Acho que me acostumei à loucura que o casamento instaurou na minha casa. Vou até achar estranho quando tudo acabar amanhã, depois do casamento e após a nossa casa voltar ao normal. O lado bom é que festas são sempre legais, no fim das contas. Eu já sou maior de idade então posso tomar Firewhisky e Vinho dos Elfos, o que é ótimo, pois que mamãe e papai compraram garrafas e garrafas de bebida e enfeitiçaram todas as taças para que se auto-encherem quando o conteúdo acabar. Ainda tem a comida: mamãe está se superando e cozinhando coisas incríveis para o casamento, não vejo a hora de experimentar o bolo de carne. Ela preparou os pratos e usou neles aqueles feitiços de conservação que eles ensinam nos livros de culinária, ela aprendeu uns realmente bons este verão, que conservam o prato por até semanas. Mamãe começou a cozinhar ainda na semana passada, porque queria deixar os últimos dias para arrumarmos as coisas, fisicamente falando: conjurar as cadeiras e o altar, as mesas, todas as coisas que vão ficar no jardim, decorações, organização, essas coisas. A ordem está cuidando da segurança d’A Toca agora, temos um fiel do segredo e tudo mais, que eu não sei quem é de qualquer forma, e acho que só mamãe e papai sabem.
Vai dar tudo certo, afinal os convites são enfeitiçados e se auto-destroem depois de lidos, além de incluírem uma chave de portal para um ponto aqui perto de St. Ottery Catchpole. As pessoas estão vindo de toda parte, os Weasley são uma família bem grande e os Delacour também parecem ser bem numerosos. Chamamos os amigos também, os mais próximos. Nada de “o maior evento do mundo bruxo” ou algo assim, até porque estamos no meio de uma guerra, e não queremos chamar mais atenção do que já estamos chamando.
O Harry chegará daqui a pouco, e à tarde faremos uma festinha pra ele, nada sério, só um bolo que a mamãe fez. Papai já saiu para buscá-lo, junto com o Remus e o Moody. Ele veio até meu quarto me avisar que estava saindo para pegar o Harry, mas eu estava meio sonolento ainda. Não que não esteja agora, mas eu estou mais é enrolando, porque no momento em que eu sair, mamãe vai me bombardear com milhares de coisas pra fazer. Não deve ser muito tarde, acho que consigo enrolar aqui até umas onze. Até porque depois que eu levantar não vai ter escapatória, vai ser um tal de “Ron, querido, coloque essa mesa lá fora perto da sebe” e “Por favor, Ron, será que você é capaz de conjurar uma ou duas cadeiras de mogno silvestre e colocá-las ao lado da porta?”, coisas assim, e eu não estou nem um pouco afim.
Acho que preciso cortar os cabelos, mas odeio admitir isso para mamãe. Preciso fazer a barba, também, porq...
“Toc, toc”
Quem será? “Entra!”
“Ron? Você já tá acordado?” Só de ouvir a voz dela se aproximando meu estômago dá um salto. Merda, merda, ela não pode me ver assim, eu estou descabelado, com a cara amassada e com esse pijama velho e curto que era do Percy (o idiota)... Merda, merda, merda. Certifico-me de que o lençol está cobrindo toda a extensão do meu corpo (os pés meio que sobram, mas eu me encolho um pouco e tudo certo), pra esconder o pijama, e ela entra. Por um instante tudo o que consigo fazer é perceber que eu precisava vê-la. Ela está usando um vestido bege e tem os cabelos presos atrás com um laço. Está linda, é claro, como sempre.
“Oi Hermione, acabei de acordar”, e isso é tudo o que consigo dizer por enquanto. Quando estou perto dela, assim, preciso cuidar pra não me perder em pensamentos... hum... meio impróprios, aí às vezes fico parecendo um bobo falando. Preciso trabalhar nisso.
“Ah, desculpe Ron, não quis... ahn, te acordar, eu te acordei?”
Me recomponho e procuro parecer natural. Sorrio. “Não, eu já estava acordado faz um tempo, enrolando pra descer sabe? Mamãe está meio louca lá embaixo, suponho?”
Ela me encara durante alguns segundos - parece acordar de um breve transe ou algo assim e sorri... “É, ela está meio agitada, mas nada a que não estejamos acostumados. Ela me mandou te chamar para descer, ela quer que você tome o café logo.”
