Capítulo 2
Lily
Harry não tinha nenhuma ilusão de como seria recebido pelo tio ao retornar de sua aventura pelo mercado e Vernon Dursley não o decepcionou. Estava com o rosto vermelho, inchado e babava de fúria, a tal ponto que Harry se perguntou se, algum dia, o tio lhe dirigira a palavra apresentando uma cor normal. O homem o pegou pelo braço e arrastou para o vão entre a carroça e a parede da estalagem.
– Onde foi que você se meteu? – disse sacudindo Harry. O bigodão de escova ficando imediatamente salpicado de gotas de saliva. – Você sabe que não deve desaparecer assim! E você está fedendo!
– Eu já tinha terminado o meu trabalho – protestou tentando livrar o braço. As sacudidas não estavam ajudando a melhorar a ardência na boca do seu estômago.
– E foi isso que eu perguntei? – vociferou tio Vernon.
– Eu estava com o Dudley – tentou Harry. Não chegava a ser uma mentira e, talvez, isso aplacasse o tio. Ao menos, ele soltou o braço do garoto com um safanão.
– Seu mentirosinho de uma figa, Dudley voltou há um bom tempo e disse que não sabia de você! – Vernon pôs as duas mãos na cintura, olhando Harry como se ele fosse um rato na cevada. – Espere até a sua mãe saber. Tanto cuidado para você se meter sabe Deus onde!
– Eu não fiz nada demais! Pergunte ao Dudley o que ELE andou fazendo? – indignou-se Harry, enfrentando o tio.
– Ao contrário de você, Dudley é um garoto bom e normal! – Harry abriu a boca para protestar, mas o tio não lhe deu chance. – Agora, chega! Não vou discutir com você. Suba na carroça e espere aí! Ainda tenho algumas coisas para acertar antes de irmos para casa. E... – ele cresceu ameaçadoramente para cima de Harry – ai de você que arrede o pé daqui por um instantezinho sequer! Você entendeu?
Ele fez que sim com a cabeça, tinha entendido cada palavra.
– Me diga se entendeu! – berrou o tio, fazendo a saliva saltar do seu bigode para o rosto de Harry.
– Entendi – respondeu entre os dentes, os pulsos fechados de raiva.
Tio Vernon endireitou o corpo.
– Melhor assim – disse com desdém e virou se para ir embora. Harry ficou pensando se conseguiria fazê-lo explodir como fizera com o cadeado. O pensamento, no entanto sacudiu-o por inteiro e fez com que Harry tirasse rapidamente os olhos das costas do tio. Vernon ainda se virou mais uma vez para ele. – Estarei de olho em você, viu moleque?!
Assim que o tio sumiu pela porta da estalagem, Harry subiu na carroça e sentou ali tentando aquietar o nervosismo. Em qualquer outra situação, teria ficado remoendo sua raiva pelo primo e pelo tio. Sua barriga machucada parecia inclusive reivindicar que ele fizesse isso. Porém, ele não conseguia parar de pensar no cadeado explodindo ao seu toque. De novo e de novo, a imagem vinha a sua mente. Tentava revisar o que tinha feito, o que tinha pensado, ficava imaginando o que poderia ter causado aquilo. E, no fim, ele chegava sempre à conclusão de que só poderia ter sido ele. Mais que uma conclusão, era uma certeza e isso o estava deixando apavorado.
O céu cinza e mormacento de julho achou por bem começar a despejar uma chuva fina naquele momento. Harry nem pensou em reclamar. Ainda se sentia sujo e, talvez, um pouco de água esfriasse a sua cabeça. Ficou ali por um longo tempo, sem parar de pensar e repetir cada instante daquela tarde. Os vestígios do dia já eram quase invisíveis quando um espirro o alertou que, se o tio continuasse demorando, ele acabaria seriamente doente. Sem nem pensar duas vezes na ordem que recebera, Harry desceu da carroça e procurou um lugar onde pudesse ficar sem se molhar.
Localizou uma aguada no outro estremo da estalagem, no lugar que dava acesso a uma pequena ruela lateral. Harry correu até a frente da carroça e com algum esforço fez com que o cavalo o seguisse até o lado da construção. Foi manobrando o bicho e a carroça tosca pelo barro, enquanto pensava no pretexto que alegaria ao tio para ter se movido. O cavalo tinha espirrado e Harry quisera protegê-lo. Isso! Com certeza essa desculpa comoveria Vernon bem mais que a saúde do sobrinho.
Tremendo por causa do frio, Harry decidiu não voltar para cima da carroça. Achou melhor se proteger atrás dela, se agachando nos calcanhares e se abrigando sob a cobertura da aguada estreita enquanto a noite descia. De onde estava, podia ver o movimento da rua e, se tio Vernon ou Dudley aparecessem, ele poderia se tornar visível rapidamente. Contudo, os dois ainda demoraram e, não fosse a fome que começava a lhe importunar, Harry nem teria se importado com aquele longo tempo de paz e distância da sua “família”.
Dois homens, vindos da direção do mercado, passaram pelo lado oposto da carroça e entraram na ruela. Eles não o viram, mas Harry notou, por sob a carroça, que os homens usavam botas altas, como as dos cavaleiros e capas longas e escuras. Não teria lhes dado atenção se não houvessem parado um pouco adiante, logo à frente do cavalo, quase como se também quisessem usar o tamanho da carroça – que praticamente fechava a ruela – como esconderijo. Algo, porém, disse a Harry que não era da chuva que eles queriam se esconder. Um terceiro homem apareceu. Vinha das cavalariças nos fundos da estalagem.
– Então? – perguntou assim que chegou suficientemente perto, sua voz era abafada e urgente.
– O garoto fugiu – respondeu um dos outros recém-chegados.
– O QUÊ?
– Fale baixo, Yaxley! Quer que nos ouçam?
– Todos irão ouvir quando dermos essa notícia a ele, Avery! – replicou o homem que havia falado alto. – Como, diabos, isso aconteceu?
Houve uma pausa, então a voz que Harry ainda não tinha ouvido, falou.
– Os guardas pararam com ele aqui a caminho para Londres, exatamente como havíamos previsto. Disseram que o deixaram sozinho por menos de um instante para comprarem suprimentos e que o garoto aproveitou e fugiu.
– Sozinho? – rugiu o tal de Yaxley. – Ah, não se pode confiar nestes comuns mesmo! Não passam de um bando de trouxas! E como é que ele conseguiu fugir da cela? Deixaram-no com a chave também?
– Essa é a parte estranha... – respondeu a voz que ele nomeara de Avery – o cadeado explodiu.
Harry retesou o corpo.
– Explodiu? Como explodiu?
– Parece que ele teve ajuda de um dos nossos – resmungou o que não havia sido nomeado ainda.
– O que quer dizer com isso?
– O que eu disse, oras! Não foi nenhuma marreta que quebrou aquele cadeado, com toda a certeza!
O tal Yaxley soltou um lamento.
– Ele vai nos matar.
