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1. Mera Ilusão


Fic: Febril Perseguição


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Do banheiro, Hermione ouviu o porteiro colocando o jornal embaixo da porta do apartamento. Ela estava escovando os dentes, os brilhantes olhos ambares fixos no espelho.
Decididamente, pensou, era hora de voltar ao cabeleireiro. Adorava deixar seus longos cabelos castanhos soltos, de uma forma bastante jovial. No entanto, sua profissão exigia uma aparência impecável e, a cada dois meses, tinha que apará-los.
Depois de escovar os dentes, se pesou. Orgulhava-se de conservar uma excelente forma e comprovou, mais uma vez, que continuava com o peso ideal. Arrumou melhor o longo cabelo e saiu do banheiro. Passando pelo hall, pegou o jornal e foi até a cozinha. Tinha acordado mais cedo e ainda estava um pouco cansada. Mesmo assim, precisava se apressar. Abrindo a geladeira, tirou uma jarra com suco de laranja, encheu um copo, pôs o pão para torrar, ligou a cafeteira e sentou-se. Estava acostumada a fazer isso todas as manhãs,automaticamente, para não perder tempo. Tomando um gole de suco, abriu o jornal e deu uma olhada rapidamente na primeira página. Seus olhos leram a manchete e suas mãos começaram a tremer. O copo partiu-se no chão e o suco manchou o chinelo branco que ela usava.
- Não! - balbuciou, movendo a cabeça num gesto de incredulidade. -Não é verdade!
Mione devorava a notícia, piscando nervosa enquanto lia. Um avião havia caído nas montanhas do Peru matando todos os passageiros a bordo. Entre eles estavam três pessoas famosas internacionalmente. O jornal trazia pequenas fotografias dos três, mas foi a segunda foto que prendeu a atenção de Hermione. Branca como cera, ela olhava boquiaberta, sem reparar que a torrada queimava e o suco se espalhava pelo chão. Da sua boca, saía apenas um nome:
- Draco... - ela murmurava.
Quando o telefone tocou, levantou-se num salto e foi atendê-lo na sala. Tinha as mãos úmidas e ainda tremia. Sentou-se, respirou profundamente e, com gestos lentos, tirou o fone do gancho.
- Alo! - Sua voz soava estranha, como se não soubesse mais falar.
- Mione, é Nathan. Você já leu os jornais hoje? - Ele não conseguia disfarçar sua ansiedade.
- Li - respondeu, tentando dar um tom normal à voz.
Tudo ficou em silêncio, do outro lado da linha, como se Nathan não soubesse mais o que falar. Por fim, ele continuou:
- Você está bem? Foi um grande choque, não foi? Eu não consegui acreditar enquanto não li várias vezes a notícia. Você gostaria que eu fosse até aí? Posso faltar ao trabalho esta manhã.
- Não, não é preciso, Nat. Eu estou bem.
- Tem certeza? Olhe, pode ficar certa de que não vai me atrapalhar. Eles não vão dizer nada quando souberem que o marido de minha irmã morreu em um acidente...
- Ex-marido - ela lembrou. - Nós estávamos divorciados, Nat. Ex-marido...
- Sim, mas de qualquer forma deve ter sido um choque.
- É, foi.
Ela gostaria que Nathan desligasse logo o telefone. Não conseguia controlar as lágrimas; sabia que ia explodir no choro a qualquer momento.E não queria que Nathan percebesse o quanto a notícia a havia abalado.
- Se você não tivesse se divorciado, seria agora uma viúva riquíssima...
- Por Deus! Como você pode falar em dinheiro numa hora dessas? - Hermione protestou.
- Você não pode negar que Draco deve ter deixado muito dinheiro para alguém. Pansy Parkison também morreu no acidente. Então, ela não poderá receber esse dinheiro...- ele parou por um momento - Como era ela?
- Bonita - Hermione admitiu, num tom amargo.
Era um verdadeiro absurdo que ainda sentisse um ciúme tão grande de Draco. Tinha se separado desse homem há três anos e ele agora estava morto. Mas pensar que Draco já não pertencia a este mundo era uma idéia insuportável,.
- É claro que, se Draco se interessou por ela, devia ser mesmo uma pessoa muito especial... -Nathan continuou, friamente.
Hermione pensou, com raiva, como Nathan podia ser tão insensível. Aparentemente, ele nunca percebia quando suas palavras tocavam nas feridas de alguém.
- Preciso desligar - disse, irritada. - Tenho muita coisa para fazer hoje.
