Disclaimer: As personagens pertencem a JK Rowling.
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Ergueu o olhar do monte de pergaminhos amarelados onde tinha acabado de colocar uma péssima classificação e observou-o a sua cama, mais precisamente quem dormia sobre ela. O motivo de a ter convidado a ficar ali era-lhe completamente desconhecido, apenas ouviu a sua voz a declarar aquela oração tão improvável mas ao mesmo tempo envolta numa verdade absoluta. Realmente sentira a necessidade de a manter perto de si e fora de qualquer receio que esta poderia ter.
O que se passava com ele? Não era algo que poderia considerar normal… Sentia-se assustado por de um momento para o outro os seus pensamentos não se destinarem apenas a queixarem-se da vida que tinha mas também a perderem-se em imagens daquela rapariga. Não queria isso… não podia… Da última vez que deixara algum afecto de entrar na sua existência sofreu um desgosto tão amargo que cometera os piores erros da sua vida. Erros impossíveis de apagar, marcados a fogo na sua alma.
Com o dedo indicador e o polegar esfregou os olhos e posou a pena negra sobre a mesa envernizada. Sentia-se cansado e, por mais que tentasse, não tinha forças para continuar aquele trabalho. Além do mais, no dia seguinte tinha muita coisa para fazer e, apesar de o considerarem de pedra, continuava a ser um ser humano que precisa de dormir de vez em quando.
Encontrava-se parado em frente à porta, pronto para sair do seu quarto e descansar na sala de estar durante algumas horas quando, sem razão aparente, decidiu rodar os calcanhares e aproximar-se da cama de dossel cujos cobertores de seda negra com sombras de verde escuro eram inundados pela luz alaranjada das chamas da lareira. Sentou-se na berma da cama e estudou a figura que nela sonhava a sono solto, como fez na noite anterior.
-O que me está a acontecer? – questionou num sussurro deixando cair os ombros e livrando-se da sua natural rigidez.
As palavras perderam-se no ar e Snape suspirou e voltou a prestar atenção à sua sangue-de-lama. Parecia encontrar-se em plena paz… O que estaria ela a sonhar? Gostava de poder saber, deveria ser um bom sonho, desprevenido de qualquer problema…
Deixou-se levar por aquela imagem que irradiava calma e sem perceber a sua consciência acabou por se render…
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Hermione sorriu e voltou a acomodar-se ainda mais naquela fonte de calor. Ainda encontrava-se naquela fronteira entre os sonhos e a realidade e tudo era demasiado confuso para fazer qualquer sentido. Porém, uma certeza projectou-se na sua ensonada mente: Aquela suposta almofada era dura demais para ser considerada confortável e as almofadas tinham de ser, pelo menos, um bocado fofas e moles. Com esforço abriu os olhos e piscou algumas vezes para clarificar a visão.
Como compreendeu rapidamente, tinha razão, aquilo no qual encostava a sua cabeça não era uma almofada mas sim um corpo que se movimentava, levemente, para cima e para baixo em sincronia com uma respiração regular. Também se apercebeu de um braço a rodear-lhe possessivamente a cintura, e tal surpresa a deixou sem reacção momentânea. A primeira pergunta que fez mentalmente foi porque estava ela a dormir com alguém, a segunda foi quem seria esse alguém e a terceira foi porque motivo continuava sem se mexer.
Livrou-se do abraço e afastou-se até ao outro lado da cama. Viu o homem, com quem misteriosamente tinha dormido, a remexer-se e a acordar lentamente e a sua identidade foi-lhe revelada. Tinha passado a noite na mesma cama que Snape! Mas quando... como... porque acordara encostada nele? Recordações da noite passada foram passando em frente aos seus olhos mas nenhuma delas explicava aquela situação incrédula.
A primeira coisa que sentiu foi um calor a abandona-lo sem piedade e um desejo incontrolável de o recuperar de qualquer modo. Para isso Snape passou as mãos pelos olhos de forma a incentivá-los a abrirem. Quando o fez reparou na figura sentada ao seu lado e a realidade abateu-se com um peso de chumbo sobre todo o seu ser. Tinha acabado por adormecer! Dormiu ali com a sua mulher... com a Gryffindor... Como deixou que uma coisa assim acontecesse?
-Quando me deixou dormir na sua cama não disse nada sobre dormir você também nela! – exclamou Hermione pulando da cama profundamente indignada mas também, por uma estranha razão, envergonhada.
