Capítulo 5 – Our Last Days As Children
Nossos últimos Dias Como Crianças

Já passavam das onze quando Lyra acordou, não era para menos já que ela e os amigos ficaram jogando conversa fora ou qualquer coisa do gênero na noite passada. Fora bastante difícil pegar no sono, estava ansiosa por aquele dia, naquele domingo estava fazendo seus dezessete anos, então, completando a tão esperada maior idade.
Ela abriu os olhos pesados, ainda não queria acordar, mas tinha compromisso e não poderia atrasar. Finalmente tomou coragem e levantou da cama, estava gelado, eram os primeiros dias de inverno chegando.
O quarto estava praticamente vazio, excerto por uma pessoa. Hermione estava deitada em sua cama com um livro grosso sobre as pernas. Ela alargou seu sorriso ao ver a cara amassada de Lyra.
- Parabéns! – Hermione a abraçou forte. Àquelas alturas do campeonato, Lyra não estava nem tomando conhecimento do que estava acontecendo. Precisava de um banho, e com urgência.
- Obrigada. Então acordada há muito tempo? – perguntou Lyra, pegando algumas roupas e colocando-as sobre a cama.
- Até que sim, acordei às nove. Apenas Harry levantou, os outros dois continuam desmaiados lá no quarto deles. – ela ergueu a sobrancelha ao ver o sobretudo que a outra pegava. – Então, quais são seus planos para hoje, senhorita Black?
- Meu pai vem me buscar. – Lyra sorriu radiante, estava com saudades. Ele quase não escrevia mais. – Estou curiosa para saber o que ele aprontou para hoje. Bem, vou me aprontar.
Lyra foi até o banheiro, mas depois voltou.
- Por acaso não deixaram nada para mim, não? Nenhuma carta, ou coisa parecida? – indagou ela, como se não quisesse nada. Na verdade ela queria sim, primeiro, se havia algo de Thatcher, segundo, de Draco. Desde aquele dia do rompimento dela com o namorado,
quase não teve oportunidade de falar com o sonserino. Na verdade, queria agradecer e também ver o que ele diria. Não era todo dia que Draco Malfoy cedia o ombro, aquela não era uma de suas atitudes mais freqüentes.
- Não que eu saiba. – Hermione deu de ombros. – Está esperando alguma coisa? Notícias de Thatcher?
- É, isso mesmo. – ela abriu um sorrisinho amarelo. Em parte, era verdade.
Voltou ao banheiro, onde tomou uma ducha rápida. Não tinha o costume de demorar em banhos, apesar quando estava cansada ou algo a incomodava, isso geralmente ocorria depois dos treinos de quadribol. Saiu pingando e quase escorregando também, com a varinha, secou os cabelos rapidamente e depois vestiu a roupa. Sua sorte era que havia separado o que usar na noite anterior, era um poço de indecisão para roupas. Aquela não estava ruim, pegara uma blusa vinho com uma de suas saias preferidas e o sobretudo bege. E claro, uma bota de couro, mas não de cano muito alto. Coisa que detestava era passar frio, ao menos com aquele traje, o vento não a incomodaria tanto.
Ao sair do banheiro, deu mais uma olhada no canto onde Alioth costumava ficar, lá estava um embrulho com uma longa fita rosa, provavelmente vindo dos padrinhos, e mais duas cartas, uma de tom avermelhada, mas não era um berrador e outra com um símbolo estranho no verso.
Ela pegou a segunda carta, já que a primeira viu que era de Remus, a leria quando voltasse. A carta possuía o símbolo da LOOP, dois dragões soltando fogo e formando as iniciais da organização. Abriu-a e lá estava algumas palavras com a letra de Thatcher.
Querida Lyra,
Escrevo desejando-lhe os parabéns pelo seu aniversário. Espero que esteja tudo bem aí na escola, com as aulas e tudo o mais, torço também para que melhore em Poções.
Por aqui, tudo está bem. Fiz uma ótima viagem até Berlim. Os treinamentos são puxados, mas logo logo entrarei no ritmo.
Ficarei algum tempo sem mandar notícias, regras da administração. Mas sempre que der, dou um “alô”.
Beijos
Thatcher
Ficou feliz ao saber que Thatcher estava bem, mas ainda continuava pensando que a LOOP não era para ele. Era um tipo de trabalho que a pessoa tinha de dar a vida para isso, e Thatcher era do tipo que queria ter uma boa vida social, queria ter um futuro ao lado de alguém. Mas a escolha era dele, e não tinha nada que pudesse fazer.
Deixou a carta onde estava e saiu do quarto às pressas. Ainda queria encontrar Harry antes de ir, já que provavelmente só voltaria à noite.
