Fazia dois dias que Harry havia chegado à casa dos tios e era a primeira vez que conseguia realmente dormir. Ao contrário das outras noites, ele não estava sonhando com a inútil caçada ao horcrux falso ou com a desastrosa invasão a Hogwarts, a morte de Dumbledore ou com a aterradora visão de Snape apontando-lhe a varinha e dizendo que só não o matava porque assim Voldemort havia ordenado.
Harry olhou em volta e notou que se encontrava em uma floresta fria, havia neve no chão e na copa das árvores. Abraçou-se para tentar afastar o frio e se dirigiu para dentro da floresta, atrás de uma pequena claridade, que conforme ia se aproximando aumentava. Assim que chegou a clareira, se surpreendeu com o altar e a arrumação do que parecia uma festa, no centro havia uma grande fogueira e demarcando a área da clareira havia outras menores.
-Bem-vindo, Potter. –Harry ouviu a voz fria de Voldemort e imediatamente levou a mão à cicatriz, estranhando que esta não estivesse doendo.
-O que você quer, Tom? –Harry pergunta de modo destemido, apesar de acabar de perceber que estava sem sua varinha.
-Não seja descortês, Potter, eu o trouxe aqui para uma conversa amigável. –Voldemort fala se sentando e apontando um lugar a frente dele para Harry.
-Porque você iria querer ter uma conversa “amigável” comigo, Voldemort? –Harry retruca se sentando perto da fogueira e encarando os olhos viperinos do outro.
-Quero lhe fazer uma proposta vantajosa para nós dois. –fala pausadamente, enquanto Harry lhe olhava com suspeita. –O que acha de mudar sua história, de crescer vivendo com seus pais, longe do perigo da guerra? –essa pergunta veio com uma voz calma e baixa, mas muito tentadora.
-Como você faria isso e porque seria vantajoso para você? –pergunta analisando as reações do inimigo, não se deixaria enganar.
-Eu tenho poder para “voltar no tempo”, mexer em um ou outro detalhe sem causar uma grande confusão temporal, posso voltar ao tempo em que era um bebê e deixar um “aviso” ao meu “eu” do passado para que não se preocupe com os Potter. Em troca você apenas terá que voltar comigo e fazer um ritual para selar os poderes do bebê Harry Potter, tornando-o assim, um aborto. –Harry se sobressalta ao ouvir aquilo, sabia que o preço seria muito alto, mas não imaginava algo assim.
-Você está querendo que eu escolha entre a vida que eu tenho e a uma vida onde serei trouxa, mas viverei com meus pais, isso é claro, enquanto você aterroriza o mundo? –Harry fala sarcástico, Voldemort acabara de fazê-lo escolher entre a sua felicidade e a do mundo.
-Potter, pense bem. Você acha que tem chances contra mim hoje, sem Dumbledore para te proteger? Se você escolher a sua vida e de seus pais, pense nas pessoas que morreram a sua volta e terão uma segunda chance: Seus pais, Sírius Black, os Longbotton, o menino Diggory, entre outros que morrerão para tentar proteger você, achando que um dia você seria capaz de me vencer. –Voldemort fala parecendo tranqüilo e confiante, enfatizando o nome das pessoas que morreram por causa dele.
-Eu tenho que decidir isso agora? –pergunta pensativo.
-Não, a conjunção astral necessária ocorrerá em quinze dias, então terá dez para pensar. –fala de modo objetivo e logo depois se levanta e vai até Harry, estendendo sua mão para cumprimentá-lo.
-Até lá então. –Harry fala se afastando sem cumprimentar o outro.
Harry sentiu uma forte dor na cicatriz ao acordar, tentou se levantar para lavar o rosto e tentar aliviar a dor, mas percebeu que estava sem forças, sentia-se exausto, era como se seus membros estivessem três vezes mais pesados, na verdade mal sentia o corpo.
