
Prólogo
O dia estava nublado naquele fim de tarde. Quando James lhe mandou o aviso, ele ainda estava no escritório do ministério, resolvendo os problemas costumeiros. Agora corria a passos largos pelos brancos e escorregadios corredores do Sts Mungos.
Era hoje, onze de outubro de 1980, o dia que seu primeiro herdeiro nasceria. E como ele estava ansioso por aquele dia, conhecer o pequeno causador de todos aqueles nevos em sua mulher. Aqueles nove meses foram duros, mas o esperado fim chegou.
Sempre quisera um menino, mas ensinar a ser o batedor que foi na época da escola, para compartilhar seus truques com garotas e suas marotisses. Ensinar como descabelar a Profª McGonagall, azaram alguns sonserinos ou jogar fora os bolinhos pedregulhos que Hagrid oferecia a ele e a James quando o visitavam, mas sem que o gigantesco amigo percebesse.
Ou quem sabe uma pequena menina, que ele possa protegê-la e espantar os sem-vergonhas que ousassem se aproximar com segundas intenções. Precisará de muita ajuda se ela tiver a beleza da mãe. Agora compreendia o motivo do sogro detestá-lo tanto.
Continuou correndo, e xingando o fundador da regra que diz não poder aparatar em certas áreas hospitalares. Estava demorando muito para chegar à sala 13B, para falar a verdade, nunca gostara muito daquele número, sempre lhe dava azar. Talvez hoje fosse diferente, mas talvez não.
Aos poucos, foi avistando um borrão vermelho e logo viu quem era. Lily estava sentada no banco de espera, enquanto James andava de um lado para o outro, ele detestava hospitais desde que a mãe morrera em um. Os olhos castanho-esverdeados se encontraram com os azuis de Sirius, que foi diminuindo o passo. Os olhos de ambos os amigos ficaram mais vermelhos do que antes de Sirius chegar, e uma pequena lágrima teimou a escorrer pelo rosto pálido de James.
Aquilo deixou Sirius confuso e preocupado. Não era aquela recepção que ele esperava, parecia que não estavam felizes com o nascimento do seu filho.
James aproximou-se devagar, quase trêmulo. Pairou a mão direita sobre o ombro de Sirius, ainda sem encará-lo.
- Sirius...houve uma complicação... – ainda sem nenhum contado visual.
Complicação? Aquela era uma palavra a qual ele não gostava. Sempre que ouvia era bom se preparar para o pior; realmente, aquela vez fora a pior de todas.
- Por Merlin, James! Desembucha! – bradou Sirius.
- Tudo estava indo perfeitamente normal, mas logo depois que a menina nasceu, Elizabeth teve uma parada cardíaca. – nesse momento, James olhava lá no fundo dos olhos do amigo, parecia que enxergava a alma, e depois daquela notícia, ela se partira em duas partes.
- Me-menina? – Sirius gaguejou, lá no fundo já sabia disso.
James confirmou com um pequeno aceno com a cabeça. Deu um longo suspiro e continuou a falar.
- Elizabeth... morreu.
Aquelas últimas palavras soaram como facadas que atingiram em cheio o coração de Sirius. Não estava acreditando que ela se foi, juraram que morreriam velhinhos, depois de verem os filhos crescidos, os netos brincando, mas era apenas uma utopia, um sonho de dois jovens apaixonados.
Sirius sentiu seus joelhos fraquejarem e depois baterem no chão gelado. Lágrimas e mais lágrimas escorriam pelo seu rosto, começou com um pranto baixinho e foi crescendo até formar um choro de raiva e indignação. Ela nunca tinha feito algo a ninguém, ajudava a quem podia, sempre estava presente para o que der e vier, por quê tinha de ser logo ela a ir embora? Essa pergunta rodeava sua mente sem parar.
Levantou-se e foi até a parede, onde começou a dar socos. A cada soco, um berro de fúria ecoava pelo corredor. Milhões se sensações tomavam conta de seu corpo: raiva, tristeza, solidão, medo, indignação, sentia tudo ao mesmo tempo, mas a que prevalecia com mais força era a de solidão. Pensar que nunca mais acordaria com o beijo carinhoso de Elizabeth, seu perfume de rosas, seu olhar traquina e sério ao mesmo tempo, tudo causava um eterno vazio.
Antes de dar o último soco na parede, o qual, provavelmente, quebraria seu pulso, James o segurou. Sirius nem tentou reagir, sabia que não tinha mais forças. Escorregou as costas pela parede fria, até chegar ao chão; abraçou os joelhos como costumava fazer desde menino quando estava triste.
- Escute o que vou lhe dizer com muita atenção, Sirius. – agora era Lily quem falava. A ruiva encarou o amigo e acariciou seus negros cabelos delicadamente. – Elizabeth se foi, mas ela foi sozinha. Esse é o momento em que a pequena pessoa que está naquela sala precisa de você, e você dela.
Aquelas palavras despertaram Sirius. Ele tinha uma filha, e agora? O que seria daquele bebê sem uma mãe? Ele não sabia quase nada, sentia medo.
- Quero vê-la. – sua voz saiu mais baixo que um sussurro, quase inaudível.
- Claro. Fique aqui o tempo que quiser, depois vá para casa e tome um banho. Eu e Remus cuidaremos de tudo, pode deixar que nós avisaremos a todos. – James abraçou Sirius e desapareceu pelo corredor.
- Por aqui, Sirius. – Lily o pegou pela mão, levou-o até a sala 13B.
Era um quarto de hospital como outro qualquer, excerto pelo pequeno embrulho no berço. Não havia nenhum barulho, nenhum choro. Lily deu um leve beijo na bochecha de Sirius e saiu do quarto.
