CAPÍTULO REVISADO
Capítulo 3 - When The Stars Go Blue
Quando As Estrelas Se Entristecem

Havia se passado uma semana desde o incidente que Lyra tivera durante a detenção, e conforme Draco pediu, nem para Harry ela dissera uma palavra, o que a levava a loucura.
Trocara míseras palavras com o sonserino desde o ocorrido no sábado à noite, mas Tristan deixara escapar durante a aula de Poções algo sobre Draco estar diferente desde então. Finalmente havia encontrado uma vantagem naquela dupla forçada. Tristan se distraía quando preparava as poções e acabava contando algo que nunca diria em outros momentos.
Aquele seria o sábado que se encontraria, assim como Harry, com Isabelle. A história da corvinal ter recebido a mesma carta de Julian ainda a deixava intrigada.
- Lyra! – a cabeça de Harry apareceu na porta do dormitório feminino. Ele sussurrava, pois temia que algum monitor o pegasse ali. Era estritamente proibida a entrada de meninos do dormitório feminino, e vice e versa, mas sempre havia um para quebrar a regra.
Ela levantou da cama com cuidado para não acordar ninguém - sua cama era a única que rangia alto – e caminhou descalça até onde o garoto a esperava.
Saiu do quarto e fechou a porta devagar. Agora batia o arrependimento por não ter pegado sua pantufa, o chão do lado de fora do quarto estava ainda mais gelado do no quarto. Maldito seja aquele chão de pedra.
- Mas que diabos... são seis da matina! – ela não sabia exatamente porque estava tão brava, não conseguia dormir desde as cinco e meia. Em algumas noites, a insônia lhe tirava o sono e parecia que se agravara nos últimos meses. Mas como qualquer adolescente, sair da cama ainda no escuro levantava uma certa indignação.
- Mudança de planos, nós vamos encontrar com Isabelle e a irmã agora. – disse ele de forma breve.
Lyra fez uma cara muito parecida com a dele quando Isabelle apareceu em seu quarto alguns minutos atrás e o acordou. Harry ainda guardava o espanto quando viu a corvinal em seu quarto, segurando uma vassoura.
- Elas estão nos esperando. – Harry deu alguns passos na retaguarda, até onde podiam ter uma breve visão da sala comunal. Sentadas em num sofá perto da lareira apagada, estavam as duas irmãs. Isabelle de olhos fechados e com a cabeça apoiada no encosto do sofá, parecia ter adormecido há poucos minutos e a loira ao seu lado olhava o relógio com impaciência.
- Me dá cinco minutos. – disse Lyra correndo de volta para o quarto. Queria fazer a pergunta de como as duas vieram parar ali, mas preferiu deixar para depois, quando estivessem a caminho de Hogsmead.
Harry encostou a porta que Lyra havia deixado aberta e foi esperá-la junto ao restante. Desceu as escadas devagar, rezando para que a garota utilizasse a discrição que ainda lhe sobrava. Se por acaso Hermione acordasse, um longo interrogatório estaria por vir, talvez uma detenção também.
- Eu guardei a vassoura dela no meu quarto. Pegarei quando voltarmos do vilarejo. – Harry sentou-se numa poltrona próxima ao sofá, podendo encarar a loira.
- Lembre-a disso. Depois que acabarmos a conversa, eu sumirei daqui. Não estou pronta para ser acusada de seqüestro de menores. – ela deu um meio sorriso, muito parecido com o que Isabelle fazia.
- Você não tinha uma permissão para nos levar lá?
- Você faz perguntas demais. – não foi Nicollet quem falou, mas sim Isabelle. Ela tinha os olhos cerrados e continuava debruçada no encosto do sofá. – Não vai me dizer que era isso que ia dizer?
- Finalmente está aprendendo, tampinha. – ela olhou nos bracinhos do bruxo de seu relógio, e lançou outro olhar ansioso para a escada.
Lyra apareceu logo depois, vestindo uma calça de moletom preta e um casaco acinzentado. O maldito sono leve de Hermione a despertou bem na hora que estava pegando a roupa. Inventou que estava com insônia, o que tecnicamente não era mentira, e que iria caminhar pelos jardins. A amiga estranhou um pouco aquele fato memorável, já que Lyra era um saco de preguiça ambulante, mas acabou dando de ombros e voltando a dormir.
- Sumam daqui depressa! – ela deu um rápido aceno com a cabeça para as duas e foi na direção da passagem para fora da torre. – Hermione me pegou no flagra.
Somente o nome da monitora foi suficiente para despertar Isabelle e puxar a irmã com a menor delicadeza possível e fazer com que Harry correr aos tropeços até onde estava Lyra.
- Mas o que exatamente você disse para ela? – indagou Isabelle, soltando o pulso de Nicollet.
- Insônia e eu ia buscar um pouco de ar do lado de fora. – disse ela, tentando recuperar o fôlego.
- E ela acreditou?
- Creio que sim, Harry. Hermione não fez mais perguntas depois disso. - respondeu Lyra.
- Vamos ficar aqui no castelo mesmo? – Lyra perguntou a Nicollet.