“Pelo visto não foi só um sonho” –Harry pensa tentando esquecer a ardência quase insuportável na cicatriz. –“Mas nesse caso, eu sou obrigado a fazer uma escolha a qual não queria... Droga! Porque as maiores responsabilidades sempre caem sobre mim?” –pensa sentindo o peso da decisão que lhe cabia, afinal de um lado tinha a sua felicidade e no outro o mundo inteiro.
Enfraquecido pela dor e pelo cansaço, o rapaz voltou a dormir, dessa vez caindo em sono tão profundo que não teve sonhos ou pesadelos, dando-se conta do amanhecer só pelos berros do tio que o chamava para o almoço. As horas que dormiu serviram-lhe para recuperar o desgaste físico dos últimos dias e clarearam sua mente, o que ele agradecera, já que era exatamente de bom senso que ele precisava naquele momento.
Passou o restante do dia pensando no que os amigos diriam a ele se soubessem o que havia acontecido. Rony provavelmente bagunçaria os cabelos e se deitaria na cama fitando o teto por alguns instantes e depois diria a Harry que era uma decisão difícil, mas que ele apoiaria o amigo seja lá qual fosse à escolha; Hermione lhe olharia com daquele jeito compreensivo e materno que só ela sabia fazer e que tanto o confortava e falaria docemente que Voldemort só havia feito aquilo para torturá-lo e que a decisão era óbvia, afinal o interesse coletivo sempre deveria se sobrepor ao individual por mais frio e cruel que fosse; Lupin, por sua vez, teria os olhos úmidos diante da possibilidade de rever os amigos, diria a Harry que ele devia escolher o certo por mais duro que fosse, mas com o olhar torceria para que escolhesse salvar Thiago, Lílian e por conseqüência Sírius e até ele mesmo do destino tirano e impiedoso que sua turma de amigos sofrera.
Os dias se passaram rapidamente, Harry estava cada vez mais melancólico e aquela difícil escolha o torturava mais do que qualquer outra coisa que já sentira, nem mesmo a morte de Sírius ou Dumbledore lhe tirara a noção de que estava vivo e de que precisava fazer coisas básicas como comer e beber, talvez se não fosse tão natural ao seu pulmão, ele esqueceria de respirar, imerso em todos os fatos que norteavam sua decisão. Havia decidido após o segundo dia que não decidiria com o coração e tentaria analisar tudo com sua cabeça, quase como se fosse alguém de fora da situação, por isso passou a analisar tudo o que poderia mudar se ele aceitasse aquela proposta.
Deitado no jardim com as mãos unidas sob a cabeça, Harry olhava as estrelas e examinava sua decisão pela última vez, no entanto, uma ardência em sua cicatriz o alertou e, com a rapidez de um raio, Harry se levantou com a varinha em punho procurando por comensais ou o próprio Voldemort, achava difícil de imaginar que ele estivesse ali, mas se fosse o caso o enfrentaria. Em menos de cinco minutos a dor se tornou tão aguda que quebrou sua postura vigilante e logo depois o fez cair inconsciente.
Novamente, Harry se viu naquela floresta fria e sombria, mas desta vez sabia onde tinha que ir e o que faria. A decisão já estava tomada, aceitaria a proposta de Voldemort por mais absurda que parecesse, mas não seria por puro sentimentalismo, sabia que além de salvar a vida de seus pais, daria um destino digno a Sírius, que certamente não seria preso, Neville também teria seus pais já que não haveria profecia que os condenasse, Lupin poderia ter todo o apoio dos amigos para ser talvez um chefe de família com um bom emprego e respeitado, Cedrico jamais seria morto em uma armadilha de Voldemort para pegá-lo, Dumbledore também não precisaria gastar seus esforços para proteger um garoto, podendo assim ter tempo e também seus mais poderosos membros da Ordem da Fênix, a disposição para derrotar Voldemort, isso sem falar nas várias pessoas que Voldemort ou seus comensais mataram quando este ressurgiu e pegou o mundo bruxo completamente desprevenido e que agora teriam uma chance para se proteger. Quando a idéia de que ele estava jogando fora a esperança do mundo bruxo lhe atormentava a consciência, a cena de Snape lhe subjugando tão facilmente surgia em sua mente, como se houvesse acontecido há uns minutos, se não conseguia enfrentar aquele traidor imundo, certamente não serviria nem como aquecimento para Voldemort.
