Enfio a última torrada na boca e me levanto. “Mamãe?” Em ação, minha quase sempre infalível cara de cachorrinho abandonado.
“Sim, Ron?” Ela nem se vira da pia. Eu me esforço e vou ao lado dela. “É que hoje é aniversário do Harry, e como eu te ajudei a semana inteira, eu estive pensando, será que eu não poderia ter a tarde livre hoje? Sei que é véspera do casamento e tudo mais, mas prometo que amanhã eu ajudo nos preparativos finais!”
Ela se vira me olha atentamente. “Por favor, mãe...?!” Mantenho a cara de cachorrinho abandonado. Ela pondera por alguns segundos e diz calmamente, para a minha surpresa.
“Tudo bem, Ron. Pode ir. Vou procurar a Ginevra. Se você a vir, avise-a.”
É por isso que eu sempre digo que jamais devemos perder as esperanças. “Uau, obrigado mãe!” Abraço-a e lhe dou um beijo sonoro, em gratidão, porque vou poder passar a tarde inteira jogando conversa fora com Harry e Hermione, e há tempos que fazemos isso. Minha mãe sorri.
“Harry, Hermione, venham, tá um dia legal pra ficar na beira do lago.” Os dois se juntam a mim e saímos em direção ao jardim, na parte de trás da casa, onde fica o lago – não é muito grande, mas quebra um galho nos dias de calor. A gente se senta sob a figueira depois do lago. “E então?”, eu digo. Queria saber dos dois quais os progressos na pesquisa sobre os Horcruxes. Eu andei lendo algumas coisas em casa, mas sem sucesso – nenhuma informação relevante, é claro, porque não há livros sobre artes das trevas na Toca. Hermione foi ao Beco Diagonal na semana passada para provar as vestes para o casamento e aproveitou para consultar uns títulos da Floreios & Borrões. Comprou alguns e trouxe para cá, mas ainda não havíamos conversado se ela tinha achado algo de importante neles ou não. Além disso, queria saber o que o Harry tem em mente, se é que ele tem algo em mente – eu espero que tenha.
Hermione suspira e começa. “Bom, eu andei pesquisando até onde foi possível, já que não temos acesso a nenhuma grande biblioteca. O Ron, acredito, leu os livros disponíveis aqui na Toca e eu comprei algumas coisas na Floreios semana passada.” Eu confirmei com a cabeça. Notei no Harry uma expressão insatisfeita, como se não o tivesse agradado que ela tivesse gastado dinheiro dela pra isso. Ele não falou nada, contudo, e ela não deve ter percebido, também, porque continuou.
“Comprei seis títulos: ‘Hogwarts e seus fundadores’, ‘Origens de Hogwarts’, ‘Ravenclaw: uma história de sabedoria’, ‘Artes das trevas: surgimento, desenvolvimento e evolução’ – esse tem um capítulo só sobre Horcruxes! – ‘Gryffindor, Ravenclaw, Hufflepuff e Slytherin: quatro corações e uma história’, esse é meio romanceado, mas tem informações legais sobre a vida dos fundadores, e ‘Relíquias do mundo bruxo’. Esse livro sobre artes das trevas que eu mencionei foi meio difícil de conseguir, tive que dar uma escapada na Travessa do Tranco-“
Não acredito. “Hermione!”, eu digo, e percebo que o Harry falou ao mesmo tempo. “Você poderia ter se machucado, a Travessa do Tranco não é exatamente o lugar mais seguro do mundo, ainda mais nesses tempos!” Harry parece concordar comigo, quer dizer, digo que parece porque ele não ousa falar nada, mas me dá um olhar encorajador – não que ele não fale por não se preocupar, mas porque sabe que quando se trata de brigar com a Hermione, é melhor deixar isso comigo.
“Francamente, Ron. Eu posso me cuidar. Além disso, a Travessa do Tranco está com aurores por todos os lados, e a maioria das lojas está segura porque depois da morte de Dumbledore nenhum dos donos por lá quer se incriminar. Eles se livraram de qualquer material suspeito, eu diria que as lojas por lá estão mais seguras que as do Beco Diagonal.”
Eu resmungo, mas resolvo não debater. Mesmo que brigar com ela seja, hum, uma das coisas mais divertidas a se fazer no universo – sim, é divertido mesmo, e daí? Às vezes ela realmente me tira do sério, com essa mania de querer mandar em todo mundo e saber tudo, mas eu adoro desafiá-la, ver até onde nós dois podemos ir discutindo - nós dois já provamos que podemos ir longe, ela é uma boa adversária. Mas, voltando, eu não insisti na briga porque não é hora pra isso, e afinal, tenho que admitir, ela foi brilhante na pesquisa e na escolha dos títulos. Ainda me surpreendo com o quanto ela pode ser inteligente, mesmo depois de tanto tempo ao lado dela... “Ao lado dela” soa bem, não?
“Bom, o que importa é que eu consegui os livros e deu tudo certo. O problema é que como eu os comprei na semana passada, só consegui ler dois deles até agora.”
O quê? Dois livros em uma semana? Eu gargalho e ela me olha furiosa. “Problema, Hermione? Solução, você quer dizer. Dois livros em uma semana!” Como isso soou mais como um elogio (e foi), a expressão de ultraje que ela tinha no rosto dá lugar a uma de ligeira vergonha. “Ah Ron, os livros nem eram tão grandes assim, eu comecei pelos menores. Eu li ‘Hogwarts e seus fundadores’ e o livro sobre Rowena Ravenclaw.”
“E aí?” Harry enuncia a expectativa dele e a minha.
“Ahn... Aí vem a parte ruim. Nesses dois livros não consegui encontrar nada que não saibamos. Mas tem a parte boa: eu andei folheando o livro que comprei na Travessa do Tranco e encontrei informações realmente interessantes sobre Horcruxes!” Eu pude notar o ar de satisfação que o Harry exibiu quando ela falou isso. Eu também fico feliz com a novidade e não posso deixar de sorrir.