O silêncio a seguir foi eloqüente para mostrar que esse não era um medo só dele. Harry se encolheu mais.
– Quem você acha que teria ajudado o Locksley? – perguntou Avery. – Rockwood e eu discutimos e não conseguimos pensar em ninguém.
– Humpf... Não tenho idéia. Se tivesse, poderia entregá-lo ao Lorde. Talvez assim, ele não descontasse na gente a raiva de ter perdido de vista o segundo garoto. O Lorde tinha certeza de que poderia por as mãos em Locksley e matá-lo.
Algo na voz daqueles homens, talvez o medo que as deixava trêmulas, fez com que o frio parecesse entrar mais fundo no corpo de Harry, mas ele não ousou se mexer. Independente de quem aqueles homens fossem ou do tal Lorde a quem serviam, ele sabia que tinha ajudado um assassino a fugir e sua situação não melhoraria em nada caso alguém descobrisse o que fizera. Mesmo que ele não tivesse a menor idéia de como havia feito.
– Eu soube que o Potter anda pela região com os homens dele – sugeriu o tal de Rockwood.
– Potter? – Yaxley desdenhou. – E o que nos interessa o Potter? Sem o outro garoto, ele é só problema. É melhor não toparmos com ele. O Lorde acha que ainda não é momento de entrarmos em conflito com Potter e os outros.
– Não é isso. É que, bem, pensei que talvez Potter pudesse ter ajudado o Locksley.
Os três novamente ficaram quietos, conjeturando.
– E o que Potter poderia saber sobre Locksley? – perguntou Yaxley com descrença. – Só os nossos sabem do vaticínio e o mestre somente há pouco se convenceu que o garoto Locksley é um dos dois.
Houve um longo silêncio em que os três homens pareceram conjeturar sobre a situação. Finalmente, um deles explodiu dando um chute em uma pedra no chão.
– Bah! Décadas esperando e quando os alcançamos, os desgraçados escorrem pelos nossos dedos como se fossem fumaça... – Rockwood soltou um suspiro. – Ele vai ficar furioso.
– Há vezes em que chego a acreditar que são demônios mesmo – resmungou Avery.
– Demônios ou não, torçam, para o nosso próprio bem, para que não tenhamos que passar a próxima década procurando por Locksley, como temos feito com o outro.
– Ele não deve ter ido longe, Yaxley. Alguns dos nossos foram atrás dele com uma patrulha. Talvez tenhamos sorte – sugeriu Avery.
– Quem foi? – perguntou Yaxley com interesse.
– Crabbe e Goyle.
– Você acredita mais em sorte do que eu, Avery. Crabbe e Goyle... faça-me o favor. Seria melhor oferecermos os nossos pescoços ao Lorde.
– Ou os deles – completou Avery. Nenhum dos outros se incomodou com a maldade.
– Por enquanto – sugeriu Rockwood – podemos entregar os guardas para ele, os que cuidavam do garoto...
A idéia pareceu ser aprovada imediatamente e os três se puseram a debochar da sorte dos guardas que os livrariam das retaliações do chefe. Parecendo muito satisfeitos com a solução, os homens se afastaram tomando o rumo do mercado. Harry, porém, sentia como se houvesse sido petrificado no mesmo lugar. Não tinha dúvidas de que o homem que ele libertara era um condenado, afinal, o próprio rapaz lhe informara isso. Mas, pelo visto, não era apenas a justiça do rei que estava atrás dele. Será que o tal Lorde era um senhor normando em busca de vingança? Será que o prisioneiro havia matado mais de uma pessoa? E pior! Agora os dois guardas iriam pagar pelo que Harry tinha feito. A idéia de se apresentar no lugar dos dois não era tampouco atraente, naquele momento.
Precisava pensar com clareza, mas sua cabeça não parava de dar voltas com tudo o que ele tinha ouvido. De que se trataria o tal vaticínio? O Lorde das quantas parecia querer matar Locksley – esse era certamente o nome do prisioneiro – e um outro. Um comparsa, talvez. Será que era apenas uma vendeta entre normandos e saxões? Nesse caso, o tal Potter, que eles falaram, devia ser um saxão, como o prisioneiro.
Essas coisas, porém, apenas queriam afastar da sua mente do que ele tinha ouvido de mais perturbador. Só quando não pode mais fugir de si mesmo é que a pergunta aflorou cristalina em sua cabeça. Afinal, o que eles haviam querido dizer com: “o cadeado foi quebrado do nosso jeito”? Que jeito era esse? Explodir coisas? Ninguém era capaz de explodir coisas a não ser que fosse um... (a palavra pareceu queimá-lo), a não ser que fosse um feiticeiro.
Um arrepio lhe percorreu a espinha de cima a baixo. Feiticeiros eram ruins, até onde ele sabia. Viviam apenas para prejudicar colheitas, adoecer o gado e matar, sempre que possível. Além disso, os homens haviam falado em demônios. Harry arfou.
Esse não era um assunto sobre o qual ele tivesse grande conhecimento. De fato, seu conhecimento sobre essas coisas de magias e demônios não era dos maiores. Não se falava sobre feitiçarias na casa dos Dursley (a não ser que fosse para atrair dinheiro ou achar marido para as amigas solteiras da tia Petúnia, mas isso não conta). Até onde Harry sabia, os tios morriam de medo de feitiços e, mesmo sua mãe jamais incentivara que ele lhe fizesse qualquer pergunta sobre o assunto. Mas Harry já ouvira coisas aqui e ali sobre o que os feitiços podiam fazer. E nunca eram coisas boas.
Se fora feitiçaria que arrebentara o cadeado, então ele tinha certeza de que não podia ter sido o responsável. Harry sabia que não era nenhum feiticeiro e que também nunca tinha ouvido falar de um que tivesse a sua idade. Talvez o tal Potter fosse, ele poderia ter estado por perto sem que Harry o tivesse visto. Ou quem sabe, fora o próprio prisioneiro... embora, aqueles homens não parecessem julgá-lo capaz disso.
As vozes de Dudley e do tio Vernon, saindo da hospedaria, arrancaram Harry de suas conjecturas. Ele verificou se os homens já haviam sumido de vista, não quis arriscar que o vissem e percebessem que ele tinha ouvido a conversa. Depois, fez sinal para o tio e o primo para mostrar onde estava.
Parecia, porém, que todas as coisas estranhas que nunca haviam acontecido na vida monótona de Harry, haviam resolvido acontecer em um único dia. Todas elas. Talvez até estivessem interligadas. De qualquer forma, Harry não demorou a perceber que as coisas esquisitas, depois que começavam a acontecer, resistiam em parar.
