Draco sabia que o dia havia amanhecido, mas não estava com coragem de abrir os olhos. Sabia que tinha feito uma besteira, uma besteira enorme. O Draco de meses atrás nem ligaria para o fato, afinal já o havia feito várias vezes, e no dia seguinte sempre se sentia revigorado e pronto para outra, de preferência, com uma mulher diferente, mas desta vez as coisas estavam mudadas.
Deitado de barriga para cima, um braço cobrindo os olhos, Draco suspirava de arrependimento, mas não havia mais o que fazer. Decidido a ficar na cama fingindo que estava dormindo até Emília se cansar e resolver se levantar, Draco teve que mudar de planos quando começou a ouvir um barulho estranho, como um zumbido que parava e voltava a intervalos regulares.
Curioso, Draco sentou-se na cama e começou a olhar o quarto em busca daquele barulho tão estranho, mas não havia nada diferente ali, e ele tinha certeza que nenhum de seus pertences fazia um barulho como aquele. Então o barulho parou. Confuso, ele decidiu esquecer disso e, já que havia se denunciado, decidiu levantar-se de uma vez. Emburrado, ele começou a se vestir, e o barulho recomeçou.
_Mas o quê? – ele começou a andar pelo quarto, com os ouvidos apurados, procurando pela fonte do tal ruído.
_Draco? – Emília o chamou.
_Shii! – Draco fez.
_O que você está procurando?
_Está ouvindo este barulho? – ele perguntou ainda dando voltas pelo quarto.
_Barulho? – ela perguntou e apurou os ouvidos. – Ãh... Não...
_Não mesmo? Não é possível! Começou há pouco tempo... – ele parou para escutar. – Parou!
_É coisa da sua cabeça, meu bem. Volte para a cama! – ela sorriu e o chamou de volta.
_Hum... Acho que não... – ele se afastou e continuou se vestindo. – Estou com fome, você não?
_Huuum... – ela se espreguiçou demoradamente. – Tem razão... – ela jogou os lençóis para o lado e começou a se exibir para ele, que tentava não olhar muito. – Depois de tudo que fizemos essa noite... – ela o abraçou pelas costas. – Nossa Draco... Não imaginei que você tivesse tanto fôlego! – ela sorriu e deu uns beijinhos nas costas dele.
_Nem tanto, Emília... – ele falou, com falsa modéstia, sorrindo.
_Escuta, por que você não pede para o elfo trazer nosso café aqui, hein? – ela deu a volta no corpo dele e começou a beijar seu peito.
_Ah... Emília... – ele tentou resistir. – Eu... Ãh... Não quero deixar minha mãe tomar café sozinha, ok? – e a afastou delicadamente.
_Ok, então... – ela falou decepcionada. – Vamos descer... – e começou, finalmente, a se vestir.
_Está ouvindo? – Draco perguntou de repente. – Começou de novo.
_Hum... – Emília ficou apreensiva. – Não... Não estou ouvindo nada, querido.
_Mas...
_Vamos descer de uma vez! – ela agarrou Draco pela mão e o puxou escada a baixo.
Draco, já esquecido do tal barulho estranho, tomou seu café tão ou mais silencioso do que estava no jantar. Narcisa e Emília, entretanto, conversavam alegremente, como duas amigas que não se vêem há anos.
_ “Eu não devia ter feito isso... Se Hermione souber...” – pensou. – “Que se dane!” – se empertigou e colocou uma bolacha inteira na boca. – “Por que eu tenho que ficar me preocupando? Ela me dispensou de novo!” – ele balançava a cabeça, inconformado. – “Antigamente isso não faria a menor diferença. Quantas vezes eu dormi com outras mulheres, mesmo enquanto namorava a Pansy?”
_ “Mas você não a amava!” – uma voz se intrometeu em seus pensamentos.
_ “E de que adiantou amá-la? Só me trouxe problemas, e não está me fazendo nada feliz!” – ele respondeu, em pensamentos, para sua própria consciência.
_ “Ela tem problemas. Você deveria ajudá-la!”
_ “Ela não quer minha ajuda. Ela não me quer.”
_ “Mentira! E você sabe que ela está mentindo! Ela acha que não te merece, mas não disse que não te amava!”
Draco olhou em direção a escada, automaticamente, tentando se lembrar o que tinha feito com a carta de Hermione.
_ “De que adianta...” – ele concluiu com o coração apertado. O arrependimento e o orgulho travando uma briga insana em seu peito. Desanimado, voltou a tomar seu chá.
Passou o Natal, passou o ano novo, passaram os enjôos, e era chegada a hora de mandar os gêmeos para a escola novamente. Aquele seria o último domingo das férias de final de ano. Em outras circunstâncias Hermione estaria com o coração apertado, já triste por não poder ficar o dia inteiro com seus filhos, mas desta vez era diferente.