“Mione, você é fantástica.” Gênio, Harry. Agora me conte a novidade. “O que descobriu?” , ele diz, os olhos faiscando.
“Bom... Digamos que as informações são meio complexas, mas eu fiz umas anotações. Vou lá em cima buscar o caderno e já volto.” Ela faz menção de se levantar mas Harry a interrompe.
“Nada disso” , ele diz. “Fique aqui, eu vou lá buscar. Enquanto isso... ‘Accio Hogwarts: uma história’!”, e um livro de capa vermelha escura com letras douradas vem voando de dentro da Toca até a mão dele. “...quero que vocês vejam as anotações que eu fiz no livro. São indicações bem vagas, só um ponto de partida nas nossas pesquisas, mas talvez possam ser importantes. Vou buscar o caderno, Hermione, onde está?”
“Bom, eu durmo no quarto da Ginny, meu malão está na parede ao lado da cama. O caderno... Na bolsa externa do malão. Por Merlim Harry, o que você fez com esse livro? Não acredito que você fez as anotações no próprio livro!” Ela olhava com descrença para a capa amassada e cheia de dobraduras.
Harry ignorou as últimas exclamações e hesitou. “A Ginny tá dormindo lá?” Ele não conseguiu nem disfarçar o pânico, coitado. É tão óbvio que ele ainda gosta da minha irmã, mas não quero me meter, até porque a Ginny parece estar superando bem tudo isso. Claro que eu não ficaria quieto se visse minha irmãzinha chorando pelos cantos por causa dele, sendo meu melhor amigo ou não. Mas não parece ser o caso de eu me meter, por enquanto.
“Ah, não, ela acordou pouco depois de mim, deve estar escondida em algum lugar para evitar as broncas da sra. Weasley. Mas certamente ela não está no quarto, seria óbvio demais pra alguém se esconder. O caderno é o de capa verde Harry, não o de capa preta, ouviu? E vê se não dá a ele o mesmo tratamento que você deu a esse ‘Hogwarts: uma história’. Francamente, Harry!”
Ele sorri pra ela com desdém e sai correndo em direção à casa em passos largos, gritando “Dá um tempo, Granger!” em tom divertido. Conhecendo o Harry e a maneira como ele reage a essas broncas da Hermione, se ele tivesse de mau-humor, teria recebido mal essa sobre “o bem-estar e o direito da comunidade de livros”, mas parece que as novidades sobre os Horcruxes o animaram.
Hum, e pela primeira vez em algum tempo, eu tenho alguns minutos sozinho com Hermione Granger. Por onde eu começo?
Harry se vai e eu fico pensando como é que alguém pode dar esse tipo de tratamento a um livro. Eu reconheço que sou meio... rígida, mas é um livro, uma fonte de conhecimento, oras! É um bem da humanidade, tem que ser conservado e repassado, como todo conhecimento. Mas parece que eu nunca vou conseguir botar isso na cabeça deles.
Desde aquele dia que entrei no quarto com o Ron quase dormindo que não ficamos sozinhos. Quer dizer, aquilo não foi um “ficar sozinho”, foi um momento estranho na verdade. Se formos considerar de verdade, faz muito mais tempo desde que não ficamos conversando, só nós dois. Sempre estamos com mais gente ao redor, a Toca tem estado bem cheia, ou a Ginny está sempre por perto. Não que eu me incomode com a presença dela, pelo contrário, foi só uma constatação – nessas férias ela tem ficado bastante tempo conosco, e se ela não está, são os gêmeos, ou a Molly, ou eu estou lendo, ou ele está jogando Quadribol. Mas sinceramente? Não sei por ele, mas eu tenho evitado isso. Ficar sozinha com ele, porque eu não sei que rumo as coisas podem tomar. Não é sempre, mas tem vezes que perto dele eu reajo de maneira... inesperada a algumas situações. É como se um outro lado meu tomasse o controle por alguns momentos, e eu luto pra voltar e então consigo, mas aí logo em seguida me deixo levar de novo.
Ele interrompe meu pensamento e quebra os breves segundos de silêncio chato. “Você foi brilhante, Hermione!” , ele diz, e eu adoro ouvir isso dele. Ok, é engraçado, patético até, mas eu adoro. Se ele não tivesse falado tão claramente eu ia dizer “hein?”, só pra ouvir de novo. Como não é o caso, abro um grande sorriso, compatível com a minha satisfação em receber um elogio e digo “Obrigada, Ron, mas realmente não foi nada, apenas entrei na loja e escolhi alguns bons livros.” E não é falsa modéstia, realmente não foi nada, qual a dificuldade em fazer isso? Eu nem sequer deduzi ou descobri nada, apenas li e anotei as informações tiradas do livro.
“É, mas nem eu nem o Harry teríamos sido capazes de escolher os títulos tão bem, e você ainda foi pesquisar na Travessa do Tranco. Pior eu, que sou um imprestável, não pude achar nada de interessante e não tô ajudando em nada.” Ele parece realmente desapontado. Eu realmente não entendo como ele não reconhece o próprio valor. A coragem dele, por Merlim! O Harry, ele é corajoso porque não tem escolha. Ele tem que enfrentar as coisas. Já o Ron... ele não precisava. Não precisava ter se envolvido nisso, ter escolhido ficar ao lado do Harry e então se tornar um alvo. Ele está arriscando a vida dele porque quer, porque acha isso o certo a fazer, e isso demonstra muito mais coragem e nobreza que a maioria das pessoas por aí.
Por outro lado, embora eu acredite que ele esteja sendo sincero quando fala de si mesmo assim – ele realmente tem a auto-estima um pouco baixa, embora tenha melhorado depois do... episódio Lavender -, eu acho que ele faz isso porque, inconscientemente, lá no fundo, espera que eu conteste. Que eu diga que ele não é nada disso. Ou seja, tem um pouquinho de drama aí. Mas como eu disse, é provavelmente inconsciente, porque eu o conheço bem pra dizer que ele não é do tipo que faria esse tipo de drama comigo conscientemente. Mas eu, é claro, mordo a isca.