- Não, vamos ao vilarejo. Nem as paredes aqui guardam segredos, e quando se menos espera já está na boca do povo. – disse ela. – O Amadeus, aquele garçom do Três Vassouras, está indo embora do vilarejo com a filha. Como a menina é menor de idade, eles vão de trem. Falei com Dumbledore que éramos amigos, e que vamos nos despedir do homem.
- E ele caiu nessa? – Lyra ficava pensando como Dumbledore conseguia detectar uma mentira tão fácil, se essa passou, então por que quando disse que era sonâmbula ganhou uma noite limpando a cozinha?
- Claro que não! – ela riu, lembrando-se da cara que Dumbledore fez. Ele ia saber de um jeito ou de outro durante as reuniões, mas ainda não era um bom momento para contar. O barbudo foi o primeiro que optou, ainda, em não contar para os garotos o que estava acontecendo, e ela era totalmente contra esse pensamento. Afinal de contas, Isabelle não era mais uma criança, e assim como Nicollet, preferia saber e se preparar para o pior. – Sem mais perguntas. Tem uma carruagem nos esperando na entrada, o resto eu lhes conto lá.
E de fato tinha mesmo. Uma carruagem igual as que os pegavam assim que chegavam à escola. Precisavam de um transporte, não havia condição de irem a pé, além de ser longe, o céu estava carregado, e talvez chovesse em breve.
Só havia mais uma pessoa ali entre eles, e não era Filch. Hagrid passava a mão no animal invisível, e sorria para eles. Foi um bom negócio ficar amiga do guarda-caça da escola, algo que Nicollet se arrependia de não ter feito há mais tempo.
- Obrigada, Hagrid. Te devo essa. – ela sorriu para o girante, que retribuiu com um aceno com a mão.
- Mande lembranças para o velho Amadeus.
- Mandarei. – Nicollet não se sentia bem em mentir para Hagrid, que sempre foi tão bom para ela, mas a verdade era a última coisa que podia contar.
Assim que estavam todos a bordo e confortáveis, a porta se fechou e o animal começou a tracionar a pequena carruagem negra.
Foi silencioso o trajeto. Todos pareciam demasiados ocupados com outros pensamentos para falar algo. Lyra não parava de pensar em como conseguir arrancar qualquer informação de Draco. Queria conversar com o garoto, já que não podia compartilhar a informação com mais ninguém, mas Draco vinha evitando-a desde a noite de detenção.
- O que exatamente você ficou fazendo ontem à noite? – perguntou Nicollet, depois de um longo silencio. – Parece cansada.
- Bem, nada. – ela deu de ombros. – Eu e Ryan ficamos finalizando algumas coisas. Só isso.
- Hum, certo. – depois de um certo tempo, Nicollet aprendeu a não julgar tanto os outros. Tinha certeza que pelo menos um dos dois garotos sentados ali pensara que algo estivesse acontecendo entre a irmã e o amigo. Se estivesse, ótimo! Ele era um bom garoto, mas aquilo não era da sua conta. Ao contrário da mãe e Violet, ela tentava deixar a caçula cometer seus próprios erros.
Quando a carruagem parou, só se ouvia o barulho das finas gotas de chuva baterem contra a madeira do veiculo. Fizeram bem em pegar a carruagem, o chuvisco começara há alguns minutos e parecia que continuaria por horas. Nicollet abriu a porta e fez sinal para que saíssem. Os três garotos ficaram parados, não havia para onde ir, tudo estava fechado àquela hora.
A loira deu alguns passos à frente e bateu na porta do bar. Não houve resposta.
- Sou eu, Hugo. É Nick. – disse ela.
Harry teve a pequena impressão de que as palavras da mulher não fizeram efeito. Não se ouvia nenhum barulho vindo de dentro. Mas se enganou. Quando já estava achando que seria melhor voltarem, escutou o barulho de chaves tilintarem e logo a porta se abriu.
Um homem moreno, alto, com a cabeça um tanto oval e com uma tatuagem de raposa no braço esquerdo apareceu. Aquele era Hugo Stuart, um antigo amigo de Nicollet que a ajudava no jornal com algumas matérias. Geralmente, não ficava por ali naquela época do ano, mas desde que o pai adoecera, o senhor Stuart, o dono do bar, sentia que devia dar alguma assistência à mãe.
Ele sorriu aumentou a abertura da porta para que eles entrassem. Fez sinal para que sentassem em uma das mesas.
- Hugo! – Nicollet o abraçou. Já não via o amigo há pelo menos uns dois meses. – Deixe-me lhe apresentar à minha irmã, Isabelle. – ela apontou para Harry e Lyra, que mantinham-se calados, assim como Isabelle. – Esses são dois colegas de Belle da escola, Harry Potter e Lyra Black.
- Prazer. – Isabelle estendeu a mão e cumprimentou Hugo. Harry e Lyra fizeram o mesmo em seguida.
Eles sentaram-se em uma das mesas no centro do aposento.
- Vou pedir um café para mim. Querem alguma coisa? - ela chamou o rapaz para se aproximar. – Você pode me trazer um café e três chocolates quentes, por favor? E um pouco de torrada e biscoito.
Hugo assentiu e entrou pela porta atrás do balcão.
