Capítulo 3
A Rua da Magia
Três aldeias do condado de Surrey disputavam serem chamadas por este mesmo nome. Harry e Lily tinham morado, por quase treze anos, há pouco mais de uma légua da menor delas. Agora, enquanto eles passavam ao largo das casas com telhados de colmo, evitando-as, Harry pensava no quanto a aldeia fora grande na sua cabeça até aquele momento. Fixou o olhar na igrejinha de pedra e se deu conta que todo o resto não passava de um punhado tosco de barro, capim e madeira. A única atração do lugar sempre fora sua praça, onde os camponeses vinham fazer mercado, trocando o pouco que sobrava de suas colheitas. E, para Harry, pelo menos nos últimos meses, havia Megan ou, pelo menos, a possibilidade de vê-la de longe. A idéia de nunca mais ver a menina lhe caiu como uma coisa dura no estômago.
Harry e a mãe saíram da estrada principal e preferiram contornar a vila pelos arredores. Durante todo o tempo em que haviam caminhado até ali, desde que Lily revelara ao filho a sua natureza, o garoto viera se testando. Concentrava-se em cada pedrinha ou folha em que seus olhos batiam. Mandou que se movessem, pulassem, se transformassem em outra coisa. Mas nenhuma delas fez qualquer coisa de extraordinário. Quando, finalmente, eles entraram na mata, para desviar do centro da aldeia, Harry estava frustrado, pensando que talvez só tivesse feito magia porque Lily o tinha ajudado. Com certeza, ela o superestimava, exatamente como tia Petúnia fazia com Dudley.
Mesmo sem a chuva da noite anterior, o caminho alternativo foi mais demorado e deu mais trabalho do que se eles, simplesmente, tivessem passado por dentro da vila. O céu cinzento e úmido ajudava pouco a visibilidade por entre as árvores, e era preciso ficar constantemente atento ao chão. Depois de ultrapassarem Surrey, Lily voltou à estrada, mas sempre atenta e agüentando com valentia o olhar duro e inquisidor do filho. Ela o fez acelerar o passo e os dois caminharam por muito tempo em silêncio, poupando o fôlego.
– Está vendo lá à frente! – Ela apontou animada. – Estamos chegando ao rio Tamisa. Vamos segui-lo até Londres e...
O entusiasmo dela sumiu no rosto sério do garoto. Lily deu um profundo suspiro.
– Já está com fome?
– Quando vamos conversar? – perguntou tentando parecer calmo.
– Harry...
– Você disse que ia me contar tudo quando passássemos de Surrey. Já fizemos isso há um tempão.
– Eu vou te contar tudo! Apenas...
– O quê? – Harry fez força para não soar agressivo demais, mas ele queria, ele precisava urgentemente de respostas.
– Você não tem idéia do quanto isso é difícil, Harry.
– Terei quando você me contar – argumentou.
– Não há nada que eu diga que faça com que você desista, não é? – A frase tinha um tom muito mais de constatação do que de pergunta. – É igualzinho...
Mas ao que ela se referia, Harry não entendeu, nem pode perguntar. Lily o pegou pelo pulso e puxou novamente para fora da estrada.
– Aonde vamos?
– Você não queria conversar? – ela falou enérgica. – Vamos para um lugar mais seguro.
– Isso é uma obsessão sua, não é? – resmungou o garoto, meio sem fôlego.
Lily não respondeu e continuou a puxá-lo. Afastando galhos que se enganchavam nas roupas e arranhavam a pele do rosto e das mãos, os dois voltaram a adentrar mais e mais no bosque que margeava a estrada. Houve um momento em que Harry achou que Lily nunca pararia de andar, apenas para não falar com ele. A mãe, porém, o conduziu a uma minúscula clareira, onde havia um pequeno córrego por entre pedras e o mandou sentar.
Depois, ela fez algo que Harry acharia estranhíssimo no início daquele dia, mas que, naquele momento, ele acompanhou com curiosidade e expectativa. Lily sacou do cinto aquele pedaço de madeira cilíndrico e lustroso, que ele a vira colocar ali ainda na casa dos Dursley, e passou a se mover em torno do filho, agitando-o. Algumas vezes, Harry achou tê-la ouvido murmurar palavras esquisitas que ele não compreendeu. Seus olhos, porém, nada viram de diferente.
– O que está fazendo?
– Alguns feitiços de segurança.
Harry mordeu o comentário e esperou. Pouco tempo depois, Lily parou e se sentou em frente ao filho, retirando o capuz de sobre a cabeça.
– O que é esse pedaço de madeira?
Ela elevou o galho lustrado e sorriu.
– Minha varinha. Estava com saudades de usá-la.
– Varinha? Varinha mágica, como nas histórias?
– Exatamente. Vamos conseguir uma para você em Londres.
– Sério? – Harry até se esqueceu de seu aborrecimento ao ouvir isso.
– Claro. A varinha vai ajudá-lo a usar melhor a sua mágica e enviá-la mais longe.
Harry soltou o ar, aliviado. Talvez não fosse tão ruim ele não ter conseguido repetir o feito da borboleta. Talvez, ele só precisasse de uma varinha.
– Podemos conseguir uma em Londres?
– Com certeza – respondeu Lily.
O sorriso dela sumiu aos poucos e, com o que Harry julgou uma calma enervante, ela abriu um dos sacos que eles carregavam e tirou dele um pedaço de queijo, dois pães e lascas de porco defumado. Colocou o braço mais fundo na sacola e retirou um cantil.
– Não tive tempo de pegar água no poço e não quis nos abastecer com aquela cerveja horrorosa que o seu tio faz. Encha isso no córrego para nós, por favor.
Harry pegou o cantil, mas não se curvou para enchê-lo.
– Não pode fazer mágica? Digo, para a comida e tudo mais.
– Não – ela respondeu tirando a faca da cintura e começando a cortar largos pedaços de queijo para eles. – A mágica não cria comida. Você pode convocá-la se souber onde a comida está, mas seria roubo fazer isso se você não tem direito a ela. Tome querido, coma um pouco.
Harry pegou o pão com o queijo e analisou o tamanho generoso.
– Não seria melhor pouparmos um pouco, então?
– Não se preocupe, temos o bastante.
O garoto mirou o saco de onde ela tirara a comida com um ar desconfiado.
– Acredite, meu bem, tem mais aí dentro do que você imagina.
– Certo.
