“A história do mundo é o julgamento do mundo”
F. S.
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-Acorda, Ron! Já está na hora...
Rony resmunga qualquer coisa e torna a se virar, se acomodando melhor nos lençóis. Em poucos segundos seu ronco pôde ser ouvido novamente pelos seus colegas de quarto, Seamus, Neville, Dean e Harry.
-ACORDA, RON!!! – berra Potter, impaciente, no ouvido do amigo.
Weasley se levanta em pânico, descobrindo-se rapidamente. – O quê? Quando? Er...
Seamus soltou uma risada, pois a visão do amigo não era a das melhores: cabelos desalinhados que desafiavam a gravidade, baba seca no canto da boca e o rosto com vincos, marcas de fronha. – Ron, parece que você veio de alguma guerra.
-Ah... não. Hoje começam as aulas... puxa.... – o inconsolável grifinório se dirige a contragosto ao banheiro para a higiene matutina.
-Se ele não for rápido – comenta Dean, terminando de colocar a gravata – vai perder o desjejum. – ele se levanta e caminha para fora. – Vamos, Seamus, vamos, Neville. Harry vai esperar o Rony, não é, Harry?
-Sim, vão indo. – disse Potter, suspirando.
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-Onde estão meus livros? Tinha deixado eles todos aqui, na prateleira!
Hermione estava arrumada, com a mochila nas mãos, porém procurava os dois livros para as aulas daquela manhã: Historia da Magia e Poções. Lilá ajeitava os cabelos enquanto ouvia os resmungos da colega de classe.
-Eu não peguei, já bastam os meus! Esses livros são pesadíssimos, me deixam com dor nas costas. – ela dá um retoque final nas pontas com a varinha, fazendo com que elas fiquem sedosas. – E você nunca me ensina o feitiço para deixá-los leves...
-Tem nos livros, Lilá. – responde secamente. - Alguém que consegue transformar cabelo seco em sedoso consegue, com certeza, fazer essa outra magia.
Parvati entra no dormitório, saindo do banheiro. – Vamos, meninas, já estamos atrasadas. – ela pega sua mochila, dando uma olhada no espelho antes de sair.
Hermione, muito irritada, convoca um “Accio livros!” novamente e nada acontece. – Não é possível! É o meu fim! Perdi os livros das primeiras aulas do ano!!! – ela começa a ficar em pânico – Isso é um sinal! Justo no ano dos NOMs...
Lilá sorri discretamente pelas costas da colega de classe e suspira, fazendo uma expressão inconsolável: - Mione, vamos indo. Alguém divide com você a matéria de hoje. Não é o fim do mundo. – e sai do dormitório.
-Isso não é um bom sinal. – murmura a bruxinha, carregando sua mochila muito leve para o Salão Principal.
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Kairi balança delicadamente sua senhora. – Acorde, Menininha, já é hora, é sim. – Ava abre os olhos vagarosamente, sentindo a claridade entrar pelas cortinas já abertas pela elfa.
Levantou-se e tomou seu banho bem rápido. Sua elfa colocava suas roupas na cama e sua capa negra de veludo e a bruxa impacientemente se veste. – Estou muito nervosa... pre-ci-so me acalmar... – disse pra si mesma - vai dar tudo certo, Sirius e Remus me ajudaram, Dumbledore aprovou o método... sim, tudo certo...
Colocou o livro da aula, um caderno, pena e tinteiro numa pasta, e também a lista dos alunos do quinto ano daquela manhã: casa Grifinória e casa Sonserina. Sorriu ao ver o nome de seu afilhado.
Ela dá uma última olhada no espelho e de repente estranha o que vê. Seu rosto adulto, suas vestes de professora, seu ar sério. Desde que chegou a Hogwarts, suas sensações eram de uma aluna que retornava. Como se a qualquer momento uma companheira de quarto aparecesse para chamá-la para mais um dia de aula. “Não sou mais a aluna... nem a ex-aluna... serei lembrada, agora, como a professora Sheppard...” Surge um frio em sua barriga, que ela não reconhece como medo da aula em si. Nem dos alunos. Ela sente é que uma outra história sua recomeça, dali em diante. E uma angústia se instala em seu coração – Ora, Ava. – diz para o espelho – Você já enfrentou coisas piores – a imagem do espelho sorri, tentando animá-la. – Sim... e muito pior – e Ava força a memória, trazendo a lembrança os motivos de prosseguir, mas vários fatores da ‘lista de impossíveis’ destacou-se em sua mente. - Uma gota no meio do oceano... – ela balbucia. Porém se lembra de uma frase que as anciãs sempre repetiam a ela:
“Nada na vida é completamente errado. Até um relógio quebrado, duas vezes ao dia está marcando a hora certa.”(1)
A voz de Dumbledore a aconselhando surge também em sua mente: “Muitos desses alunos serão, futuramente, os novos Comensais da Morte. Seguindo a determinação de seus pais, é claro. Precisamos influenciá-los, de alguma forma, para que pensem no que fazem e não simplesmente que continuem a seguir o destino sem questionar a nada. Eles precisam ter escolhas, e escolhas conscientes.”
