“O poder é o camaleão ao contrário:
todos tomam a sua cor.”
M.F.
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-Isso é um gato?
Uma garotinha loirinha observava atenta um animalzinho pequeno, que deslizava pelo muro com destreza. O sol daquela tarde caía suavemente pelas coisas, aspecto de verão no ar.
-É um gato sim, menininha. – responde uma elfa doméstica que a acompanhava. - Por favor, não suba no muro, seu pai não vai gostar!
A garotinha conjura uma corda e deseja que ela se amarre no topo da parede. A corda se firma, obedecendo aos desejos da menininha, e ela perigosamente escala o muro, tentando alcançar o gatinho que, hábil, corre para longe, em cima do muro. – Vem gatinho, vem...
Ao chegar lá em cima, ignorando os protestos desesperados da elfa, algo a deixa boquiaberta. Do lado de fora havia uma espessa massa branca espalhada por todo chão, e bolinhas também brancas constantemente caindo do céu.
-Kairi, isso é demais! Venha ver... tem coisas brancas desse lado, é tão bonito!
-Menininha, saia daí! Seu pai deve ter sido alertado pelos alarmes de segurança, corra! – Kairi sacudia as mãos, trêmulas.
-Oh... papai está vindo? – a garotinha desejou flutuar até o chão, o que aconteceu. Ela dá risadinhas. – Ah, consegui, finalmente, flutuar!!! Viu, Kairi, dessa vez não me machuquei!!
-Menininha, vamos logo, corra para sua casa. Seu pai não vai gostar nada disso, ele te castigará!
A garotinha está embevecida por ter conseguido mais uma proeza, e não dá a devida atenção a elfa. Deixa-se levar pela escrava, correndo pelo jardim florido até dentro de sua casa, entre o feito e a lembrança da brancura lá fora.
Em seu quarto, desejou que as bolinhas brancas aparecessem e todo o espaço foi tomado por flocos brancos, caindo por todos os móveis. Ela ria e girava flutuando, parecendo estar num sonho bom. A elfa implorava para que ela descesse e desfizesse toda aquela bagunça, mas a menininha não se importava.
Passou-se muito tempo antes que a garotinha visse novamente neve.
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-Mamãe, papai vai demorar? Quero entregar o presente dele logo! – reclamou uma garotinha de vestido rosa até os pés, de longas tranças loiras claras.
-Filha, a impaciência não é de bom tom para os Sheppard, muito menos demonstrá-la. – refutou uma senhora de trajes escuros, cabelos loiros presos em um complicado penteado - Acalme-se, vá brincar com Edouard enquanto isso. Creio que ele esteja no jardim com o filho dos Malfoy.
-Com Lucius? – a menina fez uma careta – Detesto ele, ele é muito chato, mamãe! Ele colocou um sapo no meu copo, um dia, e pôs aranha dentro do meu bolso.
Sra. Sheppard a olha com desalento. – Ava, na nossa família não se delatam os outros desse jeito. Isso é para bruxo de segunda classe. Você quer ser de segunda classe?
A menina arregala os olhos azuis, não querendo desapontar. – Não, mamãe.
-Então não repita mais isso. Pegue seu livro predileto, o Contos de Beedle, e sente-se próximo à lareira e fique quieta. Seu pai chegará pela rede floo a qualquer momento.
A garotinha obedece, pegando um livro de capa dourada em cima de uma mesa. Ao sentar-se, fica folheando sem muito interesse. O que gostaria naquele momento, era entregar seu presente ao seu pai, ou ter uma irmãzinha para brincar. A idéia a anima, uma irmãzinha seria excelente! Olha para sua mãe, que lia um livro compenetrada.
-Mamãe, eu queria uma irmãzinha para brincar. Posso ter uma?
-Oh, que absurdo que você diz! Ava, você é muito criança e não entende nada. Não posso ter uma irmãzinha, nem irmãzinho, nunca mais. E, mesmo que tivesse, seria muito mais novinho que você.
-Eu quero uma irmãzinha para conversar, estou cansada de brincar com Kairi, ela não tem graça, mamãe... – Ava começa a fazer cara de choro.
A mãe da garotinha suspira, cansada. – Talvez, se eu chamasse as meninas Black pra brincarem nesta casa... Acho que elas são só um pouco mais velhas que você... não, acho que já são jovenzinhas... mas mandarei uma coruja para Druella sobre isso. Agora, pare de choramingar... isso não é...