- BU!
Ela, quase caindo, escorou na parede com a mão no peito. Olhou para o lado e viu Harry encarando-a com um sorriso maroto.
- Pensando que ia escapar de mim? – ela a abraçou apertado. – Parabéns!
- Eu juro que quando voltar a respirar, te esfolo vivo. – disse ela, ofegante.
- Então, pirralhinha, dezessete, hein? – Harry assanhou o cabelo dela com um sorriso malvado, sabia que ela detestava quando fazia aquilo. Mas era difícil resistir.
- E como se você muita idade para continuar com esse apelido. – ela se afastou alguns passos, arrumando os cabelos que estavam cobrindo seus olhos. – E meu presente?
- Presente? – ele fingiu uma cara cinicamente surpresa. – Não sei do que está falando.
- Chato. – disse Lyra, pondo a língua para fora e correndo para as escadas. – Nos vemos depois, meu pai já deve estar querendo me deixar para trás.
- Mando um alô para Sirius. – gritou ele.
Podia-se ouvir o estalo de sua bota colidindo com o chão de pedra à metros de distância, tentava manter os passos rápidos e largos, mas o vento cortante não facilitava em nada. Apertou os olhos e conseguiu ver o pai sentado em um dos bancos de pedra perto da fonte.
Ele adorava aquele lugar, Lyra sabia disso. Sempre que tinham de se encontrar na escola, ele marcava ali. Também gostava, principalmente quando queria ficar sozinha. Quase nenhum aluno que não ia ali, talvez seja por não saber de sua existência, ou até mesmo por não ter nada ali. Era apenas uma pequena praça, com alguns bancos de pedra e uma fonte de um hipogrifo cuspindo água, nada mais. Mas era o bastante para Lyra.
- Hey. – ela parou e sorriu discretamente.
- Me lembra de comprar um despertador para o próximo ano. – riu Sirius.
Ele a envolveu num abraço apertado, estava com saudades. Beijou-lhe na testa, viu que ela tremia um pouco. Começou a tirar o casaco, quando Lyra o impediu.
- Estou bem.
- Isso, me diga que está bem quando estiver em uma cama de hospital com pneumonia. – enfiou a mão no bolso da calça e tirou um embrulho avermelhado de dentro dele. – A propósito, parabéns!
- Estava demorando. – ela pegou o embrulho, mas estava mais preocupada em abraçar o pai. – Abrirei mais tarde.
- Nessas horas você não tem curiosidade.
- Tenho menos do que quando vejo você, no meio da noite, entrando de fininho, tentando esconder uma coisa muito grande.
- Isso, menospreze os pequenos embrulhos. – ele gesticulou um pouco dramaticamente.
- Está bem! – ela riu. – Eu abro agora!
Rascou o papel vermelho e quando viu o que era encarou o pai, chocada. Procurava aquilo há mais de um ano e não encontrava em nenhum lugar para comprar. Era um livro de aspecto velho, com páginas amareladas e a capa um pouco surrada. Qualquer um que olhasse aquilo veria nada mais do que um livro velho e sem valor, mas para Lyra, era o presente ideal.
- In Omnia Paratus de Joseph King. Onde você o encontrou? Procurei em todos os lugares!
- Segredo. – ele riu da cara de indignação que a filha fez. – Gostou?
- Você está brincando? Eu adorei! – ela pulou e abraçou o pai novamente, fazendo com que os dois quase fossem para o chão.
- Bem, vamos indo. Já que a senhorita acordou tarde, nosso tempo é curto.
- Como você sabe?
- Encontrei com Victória quando vinha. Eu realmente dei um susto nela e no namorado. – Sirius sorriu malvadamente, muito parecido com o sorriso de Harry mais cedo.
- E para onde vamos? – ela estava curiosa, cada vez o pai lhe surpreendia com um lugar diferente.
- Você vai ver. – ele apontou para aguador de plantas perto do banco onde estava sentado. Era uma chave de portal.
Lyra segurou no braço do pai, enquanto este pegava o objeto no chão. Não demorou até sentirem seus pés levantando do chão e tudo começar a girar. Ela fechou os olhos e quando os abriu, piscou várias vezes até perceber que aquilo era real. À sua frente estava a Torre Eiffel mais bonita do que nunca.
- Feliz aniversário, Lyra. – Sirius abriu um largo sorriso ao ver a face surpresa da garota.
- É... é perfeito. – gaguejava ela.
- Vamos, tem um táxi logo ali. – Sirius segurou a mão dela e começou a caminhar pela grama até onde havia um ponto de táxi. Foi realmente uma boa idéia a de James de usar aquele feitiço para que os trouxas não os vissem chegando. Queria que a chegada fosse surpreendente, e realmente foi, os olhos de Lyra demonstravam que havia sido um sucesso.
