CAP -1
Rio de janeiro
Chovia torrencialmente naquela noite, Carlos estava encharcado, tinha passado o dia todo catando papéis e latas de alumínio pela cidade. Havia conseguido um bom dinheiro e agora voltava para o beco escuro onde costumava passar as noites. O beco ficava entre uma antiga igreja dos tempos da fundação da cidade, erguida no estilo chamado colonial, e os fundos de um edifício moderno que consistia num imenso paredão de concreto com apenas uma pequena porta de serviço que sempre estava fechada. Do outro lado do beco a lateral da Igreja também era uma grande parede, com pequenos nichos um pouco acima da rua, usados para ventilar o subsolo da igreja, nesses nichos dormiam vários sem-teto como Carlos, os nichos eram confortáveis tinham quase o tamanho de um pequeno sofá e os sem-teto os forravam com papelão e trapos velhos. Há muito tempo não haviam brigas pela ocupação dos nichos, já que o próprio Carlos e um outro sem-teto bastante robusto tinham posto ordem na baderna para evitar chamar atenção da polícia. Tinham organizado um nicho para cada sem-teto, e evitavam que novos grupos se alojassem ali.
Tudo parecia muito bem se não fosse pelo velho louco que ocupava o nicho ao lado do de Carlos.
Carlos o detestava, sabia que haviam muitos loucos morando nas ruas mas nenhum o irritava tanto quanto aquele. O velho passava todo o tempo chamando a todos de trouxas estúpidos, agia como se fosse superior, contava estórias de bruxos e dizia que ele mesmo fora um bruxo que tinha tido os poderes roubados, a vida já era dura demais para ter que aguentar as estórias loucas daquele velho toda noite, recitando palavras numa língua louca e reclamando da inutilidade de uma varinha se não se tem mais poderes mágicos.
Toda noite Carlos ouvia as lamentações do velho, já tinha até dando uns tapas nele, mas não adiantava isso só fazia o velho soltar mais pragas naquela sua língua estranha. Carlos sabia que ele era um gringo, não era brasileiro mas aquelas palavras, aqueles resmungos não pareciam com inglês, que ele uma vez tivera noções no pouco tempo que passou na escola. A única coisa divertida era a maneira como ele sacudia um pedaço de madeira parecido com um graveto bastante polido, enquanto soltava seus resmungos...
Ninguém sabia o nome ou a origem certa do velho, apenas que ele era estrangeiro e tinha aparecido do nada numa noite da qual muitos no beco não se lembram muito bem. O pessoal do beco acabou apelidando o velho de Mandrake.
Carlos chegou ao beco e encontrou todos já enfurnados nos seus nichos se protegendo da chuva, caminhou então para o seu, que era localizado em um ponto estratégico quase no meio do beco, da onde se podia ver a entrada que se dava por uma rua bastante movimentada e o fundo que era o muro de um estacionamento e uma ótima rota de fuga, caso a policia invadisse no beco.
Logo ao se aproximar, já ouvia os resmungos do Mandrake, soltando um suspiro e sacudindo a cabeça em sinal de desaprovação continuou caminhando, passou por um grande pilar que ficava no meio da parede da igreja logo após o pilar ficava o nicho do Mandrake. Ao passar por ele Carlos deu um tapa forte numa chapa de ferro que improvisavam como beiral para barrar a água que escorria pela parede quando chovia muito. – Cala a boca Mandrake, tô cansado e afim de puxar um ronco em paz – disse Carlos de maneira bastante estúpida, como ele esperava vieram os resmungos e viu a ponta do graveto sendo agitada na sua direção deu outro golpe com o pé e o velho se calou gemendo baixinho suas pragas. Carlos deu um sorriso cansado e se jogou no seu buraco encolhendo as pernas para caber e procurando uma maneira confortável de se deitar, sempre com o rosto de frente para entrada do beco, mal deitou e começou a cochilar.
Passadas algumas horas, a chuva continuava extremamente forte o canto do beco já parecia um pequeno córrego, tamanha era a quantidade de água que caia do céu. O barulho da chuva na chapa metálica tornava o sono difícil, por mais cansado que Carlos estivesse não conseguia dormir profundamente acordando várias vezes durante a noite.
E foi assim que ele viu com os olhos entreabertos nublados pelo sono e pela chuva um vulto escuro parado na entrada do beco, rapidamente abriu bem os olhos mas não se moveu, o instinto e a experiência de viver durante anos nas ruas fazia com que ele fingisse que continuava dormindo. O vulto ficou parado por vários minutos, só aumentando a apreensão de Carlos, subitamente o vulto se mexeu, caminhando para dentro do beco, Carlos se colocou em alerta cobriu mais o corpo deixando apenas os olhos para fora, mas manteve o corpo preparado para pular de uma vez só do nicho, manteve uma pequena faca na mão direita.
O vulto se aproximava bem devagar agora era possível perceber um homem numa capa escura com um capuz cobrindo toda a cabeça, passando por cada nicho sem mover a cabeça, ao passar pelo pilar ele parou, seu rosto estava encoberto pela sombra do capuz, mas ele tinha alguma coisa na mão. Carlos apertou mais forte a faca, contraiu mais ainda os músculos e cerrou os dentes. Estava pronto para saltar dali e correr para o fim do beco pular o muro e invadir o estacionamento saindo pelo outra lado na outra quadra, sabia que o homem devia ser um assassino ninguém mais se aproxima daquela maneira.
Foi então que um pavor sobrenatural o invadiu, ele não acreditava no que via, a chuva não tocava o homem, ou o que quer que aquilo fosse, a água desviava como se houvesse um domo de vidro ao redor dele. Mas não havia vidro apenas ar.
Ele sabia que já devia ter saído dali há muito tempo mas algo o impedia, agora não era mais a experiência mas somente o instinto e o medo que dizia que aquela coisa era extremamente perigosa e que o melhor era se fingir de morto.
O homem parou em frente ao nicho de Mandrake murmurou alguma coisa e acendeu uma lanterna muito entranha ofuscando Carlos e provavelmente Mandrake também.
Numa voz arrastada o homem falou alguma coisa em inglês.
Mandrake falou quase sufocado pelo susto gaguejando e muito apavorado – M-M-Malfoy?.
Foi a última coisa que disse. A lanterna se apagou e por breves segundos Carlos pode ver que não era uma lanterna, mas uma espécie de graveto muito bem polido, parecido com o que Mandrake carregava.
O Homem murmurou duas palavras incompreensíveis para Carlos, um jato de luz verde partiu da ponta do graveto e o coração de Mandrake simplesmente parou de bater.
O homem retirou o capuz e Carlos pode vez seu rosto magro seu cabelo comprido, ralo e sem vida, os olhos cor cinza brilhando, a boca contraída num meio sorriso.
Depois com um estalo ele desapareceu.