Eles mal haviam saído da vila quando divisaram um grupo de homens a cavalo vindo pela estrada. Mesmo na escuridão úmida daquela noite, foi possível perceber que o grupo era constituído pelo tipo de gente pela qual pessoas como Harry e sua família deveriam evitar serem notados. Tio Vernon, no entanto, tinha um sentido invertido sobre essas coisas. A qualquer outro camponês, fosse ele livre ou servo, seria óbvio tirar a carroça do caminho e deixar os cavaleiros passarem. Já o tio de Harry fez exatamente o oposto. Com um movimento convulsivo, ordenou:
– Seja simpático, Dudley. – Para Harry. – Não faça nenhuma besteira!
E ficou lá, bem no meio do caminho, com um sorriso maníaco, esperando ser cumprimentado por homens que, certamente, lhe dariam a mesma importância que a uma barata. E, embora ele tivesse cumprimentado cordialmente um a um quando os cavaleiros chegaram perto o bastante, foi exatamente assim que o grupo o tratou. Felizmente (não que o tio Vernon tenha percebido dessa maneira), no ponto em que se cruzaram, ainda próximo a entrada da vila, o caminho era largo e o grupo pode passar ao lado deles, sem ser atrapalhado.
Harry se ergueu um pouco na carroça e observou. Os homens cavalgavam numa espécie de formação. Dois deles vinham à frente com uma larga distância entre os dois cavalos. Logo a seguir, vinha uma fileira de três cavaleiros, mas apenas o do meio parecia ter seu caminho completamente livre. Fechando o cortejo, dois outros homens montados, que pareciam justamente proteger às costas do homem que cavalgava ao centro. Todos usavam as mesmas capas negras com capuzes que deixavam seus rostos quase invisíveis. Harry achou ter visto fios de um longo cabelo louro prateado sob o capuz de um dos homens que cavalgava à frente. Porém, assim que compreendeu a formação, toda a sua atenção se voltou para a figura central.
Uma espécie de mal estar o acometeu ao fixar seus olhos no vulto sombrio do cavaleiro ao centro. Foi como se alguma coisa dardejasse sua cabeça através do vão escuro do capuz. Algo frio, maligno, pleno de crueldade. Era como estar na presença do mal. Apesar de um inevitável arrepio, Harry não se encolheu. Também não soube o porquê disso, já que a sensação ruim pareceu ter reavivado cada dor em seu corpo. Nenhum daqueles homens pareceu notar que ele, tio Vernon, Dudley e mesmo a carroça sequer existiam. Todavia, os olhos de Harry, como se tivessem vontade própria, buscaram uma nesga do homem que ia ao centro. Uma porção irracional sua parecia querer que ele o visse também.
Os cavalos foram mais rápidos que a solicitude forçada do tio Vernon ou que o mal estar e a curiosidade de Harry. Eles se afastaram velozes, mas o garoto os seguiu com o olhar até o grupo sumir por entre os portões da vila. A sensação ruim, contudo, não o abandonou tão rápido... Tio Vernon reclamou dos ricos e poderosos até que eles chegassem em casa.
– Oh, graças a Deus, graças a Deus – guinchou tia Petúnia da porta assim que os viu pararem a carreta. – Eu já estava aqui morta de preocupação.
Ela correu para abraçar o marido e o filho.
– Não exagere Petúnia – disse o tio Vernon, mas ele parecia bem satisfeito com o jeito afobado dela em agradar aos dois.
Harry desceu calmamente da carroça. Ainda estava dolorido para fazer qualquer coisa com rapidez. Sorriu ao ver a segunda mulher da casa aparecer na porta. Lily era em tudo oposta à irmã. Petúnia era loura e Lily tinha os cabelos escuros, como os de Harry. Os olhos da tia eram azuis e os dela de um verde impressionante, exatamente como os do filho. A mais velha das irmãs era alta, ossuda, com um rosto comprido e um queixo proeminente. Lily não era tão alta, tinha o rosto delicado e uma presença suave. Harry a achava bonita, talvez não tanto quanto Megan, mas certamente bem mais que a irmã e a maioria das mulheres que ele conhecia.
Lily caminhou até envolvê-lo num abraço saudoso.
– Então, eles o incomodaram muito? – ela sussurrou ao seu ouvido.
Havia uma nota carinhosa e divertida em sua voz. Os dois sempre riam das incomodações dos Dursley. Ridicularizá-los e fazer piada era a sua melhor defesa. É claro que Lily não sabia da metade do que eles faziam. Harry não contava o que ela não via. E, com certeza, não contaria da surra. Então, ele apenas deu de ombros.
– Hum – a mãe fez uma careta risonha – onde você se meteu? Está fedendo!
– Eu caí numa poça.
Tio Vernon o olhou de esguelha e Dudley entrou em casa reclamando por comida.
– Nem pense que vai sentar conosco para jantar desse jeito? – falou tia Petúnia com cara de nojo.
A mãe de Harry não reprimiu um bufo e um rodar de olhos. Ele virou o rosto para não o verem rindo.
– Com certeza, Tunia. Harry jamais iria querer atrapalhar o jantar, não é? – Tia Petúnia sentiu a ironia e fechou a cara. – Vem Harry!
Ele lançou um olhar para os Dursley e os dois lhe deram as costas para entrar na casa. Harry marchou atrás da mãe de má vontade.
– Acha mesmo que é necessário? – protestou ao vê-la se encaminhar para o poço. – Acho que já via água suficiente para um dia. Além disso, eu estou morrendo de fome.
Lily olhou para trás risonha, colocando as mãos na cintura.
– Isso daria indigestão na sua tia. Mas, tirando a parte engraçada... tem certeza de que vai conseguir comer com este fedor?
Não que ele gostasse de admitir, mas ela estava certa. Resmungando, Harry continuou a segui-la até o poço.
A fazendola de que a família tirava o seu sustento era minúscula, mas pertencia ao tio Vernon, o que, ele frisava o tempo todo, era algo muito importante. Afinal, não eram muitos os homens que podiam dizer serem livres e proprietários de suas próprias terras, mesmo que elas fossem poucas. Além disso, o número dessa casta de homens tinha diminuído consideravelmente desde a chegada dos normandos. Talvez fosse por isso que o tio Vernon achasse que podia cumprimentar homens muito mais importantes que ele e ficasse furioso quando, obviamente, eles não respondiam.
A propriedade tinha um bosque mínimo de onde se tirava lenha, duas macieiras, uma horta de repolhos, uma plantação de beterrabas e outra de feno, muitas galinhas, algumas ovelhas, uma porca, uma vaca e um cavalo. A casa era como a maioria, vigas de madeira e barro, telhado de colmo, uma porta, nenhuma janela, um único cômodo com lareira, um pedaço de madeira sobre cavaletes como mesa, toras de madeira como bancos e dois cantos separados por cortinas. Num deles, dormiam os tios e Dudley. No outro, sobre um estrado forrado de palha – trocada duas vezes por ano ou quando havia praga de percevejos – dormiam Lily e Harry. Os Dursley eram realmente bem de vida em comparação com outros camponeses. Sobreviviam com dignidade e a renda quase permitia a tia Petúnia sonhar que Dudley pudesse se tornar cavaleiro algum dia.