-Isso! – e a imagem de seu espelho sorri fracamente, vislumbrando um sinal de esperança. – Valerá a pena...
Ava dá as costas ao seu reflexo e sai para o Salão Principal, onde tomará seu desjejum.
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-Eu já disse que tinha colocado na minha mochila. – afirma Hermione para um sonolento Rony enquanto pegava um pedaço de bolo de chocolate. – Como pode sumir assim?
-Mione... – resmunga Weasley – não está embaixo de sua cama? Sei lá... escorregado de sua mochila?
-Você pode ler comigo nas aulas – ofereceu Harry, sorrindo. – Acho que os professores não vão se opor...
-Não! – protesta Rony, já desperto. – Você vai ler é comigo, eu faço esse sacrifício...
-Sacrifício? – questiona a garota estreitando perigosamente os olhos.
-Er... não, favor!! Eu quis dizer “favor”! – corrige-se a tempo o ruivo. – Faço esse favor, afinal, amigos são para isso.
A garota sorri satisfeita e um pouco corada e trata de terminar seu café da manhã.
Lilá mordiscava uma torrada pensativa, de vez em quando lançando olhares para o trio com a testa franzida.
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-Está uma linda manhã! – avisa um professor muito baixo, de cabelos brancos, que Ava reconheceu como seu antigo Prof. Filius Flitwick, da matéria ‘Feitiços’, que logo se senta em um lugar vago na mesa dos professores – Meu apetite está excelente! – e abocanha um bom pedaço de torta de abóbora. ‘Agora colegas’, pensa a bruxa.
-Logo se vê, Flitwick. – diz Snape, com expressão enjoada.
-Professora Sheppard – chama Flitwick – lembro-me que a senhorita já foi minha aluna!
Ela sorri – Sim, já fui sua aluna, turma de 71.
-Muito inteligente! – comenta o professor a todos, deixando Ava corada. – Uma das mais brilhantes, eu diria. Oh, não fique constrangida, é a verdade! Lembro-me que era você, a Evans, o Potter... – ele franziu a testa, forçando a lembrança. -... ah, o Black e o Lupin! Sim, todos excepcionais! – ele começa a rir, balançando a cabeça. – O Potter e o Black eram terríveis... deixavam qualquer professor – e em voz baixa – e o Sr. Filch, claro, de cabelos em pé!
Snape escutava aquela conversa com desagrado, fazendo levemente uma careta de horror.
Umbridge senta-se à mesa com expressão tensa e compenetrada. Olhava a todos com desconfiança e rancor, mas quando falava, um sorriso forçado surgiu em seus lábios e uma voz fina saía de sua boca. – Não, obrigada. – disse após o oferecimento de Flitwick de mais torradas com geléia. – Eu já peguei algumas torradas e essas já estão excelentes, meu caro.
-Ainda indisposta?
Seus olhos faiscaram a menção do incômodo da noite anterior. – Não... estou muito bem. – e sorriu – Não é uma indisposiçãozinha à toa que me tirará do meu dever. Darei aula dupla para adoráveis crianças do sexto ano agora de manhã e nada como olhares angelicais para estimular o espírito!
McGonagall e Flitwick trocam olhares. Ava sufoca um riso, colocando uma boa porção de ovos mexidos na boca enquanto Snape mantém-se impassível.
-Srta. Sheppard... – Umbridge se corrige. – Profa. Sheppard! – e dá uma risadinha aguda. – Bom... é nova professora, não? – Ava se vira para ela lentamente, aguardando as próximas observações.
-Bem perspicaz, Umbridge – comenta McGonagall secamente. – Levando-se em conta que foi apresentada ontem como tal e agora está sentada entre nós.
Umbridge a ignora.