- Está bem. Eu só queria saber se você estava OK.
- Estou muito bem, obrigada, Nat.
- Além do mais, gosto de mimar minha irmãzinha querida. - Ele agora se mostrava extremamente carinhoso.
Mione sorriu. Nunca conseguia ficar brava com Nathan muito tempo, apesar de não gostar do seu jeito de lidar com os sentimentos alheios. Não tinham ninguém no mundo, além deles mesmos. Haviam crescido juntos e eram profundamente unidos. Nathan sabia que podia contar sempre com ela.
- Você está trocando as coisas, querido. Sou eu quem devo mimá-lo. Lembre-se de que sou a mais velha.
- Deixe de besteiras. A verdade é que lamento muito pelo dinheiro. Essa bolada faria agora verdadeiros milagres.
Então era isso! Alarmada e quase em pânico, Hermione perguntou:
- Nathan, você esteve jogando? - Ele mudou de assunto.
- Será que Draco não deixou nada para você? Era tão apaixonado naquela época! E, afinal, foi você quem quis o divórcio. Talvez o testamento não tenha sido alterado...
Hermione estava perdendo a paciência.
- Saiba que eu não aceitaria qualquer dinheiro de Draco. Não quero nada dele.
- Não diga isso, você está louca!
O desespero na voz dele fez com que ela se alarmasse de novo.
- Nathan, quanto você perdeu desta vez?
- Falamos disso depois. Preciso desligar. Até logo!
Lentamente, Mione se afastou do telefone. Pensamentos que julgava sepultados para sempre agitavam sua mente.
- Draco... -- murmurava, completamente perdida, como se chamar por ele adiantasse alguma coisa.
Voltou à cozinha, lutando para conter as lágrimas. Diante da pia, começou a fazer exercícios respiratórios, numa tentativa de se controlar. Aos poucos foi se acalmando e, enquanto tomava uma xícara de café, continuou a relembrar do homem que havia sido seu marido.
Quando ela e Draco se conheceram, ele era um solteirão convicto. A paixão que sentiu por Hermione fez com que mudasse sua forma de pensar e se casasse com ela. Mas os maus momentos que viveram juntos destruíram todos os sonhos dela. Depois que se separaram, ele não voltou a casar, embora vivesse e viajasse com Pansy, e nem ela tinha a mínima intenção de fazer isso. Já não alimentava qualquer ilusão sobre o casamento...
Ao tomar a segunda xícara de café, ela já estava mais calma e capaz de se aprontar. Jogou fora a torrada que havia queimado, deu um jeito na cozinha e foi para o quarto. Pretendia sair. Nesse dia, mais do que nunca, queria ocupar seu tempo para não pensar.
Inconscientemente, escolheu um vestido cinza, cor que refletia bem o seu estado de espírito. Quando acabava de se maquiar ligeiramente, o telefone voltou a tocar.
Hermione hesitou. Será que algum jornalista tinha lembrado dela, de seu nome ou endereço? Mas era Henrique, preocupado e querendo ajudá-la.
- Querida, se você preferir não se apresentar esta noite, não se preocupe. Arranjarei uma substituta.
- Não, obrigada, Henri. Eu estou bem e irei.
- É isso mesmo que você quer?
Henrique a conhecia bastante para saber o quanto a tragédia devia tê-la atingido. Quando Mione começou a cantar no Henri's Place, era ainda uma menina de dezesseis anos, indefesa e ambiciosa, usando um vestido emprestado que não lhe caía muito bem. Nos últimos três anos, porém, tinha construído uma bela carreira como cantora.
Seu agente lhe conseguira ótimos contratos. Havia realizado temporadas de grande sucesso, inclusive uma, a mais famosa, numa praia muito bem frequentada do Norte.
Estava, aos poucos, marcando seu nome no meio artístico. No entanto, ainda se apresentava no Henri's Place, pela amizade que tinha por Henirque. Ele era a única pessoa que sabia de tudo que Hermione sentia em relação a Draco.
- Vou trabalhar hoje à noite, Henri. Será bom para mim.
- É a resposta de uma verdadeira dama - ele disse. Em seguida acrescentou: - Acho que Draco não merecia esta morte. Eu lamento muito. Admirava o rapaz...
- Eu sei. - Hermione não tinha a menor vontade de conversar.
- Pensei em telefonar mais cedo, mas achei que seria melhor você se recuperar do choque primeiro.
- Foi mesmo um choque.
- É inacreditável que ele esteja morto!