Ao chegarem ao poço, Lily se pôs a puxar o balde com água enquanto perguntava sobre a vila, as vendas e reclamava alegremente da companhia da irmã. Harry fez o que pode para não ser reticente demais nas respostas e se esforçou genuinamente para rir das piadas da mãe.
– Pronto, reclamei bastante da Petúnia. Sua vez. – Ela escorou uma das mãos no balde apoiado sobre a boca do poço. – Não vai reclamar do seu tio e o seu primo?
Harry mirou o balde de água fria sem entusiasmo e desconversou.
– Não posso só mudar a roupa?
Ela o considerou, depois deu um passo e cheirou o cabelo do filho com cara de desagrado.
– Nãhh, bela tentativa, mas acho que só a roupa não vai bastar. Em que espécie de poça você caiu, hein?
– Das fedidas – respondeu não querendo que ela alongasse o interrogatório. – Eu vou me lavar, já entro. Me traz uma camisa limpa?
– E calças também. Não faça essa cara, não mandei você cair. Terá de usar sua calça de ir à missa.
– Mas aí ela vai estar suja no domingo – protestou.
– Então é melhor ter cuidado – disse a mãe já se afastando.
Harry rosnou. Não era definitivamente o seu dia. Teria de colocar sua melhor roupa no serviço. Como ele só tinha àquelas duas calças, não havia chance de, com aquele tempo, estar apresentável para a missa na vila no domingo. Teria de se esconder para que Megan não o visse.
Foi quando se pôs a tirar a camisa que a realidade toda voltou a cair sobre ele. Como podia pensar em Megan com tudo o que tinha acontecido? Curvou o rosto para observar o hematoma que escurecia rapidamente na altura do seu estômago. A escuridão lhe fez procurar a luz que vinha da porta aberta da casa, mas esta logo foi coberta por uma sombra e Harry ergueu a cabeça. Lily o olhava com seriedade e seu rosto se contorceu de fúria ao ver os vergões na barriga do filho.
– Era isso que você estava me escondendo?! – Harry jamais vira a mãe tão furiosa.
– Mãe...
– Eu notei que havia algo de estranho. Quem foi? Fala Harry!
– Mãe, fica calma, ok? Não foi nada...
– Nada? – ela estava histérica. – Chama isso de nada? Quem foi Harry? Não me diga que foi o covarde do seu tio? Ah, eu poderia matá-lo por isso, eu...
– Não, mãe. Ele nem viu, ele...
– Foi o Dudley? – Ela olhou diretamente nos olhos do filho, estavam quase da mesma altura. – Responda Harry? Foi o Dudley quem te machucou assim?
Harry acabou assentindo, mas isso só o fez se sentir pior. Toda a dor e a humilhação daquela tarde voltaram de uma só vez e ele se sentiu um completo inútil, incapaz de defender a si mesmo.
– Certo – Lily aprumou o corpo com decisão. – Fique aqui!
– Mãe, espera! – Ele segurou o braço dela. – O que vai fazer?
– Me solta, Harry!
– Sabe que se for lá e tomar satisfações, vai me humilhar ainda mais? – ele berrou.
– Eu vou fazer somente o que já devia ter feito há muito tempo. – Ela soltou o braço da mão dele. – Agora fique aqui e se limpe! Eu não demoro.
Harry fez menção de segui-la.
– Ainda sou a sua mãe, garoto, e isso foi uma ordem, caso não tenha notado!
Ele praguejou alto, mas ela não lhe deu ouvidos e rumou para casa. Nunca tinha visto a mãe tão descontrolada em toda a sua vida, nem mesmo nas suas memórias mais distantes. Ele se lembrava de, quando era pequeno, Lily discutir com seus tios por causa dele e de como ela ficava depois disso. Lembrava do olhar amedrontado e de como ela dormia abraçada a ele como se fossem arrancá-lo dos seus braços. Naquela época, Harry tentava consolá-la, mas conseguia bem pouco. Por isso, na medida em que crescia, tinha resolvido esconder dela as vezes em que Dudley lhe acertava. Afinal, era uma coisa para ser resolvida entre meninos, ele não iria correr para a barra da saia da sua mãe por causa disso. Os tios eram grosseiros, mas nunca haviam lhe batido. Cascudos, beliscões, puxões de orelha, longe das vistas de Lily, não contavam e também não eram comentados.
Estava terminando de se lavar quando as vozes alteradas chegaram até ele. Tio Vernon berrou, tia Petúnia gritou, Dudley soltou um guincho meio humano, meio de garota, meio de bicho. Harry tinha certeza que lembrava um porco. Pegou as roupas sujas para vesti-las novamente e correr até a casa, mas logo Lily apareceu. Estava séria, enfurecida. Havia, porém, algo no jeito dela que fez com que Harry quase não a reconhecesse. Ela chegou perto dele e lhe estendeu uma calça e uma camisa limpas.
– O que houve?
– Nada.
A resposta foi trêmula assim como a mão que ela lhe estendeu com as roupas.
– Mas eu ouvi gritos e... – falou enquanto pegava a calça e a camisa.
– Ah, aquilo? – Ela olhou por cima do ombro, ainda havia uma nota histérica na sua voz. – Estava apenas mostrando aos seus tios e primo alguns argumentos de sobre porque eles não devem machucar você.
Harry vestia-se rápido por causa do frio, mas não gostou nada do que ela tinha dito e de como ela tinha dito.
– O que foi que fez? Não me pareceu uma conversa.
– Bem, é claro que eles ficaram um pouco chocados no começo e... você sabe que Petúnia é completamente incapaz de reconhecer a verdadeira alma do filho que criou. Mas acho que consegui... mostrar isso para ela. De forma bem evidente, aliás.
– Mãe... – Harry havia terminado de se vestir, mas um péssimo pressentimento continuava a gelar os espaços vazios em suas entranhas. – O que...?
Lily lhe deu um sorriso nervoso, parecia prestes a chorar.
– Só... eu acho que temos um... probleminha, agora.
– Qual?
– Não podemos mais ficar por aqui.
O queixo de Harry caiu.
– Eles nos mandaram embora?
– Não. É que... Eu... não sei se vou conseguir explicar agora...
– Então tente.
– Harry – ela pareceu fazer um grande esforço para recuperar o controle. Levou as mãos ao rosto, esfregou firmemente e depois voltou a encará-lo – será que eu posso te fazer um pedido? Eu... há muitas coisas que eu preciso que contar a você – ela segurou-o pelo braço, detendo a fala rebelde pela qual ele pretendia exigir que ela lhe contasse tudo naquele momento. – Eu sei... eu estou errada em pedir que apenas aceite o que eu digo. E, acredite, não é fácil admitir isso para um filho. Mas agora, nós não temos escolha.
– Por que não podemos ficar? Você disse que estávamos seguros aqui.
– Eu sei, querido – Lily estava prestes a implorar, se fosse preciso. Harry a conhecia o suficiente para saber isso. – Mas agora as coisas mudaram e teremos de partir.