Hermione sentia-se aliviada por não ter que ficar com eles o dia inteiro. Geralmente, quando estavam na escola, chegavam mais cansados, loucos para contar o seu dia, mas menos atentos a ela. Faziam suas lições, brincavam e dormiam cedo.
Hermione, por sua vez, com o fim das férias, teria mais em que pensar, mais com que se distrair, e talvez, só talvez, não notasse a rapidez com que sua barriga crescia.
_ “E como não vou notar?” – ela se perguntava, olhando-se no espelho do quarto, com a camiseta levantada. – Droga! Tenho que tirar do baú as roupas largas... “Como vou esconder essa barriga?”
Mas ela não conseguiu mais pensar muito no assunto, pois ouviu Gina chamar-lhe no andar de baixo. Ela estranhou a ausência dos passos apressados que correriam para ver a madrinha, então se lembrou que eles ainda dormiam. Soltou a camiseta e deu uma última olhada no espelho, para ter certeza que ela ainda não era muito perceptível. Então desceu as escadas e recepcionou a amiga.
_Bom dia! – Gina a cumprimentou, sorridente.
_Bom dia! – Hermione respondeu. – Logo cedo? Aconteceu alguma coisa?
_Puxa vida, eu só te visito quando há algo errado? – Gina fez-se de ofendida.
_Claro que não, é que faz tempo que você não aparece!
_É, mas sabe como é... Crianças... – sorriu e foi para o sofá.
_E como elas estão? – perguntou acompanhando-a até a sala de estar.
_Ótimas. E os meninos?
_Ótimos também. Dormindo. – sorriu.
_E você? – Gina perguntou.
_Estou bem... – ela respondeu.
_Mas não está ótima? – brincou.
_Ai...
_Ele não te procurou mais?
_Essa era a idéia, não era? – ela respondeu começando a ficar de mau-humor.
_Eu não consigo entender você, sabia?
_Não estou pedindo que me entendam!
_Nossa! Calma!
_Desculpe! – Hermione falou impaciente. – Eu ando com o humor meio louco, ultimamente...
_Você está mesmo diferente... – ela começou a observar a amiga. – Harry me disse que você parecia doente no Natal, mas eu não notei nada durante o jantar.
_Foi só um mal estar, mas já havia passado até àquela hora.
_Mal estar, é? – Gina a olhou desconfiada. – Sabe o que eu notei?
_Hum?
_Você engordou...
Hermione arregalou os olhos, mas tentou disfarçar: - Você... Você acha?
_Uhum...
_Não... Impressão sua...
_Você não bebeu no Natal...
_E o que isso tem a ver? – Hermione começou a se preocupar.
_Hermione você...
_Você quer um chá? – Hermione sorriu e se levantou para ir para a cozinha.
_Não. Hermione você está grávida?! – Gina se levantou do sofá de repente.
_O quê? – Hermione tentou sorrir. – Não...
_Ah! Até parece que eu não reconheceria uma mulher grávida. Vejo dezenas todos os dias! Hermione...
_Fale baixo, por favor! – ela parou no meio da sala e suplicou. – Os meninos... – ela apontou para o quarto deles.
_O Malfoy sabe? – ela perguntou baixando o tom de voz.
_E nem vai saber! – ela falou resoluta, voltando para o sofá.
_Mas Hermione...
_Ele não pode saber, Gina!
_E até quando você acha que vai esconder? – ela se sentou também.
_Até ele ir embora! – ela respondeu. – Aposto como ele vai voltar para os EUA agora que eu dei um fora definitivo!
_Fora definitivo! – Gina riu, inconformada. – Você não pode fazer isso!
_Posso, Gina! Posso e já estou fazendo! O Draco não vai saber desse filho! Nem ele e nem ninguém daquela família!
_Ah... Então é isso! – Gina compreendeu. – O que ela disse que faria com um possível filho de vocês? – ela sentou-se novamente, compreensiva.
_Ela comparou a um aborto, mas ela não é a que mais me assusta...
_Quem mais está nessa história? – Gina perguntou.
_Emília Buldstrode. Ela sabe que eu estou grávida. Percebeu naquele dia, na botica. Ela ameaçou o meu bebê, Gina!
_Eu não posso acreditar!
_Disse que não gosta de machucar inocentes, mas que o faria se eu atrapalhasse os planos dela! Entende por que o Draco não pode saber desse filho?
_E quanto a nossa família? O que você vai dizer para eles? E a própria Narcisa Malfoy? Ela ainda morará aqui. Pode descobrir!
_Eu ainda não pensei nisso. Minha maior preocupação é não permitir que o Draco descubra.
_Mas Hermione, ele tem o direito de saber que vai ser pai!
_Quem vai ser pai? – Harry irrompeu da lareira a tempo de pegar o final da frase.