Ele deu uma mordida no pão e segurou-o para cima enquanto enchia o cantil com a água da vertente. Depois, ficou observando a mãe se servir com movimentos lentos. Harry sabia que aquilo não era exatamente calma, mas ele não se achava muito disposto a dar para a mãe o tempo que ela silenciosamente pedia. Ele já a havia perdoado por tê-lo criado na mais completa ignorância sobre quem ele era e, no momento, era o máximo que ele se sentia capaz de fazer.
– Então?
Lily deu um profundo suspiro e largou o queijo sobre o pano em que este viera enrolado. Um leve remorso contraiu as entranhas de Harry – ela não ia mais comer, ele sabia – porém, não retrocedeu.
– Eu não sei exatamente por onde começar, eu... – ela perscrutou o rosto obstinado do filho. – Certo. Por que você não me faz uma pergunta, assim...
– Do que estamos fugindo? Estamos fugindo, não é?
Lily confirmou com a cabeça.
– Do quê?
– De um bruxo. – Ela inspirou fundo, puxando ar e coragem. – Esqueça tudo o que você pensa que sabe sobre os bruxos, Harry. Não somos como as histórias dizem. Nem tão bons, nem tão maus. Sempre quis falar o mínimo sobre isso para que quando chegasse o momento de você saber, não estivesse cheio de idéias erradas. Ao menos nisso, o pânico da sua tia com magia ajudou.
Harry engasgou e preferiu largar o pão sobre o pano também.
– A tia Petúnia sabe?
– Claro que sabe. E Vernon também. E eles morrem de medo de tudo isso. Acho que Petúnia nunca me perdoou por ser bruxa. Nós éramos muito unidas quando crianças, sabe. Acho que essa coisa toda nos separou muito... Mas, ainda assim, ela aceitou nos esconder e eu sou muito grata por isso.
– Grata? Mãe! O jeito que ela nos tratava, tratava você era... – Harry nem sabia como expressar a sua indignação. – Ela nunca gostou da gente! Ela e o tio Vernon odiavam que estivéssemos lá.
– Não é verdade, Harry – a tristeza nos olhos dela dizia o contrário. – Quando eu precisei, eles nos acolheram, correndo risco inclusive. Se nos descobrissem lá, eles teriam sido mortos sem piedade. Ok, querido, eu sei... Eles são pessoas difíceis, na maior parte do tempo, intratáveis, mas foram leais conosco. E lealdade era o que eu mais precisava quando os procurei.
– Isso não apaga... – mas Harry não queria discutir sobre os Dursley, queria era saber mais sobre ele e sobre a sua própria mãe. Estavam se desviando do assunto. – Quem é esse bruxo? Esse, de quem estamos fugindo.
– Seu nome é... Bem, ele tem muitos seguidores e, fora eles, ninguém sabe exatamente quem ele é. Só temos um nome, na verdade. Um nome que todos temem, alguns até mesmo têm medo de pronunciá-lo.
– Que nome é esse?
Lily olhou firmemente para ele antes de falar, como se quisesse ter certeza de que ele entenderia e ela não precisaria repeti-lo. Sua voz saiu num tom incontestável e sério.
– Lord Voldemort.
– Quem é ele?
– Esse é o problema, Harry. Não se sabe quem ele é. Esse é um nome apenas sussurrado, ninguém fala sobre isso às claras. Se sabe que ele tem se ligado ao pior tipo de magia e tem acumulado extraordinário poder nisso. A maior parte dos bruxos o teme. Ele angariou fama de uma enorme crueldade e nunca o seu nome aparece sem estar ligado à morte e destruição. É óbvio que ele conta com o apoio de gente muito poderosa no reino.
– Poderosa como?
– Como o rei. Não estou falando apenas de bruxaria, estou falando poder sobre tudo.
– Você acha que o rei Ricardo...? – perguntou Harry, impressionado.
– Falei sobre o rei Henrique, Harry. Mas com a morte dele, minha esperança é que esta influência não se estenda sobre Ricardo. Acho que o fato de Ricardo ter estado tanto tempo brigado com o pai e ter passado a maior parte da vida na Bretanha(1), pode tê-lo afastado dessa criatura maligna.
– Não entendo como não se pode saber quem ele é.
– Bem, um bruxo poderoso como ele, pode usar várias identidades. Lord Voldemort é a que ele usa para seus crimes, para cooptar seguidores, para aterrorizar os que discordam dele. As famílias bruxas que circulam na corte são muitas: os Malfoy, os Lestrange, os Black. No seio de qualquer uma delas, há homens que certamente podem ser Lord Voldemort. O mundo bruxo é incerto, Harry. Nem temos a conta total de quem “nós” somos e... – o olhar de Lily se perdeu na distancia entre as árvores – nunca sabemos em quem poderemos confiar.
– Por que ele está atrás da gente?
A mãe baixou os olhos e, pareceu a Harry, por um momento, que eles prestes a se desmanchar em lágrimas. Lily fungou.
– Ele não está atrás da gente, Harry.
– Mas como, você disse...
– Ele está atrás de você, meu filho.
Harry achou que não tivesse compreendido direito.
– De mim? Como assim? Eu nem sei quem ele é! Ninguém sabe! Por que ele está atrás de mim?
As perguntas saíram numa voz aguda de menino, o que deu a Harry uma sensação ainda maior de estar indefeso.
– Eu também queria saber, Harry – ela pegou as mãos do filho entre as suas, tentando conter a sua agitação.
– E... o que ele quer comigo? – Lily continuou a olhar para as mãos unidas dos dois. – Mãe, por favor...
– Eu estava grávida de você. Para mim, foi naquele dia que esse pesadelo começou. Eu tinha ido dar um passeio na Feira da Primavera, queria um tear novo, para encantá-lo e tecer as suas roupas.
– Em Surrey? – interrompeu Harry com descrença. Não era o lugar para se conseguir um tear de boa qualidade.
– Não. Em outro lugar. Uma aldeia mais ao norte, chamada Godric´s Hallow. Nós morávamos lá. – Harry notou que as mãos dela estavam suadas e trêmulas. Lily respirou fundo e prosseguiu. – Uma cigana se aproximou e pediu para ler a minha mão. Os ciganos são um povo antigo que aceita e compreende a magia. Claro que eu deixei, mas assim que ela olhou as linhas, ela percebeu que eu era uma bruxa e, por isso, pediu licença para chamar uma de sua tribo que fosse como eu. Então, uma mulher estranhíssima se aproximou. Usava uma enorme quantidade de xales e penduricalhos e eu jamais encontrei alguém com tanto cheiro de erva queimada. Mas apesar do jeito espalhafatoso, eu logo vi que ela poderia sim ter a “visão”.
