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1. O Mercado de Surrey


Fic: A Floresta das Sombras, Aviso


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Capítulo 1




O Mercado de Surrey



O fardo de feno voou por alguns segundos antes de aterrissar sobre o menino franzino que o esperava. O impacto quase o achatou.

– Segure isso direito, moleque! – berrou o tio do garoto, um homem corpulento e de bigodes cheios como uma escova de cavalos. Ele havia arremessado o fardo de cima da carroça e agora olhava o menino com uma carranca vermelha de esforço e raiva. – Acha que veio aqui para brincar, seu imprestável?

O garoto bem que quis responder, mas não teve fôlego para hostilizar o tio. Segurou com firmeza o fardo e, com o corpo dobrado em dois, se arrastou até os fundos da estalagem.

A imagem devia ter algo de cômico, já que as pernas finas e os joelhos ossudos eram tudo o que se via sustentado, o que parecia ser, uma estranha criatura quadrada andando por ali. Porém, o menino, a quem chamavam de Harry, não tinha nenhuma vontade de rir, ao menos, não naquele momento. O suor escorria pelas suas costas empapando a camisa de tecido grosseiro que usava. Os cabelos muito negros, normalmente espetados, estavam colados ao seu rosto vermelho e sujo. As sapatilhas de couro gasto nos seus pés mais estorvavam – coçando e aquecendo – do que lhe protegiam. Fibras duras de feno lhe pinicavam os dedos, entrando dolorosamente sob as unhas, e ainda rompiam as fibras da camisa, dardejando a pele das costas. Para Harry não havia nada de engraçado sob todo aquele peso.

No entanto, ao fim de tudo, era apenas trabalho, e não algo de que ele pudesse ou devesse reclamar. Harry certamente nem pensaria que se pudesse viver a vida de outra maneira. O que o incomodava era o fato de que, toda a vez em que eles vinham até Surrey vender os rendimentos da fazenda do tio, ele ficava com todo o trabalho pesado, enquanto seu primo Dudley podia andar pela aldeia e se divertir. Se os dois fizessem o trabalho juntos, talvez sobrasse algum tempo para que Harry pudesse vadiar um pouco também. Afinal, para quem vivia quase isolado, as vindas ao pequeno vilarejo eram esperadas como o melhor acontecimento em semanas. Não que, até aquele dia, ele tivesse conseguido ficar mais que uns poucos instantes longe dos olhos do tio. Vernon Dursley o vigiava constantemente; como se, a qualquer momento, Harry fosse fazer algo de muito, muito errado mesmo. Dudley podia fazer o que bem entendesse, mas seus erros (realizados) pareciam sempre menores que a possibilidade dos erros de Harry.

Contudo, do jeito que estava, não era completamente ruim. Afinal, só poder fazer entregas nas estalagens e tabernas e olhar a movimentação do mercado, já era como respirar o ar fresco vindo dos lugares longínquos com que Harry sonhava. Seu maior desejo era o de, um dia, conseguir ultrapassar as poucas léguas que separavam Surrey de Londres. Não havia nada que Harry quisesse mais na vida do que conhecer a tão falada capital, com suas pontes e castelos e seu rio que desaguava no mar.

Quando Harry finalmente conseguiu chegar aos fundos da estalagem, onde ficava a cavalariça, a postura forçada se mostrou ainda mais incômoda. Sem conseguir enxergar direito, Harry rodou uma vez inteira com o fardo nas costas. Um movimento a sua esquerda o fez localizar as pernas de um homem grande que carregava uma sela.

– Onde eu largo?

– Lá dentro – respondeu o homem apontando o interior do estábulo.

Tão logo Harry conseguiu se livrar da carga, fez o que pode para esticar as costas e voltar a posição normal do seu corpo. Não havia músculo que não estivesse protestando.

– Eu encomendei seis desses para o seu tio – falou o homem com uma cara sisuda.

– Eu sei – respondeu Harry mal humorado. – Eu já vou trazer.

Ele já voltava à carroça, quando o homem o interrompeu.

– Cadê o outro? – perguntou.

– Que outro?

– O grandão? Seu primo, não é? Ele não devia estar ajudando você?

– É – repetiu sem entusiasmo e depois deu de ombros.

