O expresso vermelho estava diminuindo a velocidade, a um ponto que se conseguia distinguir bem a paisagem coberta de neve no lado de fora dos borrões brancos da maior parte da viagem. Se apertasse bem os olhos, já conseguia ver a estação lotada de pais ansiosos a esperar da volta dos filhos para casa.
- Ei! Anda viajando demais para meu gosto. – riu Ryan, sacudindo a amiga sem um pingo de delicadeza.
- Pelo menos não fui eu quem ficou tagarelando o percurso inteiro. Ry, mais uma vez, meu ouvido não é penico. – Isabelle levantou-se e pegou a bagagem de mão no acento à frente. Estava mais pesada do que no ano anterior, afinal, era mais tarefa e mais livros. Só o pensamento de fazer os N.I.E.M, e o pior era que nem sabia a carreira que iria seguir.
- Está de mau-humor hoje? Só porque não viu o namorado? – Ryan fazia algumas caretas engraças só para irritá-la. Sabia que ela estava carente nos últimos dias, já que Harry estava ocupado demais tentando entregar os milhares de relatórios de Poções. Isabelle já havia se oferecido para dar alguma assistência, mas ele sempre negava, parecia estar evitando-a, ou talvez foi o problema com a amiga, o qual estava longe resolver.
- Você consegue ser um pé no saco quando quer, sabia? – ela sorriu ironicamente e o puxou para a porta. Já haviam muitos alunos amontoando os corredores.
- Sim, eu sei. Você vai passar lá em casa ainda essa semana?
- Não sei, creio que sim. Bom, seus deveres de monitor lhe chamam. – ela o empurrou para fora, no meio da multidão de alunos do primeiro ano.
- Você não presta! – gritou Ryan, sinalando algo que ela não compreendia. – Por favor, se dirijam as suas cabines até o trem parar. – e naquele instante finalmente o trem parou em frente à plataforma costumeira. – Ok, esqueçam o que eu disse e me sigam. Dêem preferência aos alunos do primeiro ano. Oh, Merlin, como detesto ser monitor.
Isabelle abanou a cabeça em negativa. Não entendia o porque dele ter aceitado o cargo já que odiava tanto, já reclamava de só de olhar o irmão caçula, Charlie.
Ajeitou a mochila nas costas e juntou-se aos alunos que passavam. Estava meio perdida naquele meio, várias pessoas passavam e a cumprimentavam, mas Isabelle não tinha a menor idéia de quem eram ou se as conhecia. Desde que entrara para o time, há três anos atrás, aquilo vinha acontecendo com freqüência.
- Meio apertado aqui, não?
- Com certeza. – Isabelle sorriu para a garota. – Ansiosa para voltar para casa?
- É, se eu não voltar, meu pai acaba tendo um derrame ou coisa parecida. – sorriu Lyra. – Manda um “oi” para o Harry, ok?
- Ainda acho que você mesma devia fazer isso.
- Nah, eu não tenho mais paciência para discutir com cabeças-duras. Já basta um que eu estou tentando encontrar, mas está impossível achar alguém.
- Boa sorte então. – Isabelle deu uma piscadela para Lyra. – Boas festas.
- Para você também.
Após dizer aquilo, sentiu o vento gelado bater em seu rosto. Deu o primeiro passo fora do trem e já perdera Lyra de vista. Ela se sentia um pouco mau por aquela bobagem de Harry e Lyra, aquilo estava afetando os dois, e logo acabaria afetando mais gente.
Suspirou. Estava tomando coragem para ir atrás da bagagem. Quem dera que o pai estivesse ali para fazer isso por ela, ele tinha tanta facilidade com multidões. Mas como estava sozinha, teria de se virar, já estava acostumada, era assim todos os anos, desde que ingressara para Hogwarts. Nos primeiros anos, sempre voltava com as irmã, e aquele era o primeiro que faria o percurso sozinha. Era uma longa viagem até Blakeney, uma pequena cidade na costa da Inglaterra onde morava. Sentia saudades de casa, de acordar cedo e cavalgar até a praia, ser a primeira a ver o sol nascer.
Com muito custo, Isabelle conseguiu chegar onde queria, no último compartimento. Não sabia o porquê de ter deixado a mala logo no último, era longe e estava mais lotado que os outros. Procurou pela sua bagagem por entre várias cabeças, houve um momento que precisou ficar nas pontas dos pés.
- Procurando por isso? – perguntou alguém atrás dela.
Ela virou-se e deu um suspiro, aliviada. Harry estava para atrás dela estampando um sorriso no rosto e mostrando o malão dela ao seu lado.
- Mas que namorado competente eu achei. – sorriu ela e o beijou levemente nos lábios, em seguida pegou a mala e começou a arrastar suas rodinhas pelo chão da plataforma, com Harry ao seu lado. – Você não faz idéia do galho que me quebrou.
- Não foi nada de mais. – ela a ajudou com a mochila que escorregava do seu braço. – Eu levo isso. Você já vai pegar o trem agora?
- Ele sai em vinte minutos, creio ela. – Isabelle olhou no relógio. – Ainda tenho algum tempo.
Ela sorriu ao ver uma cabeleira ruiva ao lado de um homem de óculos com os cabelos descabelados. Eles acenaram para ela, que retribuiu e foi ao seu encontro.
- Isabelle, querida! Como está? – perguntou Lily, beijando a garota na bochecha rapidamente. – Onde estão seus pais?
- Provavelmente trabalhando. Eu volto sozinha este ano, e só pegar o trem que minha irmã me busca na estação perto de casa.
- Não é mais fácil aparatar? – perguntou James, sorrindo para ela.
- Bem, é. – suspirou olhando para o local com um olhar saudoso. – Mas está será minha última viagem de volta para casa nesse trem, é melhor não perder essa chance, não é mesmo?