Ele abriu a porta para que Lyra entrasse e logo sentou-se ao lado dela no banco. O motorista virou-se e disse algo que ela não compreendeu, mas o pai sim, já que disse algo em resposta e logo o carro estava entrando numa rodovia.
- Como exatamente você entendeu o que ele disse? – indagou ela, observando a paisagem fora da janela.
- Bem, sua avó adorava um francês. – ele deu de ombros, não gostava muito de tocar no assunto sobre os pais ou o irmão, na verdade, detestava falar sobre a família com quem viveu boa parte da vida.
- Bom saber. – ela virou-se para Sirius, com um olhar curioso. – Então, para onde estamos indo?
- Deixa de ser curiosa. – sorriu ele. Aquela era uma das más qualidades que ela herdara dele, não saber esperar, a impaciência irritante e o ato de ser impertinente algumas vezes. Certas vezes, pensava que ela devia ter puxado mais à mãe, ser mais calma, porém, menos explosiva quando irritada. Mas talvez se fosse assim, Lyra não seria o que era hoje, e não mudaria sequer um fio de cabelo dela.
- Vamos, pai. – ela puxava a manga de Sirius quase sem força, apenas para chamar sua atenção. – Me conta. Só espero ter comida, porque eu estou faminta, sabe?
- Você é magra de ruim. – ele riu. E era verdade aquilo.
Durante o caminho, Lyra foi contando sobre o que acontecia em Hogwarts, sobre os professores, tudo, menos sobre a noite de detenção com Draco, que ouvira a conversa atrás da porta. Contava tudo para o pai, ou quase tudo, mas aquele era um assunto delicado, ele detestava bisbilhoteiros e sempre a ensinou a não espionar a conversa dos outros. Outro detalhe, não queria que ele soubesse da sua detenção com Draco.
Quando o táxi parou, ela se deparou com uma casa enorme, com paredes de madeiras e alguns detalhes feitos com material parecido. Era um restaurante na verdade, e parecia dos bons.
Sirius fez sinal para que entrassem. Ele parou para conversar com um homem na entrada e Lyra ficou observando os peixes no aquário perto da porta. Deu uma espiada no lado de dentro, estava lotado. Garçons corriam de um lado para o outro carregando bandejas de pratas e quando um freguês abaixava o braço para fazer um pedido, logo outro levantava. Ela não duraria um dia num emprego daqueles.
- Vamos?
Sirius entrou no lugar logo atrás do homem com quem conversava. Ele os levou até uma mesa perto já nela. A vista era simplesmente fantástica, podia-se ver praticamente toda a cidade dali. Era um dos lugares preferidos de Sirius em Paris, primeiramente, por ser um pouco afastado da correria da cidade e depois por aquela tranqüilidade que sentia toda vez que ia ali.
- Pai, peça para mim, por favor. – disse Lyra. – Mas pelo amor de Deus, não quero comer nenhuma rã não, viu?
- Certo, certo. – ele trocou algumas palavras com o garçom ao seu lado, este logo saiu, deixando-as às sós. – Pedi aquele vinho italiano que gosta tanto. Mas veja se não fica muito alegrinha hoje. Fico imaginando a cara de Dumbledore ao descobrir que eu levo de volta minha filha com menos juízo do que quando saiu da escola. Ele me denuncia para o serviço social.
Ela revirou os olhos. O pai nunca esquecia o acontecimento perto do último Natal quando ela tinha descoberto o tanto que gostava de algumas taças de vinho tinto. Mas o pior foi a ressaca do dia seguinte junto com o sermão.
- Então, como vai o palerma do seu namorado?
E aquele era um pequeno detalhe que não tinha escrito na última carta.
- Bem, a gente meio que terminou. – ela abriu um meio sorriso. Pela cara do pai, não sabia de ele estava feliz ou triste. Sua madrinha contara certa vez que Sirius detestava Thatcher, mas engolia por medo de aparecer coisa pior.
- Jura? – Sirius forçou uma cara de tristeza. – O que aconteceu?
- Ele mudou-se. Foi para a Alemanha, para aquela tal de LOOP.
Ao ouvir aquele nome, Sirius ficou atônito. Primeiro pelo fato de um garoto que era um poço de lerdeza ter entrado para aquela organização e segundo por medo dele dar com a língua nos dentes e contar o que estava acontecendo e os planos de Dumbledore para a segurança da escola. Mas depois lembrou de como aquilo funcionava, para ele ter sido escalado, tinha de ter algo especial, coisa que Sirius não fazia a menos idéia, e também deveria ser fiel ao que estava fazendo. Não, ele não iria contar.