O que ia dizer? Era assim que as coisas funcionavam na casa dos Dursley. Todo o trabalho pesado para Harry, todo o divertimento para Dudley. Fora uma das coisas que ele aprendera mais rápido na vida. Desde que viera morar com seus tios Vernon e Petúnia há doze anos – e ele tinha pouco mais de um ano de idade pelo que contavam – Harry ouvira constantemente que precisava se esforçar para pagar a acolhida que ele e a mãe recebiam.

Assim, logo que conseguiu andar sozinho, Harry acordava ao amanhecer e acompanhava a mãe nas tarefas. Agora, era o responsável por tirar o leite, enquanto sua mãe preparava o desjejum da família e, depois, o dia todo era dividido entre a roça e o trato dos animais. As tarefas de Dudley consistiam em tomar café, verificar o trabalho de Harry, andar a cavalo, almoçar, perturbar Harry, fingir que aprendia a mexer com a espada para se tornar um cavaleiro (sonho da sua mãe), perseguir Harry, jantar, e, se desse tempo antes do escurecer, provocar Harry até o garoto enfurecer, revidar e, com isso, Dudley ganhar sua desculpa diária de dar uns sopapos no primo.

A diferença física dos dois fez com que Harry, rapidamente, aprendesse a driblar o outro. Corria mais que qualquer um que conhecesse e subia em árvores com uma agilidade incomparável. Afinal, ele não podia ficar se escondendo sob a barra da saia da mãe o tempo todo. Ela sempre o defendia, mas as brigas e as ameaças que os Dursley faziam a Lily, quando ela repreendia Dudley, a deixavam tão abalada que, logo que pode, Harry passou a esconder da mãe o que o primo lhe fazia.

Enquanto caminhava de volta até a carroça, o garoto pensava que, se não fosse pela mãe, há muito tempo ele já teria fugido da fazenda e ido tentar a sorte em outro lugar. Não que ele esperasse menos trabalho ou menos brutalidade da parte de estranhos que de seus próprios parentes. Mas, fora dali, ao menos, teria novas caras a detestar ao invés das que ele via todos os dias. Porém, todas as vezes em que ele conseguira dizer isso em voz alta e convidar a mãe para irem embora, ela o tinha abraçado e dito que ruim todos os lugares eram e que, pelo menos ali, estavam seguros. Harry não contestava, mas não parava de sonhar com o dia em que seria grande o bastante para dar segurança aos dois. Nesse dia, Harry pegaria sua mãe e deixaria os Dursley para sempre.

Nas cinco viagens seguintes, carregando os fardos de feno, esses pensamentos o acompanharam e, com eles, todas as perguntas sem resposta com as quais ele crescera. Onde estava seu pai? Se ele morrera ou tinha abandonado a família, por que sua mãe não se casara novamente? Isso não os deixaria mais seguros do que viver com os Dursley? Harry se lembrava de, quando era pequeno, ser chamado por homens diferentes que mandavam, por ele, presentes para Lily. Ela nunca aceitou nenhum. E, os que chegaram mais perto que isso, estranhamente, se afastaram mais rápido do que se aproximaram. Algumas vezes, Harry tinha achado que um novo pai seria a chance de se livrarem dos Dursley. Porém, Lily parecia preferir continuar a aturar as grosserias deles sem se decidir partir da fazenda.

Tinha vezes em que ele achava que a mãe também tinha medo de que ele fizesse alguma coisa ruim. Nessas ocasiões, Harry se perguntava se não fora por sua culpa que o pai havia ido embora ou até morrido. Talvez ele tivesse feito esse “algo errado” que sua mãe e seus tios temiam e seu pai havia partido por isso. Mas, até aquele momento, a única resposta que obtivera da mãe, tinha sido: “um dia, quando você for mais velho, eu te conto.” Harry esperava todos os dias que esse dia chegasse.