- Com certeza. – concordou James. – E como vão os preparativos para a festa? Acho que há essas alturas, Anabeth já deve ter enlouquecido.
- Ah, sim. Com certeza. Mamãe é perfeccionista demais. Tem horas que até assusta. – ela olhou para os lados, procurando alguém. – Onde está Nathan? Não o vi por aqui.
- Eu o vi no pé de Sirius. – respondeu Harry, olhando para os lados também.
- Esse menino não o larga de jeito nenhum.
- Mas é claro, Lily. É o Sirius que arranja as especiarias Weasley’s para ele. – James tampos a boca com as mãos, entre risos. – Ops.
- Então é isso que está deixando minha secretária doente? – Lily fuzilou o marido com o olhar. – Isabelle, foi ótimo te encontrar. Mande lembranças para os seus pais, sim? Agora vou procurar aquele pestinha. – e se afastou do grupo com uma velocidade impressionante. – NATHANIEL POTTER! Apareça agora!
- Bom, depois nos encontramos, menina. – ele lançou um olhar na direção que a mulher foi. – É melhor eu ir atrás dela antes que Lyra vire órfã.
Isabelle riu e Harry revirou os olhos. Achava aquela família bastante divertida, especialmente James Potter. Às vezes seu pai contava sobre as traquinagens dele e de Sirius Black no Departamente de Aurores, e ainda se perguntava como Harry conseguia ser tão calmo depois de conviver tanto tempo com aqueles dois.
- E essa é minha monótona rotina. – Harry deu de ombros e fez sinal para que continuassem andando. O sinal da plataforma marcava que Isabelle ainda tinha quinze minutos antes do trem partir.
- Seus pais são ótimos. – riu ela. – Eu queria ter encontrado com seu irmão, ele é tão fofo! Se fosse alguns anos mais velho, seria um grande concorrente seu, senhor Potter.
- Não fale isso perto dele, senão aquele pestinha ficará se vangloriando por uma semana. – Harry a abraçou e juntou atravessaram a barreira. Agora estavam no mundo dos trouxas.
Caminharam por entre os vários trouxas até a plataforma três. Harry a ajudou a colocar a bagagem no trem e os dois se despediram com um caloroso beijo.
- Sentirei saudades. – disse ela, ainda abraçados.
- Nos veremos em breve. Amanhã dou uma passada na sua casa, depois só no Natal. – ele se separou e lançou um olhar terno. – Juízo. Não quero saber da minha namorada dando bandeira para esses hippies mochileiros. – ele olhou de viés para um sujeito bastante excêntrico que subia no trem.
- Mandarei o convite do casamento, querido. – Isabelle o beijou pela última vez antes de embarcar no trem.
O apito soou pela terceira vez e o trem começou a se locomover. Ela acenou para o namorado e quando viu que esse já estava um pouco distante, ficou sua atenção na cabine. Pelo visto viajaria sozinha desta vez, muito diferente do ano anterior, que ela e Juliet dividiram a cabine com dois estranhos. Nem ela nem a irmã se importaram com a companhia, Juliet, em especial, passou a maior parte do tempo conversando com um dos rapazes, enquanto o outro mexia no laptop ou no celular.
Soltou um suspiro. Eram várias horas de viagem e já estava entediava. Pegou a mochila e a colocou perto da janela, fazendo uma espécie de amortecedor para os balanços do trem e Isabelle recostou a cabeça, observando a paisagem branca no lado de fora. Era neve para todo canto.
Era estranho pensar que não faria aquilo no próximo ano. Aquela não era a melhor viagem de sua vida, mas a vinha fazendo havia sete anos, de uma certa maneira virara rotina.
Cochilou e acordou várias vezes, em suma, assim foi o trajeto. Nunca conseguia dormir por muito tempo, o trem sempre fazia um movimento brusco e acabava acordando. Às vezes pega algo para ler, o jornal ou um livro, mas nada que prendesse sua atenção por muito tempo.
Porém, quando já estava quase chegando ela escutou uma conversa interessante de dois estranhos no corredor.
- Ora, Layne. – disse um homem de voz arrastada. – O Ministério está nas nossas mãos. Aqueles imbecis não tem idéia do número que circula naqueles corredores, daqui a pouco só terá comensais.
O outro soltou uma risada.
- Mas Dodson, as informações de Rabicho são confiáveis? Aquele rato pode ser um traidor, não acha? Era muito amiguinho dos aurores.
- Creio que sim. O Lorde acreditou, então nos devemos fazer o mesmo. – disse o primeiro, alterando-se um pouco. – Além do mais, Rabicho é um covarde. Não iria trair o mestre, morre de medo do que possa acontecer. Porque você acha que ele está do nosso lado?
- Lógico! – exclamou o segundo, Layne. – O que você vai fazer em Blakelay? Algum trabalho?
- Sim, tenho que ficar de olho no... – mas parou de falar subitamente. O trem havia parado. – Chegamos. Vamos descer que eu lhe pago uma bebida.
Isabelle xingou baixinho. O maldito trem tinha que parar logo naquele instante? Precisava saber o que eles estavam fazendo ali. Depois de ouvir aquilo, saber que havia comensais perto de casa, sentia-se estranha. Não era medo. Mas não imaginava que eles estariam tão perto.
Esperou alguns segundos antes de entrar no corredor e sair do trem. Não podia deixar que aqueles dois soubessem que estava escutando tudo. Tinha uma noção do que eles eram capazes, porem, algo lhe dizia que não era um terço do que faziam com as pessoas.
Desceu do trem e pegou a bagagem quase correndo. Ainda tentava achá-los, mas provavelmente teriam aparatado em algum lugar. A estação estava cheia por causa do feriado, então, ninguém repararia nos dois e mesmo que o fizesse, pensaria que fosse uma alucinação.
Correu com os olhos pelo lugar. Procurava um rosto conhecido, uma das irmãs para ser mais exata. Estava cansada e queria ir para casa, não estava em seus planos correr atrás de um taxi.