-...adequado a alguém de minha classe, eu sei. – suspirou a menina, já conformada. A idéia de ter visitas a deixou pensativa: como seriam as irmãs Black? Será que gostavam de criar feitiços, como ela?
A visita das irmãs Black, juntamente com a mãe delas, aconteceu após um ano. Carina Sheppard foi recebê-las e acomodá-las adequadamente na sala de visitas.
Eram três moças, a mais jovem aparentando treze anos. Essa era loira, pálida, de olhos azuis, cabelos muito lisos e compridos, amarrados com uma fita. Foi apresentada como Narcissa. A mais velha tinha cabelos negros, olhos castanhos, e uma aparência um tanto inquieta. Seu sorriso era estranho, seu olhar penetrante, possuía uma cultura invejável, discutindo sobre magia a negócios com desenvoltura. Era Bellatrix, e estava com dezessete anos, cursando o último ano de Hogwarts. A do meio era uma jovem de cabelos castanhos, olhos azuis escuros, muito meiga, agradável, sempre sorrindo, atenciosa. Era Andrômeda, e tinha naquela época quinze anos.
Ava simpatizou-se logo com Andrômeda, mas era muito criança para brincar com ela. Druella ordenou que Narcissa fosse ao jardim com a Sheppard apreciar a paisagem. A caçula dos Black suspirou entediada e seguiu Ava pelo caminho até o jardim.
-Qual seu nome mesmo? – questiona Narcissa, quando chegam próximo ao imenso chafariz.
-Ava Wezen Sheppard. – responde a menininha com orgulho.
-Nome muito nobre – sorri a Black. – Você gostam muito de verão aqui, não?
-Ah... não sei. – a menina franze o cenho. Diz em voz baixa, como em segredo: – Eu sei que tem coisas brancas lá fora, eu vi há muito tempo.
-Coisas brancas? É neve que se chama, e é muito frio. Você já foi lá fora?
Ava balança a cabeça, em negativa. Uma curiosidade imensa de ver o mundo lá fora a tomou. Devia de ter muitos bichos interessantes, pássaros, pessoas engraçadas...
-Me leva lá fora, Narcissa? Quero dar uma espiada...
-Não... não posso, sua mãe me mata. Peça para ela... Bom, você quer brincar de quê? Eu não brinco mais, já sou uma moça. – avisou com orgulho.
-Vamos brincar de flutuar! O que acha? – a garotinha pulava de alegria.
-Flutuar? Você já tem varinha?
-Não, não preciso. É sem varinha mesmo.
-Impossível, Sheppard, feitiços são realizados com varinha, salvo raras exceções, creio. Isso se aprende na escola, em Hogwarts.
-Ué... mas eu faço sim. Quer ver? – a loirinha se concentra e, de repente, começa a flutuar no ar, e faz rodopios, rindo do espanto que causou na Black.
-Ava Wezen Sheppard! O que pensa que está fazendo? – um berro se faz ouvir e a garotinha cai no chão, aborrecida.
-Edouard, por que me assustou? Olha, sujou meu vestido!
Um garoto de cabelos castanhos claros, olhos azuis escuros, aparece perto das bruxas, acompanhado de um outro, loiro de olhos azuis, aparentando conhecer a Black.
-Você sabe que não pode fazer isso, papai já te alertou. Oras... que teimosa que é!
O bruxo loiro cumprimenta as duas e se detém em Narcissa. – Que bom que nos encontramos neste feriado... Não sabia que sua família era íntima dos Sheppard.
-N-não, Lucius, quer dizer, mamãe veio visitar a Sra. Sheppard, a pedido desta. – a Black enrusbeceu, baixando os olhos. – Minhas outras irmãs estão aí, também.
Edouard, após repreender a irmã, convida Lucius e Narcissa a entrarem e ver a coleção de armas antigas da família. O Sheppard mostra a língua para a irmã pelas costas dos amigos. E vão alegremente, discutindo uma coisa e outra, deixando Ava sozinha no meio do jardim.
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Naquela mesma noite, Ava se preparava para dormir. Sua elfa já estava se retirando quando Alphard Sheppard entrou no quarto de sua filha.
-Papai!
