Harry estava deitado em sua cama e encarava o teto, os olhos apertados e cansados pareciam estar sensíveis à luz de fim de tarde que entrava pela janela do quarto. Não sentia vontade de sair dali para nada. Ficava sempre à espera da coruja que avisaria quando deixaria a Rua dos Alfeneiros ou quando Hermione lhe mandaria uma carta. Era uma quinta-feira, deveria ter recebido uma mensagem da namorada há pelo menos dois dias.
Já tinha deixado Hogwarts há quase um mês. Ele e Hermione se comunicavam três vezes por semana, como a garota sugerira em sua primeira carta ao namorado. As férias ficaram ainda mais apertadas com as mudanças que Dumbledore fizera de última hora.
Escutou batidas vindas da janela e se levantou, olhando diretamente para ver de quê se tratava. Edwiges chegara acompanhada de mais uma coruja parda que ele reconheceu ser de Sirius. Adiantou-se em abrir a janela para deixar as corujas entrarem. Edwiges pousou em seu ombro esticando a pata para o dono e mordiscando levemente a sua orelha. Harry soltou o pergaminho da pata da ave e procurou ver de quem era.
Seus olhos brilharam ao ver a caligrafia jeitosa de Hermione, mas quando ele ia abrir o envelope, a outra coruja piou de forma aguda, o que fez sua atenção voltar para ela. Parecia ser algo importante.
- Potter! – berrou Valter Dursley.
- Não foi nada! Foi apenas a Edwiges querendo entrar. – Harry berrou em resposta, impaciente.
Pegou a carta que a coruja trazia e deixou que bebesse água, antes que de partir para o Largo Grimmauld 12 novamente. Abriu o envelope rapidamente e dele caiu um pergaminho amarelado. Olhou o remetente. Sirius. Por instinto, abriu a carta do padrinho apreensivamente, sentindo que se tratava de algo realmente importante.
Harry,
Dumbledore esteve em reunião com a ordem há poucas horas e me pediu que entrasse em contato com você, já que ele mesmo não o poderia fazer estando em compromissos importantes nos últimos dias. Em todo caso, você terá que permanecer na Rua dos Alfeneiros até o dia dois de agosto, quando teria de ir ao casamento de Gui e Fleur. Há também novidades. Já temos pistas de onde possa estar uma das Horcruxes, mas não posso entrar em detalhes, principalmente nos tempos atuais. Espero que possamos nos falar em breve.
Um abraço,
Sirius
Harry definitivamente não esperava uma notícia daquelas. Perguntava-se se Hermione e Gina já saberiam. Estivera preocupado nos últimos dias com aquilo, pois ao marcar com os amigos na casa do padrinho, esquecera-se completamente do treinamento, da caçada às Horcruxes e, ainda, do período que teria de passar na Rua dos Alfeneiros, o que atrapalharia todos os seus planos. Dera sorte, isso era indiscutível.
Sobre o criado mudo, escutou um barulho estranho e baixo. Pegou o caderno fino de grossas páginas amareladas e abriu. Era uma mensagem de Amy. Era uma carta descontraída, longa e explicativa. Típica de uma pessoa como a sua ‘irmã’. Amy Taylor Vector, agora Amy Taylor Black, era uma das pessoas mais maravilhosas que Harry conhecera. Ela era como uma irmã para ele desde novembro do ano anterior. Sempre fora carinhosa com ele, atenciosa e amiga
Harry,
Não pude mandar uma carta por conta de pequenos desentendimentos com o meu pai, então... Ah, você sabe! Ele não queria que corrêssemos perigo de a carta ser interceptada ou algo do gênero e disse que deveria esperar por uma oportunidade. E como sei que isto não passa de uma mera desculpa, resolvi apelar para meus próprios meios. Desenterrei o meu caderno agora a pouco, esperava deixá-lo guardado apenas como lembrança da minha adolescência, mas acabei achando necessário usá-lo e agora vai ser definitivo. Caso precise de alguma coisa, é só escrever em seu caderno e fechá-lo que retornarei o mais breve possível. Hoje à noite irei para Godric’s Hollow. Vou visitar certa pessoa... Estou morrendo de saudades, ok? Tenho visto o Aaron algumas vezes por semana e ando estudando bastante enquanto aguardo o resultado dos N.I.E.M.’s. Já consegui estágio no Ministério da Magia na área de pesquisa, mesmo sem receber as notas. E lembra-se que eu tinha sido convidada para estagiar, também, no Esquadrão para Reversão de Acidentes Mágicos? Bom, ainda não aceitei. Estou pensando bastante no caso, mas, definitivamente, não sei. Confesso que estou cada vez mais ansiosa...
Bom, soube que virá passar o final das férias aqui em casa e espero realmente que o tempo não demore a passar. Irei ao casamento, também, mas ainda terei de aguardar quinze dias por você, não é? Temos muita coisa para conversar e ainda temos as férias pela frente, suas férias. Terei de trabalhar em breve. É incrível como as coisas mudam de forma tão brusca e inevitável... Eu, uma das alunas mais bagunceiras, trabalhando? Bom, é como mamãe diz... A facilidade em me adaptar e a aprender coisas novas ajuda bastante!