- Belle! Isabelle. – alguém a chamou e quando viu quem era, abriu um largo sorriso.
Uma loira com roupas extravagantes estava parada ao lado de um carro prata. Ela fez sinal para Isabelle se apressar.
- Bom te ver, maninha. – sorriu a irmã, abraçando-a. – Sobrou para mim te buscar, né?
- Desde quando você dirige? – perguntou Isabelle, com as sobrancelhas erguidas.
- Desde que falsifiquei a carteira. – disse a outra com simplicidade, enquanto colocava a bagagem no porta-malas. – Vamos, o jantar já está quase na mesa e eu estou faminta! A Madame Helten não me deixou beliscar nada.
Isabelle sorriu para a irmã, meneando a cabeça. A governanta, Madame Helter, não dava mole, nunca deu, desde quando eram pequenas. Queria sempre que todos jantassem no mesmo horário e comessem bem, isso não inclui nenhum lanche antes do jantar.
Em quinze minutos, Isabelle estava olhando para uma enorme casa. Sorriu. Aquele era seu lar.
Alguns chamavam de mansão, mas ela não tinha certeza. Era uma casa grande, com oito quartos, afinal, tinha três irmã e a casa nunca ficava vazia, seus tios que moravam na Escócia sempre vinham visitá-los no final do ano, isso incluía os três primos também. Tirando a quantidade de quartos, não passava de uma casa normal. As paredes eram brancas e as escadas até a porta de madeira clara, eram de pedra.
Juliet legou sua bagagem para dentro de casa com a varinha. Só não fez o mesmo na estação por causa dos trouxas. Ela não mexia um dedo sem magia.
O lugar estava o mesmo. O hall com retratos dos antepassados impecavelmente limpo, a mobília branca da biblioteca, apesar de estar cercada de poeira, também parecia estar em boas condições. Aquele era o complexo de limpeza de Madame Helten. Tinha até medo de entrar no quarto e ser cegada pelo brilho de cera no chão.
- Isa! – uma voz masculina carregada de sotaque a chamou. Era Pietro.
Isabelle sorriu para o italiano. Pietro era como qualquer outro italiano: alto, belíssimo corpo, encantador e charmoso. Possuía olhos castanho-chocolate que combinavam com a cor do cabelo meio anelado, que dessa vez estava curto. Ele e Violet se conheceram num curso em Milão, e quando menos se esperava, a irmã já estava casada e morando numa vila perto de Roma.
- Pietro! Está diferente, cortou os cabelos. – sorriu ela, reparando na falta dos cachos.
- Sabe como é sua irmã. – ele deu de ombros. – Não gosta de cabelo longo e passava o dia inteiro reclamando. Foi melhor corta o mal pela raiz de uma vez.
Isabelle riu. Às vezes tinha pela do cunhado, Violet conseguia ser incrivelmente controlado quando queria.
- Sei, sim. Quando vocês chegaram? – ela foi andando pela casa e ele a acompanhou.
- Há uns três dias. Deixei o restaurante nas mãos de meu avô. – ele abriu um sorriso matreiro. – Então não ficaremos muito tempo, vovô não bate muito bem da cabeça, sabe?
- Está todo mundo em casa? – perguntou ela, adentrando na sala de jantar. Haviam exatamente sete pratos na mesa, mas não via nenhum dos ocupantes.
- Creio que sim. Vi está na cozinha enchendo a cozinheira. – Isabelle gargalhou. – Nicky provavelmente está no escritório, nunca vi, parece que só aparece aqui para ir àquele lugar. E Juliet, bom, Juliet te buscou, então...
- Já entendi. E meus pais?
- Você faz pergunta à pessoa errada, garota. – ele começou a se afastar, indo para as escadas. – Esqueceu que eu sou visita aqui?
Não respondeu, apenas ficou fitando-o subir as escadas. Já estava com saudades de Pietro, não o via fazia dois anos. No Natal anterior, ele e Violet foram à Áustria, passar o feriado com a família do rapaz.
- Hey. Mamãe está lhe chamando. Ela está lá em cima, no quarto dela. – gritou a voz de Juliet, vinda da cozinha.
Isabelle respondeu um breve “ok” e subiu para o segundo andar, onde era o quarto da mãe. Bateu na porta de leve, depois entrou. A mãe estava sentada perto da penteadeira de mogno, prendia os cabelos ruivos- acastanhados, mas quando viu o reflexo da filha entrando, parou imediatamente o que estava fazendo.
- Minha menina! – ela envolveu Isabelle num forte abraço, quase deixando-a sem ar.
- Mãe. Calma, assim a senhora me deixa sem ar. – disse Isabelle com um pouco de dificuldade. – Assim está melhor.
- Se você ficou assim com os meus abraços, imagina com os do seu pai. – sorriu a ruiva, tocando com delicadeza no rosto da menina. – Como foi a viagem?
- Cansativa. Devia ter seguido com conselho de Ryan e ter aparatado. - Isabelle soltou um muxoxo.
- E como ele está? Encontrei com Rachel há um mês e parecia que tudo estava indo bem.
- Sim, sim. Os Potter’s mandaram lembranças, encontrei com eles no desembarque. Harry tinha me ajudado com a bagagem.
- Vejo que ficaram muito próximos nesse ano, pelo que Nicollet me contou. – sorriu ela para a filha, que corou levemente. – Eu acho ótimo. Harry Potter é um bom rapaz, mas vou lhe pedir um pequeno favor. Espere um pouco mais para contar para seu pai, ele está nervoso por causa de uns probleminhas lá no departamento, e não irá ajudar em nada se souber que tem um novo genro.
Isabelle sorriu. Desde que se conhecia por gente, a mãe era sua cúmplice, dela e das irmãs. A mãe sempre a acobertava quando podia.
- Não tenho o que reclamar.