-Pode se retirar, Kairi. – disse energicamente Sheppard. Voltou-se para Ava com expressão serena. – Filhinha, que bom que está ainda acordada.
A menina põe-se sentada, com olhinhos atentos em expectativa.
-Edouard me contou sobre o que você fez na frente da filha dos Black.
Ava sente seu sangue sumir da face e suas mãos tremerem. – Perdão, papai... não fiz por querer... – lágrimas quentes brotam em seus olhos.
Sheppard suspira profundamente. – Eu sei, querida. Mas mesmo assim precisamos conversar. – ele estende um lenço para a filha, que limpa o rosto, ainda em soluços. – Já tinha lhe falado que é proibido fazer magias na frente de estranhos, aliás, não quero que faça magia alguma sem varinha. Somente quando tiver em Hogwarts.
-Sim, senhor. – concorda prontamente.
-É de muita importância que ninguém saiba disso. Sua mãe teve que inventar umas coisas para Druella... ainda bem que Carina é muito inteligente. Merlim sabe o problema que seria se esta notícia se espalhasse agora... – ele faz uma pausa – Chegará a hora que você revelará ao mundo seu dom, minha filha. E ele será utilizado para o bem dos bruxos.
A menina estava concentrada em seu pai mas não entendia muito bem as palavras que ele proferia. Magia era tão simples, tão gostoso de fazer! Por que isso era tão mau? E por que depois não mais seria ruim? Mas achou prudente não discordar de seu pai, apenas assentir com a cabeça.
-Ótimo, querida. Boa noite, então. – e ele dá um beijo na testa da menina. – Durma bem.
-Sim, papai. - e ela sorri.
Quando seu pai sai do quarto, Ava deita de novo e se cobre quase totalmente, apenas deixando seus olhos observando o escuro. “Será que umas luzinhas seriam más? Não gosto do escuro...” Umas luzes como se fossem vaga-lumes aparecem brincando no ar, próximo a garotinha. Ava fecha os olhos, com um sorriso nos lábios.
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Com a aproximação dos Black e Sheppard, virou uma constante uma família convidar a outra para eventos sociais e festas. Ava foi autorizada por seus pais, pela primeira vez, a ir a um baile, após completar dez anos. Antes, ela tinha que permanecer em seu quarto e, sob vigilância de Kairi, não sair de lá em hipótese alguma. A menina ficava ouvindo a música e as risadas ao longe, e imaginava em sua cabeça todas as situações, todas as danças que aconteciam. Houve muitas noites em que ela bailava com um cavalheiro imaginário em cima de sua cama, sob protestos de Kairi, que insistia para que ela dormisse.
Na noite que antecedeu seu primeiro baile, Ava não conseguia dormir. Várias vezes tinha ido ao espelho, se observado atentamente. Tentou vários penteados diferentes, sorria, ficava séria, sorria novamente. Não conseguia se decidir com que expressão ficaria. Sua mãe ordenara que ficasse séria e quieta o baile todo, como condiz com uma jovenzinha. Mas Ava tinha decidido que seu rosto sério era medonho. – Eu sou terrível, vou ser a menina mais feia deste baile! – choramingou pra si mesma, sentando-se a beirada da cama. Não queria pôr fita no cabelo, não queria o vestido rosa com babados, não queria aquele sapato branco ridículo, não queria ser sempre séria que nem sua mãe. – Definitivamente ridículo, como mamãe pôde mandar fazer isso para mim?? – e bufou com energia, tentando que o barulho ecoasse por toda mansão.
No dia seguinte, tinha acompanhado sua mãe nos preparativos, no enfeite do salão, na supervisão do banquete, nas instruções aos músicos e nas ordens aos elfos domésticos. Sua tia Doreen, irmã de sua mãe, a ajudava com sugestões aqui e acolá, e sempre era o oposto que Carina desejava, tornando mais desgastante os preparativos que o previsto. Doreen insistia que suas escolhas eram melhores, pois conhecia várias capitais do mundo, convivendo com o bom e o melhor.
-Ora, Carina... você não sai daqui deste lugar, minha irmã, as costureiras mesmo têm que vir aqui fazer as costuras, seus elfos domésticos é que fazem as compras nos armazéns locais. Aqui parece uma prisão!