“Ahn, droga. Ok, já vou me trocar e tô descendo. Avisa ela pra mim, por favor, Hermione?”
Novamente ela demora pra responder. Tenho notado ela meio “avoada” ultimamente. Parece assim desde que essas coisas horríveis começaram a acontecer, a morte do Dumbledore e tudo mais. “Você tá bem, Mione? Parece meio desligada... Aconteceu alguma coisa?”
“Não, Ron, tá tudo certo. Só tô meio sonolenta ainda. Vou descer e avisar sua mãe.”
Ela se vira para sair e me dá, sem querer, uma ampla visão... da parte de trás do seu corpo, por assim dizer, e da forma como vestido o marca. Não tenho problemas em falar bunda, é que me sinto meio incomodado em pensar assim da Mione, parece que não estou dando a ela o valor devido, já que ela não é só uma bunda, é bem mais que isso. Embora a bunda dela seja realmente incrível, até onde eu pude ver pelas calças jeans, pelas vestes de Hogwarts, e por esse vestido que é ótimo, porque faz direitinho o contorno do corpo dela, e pelos sonhos que eu tenho toda semana, a maioria envolvendo ela sem roupa. Ela, sem roupa... Merda, a mamãe vai ter que esperar mais um pouco pra tirar a mesa do café-da-manhã, porque eu vou precisar de outro banho frio.
“Não, Ron, tá tudo certo. Só tô meio sonolenta ainda. Vou descer e avisar sua mãe.”
Disse tão rapidamente que as palavras saíram meio emboladas, mas não sei se ele percebeu, quero dizer, eu ainda consigo fingir que está tudo bem, não? Me viro pra sair do quarto antes que eu o agarre. Vou explicar, não é que toda vez que eu o vejo tenha que segurar meus ímpetos dessa maneira, eles nem sempre são tão agressivos. Mas acontece que vê-lo com os cabelos daquele jeito, desarrumados, e a barba por fazer, e seu cheiro por todo o quarto, os olhos de um azul meio turvo, provavelmente porque ele ainda estava com sono, tudo isso me desconsertou completamente. O meu lado racional ficou do lado de fora do quarto. O cheiro do Ron é algo amadeirado com canela, e conseqüentemente, as coisas dele ficam todas impregnadas com esse cheiro.
E quando ele sorriu eu quase me perdi ali, mas felizmente consegui voltar a tempo. Não acho que ele notou, quero dizer, o idiota parece não notar nada, mas eu também não quero que ela perceba – ou quero? O problema é que eu me perco nele, na maneira como ele fala, na voz dele, nos contornos do rosto dele. Se eu não fico atenta, acabo passando por avoada, como o que ele mencionou e tudo mais. Tem dias em que é pior e outros em que é mais fácil agüentar, e tem é claro os dias em que ele é um completo cretino e nesses dias eu o adoro porque fica mais fácil olhar pra ele e odiá-lo. O que eu odeio nisso tudo é a maneira como não consigo seguir nenhuma linha de raciocínio lógica se ele está muito perto, ou se eu começo a prestar atenção nele.
“Sra. Weasley, o Ron pediu pra avisar que já vai se trocar e descer”, eu digo a ela, e me sento à mesa. Estico a mão para pegar um pedaço de torrada.
“Obrigada Hermione, querida. Sabe por onde anda a Ginny”, ela disse, enquanto levitava uma porção de copos para dentro do armário.
Não queria entregar a Ginny, sei que ela deve estar por aí em algum lugar enrolando pra não ter de trabalhar. Mas não podia mentir prá Molly. “Ela levantou logo depois de mim, Sra. Weasley. Deve estar se preparando para descer”, disse, e bebi um gole do suco de abóbora.
A Sra. Weasley não disse nada e continuou com seus afazeres, a mulher não pára nunca. Ouço gente chegando e olho pra trás: George, Fred, e Charlie vêm para o café. Eles tinham ido à loja de logros ontem à tarde e passaram a noite lá, no apartamento de Fred e George – não me perguntem o porquê, já que tem espaço suficiente pra todos nós n’A Toca. Acho que foram conhecer o apartamento ou algo assim.
“Muito bom dia, cunhadinha!”