-Tenho ouvido falar muito de você.... sobretudo no Profeta Diário. – ela dá uma pausa. – Atualizações diárias sobre Ava W. Sheppard... não?
Ava gela: - Como assim, Umbridge?
Umbridge dá um sorriso vitorioso enquanto retirava um exemplar do jornal de sua pasta. – Veja, esse é de ontem. – e dá outra risadinha aguda. – Pode ficar com ele. É provável que venha, na edição de hoje, mais notícias....
Sheppard pega das mãos da professora o exemplar e passa os olhos nas chamadas principais: - “Confirmado: ex-noiva de Você-Sabe-Quem dará aulas em Hogwarts!”... “Lucius Malfoy convoca reunião extraordinária com o Conselho Escolar para decidir sua permanência.”
Ava estremece levemente, sentindo muitos olhares sobre si. Snape a observava firmemente, mas desvia o olhar quando ela o encara. Ava percebe certa preocupação nele, como se realmente se sentisse interessado nos seus infortúnios.
-Bobagens – sentencia a nova professora, dobrando o jornal e o jogando de lado. - O Profeta Diário, há muito tempo, não é um jornal confiável. Se alimenta de fofocas, boatos e notícias sensacionalistas. – Umbridge resmunga algo, desconfortável. – Um jornal de verdade deveria se ater a fatos e não a especulações ridículas. – Ava faz uma pausa e sorri de repente. – Engraçado é que não é só na nossa sociedade que isso acontece. Sabiam que os trouxas têm o mesmo problema?
Umbridge faz uma expressão horrorizada: - Como assim trouxas? Não admito que nos compare a eles!!
Ava franze a sobrancelha, incrédula: - Nossa sociedade é bem parecida com a deles, em muitos aspectos! Comparar não é, necessariamente, diminuir. – e acrescenta sorridente: - Nem a um nem ao outro.
-Hora da primeira aula. – avisa McGonagall se erguendo. Naquele momento, vários alunos se levantam de suas mesas e alguns professores também.
Ava pega sua pasta e caminha para a ala leste, ao lado de muitos alunos, de variadas casas e tamanhos, entre risos e bocejos dos adolescentes. Atrás dela vinha Snape, sisudo, testa franzida e compenetrado com algum pensamento. Logo Ava estava na porta de sua sala. Os seus alunos já estavam em suas mesas, conversando animadamente.
Ela adentra com um meio sorriso e um bom dia seco. Um silêncio de vozes se faz de repente dando lugar a sons de livros se abrindo, tinteiros sendo postos em cima da mesa.
-Como todos sabem, sou a professora Sheppard, a nova professora de vocês de História da Magia – diz ela calmamente. – Até ano passado, era o Sr. Binns quem dava aulas, porém ele teve que se aposentar. Muito provavelmente desta vida – algumas risadinhas por parte dos alunos. – Gostaria, antes de começar com a leitura e a aula, saber o que vocês acham dessa matéria. No que ela é útil para vocês.
Um silêncio gritante se estabeleceu na sala. Alguns dos alunos se entreolhavam, confusos. Ela queria saber a opinião deles? Muitos esperaram que Granger se manifestasse, mas foi a voz de Draco Malfoy a ser ouvida primeiro.
-Professora Sheppard – começou o sonserino, - creio que essa matéria é muito importante para sabermos tudo que ocorreu com nossos antepassados, aprendendo com eles nos seus erros e acertos.
O grupo dos sonserinos sorriu entre si, orgulhoso. Malfoy olhou rapidamente para Potter, dando um sorriso arrogante.
-Muito bem, Malfoy. – concordou Ava. – Dez pontos para Sonserina. Agora, poderia nos listar alguns erros e acertos do passado e o que foi aprendido com isso?
Ele franze a testa, pensativo. Parvati dá uma risadinha com Lilá, vendo o fiasco do sonserino. Hermione levanta a mão freneticamente mas se frustra ao ver que a professora a ignora.
-Então, Malfoy, não se lembra de nada? De nenhum fato, pelo menos? -
Ava começou a andar de um lado ao outro, enquanto continuava a falar. Seu olhar, finalmente, se detém em Granger: - Fale um fato histórico, Granger, e o que podemos aprender com ele.
Hermione sorri, satisfeita: - Bem, professora, temos a Revolta dos Duendes, século dezoito. Ela é bem extensa...
-Cite um fato dentro dessa revolta que lhe chamou atenção. – cortou a mestra.