Quando terminou a tarefa, Harry se sentia nojento. Estava suado, sujo e com terra e feno entranhados em cada mínimo pedaço de pele. Perguntou ao cavalariço se havia um lugar onde poderia se lavar. O homem apenas lhe fez um sinal com a cabeça, apontando o cocho onde os cavalos bebiam água. Harry agradeceu e se apressou em jogar água no rosto, lavar o pescoço, catar feno dos cabelos e fazer o que era possível pela roupa suada que vestia. Contudo, estava tão incomodado com o próprio fedor que já estava considerando tirar a camisa, enfiá-la na água e depois vesti-la molhada mesmo. O plano caiu por terra ao ser sobressaltado por uma voz de menina.

– Olá.

Sem comando, o joelho de Harry dobrou para o lado errado por um instante, assim que ele deu de cara com os dois grandes olhos azuis que o fitavam. Conhecia a garota. Seu nome era Megan Pevensie. Ela era filha dos donos da estalagem, tinha uma pele que parecia ser feita de leite, cabelos escuros brilhantes e aqueles olhos da cor do céu. Na opinião de Harry, não havia menina mais bonita em toda a vila, nem nos arredores, talvez, nem mesmo em Londres. A não ser, claro, que fosse uma princesa. Dizem que todas as princesas são bonitas. Harry sacudiu a cabeça do devaneio para responder.

– O-oi.

Descobriu que, após vir tantas vezes até Surrey com a esperança de vê-la, nem que fosse de relance, ainda não estava preparado para falar com ela. O sorriso de Megan ajudava bem pouco, assim como o cheiro que ele sentia desprendendo de sua camisa. Porém, agradecia não tê-la tirado momentos antes de ela chegar. Morreria de vergonha.

– Você quer água? – ela perguntou, gentil. Depois pareceu se dar conta de que talvez tivesse dito algo errado. – Digo, para beber. Quero dizer, desculpe, que não seja do cocho. Eu trouxe... er, aqui.

Harry achou que devia ter feito que sim com a cabeça, porque ela virou parte do conteúdo da moringa que trazia nas mãos num copo de barro e entregou para ele. Um tremor fez com que, na passagem do copo da mão dela para a dele, uma boa parte da água se perdesse. Agradeceu sem jeito e bebeu quase de um gole, se afogando um pouco.

– Quer mais?

– Sim – ele estendeu o copo. – Obrigado.

Megan sorriu e Harry também. Nem podia acreditar. Estavam conversando! Ele tomou a água e a menina acompanhou com o peito estufado. Quando terminou.

– Outro? – ela pareceu ansiosa que ele aceitasse.

– É. Claro.

Ele podia ficar ali, bebendo água o dia inteiro e Megan parecia realmente satisfeita em servir copos e mais copos para ele. Mas o paraíso tem seu preço, o que em geral, se não é o inferno, é o purgatório.

– Hei! Você não devia estar ajudando o papai?

Dudley estava no portão dos fundos da estalagem, na verdade, ocupava todo o vão do portão. Estava acompanhado de mais uns três garotos que, Harry reconheceu, faziam parte da turminha rotineira com que ele andava quando vinha a aldeia. Um grupinho que gostava de fazer desordem, provocar brigas com meninos mais novos e praticar pequenos roubos no mercado. Harry não gostava de nenhum deles e a recíproca era a mesma.

– Eu já terminei.

– É? – Dudley movimentou o corpanzil, cada vez mais parecido com o do pai, alguns passos. – E quem te deu a permissão para falar com ela? – apontou Megan com o queixo.

– Fui eu quem ofereci água a ele – replicou a menina indignada.

Dudley ignorou.

– Você sabe que não deve falar com ninguém. Papai já te disse.

– Seu pai não manda em mim! – reagiu Harry. – Eu já fiz o meu trabalho e falo com quem eu quiser!

– Meu pai sustenta você e a inútil da sua mãe! – vociferou Dudley, cujo rosto transparecia todo o prazer em provocar o primo.

– Inútil? Se a minha mãe é inútil o que sobra para a sua, Dudley? A não ser que se considere utilidade cozinhar para alimentar você, porque é só o que ela faz e faz mal. E para que tanto esforço, não é? A gente sabe que você comeria até estrume se estivesse no prato a sua frente.