Tinha dormido praticamente sobre o seu professor! E pior ainda... há muito tempo que não dormia tão bem!
Snape deu um meio sorriso sarcástico e ergueu uma sobrancelha, como tantas vezes fazia. Toda aquela situação estava a revelar-se extremamente cómica, a sangue-de-lama tinha o rosto completamente corado e por causa dele… quem diria.
-Estamos casados, porque não podemos dormir juntos? – inquiriu calmamente.
Hermione arregalou os olhos, completamente surpresa com a pergunta que o seu professor lhe fazia.
-Porque… eu não gosto de você, o nosso casamento não é de verdade!
-Não é de verdade? Podemos não ter concordado com ele mas garanto que tudo isto é bastante verdade.
-Mesmo assim não tem o direito de se deitar comigo! – como é que ele podia agir daquela maneira?
Na noite anterior aceitara dormir no quarto do seu professor porque, por mais suspeito que fosse o convite, o seu medo de trovões era maior. Imaginara os milhões de intenções que poderia snape ter em mente com aquele convite mas nunca pensou que este fosse se deitar com ela quando encontrava-se a dormir. Não fazia o mínimo sentido. Porque quis ele dormir com ela? Snape odiava-a, até poderia afirmar que sentia nojo dela por isso não conseguia encontrar qualquer motivo que explicasse a razão de acordar com ele também naquela cama.
-Pare de se autovalorizar, acha mesmo que quis dormir consigo? Ainda possuo a minha consciência intacta.
-Então porque dormiu? – retorquiu Hermione encarando o homem sentado na cama.
-Não lhe devo explicações mas como não quero ouvir a sua voz irritante durante todo o dia com perguntas sem sentido, responderei. – declarou Snape. Desceu da cama, alisou a túnica e colocou-se em frente a Hermione. – Depois de corrigir inúmeros vergonhosos deveres, sentei-me na minha cama para descontrair mas acabei por adormecer. Satisfeita?
-S… sim. – Hermione engoliu em seco. Aquela proximidade de Snape estava a deixá-la nervosa. E a expressão do seu professor não era propriamente de animosidade.
-Então, já que satisfiz a sua curiosidade saia do meu quarto. – ordenou Snape friamente.
Hermione não esperou uma segunda vez, saiu do quarto e fechou a porta atrás de si, apoiando-se nela e ocultando o rosto com ambas as mãos. Porque não conseguia ter uma conversa civilizada com Snape? Se teria de passar a sua vida ao lado dele pelo menos queria que se dessem melhor. Mas isso parecia tão difícil e inalcançável…
Uma hora depois Snape desceu as escadas e encontrou a sua esposa preparada para ir embora. Faltavam apenas alguns minutos para começarem as aulas, faltava apenas alguns minutos para começar a ouvir todo o género de idiotices… o que não era algo que lhe estimula-se a aparatar em Hogwarts nesse momento.
-Feliz? – perguntou inesperadamente o que fez Hermione fixar os olhos nos dele.
-Como?
-Tenho de repetir sempre as mesmas coisas? Perguntei se está feliz, é uma questão simples, a menos que o simples para si seja complicado.
Porque estava Snape a perguntar se ela estava feliz? Apesar de ser uma questão simples, sabia que havia uma segunda intenção… havia sempre quando se tratava de Snape.
-Porque haveria de estar feliz? – retorquiu.
-Responde com uma pergunta… hum… - comentou Snape pensativamente, para depois mudar de assunto. – Aproxime-se, ou não quer voltar a Hogwarts?
-Porque me perguntou se eu estava feliz? – inquiriu Hermione aproximando-se do seu professor até estarem a milímetros um do outro. Tão perto que as suas respirações se confundiam uma na outra.
-Se não responde à minha pergunta porque havia eu de responder à sua? – Snape abraçou-a e desaparatou.
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Era maravilhoso respirar novamente o ar mágico de Hogwarts. Depois de ter chegado com Snape, separaram-se. O seu professor foi tratar de alguma coisa referente à aula e ela encontrava-se agora em frente ao retrato da Dama Gorda. Tinha medo da reacção dos seus amigos perante tudo o que se estava a passar. E se eles já nem quisessem olhar para ela? Eles odiavam Snape desde o primeiro momento em que o viram e agora seriam obrigados a conviver com uma amiga casada com ele... Poderia ser difícil demais para eles.
Respirou fundo e quando ia dizer a senha para entrar na sala comum, o retrato abriu-se de repente e à sua frente apareceu Harry, Ron e Ginny que pararam de falar quando a viram.