- Que pena.
- Cínico. Podia fingir melhor, sabe?
- É, mas não tenho a intenção. – ele sorriu. – E como vai meu afilhado cabeça de vento?
- Bem. Um saco por causa do quadribol, como de costume. – ela bufou, não conseguia entender como aqueles meninos eram tão vidrados naquele maldito esporte. – Ele e Austin.
- Soube que ele conseguiu ficar na Inglaterra. Os pais dele já se arrumaram por lá, ouvi Lily contando. Eu sinto dó daquele garoto.
- Também, mas não é todo mundo que tem a sorte e o azar de ter Sirius Black como pai, estou certa?
- Esse privilégio não é para qualquer um, minha querida. – ele deu uma rápida piscadela.
O garçom trouxe uma garrafa com rótulo esverdeado e derramou o líquido dentro das duas taças, logo voltou para o lugar de onde tinha acabado de sair. Lyra pegou a taça à sua frente. Ela observou a cor depois sentiu o cheiro forte, estava perfeito. O primeiro trago, como sempre, parecia descer queimando sua garganta, mas logo aquela sensação cessava.
Sirius a olhava observar a bebida sorrindo. Lyra não parecia mais uma menina, ou a menina que ele queria que ela continuasse sendo. Ela tinha um jeito de moleca, mas sabia perfeitamente tomar a decisão certa quando era preciso. Tinha certeza de quando a hora chegasse, a filha conseguiria fazer as escolhas certas para o futuro, um futuro brilhante que lhe pertencia. Aquilo tudo provocava uma certa dor no coração, tinha que deixá-la ir em frente, tornar-se adulta.
Ele abriu um sorriso amoroso, um pouco saudoso também. Era naquele exato momento que daria seu passe para liberdade.
Pegou um envelope no bolso de dentro do paletó e o entregou à Lyra. Suas mãos tremiam um pouco e estava sentindo-se um tanto nervoso. Ela percebera aquilo.
- Pai, está tudo bem? – indagou Lyra, pegando o envelope.
Lançou um último olhar ao pai antes de abriu o papel. Com uma certa delicadeza, abriu um envelope e tirou a primeira coisa que seus dedos tocaram. Demorou um pouco a entender do que aquilo se tratava, mas quando viu a data para o ano seguinte e a destino Nova York, voltou a encarar ao pai, com o índole totalmente surpreso.
- Pai, você disse que não aprovava... – ela baixou a passagem de avião sobre a mesa e pegou o que restava dentro do envelope.
- Feliz aniversário. Leia a carta.
E foi o que ela fez.
Queria Lyra,
É difícil escrever o que estou sentindo neste exato momento. Você foi o maior feito de toda a minha vida, e vendo o que é hoje, vejo que não falhei. Nós não falhamos.
Tudo deve seguir seu curso, e acho que és esperta o bastante para definir o que fará num futuro não tão distante. Coisas maravilhosas a aguardam e grandes feitos também, basta você querer.
Muitos pensam que dezessete anos é apenas uma idade, mas é muito mais do que isso. A partir daqui, não será considerada uma criança ou tratada com tal, será uma pessoa adulta e junto a isso, as conseqüência começaram a aparecer. Lembre-se que a partir de hoje, tudo que fizer terá um preço. Mas o que me tranqüiliza é saber pelo que você se tornou, conseguirá enfrentar esse mundo confuso e novo que chamamos de vida real. E o que lhe entrego hoje é o primeiro passo para a liberdade, agora cabe a você aceitá-lo ou não.
E como já me disseram quando tinha sua idade: "Tenha coragem para mudar o que pode ser mudado, paciência para entender o que pode ser mudado e sabedoria para diferenciar uma coisa da outra”.
Com amor
Papai
Ao acabar de ler a última palavra, ela o encarou com os olhos almejados. Nunca pensou que seu pai fosse escrever aquilo, nunca pensou que fosse ele que lhe daria aquela passagem.
- Mas... por que? – ela o encarou com um pequeno sorriso nos lábios. – Discutimos tanto no ano passado por causa disso.
- Continuo achando que isso é bobagem, mas quem sou eu para privá-la de seguir seu caminho? Foi como eu disse, estarei sempre aqui para conselhos e tudo o que precisar, mas não decidirei mais nada. A partir de agora, você aprenderá com seus próprios erros e assim obterá suas conquistas, sozinha.
Ao dizer aquilo, Sirius sentiu o coração partindo-se em milhares de pedaços. Estava claro que ele não queria fazer aquilo, sua vontade era de estar sempre ao lado dela, guiando-a para o caminho certo e tomando cuidado para que ela não se machucasse. Era isso o que vinha fazendo até aquele momento, entretanto, agora era hora de mudar esse papel.
