Devagar ela se deitou na cama. Não queria acordar o loiro, ele era bem melhor dormindo. Ela sabia bem o que era aquilo, crescendo no submundo de Belfast. Riu-se da idéia e olhou novamente para o semblante do garoto ao seu lado, a dor desaparecia e o sono conturbado também, dando lugar a um semblante calmo e uma respiração tranqüila. O pesadelo de Draco aos poucos foi se transformando em sonho e Angel estava nele.Enfim o sono tomou conta dela também. Mergulhou na inconsciência e nos seus sonhos seu dragão a resgatava dos braços da morte.
Acordaram com Angel bem aninhada nos braços de Draco que, quando a percebeu afastou-se bruscamente.
“Desculpe... “– o rosto corou entre embaraçado e irritado. – “Não estou acostumado. Como achou o caminho?” – Perguntou ainda sonolento.
“Professor Dumbledore.”
“Ah! Como foi a conversa?
“Você não me parece muito popular.”
“Acho que não.” Disse Draco com pouco caso. “Se ainda quer me matar, entre na fila, não é a única.”
“Dumbledore, disse para conversarmos, nos conhecermos e não nos afastarmos. O fato é que quase não consegui chegar aqui, fui quase carregada.”
“O mesmo aconteceu comigo.” Disse Draco, lembrando-se das explicações e recomendações de seu padrinho: Que ela sesentia do mesmo modoque ele e deviam ficar juntos o tempo todo.
“É quase hora do jantar. Vamos comer alguma coisa, você não comeu nada além do café da manhã.”
“Não tenho fome. Não se preocupe comigo.” Disse Angel, ainda absorta em seus pensamentos, recostada na cabeceira da cama com as pernas dobradas abraçada aos joelhos.
Draco a olhou preocupado, mas deu de ombros e saiu do quarto. Foi até o laboratório de Snape. Não trabalhava ali há algum tempo, pensou em jantar com Severus. Queria conversar com ele. Seu antigo professor com certeza havia de ajudar a se livrar daquele anjo que havia despencado na sua cabeça. Anjo não! O nome dela é Angel! Angel, tente se lembrar! Entrando no laboratório, encontrou Snape lendo alguns pergaminhos.
“Boa noite, Severus.”
“Boa Noite Draco. Um momento.” Snape concluía a leitura de um pergaminho e colocava um A no canto superior (aceitável, deveria estar de bom humor. Largou a pena e o pergaminho, se levantou e estendeu a mão para o afilhado.
“Como está? Onde está a Senhorita Angel?” Perguntou Snape, em tom casual.
“Nos meus aposentos.” Draco percebeu que, como de manhã, estava ficando cansado e sua cabeça doía.
“Você não me parece bem.”
“Tem uma poção para dor de cabeça?” Disse esfregando as têmporas.
“Draco, sua dor de cabeça é conseqüência da separação de vocês e só vai melhorar quando deixar seu orgulho de lado e aceitar o que fez.”
“Mas ela é uma san...” Sua cabeça parecia que ia explodir.
“Não pode continuar lutando contra o vínculo. Se continuar assim morrerá. Ambos morrerão. Agora é tarde, não pode mudar o que foi feito ou mandá-la de volta. E essa coisa de descendência não terá a menor importância se estiver morto. E, por outro lado, esse é um pensamento de você-sabe-quem.”
“Não é tão fácil assim, Sev. Todos esses anos foi isso o que Lucius me ensinou.”
“Como se você desse muito valor ao que ele diz!”
“Tem razão. É incoerente.”
“Então volte para o quarto e traga Angel para jantar.”
“Ela não quer.”
“Não entende que da noite pro dia a garota perdeu tudo? Então, dê um tempo a ela.”
Draco se retirou do laboratório sem o jantar. Sentia que se ficasse mais, não conseguiria chegar aos seus aposentos andando. A fraqueza que sentia e o aperto em seu peito tomavam conta de sua vontade. Abriu a porta devagar e encontrou Angel caída de bruços no meio do quarto. Ficou lívido. Por alguns segundos ficou sem ação, mas, um sentimento de pressa tomou conta dele e o levou para o lado dela. Virou-a em seus braços, a cor de sua face havia sumido, estava pálida e fria. Tomou-a no colo e se com cuidado a colocou na cama. A proximidade de ambos logo devolveu os tons vívidos ao rosto de Angel. Draco sentiu sua temperatura voltando ao normal. Começou a compreender então o que se passava com eles. Ele não poderia deixá-la só. Entendia agora amplamente as palavras de Severus, as atitudes obstinadas de ambas as partes iriam matá-los. Ele não queria morrer e nem queria que ela morresse tampouco. Suspirou aborrecido e resolveu acordar a garota.