Carina a olhos reprovadamente, indicando que aquilo não era hora nem lugar, não perto de Ava. A menina foi à cozinha, beliscar umas tortinhas, pensativa.
Em seu quarto, com Kairi para ajudá-la a se arrumar, Ava vestiu as roupas que tanto odiava. Deixou a elfa fazer o penteado que quis, colocar a fita no cabelo, bem no alto. Olhando para o espelho, parecia uma criança grande, desajeitada, com muito braço, muita perna, cabelos compridos demais. – Eu não quero isso... não quero...- murmurava, tentando achar uma saída.
Uma idéia assomou em seu ser e ela sorriu. “É para uma boa causa”. Concentrada, começou a emitir ordens em voz audível: Vestido, fique azul... sapatos, fiquem pratas... laço do sapato, desapareça, babados do vestido, sumam... – item por item, tudo ia sendo modificado, de acordo com o que ela falava. Olhou para seus cabelos e desejou que eles ficassem ondulados, e a parte da frente fosse presa atrás, deixando uma cascata caindo pelas costas. E, principal, sem laço. Teria, isso sim, uma jóia magnífica no lugar.
– Sim, eu quero! – ordenou para o vazio.
Olhou-se no espelho, para ver o resultado, e riu exultante. Estava bonita, parecia uma jovenzinha, e não uma criança desajeitada. Sua elfa balançava a cabeça, temendo a ira da Sra. Sheppard.
– Mamãe... ela vai me matar... ou não. Acho que ela vai se orgulhar de mim, isso sim! – concluiu a menina, sorridente. – E pare de me olhar assim, Kairi, está me dando nos nervos!
Alguém bate a porta: era um elfo doméstico, anunciando que o baile tinha começado e já havia convidados. – Ótimo, já vou descer.
Meia hora mais tarde, Ava desce as escadarias, ouvindo cada vez mais alto o barulho da música e de vozes. Sua segurança esvaiu-se e hesitou em abrir a porta do salão principal. Não soube quanto tempo ficou ali, próxima a entrada, aguardando a coragem voltar.
-Você é a nova porteira? – ironizou uma voz.
-O quê? – ela virou-se para verificar quem tinha dito aquilo, e de tom zombeteiro.
Havia um menino tranqüilamente próximo, de cabelos pretos e olhos intensamente azuis. Aparentava ter a mesma idade que Ava e se vestia com um costume preto. – Você está aí a um tempão. - e ele se aproxima mais dela – Está com medo de quê?
-Eu não tenho medo de nada. – responde indignada. – Esta é a minha casa, moro aqui. E quem é você?
O menino sorri. – Pode me chamar de Sirius.
-Ora, é claro que não. Isso é um nome. Devo chamá-lo pelo sobrenome, como convém. Qual o nome de sua família?
O menino já não sorria. Avaliava a bruxa pensativamente, antes de começar a se retirar. – É uma pena. Acho um saco os sobrenomes.
-O quê? – “que linguajar horrível... mamãe teria um desmaio ao ver isso!!”
-Eu não sabia quem era você e já tinha gostado. Mas você precisa saber meu nome de família para o mesmo.
-Nossos sobrenomes nos dizem quem somos.
-Não... não mesmo. Tenho um tio que detesta ser um Black, acha uma chatice. Ele me disse. Tenho parentes que fugiram para se casar com trouxas e continuam tendo o sobrenome mesmo assim. – ele faz uma pausa – Você sabe que é um trouxa?
-Sei sim. São pessoas inferiores, não têm magia nenhuma e são maus. Minha mãe disse que, por Merlim, eles serão exterminados, algum dia, de nossas terras.
O garoto franze o cenho – Eu não quero que sejam exterminados, alguns são legais.
A menina abre a boca em espanto – Você conhece algum?
-Sim, tem um vendedor de doces próximo onde moro, em uma pracinha. Eu e meu irmão fugimos para lá, de vez em quando. O vendedor nos dá doces de graça!
-Hum.. de graça? Por quê?
Ele dá uma risadinha. – É porque ele pensa que somos órfãos! Tem doces de todos os tipos...
A porta do salão se abre, saindo por ela a mãe de Ava, com um longo vestido azul marinho. – Filha, que demora! - ela pára de repente e avalia criteriosamente a filha e depois o garoto. – Não era assim que você deveria estar... O que houve com o vestido? – e fez um muxoxo – Depois conversaremos sobre isso. Entre, mostrarei você aos nossos amigos e a um convidado especial... E menino Black, junte-se aos seus. Sua mãe deve estar preocupada.