Ele sabia o que teria de fazer ao terminar a frase e, torcendo o corpo o mais rápido que pode, desviou a si mesmo e Megan de Dudley, que investiu furioso contra ele. O outro tropeçou e foi direto para o cocho, se embolando em cima da bacia grande de madeira e jogando água para todos os lados. Isso foi suficiente para instalar a confusão. O cavalariço veio correndo e berrando contra os garotos e Harry, sem nem conseguir dizer uma palavra a Megan, saiu correndo. Pulou a cerca que dividia o estábulo da rua dos fundos e se lançou em direção ao mercado para tentar desaparecer na multidão. Não demorou muito para ouvir o tropel de Dudley e sua turma atrás dele.

Duas travessas além e Harry se viu engolfado pela multidão que afluía ao mercado regional de Surrey. Carroças, cavalos, porcos, ovelhas, homens e mulheres carregando fardos envoltos em couro e tecido nas costas, cavaleiros em armaduras velhas já não tão brilhantes. Desviando e trombando como podia, Harry tentou se enfiar no meio deles. Olhou para trás e os garotos o seguiam causando, pelo menos, o triplo de estrago nos passantes. Harry gingou o corpo para desviar de um homem com um carrinho cheio de repolhos, pulou sobre um porco, quase caiu ao escorregar sobre restos limosos de hortaliças em frente a uma barraca, mas nada o deteve.

Às suas costas, identificou o barulho de gente sendo derrubada e de palavrões, cada vez mais altos e indignados, dirigidos a ele e a turma de Dudley. O pior era que, na medida em que avançavam para o centro da vila, havia mais gente, mais obstáculos e, consequentemente, os meninos causavam mais desastres.

Numa das curvas do caminho, Harry viu quando um dos amigos de Dudley foi capturado pela orelha por um feirante cuja banca caíra após sucessivas trombadas. A perseguição seguiu ainda por duas ruas e, no meio da confusão, que incluiu esbarrar e, mesmo sem querer, derrubar uma mesa de maçãs, Harry girou para a direita, se abaixando, desviou de uns dois grupos de pessoas e entrou numa ruela lateral que estava praticamente vazia. Ainda correu alguns metros até verificar por sobre o ombro que, aparentemente, seus perseguidores haviam ficado para trás.

Ele levou a mão até o lado do corpo para segurar a dor aguda que gritava ali. Escorou a outra mão no joelho e, com dificuldade, puxou ar. O sorriso acabou vindo e Harry já estava a ponto de cantar vitória, quando:

– Cansou?

Dudley e um dos garotos estavam poucos metros a frente dele. Harry mal pensou e se virou para continuar correndo. Não chegou a dar um passo. Seu nariz se estatelou no ombro de Córmaco, o mais alto dos companheiros do primo. O outro sorriu e com um safanão virou Harry e o segurou pelos braços. Dudley não esperou convite, fechou a mão e enfiou na boca do estômago de Harry sem pena. O pouco ar que ele havia conseguido respirar ao parar a corrida saiu dos pulmões de uma vez só. O segundo e o terceiro soco o dobraram ainda mais sobre si mesmo, afrouxaram as suas pernas e a dor era tanta que Harry nem ao menos conseguia pensar. Ouviu risos e caçoadas, mas uma espécie de zumbido começou a encher os seus ouvidos e tudo pareceu ficar muito longe.

– Quebra a cara dele, Dudley!

– Não. – Dudley ergueu o queixo de Harry com violência. – A mamãezinha dele pode ficar nervosa se vir sangue e eu não vou me complicar por causa desse idiota. – Contudo, parecia que Dudley achava que a sua barriga não sangraria e lhe deu mais um soco.

– Espera – a voz de Córmaco parou a nova seqüência de golpes – eu tenho uma idéia.

No instante seguinte, Harry se viu arrastado pelos braços rua abaixo. Estava com dificuldade de abrir os olhos por causa das dores lancinantes no estômago, mas quando abriu se arrependeu. O que viu, o fez abrir a boca e era a última coisa que ele devia ter feito, já que foi jogado num lodaçal verdolengo que havia no meio da rua de baixo. O gosto de bosta de cavalo chegou até a sua garganta enquanto ouvia os garotos rindo às suas costas.

– Acho que agora ele aprende – disse um deles. – Vamos Dudley.