Hermione já não conseguia respirar; esses diálogos eram cada vez mais insuportáveis.
- Desculpe, querida. Sou um idiota. Sei que palavras já não adiantam nada.
-- Não se preocupe, Henri. O que você fala vem do coração. É inacreditável para mim também. Este final foi pior que tudo.
Durante todos esses anos Mione se negou a rever Draco. Achava a idéia insuportável. Mas, agora, a perspectiva de não poder vê-lo, nem que quisesse, era pior, muito pior. Sempre tinha havido uma barreira entre eles, mas a morte de Draco criava um abismo intransponível.
Quando Henrique se despediu, ela continuou sentada. De seu pequeno apartamento, podia avistar o Rio Tamisa. Adorava essa vista e só por causa dela alugara o apartamento, há dez anos. Agora que começava a ganhar dinheiro suficiente , para comprar o que quisesse, não tinha a menor vontade de sair dali, de tão apaixonada que era pela sua bela vista.
O rio estava escuro como um céu de inverno. Os grandes prédios, as torres da igreja e as chaminés da fábrica ao longe davam um ar tristonho ao horizonte. Gaivotas vagavam sobre as águas turbulentas, lindas, e seus bicos amarelos se sobressaíam em contraste com o cinza do corpo. Barcos passavam sujando a água de óleo, seguidos por uma lancha de polícia...
Um dia como outro qualquer em Londres, Hermione pensava. Nada especial, tudo calmo como sempre. E Draco morto numa cratera qualquer de uma montanha da América do Sul... Somente seus cabelos loiros deviam estar voando ao vento cortante, no meio dos restos de um avião... Que coisa triste! Levantou-se e decidiu sair, fazer umas compras, afastar os pensamentos mórbidos.
Em meio às compras, no supermercado que sempre frequentava, Hermione parou para um café. À sua frente havia um cartaz: "Acidente Aéreo!" Ela se virou rapidamente e os cabelos cobriam sua face. Embora estivesse com um quentíssimo casaco de pele, arrepiou-se inteira. Suas mãos gelaram. Então percebeu, a seu lado, uma vizinha do bairro tentando puxar conversa:
- Onde você tem cantado ultimamente?
- Numa boate em Mayfair - respondeu secamente. Não confiava na sinceridade dessas pessoas, sabia que era objeto de comentários maldosos por parte dos vizinhos.
- É mesmo? - Os olhos da mulher brilharam, e quando Hermione ia saindo, ela gritou: - Ei, ia me esquecendo... um repórter estava à sua procura. Acabou de ir embora. – Hermione virou para fita-la - Mas não disse o que queria. – acrescentou a mulher.
Hermione entrou em seu edifício correndo. A idéia de ter que enfrentar repórteres a apavorava. Precisava se esconder deles, fazer alguma coisa, e muito rapidamente, antes que fosse tarde.
Preparou um almoço rápido com alguns legumes, e sentou-se para ler um pouco. Qual nada! Não conseguia se concentrar em uma única palavra.
Eram mais ou menos quatro horas quando seu empresário telefonou. Ele também havia lido os jornais, é claro, mas tinha outras preocupações...
- Alguém da imprensa esteve por aí?
- Já. Tive que escapar de um repórter.
- Acho que essa publicidade não é boa para você. Você ainda não era famosa quando se divorciou e o público deve ficar na ilusão de que sempre foi solteira. É melhor essa imagem para um ídolo. Um divórcio...
Quando ele desligou, Hermione tinha os olhos fixos, perdidos num ponto do céu escuro. Mas seu corpo delicado tremia, e lágrimas brotavam de seus olhos. Tentando mais uma vez não se entregar, ligou a televisão. Qualquer coisa era melhor que pensar.
Começou a assistir a um show humorístico que achou muito fraco. Trocou de canal, e deu com um desses programas femininos chatíssimos, mas ainda era melhor do que desligar o aparelho.
Decidiu que à noite iria mais cedo ao Henri's Place. Começava a se sentir um pouco sufocada no apartamento, precisava sair.
Duas horas depois estava no camarim, fazendo com muita calma a maquilagem com que entraria em cena, quando Henrique chegou, perguntando:
- Como vai, princesa?
Ele era magro, de baixa estatura, e devia ter mais ou menos cinquenta anos. Tinha os cabelos grisalhos e um ar de pessoa inteligente, vivida e sincera. Hermione sorriu para ele, piscando com graça os olhos delicadamente ressaltados pela pintura.