- Hum, ele é tímido ou coisa parecida? – perguntou Lyra.
- Um pouco. – ela abriu um pequeno sorriso. – Hugo é mudo, coisa de nascença. Nos comunicamos por linguagem de sinal, na maior parte do tempo. Bom, eu não tenho muito tempo, tenho que estar no jornal dentro de duas horas, no máximo. O que querem saber?
Harry e Lyra lançaram um olhar para Isabelle. Pensavam que Nicollet já estava ciente de tudo.
- Há uma semana e meia, mais ou menos, recebi uma carta de Julian, aquele amigo italiano. – ela tirou um papel do bolso e o entregou a Nicollet. – Então, por que exatamente não saiu no jornal que o filho do Ministro da Magia italiano sumiu?
Nicollet engoliu em seco. Aqueles garotos não eram nada bobos, e não seria fácil enrolá-los com alguma desculpa esfarrapada.
- Mas e eles? – ela olhou para Harry e Lyra.
- Recebemos a mesma carta. – respondeu Harry.
- Ok. – A loira respirou fundo, procurando por onde começar. – Vou começar do início, e que fique bem claro que o que for falado aqui não sairá pela boca de vocês, entenderam?
Os três garotos balançaram a cabeça afirmando.
- Vocês devem ter notado que coisas estranhas têm acontecido. Então, o desaparecimento do garoto italiano pode ser obra dos tais Comensais da Morte, mas nada ainda é certo.
- Comensais da Morte? – Harry coçou a cabeça. Podia jurar que já ouvira aquele nome em algum lugar
- Isso. São bruxos que saem por aí fazendo o que não devem e não aceitam trouxas ou mestiços. – explicou a loira.
Lyra fechou o punho debaixo da mesa. Já tinha ouvido o pai comentar sobre aquilo, e tinha ódio profundo daquele tipo de gente. Ainda mais que sua própria mãe era nascida trouxa.
- Não tem nada confirmado ainda, mas eu tenho certeza de que é isso. Alguns alegam terem visto os tais comensais pelos becos e esgotos de Londres, mas eu não creio. Isso são idéias fictícias, comensais são pessoas como nós, e tenho plena certeza de que lá na escola mesmo já deve ter um bando em formação.
- Mas esses comensais... Eles são um grupo muito grande? Como se organizam? – perguntou Harry. Mas é claro que haveria alguns deles na escola, e tinha quase certeza de que eram sonserinos.
- Não sei ainda. Eles não deixam muitas pistas, mas não têm piedade de ninguém. – sua voz ficara mais séria agora, não gostava muito de tocar no assunto de hospital depois de ter visto um dos corpos de aurores mortos. – Harry, por que você acha que sua mãe está tão sobrecarregada ultimamente?
Ele nunca parou para pensar naquilo. Pesava ser por causa do irmão caçula, já que não conseguiam arruma nenhuma babá. Mas Lily já vinha naquele estresse desde quando Madame McFaden pediu as contas, há meses. Negou com a cabeça, não tinha idéia, e se sentia um pouco culpado por nunca perguntar.
- Simples. Ataques ocorrem, os curandeiros estão ficando loucos para ver se salvam os que sobrevivem.
- Não entendi até agora como eles se organizam. – disse Lyra. Tentaria conseguiu o máximo de informações com Nicollet, para depois poder virar o jogo com seu pai. Sirius nunca conseguiu funcionar muito bem sob a pressão de Lyra. A menina sempre conseguia arrancar o que quisesse dele.
- Me parece que tem um cabeça no grupo, mas ninguém sabe quem é ele. Não tem aquele ditado? Quem é vivo sempre aparece? Então, acho que não vai demorar muito para sabermos quem é o sujeito que está aprontando toda essa confusão.
Hugo apareceu correndo pela porta, fazendo gesto muito rápido. Pareia uma espécie de mímica para Lyra, mas Nicollet entendeu logo do que se tratava. Ela levantou e cochichou alguma coisa no ouvido do rapaz depois virou-se para os três sentados à mesa.
- Olha, espero ter ajudado. Eu tenho que ir embora agora. Meu chefe está atrás de mim. – ela aproximou-se de Isabelle e abraçou a irmã. – Se cuida, tampinha, qualquer coisa é só falar. Foi um prazer conhecê-los, Harry, Lyra.
- Hugo, dê café para eles. Depois eu pago a conta. – ela abraçou o amigo e logo depois aparatou, sumindo da sala.
- Ela é assim mesmo, some de uma hora para outra. – Isabelle deu um pequeno sorriso. – Hugo, nós vamos ficar para tomar café, sim.
Ele assentiu e sorriu, depois voltou à cozinha. Isabelle estava com um pouco de pena do rapaz, abrir o lugar tão cedo exclusivamente para a irmã e ela só ficou alguns poucos minutos. O rapaz já deveria conhecer a irmã tão bem quanto ela, e saberia que aquele era seu jeito.
- Bom. – Lyra se debruçando na mesa. Aquela chuva sempre lhe dava uma certa sonolência, não do tipo que a colocaria para dormir novamente, mas aquela que a faria ficar na cama aconchegante até a hora do almoço. – Já esclareceu muita coisa, não?