Ava foi guiada por sua mãe entre música e convidados, exibida e admirada como uma jóia rara, contornando alguns pares que dançavam. Muitos rostos se viravam para ela, muitos sorrisos e observações perdidas na multidão. Encaminharam para o fundo do salão, passando por uma mesa com comida abundante, chegando onde havia algumas cadeiras altas e seu pai estava lá sentado, juntamente com um desconhecido, aparentando uns 50 anos, vestido de negro, de porte distinto. A garota logo reconheceu nele importância, visto que muitos se dirigiam a ele, faziam mesuras, com ares admirados. O desconhecido, ao vê-la, se ergueu e se aproximou.
Estranhamente, ele tomou-lhe a mão e nela depositou um beijo suave e gélido. – Muito prazer, senhorita. Vejo que está crescendo.
Sua voz feriu os ouvidos da menina, que se afastou instintivamente. Havia algo naquelas palavras que a deixou enojada, só não sabia por quê.
-Sim, e se tornará uma belíssima mulher. – disse o pai de Ava, também se erguendo e com um largo sorriso no rosto.
-E também uma perfeita dama de nossa sociedade, cumpridora de seu papel. – disse a mãe da menina, dando um olhar significativo ao marido.
O desconhecido olhava intensamente para a garota, que estava muito incomodada. Ela decide arriscar uma pergunta, baixinho, para sua mãe: - Quem é o cavalheiro?
O bruxo ouviu e riu, uma risada fria, que fez gelar o sangue da garota. – Claro, não me apresentei. Sou Lord Voldemort. Nos veremos muito ainda, eu espero.
“Eu não gostaria” – pensou Ava, séria e um tanto assustada. – Meus pais permitindo...
-Claro que sim, minha filha. – disse Alphard, percebendo o comportamento da filha. “Deve ser timidez”. – Então, Lord Voldemort, acho que está na hora do seu discurso.
Lord Voldemort assentiu com a cabeça ainda olhando fixamente para Ava. Sr. Sheppard chama a atenção de todos para si, anunciando o discurso do convidado de honra. Carina pede para os músicos pararem de tocar os instrumentos.
Ava aproveita a ocasião e vai se esquivando entre os convidados o mais longe possível daquele bruxo. Algo dizia para ela evitá-lo.
-Bruxos. Mágicos. Feiticeiros. Demônios. Sábios. – Voldemort dá um sorriso estranho, de desprezo. – Quantos títulos os trouxas nos nomeiam, definindo quem somos, definindo nossa função neste mundo...
Havia uma travessa com balas de caramelo, que para a garota pareceu deliciosa. Vendo que sua mãe estava atenta ao discurso, resolve experimentar.
-...nos encurralando, e agora somos um povo invisível. Creiam, senhores e senhoras, invisíveis, vivendo a margem do poder desse mundo. Sem decisão nenhuma sobre os destinos dos povos.
Ela pega mais um bala e, ao tentar se virar, sente uma mão pesada sobre seu ombro. – Ava! – diz uma voz baixa e grave. Era Edouard. – Como ousa ficar comendo enquanto o Lord fala? Como é infantil! Vá lá pra fora, é melhor...
-... nossa cultura, nossos costumes. Tudo estará perdido? E aceitaremos isso sem lutar, sem resgatar o que é nosso por direito? Digo a todos: NÃO!
Ava se dirige para fora e chegando próximo a uma outra porta, que dava para o jardim, ela avistou o menino Black. Ele estava encostado a uma mureta, comendo um doce da festa, juntamente com um menino menor. Esse parecia muito tímido, olhando para todos os lados, como se quisesse gravar cada pedaço da mansão.
-Quer um doce? Esse ´tá gostoso.
A menina aceitou e Sirius retirou outro doce do seu bolso, que estava estufado. – Peguei alguns, sabe como é. Senão eles comem tudo, os adultos.
Ela sorriu para ele mas continuou calada. Quis tanto estar naquele baile e agora não sabia bem o que fazer. Não havia meninas da sua idade e os meninos pareciam bobos.
-Qual o seu nome? – ele pergunta.