Lyra respirou fundo, aquilo era muita informação. Quando seus pensamentos estavam todos de volta no lugar, depositou a carta sobre a mesa e levantou-se. Ficando de pé, em frente ao pai, ela ajoelhou-se e disse:
- Obrigada. – ela o abraçou com força e logo foi sentindo uma fina lágrima escorrendo pelo rosto e caindo na blusa de Sirius. – Por tudo. Isso significa muito para mim.
Naquele momento, Sirius começou a ver milhares de imagens passadas. Lembranças boas e ruins, momentos difíceis, mas recompensadores. Ao todo, eram dezessete anos de lembranças, momentos, de vida.
- Vamos, pequena. – Sirius riu pegando o bebê no colo. – Sei que você gosta muito da minha cama, mas a sua também é muito boa.
Ele a tinha deixado sobre sua cama, ao seu lado, enquanto lia o jornal. Lyra não demorou a adormecer, uma gripe atingiu-a naquela semana e desde estão andava mais sonolenta que o normal.
Saiu do seu quarto e entrou no de Lyra, que era ao lado do seu. A placa pendurada na porta balançava tanto que quase caía quando a porta era aberta. As paredes eram rosa com branco e decoradas com pequenas borboletas que às vezes se mexiam. E perto da única janela do quarto, estava o berço de mogno onde o bebê dormia a maior parte do tempo, apesar de preferir a cama do pai.
- Aqui está. – ele a colocou com cuidado para que não acordasse sobre a fronha de estampa amarelada. Depois a beijou-a na testa como sempre fazia. Ela deu uma pequena mexida, mas não abriu os olhos. – Boa noite, pequena.
E saiu do quarto, fechando a porta. Sirius ficou observando a placa balançando. Ele ria do pequeno desenha no centro do quadro, um pouco abaixo do nome. Era um pequeno bebê e um filhote de cachorro brincando. Fora James que desenhara as duas figuras, ele adorava fazer cartoons. O bebê parou por um instante e baixou a cabeça no lombo do cão, até fechar os olhos. Aquele era o sinal de Lyra ainda estar dormindo em sono profundo.
- Pai! – uma menina de longos cabelos negros corria na direção de Sirius, com os olhos almejados. – Caí da árvore.
Se ela dissesse isso alguns anos atrás, provavelmente Sirius já estaria a caminho do pronto-socorro do St.Mungos. Mas depois de algum tempo, ele via que por mais que tentasse preveni-la, ela sempre achava um jeito de se machucar.
- O que foi que eu lhe disse, mocinha? – ele fez cara de bravo. – Não suba na árvore se eu não estiver perto.
- Mas o Harry me chamou de medrosa. – um pequeno beiço formava na boca da menina.
Sirius sorriu. Aos cinco anos de idade, Lyra podia ser como ele. Não tolerava um desafio perdido, arriscava-se para mostrar ao mundo que não temia novos desafios.
Ele de ajoelhou e ela pôs o pé sobre o joelho levantado, para que ele visse o corte. Não parecia ser nada sério, ele mesmo arrumaria aquilo. Puxou a varinha do bolso e pronunciou algumas palavras que a menina não conseguiu entender.
- Veja se não se mete em encrencas, pequena. – ele a beijos rapidamente na bochecha e se levantou.
- Não irei. – disse ela, correndo para o lugar onde Harry estava.
- É sério. – Sirius tirou a taça de vinho do alcance de Lyra. - Chega de vinho para você.
- Mas por quê, John? – perguntou ela com uma certa indignação e um índole um tanto confuso.
- Por isso. – disse Sirius, rindo. Já estava vendo a ressaca do dia seguinte, ainda naquela noite, teria de pôr o balde e os analgésicos no quarto dela.
A festa de Natal tinha sido em sua casa naquele ano, mas àquelas alturas, não havia quase mais nenhum convidado, apenas James e Lily com os garotos e outros poucos amigos.
Aproveitando aquela deixa que estavam sozinhos, Sirius pegou a filha do colo. Ela estava mole e não falava coisa com coisa e, claro, continuava chamando-o de John. Na verdade, quando o álcool subia em sua cabeça, ela chamava qualquer um de John e Sirius não tinha a menor idéia do porquê daquilo.
- Você é igual a sua mãe, uma taça de vinho e já fica alegrinha. – disse ele, subindo as escadas.
- Não sabia que conhece minha mãe, John. Mande lembranças para ela, certo? – disse Lyra, se aconchegando na cama, após Sirius cobri-la o cobertor.