- Ótimo. – ela começou a guiar Isabelle para fora do quarto. – Vamos descer. O jantar já deve estar na mesa.
As duas desceram rindo, Isabelle contava os últimos acontecimentos na escola, mas quando chegou ao saguão, parou subitamente de falar. Olhou para o homem parado em frente à escada, ele ostentava um sorriso cansado abaixo das profundas olheiras e olhar cansado.
- Minha Belle. – ele abriu os braços e ela desceu os degraus que restavam e logo o abraçou fortemente.
O pai estava um pouco diferente, aparentava ser mais velho do antes do verão. As mechas grisalhas tinham se espalhado, deixando boa parte da cabeleira, antes castanha, coberta com fios brancos. A barba estava sem fazer talvez por uns três dias e as roupas um tanto amarrotadas. Em suma, ele estava uma bagunça.
- Então papai, aonde esteve? No exército talvez? – indagou Isabelle com uma pontinha de sarcasmo na voz.
- Muito engraçado, amorê. – ele a soltou e os dois rumaram para a sala de jantar, onde a mãe já se encontrava sentada no lugar habitual. – Vejo que não perdeu seu senso de humor.
- Jamais, papai. Jamais. – respondeu ela, acenando para Nicollet quando passou pela cadeira dela. – Vi, que saudades.
- Eu falei para você ir treinar o seu italiano lá em casa no verão, e mais uma vez você me deu o cano. – sorriu a irmã mais velha e voltando a sentar-se perto do marido.
- Eu ia. – Isabelle lançou um olhar para a mãe. – Mas ela disse que vocês tinham planos.
- Não julgue a culpa em minha, mocinha. Haverá outras vezes, não é mesmo, Violet?
- Com certeza, mãe.
O jantar foi excelente. A cozinheira havia preparado um delicioso carneiro e o pai abriu um de seus melhores vinho, o motivo Isabelle não tinha idéia. Todos falavam ao mesmo tempo entre si, contando os últimos acontecimentos e novidades, enfim, colocando a conversa em dia. Fazia muito tempo desde que não se reunião daquela maneira. Violet morava fora, Violet trabalhava demais e Juliet, com, Juliet saia bastante e quase nunca estava presente nas refeições. Com Isabelle na escola, só haviam sombras pela casa.
Christopher se levantou e todos voltaram à atenção para o patriarca da família. Ele sorriu para a esposa e levantou a taça, dando leves batidas no cristal.
- Eu tenho um comunicado a fazer. – começou ele.
- Oh, pai. Por favor, me diga que não iremos ter uma outra irmã. – Violet sorriu maliciosa para a irmã caçula. – Porque da última vez que você fez isso, nove meses depois e ela veio.
- Obrigada por observar. – Isabelle mostrou a língua ao invés de dar uma resposta à altura. Poderiam passar a noite inteira se atritando, todas elas.
- Não, querida. Não se preocupe quando à isso, espero netos agora. – Violet corou e as outras riram. – Bom, estamos nos mudando para Washington.
Os presentes continuaram encarando-o com olhares confusos, menos a esposa. Passou um tempo e Juliet quebrou o gelo, dizendo:
- Eu sei que vocês trabalham demais, e querem se aposentar, mas não acho que Washington melhor lugar para isso. – ela estalou os dedos, e os outros acordaram do transe. – Porque não tentam o Caribe? Eu iria visitá-los todo verão. Na verdade tôo inverno, já que as estações trocam, sabem?
- Não estamos mudando para aposentar, filha. – ele segurou a mão da esposa. - Fui transferido.
- Pai. – Nicollet começou a falar. – Não tem lógica você ser transferido. Trabalha naquela desgraça há mais de vinte anos. Como isso não ocorreu antes?
- Olha a boca à mesa, Nicollet. – ele não tinha mais aquele tom sossegado. – Não aconteceu antes porque não era para acontecer, ok?
- Uma única pergunta: e a gente? – Juliet apontou para ela mesma e Isabelle. – Vamos morar onde? Embaixo da ponte? Porque meu quarto consegue ser mais do que o apartamento da Nicollet.
- Hey! – exclamou a loira na outra ponta da mesa.
Depois disso, todos começaram a falar ao mesmo tempo e Christopher apenas lançou um olhar preocupado à esposa. Estendia àquela frustração das filhas. Era difícil a idéia de mudar de um lugar onde moraram a visa inteira, até mesmo ele sentia aquilo. Não queria sair de sua terra natal, mas era preciso.
- Washington! Vocês só podem estar de brincadeira! – exclamou Isabelle um tanto alto demais, chamando a atenção dos presentes. – Desculpa. Mas isso não é justo.
- Escutem as quatro. – ele disse sério. – Violet, por deus, você é mora na Itália com seu marido, lide com isso. Nicollet você mora em seu próprio apartamento e tem um excelente emprego. Juliet, querida, você não irá morar embaixo da ponte. Passaram uns tempos na casa de campo, junto com Madame Helten para te deixar na linha...
- Mas lá é tão parado! – protestou Juliet.
- ... E Isabelle, não coloque o carro na frente dos hipogrifos. Ainda tem até junho para ver o que fazer. Por hora parecem bem, não?
Não houve resposta. Violet e Nicollet pareceram concordar com o ponto de vista dos pais, mas parece que não foi suficiente para Juliet ou Isabelle.
- Partiremos depois que Isabelle voltar à escola. – e antes que alguém insurgisse, ele pôs um fim na conversa. – Acabou! Está decido, agora, por Merlin, vamos acabar essa refeição em paz!
Alguns assentiram, outros fecharam a cara, mas ninguém disse nada, apenas Anabeth, que tentava quebrar o gelo contado alguma história que ouvira, na esperança de acabar com aquele clima tenso que pairava na sala.