– Então eles nos expulsaram? Depois de tudo? Depois de todo o trabalho que tivemos para manter esse lugar produzindo? Não somos mais duas bocas, mãe! Somos quatro braços! Tio Vernon nunca os dispensou na hora de plantar, colher...
– Eles não fariam nada se resolvêssemos ficar, Harry. Mas, a verdade é que não podemos. Não poderíamos mesmo que eu conseguisse aturar olhar na cara daqueles três por mais algum tempo. – Ela deu um profundo suspiro e mexeu no cabelo molhado dele, espetando-o mais para cima. Parou como se tivesse se dado conta de alguma coisa dolorosa. – Não se preocupe, sim. Vamos dar um jeito. Se você estiver comigo, eu posso resolver qualquer coisa, sabia?
Harry não lhe deu o sorriso confiante que ela esperava. Estava apavorado com toda aquela mudança e, o que mais o incomodava: ele não a compreendia.
– Para onde nós vamos? – perguntou com dureza e a mãe tentou sorrir, como se tivessem apenas decidido fazer uma viagem há muito planejada.
– Você sempre disse que queria conhecer Londres? – ela forçou animação na voz e Harry percebeu.
– Londres? Assim. Do nada?
– Bem, acho que num lugar grande e cheio de gente poderemos estar bem seguros, não?
– Por que estar seguro parece tão importante? Ficamos aqui porque era seguro. Vamos partir porque é o mais seguro. O que afinal...?
– Meu bem, eu sei que você deve estar cheio de perguntas. E eu prometo que vou responder todas elas, ok? Que tal amanhã? Na nossa viagem. Teremos muito tempo, apenas nós dois, e poderemos conversar sobre muitas e muitas coisas. O que acha?
Harry nem fingiu estar satisfeito, mas sabia o quanto a mãe podia ser teimosa. No momento, ela ainda tentava convencê-lo por bem. Se ele insistisse nas perguntas, poderia perder a vantagem que tinha para o dia seguinte. Além disso, seu peito apertou ao perceber que ela continuava nervosa e que algo muito maior que a briga com a irmã e o cunhado a incomodava.
– Promete que responderá tudo que eu perguntar?
– Prometo
– Certo então – ele concordou, afinal já esperara tanto.
– Obrigada por entender e esperar. Venha – ela passou o braço sobre os seus ombros. – Você disse que estava morrendo de fome, não é?
Tudo o que o tinha intrigado na atitude da mãe, pareceu duas vezes mais estranho ao entrarem na casa. Os três Dursley estavam sentados à mesa e olhavam para os pratos de barro servidos de ensopado, sem comer. Nenhum deles se mexia. Quando Lily e Harry entraram, Vernon ergueu a cabeça e sorriu bobamente para os dois. O garoto procurou pelo rosto da mãe em busca de explicação, mas ela não o encarou. Os dois sentaram à mesa e ela serviu os pratos de ambos. Já estavam na metade do ensopado e os Dursley continuavam apenas olhando para o jantar.
– Por que não comem agora? – disse Lily suavemente, como se fizesse uma sugestão qualquer.
Os três começaram a comer quase imediatamente e foi Petúnia quem, agora, lançou um sorriso tolo para a irmã. Olhando-os de perto, Harry percebeu que seus olhos estavam estranhamente desfocados. Apenas Dudley parecia incapaz de encarar a tia e o primo. Terminado o jantar, Lily começou a recolher os pratos e falou:
– Por que não vão dormir? Harry e eu daremos um jeito por aqui.
Novamente, os Dursley nem retrucaram. Seguiram para o canto dividido pela tosca cortina de linho e sumiram atrás dela. Um tempo ridiculamente curto depois, era possível ouvir os seus roncos.
– O que foi que...?
– Harry – Lily pediu – por favor. Você concordou.
– Certo.
– Vá se deitar também, querido. Eu arrumo tudo aqui num instante. Você está cansando, machucado e amanhã teremos um longo dia pela frente. Preciso que esteja inteiro. Partiremos assim que amanhecer.
Fazia poucos instantes que ele tinha se acomodado quando Lily afastou a cortina e entrou. Ela sentou no catre.
– Está dormindo?
– Ainda não – respondeu mal humorado.
– Tome.
A mãe estendeu um copo com um líquido branco.
– O que é?
– Leite.
– Não estou com vontade, mãe.
– Eu coloquei uma ervas para você se sentir melhor amanhã. Vamos, beba. Preciso que esteja bem para viajarmos.
Ela tinha abandonado o jeito suave e isso nunca era um bom sinal. Por isso, Harry preferiu não discutir e beber. Não podia imaginar que ervas ela colocara ali, mas, sem dúvida, tinham tirado completamente o gosto do leite.
– Ótimo! Agora deite e durma. Vou chamá-lo bem cedo amanhã.
Lily se levantou para levar o copo e Harry voltou a encostar a cabeça na cama.
– Mãe?
– Sim.
– Vai mesmo responder o que eu perguntar?
Ele esperou por um sorriso compreensivo que não veio. Ela o olhou com uma seriedade que novamente a fez quase irreconhecível para ele.
– Amanhã, Harry. Amanhã.
Quando o galo cantou, pareceu a Harry que ele mal havia fechado os olhos. Porém, tinha uma sensação de sono profundo, como se ele tivesse ficado muito tempo prendendo a respiração de baixo d’água. Lily o sacudiu de leve e sussurrou:
– Vamos.
Ela o fez tomar um enorme copo de leite (esse tinha gosto de leite) e também lhe fez ovos e lhe deu um pedaço grande de pão com queijo. Enquanto Harry comia, a mãe arrumava os poucos pertences de ambos em dois panos de linho, amarrados como se fossem sacos. Houve um momento em que ele achou que ela estava colocando coisas demais lá dentro, mas Lily negou. Ela tinha vestido umas calças masculinas, uma camisa bem larga e comprida presa com um cinto no qual pendurou uma faca e um galho de madeira lustrado. Ambos calçaram botas e Lily colocou um pala curto com capuz e o puxou até esconder completamente os cabelos compridos.
Quando o primeiro raio de luz rompeu no horizonte, os dois saíram da casa. Lily puxou a porta, fechando-a com firmeza.
– Não vamos nos despedir?
– Você quer? – ela perguntou.
Harry deu de ombros e Lily o incitou a começarem a caminhar.
– Sei que é o correto, Harry... apesar de tudo. Mas acho que é melhor que eles se esqueçam da gente por um tempo. Seria estranho nos despedirmos.
Os passos dela eram rápidos e Harry teve de colocar um pouco de esforço para acompanhá-la, seu corpo ainda não acordara completamente, mesmo que, aparentemente, ele não tivesse nenhuma dor. Os dois tomaram a estrada que saía da fazenda em silêncio. Apenas Harry se virou para dar uma última olhada no lugar. Não sentiria falta dali, mas ainda assim, era abandonar tudo o que ele conhecia. O seu mundo inteirinho. Isso lhe deu uma terrível sensação de ignorância e fraqueza, que ele tentou afastar o mais rápido que pode.