As risadas seguiram e Harry achou que os percebeu cuspir nele, mas não poderia sentir, já que metade do corpo estava enfiado no barro fétido e, naquele momento, nada teria condições de humilhá-lo ainda mais. Ergueu a cabeça apenas quando achou que não haveria perigo de eles voltarem. Cuspiu o que entrara na sua boca. Sabia que estava chorando de raiva, mas seria impossível localizar as lágrimas, todo ele era uma coisa escura, marrom e verde, nojenta e fedida.

Sacudiu as mãos para tirar o excesso e depois tentou limpar o rosto. O ódio por Dudley fervia nele como nunca e piorava a cada alfinetada dolorosa em seu estômago. Harry segurou a barriga com a mão, tentando diminuir a dor, e se arrastou para fora do barro antes de tentar ficar em pé.

– Se quer saber, foi covardia.

Harry demorou a achar a origem do comentário. Só naquele momento foi que percebeu o que, provavelmente, nem a turma do Dudley havia percebido. Não estavam sozinhos no beco. Uma carroça em forma de jaula estava parada ali e dentro dela havia um homem. O menino se manteve distante enquanto ficava em pé. Era assim que se transportavam os prisioneiros e aquele devia ser um bandido para estar preso ali. A carroça estava atrelada a um cavalo de patas largas e peludas, mas num relance de olhos, Harry percebeu que não havia guardas por perto. O homem na carroça percebeu sua preocupação.

– Foram comprar comida para a viagem – disse respondendo a pergunta muda. – Vamos para Londres, sabe. É claro, eu pedi que me trouxessem uns ovos cozidos, mas como são dois idiotas, então, eu acho que vão esquecer. E, se estivessem aqui, não creio que o tivessem defendido.

– Deixaram você sozinho? – Harry não soube dizer por que trocou qualquer palavra com o homem. Deveria era ir logo embora dali.

– Eu pareço alguém que pode sair para passear?

O prisioneiro apontou o cadeado na portinhola da jaula e Harry percebeu que ele era muito jovem, quase um garoto. Talvez, apenas alguns anos mais velho que ele próprio. Os cabelos castanhos caíam abaixo das orelhas e os olhos muito negros tinham um divertimento que Harry não esperava ver em alguém enjaulado daquele jeito.

– Tem água ali adiante – o rapaz apontou uma coletora de pedra que ficava junto a uma das casas da rua.

Sem muita escolha sobre o que fazer, Harry rumou para lá. Muitas casas tinham coletoras como aquela. Pegavam água da chuva que depois era usada para beber e dar de beber aos animais. Como estava sempre chovendo, elas sempre tinham água. Certamente os donos não ficariam nada felizes se vissem Harry emporcalhando a coletora, mas como não havia ninguém por ali, ele resolveu se arriscar. Precisou de muito mais tempo do que na estalagem para se sentir novamente uma pessoa e não um monte de estrume.

Quando voltou a vestir a camisa molhada, esta estava longe de estar limpa já que a água que ele usara estava quase na mesma situação da possa de barro em que fora jogado.

– Vai dar o troco? – perguntou o prisioneiro.

– Talvez – respondeu Harry, ainda ardendo de humilhação, mas com a consciência clara que teria poucas chances de vingança. – Na próxima vida.

– Cara paciente – debochou o outro.

– Olha... – Harry desistiu antes de responder – é complicado, ok?

– Com certeza. Cada um deles tem pelo menos duas vezes do seu tamanho e o gordão dá três de você lado a lado.

– Pois é... – Harry deu as costas para jaula e já se dispunha a deixar o lugar, mas o outro o chamou de novo.

– Hei! Garoto! Espere.

– O que é?

– A brincadeira que fiz sobre eles não trazerem comida – falou lançando um olhar para o fim do beco, por onde, Harry deduziu, os guardas deviam ter saído. – Eu... eu não como desde ontem e... Londres não é tão perto...

– Desculpe, não tenho dinheiro comigo.

– Não. Eu achei que não. Tudo bem, eu... – ele esticou o braço para fora da gaiola, apontando. – Ali, eu vi umas maçãs rolarem de uma mesa. Acho que vocês derrubaram na confusão. Você... se importaria em trazer para mim?

Harry olhou a rua em ladeira por onde havia descido e depois sido arrastado pela turma do Dudley. De fato, não lhe custava nada.

– Certo.