- Verdade. – disse Harry. - Hoje mesmo já vou escrever para Julian, contando tudo.
- É melhor não. – aconselhou Isabelle. – Correios não são seguros, e como Nick disse. Se há crias de comensais pela escola, alguém deve ser vigiando de perto. A carta pode cair em outras mãos, e acho que ninguém mais deve ter o conhecimento que sabemos sobre o assunto.
Lyra sorriu. Não conhecia a corvinal muito bem, mas sabia perfeitamente o quão precavida ela era. Tanto que Isabelle era a capitã do time, ela media as conseqüências de tudo antes de dar o primeiro passo. Muito ao contrário de Harry, que somente pensava nos resultados depois do ocorrido, sendo eles positivos ou não.
- Então como exatamente vamos contar-lhe que descobrimos algo? – argumentou Harry.
- Não contaremos. Vamos esperar, pois pelo que Julian me disse, ele está vindo para a Inglaterra em Dezembro. – explicou Isabelle. E tudo aquilo estava ainda muito incerto, o rapaz desaparecido poderia voltar, ou conseguiriam mais informação. Afinal, eram apenas três meses de espera.
- É o melhor a fazer. – concordou Lyra. E como Nicollet mesmo havia dito, nem mesmo as paredes de Hogwarts conseguem guardar segredos, muito menos os alunos.
- Exatamente. – disse Harry. Ele poderia tentar arrancar alguma informação do pai, já que este nunca conseguia segurá-la por muito tempo, mas era complicado pelo simples fato da grande distância, e dele não poder falar sobre aquele assunto via correio coruja. – Tentamos descobrir algo do nosso jeito, qualquer novidade um passa para o outro.
As duas meninas assentiram.
Toda aquela situação fazia Isabelle lembra-se do falecido avô, John. Era ele quem contava histórias de que, em alguma época, algo ruim, algo escuro iria acontecer e mudar toda a história bruxa. Ele contava isso como histórias para dormir quando ela e as irmãs ainda eram pequenas, então ninguém nunca levou a sério, até agora.
- Mas de uma coisa eu tenho certeza, alguma hora a verdade aparece. – disse Isabelle. Aquela foi a última frase dita sobre o assunto, que morreu quando Hugo chegou trazendo os chocolates quentes e os biscoitos.
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Algumas horas haviam se passado desde o encontro com a irmã, em Hogsmead. Não conseguia dormir e também não tinha ânimo para enfrentar o tumulto que estava o vilarejo, então lá estava Isabelle sentada no sofá do centro daquela sala totalmente deserta. A maioria dos colegas visitava o vilarejo naquele momento, e aqueles que não tinham permissão, estavam dormindo ou em qualquer outro lugar menos ali.
Mas o silencio que ali estava foi quebrado por alguém que acabara de entrar pela passagem principal, e agora sentava-se ao lado de Isabelle, sorrindo.
- Então? Vai me contar o motivo desse sorriso de orelha a orelha? – perguntou Isabelle.
- Está pronta. – Ryan tirou um papel do bolso e entregou à garota.
Naquele pedaço de papel surrado e um pouco sujo estava exatamente um mês de trabalho. Poucos sabiam o valor que significava a Ryan e Isabelle, o quão importante era aquelas cinco palavras escritas pela letra garranchosa de Ryan.
“Quando As Estrelas Se Entristecem”
- Vejo que você não perdeu tempo, até já fez um título. – comentou Isabelle. Ela queria que ele a tivesse consultado em relação aquilo, mas não ficou ruim. Não valia a pena criar caso por algo tão simples.
- Pois é. – ele sorriu amarelo, depois se levantou do sofá num pulo e começou a puxar a mão livre de Isabelle. – Vamos! Não quer testar depois de pronta?
- Mas isso é obvio. – disse ela, agora de pé. – Droga! Não está aqui comigo. A Lennox o confiscou ontem.
- Mas que diabos você fez para ela pegar o violão? – perguntou Ryan, a encarando confusamente.
- Ela me pegou fora da cama depois do toque de recolher. – explicou Isabelle, revirando os olhos em seguida.
- Pelo menos disse quando devolveria? – indagou o garoto loiro.
- Não. Mas às vezes vale a pena implorar e pedir misericórdia. – brincou a garota, fazendo o outro rir.
Os dois saíram na direção da masmorra. Tinham quase certeza que a professora estaria nas masmorra número dois, era lá que ela ficava nos sábados de manhã, quando corrigia as tarefas e redações.
A porta estava entreaberta e podiam ver a professora sentada na escrivaninha, mexendo em alguns livros.
- Vamos, Davis. Entre logo. – disse ela, ainda sem tirar os olhos do que estava fazendo.
Ryan trocou de lugar com Isabelle, fazendo-a ir à frente. Por algum motivo, Lennox passava medo nos alunos. A mulher era pequena e de aspecto delicado, mas assim como McGonagall, a professora de Poções era tão rigorosa que poderia ser considerada um pouco sádica.
- Senhorita Wine. – disse ela, ainda sem levantar o olhar do livro em suas mãos.