O jantar transcorreu tenso e silencioso até quando todos acabaram de comer a sobremesa e se levantaram rapidamente da mesa, deixando Anabeth e Christopher com suas consciências pesadas e pensamentos à mil. Será mesmo que estariam fazendo a coisa certa?
Harry tinha acabado de aparatar e agora caminha até àquele casarão branco, sem muita certeza se devia estar ali. Nunca viera sem o pai ou a mãe acompanhando-o, para ser mais preciso, nunca foi pisou naquele lugar com o papel de namorado. E não sabia se isso iria ajudar muito.
Subiu os degraus de pedra e encarou a enorme porta de madeira com vidros coloridos. Esperou alguns segundos, até sua respiração se regularizar, e apertou a campainha. Escutou o som da campainha ecoar no lado de dentro e logo passos vindo na sua direção.
- Sim? – uma loira com uma bandana na cabeça apareceu. – Em que posso ajudá-lo?
- Estou procurando pela Isabelle. – disse ele, afrouxando a gola do suéter. – Eu sou...
- Harry Potter. – sorriu ela. – Entre, cunhadinho.
Harry fez uma cara de espanto, não sabia que a notícia tinha se espalhado tão rápido, embora seus pais já soubessem. Entrou no hall e voltou a encarar a loira.
- Violet! Olhe quem está aqui! – gritou ela para alguém que parecia estar ali perto. – Nosso novo cunhado! – a loira passou o braço pelos ombros de Harry, não deixando a situação muito agradável para ele.
Uma mulher bastante parecida com Isabelle apareceu e revirou os olhos ao ver a cena.
- Pare com isso, Juliet. – ralhou Violet. – Assim vai assustar o garoto.
- Claro que não vai! Somos uma família gora, espere só conhecer papai.
- Céus, não sei como Pietro quis casar comigo depois de conhecer você. – apontou o indicador para outro cômodo. – Vá ajudar a mamãe com sei-lá-o-quê.
- Alguém tem que levá-lo...
- Eu cuido disso. Agora vá. – ordenou a irmã mais velha.
Juliet apertou os olhos para a outra e soltou Harry, mas antes de ir virou-se para o garoto e o beijou na bochecha.
- Bem vindo à família. – e depois sumiu por entre os corredores.
Harry a olhou desaparecer depois focou na pessoa que o encarava.
- Ela é inofensiva, eu juro. – disse, se aproximando dele. – Apesar de estar tentando interná-la há anos. Olá, sou Violet Wine, irmã de Isabelle.
- Harry Potter, muito prazer. – ele apertou sua mão. – Então, Belle está em casa?
- Não exatamente. – ela deu de ombros. – Belle saiu faz um tempo para cavalgar, creio que irá demorar um pouco. Não aconselho esperar por ela.
- Está bem. – Harry fez um breve aceno com a cabeça. – Volto outro dia.
Ela pareceu analisá-lo por alguns instantes, e quando Harry ia para a porta, o segurou pelo braço.
- Se não estiver com pressa, posso levá-lo até lá. – sorriu Violet.
- Certo. – Harry retribuiu o sorriso.
Violet fez sinal para que ela o acompanhasse e saíram da casa pela mesma porta pela qual Harry acabou de entrar. Rodearam a casa pela neve até que Harry conseguiu ver um carro prateado estacionado perto do que parecia ser a porta dos fundos.
A mulher pegou um chaveiro no bolso e apertou um botão, destravando o veículo. Harry olhou admirado, eram raras famílias puro-sangue que possuíam utensílios trouxas, e parecia que os Wine eram uma delas.
- É bom que você tenha seguro de vida, garoto. – ela deu uma piscadela. – Porque eu não tenho carteira.
- Obrigada pelo aviso. – Harry sorriu.
O percurso foi rápido, o lugar não era muito longe da casa, gastaram poucos minutos. Harry olhava a paisagem brando do lado de fora e Violet ia puxando assunto sobre carreira, escola e até mesmo sobre a irmã.
- Então, vocês estão juntos há quanto tempo? – indagou Violet, sem encará-lo. A visão permanecia vidrada na estrada escorregadia.
- Alguns meses, creio eu. – respondeu Harry, um pouco constrangido. Sabia que ela fazia aquilo com a intenção de ajudar, de não deixar pairar o incomodo silencio, mas realmente não estava ajudando muito.
- Bom, bom. – ela mexia nas mexas castanhas com uma mão e a outra permanecia grudada ao volante. – Ninguém aqui em casa estaria sabendo de nada se não fosse a Nicollet. Ela encontrou com vocês na escola algumas vezes, não foi?
- Duas vezes. Precisávamos de uma informação para um trabalho. – mentiu Harry. E que mentira ruim foi aquela, geralmente ele sabia fazer melhor. – Eu, Belle e uma amiga. – ele sentiu um pouco de fúria ao lembrar de Lyra. – Era sobre o fongue saltador.
- Entendo. E por que procurar uma jornalista? – perguntou Violet, um pouco desconfiada.
- Porque eles sabem das coisas, e valia muita nota. Queríamos ver a seqüencia de ataques na Índia.
Ela não pareceu muito convencida, nem ele mesmo se convenceu depois daquela mentira lavada, mas acabou cessando com as perguntas e no mesmo instante, chegaram ao lugar onde Isabelle estava.
Era uma praia deserta, provavelmente parte da propriedade. Não havia areia e sim neve cobrindo até o mar gelado. Perto de uma árvore, um cavalo cinzento deitou na areia, mas logo levantou-se ao perceber que alguém chegou.
- Hey! – Isabelle acenou de cima da árvore depois com um pulo, que Harry pensou que ela fosse quebrar no mínimo uns dois ossos, desceu até o chão e foi ao encontro dos dois.
- Olha só quem eu encontrei sendo assustado pela Juliet. – disse Violet e Isabelle sorriu. – Bom, tenho que ajudar mamãe em algumas coisas. Até depois. Foi um prazer conhecê-lo, Harry.
