Na manhã seguinte a escola parecia não querer acordar, não havia nenhum aluno ou professor pelos corredores, a não ser uma grifinória em especial. Lyra estava sentada na escada perto da sala de Defesa Contra as Artes das Trevas observando a neve cair do lado de fora da janela. Não queria pensar em nada, mas sua mente teimava em manter seus pensamentos focados nos ocorridos da noite passada. Na verdade, estava bastante satisfeita daquilo ter acontecido; beijar Draco Malfoy foi uma experiência um tanto diferente, mas muito boa também. Nunca pensou que aqueles finos lábios do loiro soubessem agir tão bem.
A única pessoa que parecia ter percebido algo era Victoria, que a encontrou quando tirava o vestido. Ela passou um bom tempo interrogando-a, mas sua desconfiança não cessou, ao contrário, aumentou ao perceber os lábios vermelhos e a face rosada de Lyra. E quando tocou no assunto sobre algum garoto, por mais que não quisesse, acabou corando um pouco. Apenas esse último ato foi o que restava para concretizar sua teoria, só não sabia quem era o felizardo.
- Estou com o leve pressentimento de que você está me seguindo, Draco. – Lyra sorriu, sem se virar.
O garoto sentou-se ao lado dela. Em seu rosto estava um meio sorriso.
- Pelo menos não sou eu que saio beijando as pessoas sem razão alguma. – alfinetou ele.
- E desde quando precisamos de uma razão? – ela olhou para Draco. Ele parecia estar cansado, tinha algumas leves olheiras abaixo dos olhos cinzentos. Parecia estar meio que perdido, igual no primeiro dia de aula. – Não sabia que a ressaca ia ser tão grande. Está tudo bem?
- Sim, o que teria de errado? – ele tocou no queixo dela, fazendo virar a cabeça e encará-lo nos olhos. – Deve ser efeito colateral dos seus beijos. Por que não checar isso?
Dito isso, ele aproximou até que seus lábios se tocassem. Agora aqueles finos lábios estavam quentes, e aquele beijo tinha um leve gosto de chocolate. Isso foi suficiente para aquecê-la por completo.
- Devo perguntar o que foi isso? – riu ela.
- Se quiser... – Draco deu uma rápida piscadela. – Ao menos eu vou ter a resposta.
- E qual seria ela? – Lyra ergueu a sobrancelha, curiosa pela resposta.
- Amizade com benefícios.
Ela o beijou novamente, mas com apenas um selinho.
- Hum, eu gostei disso. Então? – ela puxou-o mais para perto, onde sussurrou em seu ouvido, fazendo-lhe cócegas. – Que tal continuarmos com essa amizade com benefícios?
Draco fugiu do beijo que ela estava preste a lhe dar, levantando-se da escada. Vendo a cara de indignação de Lyra, estendeu a mão, ajudando-a a levantar.
- Vamos dar o fora daqui, apesar do castelo estar vazio, não quer dizer que não passe nenhuma alma penada por aqui. – disse ele, dando a mão para ela.
- E isso seria tão ruim? Alguém nos ver juntos? – ela não se moveu, apesar dele continuar insistindo em puxá-la para frente.
- Tudo bem. – Draco parou e falou sarcasticamente para ela: - Podemos ficar aqui sem problemas algum, quem sabe o seu amiguinho Potter nos encontre. Já até consigo ver a felicidade dele.
Lyra já esperava por isso. Ela não se importava de ser vista com Draco, não por pessoas digamos que mais pacíficas ou pelo menos mais compreensivas. Como Hermione, Ginny, até mesmo Victoria, enfim, meninas. Conforme Draco descreveu, ela conseguia ver as caras horrorizadas de Austin, Ron e especialmente Harry, que logo contaria para seu pai, resultando em uma bela dor de cabeça para Lyra. Às vezes ela desejava ou que aqueles garotos fossem mais fáceis, ou que ao menos estivesse gostando de alguém com uma situação menos complexa. E ela pensava que tinha problemas com Thatcher, ainda não tinha nem sentindo o gosto dos problemas se aproximando.