Quando a fazenda sumiu de vista, Harry finalmente achou que seria melhor deixá-la partir dele também. Olhou para a mãe, cujo rosto já parecia um pouco brilhante e úmido pela caminhada intensa e resolveu que era chegado o momento.
– Então? Posso perguntar?
Lily deu um sorriso fraco e fechou os olhos por um instante. Depois olhou para o lado e o encarou.
– Como está a sua barriga?
Harry nem lembrava, tinha acordado sem sentir qualquer tipo de dor.
– Bem – falou erguendo a camisa para olhar como estava o estrago e ficou abismado. A pele estava clara, lisa, sem nenhum hematoma. Estacou impressionado. – Pelas chagas de Cristo, como foi que isso aconteceu?
Ela também parou de caminhar. Respirou profundamente.
– Você não queria respostas? Como acha que isso aconteceu?
– E eu sei lá! – falou jogando os braços para cima, enquanto se esvaía seu último vestígio de paciência. – Desde ontem não tem nada que eu compreenda ou saiba por quê. Estou cansado de não saber nada, sabia?! Estou cansado das coisas acontecerem e eu não conseguir explicar, eu...
O descontrole dele não a comoveu.
– Se continuar gritando não poderei explicar o que você quer. – Ele parou imediatamente. – E eu disse que vou explicar tudo, não disse? Pois eu vou. Mas antes, me diga: – Lily chegou bem perto dele e Harry fugiu deliberadamente da inspeção que ela fez no seu rosto – aconteceu alguma outra coisa na vila? Além da surra? Algo que você não tenha me contado?
Harry não queria contar. Achava que não devia preocupar a mãe com aquilo. Mas agora, tudo era diferente, estavam sozinhos e tinham apenas um ao outro. E se alguém descobrisse o que ele tinha feito? E se viesse atrás dele? Ele tinha de prepará-la. Não lhe pareceu que um segredo a mais os manteria mais seguros do que estavam naquele momento.
Tentando organizar de forma clara coisas que ainda estavam confusas na sua cabeça, Harry contou o que tinha acontecido na tarde anterior. Falou da discussão com Dudley e de como ele e os amigos o perseguiram e surraram. Depois contou toda a sua conversa com o prisioneiro. Notou que sua mãe não pareceu especialmente surpresa quando ele comentou sobre o cadeado. Aquilo o confundiu, já que era o ponto alto da narrativa toda.
– Você entendeu o que eu disse mãe?
– Perfeitamente.
– O cadeado explodiu – ele repetiu devagar e Lily fez que sim com a cabeça. – Quando eu o toquei. – Ela voltou a assentir. – Eu... eu acho que, o que eu estou querendo dizer, é que eu acho que fui... eu.
– É parece que foi sim – ela admitiu.
A calma dela deixou Harry ainda mais perdido.
– Mas isso... isso é feitiçaria! – reagiu como se falando alto pudesse acordá-la.
– Eu prefiro chamar de magia. – Ela sorriu resignada, para o choque do filho. – Vamos continuar caminhando?
Sem alternativa, pois ela realmente voltou a caminhar, Harry a seguiu, estupefato.
– E tem diferença?
Lily deu outro daqueles longos suspiros como se as respostas que ele pedia saíssem dela com uma enorme dificuldade.
– Bem, em geral chamamos de feiticeiros às pessoas que, mesmo sem poderes mágicos, aprendem a usar estas forças. Algumas se tornam ruins por não saberem controlar os poderes que invocam. Os poderes passam a controlá-las. E... grandes poderes devem ter um mestre e não serem o mestre.
Harry não compreendeu bem o que ela quis dizer no fim, mas algo no começo lhe chamou mais a atenção.
– Então, existem pessoas que têm poderes mágicos... naturalmente?
– Claro – ela assentiu – Não é disso que estamos falando?
– Achei que estávamos falando sobre explodir cadeados...
– Como você fez.
– É, mas eu não sei nenhuma feitiçaria – se defendeu.
– Nesse caso, só há mais uma opção, não é mesmo?
Harry parou de caminhar novamente. Lily seguiu mais alguns passos e depois se voltou para ele. Por um instante, ela pareceu se divertir com a confusão dele e isso o irritou.
– Eu não tenho poderes mágicos!
Ela tirou qualquer sorriso do rosto, mas não pareceu que o repreenderia.
– É claro que tem.
– Não! Eu não tenho! – Teimou, cada vez mais furioso. Ela devia ter enlouquecido. Claro! Só isso poderia justificar as atitudes dela desde o dia anterior. – Como eu...? Quando?
Lily finalmente largou o saco que carregava e cruzou os braços em frente ao corpo. Harry ficou esperando a resposta, arfando. Não sabia se era ela que havia enlouquecido ou o mundo inteiro à volta deles ou, talvez, fosse apenas ele. Tinha ficado doido. A mãe o olhava com uma expressão que mesclava dor e culpa. Finalmente, ela respirou profundamente e falou.
– Sempre, querido... Você é um bruxo, Harry. Ou um mago, se preferir. Você é diferente. Com poderes mágicos e habilidades estranhas a maioria das pessoas comuns. E eu posso garantir que você é isso desde o dia em que nasceu.
– Não! – aquilo era maluco demais para ele aceitar. – Eu não sou mau.
– Quem disse que bruxos são ruins? – Indignou-se ela. – Bruxos, assim como as outras pessoas, podem fazer coisas ruins. O que torna uma pessoa ruim ou boa não é o que ela pode fazer, ou sua força ou o que é especial ou diferente nela, mas a forma como ela usa tudo isso. Seu primo Dudley está se tornando uma péssima pessoa e, acredite, não há nem um grãozinho de poeira mágica ali – completou com raiva.
Todas as coisas estranhas que não tinham feito sentido no dia anterior, agora pareciam a Harry, ainda mais extraordinárias. Era como se ele estivesse andando muito, muito rápido e o mundo se curvasse e torcesse à sua volta. Trocou o peso nos pés para poder afastar a tontura que fez o chão se aproximar dos seus olhos umas duas vezes.
– Mas eu... eu sou comum. Nem consigo me defender do Dudley e dos amigos dele. Como eu posso ser um...
– Bruxo? Bem, você não consegue se defender do Dudley porque não sabe como usar os seus poderes, Harry. Alguns, você nem tem idade para usar ainda. Mas se quer saber por que é um bruxo, a resposta é simples: você é um bruxo porque é meu filho.
– Você é uma bruxa? – Harry pensou nas histórias sobre velhas verruguentas e corcundas que em nada se pareciam com a sua mãe.
Ela deu de ombros, encabulada.
– Eu sei que a minha aparência não está ajudando a convencer, não é? – Lily puxou uma mexa do cabelo escuro e o olhou com decepção. – Ele é bem mais... chamativo, sabe? Mas quando vim morar com seus tios não podia dar muito na vista. – Deu um sorriso. – Vou lhe mostrar mais tarde, quando não houver risco de sermos visto, certo? – Ela caminhou até chegar bem perto dele. – Será que um dia você poderá me perdoar?