- O que você acha?
- Você está sempre linda, mas... quer mesmo se apresentar hoje?
- Oh, você faz questão de que eu me sinta mal... - ela disse, com um sorriso forçado.
- Você está encantadora, pelo menos por fora...
- Por fora?
- Desculpe-me. - Ele se aproximou, apoiando com firmeza as mãos quentes nos ombros delicados de Hermione. - Você está certa, a vida continua.
Ela sorriu.
- Estou bem e farei um ótimo show! Fique tranquilo.
- É claro, é claro. A casa está lotada de fãs. E quando a virem naquele vestido, terei que colocar correntes de ferro maciço para não invadirem o palco!
- Bons negócios! - Ela sorriu.
- Graças a você, Hermione. Sei que recebe ofertas bem melhores e gostaria de poder contratá-la, mas não tenho tanto dinheiro...
- Eu sei. Mas minha dívida é antiga. Devo quase tudo a você, nunca poderei pagar!
- Não me deve nada, querida!
- Você me deu a primeira chance, Henrique!
- Eu devia ser fuzilado. Apresentei uma criança de sua idade a lobos famintos...
- Mas eu sou verdadeiramente grata, você sabe. Precisava de dinheiro.
- É, eu sei. Você se deixa sugar até hoje por aquele seu irmão... Ela corou, nervosa.
- Henrique! Não fale assim de Nathan. Ele tem boas intenções. Não é justo!
- Claro que tem. O que será preciso para você se convencer de que seu irmão é viciado em jogo? Enquanto você resolver os problemas financeiros dele, enquanto o sustentar, ele continuará jogando.
- Eu sei, eu sei. Mas o que posso fazer? Você sabe o que aconteceu quando me recusei a pagar.
- Mais algumas surras como aquela e ele perderá o hábito.
- Mais algumas surras e poderei não ter mais irmão. Não quero vê-lo passar por isso. Chega o que já sofreu...
Henrique respirou fundo, balançando pesadamente a cabeça.
- Aquele padrasto de vocês foi um verdadeiro monstro, um dos piores que já vi.Eu proclamaria feriado nacional no aniversário da morte dele.
Hermione estava pálida; lembranças terríveis vinham à sua cabeça. Seus olhos ambares mostravam uma expressão ao mesmo tempo triste e selvagem.
- Não me faça lembrar! - implorou, levantando-se. - Vamos trabalhar!
Henrique olhou para ela com admiração.
- Como você consegue?
- Força de vontade. - Ela sorriu.
Foi para a porta. Seu corpo elegante deslizava sinuosamente dentro do vestido de seda preta, talhado especialmente para ressaltar suas formas.
As costas eram nuas e a frente não bastava para cobrir os seios. Dos quadris, várias franjas de seda preta desciam soltas, imprimindo graça e elegância aos seus movimentos.
- Você esqueceu as luvas - Henrique disse, entregando-as para ela.
- Eu sempre esqueço!
- Deve ser seu subconsciente...
Ela sorriu, colocando as luvas que chegavam aos cotovelos e davam um ar excitante, em contraste com a nudez de seus braços.
Entrou no palco escuro, recostou-se a um piano branco de cauda e um foco de luz se acendeu sobre ela. O auditório estourou em aplausos, depois silenciou. Hermione estava de costas para o público, sua pele brilhava como um pêssego sob a luz azul. Lentamente foi se virando, o corpo se ondulando sensualmente, as luvas longas e negras acentuando sua sensualidade. O pianista deu a introdução e ela começou a cantar. Enquanto tirava as luvas, numa deliberada provocação, o público assobiava, batia os pés. Quando acabou de tirá-las atirou-as na escuridão. Várias mãos se agitaram, tentando pegá-las. O público gritava:
- Mais! Tira mais!
Atrevidos, ela pensou, terminando a canção. Enquanto agradecia os aplausos que sempre a comoviam, observava o semicírculo de pessoas sorridentes que não se cansavam de aplaudi-la. Então, um arrepio percorreu-lhe o corpo... Em meio àquele ambiente enfumaçado e escuro, reconheceu um rosto sério, uns olhos sombrios, que pareciam apunhalá-la à distância; uma boca crispada, que não disfarçava a sensualidade.
Sem dizer um "ai", Hermione perdeu os sentidos.
Quando abriu os olhos, estava sentada no sofá de seu camarim. Tremia. O que havia acontecido? Aos poucos foi lembrando e tentou levantar.