O menino menor começa a rir de Sirius. – Seu idiota, ela deve ser uma Sheppard, não a viu com os donos da casa?
-Cale-se, Regulus, senão vou te azarar aqui mesmo!
-Não pode, senão mamãe te castiga. – Regulus mostrou a língua, satisfeito.
-Eu sei que você é uma Sheppard,- disse Sirius se dirigindo a menina - mas qual o seu primeiro nome?
-Ava.
Uma profusão de aplausos explode dentro do salão, com muitos ‘vivas’ sendo proferidos. Sirius corre para ver o que ocorreu, sendo seguido pelo seu irmão. – Vem! – ele chama a garota.
Lord Voldemort tinha feito seu discurso, sendo aclamado por todos os presentes. Doreen, tia de Ava, aplaudia fracamente o convidado de honra, numa expressão incomodada. Edouard Sheppard aplaudia entusiasticamente, junto com Lucius. Havia uma bruxa ainda mais emocionada, próxima ao Lord, que Ava identificou como Bellatrix. A Black dizia em voz alta: - ‘Novos tempos estão chegando! Finalmente faremos uma limpeza em nossa sociedade, vamos expulsar todos os traidores e os impuros!’
Sirius diz baixinho para Ava: - Essa é minha prima, você a conhecia? – ela balança a cabeça afirmativamente. – Ela vai se casar ano que vem, com um tal de Rodolphus Lestrange. Ele tem cara de ogro.
Regulus riu baixinho. – Cara de ogro...
-Não me repita, droga!
O menino menor faz biquinho, corado de raiva. Sirius o ignora, entretido olhando outros convidados.
-Olhem, Lucius cara de milho está perto da Cissy. – Sirius pega mais doce do seu bolso e dá para Ava, que aceita. - Vão também se casar, está tudo arranjado.
-Ele é um chato. – comenta Ava, torcendo a cara. – Mas eu gosto da Cissy, ela me manda várias corujas. Do lado deles está meu irmão Edouard, conhece?
Sirius arregala os olhos. – Seu irmão parece muito esnobe. E, pelo que percebi, baba pelo Sr. Lord Voldemort. – o garoto fica pensativo, como se avaliasse os convidados.
- Ele brigou com o Sirius – disse Regulus, com olhar malicioso. – Só porque ele estava colocando sapos nas cadeiras, antes das senhoras se sentarem – e o garoto dá uma risadinha.
– Foram apenas três míseros sapos. – Sirius fez um muxoxo. – Ele precisava estuporá-los? – fez uma pausa, sério. - Vou ser diferente de todos eles, não serei um cordeirinho. Serei único.
A garota ri. – Parece que sim, Sr. Sirius Black. Mas todos nós entraremos em Hogwarts, seremos sonserinos e cumpriremos o nosso papel. Minha mãe sempre diz isso. – ela suspira – Vai ser neste ano para mim. E para você?
-Também. Então nos reencontraremos no trem!
A música torna a encher o salão e os pares a valsar. Ava percebe que sua mãe a procura com os olhos. – Preciso ir, Black. Tchau. – e olha para Regulus, que agora estava distraído tentando alcançar um inseto que sobrevoava sua cabeça. – Tchau, Regulus Black!
Sirius a vê se afastando lentamente, se esgueirando entre os convidados, alguns lhe chamando atenção: “menina bonita”, pegando alguns salgadinhos da mesa e continuando a caminhar até a mãe dela. Sra. Sheppard também chama seu filho, e logo os dois irmãos estavam dançando no meio do salão, ambos com caras emburradas. De vez em quando ela olhava em direção a porta de saída, onde estava Sirius.
O garoto Black ficou observando a garota valsar com seu irmão. Depois com Lucius. Percebeu que, quando Ava rodava, os cabelos dela pareciam flutuar no ar. Também percebeu que, quando Ava sorria, parecia que o tempo corria um tanto lentamente. E esse sorriso se espalhava e chegava nele, aquecido e confortante. O garoto não conseguia definir o que sentia naquele instante, só sabia que era incômodo e ao mesmo tempo bom, como se algo tivesse entrado nele e feito morada em sua alma. E essa sensação perduraria por muito e muito tempo.
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Nota da autora: Um capítulo com impressões da infância da heroína. Eu gostei. E vocês? Me mandem reviews!!
Próximo capítulo: aulas!
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