Acordou. Possuía certo receito. Olhou em volta, desconhecia o lugar. Sentia sua garganta arder intensamente. Suava frio e sentia calafrios. Olhou novamente ao redor, não havia ninguém. Ouviu passos apressados vindo na direção do quarto. Uma garota entrou carregando uma vasilha prateada e dois frascos de vidro. Parecia preocupada e cansada. Não percebeu que ele acordara. Misturou um dos frascos à vasilha mexendo de leve com os dedos enquanto temperava a água com a varinha. Sentou-se à beira da cama. Snape a observava com os olhos quase fechados, fingindo ainda estar desacordado. Ela levou uma mão à testa dele para ver se ainda tinha febre, a outra mão foi até a compressa embebida em uma poção esverdeada.
– Seja bem vindo. – disse suave, tentando manter a fraca aparência de tranqüilidade com um pequeno sorriso.
Snape encheu um pouco os pulmões para falar...
– Shhh, não fale. – disse olhando concentrada para o ferimento, prevendo a reação dele – Suas perguntas não vão ajudar o ferimento a fechar – olhou-o nos olhos – e, portanto sugiro que deixe o questionário para depois. – voltando-se para a vasilha para molhar a compressa.
Snape achou melhor não contestar. A garota estava certa. Sentia-se fraco. Acompanhava com os olhos cada movimento da garota que tornava a verificar os resultados da poção e colocava novamente a compressa no lugar.
– Você está na minha casa, e meu nome é Elisa – pausou – Elisa Sholkys.
Ele continuou observando-a, tentando lembrar-se dela, mas definitivamente não era uma aluna de Hogwarts, nem mesmo alguém que ele conhecesse, mas o nome, Sholkys, não era estranho já o tinha ouvido em algum lugar.
– Não o senhor não me conhece. – acrescentou ao perceber o cenho franzido dele – Eu o encontrei ferido na Casa dos Gritos e o trouxe para cá, para que pudesse cuidar de seu ferimento.
Snape arregalou os olhos. Lembrou-se de tudo que tinha acontecido na Casa dos Gritos, do ataque de Nagini, do Potter, e então...
“Não pode ser” – Ele pensou – “Como ela conseguiu? O que aconteceu com todos?”.
– Po-tter... – tentou dizer com um sussurro falhado
– Ele está bem. – Seus olhos se encontraram quando ela respondeu – Acabou.
Snape suspirou. Aquela notícia era realmente um alívio.
– Você ficou inconsciente por algumas horas. – Olhou as horas no relógio de pulso e após pegou outro frasco de vidro.
Percebeu que ele se recusaria a tomar o conteúdo do frasco pelo olhar hesitante dele.
- Pode confiar em mim senhor Snape. Sei que é difícil confiar em alguém que acabou de conhecer, mas não me empenharia em curar o rasgo na sua garganta se quisesse envenená-lo com uma poção. – encarou-o – Poção que o senhor tomará pela quinta vez. – Foi ríspida, irritou-se com o fato dele desconfiar dela depois de tantas horas ao lado dele, cuidando-o
Lançou a mão por baixo do travesseiro, erguendo levemente a cabeça de Snape para que ele pudesse beber a poção.
– Reconhece o gosto? Perguntou
Ele afirmou com a cabeça.
– Os feitiços que conheço não foram capazes de curar seu ferimento. Aquela cobra deveria ter um veneno incomum que impede que o ferimento se feche. – Suspirou – É por isso que você está tomando a poção de repor o sangue de hora em hora.
Elisa terminou com a compressa e colocou uma nova atadura. Jogou a compressa e as ataduras banhadas de sangue dentro da vasilha e se levantou.
- Vou preparar algo para você comer. Deve estar com fome. – Saiu do quarto sem esperar resposta.
Desistiu de tentar encontrar respostas para o que acontecera. Queria descansar, havia tido uma noite exaustiva, estava ferido e cansado. Elisa voltou trazendo uma bandeja com um caldo de frango. Colocou em cima do criado mudo e voltou-se para Snape a fim de ajudá-lo a sentar-se. Ele recusou qualquer forma de ajuda desta vez. Detestava o fato de depender dos outros e principalmente ficar vulnerável como nesta situação. Elisa percebeu isso, por isso deixou que ele se sentasse sozinho. Entregou-lhe a bandeja e sentou-se na poltrona perto da cama.