“Não diga isso de novo, Ron. Você está nos hospedando na sua casa, você leu tudo até onde era possível e, além disso, você escolheu estar conosco, ora! Podia ter desistido, mas não desistiu. Então jamais diga que você não está ajudando, porque você está e já ajudou muito. Eu... Nós não seríamos nada sem você.” Ele me olha com os olhos cheios de auto-piedade mas faz menção de sorrir.
“Obrigada, Mione. Eu também não sei o que eu estaria fazendo sem vocês dois. Provavelmente pensando em quadribol e em que horas o almoço estaria pronto. E isso não seria exatamente muito produtivo, não é?” O tom de voz dele é divertido e eu rio, é claro, porque ele quase sempre me faz rir – até nas horas que não deve, o palhaço. Mas resolvo provocar.
“Ah, então você está admitindo que se eu não pegasse no seu pé você seria um jovem... alienado e sem futuro? Você está finalmente admitindo que eu sou essencial na sua vida escolar e que sem minhas agendas de estudos você seria... um fracasso acadêmico? É isso, Ronald Weasley?” Não consigo conter uma gargalhada breve no final. A cara de surpresa e de falsa indignação dele é tão engraçada e eu só consigo finalizar lançando a ele um olhar meio divertido-meio desafiador.
“Ei, isso não é justo! Foi você que disse primeiro que não era nada sem a gente, eu só falei pra parecer educado, ora! Porque vocês sabem que, na verdade, vocês não significam nada pra mim e eu só sou amigo de vocês por causa... da fama e do dinheiro, quero dizer, Harry Potter é o menino que sobreviveu e eu pensei – ‘porque não pegar carona’, e então me aproximei, mas com intuitos completamente... financeiros e excusos.” Ele falou de um jeito enfeitado, como se tudo aquilo fosse a mais óbvia verdade, e deu um largo e sorriso no final, daqueles que demonstram certa maldade, não no mau-sentido, é claro. Eu gargalho com o gran-finale e rebato. “Uau, Ron! Onde você adquiriu esse vocabulário novo? ‘Excusos’, de onde você tirou isso?”
“Ah, isso?” Ele olha para os lados como se estivesse se certificando que ninguém vai nos ouvir. “Não espalha, mas isso é influência da minha melhor amiga. Sabe, ela é a bruxa mais inteligente da idade dela.”
Bingo. Ele me desarma. Não foram só as palavras, é claro, mas o elogio, e o sorriso dele, os olhos azuis e o quão perto de mim ele está, por ter se aproximado para cochichar de brincadeira. Ele está me olhando, esperando alguma reação, e eu só consigo sorrir pra ele. As sardas em seu rosto parecem mais queimadas que o normal, talvez pelo tempo que ele tem ficado no sol, e posso reparar no ombro dele, que parece mais largo. Não é como se ele estivesse forte ou algo assim, nem teria como, mas ele parece mais... encorpado, acho. Os cabelos vermelhos estão grandes, ele tinha me dito que queria cortar, mas eu gosto deles assim. Tem alguns fios de barba no rosto, ele provavelmente não faz a barba há alguns dias já... E seguem-se alguns segundos de silêncio chato, quando nos damos conta que estamos perigosamente perto e que nos deixamos levar por pensamentos provavelmente bem ilustrativos. Quero dizer, eu me dei conta, não sei ele. Eu pigarreio e me afasto, sorrindo e tentando parecer natural. Recosto-me na árvore e digo “Vem, Ron. Vamos dar uma olhada nas anotações do Harry... Ele está demorando, não?”
Momentos como este, nos quais ficamos “perigosamente próximos”, têm acontecido freqüentemente quando ficamos sozinhos, e é por isso que eu tenho evitado. E eu não consigo compreender, porque eu quero mas não quero. O meu medo disso tudo é absolutamente lógico. Primeiro, eu ele e o Harry somos um trio. Se eu e o Ron estivéssemos... juntos, como o Harry se sentiria? Ele não precisa de divisões desse tipo agora, ele precisa de união, que nos dediquemos a ele. Uma relação agora nos tiraria do foco principal, que é o Harry. E tem também um problema: eu não sei exatamente se ele quer o mesmo que eu. Ele tem dado alguns sinais, é verdade, mas posso estar louca, porque a gente costuma ver coisas onde quer ver. E se não for o que eu estou pensando, e se for tudo coisa da minha cabeça? O fato de ele brincar assim comigo e me elogiar não significa nada, ele é meu amigo e é brincalhão de qualquer maneira.
Mesmo assim, só essa troca de falsas-provocações já me deixa feliz, quero dizer, é engraçado, a gente se sente bem às vezes falando de coisas leves assim com os amigos. Me fez bem, afinal, de um jeito ou de outro. Ele se aproxima e se senta de frente pra mim para que possamos discutir algumas marcações de Harry em ‘Hogwarts: uma história’. Olho pra ele e reparo que ele parece feliz, também, e concentrado, o que é raro – ou seja, deve estar fazendo pra me agradar, porque eu pedi, e isso é definitivamente adorável. Ele tem as costas eretas e me olha atentamente, provavelmente esperando que eu comece aqueles discursos que eu sempre faço. Reparo na calça jeans que ele usa, meio desbotada – provavelmente de segunda mão -, um pouco curta, mas ele está descalço, sentado abraçando os joelhos, então a calça tinha que ficar curta mesmo.
Aí, está acontecendo de novo. Isso está quase começando a ficar cansativo. Respiro fundo, retomo os pensamentos, me concentro e recomeço. É sempre assim.
Eu juro que mato a Hermione. Juro, juro, juro. Fecho a porta do quarto bem devagar, porque quero que a Ginny se esqueça de que eu alguma vez estive aqui. Ok, a Hermione não tinha culpa, ela não tinha como adivinhar... Ou será que ela sabia? Isso é bem a cara dela, armar esses encontrinhos “casuais”, só pra gente ser obrigado a confrontar coisas que... a gente não deve.