Bufei. Os gêmeos estavam me chamando assim (em coro, aliás) há algum tempo, desde que eu havia chegado à Toca. Eu não ligava muito, quer dizer, se a pessoa dá corda é pior. Mas o Ron ficava possesso toda vez que estava por perto, e eles faziam questão de continuar provocando-o. Ainda bem que ele não tinha descido ainda.
Charlie e Bill, que havia acabado de acordar, me cumprimentaram e se sentaram para comer. Parece que a Fleur saiu logo cedo para resolver algumas coisas no Beco Diagonal e a Tonks, foi junto (ela deve estar adorando), porque ultimamente o Beco Diagonal não tem estado muito seguro. Nenhum lugar está, na verdade. Fred e George já estavam comendo panquecas quando engataram com Charlie e Bill uma conversa animada sobre dragões peruanos e as propriedades afrodisíacas de suas presas.
Ouço um “Bom-dia” meio murmurado e me viro para ver o Ron, de cabelos molhados e uma cara de que poderia dormir mais umas 6 horas. Os irmãos dele pareciam entretidos demais na conversa e sequer o notaram. Ele se senta na cadeira à minha frente na mesa e sorri. Antes que eu possa registrar o sorriso e devolvê-lo, junto com o bom-dia, a voz de Molly corta a cozinha.
“Finalmente, não é, Ronald? Se o senhor pensa que pode escapar de mim dormindo até mais tarde, mocinho, o senhor está muito enganado. Assim que terminar o café, vá lá para fora ajudar Fred e George com o balcão.”
“Ow!” Os gêmeos exclamaram alto, abafando o grunhido que Ron soltou diante da bronca da Sra. Weasley. “Estamos quietos, acabamos de chegar!”
“Não interessa quando chegaram ou se estão quietos, é obrigação de vocês fazer o possível para o casamento do Bill ser perfeito.”
“Já estamos cuidando disso, mamãe. Fique tranqüila.” A entonação com que disseram não indicava nada, mas a troca de olhares era inconfundível: tinha algo de errado ali. Olhei pro Ron e ele tinha parado a torrada a cinco centímetros da boca. Olha pra mim intrigado e continua a comer.
Já não bastassem todos os problemas, ainda temos que lidar com seja lá o que for que esses dois estão tramando. Não, não será uma semana fácil.
Foi meio estranho me despedir dos Dursley, claro, com o Sr. Weasley sempre querendo ser cordial com meus tios e fingindo que eles são igualmente educados. Só acenei para eles da porta; Dudley e tio Vernon sorriram e acenaram efusivamente, provavelmente felizes demais com a minha despedida para se conterem, e a tia Petunia deu um tchauzinho meio tímido. Lupin, Arthur e Moody me deram parabéns, cada um a seu modo, mas eu não vou ficar descrevendo essas coisas porquê é meio piegas né? Mas foi legal, quero dizer, receber parabéns assim que eu acordo só pra variar. Ter amigos que se lembram do meu aniversário e tudo mais.
O Moody, então, disse que não era seguro viajar de vassoura (como se algo no mundo fosse seguro pra ele) e que aparataríamos, bastava eu segurar no braço dele. Eu achei meio estranho, quero dizer, segurar no Moody – e foi mais triste ainda porque lembrei do Dumbledore e da noite na caverna. Peguei no braço esquisito do Moody e aparatamos em um descampado verde, cercado por montanhas, onde Hagrid segurava uma lata de ervilhas daquelas dos supermercados trouxas, que provavelmente era uma chave de portal. Aí perguntei pro Moody: se íamos usar a chave de portal, porque tivemos que aparatar? Ele respondeu meio grunhindo assim, como sempre faz é claro, que era para despistarmos ou algo assim. Pegamos todos na chave de portal – eu, Remus, Hagrid e Mad-Eye Moody.
“Chegamos, Potter! Pegue esse papel e leia logo.”
O Moody tem uma voz muito desagradável e provavelmente ele sabe disso, razão pela qual faz questão de usá-la nessa entonação... imperativa. Que diabos é esse papel? “A Toca fica no número 330 da Gleen Street, St. Ottery Catchpole, em Devon, na Inglaterra.”
Eles têm um fiel do segredo agora! Eu me pergunto em quem os Weasley confiariam par... Ai! Meu dedo, porra!