“Angel acorde.” Draco esfregava-lhe os pulsos, tentando reanimá-la. “Vamos garota acorde!” Já estava apreensivo, quando a ouviu murmurar.
“Meu Dragão!”
“Como se sente? O que aconteceu? Achei você desmaiada ali e...”
“Agora estou ficando tonta com tantas perguntas! O que quer saber primeiro?”
“Vejo que já se recuperou.” Draco se afastou da cama indiferente “Seu senso de humor ainda está intacto!” Foi até a escrivaninha, sentou-se negligente e pegou um livro de poções para ler.
Angel virou-se de lado amuada e tentou dormir. Os acontecimentos do dia ainda reviravam na sua cabeça e lágrimas caíram de seus olhos. Sentia-se tão só naquele momento... Até uma missão da guerrilha seria melhor que aquilo. Na verdade qualquer lugar seria melhor que aquele.
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No dia seguinte, Angel acordou mais lúcida. Ainda estava no quarto de Draco, que não estava ali. Olhou para suas vestes e percebeu que provavelmente dormira de exaustão, depois que chorou todas as suas lágrimas. A roupa estava uma lástima, levantou-se e foi até um grande espelho, colocado no canto do quarto. Estava pálida e seus olhos estavam fundos. Passou a mão pelo cabelo em desalinho e tentou se recompor. Como poderia viver bem ali? Se nem roupas ela tinha? Isso era definitivamente inaceitável! Ridículo! Olhou para os lados a procura de roupas limpas. Viu um grande gaveteiro, em cima dele um vaso com uma rosa vermelha, ela brilhava, parecia mágica. Nesse momento, Draco sai do banheiro, e seu perfume inunda o quarto.
“Bom dia. Como está?”
“Bom dia. Bem, me sinto... bem.” Angel encarou Draco e viu que não havia escolha. Então se rendeu Dumbledore estava certo. Ela teria mesmo que aprender a descobrir quem era aquele estranho a sua frente. Sorriu e quebrou o silêncio, tinha coisas bem práticas para resolver naquele momento.
“Bem, não creio que providenciaram minha mudança para cá. Nem mesmo algumas roupas, o que me deixa com um probleminha.”
“Que seria...?” Com a pergunta, Angel virou os olhos.
“O que vestir, ora, não acho que seja apropriado continuar com esta roupa.” Falou apontando para o conjunto de calça e blusa todo amarfanhado.
“Não. Presumo que não. Deixei sobre a pia do banheiro tudo que vai precisar por agora..” Disse Draco com um tom divertido na voz.
Angel entrou no banheiro. Colocou a banheira para encher, prendeu os cabelos com um pedaço de tecido que rasgou de suas vestes do dia anterior. Entrou na banheira, a água quente era relaxante e parecia lavar a sua tristeza, o perfume que o sabonete e os sais de erva-doce exalavam entorpeciam seus sentidos. Até aquela sereia da pintura, já não assustava mais. Seu canto a relaxava e parecia conseguir por seus pensamentos em ordem. Algumas perguntas ainda estavam sem respostas. O que estava fazendo naquele lugar que parecia ter saído de um filme de terror? As pinturas dos azulejos se mexiam, os quadros falavam, fantasmas circulavam livremente pelo castelo, fazendo-a crer que a qualquer momento poderia encontrar Drácula em pessoa.
Saiu da água se sentindo bem melhor. Vestiu-se com uma calça e uma camisa com mangas longas, ambos de seda, botas confortáveis, tudo preto. Como a roupa anterior, como as vestes dele. Era curioso para ela, tudo por ali era austero. A única cor que encontrou foi na rosa sobre o gaveteiro, ou na pintura do azulejo. Depois do banho, Angel ficou um tempo em frente o espelho do quarto, olhando para a sua imagem refletida. Estava ali há quase uma semana, era hora de levantar acampamento daquela tristeza e ir à luta.
Draco, sentado à escrivaninha, fingia que não via Angel. Mas não perdia um movimento da garota, que naquele momento parecia uma Dríade, uma bela ninfa das árvores, etérea, bela... Uma visão que enchia os olhos de mercúrio.
“Sei que não começamos bem.” Ela disse caminhando até ele. “Estou acenando uma bandeira branca. Quero uma trégua.” Disse, sem saber bem o que esperar.
“Trégua?” Draco ponderou. Já que teria que viver com ela, seria melhor aceitar. “Aceito!” Esboçou algo parecido com um sorriso e Angel percebeu que era sincero.
“Então você vai me contar tudo, exatamente tudo, que eu tenho que saber para viver aqui no seu mundo.”