Estava tão tonto que a pergunta o deixou ainda mais atônito.
– Perdoar? Perdoar por ser bruxa?
– Não. – Lily engoliu em seco. – Por ter escondido a verdade de você, até agora.
Harry não sabia o que dizer. Estava tão chocado que não imaginava qual seria a sua reação se ela tivesse lhe contado aquilo antes. Além disso, a mãe sempre parecera ter motivos muito sérios para o que fazia, desde aturar os Dursley até dizer para ele sua frase mais recorrente: “um dia eu explico para você”. Parece que o dia chegara. E tudo o que ela lhe dera como explicação era, simplesmente, inacreditável.
– Eu... Desculpe, mãe – falou com sinceridade –, mas eu não acredito. Tem que ter outra explicação.
– Outra explicação? – Lily deu alguns passos pegou duas folhas no chão e trouxe de volta para ele. – Eu poderia relatar tudo o que observei você fazer desde pequeno. E, acredite, Harry, você foi bem precoce em magia. A maioria das crianças só vai manifestar mesmo essas capacidades quando tem uns sete anos.
– Eu já tenho quase quatorze, o que faz de mim um retardado em magia. Mãe, o que você diz não faz sentido, não para mim! Eu sou comum.
Ela não parecia entender o quanto era difícil aceitar o que ela dizia, ainda mais que ele não se lembrava de ter feito nada de extraordinário antes do dito cadeado. Mas, Lily não desisitiu.
– Deixe eu mostrar a você. Dê-me a sua mão. – Harry deu um suspiro conformado e lhe esticou a mão direita. Lily colocou ali as duas folhas que havia pegado no chão e depois fechou os dedos dele sobre elas. – Agora, eu quero que pense na sua mão. Pense bem forte. Sinta a sua mão. Feche os olhos, é mais fácil assim.
Harry obedeceu com relutância.
– Como sente a sua mão? – perguntou a mãe.
– Parece quente.
– O que mais?
– Está formigando um pouco – respondeu sem entender o porquê das perguntas.
– Dói ou faz cócegas?
Ele deu uma risadinha.
– Cócegas, eu acho.
– Diga a primeira coisa que lhe veio à mente.
– Uma borboleta.
– Abra a sua mão.
Os olhos do garoto se arregalaram como pratos e seu queixo quase bateu no peito. Mexendo suavemente as asas, uma borboleta negra, salpicada de dourado e vermelho, estava bem no centro da palma da sua mão. Não havia nem sinal das duas folhas que sua mãe colocara ali. Harry ainda estava completamente embasbacado quando a borboleta voou para longe. Ele acompanhou o vôo até que ela sumisse no bosque que ladeava a estrada.
– Convencido, agora?
– Uau!
Foi tudo o que ele pode dizer.
– E agora que você acredita, será que pode me perdoar. Juro a você Harry, só escondi essas coisas de você por não ter escolha.
A borboleta cruzou voando por trás dela e Harry a acompanhou. As coisas todas precisavam de um novo sentido agora. Ele olhou para a mãe. Não podia negar que havia uma parte dele que tinha raiva dela sim. Raiva por tudo o que ela não dissera em todo aquele tempo. Porém, agora – Harry passou a mão pelo cabelo, contrariado – como podia negar seu perdão se ela o pedia? Era sua mãe e estava pedindo desculpas. Ele seria um monstro insensível se não as aceitasse.
– Tudo bem, mãe – respondeu rouco. – Você teve os seus motivos.
Lily o abraçou com força e Harry, mesmo sem jeito, correspondeu. Depois, ela lhe deu um sonoro beijo na bochecha que serviu para fazê-lo corar.
– Vou lhe ensinar tudo o que eu sei, está bem? – falou com os olhos brilhando muito, enquanto ela enxugava o nariz vermelho. – Tenho certeza de que você vai ser um grande, bondoso e poderoso bruxo, sabe.
– Poderoso? Mãe... – ele a afastou um pouco sem graça – até agora eu só explodi um cadeado e... Meu Deus... fiz uma borboleta. – Esse último tinha sido realmente surpreendente, mas, talvez, a magia fosse dela e não dele. Não era que ele não confiasse no que a mãe dissera, afinal, ela era bruxa há mais tempo que ele. Apenas... mães exageram. Faz parte do jeito delas.
Lily riu, parecia solta como ele nunca a tinha visto. Harry achou que havia uma nova leveza nela. Talvez por ter falado. Talvez por ele a ter desculpado.
– Agora vamos. Você vem perguntando o que quiser, mas quero passar de Surrey ainda antes do meio-dia. Não precisa fazer essa cara, Harry. Vamos evitar a vila, certo?
Impulsionado por uma energia completamente nova, Harry voltou a acompanhar a mãe. Apesar da caminhada intensa, que quase tirava o fôlego de ambos, ele não parou a manhã inteira de perguntar e Lily respondia com calma, paciência e, muitas vezes, com riso. Parecia feliz em poder partilhar aquilo com ele. Ou com alguém, pensou Harry, ao vê-la falar de poções, feitiços, transfiguração com tamanho encantamento e entusiasmo.
Ele, por outro lado, queria saber tudo. O que era possível fazer com magia? Como a mãe tinha descoberto que era uma bruxa? Que coisas ela poderia lhe ensinar? Como ela tinha conseguido viver tanto tempo sem fazer mágica?
– E ontem? – ele perguntou depois de um tempo, seguindo uma intuição.
– O que tem?
– Quando você foi falar com os tios...
– Ah – Lily corou – eu estava muito brava mesmo, Harry. Não me orgulho do que fiz.
– Você fez alguma coisa? – Harry já estava ardendo de curiosidade.
A mãe deu um longo suspiro.
– Eu transformei Dudley num porco. Não ria! Não foi certo, mas... ah eu estava tão brava por ele ter machucado você daquela maneira. E eles passaram todos esses anos sempre me ameaçando, que eu... eu tinha que fazê-los provar um pouquinho disso. Um pouquinho do que é estar sob o poder dos outros. Depois, como você viu, eu o fiz voltar ao normal, ou àquilo que ele é, chame você do que quiser.
– Genial!
– Harry! – ela censurou a aprovação dele.
O garoto continuou rindo.
– Bem, eles não me pareceram muito normais quando eu entrei em casa – provocou a mãe.
– É que, depois do que eu fiz a... transformação, eu achei melhor confundi-los, digo, lançar um feitiço de confusão. Não havia porque prolongar as brigas, que seria o que aconteceria se... – Lily viu que o argumento estava falhando pelo olhar descrente que o filho lhe dava. – Não queria ter de contar tudo ontem para você, Harry. Eu precisava tomar coragem. Além disso, eu já tinha decidido que partiríamos. Então, seria apenas por pouco tempo.