Subiu a ruela procurando pela frutas. Ele não enxergava muito bem, então precisou espremer os olhos para focar os cantos escuros e levou algum tempo até localizar as maçãs. Harry as recolheu e voltou para junto da jaula. Até pensou em ficar com uma para si, mas depois se deu conta de que o prisioneiro, certamente, levaria muito mais tempo do que ele para ver novamente uma refeição. Ele não pensou antes de entregá-las e, só quando o outro lhe tirou as frutas das mãos, foi que o menino considerou que ele podia tê-lo ferido ou algo assim. Deu uns dois passos para trás, enquanto observava o jovem devorar quase uma maçã inteira em uma única mordida. Parecia que nunca havia provado nada melhor em toda a vida.

– Por que prenderam você?

Ele não soube por que não conseguiu controlar a curiosidade. Talvez fosse a juventude do outro. Mal tinha barba. Devia ser um ladrão. Mas não se levava ladrões para Londres. O rapaz o mirou ainda mastigando, seus olhos escuros voltaram aquela bravatearia que tinha intrigado Harry, mas havia também algo de perigoso neles.

– Eu matei um homem – p rapaz respondeu sem desviar o olhar, desfiando cada palavra como se tivesse orgulho apenas em pronunciá-las.

Harry retrocedeu instintivamente, mais um passo e o jovem riu antes de enfiar a segunda metade da maçã na boca. Ele perdeu o interesse em Harry, pareceu achar que o garoto sairia correndo dali.

– Por quê?

– Por quê? – repetiu o outro incrédulo. Harry não soube se pela pergunta, ou por ele ainda continuar ali.

– É. Por que você matou um homem?

O prisioneiro o considerou por alguns instantes enquanto engolia a maçã.

– Digamos que eu não quis deixar o “troco” para a próxima vida.

– O que foi que ele fez? O homem que você matou.

O rapaz esfregou a segunda maça nas roupas e só então Harry percebeu que as vestes dele eram bem melhores e mais limpas que as suas.

– Ele estava presente na noite em que mataram o meu pai. Chocado? É, ele “apenas” estava presente. Não chegou nem perto, mas assistiu, riu, debochou quando bateram no rosto da minha mãe e cavalgou para longe, enquanto nossa casa ardia em chamas e eu chorava sobre um pai morto e uma mãe desfalecida.

Harry engoliu em seco.

– Me parece que ele mereceu.

– Claro que ele mereceu – rosnou o outro. – E, acredite, eu não o teria matado se, ao encontrá-lo novamente, ele não estivesse prestes a matar um homem apenas porque ele caçou nas terras do rei para evitar que a família morresse de fome!

A vida e os problemas de Harry, de repente, lhe pareceram tão mesquinhos e pobres, tão estranhos à vida que ocorria fora da fazendola dos tios, onde, apesar de tudo, como lhe dizia sua mãe, ele estava protegido. Mas aquele rapaz também acreditara estar protegido um dia e, pensar nisso, deu em Harry uma outra sensação dolorosa no estômago, bem diferente daquela causada por Dudley.

– Que idade você tinha? Quando seu pai morreu?

– Nove.

– E a sua mãe? Como ela vai ficar agora que prenderam você?

– Minha mãe morreu há três anos – ele respondeu sem emoção.

E Harry que tinha achado que não poderia piorar.

– Eu... eu sinto muito.

O jovem deu de ombros e fez que sim com a cabeça, voltando a mascar os pedaços de maçã.

– O que... o que acha que vão fazer com você?

– O que acha? Sou um saxão. Matei um guarda normando. Por acaso você não sabe como tudo funciona por aqui? Eles invadiram nossas terras, eles mandam.

– E obedece que tem juízo – disse Harry e se apressou em responder a indagação muda. – É o que o meu tio diz.

– É, vai ver que, se tivéssemos menos juízo, as coisas por aqui seriam diferentes, não é?

– O novo rei... eu acho que ele vai ajeitar as coisas – Harry tentou injetar um pouco de esperança na conversa. Era o que sua mãe acreditava e falava quando eles sabiam de alguma injustiça.