– A “visão”?
– O dom da profecia, Harry.
– Como pode saber?
– Ela era vesga – justificou Lily e Harry franziu a testa achando aquilo bizarro demais para se acreditar. – Uma visão ruim nesse mundo, pode significar uma ótima visão dos outros mundos. – Ela percebeu a expressão descrente do filho. – Grrr... você às vezes é tão par... – ela mordeu o lábio, enervada. – Bem, no fim, ela realmente estava certa no que disse.
– E o que foi que ela disse?
– Ela ficou esquisita, digo, mais esquisita, quando tocou na minha mão. Como se ficasse em transe ou algo assim. Até a voz dela mudou. Ela disse: – Lily falou pausadamente – que o filho que eu esperava seria um mago de grande poder. Que seria um grande líder para mais de um povo. Você não imagina o meu encantamento ao ouvir isso.
– Mãe... – Harry replicou quase com pena dela – ela provavelmente só queria te arrancar alguma prenda. Garanto que ela estava mentindo.
Lily ergueu uma das mãos e acariciou o rosto do filho, seu sorriso era cheio de dor.
– Ela disse que a sua vinda já tinha sido prevista pelas Irmãs do Destino e que seu inimigo já o esperava. Quando eu perguntei ao que ela se referia, ela ficou muito pálida, assustada. Disse que via tempos escuros chegando, cheios de morte e sofrimento para bruxos e não mágicos. Disse que aquele conhecido como o Senhor da Escuridão, o Lord das Trevas, traria esses tempos nas dobras de sua capa e que, por isso, iria querer matar o meu filho.
A cabeça de Harry esvaziou por um momento. Ele se sentiu incapaz de comentar ou perguntar qualquer coisa.
– Eu acho – disse a mãe – que, de alguma forma, esse imenso poder que você possui se opõe ao dele, querido.
Ele arrancou a mão do meio das dela e levantou num impulso, negando.
– Isso é uma loucura! Como... como você pode acreditar nisso? – Havia acusação na sua voz, mas Harry não se importou.
– Eu não acreditei, Harry! Acha que eu queria ouvir que o meu filho estava marcado para ser morto? Que havia alguém querendo matá-lo? O meu bebê que nem ao menos havia nascido? É claro que eu achei que era um exagero, que ela queria me impressionar. Quer fazer o favor de parar de andar e me escutar?
O garoto estacou ofegante.
– Fomos atrás de informações. Ela falou nas Irmãs do destino, então... Isso era realmente assustador e...
– Quem são essas tais Irmãs do Destino?
– Um oráculo. É formado por três bruxas muito velhas. Há quem garanta que foram as primeiras do nosso povo a nascerem nas ilhas. Outros acham que elas vieram do sul, expulsas pelos padres por causa de seu poder de ver o futuro e, claro, por causa do tipo de magia negra que faziam para isso. De qualquer forma, ninguém duvida do que As Estranhas vaticinam.
– Mas mesmo tendo ouvido sobre elas, você disse que não acreditou na cigana no início. Por que veio a acreditar depois?
Os olhos de Lily turvaram e, dessa vez, ela não conseguiu conter as lágrimas finas que lhe sulcaram o rosto.
– No início eu não quis... eu não queria acreditar, Harry. Naquela época, eu era... feliz demais para acreditar em coisas ruins. Esperar você, ter você. Seu primeiro ano foi a época mais feliz da minha vida! – Ela respirou pesadamente. – Foi então que um amigo me procurou. Estávamos afastados desde que eu tinha me casado, mas ele veio atrás de mim para dizer que Lord Voldemort queria matar você. – Ela fez uma pausa, buscando palavras. – Mesmo assim, eu não teria acreditado, se ele não tivesse vindo acompanhado do homem que mais respeito no mundo. Eles disseram que Voldemort acreditava que você era uma das crianças de um antigo vaticínio sobre o futuro dele próprio. Um vaticínio feito pelas Irmãs do destino.
Algo iluminou a mente de Harry.
– Locksley.
– O quê?
– Locksley! – ele voltou a sentar. – Ontem, na vila, aconteceram outras coisas que não contei a você. A história de ser bruxo me deixou meio tonto, eu acho... Eu ouvi dois homens falando de um tal Lorde que queria matar alguém chamado Locksley. Na hora, achei que se tratava do prisioneiro que eu soltei sem querer.
– Você quis – afirmou Lily, mas ela não o deixou protestar. – Como eram esses homens?
– Eu não os vi. E eles também não me viram, não se preocupe. Só sei que usavam longas capas negras e botas de cavaleiros.
Lily ficou séria.
– Bem, ele disse que eram dois. Duas crianças que Voldemort procurava.
– Os seus amigos? – Ela confirmou e Harry contou que os homens realmente haviam falado de dois garotos. – Mas eu? Mãe, eu...?
– Meu amor – Lily o abraçou – se eu pudesse, eu mudava isso, eu juro!
Harry devolveu o abraço, mas estava preso numa espécie de torpor. Tinha mais perguntas e nem ao menos sabia como fazê-las ou por onde deveria começar.
– O que vamos fazer, mãe?
Ela se afastou para poder olhá-lo com aqueles olhos verdes, cheios de preocupação.
– Teremos de pensar com calma nisso, mas minha idéia é de nós irmos para o continente. Podemos continuar...
– Fugindo?
– Meu bem, você não tem de cumprir algo que nem sequer entende! Escute, - ela colocou as duas mãos nos seus ombros – para mim, nada é mais importante que a sua segurança. E ninguém vai fazer nada com você sem ter de passar por mim! Mas, não vou mentir, Harry. Ele não vai desistir nunca. Vai continuar caçando você.
O mundo girava em torno de Harry e ele gostaria muito que parasse para que ele pudesse pensar com alguma clareza. Sentia-se perdido e indefeso
– Se estávamos seguros na casa do tio Vernon e da tia Petúnia, por que saímos de lá? Você podia ter me contado. Nós podíamos ter ficado!