Mas bem que ela me deu “parabéns”, né? Não quer dizer nada, afinal, ela não seria mal-educada a ponto de não me cumprimentar e, além disso, nem foi um abraço nem um beijo, foi só um parabéns e um sorrisinho. Mas é muito estranho ficar perto dela, porque é preciso tratá-la como se nada tivesse acontecido entre nós, como eu a tratava antes de termos ficado juntos, e isso é impossível. Quero dizer, como você finge não ter uma intimidade que você simplesmente tem? Ingenuidade minha achar que continuaríamos amigos, algo como “ok, terminamos, agora podemos jogar uma partida de quadribol?”, não sei de onde eu tirei isso. Parece que é oito ou oitenta afinal – não consigo ficar perto dela sem lembrar das tardes escondidos nos armários de vassouras ou na beira do lago em Hogwarts. Não dá pra ficar perto dela sem querer passar a mão no cabelo dela ou pegá-la pela cintura. Não é nem algo instintivo, eu confesso, não é o que eu sentia antes de ficarmos juntos. É quase como força do hábito, é como se estar com ela fosse natural, e não estar se tornasse estranho, errado até, então essas atitudes são quase como parte de mim e eu já não posso evitá-las.
Wow, isso é brega. Mas enfim, é questão de tempo pra eu superar de vez, porque não posso ficar junto com ela. Depois da guerra, se eu... sobreviver, posso tentar retomar as coisas, mas vou entender se ela não quiser, porque eu não sei o que terei me tornado depois de... depois de tudo.
“Harry, nosso cunhado preferido!” Os gêmeos saem pela porta do que foi um dia o quarto deles e abraçam meu ombro, um de cada lado.
“Caras, hum... Acho que vocês não souberam, mas eu...”
Terminei com ela?
“..., eu não estou... nós não estamos mais, ehr, juntos.” Eles levantam a sobrancelha em descrença.
“Ah, não estão mais juntos? O que você acha disso, Fred?” George me olhava atentamente enquanto dizia isso, como se estivesse me avaliando. Eu não sei que tipo de expressão colocar no rosto.
“George, eu acharia realmente estranho, porque eu podia jurar que vi o Potter aqui saindo do quarto da minha irmãzinha doente agora há pouco. E se eles fossem namorados isso seria plenamente compreensível, não é, mas se eles não são...”
“Não, vocês entenderam errado! Nós realmente não estamos mais juntos, eu só fui buscar um caderno da Hermione, olhem aqui!” Mostro o caderno pra eles, que trocam olhares divertidos. Estavam tirando sarro da minha cara o tempo todo, naturalmente. “É, Fred, parece que dessa vez o Potter se safou. Mas estamos de olho em você heim, cicatriz!” Eles me socam no ombro e eu me encolho e dou risada.
“Vamos, Harry, não te paramos no corredor para falar sobre a Ginny. Entre aqui, temos um convite pra você.” Ao dizer isso, Fred me empurra pra dentro do quarto. Eles entram e fecham a porta atrás de mim com um ‘Imperturbatus’. O quarto não parece muito diferente do que eles haviam deixado – caixas e caldeirões por todos os lados. A diferença é que eles tiraram as camas e acrescentaram prateleiras com alguns livros e ingredientes para poções.
“Vamos, sente-se, fique à vontade. Pode sentar em uma das caixas, mas evite aquelas do canto, você provavelmente seria lançado a uns 15 metros pra cima. Isso certamente danificaria o telhado e mamãe ficaria furiosa. Bom, George, por onde começamos?”
“Harry, como você sabe, nosso digníssimo irmão se casa amanhã. Isso, é claro, marca uma grande mudança nas nossas vidas.” George pigarreia solenemente e troca olhares falsamente sérios com o irmão.
George continua. “Esse momento é marcante porque vai possibilitar a I Grande Despedida de Solteiro dos Weasley!” Ahá, sabia. É bem a cara deles, eu deveria ter imaginado. “E como se não bastasse, ainda é a aniversário do nosso cunhadinho preferido!” Eu faço uma careta na menção do adjetivo. Isso parece encorajá-los e Fred começa a falar.
“Como você é nosso quase ex-futuro cunhado ou algo assim, e mesmo se não fosse é praticamente da família, gostaria de convidá-lo para essa sensacional comemoração – que promete bem mais do que o casamento em si, já que estamos programando ela desde que Bill anunciou que se casaria, e a mamãe só está cuidando da festa de casamento há umas três semanas. Iremos hoje à noite a um pub em Sutton, e depois provavelmente ao nosso apartamento no Beco Diagonal – todo o clã Weasley estará presente e alguns amigos foram chamados. Iremos eu e George, Ron, Bill, Charlie, Lupin e você, naturalmente. Nada de mulheres, Harry - não do tipo que não aceita dinheiro, é claro.”
Nessa hora eu gargalho.
“Bom” , Fred continua, “diremos à mamãe que estamos saindo para comemorar seu aniversário no nosso apartamento, e que não chamamos Hermione e Ginny porque a casa já está lotada. Iremos todos aparatando, por segurança, e alguém deve se encarregar de aparatar você e o Ron até lá – o idiota, eu já tinha ouvido falar de pernas, orelhas, até órgãos internos, mas meia sobrancelha? Bom, você não deve contar a verdade a ninguém, Fleur não pode saber - o Bill não precisa de mais cicatrizes. Sairemos daqui às 22h00. Gostaríamos que você avisasse ao Ron sobre a festa, por favor.”
Uau, minha primeira festa de despedida de solteiro. Mulheres, bebidas e amigos. Mas por que eu tenho que avisar o Ron? “Acho melhor você convidarem ele, porque vai ser difícil tirar a Hermione de perto sem que ela desconfie de algo.”