“Sempre alerta, Potter. Viver com os trouxas por duas semanas te deixou mais lento, é? Não era óbvio que um papel com esse tipo de informação ia pegar fogo assim que você o lesse?”
Puta merda, que cara chato! E ele parece estar especialmente mal-humorado. Como é que eu ia adivinhar que esse fogo não era do tipo mágico que não me queimaria?
“Não adianta me olhar com essa cara, menino. Vamos, vamos, que nós quatro aqui temos mais o que fazer. Agora que você sabe onde fica A Toca, entre e avise à Molly que nenhum de nós três virá para o almoço. Tchau!” E com um CRACK alto, desaparata. Se alguém no mundo dissesse que o Moody fala, estaria mentindo. É mais como um resmungo. O Sr. Weasley me dá um tapinha reconfortante no ombro, como se dissesse “não ligue para o velho, ele é meio ranzinza assim mesmo”.
Remus estendeu a mão para me cumprimentar. “Até mais Harry, nos falamos depois.” Eu o cumprimento e sorrio pra ele, que retribui.
“Harry, nos vemos mais tarde ok? Cuide-se!” O sotaque de Hagrid está especialmente carregado. Depois de tanto tempo tinha me esquecido de como ele fala arrastado – e de como o aperto de mão dele pode ser esmagador. Enquanto me recomponho do esfarelamento dos ossos da minha mão direita e um Hagrid sem jeito pede desculpas, o sr. Weasley consulta alguma coisa nos bolsos. Logo em seguida ele aperta minha mão também com um “Até mais, Harry. Juízo.” Toco a campainha e ouço passos apressados do outro lado da porta. Às minhas costas, Lupin, Hagrid e Arthur aguardam.
“Qual a senha?” A voz da Sra. Weasley soa abafada por trás da porta.
“Grindilow!”
Eu adoro a sra. Weasley, ela é fantástica como todos os Weasley (Percy não conta). Mas ela podia dar um tempo dos abraços esmagadores dela, só pra variar. Minhas costelas vão ficar doendo por uma semana.
“Harry, querido! Meus parabéns, você já é maior de idade! Como você está? Que bom que chegou, venha, o café está na mesa, Ron e Hermione já estão comendo! Ah, olá Remus, Hagrid! Olá Arthur, querido!”
Meu Deus, a mulher fala rápido. Ela está cheirando a bolo de damasco ou algo assim, e pela cor do avental parece que passou as últimas.. digamos, 27 horas da vida dela na cozinha.
“Olá querida. Até mais, estamos saindo de novo.” O sr. Weasley se abaixa e beija a mulher.
“Olá Molly. Estamos saindo, não nos espere para o almoço, ok? Você pode, por favor, avisar à Nymphadora que eu saí numa missão pela Ordem?”
Bah, não é possível, até o Remus. Não entendo mais essa coisa misteriosa de “missão pela Ordem”. Já sou maior de idade, enfrentei mais bruxos das trevas que a maioria dos bruxos por aí. Por Merlin, enfrentei Voldemort quatro vezes, estou no meio de tudo isso desde que nasci! Eu tenho no mínimo o direito de saber o que se passa. Já era pra ser assim faz tempo. Não vou mais admitir que me deixem de fora, nem a mim nem ao Ron nem à Mione. A mãe dele tem que entender que não há escapatória para nós, que estaremos envolvidos de qualquer jeito e se é assim é melhor que estejamos inteirados. Não sei sequer os rumos que a Ordem tomou depois que Dumbledore se foi!
Entro e acompanho a sra. Weasley até a cozinha. “Harry, como vai cara? Parabéns, você é o caçula do trio mas antes tarde do que nunca, né? Sentimos sua falta, venha tomar café!” Apenas sorrio para o Ron em resposta. É bom tê-lo por perto, sempre. Ele e Hermione, claro, mas ele me entende melhor, eu acho, em alguns casos. Bill e Charlie me cumprimentam, e Fred e George me abraçam de maneira engraçada, meio de lado (“ele já pode bebeeeeeeer, ele já pode bebeeeeeeer” é o que eles cantam). Hermione me dá um beijo e um abraço que me fazem lembrar do quanto ela é legal, e me dá parabéns, também. O abraço é diferente do que aquele que o Ron me deu, é mais desesperado. Ela tem essa mania estranha de cuidar de mim, ela é ótima, mas às vezes enche o saco, tem horas que eu só preciso ficar sozinho e não pensar em nada, e ela quer falar sobre tudo e tornar tudo muito lógico.