– Não, não podíamos – a voz dela ficou um pouco mais alta e aguda. – Eu perdi a cabeça, Harry, e fiz mágica! Eu acabei com o nosso disfarce. Todos esses anos a nossa segurança foi viver como gente comum. Eles poderiam vir nos procurar se fizéssemos magia! – Lily se ergueu e começou a caminhar esfregando as mãos e falando febrilmente. – Logo depois que você completou um ano, eu soube que havia uma conspiração, dentro da nossa própria casa, que pretendia entregar você para Lord Voldemort. Foi por isso que eu fugi com você, cortei relações com qualquer bruxo que eu conhecesse. Voltei a ser apenas a Lily, irmã da Petúnia. Não podíamos mais ser identificadas pelo nome dos nossos pais, pois ela estava usando o nome do marido e eu passei a usar nenhum. Lily e Harry de Surrey. Insignificantes demais até para ter um nome de família!
– Esse Voldemort pode nos localizar se fizermos mágica?
– Tenho certeza de que, se eu ou você, fizermos mágica numa área habitada apenas por gente comum, algum bruxo viria investigar. Poderia ser uma nova criança bruxa nascendo numa família de gente comum, assim como eu nasci. De qualquer forma, o nosso segredo seria ameaçado.
– Você diz que os seguidores dele viriam atrás da gente?
– Voldemort é poderoso, Harry. Seus homens se gabam por ter olhos e ouvidos em todo o reino. E a magia deixa rastro. Depois que a fiz, mais cedo ou mais tarde, acabaríamos sendo descobertos.
O garoto voltou a andar pela pequena clareira, subindo e descendo em pedras, até voltar ao ponto inicial e fixar a mãe.
– Acha que estaremos seguros em Londres?
– Londres é grande, eles teriam dificuldades em nos encontrar. Além disso, eu quero que você aprenda a se defender.
– Eu sei usar um arco, não sou muito bom, mas...
– Querido, eu preciso que você aprenda a se defender com magia. Um arco nada pode contra um bruxo habilidoso. Há uma pessoa que talvez possa me ajudar na sua educação. Enquanto isso, tentaremos decidir o que vamos fazer, ok?
Harry concordou com um maneio de cabeça. Tudo aquilo era demais para ele. Sentia como se sua cabeça fosse explodir de tantas perguntas sem resposta e, especialmente, de uma coisa nova que, ele sabia, tinha se instalado permanentemente nele. Uma coisa viscosa, fria, que circulava suas entranhas e acelerava o seu coração. Nunca, em toda a sua vida, sentira tanto medo.
Lily o convidou para que voltassem a comer, mas nenhum dos dois tinha qualquer apetite. Assim, acharam melhor partir. Agora que Harry entendia porque a mãe parecia obcecada com segurança, ele achava que era melhor não ficarem muito tempo no mesmo lugar. Os dois juntaram novamente a comida dentro dos sacos e, quando já estavam quase partindo, Harry observou a mãe erguer o capuz para cobrir o cabelo escuro amarrado numa trança longa.
– Você falou algo sobre o seu cabelo...
Finalmente, pode rever o sorriso quente e familiar de sua mãe.
– Eu achei melhor mudá-lo. Ele é... meio chamativo, sabe? – Harry achou que a viu corar, mas continuou a olhá-la com curiosidade. – Ok, como vamos sair logo daqui, eu vou mostrar como ele é.
Puxando a varinha novamente do cinto, Lily apontou para ponta da trança murmurando baixinho e esta, imediatamente, passou de um castanho quase preto para um ruivo espetacular. Os olhos verdes dela pareceram saltar e dobrar de tamanho com a combinação.
– Uau! – disse Harry maravilhado.
– Um pouco escandaloso, não acha?
– Ficou linda, mãe. É assim que você é, de verdade? – Ela riu e confirmou. – Uau! Mas tem razão, desconfiariam de você se aparecesse com esse cabelo na vila.
Com um dar de ombros, Lily tocou os cabelos com a varinha renovando o disfarce.
– Alguns comuns crêem que todos os ruivos são bruxos, mas não é verdade. Embora, os Weasley sejam a exceção que confirma a regra.
– Weasley?
– Uma antiga família bruxa. Pelo que sei, só existem ruivos entre eles. Mas, de qualquer forma, melhor não chamar atenção, não é?
Ela passou o braço sobre os ombros do filho e ele a enlaçou pela cintura. Mal tinham dado alguns passos assim e se separaram para cruzar a mata. Foi quando, como se a cabeça de Harry simplesmente voltasse a funcionar depois de um longo torpor, a pergunta mais óbvia saiu dos seus lábios quase sem que ele ordenasse.
– Mãe? E o meu pai?
Lily estacou como se tivesse sido atingida por um raio.
– Aconteceu alguma coisa com o meu pai? Voldemort fez alguma coisa com ele? Por que vocês não fugiram juntos? Ele morreu?
– Harry – havia uma dor tão grande nos olhos dela que Harry pode sentir que havia algo horrível ali, algo que a machucava mais que tudo. – Meu filho, eu contei tudo a você, ou quase tudo. Você tem muito o que entender e aceitar, então... será que eu posso pedir, implorar, a você que deixemos para falar no seu pai, uma outra hora? Por favor?
O tom era tão diferente do seu jeito cheio de energia, tão frágil, que Harry nem ousou em não concordar. Mais tarde, ele não pode deixar de perceber que ela tinha evitado em falar no pai dele o tempo todo durante a conversa que ambos tinham tido.
Caminharam o resto da tarde, até a noite cair. Nesse tempo, quase não conversaram. Harry apenas fez algumas perguntas sobre a magia e Lily respondeu com paciência e alívio. Na maior parte do tempo, as perguntas ficavam apenas martelando na sua cabeça, sem que ele tivesse coragem de pronunciá-las em voz alta. Por que esse bruxo, esse Voldemort, queria tanto matá-lo? O que alguém como ele, um camponês ignorante, poderia fazer contra um bruxo rico, poderoso, que até freqüentava a corte do rei? Como poderia se defender? Na verdade, defender a ele e a Lily, pois era óbvio que qualquer um que estivesse com ele também correria perigo.
Depois que escureceu, os dois acamparam no meio da mata, novamente cercados pelos feitiços de Lily. Apenas na manhã do terceiro dia, após terem saído da casa dos Dursley foi que Harry pode, finalmente, entrar em Londres. Haviam chegado na noite anterior, mas Lily preferiu que eles buscassem abrigo em um dos inúmeros conventos que circundavam a cidade e entrassem nela apenas com a luz do dia.
– Então, – perguntou Lily ante os olhos arregalados do garoto – era como você imaginava?
– É grande! – disse enquanto tentava abarcar com os olhos tudo o que via.