- Você é mau, Draco. – Lyra começou a ceder lentamente, dando alguns pequenos passos na direção do garoto, que logo a conduzia pelo corredor deserto. – Então, guia, para onde vamos?
- Para um lugar diferente.
- Você e essa sua mania de perguntas vagas. – Lyra sorriu, vendo-o alisar seus cabelos. – Ei! O que está fazendo?! Tira isso de mim!
- Fica quieta, garota. – ele meneou a cabeça, dando um leve nó na venda negra que cobria os olhos dela. Era a primeira vez, não iria arriscar, ainda precisariam de muita confiança para mostrar como chegava até lá. – Se você ficar se mexendo vou acabar te machucando.
- Mas para que isso? – ela indagou, apalpando as mãos dele, que arrumavam a venda em seu rosto.
- Para te levar até um lugar diferente.
- E eu não posso ver porque... – ela disse vagamente, para que ele pudesse responder.
- Você logo saberá. – não iria falar que não confiava o suficiente nela. Conhecendo Lyra como conhecia, ela iria ficar brava ou chateada. Às vezes uma pequena omissão não faz mal a ninguém.
- Ok. – Lyra se deu por vencida. – Eu confio em você, Draco.
Por que ela tinha de dizer aquilo? Agora tinha uma pequena parte que ficava martelando em sua cabeça, dizendo para ele que não era certo o que estava fazendo. Ele odiava ter consciência, era simplesmente tão mais fácil quando ignorava aquelas malditas marteladas.
- Vamos. – disse ele, olhando para os lados.
Lyra não dizia nada, nem uma palavra. Estava curiosa para saber onde Draco a estaria levando, não muito segura de si sobre o que aquilo significava, porém ela tinha certa confiança nele. Draco não a faria mal, não mesmo.
Ele a guiou até o lado oeste, ou seja, praticamente atravessaram o castelo inteiro. Durante o percurso, não encontraram sequer uma pessoa andando pelos corredores, e Pirraça não contava.
- SEQUESTRO! SEQUESTRO! O Malfoy está seqüestrando uma garota. – gritava Pirraça em plenos pulmões, voando ao redor dos dois.
- CALA A BOCA, PIRRAÇA! – disseram Lyra e Draco em uníssono. Lyra não agüentava aquela voz irritante de Pirraça ecoando pelos corredores, tampouco Draco.
Eles subiam e desciam escadas, viravam vários corredores. Lyra estava começando a se perguntar se aquilo não era algum tipo de tour, pois tinha a impressão de estar dando voltas e mais voltas pelo castelo.
O tal lugar onde Draco a levava era de certa maneira especial. Nunca o mostrou a ninguém, fora seu tio quem lhe contara quando era pequeno. Ao contrário do pai, Rawdon Malfoy aproveitara muito bem seu tempo de menino em Hogwarts, descobrindo segredos em cada canto do castelo. A maioria guardava para si, mas aquela saleta poderia ser algo bom para o sobrinho.
Subiram um último lance de escadas e viraram a esquerda, ficando em frente à um quadro de cavaleiro segurando uma espada, e atrás uma espécie de feudo. Ao ver Draco, o homenzinho balançou ainda mais a espada, porém, logo fez um breve reverencia.
- Animus confidenti. – disse Draco num sussurro.
Com aquelas palavras, o cavaleiro cravou sua espada na terra avermelhada e o quadro moveu-se de lugar, dando uma passagem que logo se transformava em uma espécie de porta com os movimentos das paredes de pedra. Em segundos, no lugar do quadro, estava uma porta, pela qual Draco atravessou, conduzindo Lyra. A garota estava atônita com o que acontecia ao seu redor, sabia que estava em um lugar diferente agora e que o ambiente havia mudado, conseguia sentir o calor das tochas que iluminavam o corredor.
- Estamos chegando, Draco? – perguntou ela, tentando prestar atenção nos barulhos, mas só ouviu a parede voltando ao normal e as pisadas dos dois ecoando ali.
- Sim, não se preocupe. – ele apertou levemente a mão dela, tentando dar-lhe uma sensação de segurança ou pelo menos, confiança.