- Bom dia, professora. – Isabelle se aproximou até a escrivaninha, parando a frente dela. – Err, eu vim saber se a senhora pode devolver o meu objeto que confiscou na noite de ontem.
- A senhorita sabe as minhas regras. Objetos confiscados ficarão sob a minha guarda por vinte e quatro horas. – disse a mulher, indiferente. – Mais alguma coisa, senhorita Wine?
- Não. – respondeu Isabelle, seguido por um suspiro.
- Tenham uma boa manhã. – aquele era o jeito da mulher mandá-lo para fora educadamente.
Vendo que não havia o que argumentar, os dois corvinais se encaminharam para a porta da masmorra dois. Lennox nunca voltava atrás, e certamente aquela não seria uma exceção.
- Bosta. – xingou o loiro. Toda a sua animação fora embora depois daquilo. Teriam de esperar até a noite para testar o trabalho concluído.
- Agora não adianta chorar pelo leite derramado. – disse a garota, dando alguns leves tapinhas das costas do amigo. – Eu te pago uma cerveja amanteigada no Três Vassouras.
- Você quer sair nessa chuva? – perguntou ele, fazendo uma careta.
- Por acaso você é feito de açúcar? – brincou ela, puxando-o pelo braço. – Deixa a preguiça de lado e vamos até o vilarejo.
Começaram a seguir pelo chão de pedra até a escada que os levaria para o Saguão de Entrada. Riam distraídos, e com isso não prestaram atenção quando viraram no corredor. Foi uma colisão de leve, e a única coisa que caíra no chão foi o pequeno objeto que o garoto à frente carregava.
- Desculpe. – disse Austin, pegando seu ioiô caído no chão.
- Não vimos vocês se aproximando. – Isabelle acenou discretamente para os dois grifinórios atrás do grande garoto loiro com quem batera de frente. – Então? O que fazem aqui no sábado de manhã?
- Viemos conversar com a Lennox. – respondeu Harry, lançando um sorriso matreiro à garota ao seu lado. – Tentar fazê-la ter compaixão pela Lyra.
- Mentiroso! – Lyra deu um pequeno soco no ombro do amigo. – Viemos só ver a data de um relatório que ela passou. Esquecemos de anotar. E vocês?
- Lennox confiscou algo de Isabelle. – disse Ryan.
- Eu já estive aí, amigo. – gargalhou Austin, brincando com o pequeno brinquedo colorido. – A regra das vinte e quatro horas.
- Acho que todos nós já passamos por isso, Austin. – riu Lyra.
- Bem, nós esbarramos por aí. – Ryan deu um pequeno aceno com a cabeça e fez sinal a Isabelle, para que subissem.
Os dois corvinais subiram para o térreo do castelo, enquanto os outros três continuaram seu trajeto até a masmorra número dois.
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Já passava das dez quando Sirius entrou na sala principal da mansão. Ele não estava tão atrasado dessa vez, somente alguns minutos. Mais uma vez sua carga horária de trabalho não colidiu com o horário do encontro.
- Boa noite. – disse Sirius à todos ali sentados em volta da grande mesa redonda no centro do aposento. Sentou-se em seu lugar costumeiro, entre James e Lily. Virou-se para o amigo e perguntou, num sussurro: - Com quem ficou o Nathan?
- Com a senhora Farrel, a vizinha. – respondeu James, breve. Estava atordoado desde o início da reunião, quando soube qual seria o assunto tratado naquela noite. O tópico daquela noite era Hogwarts, ou seja, a segurança de seus filhos.
Dumbledore levantou de sua cadeira e abriu um envelope esverdeado. Tirou um pergaminho amassado e passou-o para Frank Longbotton.
- Hoje recebi a resposta da Alemanha. Eles concordam em deixar alguns homens se instalarem nos arredores da escola. – enunciou Dumbledore com a voz firme.
- Mas de quantos homens estamos falando? – indagou Christopher Wine.
- Vinte.
Vários murmúrios surgiram na sala, quase ninguém ali confiava nos alemães e colocar vinte homens armados perto de seus filhos ou parentes parecia ser algo arriscado demais em tempos como aquele. Dumbledore compreendia a situação, o receito de todos ali presentes, mas era preciso. O filho de um político desapareceu misteriosamente cercado de seguranças, seus alunos eram um alvo fácil comparado a isso.
- Senhores, vamos nos acalmar. – Anabeth fez sinal para que todos se calassem. – A LOOP é uma organização estritamente qualificada, foi recomendada pela França por seus serviços prestados no ano passado. Não acontecerá nada com nossos meninos.
- Vamos calar a boca, sim? – Rachel bateu na mesa e todos se calaram de forma repentinamente. – Dumbledore, continue o que estava dizendo.
Dumbledore sorriu, agradecendo.
- Gostaria que chegassem em outubro, porém há inúmeros acordos burocráticos que devemos ver ainda com o Ministério, então eles só virão em novembro. – ele pegou três envelopes e os entregaram à Sirius, James e Rachel. – Galle Norris é encarregado do departamento internacional, quero que os três tentem persuadi-lo como puderem para que os rapazes passem pela fronteira. Eu mesmo falarei com o Ministro.
