí dentro.
– Não podemos contar com a sorte, Sirius – repreendeu Remus.
– Não, não podemos – disse James, seu olhar para Lily era de tristeza e incredulidade. – Minha esposa acha que não pode inclusive contar comigo. – Os outros dois pareciam penalizados. – Ela acha que sou um perigo para o meu próprio filho!
– Lily – lamentou Remus – como pode acreditar nisso?
– O James? Lily, que diabos deu em você? – reclamou Sirius.
Lily se esquivou dos dois e passou o braço protetoramente sobre os ombros do filho. James negou com a cabeça.
– Deixem. Estamos perdendo tempo aqui e expondo o Harry. Vamos logo.
– Não vamos a lugar nenhum com vocês! – afirmou Lily com altivez.
– Mãe!
Dessa vez, o controle de James ruiu. Ele jogou os braços para cima e avançou na direção da mulher. Sirius segurou-o pondo meio corpo na frente dele.
– Calma, Pontas. Calma.
– Calma? Me diga Lily! Você não está aqui por acaso, não é? Veio atrás do Grande Alquimista, não foi? Veio atrás de Dumbledore? É aonde vamos. Até Dumbledore. Será que pode andar algumas jardas em minha companhia ou terei de arrastá-la?
– James! – Remus ergueu a voz com autoridade. – Controle-se! Você e Lily podem brigar depois e não na frente do Harry!
O casal estava ofegante e se olhava cheio de desconfiança e raiva. Harry nem sabia o que pensar. Continuava sem entender o que tinha acontecido e, em todas as fantasias que alimentara a respeito do seu pai, jamais imaginara ver a ele e a mãe como dois inimigos, prestes a se matarem. Isso lhe deu uma sensação horrível. Imediatamente começou a se perguntar como foi que ele havia nascido.
– Eu vou à frente – falou James com esforço para aparentar uma calma que, obviamente, não tinha. – Pode apontar a sua varinha para as minhas costas, se quiser, Milady. Não hesite se eu ameaçá-la ou ao nosso filho. – Ele se virou para começar a andar, então virou a cabeça com uma careta. – E que desgraça foi que você fez com o seu cabelo, hein?
Sirius rolou os olhos e lhe deu um tapinha no ombro para fazê-lo andar. Harry pegou a mão da mãe e a incitou a segui-los. Ele não sabia o que a havia feito perder a confiança no seu pai, mas o garoto começava a achar que ela tinha se enganado. Assim que pudesse, ele lhe contaria o que tinha ouvido sobre Potter. Não deveria haver outro, não é? Os homens do Lord deviam estar falando do seu pai. Essa certeza deu a Harry uma nova confiança, uma calma que ele estava louco para poder transmitir a mãe. Olhou para trás e Remus lhe piscou o olho. O cavaleiro fechava o pequeno cortejo, puxando os cavalos pelas rédeas. O garoto notou, porém, que ele parecia manter todos os sentidos na escuridão que agora os cercava. Harry respirou, quase com alivio. Desde que saíra da casa dos Dursley, desde que sua mãe lhe contara, ele nunca tinha se sentido tão seguro quanto naquele momento.
A porta da casa do Alquimista, ao contrário de todas as casas da redondeza, era a única iluminada. Dois grandes archotes a ladeavam. Assim que entraram no terreno, o leão de ferro os saldou com os olhos muito abertos.
– Por Mérlin! Quando vi a confusão daqui, tive certeza de que vocês três estariam no meio dela. O patrão não o esperava antes de amanhã, Sir James.
– Eu sei – respondeu o pai de Harry. – Dumbledore já chegou?
– Há bem pouco tempo – informou a cabeça de ferro. – Espere, ele já vem...
A porta se escancarou. Um homem muito alto e magro, com longuíssimas barbas brancas apareceu emoldurado nela. Harry não soube o que achou mais estranho na figura do Grande Alquimista. Se era o seu chapéu pontudo, sua roupa cor de beterraba bordada com estrelas em todas as extremidades, sua impressionante aura de poder, ou o seu sorriso, que parecia traduzir a mais absoluta e plena felicidade. Ele cumprimentou James com grande satisfação e depois seus olhos, de um azul impressivo e brilhante, caíram sobre Harry e sua mãe.
– Deus seja louvado – ele disse abrindo os longos braços que poderiam abarcar o mundo. – Lily! – Um pouco sem graça, mas aliviada, ela se deixou abraçar. E, quando ele finalmente a soltou, Harry se sentiu perfurado pela a atenção que o bruxo lhe dirigiu. – Harry... Harry Potter! – ele o tomou pelos ombros carinhosamente e soletrou aquele nome como se o exercitasse. – Não imagina o quanto faz bem ao coração de um velho vê-lo vivo e bem.