Não precisaram andar muito, Draco já conseguia ver a porta de madeira no final do corredor. Ele apressou-se um pouco e abriu a porta destrancada. Antes de darem o primeiro passo dentro da sala, ele tirou a venda dos olhos de Lyra. Ali já era seguro.
- Pelas barbas de... – Lyra olhava a sala espantada, nunca imaginou que houvesse algo do tipo ali. Não era um lugar muito grande, mas parecia ser aconchegante. Tinha uma lareira no canto, perto da janela com vista para o lago. A mobília parecia uma mistura de todas as casas, uma mesa com três cadeiras, tudo de madeira escura, um sofá verde-musgo de dois lugares em frente à lareira, com uma pequena mesa à frente deste. Uma das paredes eram só estantes, a maioria com alguns detalhes em amarelo queimado, todas cobertas de livros organizados por coleções ou matéria. E por fim, as paredes. Não eram somente de pedra como a maior parte da escola, tinham um papel de parede azulado com pequenos desenhos em prata. Era a junção de toda Hogwarts em apenas uma sala, simplesmente genial.
- Isso... isso. – Lyra ainda não tinha palavras para descrever o lugar, o que fez Draco sorrir. Ela tinha gostado. – Mas como?
- Meu tio falou-me sobre aqui quando eu ainda era garoto. – o loiro abriu um meio sorriso.
- Tio? Você está falando de Rawdon Malfoy? – indagou ela. A última vez que ouvira falar dele fora quando seu pai contava ao padrinho e Remus que o caçula dos Malfoy havia sido deserdado.
- É, tio! É o único que tenho.
- Você tem notícias dele? – perguntou Lyra, se aventurando no lugar. Ela não se inibia em nada quando sua curiosidade falava mais alto.
- Não. Randow e meu pai cortaram ligações quando ele foi embora, há alguns anos. A última coisa que eu ouvi dizer foi que ele estava atrás de dragões não sei aonde, com um Weasley.– Draco meneou a cabeça. Foi difícil acreditar quando ouviu os pais discutindo em uma noite, foi a última vez que teve notícia dele, e a também a última que vira o pai tão bravo por conta do irmão mais novo. Lucius Malfoy simplesmente não suportava de ver um legitimo Malfoy correndo atrás de animais como se fosse um qualquer. Sua primeira providencia depois de tal fato foi tirar o irmão do testamento da família, assegurando de que ele não iria receber um só galeão da fortuna.
- Weasley? Você está falando de Charlie Weasley? – Lyra o encarou, totalmente surpresa. – Eu não acredito! – agora ela gargalhava no chão. Draco implicava tanto com os amigos ruivos, talvez esse fosse o motivo e não a situação econômica da família ou a quantidade de irmãos.
- Eu não vejo graça. – Disse ele, seco.
- Certo, desculpa. – Lyra alisou o rosto branco dele, fazendo Draco encará-la nos olhos. – Mas me conte: o que exatamente você disse para trazer aqui?
- Você quer mesmo saber? – ela beijou levemente os lábios dele, fazendo o mesmo movimento repentinas vezes, até ele começar a ceder, investindo de volta.
- Ainda acho que você caiu na casa errada, senhorita Black. – ele sorriu, abraçando-a. - Animus confidenti. Quer dizer intenção de confessar.
Intenção de confessar. Lyra olhou para o lugar, não via nada que se assemelhasse àquela sentença.
- Sei que você vai perguntar isso. – disse Draco revirando os olhos, fazendo-a sorrir. Ele a conhecia mais do que pensava. – Não sei bem o porquê dessa exata senha, foi o que meu tio me falou. Mas acho que talvez tenha a ver com o lugar em si, sabe? Um lugar para ficar sozinho, falar o que quiser, e que ninguém ouça. De certa forma, acredito que aqui seja um lugar para confessar o que mais nos aflige.
Lyra riu. Ele falava da sala com uma certa paixão, talvez fosse o fato de ter sido o tio quem lhe mostrara o lugar ou simplesmente porque adorava isolar-se ali, procurando fugir um pouco da realidade. Gostava quando ele falava daquela maneira, defendendo o que gostava, sempre era sarcástico em relação à qualquer outra coisa.