“Harry, como você tá?”
“Tô bem, Mione.” Ai, já começou. Percebo que o Ron lança a ela um olhar do tipo ‘censura’ – meio um “não continue, Mione, perigo!”. Boa Ron!
“Só isso, ‘tô bem’? Como foi a despedida dos seus tios, esse tempo que você passou lá?” Ela insiste, é claro, pra contrariar o Ron, e isso me irrita mais ainda. Não é que esteja com raiva deles nem nada, é ótimo tê-los por perto como eu disse, só não tô a fim de papo agora, pode ser que depois eu melhore – ou não. É que eu não consigo parar de pensar em tudo, esse lugar me lembra a Ginny, que me lembra que eu não poderia estar pensando na Ginny, e isso me lembra Voldemort, que lembra o Snape que faz pensar no Dumbledore e começa a doer de novo. Que merda!
“Hermione, eu já disse que tá tudo bem. Eu tô ótimo, vamos só tomar café tá? Depois a gente conversa, prometo.”
“Ahn... Desculpe, Harry, tudo bem.”
Acho que ela finalmente se tocou. Não quero falar sobre essas coisas na frente de todo mundo, não sei nem se quero falar sobre essas coisas. Mas depois eu explico pra ela, não quero deixar a Mione com a impressão de que eu estou bravo com ela ou algo assim.
“Harry, querido.” A sra. Weasley põe as mãos nos meus ombros. “Sabemos que é seu aniversário, e Merlim sabe o quanto gostaríamos de fazer uma festa, mas a casa está uma bagunça, e todos os preparativos para o casamento me deixaram sem tempo de pensar em nada. Por isso, tudo que pude cozinhar para você hoje foi um bolo de nozes. Se você não se importar, cantaremos parabéns no fim da tarde, assim que Arthur e todos outros voltarem.”
Uau. Os Weasley são incríveis. “Mas é claro, sra. Weasley, como a sra. quiser. À tarde está ótimo pra mim. Obrigado!” Eu não posso ficar mais satisfeito. Ela sorri e se afasta para o jardim.
“E aí, como estão as coisas por aqui?” Pergunto, ligeiramente mais animado depois do comunicado de que eu teria direito até a um bolo de aniversário. A pergunta na verdade foi pra todo mundo na mesa, mas os outros irmãos Weasley parecem profundamente entretidos num papo sobre algo que não consigo identificar ainda, então só Ron e Hermione estão prestando atenção em mim.
“Bom, a mamãe está nos deixando loucos com os preparativos pro casamento, é claro. Toda hora arruma alguma coisa pra gente fazer, não é a toa que a Ginny desapareceu, ela não agüenta mais trabalhar na cozinha com a mamãe. Eu também tento escapar, mas a mulher me persegue. A Fleur e a Tonks foram ao Beco Diagonal resolver algo relacionado à festa, algo com os cristântemos- “
“É crisântemos, Ron.” A Mione fez uma careta, o que incluiu implicitamente um “não seja burro” ou algo nesse gênero na afirmação dela. Já é engraçada a maneira como eles se provocam, antigamente eu me enchia, mas agora é tão claro que é a maneira deles chamarem atenção um do outro que chega a ser divertido.
“Isso, foi o que eu disse. Como eu ia dizendo antes de ser interrompido, os gêmeos e Charlie acabaram de chegar da loja de logros, dormiram lá, mas devem sair de novo depois do almoço com o Bill para terminarem de provar os trajes na Madame Malkin. O meu já está ajustado, Fred e George me deram outro, aquele do ano retrasado já tá meio curto nas mangas e nas barras.”
O Ron parece animado. “Esse foi um belo relatório, Weasley. Obrigado por me manter informado.” Digo isso com um tom de voz solene e pomposo e sorrio de lado. Ele e Hermione sorriem, também. Nós três na Toca, nas férias de verão, rindo de coisas bestas. Quem visse até diria que as coisas são como deveriam ser, não é?