- Dumbledore, e quanto ao garoto Pietro Hartwin? Alguma notícia? – perguntou Lily. Ela chegou a ver o garoto apenas uma vez, em uma das visitas em que este acompanhava ao pai, mas nessa única vez que o vira, podia definir como era ele. E tinha dificuldades de imaginar um motivo para pegarem um garoto tão bom como aquele. Lily presumia que fosse algo relacionado à política, mas ninguém sabia dos passos do Comensais, então tudo parecia ser uma verdadeira incógnita.
- Não, Lily. Receio que não. – suspirou ele. – Arturo disse à imprensa que Pietro está passando alguns dias com os avós, na Áustria. Porém, presumo que poucos acreditaram, os repórteres estão ficando impacientes, querem alguma notícia do garoto. Já faz um mês, e todos sabem que o menino não sai do lado do pai.
- E quem está no caso? – perguntou Alice Longbotton.
- A LOOP, claro, o serviço italiano, acredito que o espanhol também. A Inglaterra se recusou a mandar alguém.
- Mas quanto à escola, o senhor acha que tudo ficará bem até a chegada dos alemães? – perguntou James, com a testa levemente enrugada.
- James, tudo agora é imprevisível, é como estar andando no escuro. Mas todos na escola estão sendo incrivelmente cautelosos, o número de alunos fora da cama depois do toque de recolher reduziu bastante. Agüentaremos até o dia primeiro de novembro.
- Mas como tem tanta certeza de que Norris irá ceder?
- Tenho meus métodos, Paul, tenho meus métodos. – sorriu Dumbledore ao homem calvo e gorducho, sentado ao lado de Anabeth. – O próximo tópico que iremos discutir será o de importação e exportação Poções negras na Inglaterra. Semana passada, McGonagall pegou dois alunos com uma Reggis. Preciso que três de você comecem a investigar o fornecedor desses produtos. Creio que podem começar pela Travessa do Tranco, no Beco Diagonal.
James cutucou Sirius, que olhou para o amigo discretamente.
- Dois meses é tempo suficiente para uma tragédia acontecer. – disse James tão baixo que apenas Sirius o ouviu.
- Eu penso o mesmo, mas o que podemos fazer?
- Eu tenho algo em mente. – James fixou seu olhar em Remus, sentado do outro lado da mesa, a duas cadeiras de onde Dumbledore estava.
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Harry encarava o teto do quarto com um olhar cansado. Estava tentando dormir há mais de uma hora, mas simplesmente não conseguia. Olhava para o lado e via Austin babando no colchão da cama e do outro lado estava Ron abraçado ao travesseiro. Aquilo o estava deixando irritado. Estava cansado, acordara cedo demais naquela manhã, e agora não conseguia pregar os olhos.
Esperou mais cinco minutos depois levantou-se da cama e abriu o baú perto da cama com cuidado para não fazer tanto barulho. Tirou uma calça jeans velha e uma camisa, o casaco já estava de fora, e pegou seus tênis embaixo da cama. Vestiu-se e saiu, deixando o pijama sobre a cama.
A pequena mentira que Lyra contara á Hermione naquela manhã não parecia ser a pior das idéias. Um pouco de ar fresco certamente o ajudaria a clarear a mente e traria o sono de volta.
Deu uma rápida olhava no mapa do maroto, procurando por Filch. O velho zelador estava imóvel em seu escritório, e não sairia de lá por algumas horas.
Desceu as escadas sorrateiramente. Naquelas horas que sentia mais falta da capa de invisibilidade que sua mãe confiscara no ano anterior, ao menos o mapa estava a salvo. No meio de um corredor, parou repentinamente, pensou ter ouvido alguma coisa, mas parecia ser somente o vento. Continuou andando até a última porta, quando virou a esquerda e desceu a escada, chegando ao Saguão de Entrada.
O vento frio batia em seu rosto, trazendo uma enorme vontade de espirrar. Não se importou e passou a ignorar o vento que trazia os primeiros vestígios do outono. Ali fora estava agradável, era uma verdadeira paz passear pelos jardins naquela escuridão.
Caminhava distraído, e se afastava do castelo cada vez mais. Naquele exato momento, passava pelo breu do lago e ao longe conseguia avistar a cabana de Hagrid. As luzes ainda estavam acesas e uma fumaça fina saía da pequena chaminé. Ainda eram onze horas, e a idéia de uma rápida visita ao amigo gigantes não parecia ser ruim.
Enquanto andava pela relva fofa e metricamente cortada, começou a escutar algo. Era um barulho baixo, e parecia não estar vindo de longe. Harry sacou a varinha e pôs-se a seguir o tal barulho, esquecendo completamente de Hagrid.
Aproximava cada vez mais do local, e não era necessariamente um barulho, parecia uma melodia. Continuava segurando firmemente a varinha, a cada passo que dava.
Avistou uma árvore com o tronco muito grosso e parecia que o som saía dali.
Quando estava a menos de um metro da árvore, começou a rodeá-la. Surpreendeu-se bastante com o que encontrou, e certamente não era a árvore que produzia aquele barulho.
- Isabelle? – indagou Harry, cauteloso.