- E o que te aflige, Draco Malfoy? – ela ergueu a sobrancelha. Não tinha a menor idéia da resposta que ele daria, Draco transmitia uma autoconfiança como ninguém.
Não esperava por aquela pergunta. E novamente omitiria a verdade, não contaria o que realmente temia. O motivo pelas noites mal dormidas, e as constantes e intragáveis conversas com Knox. Conhecendo Lyra como conhecia se contasse o que estava acontecendo, ela nunca mais olharia na cara dele novamente. Ela detestava aquele tipo dele, abominava, e dizia isso abertamente. Já, Draco, apenas achava interessante, mas ainda não tinha certeza se queria se envolver com algo tão grande e que de alguma forma o comprometeria pelo resto da vida. Tinha dúvidas se Artes das Trevas era seu verdadeiro forte, se queria continuar com o que o pai começara. Só não sabia se teria coragem suficiente para arcar com o que viesse depois de entrar para o Ciclo das Trevas, seguindo o Lord.
- O que mais me aflige? – Draco tentou abriu um fraco sorriso, e não a encarava, apenas o fingia. Na verdade, focava-se no canto da sala. Era difícil mentir enquanto encarava aqueles olhos azuis que admirava tanto. – Deixe-me pensar. Acho que é o fato de que eu estou em uma sala isolada, com uma grifinória extremamente curiosa e bela.
- Oh, como você é falso. E não me venha com esse sorriso galanteador, Malfoy. – ela o advertiu. – Sei quando mente, e por Deus, você mente muito mal.
Draco suspirou, e ela estava certa. Mentia muito mal, por isso que tentava se manter calado a maior parte do tempo.
- Olhe, - tirou alguns fios que caíam sobre os olhos cinzentos do garoto. – conheço você o suficiente para saber que não irá abrir o bico por hipótese nenhuma. Você e Harry tentam provar arduamente suas diferenças, entretanto, são mais parecidos do que pensam. Tanto você quanto ele não contam o que lhes preocupam, já que imaginam que isso é sinal de fraqueza. Eu sei disso, e não insistirei. Sei que respeita e respeitará os meus limites, assim como eu estou fazendo.
Passou um minuto de silencio. As palavras de Lyra fizeram efeito em sua mente, sentia sorte de tê-la por perto.
- Não sou igual ao Potter! – exclamou Draco, fazendo Lyra rolar os olhos. – Jamais! Aquele garoto é um imbecil metido a herói e sabichão.
- E lá vamos nós de novo. – Lyra meneou a cabeça. – Certo, você são totalmente diferentes. Satisfeito?
- Muito. – respondeu o loiro, mostrando uma expressão vitoriosa. – Então? Vamos continuar o que estávamos fazendo lá fora?
- Ai, como vocês garotos só pensam nisso. – Lyra forjou uma cara séria, mas mostrava um pequeno sorriso no canto dos lábios.
- Pelo que eu sei, minha querida, era a senhorita que não queria interromper lá fora, ou estou errado?
- Você fala demais, Malfoy. – Lyra o puxou pelo casaco, fazendo seus corpos juntarem-se novamente. Amava aquele calor que o corpo dele transmitia, podia ficar o resto do dia ali, envolvida nos braços dele. – Não quer ligar a lareira, não? – ela olhou para cima, encontrando-se com os olhos dele. Mas era claro que estava com frio, ali era uma sala fechada, mas não quer dizer que a temperatura negativa do lado de fora não afetaria nada ali dentro.
- Mas já? – Draco riu, tirando a varinha do bolso. – Acomode-se em algum lugar que eu arrumo tudo. Eu estou cansado de ficar em pé, você não?
- Preguiça mata, sabia? – disse ela, rindo, enquanto percorria com o olhar toda a sala, em busca de um bom lugar para ficar. Sim, ela sentia-se um pouco cansada, voltaram tarde na noite anterior e não dormira muito bem também.
Andou até o sofá, mas não sentou sobre ele, preferia o chão mesmo. Sentada sobre o tapete amarelado, encostou as costas no sofá, mas antes, moveu a mesa do centro para frente, e esticou as pernas.