– Foi por isso que não nos despedimos hoje pela manhã?
– Não. Foi porque depois que eles dormiram, eu lancei um feitiço para que se esquecessem da gente.
Harry franziu a testa, intrigado. “Esquecer”?
– Por quê?
– Era o mais seguro para eles. E para nós também.
Os dois andaram alguns instantes em silêncio. Pareciam esperar um momento certo, uma curva especial da estrada, mas Harry já segurara aquilo o mais que pudera.
– Mãe...?
– Sim, querido.
A frase dela era a de quem sabia que algo temido viria. Harry puxou o fôlego que a caminhada intensa diminuíra.
– Nós estamos fugindo de alguma coisa? – Fez uma pequena pausa. – Ou de alguém?
Lily não o encarou. Continuou a caminhar com a mesma energia, talvez um pouco mais. Parecia que ela correria se pudesse.
– Estamos muito perto de Surrey. Depois que ultrapassarmos a aldeia – ela disse, com firmeza – vamos sentar e conversar. Isso... não é para ser falado assim. Pode ser?
Harry sentiu o estômago baixar um pouco e, talvez, por isso, tenha concordado tão fácil. Não precisava ser muito inteligente para perceber que havia muito mais em tudo aquilo do que a mãe lhe havia contado. Além disso, ele mal havia conseguido absorver tudo o que ela tinha lhe dito até agora. Usando o passo acelerado para sufocar a curiosidade e a impaciência, Harry aproveitou o tempo para aceitar melhor o que, até algumas horas, lhe parecia uma idéia impossível. Ele era um bruxo!
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N/B: *Saltitando* - Yes! Yes! Yes! Lily dizendo a que veio! Yes! - =D – Outro capítulo que nos deixa cheios de indagações, Anam, doidos pelo que vem a seguir! E mais que isso, empolga! Levante a mão quem não exclamou “GENIAL!” com o Harry, ao imaginar Dudiquito, o Suíno, revelado em sua verdadeira forma pela magia justa de Lily? Ou quem não se emocionou com o vôo da Borboleta rubro-dourada? Harry descobrindo sua magia e partindo para uma nova, e surpreendente, vida, foi ... empolgante! *saltitando mais* - Ok, uma beta deveria ser mais original e centrada, porém... Lá vou eu: ATUALIZA LOGO, ANAM! PLEASEEEEE???????????- ATUALIZA! ATUALIZA! ATUALIZA! – XD - Capítulo tudo de bom e mais um tantão, amiga! =D – Beijo grande! Até o próximo! - P.s.: Tô me torcendo pelos “novos personagens” que o próximo capítulo promete... ;D
N/A: Ok, acho que ouvi gritos por causa de um certo cabelo wellatonizado, rsrs. Não se preocupem, afinal o motivo parece óbvio, não? Se não, logo vocês irão entender.
Viram, está maior (não me dêem corda!) e apenas uma semana depois. Ah nada como vassoura nova, rsrs.
Espero que tenham curtido o capítulo. Vocês não imaginam a minha torcida para que a fic conquiste vcs.
Morgana Black – Eu tb era maníaca, Morg. Ainda sou, rsrs. Bjs e obrigada.
Henrique Malfoy – Sim, a Megan é tipo primeiro amor, hehe. Sobre o James, aguarde só até o próximo capítulo. Espero que a sua tendinite tenha melhorado. Fico super feliz que tenha gostado. Bjs.
Charlotte Ravenclaw – Seus palpites costumam ser certeiros, amiga. Mas o mistério agora é meu: pq todo mundo pergunta por que o James foi embora? Isso é só uma conjectura do Harry... rsrsrs Beijão!!
Bernardo Cardoso – Que bom que gostou, querido. Ahh até agora eu não fiz nada pior que a mãe dele (a Jô) hihi. Mas nessa fic, quem controla a Lily sou eu hehe. Bjs.
Clara – Muito, mas muito obrigada mesmo, Clarinha.
Drika Granger – Hahaha! Eu amei o narrador. Valeu Drika! Como eu disse, não quero substituir, apenas que vcs gostem. Bjs.
MarciaM – Eles vão aparecendo. Vc vai ver. Fico feliz que tenha curtido Marcinha. Tem muita coisa pela frente, aguarde. Bjs.
Pedro Henrique Freitas – Muito, mas muito obrigada mesmo, querido. Vou me esforçar para manter o nível da fic sempre. Bjs.
Ana Fuchs – Ahh Ana que legal vc escrever isso, a ambientação é sempre o mais difícil. Obrigada pelos elogios. Quanto ao prisioneiro, claro que ele aparece de novo, é só aguardar. Bjs
Helenira Nina Lopes Barroca – Muito obrigada =D. Feliz fiquei eu com o seu comentário. Bjão! Espero que continue gostando.
Kelly – Resposta: que bom que foi marcante, hehe, era para ser. Sim aparecerão em breve. Troco? Muitos, a vida inteira, esse foi só o começo. Bjs querida.
Bruna Perazolo – O prisioneiro é digamos, MAIS abusado que o Sirius, rsrs. Quanto ao resto as coisas aparecerão no devido tempo. Algumas, provavelmente, de um modo beeeem diferente. Espero que curta. Bjs!
Natinha Weasley – Que bom, querida! Fico feliz que o seu debu em fics UA não esteja sendo uma decepção. Valeu mesmo! Bjs.
Ginny Potter – Não demorei, e ainda fiz capítulo maior. Viu como estou querida? Rsrs Obrigada e um beijão.
Aluada – Valeu Duda!! Obrigada, obrigada, obriga da!! Eu acho a Idade média tão sofrida, prefiro a renascença, mas simplesmente amo o Robin, então... Bjocas.
Danielle Pereira – Dani, eu nem sei o que dizer. Seu comentário é daqueles que me deixou com um sorriso super besta no rosto. Escrever tem sido a minha forma de respirar, então... Obrigada. Mesmo!
Belzinha – Valeu linda! Obrigada de coração! Fico feliz que vc tenha curtido. Um beijo enorme.
Doug Potter – Nem 50 nem de 3 em 3 dias, mas 22 com uma semana de diferença. Tá bom, né? Obrigadão, querido. Bjs!
Bruna Briti – Sim, o prisioneiro volta e com tudo. Agora, os mistérios da Dona Lily, ela mesma explicará com o tempo hehe. Aguarde. Bjs
Tatiane Evans – Ehhh! Que bom. Espero que continue gostando. Beijão!
Mirella Silveira – As perguntas serão respondidas, mas aos pouquinhos para não estragar, não é? Sim, estou aproveitando. Mal deu uma semana e olha eu aqui de novo. E o capítulo 3 já está aberto no PC. Tô que tô. Bjão!
Naty L. Potter - Linda, obrigada! Fico feliz que vc tenha gostado. Tb gostei do harry se assustando com a própria magia. Logo vem mais. Beijo grande, mana.
Um beijo enorme a todos, para quem só leu também
Sally
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