A quantidade de gente era muito maior que a dos dias mais cheios do mercado de Surrey e Harry, certamente, nunca tinha visto tantas carroças e cavalos. O céu era consideravelmente menor, pois as construções eram altas e muitas casas tinham dois, até três andares. A terra úmida que cobria as ruas, porém, mais parecia a do chiqueiro do tio Vernon. Um cheiro forte de excrementos e de restos de comida se misturava a algo que lembrava sopa quente de repolhos e parecia exalar de todos os lugares. Harry pensou que o nariz sensível de tia Petúnia certamente sofreria muito ali. Os ouvidos dela também. Em cada esquina era possível encontrar uma briga, um bate-boca ou um pregador berrando a palavra de Deus e proclamando o inferno que estava por vir. Vendedores anunciavam suas mercadorias aos gritos, mulheres brigavam na hora de trocar produtos, sem falar nos animais: cães, cavalos, porcos, ovelhas. Era o suficiente para deixar qualquer um tonto.
À medida que avançavam pela Rua da Costa, Harry não pode deixar de notar a grande quantidade de tabernas que se espalhavam por ali. Praticamente uma a cada quadra, ou até mais. Volta e meia um bêbado era arremessado para fora de uma delas e chafurdava na lama da rua. Algumas mulheres que estavam paradas na porta de um dos pubs mexeram com ele e, quando o garoto apertou o passo, elas riram alto e continuaram a chamá-lo, até ele sumir na multidão. Envergonhado, Harry andou um bom tempo sem olhar para a mãe.
O estranho é que, quase na mesma quantidade que tabernas, Londres parecia ser cheia de igrejas. Lily ensinou Harry a reconhecê-las pelas inúmeras torres, torrinhas e sinos. Ele imaginou que quando se anunciassem as missas e orações o barulho deveria triplicar. Ao longe, na curva extrema do rio, a mãe lhe apontou a torre alta e cinzenta do palácio real. Mais adiante, mas para o outro lado, ficavam as docas. Harry viu o mastro de três navios ancorados lá.
– Onde estamos indo? – perguntou assim que se acostumou um pouco com a paisagem.
– Bem, Londres é interessante, sabe? As ruas aqui são conhecidas pelo que se pode comprar nelas.
– Cervejas e rezas?
Lily riu alto.
– Você não viu? Acabamos de passar pela Rua da Feira e depois pela Rua do Pão. Mas também há ruas que são nomeadas pelas suas características. – Lily apontou à frente. – Lá embaixo fica a Rua Ensopada.
Harry olhou o chão melequento em que pisava.
– Eu imagino...
– Sendo assim, estamos procurando uma rua bem específica. – Lily lhe piscou o olho. – A Rua da Magia.
O entusiasmo de Harry cresceu.
– Você morou aqui? Com o meu... ? – ele travou.
– Eu não morei em Londres, mas vim aqui algumas vezes. E sim, Harry, foi com o seu pai.
O garoto tentou identificar na voz da mãe alguma nota de sentimento que pudesse lhe fornecer qualquer indício sobre o destino do seu pai, mas não conseguiu. Nos últimos dias, na medida em que ele aceitava todas as coisas que ela havia lhe contado, a falta desta parte de sua existência parecia cada vez maior e, agora, consumia quase a maior parte de seus pensamentos. Contudo, toda vez que tentara, Lily tinha se fechado e praticamente implorado para que ele lhe desse mais tempo. O que teria acontecido para que a simples memória dele fosse tão dolorosa para ela?
Seguiram caminhando até perto de Downgate e finalmente viraram à esquerda e entraram em uma ruela quase escondida. De início, não pareceu a Harry que houvesse uma rua por ali, a entrada estreita entre duas casas, mais parecia levar a um pátio. Contudo, passadas as duas casas altas que margeavam a passagem, a rua se abria. O lugar era, sem dúvida, o mais interessante que Harry já vira. Uma pequena ladeira descia flanqueada por portas abertas, em cujo exterior se penduravam uma quantidade enorme de artigos. Estes iam de maços de ervas ordinárias, muitas conhecidas de Harry, até coisas que ele simplesmente não pode identificar, como um maço com o que pareciam ser pernas de algum tipo de bicho, das quais escorria uma baba verdolenga.
Ciganas liam a sorte e havia muita gente por ali comprando coisas e regateando nas trocas de artigos. Uma mulher com uma verruga peluda na sobrancelha carregava um tabuleiro cheio do que parecia serem ossos de animais diversos. Quando Harry tentou identificá-los, ela lhe brindou com um sorriso desdentado e balançou um saquinho sujo na frente dos olhos de Harry.
– Terra de cemitério, rapazinho? Ponha na soleira da porta de seu inimigo e ele morrerá em duas luas.
– Obrigada, não estamos interessados – disse Lily firmemente, enquanto passava a mão no cangote de Harry e o desviava para longe da mulher. – Eu disse para você não encarar ninguém! Este lugar não exatamente a melhor das vizinhanças. O que se vende aqui serve tanto para as magias tolas e ineficazes que os comuns fazem, quanto coisas “realmente” mágicas.
– Essa coisa de terra de cemitério é qual delas?
– É desrespeito – ela resmungou.
O garoto ergueu os ombros, não achando tão nojento assim.
– Até não seria ruim se funcionasse, não é? Se a gente soubesse onde mora o tal Vol...
Lily lhe deu uma sacudidela assustada, antes de olhá-lo nos olhos e sussurrar.
– Não repita esse nome! Não aqui! E não se encante com esse tipo de magia. É ruim! – Ela endireitou o corpo. – Isso é magia negra, Harry. E, além do mais, terra de cemitério só funciona para gente comum crédula o suficiente para acreditar nessa bobagem.
– Como pode saber?
– Se não fosse assim, não seria necessário avisar a vítima do feitiço para ele dar certo. Agora vamos!
Continuaram a descer a rua e Harry teve o cuidado de, dessa vez, não encarar mais ninguém, nem demonstrar excessivo interesse em qualquer artigo exposto na rua. Ele podia saber pouco sobre magia, mas entendia o conceito de magia negra o suficiente para compreender a reprimenda da mãe. Preferiu segui-la e apenas olhar rapidamente o que havia de interessante na Rua da Magia. E era muita coisa. Havia uma loja especializada em sapos, corujas e gatos, alguns deles pareciam bem pouco com os sapos, as corujas e os gatos que Harry conhecia. Outra vendia caldeirões e frascos com líquidos coloridos, que ele julgou serem poções ou algo assim. Um homem anunciava, a altos brados, possuir dados mágicos e dizia aceitar apostas para mostrar sua eficácia em qualquer jogo.