Eu quase me sinto mal por estar meio que “me escondendo” da mamãe. Quase, eu disse. Afinal, não é como se eu estivesse dentro do guarda-roupa ou atrás da porta, né? Só estou no meu quarto enrolando o máximo possível. Sei que é uma questão de tempo até ela vir aqui e começar a falar, falar, falar. Mas eu estou me sentindo mal, uma dor de cabeça dos infernos.
Será que essa da dor de cabeça é convincente? Não que eu não esteja com dor de cabeça, mas assim, não é nem de longe o suficiente pra me derrubar na cama. Não vou inventar, só aumentar um pouquinho, afinal.
E bem, não é só por causa dos afazeres domésticos. Eu vi pela janela o idiota chegando, com o meu pai, o Remus e o Hagrid. Ele parecia idiota como sempre, os cabelos um pouco maiores, talvez, e despenteados, é claro. É só o que dá pra ver daqui de cima. E é por isso que eu não vou descer agora, não mesmo. Não quero ter que olhar pra cara dele de novo, não ag-
“Ginevra, que bonito! Todo mundo de pé, cuidando das coisas e você na cama ainda? São quase onze e meia, por Merlim!”
Puta merda, minha mãe. “Mãe, por favor, você tem que bater antes de entrar.” Odeio a mania ela tem de entrar no quarto assim, principalmente quanto está brava. Mas não vou desistir da estória da dor de cabeça. Preparo minha melhor voz de pessoa-doente e emendo: “É que eu não estou me sentindo bem, mãe.”
Ela me olha. Dá pra ver uma desconfiança no olhar, lá no fundo, e algum arrependimento também. Me observa atentamente por alguns milésimos de segundos – aquelas pausas que as pessoas dão antes de falar o que estão pensando.
“Claro, filha, muito conveniente. Doente na véspera do casamento do seu irmão, quando eu mais preciso de você para me ajudar. Não minta pra mim, Ginevra, te conheço muito bem!”
Ok, plano B. Lanço a ela o meu mais habilidoso olhar de indignação. “Não estou mentindo, mãe! Tô com dor de cabeça e tontura, já ia até te pedir pra tirar minha febre...”
Yes! Minha mãe está preocupada. “Deixa ver, Ginny, deixe-me ver...” Ela coloca a mão na minha testa brevemente. “É, parece ter um pouco de febre, sim. Vou pegar uma poção de bem-estar pra você, você vai melhorar em algumas horas.”
Ela sai do quarto e eu posso suspirar aliviada. Muitas pessoas me chamariam de falsa e cínica, mas quer saber? Não é nada disso. Analisemos os fatos: minha mãe é capaz de fazer sozinha a maioria das coisas que ela me pede, porque ela pode usar uma varinha e eu não. Então, eu sei que ela pede pra eu ajudar na cozinha, com a comida e tudo mais, porque ela não quer é me ver fazendo nada – isso a irrita. Além disso, meu ex-namorado idiota (vou mudar o adjetivo, prometo, mas é que nenhum outro o descreve tão bem) está lá embaixo e eu não quero vê-lo nem pintado de ouro. É uma razão perfeitamente racional para uma mentirinha. As pessoas por aí mentem por muito menos.
Ela vai me dar a poção que não vai ter efeito nenhum, porque não estou doente de verdade. Eu sabia que ela ia achar que eu estou com febre assim que eu falasse, é aquela coisa, as pessoas são sugestionáveis. Aí, daqui umas 2 ou 3 horas, já posso “melhorar”, e aí ajudo ela um pouco no fim-do-dia, e posso até ir jogar quadribol depois no jardim. Adoro o verão porque só fica escuro depois das dez da noite.
“Ginny, querida, tome isto, vai fazer você se sentir melhor.” Ela não bate pra entrar, mas tudo bem. Tomo a poção e sorrio pra ela, legitimamente, porque apesar de tudo minha mãe é a melhor mãe do mundo. “Obrigada, mãe.”
“Tudo bem, Ginny, fique deitada aí um pouco. Se precisar de alguma coisa, me chame ok?” Ela me beija na esta e sai.