-Chamou-me atenção o fato que os bruxos subestimaram os duendes. – começou Hermione, com várias exclamações indignadas na classe. – Eles eram... são, na verdade, tão inteligentes como nós e com poderes semelhantes. Conseguimos escravizar os elfos, o que é, em minha opinião, um crime! – Rony, neste momento, esconde a cara nas mãos. – Mas os duendes são orgulhosos: lutaram e conseguiram seu espaço nesse mundo.
-Ótimo, Granger. – disse Ava, espantada com a inteligência da aluna. – Dez pontos para Grifinória! – Rony agora descobre o rosto e sorri para Hermione. – Como podemos ver, ao contemplar o passado, muitas vezes temos um painel muito interessante não sobre “quem fomos” e sim sobre “quem somos”. Podemos observar que sempre houve escolhas a serem feitas e o resultado delas é o nosso presente. Malfoy disse que História serve para aprendermos com os erros e acertos de nossos antepassados, o que é correto, mas não é tudo. Ela nos dá, sobretudo, consciência do mundo a nossa volta, dos homens e da sociedade. Porque nem todo o erro observado no passado deixará de ser cometido no presente ou futuro, pois veremos nesta matéria que, muitas vezes, as pessoas escolhem é o que é “menos pior”.
-Mas certo é certo e errado é errado, professora. – contesta Seamus.
-Sim, continuam sendo isso... er...seu nome?
-Finnigan.
-Sim, Finnigan, continuam sendo “certo e errado”. Mas tomo um exemplo a revolta dos duendes, citado por Granger. Houve um episódio, creio que vocês aprenderam ano passado, é matéria do quarto ano. Um ataque de bruxos a uma casa de duendes, não gostavam deles na aldeia. Os duendes da casa era um casal e seus filhos. O chefe dessa família matou os bruxos sem pestanejar. Com isso, foi preso e condenado à morte, dando início a famosa revolta. Diga-me, Finnigan, isso foi justo?
-Claro que não! – disse o aluno com fervor.
-Na época foi mais que justo. Era o certo. Duendes não podiam, em hipótese alguma, ferir e muito menos matar um bruxo. Mas para o contrário não havia lei alguma. Óbvio, quem fazia as leis era o conselho dos bruxos! Eu quero dizer com isso que devemos sempre analisar o contexto. Atualmente, há muitas coisas erradas que são tomadas como corretas. Porém, é provável que no futuro, numa classe como essa, se estará condenando é o atual estado das coisas.
Seamus não teve resposta para o argumento, abaixando a cabeça em derrota. Malfoy cochichou algo para Crabbe com expressão séria.
-Malfoy – chama a professora – Há algo que queira compartilhar conosco?
O sonserino a encara com expressão suave – Não, professora. Apenas comentava que, finalmente, temos uma aula decente de História.
Ava arqueou as sobrancelhas, incrédula, mas o olhar de Malfoy transmitia sinceridade. “Hum... ele não é tão mau quanto me alertaram. Afinal, é apenas um garoto de quinze anos.”
-Obrigada, Malfoy. Bom, agora que temos alguma idéia da função dessa matéria, vamos a ela. – Ava pegou sua varinha com ar misterioso – Ela será bem diferente da que o Sr. Binns costumava dar. Nós literalmente entraremos na história, veremos de perto as cenas ocorridas em cada capítulo do livro.
Weasley riu: - Entrar na história? Isso é impossível, professora!
-Quase nada é impossível, Weasley. Somos bruxos! – e com o sacudir da varinha, uma luz dourada se materializou próxima a ela, surgindo nesta luz um grande espelho, um pouco maior que a professora. Ele não parecia ser sólido, antes uma ondulação suave o envolvia. Muitos alunos arregalaram os olhos, pasmos. Draco Malfoy arqueou as sobrancelhas, desconfiado. – Aparentemente um espelho, como podem ver. Mas na verdade é um portal. Esse portal nos transportará para uma realidade do passado, a que escolhermos. Granger, leia nosso primeiro capítulo.
Hermione puxa o livro de Rony e, com certo nervosismo, começa a leitura:
“Capítulo 1: Guerra dos Gigantes. Introdução: Fatos que antecederam a guerra.”
A aluna limpou a garganta e continuou a recitar o capítulo: “Em toda a história, nunca houve uma verdadeira amizade entre bruxos e os gigantes, e sim uma forçada tolerância derivada d´O Pacto de Diwerth, do século XV, plenamente descrito no livro do terceiro ano. Como em muitos pactos e acordos, uma minoria era contrária ao termos estabelecidos, e isso ocorreu em ambos os lados. A minoria bruxa aguardou o momento certo para se manifestar abertamente e angariar mais adeptos a fim de quebrar o Pacto e impor suas condições.”