“Harry, meu caro. Ela vai desconfiar mais ainda se nós o puxarmos de lado – a mulher é louca, você sabe. Fale na frente dela, assim você já elimina qualquer suspeita. É o velho ‘quem não deve não teme’. Diga que nós convidamos vocês dois para dormir no nosso apartamento, pra comemorar seu aniversário, e que a lotação da Pensão Weasley já está esgotada, que nós não temos mais espaço por lá.” George suspira de forma triste e continua. “Além do mais, nós não podemos convidar nosso irmãozinho pessoalmente, já que ele anda meio triste conosco. Parece que tem algo a ver com Hermione e uns apelidos.” Ele sorri maldosamente.
“É, e pra você ver como somos benevolentes e misericordiosos, não consideramos nenhum dos nomes feios dos quais ele vem nos chamando nas últimas semanas e o convidamos pra festa mesmo assim. Bom, Harry, recado dado. Esteja pronto às 21h30, heim? E prepare-se para nunca mais esquecer a noite de 31 de Julho. Pensando bem, prepare-se para não lembrar de nada!” Fred termina e sorri para George. Eu me levanto, agradeço os dois, desfaço o Imperturbatus na porta e saio do quarto.
Agora preciso pensar. É claro que eu vou, isso nunca esteve em dúvida. O problema vai ser a Hermione. Quero dizer, eu não queria mentir pra ela, mas ela jamais entenderia que nós temos direito a uma festa de despedida de solteiro, e com certeza se juntaria à Ginny para chantagear os gêmeos junto à Fleur ou à sra. Weasley. Então essa da festa de aniversário no apartamento parece ser bem convincente. Mas tenho que esperar o momento ideal – e sem dúvida não é agora, precisamos discutir nossas pesquisas antes de qualquer coisa. Mesmo assim a Hermione vai ficar meio chateada, tenho certeza, mas nada que não passe em uns... dois dias, eu acho. E a Ginny... bom, não tenho mais nada com ela, não é? Além disso, não é como se eu fosse por causa das mulheres. Não só por isso, pelo menos. Mas enfim, eu não devo mais satisfação a ela, aonde ou com quem eu vou.
Desço as escadas e me dirijo ao jardim. Vou chegando perto do lago, e dá pra ver Hermione de costas, encostada na árvore, e Ron sentado na frente dela. Ela parece estar lendo e falando alguma coisa, mas pela cara de idiota do Ron, ele não está ouvindo nada. Ele não consegue se concentrar perto dela – ou porque eles tão brigando ou porque ele não consegue parar de olhar pra ela. É patético que nenhum dos dois faça alguma coisa a respeito. Mas eu acho que o Ron tem que tomar uma atitude agora. Desde o baile de inverno a Hermione tem deixado claras as intenções dela, com todo aquele “você devia ter me convidado antes”. Antes da Lavender, ela até o convidou para a festa do Slughorn – ela fez a parte dela e o idiota estragou tudo. Então acho que ele está em dívida, é a vez dele de fazer alguma coisa.
“Nossa, Harry. Você foi até o Beco Diagonal comprar esse caderno ou o quê?” , Ron diz quando eu me aproximo. “Cara, faz uns quarenta minutos que você subiu, nós já estávamos indo ver se tava tudo bem.” É, mas não foram. Provavelmente porque no fundo gostam de ficar sozinhos? Sorrio pela constatação mas não a enuncio, é claro. “Me desculpem”, eu digo. “Eu... encontrei Fred e George no caminho, ficamos conversando e eu nem vi o tempo passar.”
Ron bufa à simples menção do nome deles, mas não diz nada. Hermione parece perceber algum desconforto por parte dele e se apressa em mudar de assunto. “Harry, o que você quis dizer aqui com ‘verificar pergaminho’?”
Nem me lembrei de contar pra eles – e nem deu tempo, com todas as coisas acontecendo-, mas encontrei na Sala Precisa, enquanto escondia o Livro de Poções do Half-Blood Prince, um pergaminho que dizia algo sobre os sereianos do lago de Hogwarts. Era uma poesia, quatro ou cinco versos, que por si só parecia irrelevante. Acontece que li em ‘Hogwarts: uma história’ um trecho sobre os ‘sereianos guardarem algo no lago’ e uma tal ‘poesia misteriosa’, que seria um cântico tradicional deles ou algo assim.
Explico tudo isso aos dois. “E não quer dizer muita coisa, mas é sempre bom verificar. Eu não duvido que Voldemort possa ter escondido algum Horcrux no fundo do lago, afinal, seria o tipo de coisa que ele gostaria de fazer – estaria bem embaixo do nosso nariz”, digo, diante de olhares concentrados de Ron e Mione.
“É, Harry, você fez bem em anotar. A gente pode checar se as informações batem depois de amanhã, quando realmente começarmos as pesquisas. Agora, me dê meu caderno de anotações...” Hermione estende a mão e eu lhe entrego a brochura de capa verde. Ela abre e começa a folhea-lá. “Não consegui ler o livro inteiro, como eu lhes disse, mas... achei! Aqui. A página 342 diz: ‘especula-se que um Horcrux, por ser um objeto feito da essência do mal mais puro, deve ser destruído da maneira inversa – ou seja, com o bem em sua forma mais primitiva.’”
“’Especula-se’? Como o cara pode escrever o livro se não tem certeza do que diz?” , Ron pergunta, e Hermione torce o nariz, mas prossegue.
“Como ele poderia, Ronald? Não existem registros na literatura bruxa da destruição de um Horcrux. Não existem sequer registros confimados de alguém que os tenha feito, embora se suspeite de Grindewald. Parece que esse negócio de Horcrux é algo tão obscuro e maligno que não se fala disso – é como acontece com Voldemort, por exemplo. Por isso é muito difícil encontrar informações sobre Horcruxes em livros... decentes.”
Estamos nos dispersando. Voltemos à questão. “Como assim, destruído com o bem em sua forma mais primitiva? Eu destruí o Diário de Tom Riddle com um dente do basilisco, e convenhamos, não tinha nada de bondoso naquela cobra gigante.”
“Eu não sei, Harry. Mas é algo que precisamos considerar, não é?” Eu e Ron concordamos. “Tenho mais coisas anotadas, mas acho que por hoje precisamos pensar em outras coisas.”