- Mandarei. – ele meneou a cabeça e afastou os cabelos de sua face, beijando-a em seguida na tesata.
- Serão cinco lojas hoje, pai. – disse Lyra sorridente. Lá estavam eles, em Roma, em
época de aula. Na verdade, iria faltar apenas os últimos três dias de aula, o pai só teria somente cinco dias de folga naquele ano, jogaria tudo para o final do ano, quando iria descansar de verdade. Então, para Lyra não ficar sem viajar, ele a levou para conhecer Roma naqueles poucos dias que não tinha de trabalhar.
- Meu santo, cinco!? O que você vai comprar? A Itália inteira, talvez. – ele bufou. - Estava cansado de ficar andando para cima e para baixo carregando sacolas. Estava começando a acreditar que Lyra estava com uma síndrome de compras, ou algo parecido.
- Deixe de exagero, papa. – ela sorriu para Sirius. Estava adorando aquela viagem, nunca tinha comprado tanto. Não iria nem caber tudo em seu guarda-roupas.
- Melhor nem pensar em Milão. – suspirou ele.
- Milão? Nós temos de ir a Milão! Quero ver a nova coleção de verão! – ela deu pequenos pulos e pôs-se a entrar em uma loja.
- E lá vamos nós de novo. – Sirius rolou os olhos e entrou na loja também. Dá próxima vez, daria dinheiro à ela e a deixaria torrar tudo sozinha. Essa idéia de acompanhar mulher em temporada de compras não era uma boa idéia, ainda mais quando de travava de vestidos decorados e saias um tanto curtas demais.

- Então, vai continuar viajando mesmo. – sorriu Lyra, encarando-o nos olhos. Ela ainda continuava abraçada à ele.
- Velhas lembranças, minha querida. Boas e antigas lembranças. – ele enxugou uma lágrima que deslizava no rosto dela. – E era eu quem devia estar chorando, senhorita Black, você vai viver a vida e eu vou ficar envelhecendo em casa.
- Você fala isso como se tivesse uns oitenta anos. Para com isso, pai. Não vou te deixar. – ela sentou-se novamente na sua cadeira. – Nunca.
Ele abriu um meio sorriso, já tinha ouvido aquilo há tempos atrás, mas não aconteceu. Elizabeth o deixou, mas não sozinho. Esperava que com Lyra fosse diferente.
- Bem, em todo caso, uma pequena lembrança do dia de hoje. – ele tirou uma máquina trouxa do bolso do paletó. – Sorria!
Lyra parecia um pouco atormentada depois do flash, mas estava acostumada. A cada passo que dava, o pai tirava uma nova foto.
- Quero uma lembrança disso aqui. – Sirius alargou seu sorriso. – Estou orgulhoso de você, sabe? Acho que sua mãe também estaria.
- Obrigada. – a garota corou e a comida havia acabado de chegar. – Até que enfim! Estou faminta!
O almoço transcorreu tranqüilo. Eles riram, lembravam de bons momentos passados, falavam asneiras, enfim, tudo estava perfeito. Antes de irem, três garçons jovens trouxeram um pequeno bolo, mais parecido com um muffin, com uma vela rosa em cima. Cantavam um nada dsicreto parabéns e saíram do restaurando com planos de passear pela cidade.
Foram ao Museu do Louvre, mas não ficaram muito tempo. Depois passaram em outros lugares que Lyra queria, mas o final foi o que ela mais gostara. Sirius alugara um balão, onde sobrevoaram Paris. A vista era mais do que incrível, era melhor do que voar em uma vassoura, podia sentir a tranqüilidade do vento batendo em sua face levemente. Era simplesmente perfeito.
- Pode subir mais um pouco. – disse ele ao condutor. – Gostou?
- Amei. – ela o envolveu em um abraço apertado. – Realmente está é a cidade das luzes. – fitava maravilhada com a milhares luzes acesas contrastando com o imensidão do céu escuro.
- Feliz aniversário, Lyra. – disse Sirius, feliz, olhando a paisagem parisiense ao longe.
Já passavam das oito quando Lyra despediu-se do pai, no mesmo lugar que o encontrar algumas horas atrás. Agora ela se encaminhava para a torre da Grifinória, ao menos queria passar o resto da noite com os amigos.
O castelo parecia ter-se esvaziado, não encontrara sequer uma pessoa em todo o trajeto. Naquele momento, queria esbarrar com Draco. “Droga! Por que ele nunca aparece nas horas certas?”, pensou consigo.
Aumentou um pouco a velocidade das passadas, só faltava correr agora. Pensava apenas em chegar na sala comunal. Isso a deixou um tanto desatenta, e quando virou um no corredor, acabou esbarrando com alguém.