– Humpf! – Indignou-se Lily ao ver dois rapazolas, pouco mais velhos que Harry, se aproximarem para ver a demonstração. – Isso não passa de trapaça. E da pior espécie. Aposto o que ele quiser que nem bruxo de verdade ele é.
Pouco adiante ela, finalmente, parou. Estavam diante de uma porta aberta. Se parecia com todas as outras, mas sobre ela havia um pequeno letreiro escrito em marrom escuro numa placa torta. Harry sabia ler um pouco, Lily tinha ensinado. Pelo menos até o dia em que Dudley disse que ela provavelmente o estava preparando para ser padre. Como Harry achava que não tinha a menor vocação para isso, começou a inventar todo o tipo de desculpas para fugir das aulas. Contudo, ele não reconheceu as letras na placa.
– Está escrito OLIVARAS, em grego – disse Lily, percebendo. – A família Olivaras veio há muitos anos para Londres. Ninguém entendeu porque eles deixaram Bizâncio para vir para cá, mas foi uma sorte. Eles são fantásticos artesões de varinhas! Antes tínhamos de contar com gente não tão boa ou fazermos as varinhas nós mesmos.
– Você comprou a sua aqui?
– Mhum. Então, – ela mordeu o lábio antecipando a expectativa do filho – vamos entrar?
Para além da porta não havia nada muito impressionante. Uma sala pequena, de chão batido, coberto de serragem. O cheiro de madeira era agradável e estimulante, apesar da grande quantidade de pó que circulava no ar. No extremo oposto da sala, um homem estava sentado, em um banco baixo, diante de uma lareira acesa. Um pouco antes dele, Harry localizou um estrado em que havia um instrumento que ele achou ser um torno de madeira. O homem vergava o corpo com grande atenção sobre um galho, ao qual lixava com o que pareceu a Harry ser uma pedra. O garoto também não pode deixar de notar a cruz esquisita que havia sido pregada sobre a lareira. Lily sussurrou que era a cruz venerada no Império do Oriente, lugar do qual Harry nunca tinha ouvido falar.
– Já vou atendê-los – disse o homem com uma voz rouca.
Enquanto os dois esperavam, Harry puxou o capuz da cabeça e continuou a olhar e foi só então que ele percebeu que a sala nada tinha de pequena. Não era enorme, sem dúvida, mas seria bem maior não fosse o fato de haver nela varinhas empilhadas umas sobre as outras até o teto. À medida que os olhos do garoto se acostumavam com a penumbra, ele se espantava com o que havia ali. As varinhas expostas tinham diferentes cabos e as cores das madeiras iam se destacando conforme ele prestava mais e mais atenção. Finalmente, o homem largou o que fazia e levantou, vindo até eles.
– Deixe-me avisar que não vendo varinhas para gente comum. Seria uma compra inútil.
– Somos bruxos, Sr. Olivaras – afirmou Lily com cortesia.
O Sr. Olivaras se aproximou e Harry pode observá-lo melhor. Era um homem moreno de rosto liso, com poucas rugas. Tinha um porte magro, mas forte, como o de um lenhador, parecia alguém sério e enérgico. O que ele tinha de esquisito eram os olhos. Eram de um azul claro, vítreo e pareciam ter sido colocados em seu rosto depois de ele estar pronto. Não combinavam de forma alguma. Foram aqueles olhos que brilharam ao ver o rosto de sua mãe.
– Eu não a conheço? – Lily ficou imediatamente tensa, mas antes que ela respondesse, os olhos dele se prenderam no rosto de Harry. – Mas mesmo que eu não me lembrasse Milady, eu certamente não deixaria de reconhecer este menino. Ele é absolutamente idêntico ao pai.
Harry girou a cabeça na direção da mãe. Lily estava pálida, mas logo um sorriso afável apareceu em seu rosto e ela retirou o capuz. O homem arregalou os olhos para o cabelo castanho, mas Lily fingiu não perceber o estranhamento.
– Com certeza, Sr. Olivaras – seu tom tinha algo de definitivo, que não dava margem a mais comentários. Harry nunca tinha visto Lily agir daquele jeito, com aquela postura, aquele comando. O homem imediatamente fez uma mesura, aquiescendo à determinação sem palavras dela. – Estamos aqui para achar uma varinha para ele. O senhor pode nos ajudar, não é?
– Oh, Milady, isso será uma imensa honra – seus olhos voltaram para Harry. – Vamos achar algo perfeito para o jovem senhor...
– Harry – disse a mãe – o nome dele é Harry.
– Claro que é – ele respondeu com outra mesura. – Então, vejamos o que tenho para você, Harry.
O homem virou para uma das paredes cheias de varinhas e começou a analisá-las puxando um pouquinho e murmurando coisas como: “essa não”, “muito dura”, “pesada demais”, “fraca”. Harry, porém, estava novamente perdido. Por que aquele homem tratara sua mãe por Milady? Não havia nenhum sentido. E ele conhecia o seu pai! Dissera que Harry era idêntico a ele. O garoto, porém, não pode continuar a pensar nisso, pois logo o Sr. Olivaras voltou e lhe enfiou uma varinha na mão. Tão logo, Harry a tocou ele já a retirou, dizendo um “não”. A seguir lhe fez segurar rapidamente mais três varinhas. Mas todas eram arrancadas da mão do garoto assim que seus dedos encostavam nela. Harry perdeu a noção do tempo enquanto o Sr. Olivaras se mexia pela pequena loja resmungando e fazendo-o segurar varinhas.
– Um cliente realmente difícil. Mas não se preocupe, nós a acharemos, com certeza. Humm... – ele se voltou para analisar as varinhas empilhadas na parede oposta e subiu em um toco de madeira. – Não... não... também não... Oh, essa é horrorosa... Talvez essa aqui...
Entretanto, quando ele puxou a varinha escolhida, a pilha enorme pareceu oscilar. Um grupo de varinhas localizadas bem a cima se inclinou para frente e Harry chegou a visualizar o enorme desastre que iria ocorrer. O Sr. Olivaras, porém apenas lhes bateu com a mão e elas voltaram obedientes para o lugar, menos uma. Quando ele foi pegá-la para fazê-la se enfileirar com as outras, a varinha, como se tivesse vida própria, saltou. Ela girou no ar por um instante e depois caiu direto sobre Harry. Ele nem teve tempo de pensar, ergueu a mão e a varinha se acomodou ali. Assim que seus dedos fecharam sobre ela, Harry sentiu seu braço esquentar. Moveu a varinha diante de si e ela pareceu se mexer como se sempre estivesse estado ali, na sua mão.