– Ricardo? – o rapaz riu com desdém. – Ricardo está mais preocupado com a Terra Santa que com a Inglaterra. Mas... – ele pareceu pensar – quem sabe se libertarmos o sepulcro de Jesus das mãos dos infiéis, Deus nos olhe com mais atenção, não é mesmo?

Harry acabou por dar uns passos até a jaula, seu medo evaporara.

– Eles vão matá-lo? – era uma pergunta e uma afirmação. O outro ergueu as sobrancelhas e mordeu novamente a maçã em sua mão.

– Chato, não é? – falou com a boca cheia e parecendo entediado. – Eu ainda tinha tanto o que fazer na vida. Queria pelo menos cumprir uma promessa que fiz há muito tempo.

– Você não parece preocupado.

– Meu desespero não vai me tirar daqui. – O rapaz olhou para o fim do beco. – É melhor ir, garoto. Logo os guardas vão voltar e você vai apanhar de novo se eles o virem aqui.

– Tem algo que eu possa fazer? – perguntou sem pensar.

Dessa vez, o outro sorriu sem nenhum deboche.

– Obrigado pelas maçãs.

O que aconteceu a seguir, Harry levou algum tempo para explicar a si mesmo. Foi estranho, misterioso e, sem a menor sombra de dúvida, foi uma daquelas coisas erradas que sua família parecia temer que ele fizesse. Harry, porém, não tinha a menor idéia de como fizera. Lembrava apenas de sentir uma imensa compaixão pelo rapaz e de, a título de despedida, erguer a mão e tocar na jaula. Um aceno de adeus. Contudo, como se tivesse sido atingido por alguma coisa destruidora, o cadeado explodiu e partes dele se espalharam para todos os lados. A porta da jaula abriu em seguida fazendo Harry recuar com a boca aberta de susto. O prisioneiro não pareceu menos espantado.

– Como você...?

– Eu não... – negou Harry, apavorado.

O rapaz, porém, não esperou que Harry se recuperasse do choque. Pulou para fora da carroça.

– Se não quiser ficar no meu lugar, é melhor sumir daqui – ele lhe disse, dando um tapinha amistoso no alto da sua cabeça. – Valeu, garoto! Fico te devendo esta.

Harry o viu correr para o canto oposto do beco e com agilidade subir se apoiando em janelas e tijolos aparentes. Num piscar de olhos, o prisioneiro estava no telhado e, no instante seguinte, tinha sumido. Harry viu dois vultos dobrando a esquina e, mesmo que seu corpo ainda doesse barbaramente, ele se pôs a correr pela ruela, ladeira à cima. Era melhor estar o mais longe possível quando os guardas chegassem até a jaula. Não demorou muito para que os gritos pelo prisioneiro enchessem as vielas paralelas à rua principal. Harry, no entanto, se apressou em voltar para o meio da multidão indistinta. O melhor a fazer agora era desaparecer por um tempo, fosse da vista dos guardas, fosse da vista de Dudley e seus amigos. A grande quantidade de barracas, vendedores e compradores do mercado de Surrey eram o melhor esconderijo em que ele podia pensar naquele momento. Assim que saiu para a rua principal, ele voltou a caminhar calmamente e, logo, o menino franzino não pode mais ser visto.


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N/B : Valhei-me, divindade protetora dos aficcionados por boa leitura! Já viciei! =D – Sally, amada Anam, a palavra que saltita na minha mente é: Instigante! Seu primeiro capítulo deixa aquela vontade agoniante de querer ler, saber e desfrutar mais dessa história, o quanto antes! - Tenho uma única reivindicação a fazer: foi muito curto! Queremos umas 40 páginas de Word, no mínimo, para os próximos... ; D – A Vernon e "Dudiquinho" – Eca! Infames! – A Harry e nosso misterioso fugitivo ( ô.ô ) – Bem vindos, heróis! – A você, Anam, um abraço bem afofaaado, e meus aplausos, sempre! - Beijo grande! Até o próximo capítulo de 40 páginas! =D – EWEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!! Fic nova da Sally! Coisa boa! Ótima! EXCELENTE!!!! =D =D =D…

N/A: É isso aí, povo: agora começou! Hihi. Para falar a verdade, estou bem orgulhosa dessa nova fic. Para mim é um aventura completamente diversa, pois uma Universo Alternativo é um desafio diferente e instigante.