-Esse trecho – informa a professora - descreve a insatisfação dessa minoria sobre o que foi acordado no Pacto. Alguém lembra quais foram os termos?
Como sempre, Hermione levanta as mãos e é ela quem recita todos os termos, em detalhes. Rony tinha virado o rosto para Harry e imitado discretamente a amiga, fazendo caretas. Lilá, que observava atentamente o ruivo, segurava risadinhas com a mão.
Logo após, Hermione continua a ler todo capítulo um, com pausas explicativas da professora e algumas perguntas dos alunos. Harry percebeu que a aula estava interessante pelo simples fato que nem ele e nem Rony haviam dormido ainda.
-Agora, entremos no portal para vermos algumas cenas que lemos hoje, como ilustração. Creio que, com isso, dificilmente vocês esquecerão do que foi estudado. - ela se aproxima do portal. – Quem será o primeiro? Potter?
Com a ‘convocação’, Harry se levantou e foi o primeiro da fila, encorajado por sua madrinha. Relutantemente colocou uma mão no espelho, que entrou na superfície ondulada. Colocou o resto do braço, e depois o corpo todo, sempre com a varinha a postos. Quando o garoto desapareceu, ouve burburinhos amedrontados. – Não tenham medo, quem é o próximo? – chamou a professora.
Hermione se levantou, respirou fundo e seguiu adiante, indo direto para a superfície do espelho, sumindo logo após. – Vamos, não temos tempo a perder. Weasley, Patil, Brown, Longbottom... vamos! – um a um iam desaparecendo dentro do espelho.
Ava entrou logo após o último aluno: Malfoy. Ela sorriu ao ver o que encontrou: estavam ao pé de uma montanha, com vista a um grande vale com um lago ao centro, com montanhas altas em volta, numa paisagem muito convidativa. “Tudo certo”.
Os alunos olhavam para todos os lados, analisando cada detalhe do local. Malfoy cochichava algo para Parkinson, que dava risadinhas maliciosas.
-Onde estamos, professora? - perguntou Longbottom.
-Estamos no capítulo um. Exatamente, na região de Greenland, onde ocorreu a guerra dos gigantes.
-O QUÊ? –gritou Rony, ficando vermelho e trêmulo. – Aqui t-tem gigantes?
Ava riu. – Lembrem-se todos: isso é uma simulação. Não poderemos nos ferir com uma simulação. Iremos ser expectadores. – e com um movimento de sua varinha, os alunos começaram a ouvir uns rugidos e sentir o chão tremer.
-Q-que que é isso? – gagueja Malfoy.
-Os gigantes. – responde Ava, concentrada. – Eles estão passeando nesse vale, mas são poucos: exatamente três, uma família completa. Eles não gostam de viver em um grupo extenso, pois isso cria rivalidades e mortes.
Outro rugido soa forte e de repente um gigante de uns seis metros aparece no vale, andando vagarosamente até o lago, próximo aos alunos. Outros dois gigantes aparecem: um com uns cinco metros e o último com dois metros, em média.
-Aquele bebendo água é o líder de sua família. Aquele menor é a mãe e o mais baixo de todos é o filho, ainda criança, com seus vinte anos de idade.
-Vinte anos? Criança? – contesta Malfoy.
-Sim, criança com vinte anos. Eles viram adolescentes aos cinqüenta anos e adultos com oitenta. Vivem, em média, cento e cinquenta anos e geralmente tem apenas um filho na vida. – ela se vira para o grupo de alunos. – Por isso defende sua família com tanto fervor: se um deles morrer, sobretudo o filho, ficará muito difícil dar continuidade ao seu clã. – ela se volta para os gigantes. - Vamos ficar mais perto deles. Não tenham medo!
A professora liderou o temeroso grupo até o lago, onde os gigantes estavam recolhendo água. Harry se agachou para tocar a água e sentiu sua frieza: - Eu sinto a água! Isso não é uma simulação?
-Você sente sua temperatura, sua textura, mas, por favor, não a beba! Isso fará um mal horrível ao seu organismo, - e acrescenta com olhos estreitos - talvez uma morte horrenda.