- Igualmente. Obrigado pela carona.
Violet voltou ao carro e logo não se ouvia mais os pneus deslizando pela neve.
- Que bom que veio. – disse Isabelle, abraçando. Não iria fazê-lo em frente à irmã, não por enquanto. – Você sabe como é a Juliet...
- Não se preocupe. – sorriu Harry. – Já conheço a peça. Como foi a viagem ontem?
- Cansativa. – Isabelle sorriu sem graça. Estava numa expectativa tão grande de viajar pela última vez de trem para casa, ainda mais sozinha, e não fim acabou sendo um desastre. – Mas algo interessante aconteceu.
Harry erguer as sobrancelhas e tinha um ar de curiosidade. Pela voz que Isabelle falara, era algo realmente bom.
- O que é?
Isabelle contou a breve conversa que ouvira a bordo do trem. Não era grande coisa, não lhe davam pista de nada, mas mesmo assim já era uma informação que sabiam sobre os tais comensais.
- Mas isso eu já desconfiava! – exclamou Harry, animado. – É obvio que existem esses tais comensais no Ministério. Meu pai já falou que uma vez encontrou artefatos das trevas na casa de um sujeito aí.
- Artefatos das trevas é uma coisa, Harry, mexer com o que quer que eles estejam fazendo é outra. – defendeu Isabelle. Ela sabia exatamente o ponto que ele queria chegar, e cabia a ela defender Lyra naquele momento. – Será mesmo que o número é muito grande?
- Não sei. – respondeu Harry. Ele sentou-se ao lado dela na areia e começou a observar o cavalo que caminhava à beira da praia. – Mas tenho certeza que Lucius Malfoy está envolvido nisso, ele sempre...
- Calma lá, senhor Potter. – Isabelle tampou a boca dele com a mão, era a única maneira de fazê-lo parar quando se tratava dos Malfoy. – Você não tem provas e só está falando isso porque Lyra está namorando com Draco Malfoy.
Harry arregalou os olhos e desvinculou-se das mãos da namorada.
- Namorando!?
- Claro, vai dizer que você não sabia? – Isabelle as sabia da resposta, mas mesmo assim fez a pergunta.
- Não!
- Mas é claro que não sabia! Você não dirige a palavra à Lyra há dias, como poderia saber que ela estava namorando.
Harry lançou um olhar magoado à Isabelle. Não gostava quando ela tocava naquele assunto, e ainda assim, sempre insistia que conversassem sobre aquilo.
- Eu sabia que tinham algo, depois que os vi se agarrando naquele dia. – disse Harry, com um fio de voz. – Mas não que era sério.
Isabelle sorriu e afagou carinhosamente os cabelos dele. Desde quando aquela confusão começou, do inicio dos desentendimentos entre ele e Lyra, Isabelle tentava amenizar a situação. Não se envolvia muito, afinal, não lhe dizia respeito, mas também não ignorava o que estava acontecendo.
- Pois é sério. Pelo que ela me disse, só não saem assim pela escola até contar para o pai dela. – fez uma pausa e o encarou, séria. – Se não gostou do que viu naquela noite, é melhor se preparar para quando voltarmos à escola.
Harry virou o rosto. Estava começando a se enfurecer. Não queria as coisas mudassem, porem, com Malfoy saindo com Lyra, certamente haveriam mudanças. O que mais temia era que ele a afetasse, a transformasse em uma pessoa que o próprio Sirius fugiu de ser.
- Olha, Harry. Eu não vou forçar a barra, porque isso não é problema meu – ela aumentou um pouco o tom de voz. – e muito menos seu. Deixe de ser cabeça dura e aceite. Se Lyra tiver errada sobre o Malfoy, bom, ela aprenderá uma lição para a vida. Se estiver certa, ganhou um namorado. É tão simples...
- Não, não é! – Harry alterou-se um pouco, assustando a garota. Só depois de respirar fundo várias vezes e seu acalmar, ele voltou a falar. – Vamos mudar de assunto. Julian virá para o Natal, provavelmente até para a festa de seu pai.
Isabelle suspirou e se deu por vencida. Era melhor não irritá-lo com aquilo, ou acabariam discutindo de novo. E o assunto que foi jogado na mesa era de seu interesse, não estava sabendo daquilo.
- Como? Como você soube?
- Ele me escreveu. – Harry tirou um papel extremamente amassado do bolso e entregou-o à Isabelle. – Chegou ontem.
Ela leu correndo a carta e a devolveu. Não era uma carta, parecia ser mais um bilhete formal. Apenas dizia que viria para a Inglaterra nas festas. Achou um pouco estranho, Julian não era de escrever somente bilhetes, gostava de cartas longas e com detalhes, não importando o assunto.
- Harry, me empresta de novo? – ela estendeu a mão e ele entregou o papel novamente.
Releu umas duas vezes, mas só conseguiu ver mesmo as entrelinhas quando levantou o papel para o céu. Havia mais uma frase em marca d’água.
“Vocês não vão acreditar no que eu descobri! Não posso falar nessa carta, é perigoso, e por favor não escrevam nada de importante em carta, especialmente aí na Inglaterra.”
Leu em voz alta a mensagem codificada para Harry, que ficou com a mesma expressão no rosto que ela. Ambos surpresos e curiosos.
- Você é um gênio! – Harry pegou o papel e guardou, depois a beijou ardentemente nos lábios.
- E essa é a superior inteligência da Corvinal. – sorriu Isabelle, contente. – Eu já imaginava que haveria algo desse tipo, Julian não escreve pouco. Ele costuma mandar cartas parecendo livros.
- Mas o que será que ele tem para nos contar? – perguntou Harry, não sabendo se a pergunta era para ele mesmo ou para a namorada.
- Será se tem haver com o desaparecimento do tal rapaz?