– Eu jamais, em toda a minha vida, nem mesmo quando ajudava ao meu pai, vi algo assim – disse assombrado o Sr. Olivaras. Os olhos azuis vítreos estavam fixos em Harry como se o garoto fosse a coisa mais extraordinária que ele já tinha visto. – Os boatos... eu nunca pensei... – ele se aproximou de Harry. – É a varinha que escolhe o bruxo, sabe? E isso realmente foi uma escolha e tanto. Eu acho que, de inicio, não pensaria nessa varinha para o senhor, mas já que ela o escolheu assim...
– Por quê? – perguntou Harry, desconfiado. – Por que não pensaria nessa varinha para mim? – Por um momento ele temeu que o Sr. Olivaras a tomasse também de sua mão, mas o homem tinha a atenção toda em seu rosto.
– É uma varinha poderosa. Das mais antigas que tenho na loja. Foi feita pelo meu avô. Eu não sei se eu desejaria uma varinha com essas capacidades para alguém tão jovem. A sua varinha... Harry, é feita de azevinho e, como todas as varinhas, tem um poderoso miolo feito com uma substância mágica. Nesta, existe a pena de uma fênix.
Novamente a sensação de completa ignorância assaltou Harry.
– Uma...?
– Fênix – repetiu o Sr. Olivaras. – Um pássaro de impressionante poder. Quando ele atinge a hora de morrer, ele incendeia a si mesmo e depois volta a renascer de suas cinzas. É uma varinha bem maleável a sua. Não existem muitas fênix por aqui. As lendas falam de que apenas duas vieram para estas ilhas até agora, acompanhavam dois Grifos... Eram amigos, sabe? Mas na minha terra temos uma boa colônia.
Harry sorriu sem jeito, não tinha a menor idéia do que fossem grifos, mas achou melhor perguntar para a mãe, mais tarde. Lily tinha uma expressão satisfeita, mas havia um quê de urgência em sua atitude. Parecia não querer que a conversa se alongasse.
– Excelente, Sr. Olivaras! – Ela enfiou a mão dentro do saco que trazia e retirou dali uma pequena bolsa de couro. Para o enorme espanto do filho, Lily retirou dali uma grande e grossa moeda de ouro e a colocou sobre a mesa do torno. – O senhor poderia me dar uma informação? Sabe onde posso encontrar o Grande Alquimista?
– Oh! Claro. Bem, eu não sei se ele está em Londres nessa época do ano. Mas creio que ele pode ter vindo, afinal, ele tem sido contra o rei se envolver nas Cruzadas, e os navios para a Terra Santa já estão no porto. Mas se ele estiver em Londres, Milady poderá encontrá-lo em sua casa, em Southwark, do outro lado do rio. É só atravessar a ponte velha, logo antes da que está sendo construída.
– Obrigada, Sr. Olivaras. Só mais uma coisinha... – Lily retirou uma segunda moeda e a colocou ao lado da anterior, mas manteve a mão sobre ela. – Seria pedir demais se pedíssemos ao senhor que não comentasse a nossa passagem por aqui?
Os olhos de Harry correram para o Sr. Olivaras. Este, porém, não tinha modificado a expressão pressurosa, exceto por um leve apertar de olhos.
– Um pedido de Milady é uma ordem – falou se inclinando novamente e Lily retirou a mão da segunda moeda.
O Sr. Olivaras pegou apenas a primeira e guardou-a no bolso do colete de couro sem modificar o sorriso.
– Obrigada – disse Lily.
Ela recolheu a moeda e pediu a Harry que guardasse a varinha. Antes de saírem, contudo, o artesão pediu para poli-la e se despedir dela. Harry estranhou, mas deixou. Instantes depois, ele e a mãe deixavam a loja abafada. A varinha, guardada sob a camisa, parecia pulsar contra o peito de Harry. Ele mal podia esperar para usá-la. Tinha dado alguns passos e Lily o segurou pelo ombro.
– Espere aqui, querido. Eu esqueci uma coisa.
Antes que Harry perguntasse, ela voltou rápida para dentro da loja. Ele mal tinha piscado e ela saiu novamente, o rosto vermelho e tenso.
– O que você fez? – ele interpelou.
– Vamos, é melhor irmos embora logo – disse Lily apressada, pegando-o pelo braço.
Harry puxou o braço e reclamou. A voz baixa não escondia sua exasperação.
– Mãe! Quer parar de me tratar como criança!
Lily recuou e respirou fundo antes de responder.
– Eu o fiz se esquecer da gente.
– Por quê? Ele disse que não falaria.
De novo aquela estranha dureza no rosto da mãe. Era como se uma completa desconhecida aflorasse nela.
– Eu já disse, Harry. Eu não confio em ninguém! Bem, talvez em um homem. E é atrás dele que nós vamos agora.
– O tal alquimista.
– É. E sim – ela falou como se adivinhasse a disposição belicosa do garoto – depois disso, teremos uma longa conversa sobre o seu pai. Você vai ouvir muito que é igual a ele.
– E eu sou?
Lily o olhou longamente, parecendo escolher o que iria dizer.
– Ele é mais alto – disse por fim. Mas Harry sabia que não havia crescido nem o suficiente para passar dela, ainda. Logo, era uma confirmação e, junto com isso, a promessa de finalmente saber quem fora o seu pai. Tudo o mais sumiu da sua mente. – Agora, vamos! – disse Lily.
Com passos rápidos, eles deixaram a Rua da Magia e se dirigiram para o rio.
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(1) Bretanha – região do oeste da França. Estava entre os territórios enfeudados pelo rei Henrique II devido ao seu casamento com Eleonor de Aquitânia.
N1: A Rua da Magia não é o Beco Diagonal. A parte de Londres em que o Beco foi construído ainda não era urbanizada nessa época, aparece nos mapas apenas uns 40 anos mais tarde. Acredito que a mudança se tenha dado quando trouxas e bruxos separaram definitivamente os seus mundos.
N2: O Sr. Olivaras também não é o mesmo personagem. Ele é um antepassado, do velho artesão inglês interpretado magnificamente pelo Jonh Hurt no filme 1.