-Hermione! – Harry afastou-se dos outros e abraçou a amiga. – Estava muito preocupado...
Hermione devolveu o abraço aliviada e emocionada por saber que pelo menos Harry não a tinha rejeitado.
-Como estás? – perguntou Harry afastando-se e mostrando um sorriso.
-Como é que achas que ela está? Por Merlin, está casada com Snape, existe algo pior? – indagou Ron aproximando-se também da amiga e trocando um olhar cúmplice com Harry.
Hermione sorriu com o comentário e ficou séria novamente.
-Como está Victor? – perguntou.
-Pois... ele está... como é que achas que ele está? – indagou Harry.
Deveria encontrar-se mesmo muito mal, tinha de falar com ele.
-Não te culpes pelo que lhe está a acontecer, ele acabará por ficar bem. – Ginny entrou na conversa e deu um sorriso confortante.
-Vou ter com ele. – afirmou Hermione decidida.
-Deixa-o ficar sozinho por enquanto, ele precisa de ordenar os seus pensamentos. – declarou a mais nova dos Weasley.
Hermione fez que sim com a cabeça e suspirou. Victor não seria o mesmo com ela... e ela conseguia compreender isso. Voltou a olhar para os seus amigos e viu afecto nos olhos deles.
-Pensei que já não me quisessem como amiga. – confessou de repente. Baixou o olhar de novo e mordeu o lábio.
-Nunca mais penses uma coisa dessas! – exclamou Harry com aborrecimento.
-És nossa amiga, estaremos sempre ao teu lado. – argumentou o ruivo.
Quando é que Ron tinha amadurecido? Hermione sorriu. Tinha muita sorte por ter dois amigos como eles, não poderia pedir nenhuns melhores porque simplesmente melhores do que eles era muito improvável de existirem.
-Mas eu pensei que... que me declarassem traidora...
-Dumbledore explicou-nos a situação, sabíamos que não eras capaz de fazer algo assim... conhecemos-te Mione. – declarou Harry com seriedade. – Só não compreendemos quem é que pode ter causado esse casamento e porque o fez.
-Dumbledore também parece não saber. – disse Ginny
-Só pode ter sido um Slytherin! – afirmou Ron com convicção.
-Mas como é que um Slytherin entraria na nossa sala comum? – perguntou Ginny.
-Isso é fácil, com uma poção polissuco, eu próprio e Ron já entramos na sala comum dos Slytherin. – contou Harry. – Por isso qualquer um poderia ter-se passado por alguém dos Gryffindor e entrado...
Hermione lembrou-se da sua transformação falhada e fez uma cara de asco. Cuspir bolas de pêlo durante dias não tinha sido uma experiência nada agradável. Suspirou. O que Harry dizia fazia todo o sentido, mas faltava um pequeno pormenor...
-E como é que ele cortou-me a mão sem eu dar por nada?
-Ora, deve haver algum feitiço para isso, tu que sabes tantos feitiços diferentes deves saber. – afirmou Ron.
Ficou pensativa, talvez sim houvesse algum e ela não se lembrasse nesse momento... Hum e Snape? Ele era um espião, como é que também deixou fazerem-lhe aquilo? Ele próprio admitiu que estava sempre com atenção a tudo o que se passava à sua volta.
-Hermione acorda! – exclamou Ron. – Já chegamos às masmorras e tu pareces... como é que são aquelas coisas que tu contaste uma vez Harry?
-Zombies. – riu Harry. – Nós vamos ajudar-te a descobrir o culpado Mione, mas agora estamos em território inimigo é melhor deixar-mos a conversa para mais logo.
-Sim. – anuiu esta.
Entraram na sala húmida e sentaram-se nos respectivos lugares. Snape já lá estava dentro e encarava a turma como se olha para um monte de lesmas. Os Slytherins ficavam de um lado enquanto que os Gryffindors ficavam do outro, não havia misturas entre as duas casas rivais. Quando perceberiam que aquela inimizade teria de acabar o mais depressa possível?
-Silêncio! – ordenou Snape.
Dirigiu-se até à secretária e agarrou um monte de pergaminhos. Tinha uma surpresa para a turma, uma surpresa de que não iam gostar… mas era por isso mesmo que a fazia.
-Hoje vão fazer um teste teórico sobre as poções que têm realizado ao longo deste ano. – revelou com um pequeno sorriso ácido perante o levantamento de sussurros entre os alunos. Obviamente naquele momento deveriam estar a falar mal dele, o que não era uma novidade para si.