Sabia que haveria coisas ruins, além de não haver os treze anos de descanso entre a queda e a “ressurreição” de Voldemort, nunca voltaria a Hogwarts; provavelmente conheceria os Weasley já que eram uma família amiga dos Potter e a idéia de crescer junto a Rony o animava, no entanto a idéia de que provavelmente nunca fosse conhecer ou ser amigo de Hermione quase o fazia querer desistir de tudo. Parou de frente para a clareira onde Voldemort estava à frente do altar esperando-o, a decoração era a mesma do sonho; a imagem da melhor amiga lhe veio à mente, sabia que seria muito difícil que Rony e Hermione se tornassem amigos sem que um trasgo invadisse a escola e o relaxado Weasley nunca fora chegado ao lado sabe-tudo de Hermione, mas preferia manter viva uma esperança por mínima que fosse...
-Gostaria de te dizer que de tudo que vou perder, incluindo a magia, nada doerá tanto quanto perder você... sinto que nunca serei completo de verdade apenas tendo Rony como amigo, mas infelizmente eu não posso te levar comigo... Adeus. –Harry murmura em uma prece, se concentrando o máximo possível na amiga, como se quisesse que realmente aquela mensagem chegasse até ela.
Caminhando de mente vazia e olhando diretamente para o bruxo a sua frente, Harry chega ao centro do local, observando com atenção cada detalhe. O altar era formado por uma mesa de pedra redonda, localizada no centro de um triângulo eqüilátero, formado por três pilares iguais e de cerca de cinco metros, preenchidos por escritas rúnicas em colunas, a mesa também possuía tais runas, mas em menor quantidade, sendo ocupada em sua altura por desenhos que pareciam narrar uma história.
-Noite muito agradável, não acha? –a voz de Voldemort soa calma, fria e com um tom malicioso, que Harry quase tomou como provocativo.
-Sem rodeios, Voldemort. –Harry fala ficando de frente para o bruxo, de lado para a mesa redonda. –O que eu tenho que fazer? –pergunta de modo objetivo, queria acabar logo com aquilo.
-Fique em pé no altar. –Voldemort responde e depois flutua até a mesa de pedra, ficando virado para um dos lados do triângulo. Harry se apoiou na mesa e subiu, ficando de pé a frente do outro bruxo. –Agora segure meu punho com sua mão direita. –pediu esticando o braço direito para Harry, que segurou seu punho com a mão direita, a qual teve o punho seguro pela mão direita de Voldemort.
Depois disso, Voldemort começou a murmurar palavras em uma língua estranha que parecia mesclar latim com grego, mas tinha uma musicalidade anormal para qualquer língua que já houvesse ouvido. Sentiu os pêlos de seu corpo se arrepiar e um calor surgir de dentro de si; observou em volta e notou que as inscrições nos pilares estavam incandescentes, uma brisa muito fria começou a soprar, ao mesmo tempo em que os pilares começavam a vibrar e brilhar em uma das três cores primárias. Voldemort deixou de murmurar e agora entoava com clareza as palavras da mesma língua estranha, então o pilar que brilhava em amarelo começou a mandar aquela energia para a mesa onde estavam, e logo percebeu que a luz azul e vermelha também estavam sendo enviadas e começavam a circular em torno deles se mesclando e formando uma parede mais colorida que um arco íris, onde os vários tons de cores se mesclavam. Quando a parede ficou maior que eles, ouviu Voldemort bradar fortemente “Eximere Tempus” e então tudo ficou escuro e sentiu que estava caindo de uma grande altura, a velocidade era tanta que fechou os olhos fortemente, sentindo apenas o vazio e o aperto forte da mão de Voldemort.