Snape percebeu que estava com uma camiseta. Puxou a frente para ver a estampa de cor azul céu tinha um grande “T”, símbolo dos tornados. Ergueu uma sobrancelha para Elisa como se pedisse uma explicação.
- É... Bem a sua camisa eu... Lavei. E essa era a única camiseta hum... Maior que tinha aqui. – Mexeu os lábios esboçando um sorriso
Snape percebeu que a garota corou ao responder, a camiseta certamente não era dela. Deu um mínimo sorriso irônico e desviou o olhar para o prato.
Snape provou o caldo. Estava completamente insosso. Pensou que a garota não deveria ter bons dotes culinários, porém ao engolir, entendeu a falta de sal. Sua garganta ardeu fortemente. Ergueu a cabeça em busca de ar, seus olhos lacrimejaram tamanha a sua dor. Elisa conjurou um copo de água e entregou a ele. Ele recusou.
– Olha não vai adiantar nada você ficar bancando o rebelde. Compreendo que não goste que os outros lhe ajudem, mas, por favor, senhor... - “vê se enxerga a situação em que se encontra!” completou mentalmente.
Snape aceitou contrafeito o copo de água, e voltou-se para o caldo. Novamente a ardência o atingiu, não tinha, porém nada que se pudesse fazer contra isso. Após a refeição Elisa o ajudou a deitar-se novamente e saiu do quarto lhe desejando boa noite.
Snape ainda ficou um tempo acordado tentando lembrar-se de algo que pudesse ajudá-lo a compreender como chegou até aquele lugar. Adormeceu por puro cansaço.
O dia seguinte não foi diferente. Quando Snape acordou – depois de uma noite conturbada e cheia de pesadelos – a garota estava sentada ao seu lado na cama o observando enquanto pressionava novamente uma compressa no seu ferimento que continuava a sangrar. Snape percebeu que ela olhava para seu antebraço esquerdo. Quando se voltou à compressa, Elisa percebeu que ele acordara. Percebeu também que ele ficara mais desconfortável pelo fato dela estar observando a marca negra. Retirou a compressa para embebê-la novamente na poção.
“Droga. Não está funcionando” – pensou enquanto torcia a bandagem – “Porque não está cicatrizando? Já deveria ter fechado”.
Snape levantou levemente o braço esquerdo. A marca negra estava ficando mais clara, como depois da primeira queda de Voldemort.
Elisa ficou durante algum tempo absorta nos próprios pensamentos, enquanto terminava a compressa. Snape ficou observando a garota. Ela não olhou um segundo para ele. Pressionava com firmeza o ferimento, seus olhos, porém estavam distantes, ora mordia o lábio, franzia o cenho ou erguia a sobrancelha. Às vezes parecia estática e imóvel. Ela colocou curativos limpos nele, pegou a vasilha com as compressas e saiu do quarto sem uma palavra.
“Deve ter ficado impressionada” – pesou sarcástico – “Achou que podia lidar com tal situação, cuidar de um homem que carrega tantas mortes de amigos e conhecidos”.
A garota, porém, voltou trazendo-lhe o café. Uma coruja marrom pousou sobre a escrivaninha e ficou observando a cena. Terminado o café, ela retirou a badeja e ajudou-o a deitar-se novamente.
– Preciso ir ao Beco Diagonal comprar alguns ingredientes das poções que o senhor está tomando. Aquela ali é a Hasty. Se você acenar, ela vai ir até onde estou e eu voltarei imediatamente.
Snape fez sinal de que tinha entendido.
– Não vou demorar. – e saiu
A coruja permaneceu atenta a cada movimento de Snape, ele logo adormeceu novamente.
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* Hasty (heisti): apressado, precipitado, violento vivo, impetuoso, veemente, colérico, apaixonado.
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