As duas arregalaram os olhos e ficaram pálidas.
_Que foi? – Harry riu ao ver a cara delas.
_Você nos assustou! – Gina desconversou. – Aparecendo assim, do nada!
_Desculpe... – ele sentou-se ao lado da esposa. – Você estava demorando. Tudo bem, Mione?
Ela apenas balançou a cabeça.
_E os meninos?
_Dormindo. – disse apenas.
_Então? Quem vai ser pai?
Gina e Hermione se entreolharam assustadas. Gina mordeu o lábio inferior, esperando o pior, então Hermione decidiu dizer: - Você!
_Eu?! – Gina se assustou quase tanto quanto Harry, mas se controlou. – Como assim? Gina... – ele a virou de frente para ele. – Você está grávida? – ele perguntou desacreditando.
Gina olhou para ele e sorriu, sem saber o que dizer.
_Mas o Kevin não tem nem cinco meses! – ele sorriu abobado. Gina balançou os ombros, Hermione suspirou aliviada. – Mas espera aí! – ele falou. – Por que você não me falou logo? Parecia que queriam esconder alguma coisa.
_É que... – Gina tentou, desesperada.
_Ela não tem certeza! – Hermione falou.
_Não? – Harry perguntou confuso. – E daí? Podia ter me falado, Gi. – ele a abraçou.
_Mas ela não queria que você ficasse decepcionado, caso seja um alarme falso, entende? – Hermione resolveu mais uma vez.
_Que bobagem, meu amor! – ele sorriu e beijou a esposa. – Vamos fazer o teste e pronto. Faremos amanhã mesmo! Outro filho! Quem diria! – ele sorriu.
_Padrinho, madrinha! – os gêmeos desceram as escadas correndo.
Harry desviou a atenção para os sobrinhos e Gina e Hermione puderem se olhar novamente. Gina fez cara feia para Hermione, perguntando, por gestos, o que iria fazer. Hermione mostrou que não tinha mais idéias.
Os dias se passaram e Hermione não sabia que fim havia levado o caso da gravidez de Gina, mas também não perguntou. Tinha acabado de colocar os filhos para dormir e ia colocar o pijama para deitar também quando ouviu a campainha. Foi atender.
_Draco?! – ela se espantou. Quase correu para trás da porta, para esconder a barriga, mas se conteve. – O que... O que você faz aqui?
_Boa noite, Hermione. – ele falou sério.
_Boa... Boa noite.
_Posso entrar?
_Entrar? Draco eu acho melhor...
_Você não achou mesmo que íamos encerrar esse assunto por um cartão de Natal, não é?
_Já faz semanas que mandamos o cartão! – ela se lembrou. – Achei que você nem estivesse mais aqui, na Inglaterra.
_É isso o que você quer? – ele insistiu.
_Achei que havia ficado claro naquela carta...
Draco não esperou o convite, apenas invadiu a sala: - Só ficou claro que você está lutando contra seus sentimentos!
_Draco, por favor...
_Eu só preciso te contar uma coisa, antes que você saiba por outra pessoa. – ele a encarou.
_O quê? – ela cruzou os braços e esperou.
_Eu... Eu dormi com a Emília!
Silêncio.
_Na verdade... Tenho saído com ela todo esse tempo.
Hermione sentiu o rosto esquentar, um aperto muito forte no coração, mas não falou nada, não demonstrou nada.
_Diz alguma coisa!
_O que... O que você quer que eu diga? – ela falou devagar, para disfarçar o embargo na voz.
_Sei lá! Me xinga, faz alguma coisa?! – ele se impacientou.
_Vou... Vou fazer um chá! – ela se virou rapidamente, a tempo de esconder uma lágrima teimosa que insistia em cair.
_Hermione! – ele gritou.
_Não grite! – ela falou da cozinha, tentando não soluçar. – Os meninos estão dormindo.
_Haaah! – ele esbravejou, mas respirou fundo tentando se acalmar. Escutou um soluço escapar da cozinha. Sentiu-se mal, mas aliviado. Sentou-se procurando um fio de calma, imaginando o que mais seria capaz de fazer para convencê-la. Curvou o corpo para frente e cobriu os olhos com as mãos.
_Ele veio namorar de novo. – Andrew sussurrou do alto da escada.
_E cadê ela? – Mark perguntou, também aos sussurros.
_Foi para cozinha fazer chá.
_Droga! Ele vai dormir aqui de novo?! A gente tem que fazer alguma coisa, senão eles vão começar a namorar!
_Tem razão! – Andrew falou, resoluto.
_Gemialidades! – ambos falaram ao mesmo tempo e voltaram para o quarto.
Na cozinha Hermione ainda não havia conseguido começar a fazer o chá. Ainda lutava para não deixar o choro sair ou, pelo menos, que não saísse muito alto.
_...Hermione...