O bruxo o olhou em silêncio por longo tempo, como se pudesse ver atrás dele. Harry estava tão impressionado que nem ao menos soube o que responder. Então, o homem endireitou o corpo e lhe estendeu a mão de um jeito formal e ao mesmo tempo amigável.
– Creio que devemos nos apresentar propriamente, não é? Sou Alvo Dumbledore, bruxo, alquimista, estudioso das estrelas, plantador de abóboras e flores exóticas e um humilde seu criado, meu jovem.
Harry apertou a mão do bruxo com os olhos arregalados de quem continuava compreendendo bem pouco. Afinal, o homem parecia conhecer Harry melhor do que ele próprio.
– Er... Olá!
Dumbledore lhe sorriu francamente.
– É impressionante a sua semelhança com James. Parece que o estou vendo nesta mesma idade, meu amigo – disse se voltando para o pai de Harry. – É claro, que seus olhos são absolutamente idênticos ao da sua mãe. Eu creio que o reconheceria mesmo que ninguém nos apresentasse.
– Esse é todo o problema, Dumbledore – disse Remus. – Acho que nos expusemos um pouco na taberna, talvez alguém tenha reconhecido James e o associado ao garoto.
– O que houve lá, afinal? – perguntou Dumbledore, interessado.
– Duendes – cuspiu Sirius enfadado. – Eles andam colocando as manguinhas de fora, Dumbledore. Tentaram roubar varinhas.
– Hum. Mais problemas, então. – Ele fez um sinal para que todos entrassem e se acomodassem. A porta fechou sem qualquer deles tocasse nela. Dumbledore tocou o ombro de Harry e o encaminhou até o centro da casa. – Mas não é um problema para ser resolvido agora. O importante – disse olhando para o garoto – é que temos Harry de volta, não é? E, acho que todos estamos merecendo um bom copo de cerveja. Sim, Sirius, eu andei melhorando a minha receita. Acho que nata batida a torna mais cremosa. Você me dará a sua opinião – disse com um sorriso gentil. – Quanto ao jantar, receio poder apenas oferecer ensopado. Fiquem a vontade!
Ele se pôs a se movimentar pela casa, agitando a varinha e fazendo as coisas se moverem e só então Harry pode apreciar o lugar mais fascinante que já tinha visto. Ele nunca tinha entrado na casa de um bruxo e, tantas coisas haviam acontecido, que ele nem mesmo tivera tempo de fantasiar sobre isso. Contudo, percebeu rápido que suas fantasias não chegariam nem perto daquilo. A casa de Dumbledore superava tudo.
Havia coisas que apenas diferiam das casas que Harry conhecia e ele imaginava ser comum nas casas dos ricos, como o chão de madeira, e uma grande quantidade de móveis. Havia cadeiras estofadas com lã e forradas com tecidos coloridos. Tapeçarias cobriam as paredes e Harry tomou um susto a ver o unicórnio de uma delas pastar no gramado de lã vermelha. Mesinhas distribuídas pela sala comportavam a mais fascinante coleção de objetos que ela já tinha visto. Talvez não conseguisse nem descrevê-los se tentasse. Havia garrafas transparentes cheias de líquido colorido e borbulhante, com bicos por onde escapava fumaça com um silvo suave. Uma bola dourada era cercada por outras bolas menores que a circulavam aparentemente sem que nada as sustentasse. Uma bacia de pedra com uma estranha pintura no fundo, continha água e uma ponta de flecha que rodava presa a um pino no centro.
Sirius se sentou confortavelmente em uma cadeira e colocou os pés sobre uma mesa, olhava Harry e sorria. Remus encostou-se em uma das janelas, deixando-a semi-aberta e volta e meia olhando por ela, ele também parecia satisfeito em admirar Harry vez ou outra. Lily continuava parada no meio da sala, mas James se aproximou dele e das bolas que giravam no ar e que Harry contemplava sem entender.
– É um modelo do mundo – disse o pai, de forma carinhosa. – Alvo falou que era um estudioso das estrelas não foi?
Harry franziu a testa.
– O mundo é assim?
– Se Alvo acha que é, eu não conheço ninguém que se atreva a discordar.
As esferas giravam em ritmos diferentes, mas de repente, Harry achou-as menos fascinantes que examinar o homem na sua frente. Ele ergueu os ombros.
– Eu realmente não sei muito sobre essas coisas.
James manteve a mesma expressão. Ele tinha um olhar que Harry, até aquele dia, só recebera de sua mãe.
– Vai saber, filho. Vai saber sobre tudo.
A certeza dele deixou o garoto feliz, mas ele não resistiu e disse o que realmente tinha lhe ocorrido.
– Eu queria era saber lutar como você lutou hoje à noite.
Os lábios do pai se distenderam num sorriso cheio de orgulho.