Viu? Tudo muito simples. O que os olhos não vêem o coração não sente. Mentira, nunca acreditei muito nisso, mas foi só pra ilustrar. De qualquer forma, não posso também “ficar doente” por muito tempo, tá sol lá fora e eu não quero perder um dia destes. Preciso também provar meu vestido, quer dizer, eu já provei e Madame Malkin já ajustou, mas uma alça ficou um pouco mais curta que a outra, e mamãe quer retocar isso. Eu acho um saco ter que ficar provando roupas assim, uma vez é o suficiente, mas essas coisas de casam-
“Ah. Oi Ginny.”
Puta merda.
“Harry, bata antes de entrar!” Não deixei transparecer minha raiva, nem minha surpresa, nem a indignação e nem a felicidade na voz. Felicidade, droga.
“Desculpe, não sabia que você estava aí, a Hermione disse que você já tinha levantado, ela pediu pra que eu viesse aqui, pegar um livro de anotações dela, porque ela está folheando um outro livro que eu trouxe e eu disse que subiria para pegar esse caderno, me desculpe, eu não queria-“
Merlim, rapaz, fale devagar! “Tudo bem Harry, não tem problema. Eu realmente já tinha levantado, mas não estou me sentindo bem e-“
“Não está se sentindo bem, como assim? O que você tem?”
Nem disfarça a preocupação. Patético, quero dizer, se for pra ficar demonstrando o quanto se importa e me fazendo sofrer mais, por quê terminou? “Não é nada Harry, só uma dor de cabeça e um pouco de febre. Deve ser uma gripe, mas a mamãe me deu uma poção então vou melhorar em algumas horas.”
“Ok, vou te deixar descansar então, me desculpe.”
Ele se apressa, pega o tal caderno no malão da Hermione e em seguida se dirige à porta. Droga, mas eu tenho que fazer isso. “Ah! Harry?”
Ele se vira. “Oi?”
“Parabéns.” Não consegui segurar o sorriso ao dizer isso, por mais que eu tivesse prometido a mim mesma que seria o mais fria possível com ele. Harry retribui e sorri largamente de volta, os olhos cheios de satisfação ou felicidade, não dá pra distinguir. “Obrigado, Ginny.” E sai do quarto.
Isso definitivamente não é justo. Ele entra aqui assim e fica tão nervoso na minha frente que não consegue falar direito. Eu digo que estou me sentindo mal e ele se preocupa como se eu tivesse tomado veneno ou algo assim. Aí eu lhe dou parabéns e ele sorri como se isso fosse a coisa pela qual ele tivesse mais esperado na vida. Droga, o Snape sabe que estávamos juntos e não sabe que terminamos – ou seja, para Voldemort, ainda somos namorados. E eu sou uma Weasley, droga! Estou no meio disso desde o início, minha família está, eu seria um alvo mesmo se não conhecesse o Harry. Merda, por que entre tantos caras eu fui gostar justo dele, com todo esse heroísmo barato?
Droga! Odeio admitir, mas o heroísmo barato, no fim das contas, é provavelmente uma das coisas que me fez apaixonar por ele.
N/A: Olá, pessoal. Não tardei a postar o segundo porque estou de férias do trabalho e da faculdade. Gostaria de fazer uma observação sobre este capítulo. Eu não me lembro da J.K. ter mencionado, nos livros, a localização de St. Ottery Catchpole, a pequena vila onde moram os Weasley. Contudo, uma pequena consulta ao Harry Potter Lexicon (http://www.hp-lexicon.org/atlas/britain/atlas-b-burrow.html) me deu a resposta. O vilarejo fica em Devon, que é um condado a oeste de Londres, bem pouco populoso – 165 hab/km é a densidade demográfica de Devon, ou seja, é interior, bem a cara do lugar onde A Toca fica. A página da Wikipedia em português sobre Devon é bem pobre, então aqui vai o link em inglês, para quem quiser saber mais: http://en.wikipedia.org/wiki/Devon
Agradecimentos, portanto, ao Harry Potter Lexicon, à minha beta Flávia (ela não é um peixe e sim minha beta-reader) que é fantástica e não deixa passar nada e a todos que leram e comentaram – não foram muitos, mas tudo tem um começo. Reviews, por favor! Vocês não imaginam o quanto elas são importantes. Até o próximo capítulo, que também deve vir na semana que vem. Ah, quero agradecer também às bandas que eu ouvi escrevendo esse capítulo, que foram essenciais, é claro: Pearl Jam, Jeff Buckley, Idlewild, Lilly Allen, The Killers. Recomento todas!
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