- Provavelmente. É melhor você não mencionar isso para a sua irmã, Nicollet, pelo menos não agora. Vamos esperar ele falar do que se trata, às vezes está só fazendo tempestade no copo d’água.
- Acho que não, Harry. Se fosse outra coisa ele teria falado, e ainda teria dado detalhes. Acho que é justamente o que nós estamos pensando. – sorriu Isabelle. – Uma hora, acabaremos descobrindo que diabos está acontecendo.
Harry assentiu.
Ela olhou no relógio de pulso. Eram quase seis da tarde, hora de voltar, logo escureceria e cavalgar no escuro não era muito seguro.
- Vamos indo? – Isabelle se levantou-se e estendeu a mão para Harry fazer o mesmo. – Porque não janta lá em casa?
Harry depositou um beijo doce nos lábios dela. Iria recusar, já avisou a mão que tomaria conta do irmão mais novo. Os pais iriam jantar fora hoje, na casa de uns amigos e ele ficaria em casa com Nathan e Victória.
- Não posso. – sorriu ele. – Estou de babá hoje, daqui a pouco minha mãe já está aos berros.
Formou-se um pequeno beiço nos lábios de Isabelle e fez Harry gargalhar. Ela sempre fazia aquilo quando ele dizia não a alguma coisa
- Victória pode ficar de olho no pequeno. – ela sorriu de forma maliciosa. – Eu estou com saudades, faz tempo que não ficamos juntos,... sozinhos.
- E você pretende ficar sozinha comigo com seus pais na casa, seu cunhado, pelo que você me disse, empregados, e ainda três irmãs?
- Tecnicamente, são duas irmã. – Isabelle franziu o cenho. – Nicollet não mora aqui, apesar dela fazer várias refeições conosco.
- Fica para outro dia, ok? – ele a envolveu num abraço.
- Combinaremos alguma coisa depois do Natal. – ela se deu por vencida, mas não totalmente. – Me acompanha até em casa?
Harry olhou para o cavalo ali perto depois voltou a encarar a namorada.
- Você sabe que é meio longe indo a pé, não é?
- E quem disse que vamos a pé? – ela assoviou e o animal se aproximou. – Amsterdã nos leva.
- Obrigada, mas eu passo. – Harry afagou a cabeça do animal, e não melhorou muito a situação quando este tentou mordê-lo.
- Onde está a lendária coragem da Grifinória? – Isabelle montou e estendeu a mão para ele fazer o mesmo.
- Está mexendo com fogo, senhorita. – sorriu ele, soltando um sorriso. – Você é muito persuasiva, sabia?
- Totalmente. Agora se apóie aqui. - apontou para a sela. – E eu te dou uma ajuda.
Harry seguiu as instruções e logo estava na garupa do animal, colado ao corpo da namorada.
De inicio, Isabelle guiava o animal com calma, até Harry se sentir mais a vontade, logo já estavam trotando pela estrada.
- Me diga uma coisa.
- O que? – indagou ela.
- Por que Amsterdã?
- Porque é um lugar que eu fui quando era pequena e com certeza vou querer voltar.
Harry assentiu, conciso. Não tinha muitas idéias para continuar com a conversa, no momento, preferia continuar preso ao corpo da garota e tentar não cair dali de cima.
- Algum dia ainda irei voltar lá. – Harry não viu, mas ela estava sorrindo.
- Com certeza você vai.
Não muito longe dali, na casa dos Wine, Violet andava pelo corredor que dava para todos os quartos, mas era no último que ela estava interessada. Parou diante da enorme porta de mogno e deu três batidas. Esperou o consentimento e adentrou no cômodo.
Era o quarto de hóspedes e também o local que a mãe usava para ler quando este se encontrava desocupado.
- Harry Potter veio aqui hoje. – ela sentou-se na cama, perto da ruiva.
- Eu sei. – Anabeth fechou o grosso livro e encarou a filha, com o cenho franzido. – E algo me diz que você não veio apenas comunicar isso.
Ela não deu a respostar de imediato, ficou alguns segundos em silencio, refletindo.
- Acho que Nicollet está dando informações as quais os garotos não deviam saber. – disse por fim, como se tivesse tirando um peso a consciência. Não era fácil delatar a irmã.
- Eu já suspeitava disso também. – a mãe suspirou. – Nicollet quer que todos saibam da confusão que está o país, que tem um assassino à solta, mas isso não é bom para os meninos. Ainda mais para Isabelle. Chase me avisou ela está começando a se desenvolver, na mesma época que seu avô, pelo que ele disse uma vez.
- Seria bom se vovô ainda estivesse vivo. – Violet abriu um pequeno sorriso. O avô havia morrido há dois anos, depois de um derrame. - Ele lidaria com isso facilmente.
- Claro que sim, mas como ele não está aqui, achei outra opção. – Anabeth deu uma rápida piscadela para a filha. Tinha aquele plano há muito tempo e agora era o momento perfeito para executá-lo – Aproveitando que Remus Lupin está na escola, ele pode dar algumas lições para a sua irmã.
- Isso é bom. Mas e quanto Nicollet? A senhora vai falar com ela? Não acho que...
- Seu pai o fará, não se preocupe. – e abraçou a filha. Estava satisfeita com o envolvimento e maturidade da filha, mas aquela preocupação acabaria corroendo algum dia. Era ela, Anabeth, quem tinha que se preocupar com aquele tipo de coisa e não Violet. – Não quero que ela se envolva nisso, pelo menos não agora, quando começar a se dominar, talvez. Quando sua irmã acha algo estranho e que não bate direito, ela vai até o fim como um cão de caça. É perigoso.
- Belle tem esse defeito. Já avisei para ela ter cuidado com a sua curiosidade, mas ela não me escuta. – meneou a cabeça, sorrindo.
Seu sorriso sumiu ao lembrar-se do outro motivo que a trouxera ali. Pegou a pasta que estava na bolsa e entregou à mãe.