Harry engoliu em seco e se afastou da água rapidamente, secando suas mãos em suas roupas no tempo que a professora explicava mais detalhes sobre a vida dos gigantes. Malfoy se aproxima silenciosamente dele e pergunta baixinho: - Tá com sede, Potter? Eu conjuro um copo para você.
-Não enche, Malfoy. Não aceitaria nada de você, nem que fosse para salvar minha vida. Muito menos para exterminá-la!
Enquanto eles ‘conversavam’, Parkinson havia conjurado um pote com tampa e se agachado na beirada do lago. Retirou um pouco d´água e tampou rapidamente o vasilhame, o escondendo dentro de seu bolso.
-Vou guardar isso para o futuro. – responde o sonserino misteriosamente para Potter. E ele deu uma olhada de soslaio para a amiga.
A aula continua e Ava sempre mudava a simulação, atendo o grupo aos fatos importantes da Guerra dos Gigantes. Poucos alunos se contiveram nas lágrimas ao ver o massacre dos gigantes ao final da guerra, e quão poucos sobraram para dar a tal “continuidade ao seu clã”. Também se revoltaram com a morte do lado dos bruxos, mortes um tanto chocantes.
-A aula acabou. – avisou Ava, balançando sua varinha e materializando, novamente, o portal dourado. – Vamos voltar à sala de aula. E antes que me esqueça, uma redação de trinta centímetros sobre esta guerra.
Vários “aaaaahhh” foram ouvidos naquele vale.
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-Cara, sua madrinha é ótima!! – diz Rony a Harry, entusiasmado, enquanto caminhavam pelos corredores para a próxima aula: Poções. – Nunca vi aula tão legal de História... mas não sei se isso é tão bom, visto que a outra opção era o professor Binns...
-Uau, é muito inteligente! – diz Hermione excitada. – Não sabia que ela era professora mesmo, pensei que estava aqui só para te proteger, Harry!
-Eu também – disse Harry, pensativo – Eu gostei muito do espelho, ele leva para onde a gente quiser!
Hermione o corrige – Não, não! É um local fantasiado, não existe de verdade. Mas foi bem bolado... será que ela pensou isso sozinha ou teve ajuda de Dumbledore?
-Acho que ela deve ter sido ajudada pelo Sirius e pelo professor Lupin. – conta Rony baixinho. – Eu vi os três cochichando na biblioteca, uma vez, sobre as aulas. E convenhamos: para quem criou o Mapa do Maroto, um espelho portal é baba.
Hermione sacudiu a cabeça, sorrindo, parando em frente a sala de aula: - Desta vez tenho que concordar com você, Rony.
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Quando terminou de dar a última aula antes do almoço, Ava suspirou contente. Arrumava suas coisas na pasta enquanto os alunos do terceiro ano, da Corvinal e da Sonserina, corriam para fora em algazarra, se dirigindo para o Salão Principal.
Por uns instantes, ela se sentou e começou a pensar em Sirius. Um sorriso surgiu em seus lábios, uma saudade apertou seu coração docemente. “Queria você aqui comigo...” Por tantos anos sufocou todo sentimento por ele e agora era maravilhosamente bom poder sentir livremente todo o amor de sua alma, derramá-lo como uma oferenda.
“connexio extremus”
“Sirius...” chamou a bruxa em pensamento. “Sirius, estou com saudades...”
“Querida...” ele respondeu em sua mente após algum tempo. “Eu também estou. Como estão as aulas?”
“Estão bem. Dei três... foram ótimas, acho que os alunos gostaram. Depois pergunto ao Harry sobre isso.”
“Que bom, Ava. Moony está preparando o almoço, ele cozinha bem.”
“Molly não está aí?”
“Voltaram para Toca assim que vocês pegaram o trem. Dumbledore reforçou os feitiços de proteção.”
“Que ótimo! Onde será que Moony aprendeu a cozinhar? Não sabia nem fritar um ovo!”
“Acho que ele anda tendo aulas com certa moça de cabelos azuis.”
“Excelente! Você não passará fome, então.”
“Nunca. Qualquer coisa te chamaria...” - e Sirius ri pra si mesmo.
“Vai esperando, Sr. Sirius Black. Para cozinhar cobro caro.”
“Mesmo sendo minha mulher???”
“Eu não sou sua mulher, apenas sua noiva. Noivas não têm obrigação nenhuma, que eu saiba. Apenas obrigação de amar e amar...”
“Isso você tem cumprido, pelo que vejo. Menos em um quesito.” – acrescenta malicioso.
“Não por minha vontade...” – e Ava cora.