- Desculpe-me professor. – ela pegou alguns livros que ele deixou cair com o baque e entregou à Dumbledore.
O velho diretor apenas riu e pegou os livros da mão da garota, gentilmente.
- Não foi nada, menina. – ele abriu um sorriso amigável. – A propósito, meus parabéns.
- Obrigada. – ela fez um pequeno aceno com a cabeça. – Meu pai mandou-lhe lembranças.
- Que bom. – ele fez uma pequena pausa, parecia estar lembrando de algo. – Isso me lembra algo que eu disse há algum tempo atrás, à um jovem muito parecido com você. "Tenha coragem para mudar o que pode ser mudado, paciência para entender o que pode ser mudado e sabedoria para diferenciar uma coisa da outra”.
Lyra sorriu.
- Farei isso.
- Sei que fará, menina. – Dumbledore passou por Lyra, e ela pôde ver uma rápida piscadela.
Meneou a cabeça, voltando à sua rota novamente. A sala comunal da Grifinória não estava muito longe, faltava apenas mais três ou quatro lances de escada. Isso era pouco comparado ao que já subira até ali, muitas vezes pensou que a escola devia haver mais passagens secretas ou até mesmo um elevador trouxa, chega uma hora que subir e descer tantas escadas cansa.
Sentiu uma certa felicidade ao olhar e ver o quadro da mulher gorda à sua frente, suas pernas já estavam começando a doer, estava louca para tirar aquelas botas e ficar de meia.
- Cabo de ferro. – disse a senha e à mulher gorda deu passagem.
Ela estranhou, a sala escura e parecia estar vazia também. Geralmente, domingos à noite eram tumultuados, os alunos ficavam fazendo seus deveres atrasados ou jogando conversa fora ou qualquer outra coisa do gênero.
Deu um passo e a sala iluminou-se repentinamente, então Lyra pôde ver o grande número de rosto ali sorrindo e gritando:
- PARABÉNS!
Ela assustou-se, não esperava por aquilo.
- Nossa, isso REALMENTE foi uma surpresa. – disse sorridente e abraçando alguns que estavam ali perto. – Harry!
O moreno aproximou-se a abraçou apertado e beijou-se na bochecha esquerda. Os lábios dele estavam gélidos, provavelmente fora ele quem ficou de avisar quando Lyra chegasse.
- Você não presta, sabia disso? – riu Lyra, assanhando os cabelos do amigo.
- Sei disso. Então, gostou?
- Simplesmente adorei! Cadê os outros?
Sua pergunta foi respondida quando um saltitante Austin se aproximava, junto com Ron e Hermione, que traziam um bolo escrito “Parabéns” em letras avermelhadas muito caprichadas. Quando o bolo estava à frente de Lyra, começou a ecoar um coro de parabéns. Ela olhou à sua volta, estava praticamente toda a grifinória ali. Nunca havia passado um aniversário com tanto amigos, geralmente voltava apenas no dia seguinte, acabava dormindo em casa ou em outro lugar que o pai decidisse.
Austin passou o braço pela cintura da garota, puxando-a para perto dele. Ele beijou-a rapidamente nos lábios.
- Isso é para dar sorte, minha querida. – disse sorridente. Tirou algo do bolso, na verdade, um ovo de sparks. – E isso aqui é para tirar o atraso do ano passado. – e bateu o ovo na cabeça dela, fazendo escorrer a gema roxa por todo o cabelo de Lyra.
- Austin! – ela gritou, mas ele já tinha se perdido na multidão. Não sabia se ria ou se ficava brava. – Você me paga!
- Não se preocupe. – disse uma voz atrás dela. – Eu limpo isso.
Lyra sentiu uma cabeça seca novamente, depois virou-se para falar com Victoria e Ginny.
- Agora você pode comprar firewisky para nós, garota! – falou a ruiva Potter, dando uma rápida piscadela. - Aí não precisaremos mais assaltar o bar e a adega de papai e do Sirius.
- Eu faço dezessete e você pensando nisso? – fingiu uma cara de indignada, tentando segurar o riso. – É, tudo bem, eu faria o mesmo.
- Apoio o comentário de Vick. – sorriu Ginny, abraçando Lyra também. – Parabéns para você, tudo de bom.
- Obrigada, Gi. Quem exatamente organizou tudo isso?
- O Harry, claro. Mas a comida e algumas coisas foram o Austin, que assaltou literalmente a cozinha e o Rony que conseguiu algumas bebidas com os gêmeos. – explicou Victoria.
- Bem, vou procurá-los. – despediu-se das duas e entrou no meio da multidão.