-Mas nós não estamos suficientemente preparados! – protestou Hermione alto demais.
Foi uma reacção espontânea que de certeza lhe traria graves consequências. Snape olhava para ela como se estivesse a pensar qual das maldições utilizaria. Estava arrependida de ter praticamente gritado mas ele sabia que ela não tinha estudado nos últimos dias. Apesar de saber toda a matéria não se sentia preparada o suficiente.
-Só por estar casada comigo não pense que poderá tomar essas atitudes dentro da minha aula!
A turma voltou a murmurar entre si, obviamente sobre o assunto do ano e Hermione encolheu-se na cadeira o mais que conseguiu. Se o arrependimento matasse…
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Costumava fazer a ronda com Ron, que também era prefeito mas como o ruivo tinha uma composição sobre o Protesto dos vampiros contra as leis impostas pelos feiticeiros para História da Magia, Hermione concluiu que era melhor deixa-lo a fazer o dever e ir sozinha. O castelo à noite convertia-se em um lugar um bocado sombrio e, como tal, era muito mais tranquilizante estar acompanhada, mas ela nunca admitiria isso. Concentrou-se em encontrar qualquer coisa suspeita nos corredores perto das masmorras, que como eram também perto das cozinhas existia uma maior probabilidade de encontrar alguém fora dos dormitórios.
A aula de Poções tinha sido horrível, além de humilhada teve de aguentar os comentários melosos e vergonhosos durante duas horas. O teste até não tinha corrido mal mas o mesmo não podia dizer do teste de Harry e Ron que de minutos a minutos olhavam para ela com olhos suplicantes. Snape era mesmo uma pessoa odiosa… Sorriu sem motivo aparente.
O som de vozes a acordou das suas divulgações e Hermione escondeu-se atrás de uma armadura. Queria apanha-los “in fragantti”.
-Mas como é que ele descobriu?
-Não sei! É um completo mistério, tomei tanto cuidado para que ninguém descobrisse…
Era a voz de Zabini e Malfoy! O que estariam eles a tramar? Hermione continuou no seu esconderijo. Ultimamente ouvir conversas alheias se estava a tornar um hábito.
-Pelo visto todo esse cuidado não foi suficiente. – afirmou Zabini.
-Pois… quando eu souber quem “deu com a língua nos dentes” mais vale que ele esteja bem longe daqui. – declarou Malfoy.
-E agora o que pensas fazer?
-Por enquanto nada, tenho de agir com cautela. Além do mais, o pior já eu fiz…
-Lamento Draco.
-Não lamentes Blaise, não suporto que sintam pena de mim, e tu sabes isso!
As vozes foram-se afastando e Hermione saiu de detrás da armadura. Malfoy e Zabini também eram prefeitos por isso não lhes podia, como era lógico, tirar pontos. A única coisa que compreendeu de toda a conversa entre os dois Slytherins foi que alguém tinha tramado Malfoy e que este se ia vingar…
-Hermione?
Esta virou-se de repente com o coração a bater rapidamente e deu de caras com Neville.
-O que estás a fazer aqui? – perguntou irritada, ele tinha-lhe pregado um grande susto. E além disso, já era demasiado tarde para que ele andasse pelos corredores, mais precisamente pelas masmorras.
-Desculpa Hermione, mas tive de cumprir um castigo com o professor Snape… - Neville baixou os olhos com tristeza.
Coitado do Neville, era o que mais sofria nas mãos de Snape, tirando Harry, é claro. Em todas as aulas o seu professor tinha de criticar muito negativamente todo o trabalho do seu amigo. Se Snape não fosse tão duro para Neville, tinha a certeza que ele se tornaria um aluno melhor a poções.
De certeza que aquele tinha sido um castigo injusto! E já devia ser perto da meia noite. Tinha obrigado Neville a realizar o castigo até tão tarde, era impossível gostarem de Snape.
-Não precisas de pedir desculpa, eu é que ando meio irritada durante estes dias. – confessou.
-É normal. – afirmou Neville.
Hermione sorriu. Neville tinha sido a primeira pessoa com quem falara desde que entrara no mundo da magia.
-Vamos para os dormitórios? Já é tarde e a minha ronda acabou.
-Sim vamos.
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Mais uma vez desculpem o meu GRANDE atraso!!
Beijinhos e obrigada pelos comentários!!
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