Ele foi se aproximando devagar do berço. Tinha medo de acordá-la, ela parecia dormir numa paz, e não tomava conhecimento do caos que estava do lado de fora.
Cuidadosamente, Sirius a pegou no colo, e a pequena abriu os olhinhos azuis, iguais aos dele.
- Pelo menos, você tem algo meu. – sorriu, pela primeira vez depois da trágica notícia.
Não podia negar, ela era Elizabeth dos pés a cabeça. Os cabelos, o rosto, até o mindinho meio torto, ela era a miniatura de Elizabeth.
- Queria chamá-la de Elizabeth, como sua mãe, mas não posso. Ela não iria gostar disse, sei muito bem que não ia. Que tal Lyra? É um belo nome, não?Assim continua a velha tradição da família Black: os nomes do céu.
A pequena abriu um lindo sorriso, ela parecia gostar de ouvir a voz de Sirius. Não era à toa, durante toda a gestação de Lizzi, Sirius cantava, lia histórias, sempre falava com o bebê.
- Então será esse seu nome: Lyra Elizabeth White Black. – sorriu Sirius. – Um pouco longo, mas não tem problema, ficou um belo nome.
Ela segurava o indicador de Sirius com força, apesar de parecer sonolenta. E estava mesmo, passaram-se poucos minutos e Lyra tornou a dormir, aconchegada pelos braços do pai, que acariciava sua cabecinha docemente.
- Você parece ter muita força, irá ser a melhor batedora que Hogwarts já viu. Será como nos velhos tempos: um Potter apanhador e um Black batedor. Mas dessa vez, o capitão será um Black. – sussurrou ele baixinho, para não acordá-la.
- Eles diziam que eu era muito cabeça quente para o cargo de capitão, mas seu padrinho também estava no mesmo barco. Espero que Malfoy ainda tenha aquela cicatriz do soco que James lhe deu. – era bom lembrar da velha época de escola, recordar como conquistou a cabeça-dura que era Elizabeth, das confusões em que se metia, de tudo. Era bom, porém doloroso.
O tempo poderia parar, que Sirius não perceberia. Estava petrificado com a pequena, só olhá-la já o fazia sentir saudades de sua amada. Não sabia ao certo quanto tempo ficou ali, mas tinha certeza que foram horas, pois Remus entrou no quarto, dizendo para descansar para o enterro, que seria em poucas horas.
O dia amanheceu nublado, e uma chuva fina caía no povoado se Hogsmead. Sirius estava em pé ao lado de James, Lily e Remus, recebendo todos os amigos e pessoas que apareciam. Elizabeth era a pessoa mais meiga e amigável que conhecia, praticamente todos com quem convivia gostavam dela, tanto no trabalho quanto na escola.
Via pessoas que não encontravam há muito tempo, antigos professores, velhos amigos. Alice soltava longos soluços, assim como a Profª Mcgonagall. Todos tinham expressões chorosas e tristes.
Sirius não chorava, mantinha-se forte por fora, mas por dentro estava preste a desabar. Não se importava com a chuva que o deixava ensopado, ou a lama que se aglomerava em seu sobretudo e em suas botas. Só mantinha o olhar fixo no caixão, que descia lentamente até tocar no fundo. Sirius segurava uma rosa branca, a favorita de Lizzi, e antes de começar a cobrir a cova com terra, ele jogou a rosa. Aquele gesto significou um último adeus, um adeus que Sirius nunca imaginou que chegaria tão rápido e de forma tão inesperada.
Depois de se despedir de todos, Sirius voltou ao hospital para ficar com Lyra. Mandou James e Lily para casa, afinal, também tinha um filho pequeno; Remus foi despachado também para casa, estava esgoto, a noite anterior tinha sido lua cheia. O amigo estava coberto de arranhões e machucados, alguns ainda abertos.
Aquele dia transcorreu daquela maneira: calmo, triste e chuvoso. Parecia ser um dia normal, como outro dia de chuva qualquer, mas não era, ninguém estava pronto para aquele adeus, muito menos Sirius. Ele passara o dia no hospital, ou zelando a filha ou olhando a foto da esposa. Não tinha vontade de trabalhar ou de fazer qualquer outra coisa, e Lily ia todos os dias em sua casa para dar uma geral, principalmente, limpar o quarto do bebê, que não demoraria muito para ir para casa.
Realmente não demorou. Três dias depois, Sirius abriu a porta principal, carregando a mais nova integrante da família Black.
A casa estava impecavelmente limpa. Lily era muito rigorosa em matéria de limpeza, às vezes até demais. Deixou a mala da filha sobre uma mesinha no hall e sentou-se no sofá, ainda com Lyra no colo. Era estranho voltar àquela casa novamente, quando Lyra estava no hospital, ele entrava na casa somente para tomar banho e pegar mais roupas para a filha, agora que voltaria a morar lá, se sentia um completo estranho naquele casarão. Ela parecia maior agora do que quando Liz estava com ele.
- É, pequena, parece que vai ser só nós dois. – suspirou Sirius.
Ele sentia medo naquele momento, sentia medo de falhar. Agora tudo estava em suas mãos, inclusive sua filha. Prepará-la para o mundo, ensinar-lhe o que é certo e o que é errado, guiá-la para o melhor caminho, nunca imaginou que teria de fazer tudo isso sozinho. Falharia em muitas coisas, mas não em ser um bom pai.
Robert Louis Stevenson wrote:
“You can not run away from weakness;
você não pode fugir da fraqueza
You must fight it out... or perish.
você deve lutar ou falecer
And if that be so,...
e se for assim...
Why not now,
por que não agora?
And where you stand?"
e onde você está? |
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