Olá caro diário, temo não ter lhe contado ontem, mas o guardei embaixo da minha cama, e se eu o tirasse para escrever que você estava embaixo da minha cama, então você não estaria mais embaixo dela e sim encima dessa mesa que tenho em meu quarto e não seria então verdade e ainda estou prezando pela verdade por aqui.
Oh diário, te trato informalmente porque afinal você é meu reflexo e não há porque eu ser tão polida comigo mesma, acredito eu. Pois bem, continuarei então com minha discordialidade. Aliás chega de banalização afinal o que é fato é fato e eu não preciso ficar também esclarecendo tudo, só passar a mensagem, para que um dia eu mesma leia e me recorde de tudo o que aconteceue provavelmente não me importarei com determinadas abusidades que por ventura eu mesma tenha com a minha pessoa, a menos que me torne uma velha ranheta, chata e que bate nas outras pessoas com uma bengala as chamando de taradas.
Vamos então falar de mim já que é para isso (penso eu) que escrevo e porque sabe-se lá Merlim vai que eu esqueço de quem eu sou um dia, repetindo o caso incessante de me tornar uma velha chata que bate nos outros com uma bengala, chamando-os de tarados. Nasci na Holanda e vim para a Escócia depois para a Irlanda. Nasci em um quarto muito bonito e de estilo gótico, no ano de novecentos e cinco, exatamente a doze anos e um dia atrás e cresci sem irmãos de carne, mas tenho aos ensaios que meu pai escreve como irmãos de formação. São a única aquisição boa que me prega horas nesse lugar isolado em que vivo hoje. Não que eu desgoste, mas é vazio e estranho em dias ensolarados e doentios como hoje. Já repararam a obrigação das pessoas serem felizes no verão? Todas correndo, pulando, sorrindo. Me enjoa. As pessoas fedem no verão, de verdade.
As montanhas em que vivo têm clima agradável e amendoado nos meses de agora, e neve intensa e uivos altos quando começa o ano. A única coisa que me chama a atenção por aqui nesses dias ensolarados e vomitantes são os gandes pássaros negros belíssimos voando numa sintonia, cantando sua música desafinada.
O lugar onde vivo tem uma língua isolada e bonita. Uma ilha cultural no meio à cultura dos vikings e outros de língua tão longínqua e bruta. Ou seria a nossa que é longíqua e fora de contexto? Quem sabe. Amo o modo que se fala aqui. Isso é o fato. Mesmo não sendo o dos viajantes, mesmo não sendo o bonito inglês da escócia e mesmo não sendo a língua do meu nome. Mas do meu nome eu gosto.
Acho cômico ser parte de uma língua diferente. Somos os corvos cantando sua música aguda, aparentemente perdido nessas ravinas. |