“Então Ava Sheppard sente vontades...?”
“Ora, pára, Sirius. Fico sem graça, você sabe. Agora vou eu almoçar, tenho aulas a dar daqui à uma hora e meia.”
“Então vai, meu amor. Qualquer coisa, me avise.”
“Certo, amor. Muitos beijos.”
“Muitos em você também.”
“Desfazer conexão.”- e ela sorria sozinha.
Ao levantar o olhar, Ava percebe que Snape estava encostado na porta, como se estivesse esperando por ela.
-Se eu fosse menos perspicaz, não perceberia que você estava se comunicando com alguém.
Sem responder, a bruxa pega suas coisas e começa a se dirigir para a porta. Snape não se mexe, impedindo a saída. Bem próxima a ele, Ava olha fixamente nos olhos do professor.
-O que você quer, Snape? – pergunta rispidamente.
-Tenho um recado de Minerva. Parece que ela não poderá ir aos seus aposentos hoje, já tem uma detenção a aplicar. Injustamente para dois alunos do sétimo ano da sonserina.
-Sonserina nunca foi famosa pelas boas maneiras. – ela suspirou – Depois falo com ela para remarcar. Só isso?
-Insisto em marcar aquela conversa nossa. A sós ou com Dumbledore, como queira.
-O que temos para conversar? – o olhar da bruxa transparecia muita mágoa. - Sobre sua traição? Dumbledore o perdoou, mas vai ser difícil eu engolir suas desculpas. Eu podia perdoar sua raiva com James, mas não ao ponto que chegou. Éramos amigos, Snape! Você, eu e a Lily! Ela morreu e você teve parte nisso!
Snape fica pálido por uns instantes e balbucia: - Ela teria me perdoado!
Ava olha para o professor por uns instantes e, calada, sai da sala, deixando o diretor da Sonserina a sós com seus pensamentos.
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No resto do dia, as aulas de Ava transcorreram muito bem, com os alunos surpreendidos com o método de ensino. Esse era um dos assuntos do dia, rivalizando com outro tema: as aulas da professora Umbridge, mas de um modo oposto: todos odiavam a nova professora de DCAT. Ava ouviu comentários como: autoritária, falsa e outros termos mais grosseiros.
Em seu aposento, à noite, aguardava ansiosa pela visita de Harry. Ava convidou o afilhado, que encontrou no corredor, para visitá-la. “É no sétimo andar, querido. Se quiser, pode trazer seus amigos, sim?”. O que foi prontamente aceito pelo garoto.
Kairi tinha trazido umas tortinhas, bolinhos e leite com chocolate e arrumado na mesinha de centro com pratinhos e copos para os convidados se servirem. Enquanto isso, a bruxa desempacotava uns livros de sua mala e os organizava nas prateleiras. Ela ouviu umas batidas na porta e, dispensando Kairi, foi abrir a porta para Harry e seus amigos entrarem.
Rony cumprimentou a professora e foi logo se sentando, de olho nas tortinhas. Hermione rolou os olhos, cumprimentando também e se sentando ao lado do ruivo. A garota coçou o pescoço nervosamente. Ava deu um abraço em Harry e um beijo em sua bochecha, deixando o garoto corado. – Venha, sente-se.
-Como foi o dia de vocês? – perguntou ela, se sentando e pegando uma tortinha. – Sirvam-se, fiquem à vontade. – e apontou em direção a mesinha.
-O Harry se estranhou com a Umbridge. – disse Rony, pegando uma tortinha e dando uma boa mordida.
-Não fale assim! – repreendeu Hermione, coçando novamente o pescoço e depois enchendo um copo de achocolatado. – Professo... quer dizer... chamo de professora, srta...?
Ava riu: - Não, quando estamos entre nós, gostaria que me chamassem de Ava. Em sala de aula, é professora. E esqueçam o “senhorita”.
-Então, Ava, o Harry, na aula de DCAT se desentendeu com a professora Umbridge, visto que ele insistiu em afirmar que Você-Sabe-Quem voltou! E, claro, ela e toda Hogwarts negam esse fato!
Ava sorriu amarga: - Ela é do Ministério, só está fazendo o papel dela, que é desacreditar Harry e Dumbledore para toda sociedade. De quebra, tentar me incriminar de alguma forma.
-Como assim? – questiona Harry, pegando um pedaço de bolo.