É, acho que é só. Conversaremos melhor depois.
Beijos saudosos,
Amy
P.S.: A ‘IKB’ pediu para você entrar em contato.
Sorriu ao ler o P.S. da mensagem. ‘IKB’ era o mesmo que Isabella Kathleen Bonstrong ou Isabella Malfoy ou até Bebel, como preferir. Se preguntou por que a garota não havia enviado uma mensagem para ele se queria entrar em contato. Resolveu mandar uma pequena mensagem para a Malfoy, pedindo que lhe falasse à noite. Não queria se demorar. Ainda tinha uma carta de Hermione para ler.
Ansioso, abriu o envelope que a garota lhe enviara.
Harry,
Não imagina as saudades que sinto de você. Parece que cada dia que passa, nós ficamos mais distantes. Mesmo nos correspondendo três vezes durante a semana, ainda é difícil ficar longe de você por um segundo. Espero que tudo esteja bem e que não esteja preocupado. Sei que esta carta demorou um pouco mais que o normal, mas é que a última coruja que o Rony me mandou esta semana, chegou com as penas reviradas e eu fiquei um tanto quanto assustada.
Acho que não poderemos mais nos corresponder via coruja devido a isto. Não quero que corra riscos. Em todo caso, ainda temos nossos meios. Meios estes, que ainda considero seguros, a menos que haja um rabisco a mais. Veremo-nos em breve, tenho certeza disto.
Por enquanto, peço que fique em casa o máximo possível e evite mandar corujas para quem quer que seja. Caso queira falar com o Rony, temos um círculo grande de comunicação. A Amy, a Bebel, a Gina... Principalmente a Gina poderá fazê-lo por você. Todo cuidado é pouco agora, Harry. Lembre-se sempre disto. Estarei aqui para o que precisar, ok? Basta fechar o seu caderno.
Infelizmente não poderei escrever muito desta vez. Poderá falar comigo a qualquer hora a partir do domingo. Estou em York. Fiz mamãe me trazer aqui para conhecer alguns lugares... Está sendo realmente divertido. Cheguei há dois dias, mas não poderei me demorar. Meus pais conseguiram apenas estes cinco dias de folga. Mas estou aproveitando ao máximo.
Mais uma vez me despeço de você com o coração apertado. Ficaremos sem nos comunicar por mais dois ou três dias, mas não esquecerei de você. Assim que chegar, envio uma mensagem para você. Um grande beijo!
Com amor,
Mione
Decepcionado? Talvez. Ele não esperava que fosse ficar tanto tempo sem falar com Hermione. “Basta fechar o seu caderno...” Aquela frase se tornaria cada vez mais constante em sua vida, principalmente agora.
Deixou-se cair novamente em sua cama. Releu a carta de Sirius e sentiu-se deixado de lado novamente. Não tinha muitas notícias do que estava acontecendo, mesmo com o Profeta Diário e o noticiário trouxa noticiando ataques e irregularidades constantemente.
Viu a noite cair lentamente através da janela. Edwiges começara a se remexer na gaiola. Poderia sair a qualquer momento. No entanto, não esperava que alguma correspondência além daquelas que recebera pudesse chegar. E como estava enganado. Como se os acontecimentos estivessem contradizendo seus pensamentos, o seu caderno vibrou sobre a mesa. Ele se levantou subitamente.
Pegou o caderno, que vibrava incessantemente, e voltou à cama. Abriu o caderno e sorriu. Esquecera-se completamente da mensagem que enviara algumas horas mais cedo a Bebel, pedindo que lhe enviasse uma mensagem à noite.
Harry,
Como você está? Não nos falamos há tanto tempo que já estava até sentindo falta. Não há muitas novidades. Estou aguardando os resultados dos N.I.E.M.’s. Minha mãe me levou no Ministério logo que voltei de Hogwarts para fazer algumas entrevistas. Encontrei a Amy por lá. Soube que ela conseguiu duas vagas para estágio. Estou realmente feliz por ela.
Mas e você? Não tem mandado notícias... O que aconteceu? Não se lembra mais dos amigos? Ok, não se preocupe. Sua cabeça deve estar bastante confusa com tudo que anda acontecendo, eu sei. Mesmo assim, saiba que pode contar comigo para tudo! Bom, e como tenho certeza de que a Amy contou dos estágios que conseguiu, vou segredar um coisa a você. Consegui estágio no ramo de pesquisas. Há outras coisas que devem permanecer secretas, mas que são de grande importância para mim. Em todo caso, estou com muitas saudades de você e dos outros. Hogwarts está fazendo uma falta enorme! Não sei se vou me adaptar a essa nova vida.
Olha, eu quero você escrevendo para mim todas as semanas, pelo menos uma vez, ok? Quero ter notícias de todos e de tudo. Também estarei enviando qualquer novidade a vocês. Só não quero perder o hábito. Ah, estaremos indo para o Largo Grimmauld no dia quatorze de agosto. Espero que você já esteja lá. Infelizmente não poderei falar muito, mas aguardo sua resposta. Não esquece, hein? Vou cobrar.