A garota deu um pulo, depois ficou encarando-o. Ela mantinha a mão sobre o peito e respirava ofegando, já o violão ela deixou na grama.
- Nunca... nunca mais faça isso! – ela tentava recuperar o fôlego, e voltou-se a sentar-se. – Nunca te falaram pra não chegar de fininho no meio do escuro?
Harry sorriu amarelo. Não era sua intenção assustá-la, mas o que deveria fazer? No meio da noite, com gente sumindo do nada, iria aparecer saltitando e sem varinha? Não chegou ainda nesse ponto.
- E pelo amor de Merlin! Abaixa essa varinha! – ela ajustou a lanterna de fogo ao seu lado e voltou a segurar o violão novamente, como o fazia pouco antes de Harry aparecer.
- Desculpe, não queria assustá-la. – disse ele, encarando-a. – Então, o que faz aqui fora, há esta hora?
- Só consegui recuperar meu preciso violão agora. – ela revirou os olhos, depois fitou o castelo. – A Lennox não estava brincando quando falou que eram exatas vinte e quatro horas que ela seguraria o violão.
- Não sabia que você tocava. Somente piano, claro, já até tocamos juntos quando pequenos. – na verdade, ele assistiu mais do que tocou.
- É, faz algum tempo. – na verdade, faziam anos que começara a desenvolver seu talento para instrumentos de corda.
- Sei. – ele sorriu no canto da boca. – Então, o que estava tocando antes deu chegar?
- Nada de mais. – Isabelle gesticulava com as mãos, querendo embromá-lo. Nunca tocou alguma música sua na frente dos outros, somente de Ryan, que o ajudava com as composições. – Só umas coisinhas que eu e Ryan fizemos. Eu componho e ele arruma.
- Interessante. Vamos! O que está esperando? – Harry acomodou suas costas no tronco da árvore, e cruzou os braços. Seria a platéia naquela noite.
- Acho que não é uma boa idéia. – ela corou. Geralmente não era tão tímida com o garoto, mas mostrar algo seu era complicado. Um problema que tem desde pequena é o medo de ser julgada, por isso tenta fazer tudo com bastante perfeição. Mas ainda não sabia se aquela música estava boa o bastante ou não.
Harry ergueu a sobrancelha direita e a encarou brincalhão.
- Claro que é! Olha que eu te jogo no lago. – ameaçou brincando.
- Você é mau. – ela meneou a cabeça e acomodou o violão no colo. Logo, a mesma melodia que Harry seguia voltou a pairar no ar.
De início era apenas o som do violão depois veio a voz da garota acompanhando as notas do instrumento.
Apesar de ter mudado bastante, aquela voz o fazia lembram de algumas memória de sua infância.
- Harry! – uma menina apareceu correndo no hall. Ela era um tanto miúda, com o tom de pele muito claro. Tinha o cabelo loiro escorrido preso em um rabo de cavalo frouxo. Os olhos azuis contrastavam com o preto da mascara que cobria seus olhos.
Ela o abraçou aos tropeços, escorregava por causa das meias. Depois o puxou pela mão na direção da sala de estar.
- Vamos, James. Deixe os meninos brincarem e vamos para o escritório. – disse Christopher, guiando James para o lado oposto de onde as duas crianças foram.
Isabelle levou Harry até a sala que mais gostava daquela enorme casa. Lá estava o presente que o avô lhe dera na semana anterior. Um piano, igual ao que brincava na fazenda.
- Para que tanta pressa, Belle? – indagou o menino, coçando o olho. Ainda estava um pouco cansado, foi dormir muito tarde na noite passada e o pai o acordou cedo para o costumeiro passei do domingo. Iriam jogar quadribol com Sirius e Lyra.
- Para mostra isso. – quando apontou para o piano negro, seus olhos brilharam.
- É bonito. – ele chegou mais perto do instrumento. – Mas para que serve?
A menina sorriu marota, e o puxou mais para perto. Sentou-se no banquinho com um pouco de dificuldade, era bastante alto. Fez sinal para que Harry fizesse o mesmo.
O menino de cabeleira negra juntou-se a Isabelle, e agora estavam sentados lado a lado no banquinho. Ele a olhava, confuso. Já tinha visto alguns pianos, mas não sabia exatamente como funcionava.
- Para tocar música, seu bobo. – ela riu, depois abriu a tampa do piano, mostrando todas as teclas brancas e pretas. Com o dedo indicador, apertou uma das teclas, produzindo um som agudo.
- Hum. – Harry sorriu amarelo. – Não gostei muito dessa música, não.
Ela pôs as mãos na cabeça e apoiou os cotovelos no piano, fazendo um som desafinado. Agora meneava a cabeça, em negativa.
- Isso não foi música! – Isabelle pegou o dedo indicador de Harry e tocou em os fez apertar em algumas teclas, produzindo algo conhecido.
- Ei! Eu conheço essa. – ele riu contente. O padrinho o ensinou a cantar aquela cantiga há alguns meses. Lembrou-se que ficou dias com ela na cabeça.
“Twinkle, twinkle little star,
Brilha, brilha estrelinha,
How I wonder where you are.
Como imagino onde você está.