Hermione fica com expressão séria: - Eu sei, Ava. É sobre as reportagens do Profeta Diário, não é? - a professora confirma com a cabeça – Eu tenho lido todos os dias e agora não é só o Harry o assunto do dia. Você também, você e o Sirius.
-Sim. – confirma a professora - Engraçado, tudo que esse jornal publica vira certeza irrevogável. Sei que existe o Pasquim, mas esse é desacreditado totalmente.
-Esse é do pai da Luna Lovegood. – diz Rony rapidamente, entre uma tortinha e outra. – Ela é doida.
-Não fale assim. – discordou Harry. – Ela é apenas... estranha.
-Harry, até eu tenho que concordar com Rony. – disse Hermione, esfregando os dedos novamente no pescoço, que já estava vermelho. – Ela não é muito certa. – e se vira para Ava. – Luna acredita em tudo que o pai dela publica. Coisas absurdas...
A garota observa, no canto da sala, próxima a estante, uma caixa cheia de livros e alguns livros já na estante. – Você tem uma biblioteca aqui.... – comenta com olhos brilhantes.
-Pode olhar a vontade, Hermione. Sei que gosta de livros. – assentiu Ava, que continuou a conversar com os garotos.
Hermione se levantou e ficou observando todos os títulos da prateleira. Muitos ela reconheceu como livros trouxas, famosos, como “Macbeth”, “Hamlet”, “A República”, “A Apologia”, entre outros. Livros sobre magias curativas, defensivas e alguns em idioma desconhecido, que Hermione julgou ser escrita oriental. Ela torna a coçar o pescoço, que agora doía.
-Hermione, está tudo bem com você? – pergunta a madrinha de Harry, preocupada com as coceiras da garota.
-Ah... não sei... está coçando demais....
-Deixe-me ver.
Ava verifica rapidamente o pescoço da aluna, vendo a vermelhidão que se formou naquele local. Percebe também que ela usava um brinco de prata, discreto, em forma de uma estrela.
-Esse brinco é seu, emprestado ou o quê? – indaga a professora, com a testa franzida.
-É meu, eu ganhei da Lilá. – e abriu um sorriso – Ela está muito gentil!
-Deixe-me adivinhar: e começou a usar hoje?
Hermione arregala os olhos: - Sim.... você acha...
-Não acho, tenho certeza. Esse brinco está enfeitiçado, não sei como você não se matou de coceiras. – Ava verificou mais uma vez os brincos. – Mas parece que é um feitiço fraco ou mal feito, de alguém que não sabe direito como fazer. – Ela pegou sua varinha e disse: “Finite Incantatem”.
Rony deu uma olhada na amiga: - Ela continua com o pescoço vermelho, não adiantou.
-Sim, adiantou, Rony. – explicou a professora. – O vermelhidão vai passar naturalmente ou vá até Madame Pomfrey para acelerar o processo. O que cessou foi o feitiço que traz alergia. Não precisa nem tirar o brinco. Se continuasse, de manhã sua pele estaria em carne viva.
-Nossa... e foi a Lilá que te deu? –pergunta Harry espantado.
-Sim... – respondeu a garota, pensativa. – Será que ela teria a coragem...
-Pode não ter sido ela. – comentou Ava – Vai ver ela comprou em um local não recomendado, sem saber do feitiço. Isso acontece.
-Ah, sim! – disse Hermione – Só pode ser isso, Lilá e eu somos colegas de quarto, ela não seria capaz disso... Não somos amigas íntimas, mas ela sempre foi legal comigo e...
Um barulho na janela faz todos se sobressaltarem: era uma coruja afoita com uma mensagem. Ava retira o bilhete e lê somente para si:
“Cara Ava,
Sinto em informar mas o Ministério marcará uma audiência com você. Provavelmente nesta sexta, não tenho certeza. Eles enviarão uma coruja com essas informações.
Esteja preparada para um longo interrogatório.
De seu amigo
Arthur Weasley”
Os garotos ficaram olhando para ela em expectativa. Ava apenas sorri forçadamente, tentando despreocupá-los: - Não é nada, só uma audiência no Ministério. Era esperado.
-O que eles querem? – pergunta Harry.
-Saber sobre mim, sobre meu exílio, meu irmão e... – faz uma pausa, pensativa -... minhas supostas ligações com Voldemort.
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Nota da autora: Sem reviews novas... snif... vocês não têm coração!! =( snif snif
Próximo capítulo: O Interrogatório – ai ai... tadinha da Ava!! Não queria estar na pele dela...
(1) Frase de Paulo Coelho, em Brida.
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