Beijo grande,
Bebel
Sorriu ao terminar de ler. O que seria dele sem os amigos? Sim, porque a vida dele não teria sentido. Vivia com uma família que o odiava, seus pais tinham morrido, sua vida quase fora destruída por um homem sórdido que se denominava Lorde.
Esperava algum dia poder destruir aquele homem e ser feliz, poder viver bem sem se preocupar com o dia de amanhã, poder fazer tudo o que quisesse sem ter medo. Era feliz, mesmo com tantos problemas, com tantas confusões à sua volta. Não era preciso ele sair atrás das aventuras e confusões, pois elas mesmo vinham a ele, atormentar sua vida e acabar com o pouco de paz que ainda lhe resta. E o que ele faria sem os amigos? Naquele último ano fizera novas amizades, descobrira coisas que definitivamente não esperava, inclusive um sentimento que estava guardado dentro de si sem que soubesse.
Recolocou o caderno sobre a mesa e deitou-se novamente. Olhou para o céu através da janela. Estava límpido, nenhuma nuvem sequer encobria aquele manto azul que dominava o céu escuro em todas as noites. Aos poucos estrelas e mais estrelas apareciam para brilhar e iluminar toda aquela escuridão.
Tudo estava muito calmo ultimamente. A rua estava mais vazia este verão. Seus tios planejavam viajar, mas não queriam deixá-lo sozinho em casa e nem carregá-lo para onde quer que fossem, então insistiam em dizer que mais uma vez ele acabara com seus planos. Assegurara que ficaria ali sozinho, que não mexeria em nada, que se trancaria em seu próprio quarto, mas nada pareceu funcionar. Ao contrário! Tio Valter chamou sua irmã para passar quatro dias ali.
Isso! Guida viera para a casa dos Dursley logo no início de suas férias. Os dias que a velha passou ali, ele simplesmente não saíra do quarto. Preferia morrer de fome a ficar sob o mesmo teto que ela. Até então, suas férias passaram de forma lenta e monótona. Nada demais acontecia. Isso, claro, se não citarmos tudo o que era noticiado pelo mundo.
Não se correspondera com quase ninguém. Recebia cartas de Sirius regularmente, uma vez por semana, na verdade, mas nunca respondia por ordem do próprio padrinho. Respondera apenas a primeira. Ele e Hermione se falavam seis vezes por semana, sendo três cartas de cada um, pelo menos até ali. A garota ainda não se atrevera a usar o telefone para conversar melhor com ele.
Rony lhe mandara apenas uma carta durante aquele período. E só aquele dia, recebera mensagens que não fossem de Sirius ou Hermione. Estava ansioso para o casamento na casa dos Weasley. O casamento era sinônimo de uma despedida, seria no dia dois de agosto que deixaria aquela casa para sempre, para nunca mais voltar e assim esperava. Se ele não era bem vindo ali, também não era de sua vontade permanecer naquele lugar.
Contava os dias para sair dali. Mas o tempo parecia estar contra ele. Ele já estava cansado daquilo, de ficar ali sem ter o que fazer, de ficar longe dos amigos, daqueles que gostavam dele e prezavam pela sua presença. Queria deixar aquela casa, queria voltar para Hogwarts, mesmo sabendo que depois daquele ano Hogwarts seria passado.
Estava quase adormecendo quando escutou a voz estridente da tia chamá-lo.
- Estou descendo! – repetiu pela terceira vez, enquanto a tia insistia em berrá-lo.
Impaciente, desceu as escadas rapidamente e pulando os três últimos degraus. Entrou na cozinha, onde todos estavam se preparando para o jantar.
- Venha comer. Não quero que pensem que tem passado fome aqui em casa. – disse de forma seca. “Se você considera isso comida, não estou passando fome, definitivamente”, pensou.
Harry sentou-se à mesa e ficou aguardando o seu ‘jantar’ enquanto observava o primo comer como um porco tudo o que via pela frente. Sentiu-se desconfortável pela primeira vez por estar sentado naquela mesa. Sabia que aquela casa não pertencia a ele e isso era cada vez mais claro em sua realidade.
Ele tinha duas casas, pelo menos das quais sabia. O que ele não imaginava é que a existência de uma casa em York, a qual Hermione conhecera nesta visita que estava fazendo à pequena cidade do interior, poderia mudar a sua vida. Havia muita coisa para ser explicada ainda. Coisas que ele não imaginava que poderiam existir.
Aquelas férias longe de Hermione iriam abrir portas para que a garota lhe esclarecesse fatos quando estivessem juntos. Quinze dias, quinze meses. Era o que eles teriam juntos depois de quase um mês e meio longe. A garota sabia que o dia em que teria de contar tudo o que descobrira estava próximo. Muita coisa iria mudar depois daquilo.
E ainda tinha uma certa profecia... |