– Como eu? Não, Harry. Você vai ser muitas vezes melhor. Vou me encarregar disso. Pessoalmente.
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N/B: Sabem aquela barrinha ali do lado, que tem aquele quadradinho que vai descendo, conforme a gente lê? Enquanto beto as fics da Sally eu fico encarando o dito quadrado, torcendo para ele andar bem devagarinho... Mas, não tem jeito! Uma hora o capítulo acaba, levando com ele meu fôlego todinho! =D – Esse mexeu comigo, Anam! Todos mexem, porém, esse cavocou fundo. O surgimento de Dumbledore, Sirius, Lupin... e James! O cavaleiro, o caçador, o guerreiro, o bruxo, o PAI, James Potter! A cena do reencontro dos três foi forte, e deixou no ar a promessa de muitas emoções chegando por aqui. Enfim, amada Anam, outra obra de arte literária, a qual eu só posso aplaudir muito, assobiando e batendo os pés, e depois, correr para ler mais uma vez! E outra! E mais uma!... ;D – Beijo grande, querida! Parabéns! Está FANTÁSTICO!!!!! =D – P.s.: O Robin tem um senso de humor tudo de bom! Estranho, mas gostoso! Faz sentido? Rsrsrsrsrs... Aguardando o próximo capítulo! Bjs!
N/A: Este capítulo vai dedicado e como presente (assim espero) para quatro pessoas.
Charlotte Ravenclaw – Minha amiga de todas as horas que cuidou de mim uma noite inteira no hospital, com carinho e desvelo. Vc não tem a dimensão da minha gratidão, querida. Te adoro.
Sônia e Darla: Minhas betas, as duas taurinas. Será karma? Só se for karma bom :D Para as duas que aniversariam esse mês. Amo vcs duas.
Henrique Malfoy: Outro aniversariante desse mês. Prometi e cumpri, viu?
Bem, espero que a minha postagem não esteja atrapalhando o ritmo de leitura de vocês. A história tem fluído rápido e aproveitei o feriado e a folga para adiantar. Sei que não vou manter esse ritmo, mas espero não estar correndo demais e atropelando ninguém.
Fiquei muito feliz de todos gostarem da minha Lily. Tenho trabalhado bastante para ela não ficar caricata, mas uma verdadeira mãe-coragem, que é como a gente a imagina e a ama.
Vocês viram que James e os amigos apareceram, não? E tb Dumbledore. Os personagens irão aparecendo ao seu tempo. Sei que todos anseiam pelos Weasley, Rony, Mione e Ginny. Aguardem, eles logo virão. Sobre a Ginny posso adiantar uma coisa. Nessa história ela não vai ficar em segundo plano como nos livros. Respeito a obra da JK, mas gosto da Ginny na linha de frente. Isso vai acontecer antes mesmo que haja H/G, ok?
Por fim, se alguém ainda não foi ver, ou não sabe, eu postei mapas e plantas baixas da Londres Medieval no meu espaço Multiply. Acho que eles ajudam a visualizar estes últimos dois capítulos.
Para os que comentaram:
Bruna Briti – Nem me fale, ainda sou traumatizada com o ano do meu vestibular. Obrigada por, mesmo assim, vir ler, tá! A Lily é uma leoa protegendo a cria. Isso praticamente a cega, não acha? Um beijão!
Lica Martins – Aii linda, muito obrigada. Sim, todos eles vão entrar na história, mas ao seu tempo e vou ir revelando tudo o que você perguntou, pode deixar. Quanto a sua dupla favorita, vai ser um prazer desenvolver isso desde o comecinho, hihi. Beijo grande!
Clara – Bem, eu confesso que assumir a cadeira de Medieval na facu, ajudou bastante hehe, claro, uma pesquisinha básica tb. Vc sabe que tb sou uma H/G maluca, Clarinha, e prometo que a Ginny será muito importante e ativa nessa história (bem mais que na original), mas ela vai aparecer acho que pelo capítulo 6, ok?
Priscila Louredo – Verdade, hehe. Mas agora os mistérios vão lentamente se resolvendo. Ao menos essa parte dos mistérios. James na área, hihi. Beijão amiga!
Aluada – Valeu Duda! Como é bom ler algo assim. Tem sido uma delicia escrever esta fic e fico super feliz de saber que vocês têm curtido ler. Obrigada!
Henrique Malfoy – *Rindo* Tenho um primo que tb começou a ficar com cabelos brancos nessa idade. Tsc tsc. Não é justo, né? Como ele não me lê, a culpa não é minha, hihi. Espero que a rapidez na atualização ajude a não agravar o problema, rsrs. Beijão, querido.
Naty L. Potter – Bem, eis o James e um pouco mais sobre o prisioneiro! Hehe. Obrigada por elogiar a cena com a varinha, tb gostei de escrevê-la. Eu sei que foi de uma mana para a outra o seu lindo presente, Naty. Tb te amo, Pichi!