Logo Draco juntou-se a ela, acompanhado de um cobertor não muito grosso e um travesseiro se seda. Ele acomodou o travesseiro para Lyra, que também recostava em seu ombro, e cobriu ambos com o cobertor. Agora ela parecia satisfeita.
- Pronto. Só falta trazer o frigobar que eu nunca mais saio daqui. – brincou Lyra, que se divertia ao ver a cara de desentendido do garoto. – Esquece. – ela brincava com os cabelos, desviando o olhar de Draco. – Você passa muito tempo aqui? Porque dada as circunstancias, sabe? Travesseiro, cobertor, só falta uma cama que aqui se transforma em um dormitório particular.
- Você tem idéia do que é dormir em um dormitório masculino? – indagou Draco, com a sobrancelha erguida.
- Não, mas eu acho que não seria tão ruim. – Lyra abriu um sorriso malicioso, fazendo o outro rolar os olhos. E ainda diziam que eram os homens que tinham más intenções.
- Esses comentários podem ser dispensados. – ele acariciou o rosto dela, levemente, tirando algumas mechas dos cabelos negros dos olhos. – Você nunca se sentiu como se quisesse fugir as vezes? Ir para qualquer lugar, menos aquele onde está.
Lyra fez um breve sim com a cabeça.
- A realidade consegue ser muito dura às vezes. Simplesmente, não sei o que é pior: viver com ou fora dela.
- É. – disse ele, de forma vaga.
Ela desencostou-se do ombro dele, para poder encará-lo nos olhos. Tinha a impressão que algo estava acontecendo, Draco estava distante, tinha um olhar cansado como o dela, mas sua expressão facial parecia estar em paz, ao menos um pouco de paz. Sorriu internamente, estava feliz por ficar ali com ele, sentia que ele pensava da mesma forma, ou queria acreditar que sim.
- Você está bem? – ela tocou-lhe na face, delicadamente. Como adorava fazer aquilo, brincar com as caricias. – Não precisa me contar o que está acontecendo, apenas diga-me a verdade. Se está tudo bem ou não.
Draco suspirou. As coisas não estavam boas nem ruins, estavam normais, tirando o fato de Knox não deixá-lo em paz. Pensando bem, as coisas pareciam melhor. Lyra fazia as coisas ficarem melhores de uma maneira que ele não sabia explicar. Ela o compreendia como ninguém, e não o forçava a nada, nem a atravessar seus limites. Não tinha muita certeza do que aquilo iria se transformar ou se iria ser algo duradouro, mas aproveitaria até que acabasse.
- Sim, está. – ele sorriu, sincero. Isso foi suficiente para Lyra acreditar e cessar sua expressão preocupada. – Uma coisa que eu queria saber: isso ainda é uma amizade com benefícios?
Aquela pergunta a pegou de surpresa. Não tinha certeza do que eles tinham, mas tinha a mais plena certeza de que estava gostando do que aconteceu até ali. Sorriu, já sabia a resposta que iria dar ao garoto.
- Sinceramente, Draco, não sei o que é isso que nós temos. É a relação mais complicada que já tive, e ao mesmo tempo, uma das que mais gosto. – ela o beijou de forma rápida. – Acho que devemos dar tempo ao tempo, não apressar as coisas. O que tiver se ser, será.
- Hum, - ele concordou com a cabeça, depois falou sarcástico. – você anda lendo muito livro filosófico.
- E você sabe estragar um momento. – ele forjou uma cara emburrada, com um pequeno beiço nos lábios. – Tem noção do quão difícil foi formular aquela frase?
- Bom, na verdade, acho que ela é de um autor famoso.
- Oh, cala a boca, Draco. – ela o puxou para um beijo. O beijava com uma paixão, como se temesse que aquele momento acabaria e não teria novamente.
Draco apenas a seguia, ela estava no comando naquele momento. A única coisa que fazia era puxá-la cada vez mais, a queria cada vez mais perto si. Sentia tantas coisas naquele momento, porém o que mais prevalecia era o sentimento que o prendia à ela. Não sabia bem o que era, mas sentia-se bem com aquilo.