Up above the world so high,
Em cima do mundo, tão alta,
Like a diamond in the sky,
Como um diamante no céu,
Twinkle, twinkle little star,
Brilha, brilha estrelinha,
How I wonder where you are...
Como imagino onde você está...
- Vamos de novo! – disse Harry, animado.
Isabelle mostrou as teclas que ele deveria apertar e mostrou as que ela apertaria. Apesar da pouco idade, ela tinha bastante paciência. Ele sabia disse muito bem, pois certa vez, tiveram que esperar pelos pais por algum tempo no escritório do Ministério, sem fazer barulho ou qualquer bagunça. Em pouco minutos, Harry e Lyra começaram a resmungar e chamar pelos pais, mas ela não. Permaneceu lá, quieta e com um pequeno sorriso nos lábios até seu pai sair da sala.
Saiu um pouco desafinado, pois Harry não conseguia acompanhá-la. Mas Isabelle não se importava, nem ele. Tocavam, cantavam, riam, como se mais nada importasse.
- Onde você aprendeu a tocar assim? – perguntou Harry. O menino continuava intrigado com o modo como ela tocava. Por mais que tentasse, não conseguia seguir na mesma sintonia que ela.
- Meu avô me ensinou. – ela levantou a máscara, deixando-a sobre a testa. – Eu te ensino. Vem amanhã de novo!
- Vou perguntar para a minha mãe. – ele fez um pequeno bico. – Não sei se ela vai deixar porque ontem eu prendi a Vic no armário da escada e ela chorou.
- Pede para o seu pai. – insistiu ela. Seu pai era mais flexível que a mãe, era ele quem a acompanhava nas artes.
- Vou perguntar para ele, mas mamãe também está brava com ele. Com o Sirius também. – ele contou nos dedos. – Minha mãe fica brava com muita gente, sabe?
A pequena menina riu e fez sinal para continuarem a tocar.
- Suas irmãs tocam com você? – perguntou Harry.
- Não. Elas dizem que eu só faço barulho.
- Eu não acho que isso seja barulho. – ele abriu um largo sorriso. – Eu gosto.
Isabelle aproximou seu rosto do de Harry e o beijou na bochecha. Harry corou, não estava acostumado com aquilo, só recebia beijos de adultos, em especial, da mãe. Lyra era como um moleque, e o máximo que lhe dava era um soco quando irritada.
- Você está vermelho. – ela baixou o cotovelo no piano novamente, com um sorriso matreiro.
- Não estou, não. – negou Harry com a cabeça.
- Harry! Vamos! – James apareceu na porta, junto com o pai de Isabelle.
- Só mais uma vez. – sussurrou Isabelle.
- Só mais uma vez. – repetiu ele, no mesmo tom.
Tocaram novamente, mais concentrados dessa vez, já que seria a última. Harry se esforçava para acompanhar Isabelle, e ela tentava desacelerar o ritmo. Aquela foi a única vez de todas as tentativas que os dois tocaram na mesma sintonia, nos mesmo ritmo, dando a parecer que era apenas um tocando.
Quando acabou, Harry desceu do banco e virou-se para a menina. Esta continha os olhos brilhando novamente. Um brilho que só aparecia em conquistas.
Ela baixou a máscara novamente até os olhos e sorriu contente. Dava adeus enquanto Harry ia se distanciando, até sumir pela porta.
Quando ia virando-se para o piano novamente, Harry apareceu correndo. Ofegante, ele parou e deu um pequeno pulo para beijá-la na bochecha.
- Até amanhã. – ele sorriu e correu até a porta, onde o pai fazia sinal para que se apressasse.
Esperou alguns segundo depois correu até a janela e, com o olhar, procurou pelo menino. Já estavam passando pelo portão, quase se misturando às pessoas que caminhavam pela calçada. Ela apoiou as mãos e a cabeça no vidro e seguiu Harry com olhar até a esquina, quando ele e o pai viraram e ela o perdeu de vista.
A música parou, junto com aquele flashback. Harry sorriu, era uma lembrança tão nítida, parecia que fora ontem que aconteceu. Ele deixou de fitar a escuridão e passou a encarar o rosto Isabelle na luz da lanterna. Ela estava com o mesmo brilho no olhar que naquele mês de setembro, há doze anos atrás.
- Você ficou quieto. – ela disse. Temia que não tivesse sido bom o bastante.
- Essa música me fez me lembrar de algumas coisas da época de criança.
- Jura? E o que exatamente você se lembrou.
- De uma cantiga. Uma música que uma amiga me ensinou a tocar no piano. – ele alargou o sorriso, e cantarolou a melodia que ela havia ensinado.
Isabelle abriu e fechou a boca algumas vezes. Era difícil de acreditar que ele ainda se lembrava daquilo. Fazia tanto tempo, e ele se lembrava.
Ela pôs o violão no chão e aproximou-se, depois o abraçou como costumava fazer como antigamente. Em seguida, pousou os lábios delicadamente sobre a bochecha esquerda do rapaz, mas dessa vez ele não corou.
- Certas coisas a gente não esquece. – ele riu baixinho.
- Concordo plenamente. – e ela o acompanhou.