- Está aí. Eu consegui o cargo. – ela ostentava uma feição sagaz. – Está olhando para a mais nova advogada do Ministério.
- Muito bom. – Anabeth bateu algumas palmas, estava entusiasmada, pensava que ia ser mais difícil. – E Pietro?
- Ele não gosta dá idéia de eu voltar a morar na Inglaterra, ainda mais sozinha. Mas ele ainda continuará sendo contato na Itália. – Violet suspirou, agora era a hora da má notícia. – Tivemos notícia do filho do Ministro.
- Então? – Anabeth analisou as feições da filha e já pôde concluir que não era algo bom.
- Morto. Provavelmente com a maldição da morte. Foi achado em um casebre, numa pequena vila perto de Roma. O triste foi saber que só acharam o rapaz porque uns garotos trouxas entraram lá, de brincadeira mesmo, e se depararam com o cadáver. Pelo que me disseram, o corpo estava lá há pelo menos dois dias.
Anabeth passou a mão nos cabelos e desviou o olhar para a ponta da cama. Ainda tinha um fio de esperança que aquele garoto estivesse vivo. Sabia que iriam acabar achando-o e que ele não voltaria da mesma maneira, mas nunca imaginou a morte.
- É lamentável. O que o ministro disse?
- Falará que foi um acidente para a imprensa, mas não sei qual tipo. Creio que esperará até o depois do Natal para revelar o ocorrido à mídia,
- O que eu gostaria de saber e o que essa gente queria com aquele rapaz? Não poderia ter sido uma jogada política, senão teriam pego alguém aqui da Inglaterra.
- Bom, mãe, seja lá o que for, está ligado com algo fora do Ministério, disso eu tenho certeza.
- Eu também. – afagou os cabelos da filha e depois levantou da cama, deixando o livro sobre ela. – Informarei tudo à Dumbledore ainda essa semana.
- Ótimo. E quando será exatamente a partida de vocês para os Estados Unidos? Tem data certa?
- Vai ser como seu pai disse. Assim que Isabelle ingressar naquele expresso vermelho novamente, nós saímos do país.
- Mas mãe, a senhora acha realmente que isso é necessário? O fluxo maior está aqui, na Grã-Bretanha! Acho que a América...
- Todo lugar está corrompido, querida. Uns menos, outros mais. E é uma questão de tempo até que esteja da mesma maneira. – sorriu para a filha uma última vez antes de sair do quarto. – Apenas me prometa ficar de olho nas suas irmãs, especialmente em Isabelle e Juliet.
- Eu prometo, mamãe. Eu prometo. – fitou a janela por alguns segundos, voltou a nevar, e quando se deu conta, estava sozinha no quarto.
- Vamos, Lyra! Vamos brincar de pega! – Nathan a puxava pela manga e Victoria apenas ria da situação.
- Está tarde, Nate. – Lyra o legou os colo, assim acabaria com os puxões e evitaria que a manga do casaco dobrasse de tamanho. – Daqui a pouco você tem que dormir.
- Mas são sete da noite! – exclamou o menino, olhando diretamente para Lyra.
- Droga! Por que você foi ensiná-lo a olhar as horas, Vic?
- Se vira agora, Lyra. – a ruiva bebeu mais um gole de chocolate quente. – Você é oficialmente a babá hoje.
- Isso! – Nathan a abraçou forte. – Agora vamos brincar de pega?
- Como eu não tenho outra escolha... – ela fez cócegas na barriga do menino, que ria até saírem lágrimas dos olhos. – Onde está Harry?
- Ele tinha ido na casa da namorada... aí está ele.
Ouviu-se um barulho de chaves e logo a porta se abriu, mostrando um Harry todo coberto de neve.
- Está um gelo lá fora e... – ele viu Lyra segurando o irmão, perto da lareira. – Lyra.
- Harry. Como foi o passeio? – ela perguntou com uma pontinha de sarcasmo na voz que só fio percebido por Harry.
- Vou tomar banho. Não esqueça de dar o jantar do Nathan, Victoria. – dizendo isso ele subiu as escadas e só puderam ouvir a batida da porta de seu quarto.
- OK! E você! – a ruiva pegou o irmã caçula no colo, e Lyra agradeceu. Nathan estava ficando grande demais para ela segurá-lo. – Não vai comer serial de jantar hoje, de novo não!
- Porquê?
- Pelo simples fato de mamãe me esganar de novo. – ela o soltou e o menino correu para a cozinha. Virou-se para Lyra, tinha percebido que após a chegada de Harry, a ela ficou um pouco cabisbaixa. – O que está acontecendo? Vocês brigaram?
- Um pequeno desentendimento, mas nada sério. – e aquela era uma grande mentira. – Harry está chateado porque eu saí do time, só isso.
- Quer que eu fale com ele? – perguntou Victória.
- Não, é só ele esfriar um pouco a cabeça. – mas aquilo não era exatamente uma mentira. – Tudo ficará bem, eu espero.
A noite transcorreu de forma estranha, estava claro o clima tenso entre Harry e Lyra. Ela não queria estar ali àquela noite, mas o pai foi no mesmo jantar que Lily e James e a aconselhou a passar a noite na casa dos Potter. Se negasse ele logo veria que algo de errado estava acontecendo, porque em dias normais, ela nunca negaria aquele tipo de convite.
Era difícil enfrentar aquela barreira gelada que Harry teimava em manter, ainda mais que ele sempre era tão brincalhão e amigo com ela. Não estava sendo fácil e não sabia que o quanto iria agüentar mais. “É bom que você valha à pena, Draco Malfoy” – disse para si mesma.
“Tudo na vida gira em torno de mudanças. Mudanças de comportamento, de emprego e até de amigos, e por mais que elas sejam árduas, não devemos deixá-las nos atingir. Devemos erguer a cabeça e aceitá-las como se fosse mais um mero desafio de rotima.”
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