Sei que vocês mal se recuperaram do final da Just, mas tenho que aproveitar os meus picos criativos e escrever o máximo que posso. Espero que tenham gostado desse primeiro capítulo e de conhecer os nossos heróis. Claro, muita coisa ainda vai rolar. Então, acho que dá para dizer: vocês não perdem por esperar, não é?

Aos que deixaram um recadinho para o prólogo:


Morgana Black – Como vc é exageradaaaaa!! Rsrs. Valeu amiga! Sim, aguarde um pouco disso tudo.

Charlotte Ravenclaw – E como viajar até a Inglaterra medieval sem uma ajudinha do tio Will (nossa, como estou intima, hihi). Será uma delicia usá-lo como um guia, né?

Doug Potter – Muito obrigada, Doug. Seus comentários são sempre um incentivo, sabia? Bjão.

Bruna Weasley – Eu que agradeço o carinho, Bru. Também amo o Robin (na verdade, foi um dos primeiros personagens que amei, junto com o Zorro, hehe). Fico feliz de ter vc aqui.

Mirella Silveira – Prontinho, Mirella. Espero que goste. Um beijo bem grandão.

Ginny Potter – Quem bom, espero que na continuidade a mistura continue rendendo. Beijos!

Bruna Perazolo – E começou, Bru! Vou tentar com afinco ser bem constante nessa, pelo menos enquanto ela não complicar, hehe.

Dircilene dos Santos – Que bom, Dirci. Acho que vc vai gostar do que eu pretendo aprontar por aqui, rsrs. Bj.

Sônia Sag – Chegando e dando trabalho, hihi. Achou que se veria livre de mim, é? Pois não mesmo! Não vou dar nem uma folguinha! Obrigada pelo apoio de sempre, Anam.

Bernardo Cardoso – Sei que vc não é muito de UA, Be. Por isso é ainda melhor contar com vc por aqui. Um beijo enorme.

Maionese – Obrigada, querida. Aqui está o primeiríssimo, então. Bjs.

Luísa Lima – Mulher, vomê me mata de tanto rir. Saudades. Beijos!

Naty L. Potter – Valeu Pichichinha! Espero que você continue gostando, por que eu quero dar um bocado de mim nessa. Bjão!

Lica Martins – Linda!! Nem demorei tanto, viu? Mas acabei a Just primeiro. Agosra é dedicação total... ou não. Minha cabecinha não para hehe. Obrigada pelo carinho, bjo grande para vc e a Cacá.

Ginny Potter – Rsrs, desculpe a demora então, hehe. Espero que goste. Bj.

-Lááh* - Obrigadão!! Espero que continue gostando dessa. Bjs.

Drika Granger – Muito, mas muito obrigada, mesmo Drika. Sim, eu realmente espero que a Floresta cubra o espaço deixado pelo Retorno com muito mistério e suspense. Espero que o primeiro capítulo mantenha a impressão do início. Bjão!

Mari_ Pompadour – Tb não sei se é possível, Mari. Vou torcer para que pelo menos empate no coração de vocês. Muito obrigada e bjs!

Kelly – Ah com certeza que ele vai aprontar, mas a aventura se faz de vitórias e derrotas dos dois lados, não é? Obrigada pelo carinho, querida. Bjão!

Bruna Britti – Festejando tb o elogio para capa, hehe. Eu sou um desastre como capista, mas me esforço. Obrigada pelos elogios ao prólogo, querida. Bom saber que vc vai estar aqui desde o início. Bjão!

Pedro Henrique Freitas – Muito, mas muito obrigada mesmo, Pedro. Fico feliz de vc ter gostado do fim da Just e de acompanhar esta também. Sobre a Georgea, pois é. Olha, ela não abandonou a fic, não, ok? É apenas uma daquelas fases da vida em o lazer fica reduzido ao mínimo por tantas razões que seria uma lista. Mas, com certeza, assim que puder, ela volta, ok? Não precisa se preocupar, só ter paciência. Bjs

Danielle Pereira – Ah Dani... que graça você. Muito obrigada. Espero que curta o capítulo. Bjs.


Um beijo enorme e estalado na bochecha de cada um
Sally

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