Lyra passeava com os dedos pela face de os cabelos loiros dele, adorava aqueles traços. Draco parecia um menino, um garoto como outro qualquer, mas tinha alguns traços de adulto, como se tivesse crescido rápido demais. Simplesmente amava isso, era como se estivesse saindo com um homem mais maduro, mas que ao mesmo tempo não fugisse da idade dela.
Houve uma hora em que ele não agüentou mais, precisava assumir o controle. Beijava-a com voracidade agora, dando a impressão que estavam competindo por algo. Roçava seus lábios no pescoço dela. Sorriu ao ver que ela se arrepiou.
Ela se distanciou um pouco. Seu cérebro havia se apagado por algum tempo, mas agora que estava de volta, os pensamentos voltaram à sua cabeça. Era tanta coisa que pensava, mas o principal era o caminho que aquilo estava tomando. Não conhecia Draco o suficiente para saber o que estava pensando naquele momento, mas conhecia bem o que homens pensariam daquilo.
A hesitação era pelo simples fato de haver uma dúvida, na verdade, estavam andando no escuro. Não tinha a menor idéia do que era aquilo que tinha. Sim, era bom, era muito bom, mas talvez não o suficiente.
- Draco. – Lyra começou, com o fio de voz que ainda lhe restava.
Demorou um pouco para perceber que ela o chamava, mas quando tinha certeza, parou e a encarou, ainda ofegante.
- Sério mesmo? – Draco se recompôs e voltou para seu lugar. Agora que tinha se dado conta que estava junto demais dela.
- É. – ela suspirou, procurando palavras. Não tinha idéia do que diria a ele. – Olha, o que é isso? O que estamos fazendo?
- Pensei que fosse, como você mesmo disse, “uma amizade com benefícios”. – ele fez as aspas com os dedos.
- Também pensava que era só isso, mas acho que não vai dar certo. – Lyra, suspirou. Era difícil dizer aquilo, mas era pelo bem dela, e dele. Porque no final das contas, alguém sairia machucado, e julgando como as coisas estavam indo, esse alguém seria ela. – É melhor acabarmos com isso de uma vez.
Ela já estava de joelhos quando Draco a segurou. Foi como reflexo, ao vê-la partindo, simplesmente a segurou. Não sabia o porquê, mas simplesmente o fez.
- Então faremos dar certo. – Draco a encarou nos olhos. Mas dentro de si, tudo estava um caos. Queria que continuasse com aquilo, mas também achava que as palavras que ela havia dito há pouco, estavam corretas. Suspirou, e mandou tudo para os infernos. – Fica, por favor.
Não esperava por aquilo. Imaginava que ele apenas concordaria e ela sairia daquela sala, não sabendo se as coisas voltariam a ser como antes. Mas ele a impediu de deixar a sala, a impediu de acabar com o que quer se fosse quilo. Apenas abriu um meio sorriso e sentou-se, ficando cara a cara com Draco.
- Você tem certeza de que é isso que você quer? – perguntou ela, e ele deu um breve aceno. – É um compromisso, então.
- Por Merlin! – Draco a puxou pela mão, fazendo cair sobre ele. – Você fala como se isso fosse algum tipo de negócio. Sinto-me uma verdadeira mercadoria agora.
- Oh, pobrezinho. – Lyra meneou a cabeça. – Acho que posso cuidar disso, sabe?
- Verdade? – ele a deitou sobre o tapete, depois acomodou o travesseiro sobre a cabeça dela.
- Pensei que fosse eu quem daria um jeito nisso, sabe? – ela sorriu, matreira.
- É. – Draco encostou a beijou levemente depois deixou a ponta de seu nariz encostada na de Lyra. – Está reclamando? Por que está...
- Não, não estou. – ela recostou no peito dele novamente.
Ficaram ali até a hora do almoço, quando Lyra olhou no relógio e viu que já tinham que ir. Harry e os outros deveriam estar se perguntando onde ela estava, e não queria levantar suspeitas. Ficou decidido que no tempo certo, contariam ao mundo o que havia acontecido naquela manhã. Tinham que voltar à realidade.
“Devemos viver na realidade, mas fugir dela de vez em quando é essencial, especialmente para encontrar forças para fazer o que tememos em reais circunstâncias.”
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