“É, cara. Pra começar, você precisa me dizer quando pretende sair. Preciso contar prá minha mãe e tudo mais, e quero fazer isso no dia anterior à nossa... partida.” Ron me olha apreensivo, e eu entendo a angústia dele. Dá pra prever a reação da sra. Weasley e eu suspeito que vai sobrar até pra mim, no fim das contas. Fico um pouco em silêncio e penso sobre o que ele disse. Nunca havíamos de fato conversado sobre a “missão”. Respiro fundo e organizo os pensamentos.
“Ron, eu quero sair o mais rápido possível, mas a gente define o dia exato depois do casamento. Provavelmente não depois da semana que vem. Antes, quero contar pra vocês o que tenho em mente e ver o que acham.” Eles me olham como se estivessem esperando por isso há dias. “A primeira parada, claro, é Godric’s Hollow. Nunca fui lá e quero ir, não só pela possibilidade de encontrar pistas sobre os Horcruxes, mas pelo... simbolismo, e porque nunca visitei o túmulo dos meus pais. Depois, se tudo correr bem, voltamos a Hogwarts... não como estudantes, como pesquisadores. A biblioteca de lá é provavelmente a maior fonte de pesquisa à qual teremos acesso.” Hermione sorri, provavelmente feliz de me ouvir mencionar que voltaremos à escola. Não é só ela que está satisfeita, contudo; aposto que nós três ansiamos por isso porque Hogwarts é, de certa forma, nossa casa.
“Mas, cara – como você pretende entrar lá sem ser estudante? E ainda usar a biblioteca?”
“Não acredito que McGonagall vá se opor, Ron.” , Hermione responde por mim. “Nós não podemos contar a ela toda a verdade, mas tenho certeza que se Harry explicar que ele precisa fazer isso e que era a vontade de Dumbledore, ela não vai nos impedir.”
“Acho que é só isso. Alguém tem mais algo a dizer ou posso encerrar a sessão?”, enuncio de forma divertida. Ron bate continência. “Não senhor, obrigado senhor!” , e Hermione ri alegremente. Aprecio nossa capacidade de rir nesses tempos.
“Meninos, venham! Vamos cantar parabéns para o Harry, o bolo já está na mesa!” Ron se levanta em um pulo ao simples som da voz da sra. Weasley dizendo “bolo”. Hermione balança a cabeça divertidamente e se levanta, e eu os acompanho. Caminhamos em direção à casa e é um bom momento, eu acho, para falar sobre a festa.
“Falando em festas e parabéns... Ron, os gêmeos mandaram avisar que farão uma pequena festa de aniversário para mim no apartamento deles hoje. Não parece que é nada muito grande, mas eles só chamaram homens, parece que é uma festa do Clã Weasley ou algo assim.”
Busco o olhar de Hermione. Ele está ouvindo concentrada e com certeza já entendeu que mulheres não estão cotadas. Vou ter que falar para evitar maiores... constrangimentos, embora seja uma solução irônica, porque poucas coisas na minha vida vão ser mais constrangedoras que isso. “Mione, ehr... eu perguntei pra eles sobre você e a Ginny, mas eles, hum... deram prioridade para os homens da família e, bem, parece que o apartamento é pequeno... hum-“
“Fique tranqüilo, Harry. Eu já entendi, não vou... atrapalhar vocês.” Ela fala como se não estivesse se importando, mas é óbvio que está puta da vida. Ron olha pra mim, preocupado, mas Hermione não esboça nenhuma reação. Não expressa nenhum tipo de descontentamento ou algo assim. E isso sim me assusta; preferia que ela tivesse explodido. Ela nem sequer sai andando na nossa frente. “Então... tudo bem, Mione?” Ela me olha e eu quase consigo ver os olhos faiscando de raiva, mas a voz surge e ela é um poço de calma. “Hum, claro. Tudo bem. Eu posso tentar terminar mais um livro hoje à noite...”
Mais um livro? Ok, esta é Hermione. “Bom, então... Ron, esteja pronto às 21h30. Alguém vai se encarregar de nos aparatar até lá.”
Chegamos na cozinha e o bolo está sobre a mesa. George e Fred estão entregando chapeuzinhos para todos e eu cumprimento Fleur e Tonks, que ainda não tinha visto. E Ginny também está lá, conversando alegremente com Tonks, e eu me pergunto sobre o que seria – também me pergunto de onde vem tanta alegria. Vê-la me lembra a situação chata de hoje no quarto, e eu sinto um frio no estômago. É sempre esse ciclo de pensamentos; lembro que não posso ficar com ela, então me lembro o porquê e tudo se torna sombrio e ressentido na minha mente. Voldemort, Snape, Dumbledore morto, a profecia... Olho de novo para os gêmeos e só a visão deles dizendo coisas engraçadas já me ajuda a relaxar e a esquecer tudo isso, pelo menos até amanhã.
Esfrego as mãos uma na outra. Bom... duas festas no mesmo dia! Nada mal para quem costumava não ter nenhuma, não é?
A Tonks é uma pessoa incrível. Ela é capaz de fazer qualquer um rir a qualquer hora, e isso é algo a se dizer. Observo o meu irmão, Hermione e Harry chegando pela porta da cozinha. Eles parecem felizes, os três.
Mamãe foi me chamar lá no quarto para cantarmos parabéns, e a dor de cabeça já tinha melhorado. Como me deu a poção há umas duas horas e meia, disse que já estava melhor e desci. A Tonks e a Fleur já tinham chegado, e desde então, Tonks vem me contando todas as situações engraçadas que ela passou com a Fleur no Beco Diagonal.
Ela se aproxima de mim e fala baixo, não sussurrando, mas com a voz contida. “Ginny, você realmente não tem noção. O sobrenome dela é ‘frescura’, não é possível. Você acredita que durante todo o caminho ela não parou de se lamentar porque quebrou uma unha? ‘Non acrreeeditô, a noive non pod terrr uma unhe quebrraada!’” Eu coloco a mão na boca para não explodir em risadas pela imitação perfeita que ela fez da minha querida cunhada.