N/B: Anam, você tem O jeito de fazer uma história, absolutamente conhecida por nós, mostrar-se nova, instigante, às vezes apavorante, sempre cheia de curiosidades e muuuuuitoooooo interessante! – BRAVO! – Eu, que deveria betar, fico só perguntando, perguntando, exclamando, aplaudindo e voltando a perguntar! ;D – “Quem é o bruxo que a Lily tanto respeita? É o mesmo que vai ajudar o Harry em sua educação? O alquimista? – Como assim ‘ conspiração dentro de nossa própria casa’? Aiiiiiiii... – Ei! Eu conheço esses dois grifos!!!!!!” – E por aí vai! =D – Então, minha irmã, só posso dizer novamente e sempre: CAPÍTULO EXCELENTE!!!! *aplaudindo* ATUALIZA LOGO!!!! Estou cheia de perguntas!!!!! E amando seu Harry! E com saudades do Robin! ... – Beijão caprichado, ó Talentosa! Aguardando com ansiedade cruel o próximo capítulo! Até lá!
N/A: Alguns dias a mais, mas ainda um por semana. Sei que não respondi um décimo das perguntas de vcs e, como avisei antes, há coisas iguais, outras parecidas e outras completamente diferentes. Pelo próprio ritmo que eu me imponho, as respostas virão, mas tudo a seu tempo, hehe.
Estou exultante com os comentários e a aceitação da fic. Espero que todos continuem me dando esse voto de confiança.
Ahh a capa nova é um presente da Naty L. Potter. Não ficou demais? Beijos amiga!
Belzinha – Eu sabia que o cabelo criaria polêmica, rsrs. Mas exigência só ajuda, querida. Quanto às respostas, vou ficar devendo algumas por enquanto. Preciso manter o suspense, não é? Bjs e obrigada.
Priscila Louredo – Empombou??? Hahahahaha Lembrei dos pombos do Rio correndo atrás das pombas na primavera. Hahaha!!! Obrigada amada!
Ana Fuchs – Obrigada, querida! Sim, ele tem uma leoa junto com ele. Quanto ao Potter, paciência... Beijocas.
Jeh. – Poxa! Nossa, fiquei um vermelhona com o seu comentário, nem sei como agradecer. Ou melhor, sei, é dizendo não se preocupe todos os que vc citou vão aparecer mais e mais, é só esperar. Um beijo enorme e muito obrigada mesmo!
Clara – Hahaha Quanta pergunta Clarinha. Vou fazer o seguinte, eu respondo escrevendo a fic, tá? Aí conto com calma e vc não surta hehe. Beijão querida.
Sô – Mantendo a média de um por semana!! Vc não imagina como fazer isso me deixa feliz, essa história está fluindo de forma que nem eu esperava. Obrigada pelo ampoio sempre querida! Um beijo enorme!
Drika Granger – Quantos tempos? Vc perguntou sobre capítulos? Céus, eu nem me atrevo a estimar. A história na minha cabeça é enorme!!!! Talvez fique maior que o Retorno, cruzes!! Um beijão linda!
Danielle Pereira – Feliz!!! Obrigada querida! É muito bom ler toda essa expectativa. Espero continuar a correspondê-la. E seu palpite está correto, aguarde o póximo capítulo. Um beijão!
Bernardo Cardoso – Valeu Be!! Estou com saudades de vc, sabia? Bjs, te cuida, não trabalha demais.
Ginny Potter – Pedido atendido! Média de um por semana está bom, não? Mas as perguntas eu vou responder devagar, hehe. Bj!
Lili Coutinho – Ups, acho que fiz de novo, hehe. Espero que por estar no meio de um feriadão e próximo ao findi ajude. Obrigada querida!
Bruna Perazolo – Expliquei o sobrenome? Ron e Mione vêm logo, pode deixar. Beijão!
Henrique Malfoy – Querido, eu só não respondo a sua pergunta para não dar spoiler, então vou ficar quietinha. Fico feliz que esteja melhor, tendinite ninguém merece. Beijo grande!
Pedro Henrique Freitas – Os Weasley vão aparecer em breve, é só aguardar. Fico super feliz pela fic estar conquistando vocês. Promete me esmerar muito. Bj e obrigada!
Gina W. Potter – Reconheço vc nos nick e no nome querida, pode ficar tranqüila. E eu com certeza não quero perder você como leitora nunca. Amo sua paixão por H/G. Harry nem completou 14 anos, logo, a Megan é sim seu primeiro encanto. O prisioneiro eu irei esclarecendo aos poucos. Todo o resto é só aguardar. Um beijo e obrigada sempre!
Regina McGonagall – Hahah homem no lugar de jibóia é ótimo. Sim, Voldemort não terá cara de cobra. Que bom que curtiu, fiquei bem feliz. Um beijo enorme.
Doug Potter – Semana que vem! Ok, sexta e tarde da noite, mas juro que a culpa não foi minha. Espero que possa ler. Bjs!
Aluada – Seu sexto sentido acertou, Duda. Rsrs Bem, estou aproveitando que dou essas aulas dessa matéria na facu e tentando recriar o clima para vocês. Fico feliz que curta, de verdade. Um beijo e muito obrigada, querida!
Charlotte Ravenclaw – Ver na “realidade” foi jóia, hahaha. Quanto ao mau costume, tenho certeza de que estou me criando problemas futuros, mas isso está incontrolável e vc sabe que poderia até ter saído ante, né? Beijos amada!
Maionese – Virão os dois e mais, pode esperar. Brigadão, querida!
Remulu Black – Obrigada mesmoooooooooooo por comentar. Vc não tem idéia do quanto esse retorno é importante para a gente saber se está acertando ou errando a mão. Fico feliz de que mesmo sem curtir muito as UAs, vc esteja gostando desta. Um beijo grande!
Tatiane Evans – Obrigadão querida! Tb adorei escrever aquilo. Bjoks.
Bruna Briti – Ehh!! Obrigada querida! Sim, o prisioneiro aparecerá logo, outra vez. Aguarde. Beijos mil.
Fadinha Ruiva – Atualizada, como eu disse, na média, hehe. Valeu por vir ler Fads. Logo terá seu casal por aqui. Beijão!
Thayse Couto – Que bom!! E eu estou felicíssima com a aceitação. Obrigada mesmo! Bj.
Naty L. Potter – Espero que esteja tão bom quanto o outro Naty. Vc viu que mudei a capa? É linda querida. Muito obrigada pelo presente!!! Um beijão Pichichinha!
À todos, meu carinho, minha gratidão e um beijo estalado, inclusive nos silenciosos.
Sally
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