Após um tempo que não saberia precisar, sentiu que, inexplicavelmente, estava de pé sobre o chão firme. Não houve queda ou pouso, era como se ele fosse abrir os olhos e ainda estaria sobre a mesma mesa de pedra.
-Abra os olhos, já chegamos onde queríamos. –a voz de Voldemort soou diferente, era como se o bruxo realmente estivesse “feliz” com tudo aquilo.
-Onde estamos? –Harry pergunta surpreso ao ver um quarto todo branco com um cheiro estranho, que lembrava um hospital.
-No hospital onde você nasceu, olhe para a porta. –ao se virar, Harry viu uma enfermeira entrar com algo nos braços e logo depois depositar o pequeno embrulho em uma espécie de berço. –Parabéns, acabaste de nascer, Potter. –aquela voz soou estranha e, por um momento, Harry pensou que talvez Voldemort estivesse fazendo uma piada.
-Porque ela não nos viu? –perguntou tentando se ater aos fatos.
-Porque fisicamente não estamos aqui, por assim dizer. –explicou vagamente enquanto se dirigia ao bebê. –Agora vire o bebê de costas e retire a camisa dele.
-Você, não pode me tocar? –pergunta estranhando que Voldemort o mandasse preparar o bebê ao invés de fazer ele mesmo.
-Quem diria que você fosse tão perspicaz! –comenta surpreso. –Acho que isso responde a pergunta oculta do porque eu simplesmente não voltei no tempo e te matei enquanto estava indefeso.
Satisfeito com a resposta, Harry faz o que Voldemort pedira e retira a camisa do bebê, depois o deitando de bruços.
-Antes de continuar, quero que faça o juramento de que deixará a mim e meus pais em paz. –Harry fala se lembrando da garantia que Voldemort se propôs a dar.
-Como queira. –Voldemort fala pegando sua varinha e oferecendo a Harry. –Ele será o elo de ligação entre nós, apenas faça ele segurar firme a varinha. Harry assentiu e viu Voldemort se ajoelhar perante ele e o bebê, logo depois segurando sua mão.
-Irá você, Tom Riddle, cumprir sua promessa de não mais fazer ou mandar fazerem qualquer mal a mim ou a minha família? –Harry perguntou de modo firme, se concentrando na sua essência de bebê.
-Enquanto existir o selo, sim. –Voldemort fala e uma fina labareda saiu da varinha e serpenteou-se em volta das mãos como uma cobra cor de fogo, estabelecendo assim o juramento inquebrável. –Agora é a sua vez. –disse voltando a ficar de pé. –Vou fazer um corte em seu dedo, depois farei o feitiço, enquanto isso não fale ou se mova.
Harry concordou tirando a varinha da mão curiosa do bebê e passando-a a Voldemort, logo depois deixando as costas do bebê expostas novamente e oferecendo sua mão direita para Voldemort. O bruxo fez um corte limpo com sua varinha e depois direcionou o dedo ferido até as costas do bebê, começando a murmurar novamente palavras naquela língua estranha enquanto fazia um desenho confuso com o sangue nas costas do bebê. Assim que o desenho abstrato, mas que emitia a sensação de fluidez como ondas ou o vento, ficou pronto, o sangue adquiriu um brilho incandescente e o bebê começou a chorar a plenos pulmões, o que lhe pareceu perfeitamente explicável devido à dor lancinante da queimadura que se fazia em suas costas.
Harry sentiu que sua consciência aos poucos lhe deixava, não mais sentia o ambiente a sua volta, mal ouvia os berros do bebê e sua última visão antes de cair na escuridão foi o semblante contorcido em um sorriso vitorioso e os dois olhos vermelhos brilhantes de Voldemort.
N/A: Oi, depois de muito tempo eu voltei a postar ET e agora eu espero que vocês gostem muito mais da fic!
N/A²: Nesse cap, Harry se viu diante de uma dificil questão e tentou decidir racionalmente. Vocês concordam com a escolha dele?
Próxima fic a ser Atualizada: Portões do Inferno