Kika – Valeu querida!!! Beijão!
Bernardo Cardoso – Brigadão, meu amigo! Vc não imagina a importância da sua opinião. Um beijo enorme!
Mirella Silveira – Ahh coisa boa! Sabe por que? Porque esta fic terá muito de Lily e James, especialmente nesta primeira parte. Que bom Mirella, que vc está curtindo. Um beijo grande!
Ginny Potter – Acho que atendi o seu pedido, né? Rsrs. Espero que tenha curtido. O mundo medieval proporciona um pouco mais de ritmo em termos de ação, então acho que isso não vai faltar na fic. Beijão.
Darla Von Körper – Betaaaaaaaa!!!! *afofa* Tão bom ter um comentário seu aqui. Rendição, é? Amei!!!!!! Afinal, sua resistência, com certeza, tornou essa história muito melhor e não cansa de me dar idéias. Te amo! Beijo grande!
Maionese – Fica feliz, feliz, querida! Bjs.
Thayse Couto - *vermelha* Nossa, Thayse! Obrigada mesmo, de coração. Beijos.
Charlotte Ravenclaw – Amiga, vc tem sido vital nessa fic sabia? Lê, estimula, comenta antes e depois, até cuida a autora no hospital, rsrs. Sou só agradecimentos para vc. Te amo muito!
Sô – Obrigada, Sô! E bem vinda ao Lumus, hehe! Eu vou resolvendo as coisas, devagarinho, vc vai ver. Sem isso não tem história, não é? Beijo grande!
Kelly – Seus “achimos” não estão enganados, Kelly. Vou elucidar tudinho adiante. Espero que tenha gostado desse tb e até tenha tido algumas perguntas respondidas. Beijos, amiga.
Pedro Henrique Freitas – Adorei o seu comentário, querido. Quanto aos gêmeos, céus, acho que a Molly os matava se os encontrasse enganando as pessoas daquele jeito. Lily estava certa, não eram bruxos, apenas trapaceiros. Mas eles logo irão aparecer e com o tempo vou responder tudinho. Obrigada por, mesmo, com pouco tempo, comentar. Beijocas.
Doug Potter – Obrigada, querido!
Danielle Pereira – Valeu Dani!! Acabei de ler o comentário com um sorrisão. Uma UA é sempre um desafio e fico muito, mas muito contente mesmo de vocês estarem curtindo tanto a história. Um beijo enorme.
Guida Potter – Sua veia de detetive está afiada, amiga. E eu estava sentindo falta dos seus comentários. Acertou na Trelawney, rsrs. Afinal aqueles óculos que ela usa só podem esconder um bom estrabismo, não? E admito, nada me dá mais prazer do que ler: “não gosto de UAs, mas gostei deste”. Não tinha planos para o Ivanhoé, sabe? Gosto dele, mas jamais o perdoei por casar com Lady Rowena e não com a bela judia, humpf... Se ele der as caras, acho que serei mal criada com ele, hehe. Obrigada pela leitura e pelo big comentário que eu amei ler. Beijão!
Regina McGonagall – Hahaha! Não tomei nenhuma liberdade poética, acho que até suavizei, hihi. Sim, meu nariz dói tb, só em pensar. Viva a revolução higiênica hihi. Obrigada, Regina, adorei a história do livro todo. Um beijão amiga.
Sônia Sag – Betaaaa!! Te amo, te amo, te amo!
Gina W. Potter – Brigadão, linda. Eu tb, eu tb mal posso esperar pela entrada da Gina tenho grandes planos para ela, mas preciso seguir o ritmo da fic, não é? Espero que tenha gostado deste e curtido o James tb. Beijão.
Rodrigo Salvador – Nossa! Quanto tempo! Achei até que vc tinha desistido de mim, hehe. Não se preocupe, eu ainda tenho pelo menos uma short na cabeça do Universo Original e um J/L tb, mas esta para o segundo semestre. Vc leu a que postei sobre o livro 7? Gostaria da sua opinião. É um MM. Beijos.
Camila Martins – Cacá, minha linda, que bom ter o seu comentário aqui. Capítulo novo antes da gente se ver, não é? Já sei, vc vai me crivar de perguntas no sábado e eu vou fazer toda a força do mundo para não responder, ou sei que vai me arrancar até o sangue, hehe. Um beijo enorme amada!
Nath Evans – Muito obrigada, Nath. O Retorno das Trevas é o meu orgulho. Fico super feliz que tenha gostado e esteja já acompanhando esta. Valeu mesmo e viu? Não demorou quase nada, hehe. Beijos!
Meu carinho para todos os que têm apostado nessa história. Obrigada pelos votos e comentários.
Beijos
Sally
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