Hermione se junta a nós. Cumprimenta a Tonks e senta-se ao nosso lado. “Tudo bem, Hermione?” , pergunta a Tonks, mais pelo hábito do que pra saber se está tudo bem mesmo. “Ótimo! Tudo ótimo!” , ela diz irritada, claramente irônica.
Tento adivinhar. “Já sei, o idiota do meu irmão fez merda de novo?”
Ela fala baixo, olhando em volta e se certificando que Harry e Ron estão suficientemente distraídos. “Mais ou menos, Ginny. Você acredita que Fred e George vão fazer uma festa para o Harry hoje à noite no apartamento deles, e nós não podemos ir porque ‘mulheres ficam de fora’? Acredita nisso?”
Não é possível, ela só pode estar brincando. “O quê? Eles não... não acredito que eles foram capazes de fazer isso. Nós também temos direito, quero dizer, quero ver como eles dois se sentiriam se nós duas fôssemos a uma festa só de mulheres. O Ron provavelmente pararia de falar com você por um ano, Hermione!”
Olho para Tonks, esperando algum apoio por parte dela. Ela nos olha compreensivamente. “Meninas, isso é normal, festas de despedida de solteiro não são tudo isso que pintam por aí-”
ÃHN? Quem falou em despedida de solteiro? “Tonks, como assim ‘despedida de solteiro’? Era só uma festa de aniversário para o Harry, do que você está falando?” Hermione também me olha confusa mas eu não preciso continuar. A expressão atrapalhada na cara da Tonks já diz tudo. “Ops! Quer dizer, não sabia que,.. desculpem, acho que não era pra eu ter... Droga!”
“Eu sabia, não fazia sentido esse negócio de não nos convidar. E com o casamento amanhã, Merlim, como eu não pensei nisso?” Hermione dá um tapa na mesa e quando percebe que chamou alguma atenção para si, se recompõe. Certifica-se que os outros continuam conversando (e esperando o papai sair do banho para começarem a ‘festa’) e continua, falando baixo de novo. “Cretinos! Não acredito que o Harry vai ser capaz de... cretinos! Tonks, agora que você já falou o que não devia, termine, porque de um jeito ou de outro nós vamos descobrir tudo!”
Tonks parece hesitar. “Meninas, eu só sei disso porque o Remus vai, eu não sabia que vocês não faziam idéia de que a festa é uma despedida de solteiro. Mas por favor, não contem pra ninguém. Se a Fleur souber de alguma coisa, Bill está ferrado.”
Eu e Hermione concordamos com a cabeça. “Nossa boca é um túmulo”, eu digo. Tonks continua. “Bom, vou confiar em vocês, já falei mais do que devia, mesmo. Não estou muito feliz com essa história do Remus em uma despedida de solteiro, eu até queria ir, mas ele me convenceu que só vão ter homens lá e que ficaria chato se eu fosse, não pra ele, mas pra mim. Não que eu me importe, mas odeio machismo, e imaginem os papos quando se eles se reúnem, ainda mais depois de um pouco de Firewhisky.” Ela pára de falar e nos olha, provavelmente checando nossa reação até aqui. Hermione parece interessada e eu continuo olhando atentamente para Tonks, que abaixa mais a voz, discretamente, e prossegue. “Eles vão a um pub em Sutton e depois realmente vão para o apartamento dos gêmeos no Beco Diagonal. A festa também vai comemorar o aniversário do Harry, ou seja Hermione, quem te contou teoricamente não mentiu pra você, só não contou a história toda.”
Hermione faz uma careta. “Como se isso fosse menos pior” , ela bufa. Eu concordo. “O Harry veio falar comigo como se estivesse me pedindo permissão para ir – quero dizer, se fosse realmente uma festa de aniversário ele não teria todo aquele tom defensivo, eu devia ter percebido. ‘Permissão’, como se eu realmente me importasse com essa festa idiota, é claro que eu penso que é um pouco de falta de consideração, mas quem sou eu para... permitir algo, é óbvio que ele tinha a consciência pesada! E ele não contou a verdade, e isso é definitivamente... condenável.“
Não acredito que o cretino teve a cara de pau de fingir que dá a mínima. Pedir permissão para Hermione? Ela é o quê, mãe dele? Hipócrita de merda. Tenho certeza que ele ficaria emburrado por três semanas de fosse o contrário - o Ron a mesma coisa, se eu e a Hermione resolvêssemos ir a uma festa desse tipo sozinhas. Não vou deixar isso barato. Não mesmo. “Hermione... fica tranqüila. Eles não perdem por esperar. Aja como se nada tivesse acontecido até o fim do dia. Nós vamos dar um jeito de ir nessa festa ou eu não me chamo Ginny Weasley.” Argh, que frase artificial, meio feita. Até dou uma risadinha no final. Eu devo parecer determinada, porque Hermione e Tonks arregalam os olhos.
“Peraê, Ginny! Você disse que não ia falar nada, vai acabar sobrando pra mim!”, Tonks gesticula e fala baixo e rapidamente. Hermione olha de mim pra ela, como se esperasse uma solução incrível da minha parte. “Tonks, deixa comigo. Ninguém vai sequer desconfiar que você sabia de alguma coisa – a não ser o Lupin, mas ele não vai falar nada pro próprio bem dele. Eu e a Hermione vamos dar um jeito, e se você quiser, agora que nós vamos, pode até ir com a gente. Você vai ficar aqui até o fim do dia?”
Tonks me olha um pouco apavorada. “Ginevra Molly Weasley, você está ferrada se abrir essa boca. Eu juro!” Os cabelos dela começam a mudar de cor, para um vermelho bem vivo.
“Tonks, confia em mim! Quantas vezes as coisas que você já me contou saíram da minha boca? Só me diga se você vai ficar aqui até o fim do dia.” Preciso saber, porque assim posso resolver esse ‘pequeno problema’ da festa e avisar a Tonks, caso precise combinar alguma coisa pra dizer. O primeiro passo para uma mentira coletiva bem sucedida é se certificar que todas as partes conheçam a história com detalhes cruéis.