Ele levantou-se, olhando para ela, pegou a capa e estendeu a mão num convite mudo para acompanhá-lo. O café foi silencioso no Grande Salão sob os olhares curiosos dos alunos que ainda estavam ali. Depois, voltaram ao mesmo ponto do jardim perto do lago onde conversaram a primeira vez. Era realmente um lugar muito bonito. Angel observava suas águas mansas e cristalinas, a luz que emanava dele era mágica. Lembranças vieram a tona, Angel e Draco tinham muitas, alegres, hilárias, tristes. Com certeza muito mais tristes que alegres. Ficaram olhando perdidamente para o lago por muito tempo, não havia pressa naquele momento. Angel sabia que seria uma questão de tempo para se acostumar com aquele estranho mundo a sua frente e com aquele estranho dragão com olhos que enfeitiçavam.
Draco encarava o lago e revia sua vida confusa e cheia de mortes e tristeza. Lembrou-se de Narcissa e o ódio voltou a correr em suas veias. As lembranças de Lucius e fatos ruins de sua infância inundaram sua mente. Não queria se lembrar, mas era inevitável. Mesmo preso Lucius ainda lhe causava muita dor e sofrimento. Atirou uma pedra no lago tentado afugentar aquele pensamento e tentar se entender. Se a presença da garota fazia tão bem a ele por que ainda queria vê-la longe dali? Procurou se concentrar no que deveria dizer a Angel. Era tudo tão novo e tão estranho... Começou a falar, a voz pausada e baixa. Começou a contar como tudo aconteceu: o feitiço, Hogwarts, Potter, a Ordem da Fênix, bruxos das trevas, e aquele-que-não-deve-ser-nomeado. Falou sobre a guerra, que estava prestes a explodir no mundo mágico.
Angel ouvia tudo com muita atenção e a cada palavra sentia que aquilo tudo era como a narração de um filme de terror. Não podia acreditar que escapara de um clima hostil onde vivia e fora cair justamente ali em um mundo que estava as vésperas de uma guerra. Ironia do destino?
“Então terei que aprender a fazer magia como vocês para sobreviver a tudo isso”? Por fim perguntou.
“A Ordem vai proteger você.”
“Não. De onde eu venho, aprendemos a nos defender e defender os outros integrantes do grupo...” Falou com uma sombra de tristeza, olhando para o lago, como se visse um filme projetando-se nas águas.
Passaram ali a manhã toda, Draco respondendo todas as perguntas feitas por Angel, que estranhamente não achou as questões do mundo bruxo tão diferentes do mundo em que vivia. Draco levantou-se, estendendo-lhe a mão e a convidando para o almoço.
“Está bem! Vamos lá.” Angel sentiu que o garoto não era tão mal assim e via realmente as bandeiras brancas tremulando diante dos dois. Era um sentimento bom. Afinal ele era a única ligação que tinha com aquele mundo e não suportaria ficar ali, com ele, naquele clima de insegurança e rejeição que emanava de ambos. Compreendeu também que precisava da presença física do loiro para o seu próprio bem.
Almoçaram nos aposentos de Snape, longe dos olhares curiosos e apontamentos dos alunos de Hogwarts. Os dois quase não comeram, mexendo a comida de um lado para o outro no prato, o que chamou a atenção de Severus.
“Algum problema com a comida, Srta. Angel?”
“Não senhor. Está tudo perfeito. Só não estou com fome.”
“O Senhor Malfoy também não tem fome?”
“Bem... já comi o suficiente.”
Snape sabia o que o afilhado sentia e podia presumir o que a garota estaria passando ali. Sabia que o afilhado não era uma pessoa fácil para se conviver, então suspirou profundamente.
“Essa atitude não vai levar a lugar nenhum. Vocês parecem estar em um velório! Isso não é aceitável de forma alguma. Vocês são jovens e ainda que o clima do nosso mundo não esteja apropriado para grandes alegrias e felicidade, não há motivo para toda essa tristeza.”
”É. O senhor tem razão. Vamos tentar encontrar um modo de viver juntos.”
Angel sentiu sinceridade nas palavras de Malfoy. E percebeu que deveria se esforçar também para que, seja lá o que significasse aquele “modo de viver juntos”, desse certo.
“Venha Angel, tenho alguns pergaminhos para ler em meus aposentos.”
“Dumbledore pediu para avisar sobre a reunião da Ordem hoje às três da tarde. A convocação também se estende a Srta. Angel.” Informou o professor de poções antes que saíssem.
“Estaremos lá Tio Sev.”
“Mandarei você de volta para você-sabe-quem se continuar me chamando assim! ” Disse Severus tentando fazer um ar de irritação. Draco deu um arremedo de sorriso e puxou Angel pela mão, que estava achando graça da situação.
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