Foi bastante difícil conseguir chegar até o sofá e as poltronas onde Harry e os outros meninos estavam sentados. Ela serrou os olhos para Austin, que nada fez, além de alargar seu sorriso maroto. Quando estava apenas alguns passos do sofá, ela pulou de repente, caindo praticamente em cima de Austin.
- Meu Merlin! – disse Austin, fingindo uma cara de dor. – Acho que estou vendo tudo em preto.
- Espero que esteja mesmo, pois esse ovo deixou meu cabelo fedendo. – disse Lyra, sentando-se entre Harry e Austin.
- Como se já não fedesse antes, não é? – Harry cochichou um pouco alto demais.
Lyra revirou os olhos e deu um pequeno tapa na nuca dos dois garotos.
- Isso é conspiração, sabiam? – disse ela, pondo os braços atrás da cabeça de Harry e Austin.
- Sabemos. Gostando da festa? – perguntou Harry.
- Adorando. Comida boa, bebidas da melhor qualidade, músicas do The Princely! E ainda aproveitar tudo isso com você? Não podia pedir coisa melhor. – ela beijou cada um na bochecha depois levantou-se. – Hoje é meu aniversário, gente! Vamos dançar!
Ela puxou Harry e Austin pelo braço e os guiou até onde estavam todos dançando. Ficou em um lugar perto de Rony, Hermione, Ginny e Victoria. Lá pôde cumprimentar e agradecer à Rony por ajudar.
Cantou, dançou, pulou, em suma, se divertiu como nunca. Foi um aniversário perfeito, aquela festa era o que faltava para tornar seu dia perfeito. Mas ela queria ver alguém em especial, mas não o encontrara, isso a deixou um pouco chateada, mas não a impediu de aproveitar a noite.
Como dizem, tudo que é bom acaba rápido. Quando eram quase onze, Lyra começou a sentir-se um pouco cansada, apesar de ser a única a senti-se daquele jeito. O que estava mais precisada naquele momento era de um encontro com o chuveiro e sua cama. Despediu-se dos amigos e subiu para o quarto discretamente, era melhor assim, se fosse dizer boa noite a cada um ali, não iria dormir nunca. Além disso, se ela dissesse boa noite, provavelmente os monitores começariam a mandar todos para a cama. Achava que a festa poderia durar um pouco mais, todos pareciam cansados por causa dos afazeres escolares, descontrair-se um pouco mais não faria mal à ninguém.
Quando entrou no quarto, viu que havia mais alguns pacotes ali, perto de onde estavam os outros. Mas sobre sua cama, havia uma carta. Ela correu para ver de quem era. Era um envelope verde, isso fez seu coração bater mais acelerado. Abriu-o rapidamente, não era de Draco, mas sim do outro sonserino, Tristan.
Era um desenho, uma espécie de caricatura animada. Mostrava Lyra, segurando alguns potes de poções e despejando no caldeirão. Então, uma fumaça amarelada começou a sair lá de dentro e o caldeirão explodiu. Da fumaça amarela saiu um parabéns, Lyra estava com o rosto preto e um índole um tanto contrariado, e no fundo, aparecia Tristan morrendo de rir.
Ela meneou a cabeça. Tristan sempre demonstrava ser sério e calado, mas fazia as coisas muito diferente no papel. Dobrou o desenho e o colocou sobre a cabeceira.
Na janela, havia uma coruja negra do lado de fora. Nunca a tinha visto. Abriu a janela e o animal entrou sem demoras. Ela segurava uma rosa branca no bico e estendia a pata para que Lyra tirasse o papel preso à ela.
Desatou o nó e pegou o pequeno bilhete. Era um pedaço de pergaminho meio amassado, mas não se importou. Sorriu ao ler a mensagem escrita em uma caligrafia conhecida. Apesar de curta, aquela mensagem fez toda a diferença.
Parabéns,
Draco .M
Lyra abriu um largo sorriso e pegou a flor do bico a coruja, que logo depois, saiu voando por janela a fora.
- Ai, droga, eu gosto de Draco Malfoy. – disse ela, pondo a rosa ao lado do desenho de Tristan.
“Este círculo inacabado jaz à espera de ser vivido.
E viver é mais do que respirar, é sair em busca do destino,
fazendo acontecer, acumulando nosso verdadeiro tesouro, bens inestimáveis, únicos.
Assim teremos deixado na terra em que pisamos, pegadas prontas:
a serem seguidas ou apagadas.
Questão de escolhas.
O importante é a conquista da liberdade, Herança Divina,
Libertando-nos das amarras de nós mesmos para que possamos, um dia,
ocupar com felicidade e determinação o espaço que nos está reservado
neste ciclo inexplorado e sem fim, chamado vida” - William Shakespeare
|
|