Ela demora a responder e me olha como se estivesse avaliando minhas intenções. “Sim, vou estar aqui até o fim do dia.”
“Ótimo, Tonks. Eu te aviso assim que eu tiver novidades. Hermione, depois que cantarmos parabéns, dê uma desculpa pros dois cretinos e diga que você vai subir comigo pra fazer algo, sei lá, o que você quiser dizer, pense em alguma coisa.” Ela me olha e só concorda com a cabeça. E de repente nós três ficamos quietas. Tivemos sorte, porque os gêmeos estão fazendo algum tipo de brincadeira do outro lado da cozinha e as atenções estão voltadas pra eles – fora que as risadas abafam qualquer outro som. Acho que ninguém nos percebeu falando baixo, isso pode sempre levantar suspeitas.
De qualquer forma, agora preciso colocar minha mente pra trabalhar. São quase três e meia da tarde e eu tenho até as, digamos, nove da noite pra colocar tudo em prática e conseguir ir à festa. Em primeiro lugar, preciso dar um jeito de ouvir da boca deles o que vai acontecer hoje à noite. É pra limpar a barra da Tonks. Depois disso, preciso dar um jeito de chantagear os gêmeos. O problema é que eu conheço os meus irmãos. Jogar esse tipo de jogo com eles pode até dar certo na hora, mas ele não deixam barato depois. E eles não são do tipo que se deixam vencer por ameaças baratas. Eu poderia ameaçar contar pra mamãe, mas eles diriam “vá em frente”, e eu iria, mas não conseguiria o que eu quero e eles fariam a festa do mesmo jeito, porque mamãe não ia conseguir impedí-los assim tão em cima da hora. Pra ela, afinal, não tem nada de mais.
Poderia ameaçar contar pra Fleur, e essa seria uma boa. Apesar de estar metendo o Bill na história e o coitado não ter nada a ver com isso, os gêmeos jamais deixariam que a noiva soubesse e portanto não permitisse que o Bill fosse. Nós sabemos do que a Fleur é capaz. Mas essa alternativa é meio suja porque, como eu disse, envolve o coitado do meu irmão e ele não tem culpa. Preciso pensar em algo sobre Fred e George que eles jamais gostariam de ver espalhado por aí. Algo que manchasse a honra deles (temos que considerar o que é honra pra eles, naturalmente), ou desse combustível para as pessoas tirarem sarro da cara deles pro resto da vida.
Meu pai chega e a gente canta parabéns, tomamos suco de abóbora com mel e comemos bolo de damasco e tamarindos, que estava uma delícia. O Harry ganhou alguns presentes; do Ron, luvas novas para quadribol, e da Hermione, um kit de disfarces mágico. Ele ganha outras coisas também, do Lupin, Hagrid, da mamãe e sei lá mais de quem. Parece uma criança abrindo os pacotes; deve dar gosto dar um presente pra alguém que passou boa parte da vida sem ganhar nenhum. As pessoas se levantam, uma a uma, e a festa começa a acabar. E no meio das pessoas se levantando eu quase não noto Fred sair para o jardim, sozinho. Ele parece estranhamente... concentrado. Tem alguma coisa estranha e agora é o momento pra eu descobrir o que é. Tenho que tomar cuidado; se a minha mãe me ver “escapando” assim, pode me chamar de volta e está tudo arruinado. Enfio a mão no bolso pra checar se estou com meu par de orelhas extensíveis. Sempre carrego comigo. A gente nunca sabe quando vai precisar.
No jardim, ele se senta no banco perto da sebe. Eu saio e ele me vê, embora não dê importância a isso. Dou a volta por trás do lago e bem longe dele, para que ele pense que eu vou... espera! Ele está falando... sozinho? Brigando? Com ele mesmo? Me aproximo por trás da sebe e observo. Ele parece ter algo na mão. Posiciono as orelhas extensíveis...
“Katie, eu já disse. Esse negócio de chamar as... ‘mulheres’ é coisa do George, é claro que é um direito dele, ele é solteiro não é? (...) Não é... (...) claro, claro que não estou com vergonha de você, mas é uma festa para homens, você deve entender. (...) Ainda não... (...) não foi o que combinamos, que queríamos ter certeza das coisas antes? (...) Sim, eu já... (...) eu não sei, quero dizer, eu gosto, mas você sabe como eu sou, nunca foi assim antes. (...) Não, claro que não vou, Katie. Sigo para sua casa assim que todo mundo for embora do apartamento. (...) Não, a Tonks também não vai. (...) Já te disse que não tem nada a ver com vergonha, se eu estivesse com vergonha não estaria com você. Só preciso ter certeza de... como eu me sinto, sabe? É muito cedo, eu acho. (...) Tá bom, até mais. Um beijo.”
Puta que o pariu. Será que tinha felix felicis no suco de abóbora?
N/A: Oba, mais um! Adoro terminar um capítulo. Não é fácil, sabiam? Espero que esse tenha mantido o mesmo nível dos outros, no mínimo. Agradeço as reviews (que eu acho poucas, mas estatisticamente falando são mais que 10% dos leitores), e gostaria que vocês comentassem mais. Pó, quase 70 leitores e 9 reviews é sacanagem. Não sou (ainda) do tipo de autora que chantagia, tipo “sem review sem próximo capítulo”, porque acho sacanagem, mas agora entendo porque algumas pessoas fazem isso. Eu não escrevo fanfiction pra mim, é pra vocês, e se eu não souber o que vocês acham, fudeu. Por favor, comentem!
Pra quem não sabe, Sutton é um bairro (distrito, acho que eles chamam assim) de Londres. Até o próximo capítulo, que com sorte sai também na próxima semana. Tks e beijos pra minha beta, Flávia, pra minha mãe, pro meu pai e especialmente pra você e pra Sasha. Obrigado aos leitores e leitoras, da Floreios, da FF.net e ao pessoal que fica pedindo atualização lá no Orkut, é importante pra dar um gás pra gente escrever.
|