_Ah não... Er...Era só o que me faltava... – ela cobriu os ouvidos, tentando não escutá-lo.
_...Não... Hermione...
_Pára! – ela pediu com a voz fraca, tentando não chamar a atenção de Draco. – Eu tentei, mas ele não vai!
_...Hermione...
_Eu vou mandar de novo, mas, por favor, pára com isso! – ela falou, um pouco mais alto.
_...Não...
Draco não ouviu as lamentações de Hermione, porque nesse exato momento sentiu algo bater em seu pé. Uma bolinha marrom que ele já tinha visto em algum lugar. Levantou-se imediatamente, sacou a varinha e pronunciou um feitiço que congelou o objeto.
_Bombas de bosta? Agora vocês estão pegando pesado, hein? – ele olhou para o alto da escada, mas não tinha ninguém lá. Então algo caiu em sua cabeça. Ele bateu a mão nos cabelos e uma aranha caiu no chão e correu em direção à mesa de canto, de onde saíam muitas outras. – Ah, seus pestinhas! – ele riu. Viu apenas um pedacinho da cabeleira ruiva de um deles. – Mobilicorpus! – a mesa saiu do lugar. – Levicorpus! – os gêmeos ficaram no ar, de ponta cabeça.
_Hei!
_Não é justo!
_É muito justo! São dois contra um!
_Mamãe disse que você não ia mais voltar!
_Mas voltei! – ele caminhou até eles. – E acho que vocês estão merecendo uma lição.
_O que você vai fazer?! – eles perguntaram com os olhos arregalados.
_Hum... Rictusempra!
_Aaahh! – eles começaram a gritar.
_Cócegas não!!!! – e começaram a rir.
_Gostaram, pestinhas! Cadê as aranhas agora? – ele ria também.
_O que está acontecendo? – Hermione apareceu na porta da cozinha, nervosa.
_Mãe! Socorro! – eles começaram gritar.
_Tá doendo! Faz ele parar!
Hermione olhou dos filhos para Draco, que a olhava com os olhos arregalados.
_Coloque-os no chão, Draco!
_Estamos só brincando... – ele tentou.
_Mãe!
_Faz ele parar!
_COLOQUE-OS NO CHÃO! – ela se descontrolou.
_Calma Hermione! – Draco se assustou. – Wingardium leviosa! – e os gêmeos começaram a flutuar suavemente, até encostarem-se ao chão. – Finite incantatem! – e pararam de rir.
Os gêmeos se levantaram e correram para se esconder atrás de Hermione.
_Nunca mais use feitiços contra meus filhos, Draco! – ela falou com o rosto vermelho.
_...Hermione...
Ela fingiu não ouvir.
_Eu não os estava machucando! Estava fazendo cócegas! Estávamos brincando, digam para ela! – ele pediu aos meninos. Eles esconderam o rosto nas pernas dela, fingindo-se assustados.
_Nunca mais aponte uma varinha para eles, Malfoy! Vá embora!
_...Não Hermione...
Ela fingiu mais uma vez, com dificuldade.
_Hermione...
_VÁ EMBORA! SAIA DA MINHA CASA!
_Mas... – Draco ficou observando-a espantado. Via uma lágrima escorrer de seus olhos, mas sinceramente não sabia se era de tristeza ou de raiva. Percebeu que havia feito uma besteira, havia jogado no lixo sua última chance. Desistindo falou: – Adeus, Hermione... – Deu meia volta e saiu pela porta.
_...Não...
Ela cobriu os ouvidos e fechou os olhos.
_Ele já foi? – um dos gêmeos perguntou.
_Já para o quarto! Os dois!
_O que foi que fizemos? – o outro questionou.
_Já – para – o – quarto! – Hermione falou, nervosa.
Sem pensar duas vezes eles correram escada acima, Hermione ficou na sala, tentando a todo custo ignorar a voz de Rony em sua cabeça.
_Acho que conseguimos! – Mark falou assim que a porta se fechou.
_É, mas a mamãe ficou brava! – Andrew ponderou.
_Ela ficou brava com ele, não se preocupe!
_Sei não... Mas é melhor assim! Vamos brincar com o campo?
_Vamos!
Hermione jogou-se no sofá e fez tudo que ela mais lutava para não fazer nas últimas semanas: chorou, mas chorou com vontade, tentando colocar tudo para fora.
_...Hermione...
_PÁRA! – ela gritou. – ELE JÁ FOI. - desesperada correu para o quarto e bateu a porta. Jogou-se na cama e cobriu o rosto com o travesseiro, como uma criança com medo do escuro.
_...Por que, Hermione?...
Ouviu ainda.
_Vai embora, por favor! – ela pediu pela última vez. - Ele já foi... - tirou o short que vestia e se cobriu. Apagou a luz, agarrou o travesseiro e tentou dormir, ainda chorando.
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