Alguém obrigou-a a deitar de novo. Um frio voltou a percorrer-lhe a espinha. Não era um fantasma! Atrás dela, um homem alto, com densos cabelos loiros, ombros largos, e usando uma jaqueta muito bem talhada, não deixava dúvidas sobre sua identidade.
- Você... você está vivo - ela murmurou. Ele fez somente um movimento de cabeça.
- Mas, o acidente... sem sobreviventes, eles diziam...
- Eu não estava no avião. Na última hora, tive um compromisso...
- Oh! - Ela não tinha palavras. Não sabia como reagir. Relaxou, respirando fundo. Então lembrou:
- E a Parkison?
- Estava a bordo - ele respondeu secamente.
- Oh... Sinto muito!
- Sente? - A pergunta continha um desafio.
- Sinto! - Seu tom firme revelava raiva. Ela olhou para ele com desprezo. Tudo o que havia sentido ao saber que ele estava morto, se transformava agora na antiga hostilidade. Era como se a simples presença daquele homem provocasse nela reações químicas que não podia controlar.
- Você a detestava.
- Nem tanto. Não o bastante para desejar que morresse.
- Pode ser. Mas deve ter ficado muito contente com a notícia da minha morte, não?
Hermione não respondeu. Por nada desse mundo permitiria que ele suspeitasse de seu sofrimento durante aquele longo dia. Tentou levantar. O quarto parecia rodar.
- Fique onde está - ele ordenou rudemente, obrigando-a a deitar de novo.
- Não se atreva a me tocar! - As palavras escaparam de sua boca sem que ela pudesse controlá-las. Seu corpo estava tenso.
- Desculpe. Esqueci que você é intocável. - Draco tinha um sorriso ironico. Olhou o corpo de Hermione de cima a baixo, desafiando-a. - Debaixo daquelas luzes você é uma outra pessoa... Está muito mudada. Mal pude acreditar na hora que cheguei. Quem está lhe ensinando aqueles movimentos tão sensuais, aquele andar... o vestido preto tão revelador... o jeito de sorrir?
- Cale-se! - Hermione gritou com ódio.
Sua expressão se transformava, a cada nova ofensa de Draco.
- Mas o que há, Hermione? Você não se envergonha da maneira como se mostra ao público, não é? E, depois, está muito claro que tudo é ensaiado. Movimentos cuidadosos, pensados. Quando você começou a tirar aquelas luvas, a temperatura deve ter subido a mil graus. Todos estavam excitadíssimos. Deviam imaginar como seria o pouco que não estava sendo mostrado...
- Vá para o inferno! Pare já com isso.
- Eu me sentia como eles também. Mas ainda levo uma vantagem: no passado, eu vi você tirar toda a roupa, e a minha memória ainda não se apagou...
Hermione estava vermelha como sangue. Olhou bem nos olhos de Draco e gritou:
- Seu canalha, você esquece que a Parkison morreu ainda ontem? O que está fazendo nesta boate?
- Pansy e eu não tínhamos mais nada a ver um com o outro, já há dois anos. E, depois, estou no seu local de trabalho...
- Você não muda mesmo, não é, Draco? Eu me lembro do que você costumava dizer: um novo dia, uma nova mulher... Era sua frase favorita!
- Nós nunca nos demos chance. - Os olhos dele se fixavam nela com um ar meio triste. - Demos, Hermione?
- Qual foi a última mulher na sua vida, Draco? - Ela ignorava a pergunta e se esforçava para ler a verdade bem dentro dos olhos dele.
- No presente, nenhuma. - Hermione riu.
- Espera que eu acredite nisso?
E Draco, forçando um tom de leveza à voz, respondeu:
- Por que eu mentiria? O que você pensaria de mim se tivesse um harém?
- Teria muita pena das suas mulheres! - De repente, ele mudou bruscamente.
- Vamos, tire este vestido! - ordenou.
Hermione estava quase em estado de pânico, os olhos arregalados, o corpo tremendo de terror.
Draco virou-se, seus olhos também tinham uma expressão estranha.
- Bem, é melhor pararmos - disse calmamente. - vou levá-la para casa. Espero você lá fora!
- Não, prefiro pegar um táxi!
- Que pena! Queria conversar um pouco com você!
- Mas eu não quero conversar com você, Draco. Nós não temos nada para dizer um ao outro!
- Depois de três anos você vem me dizer isso, Hermione? Não acredito que não possa sentar num carro comigo dez minutos.
- Não, não posso.
Um silêncio pairou no ar. Hermione viu que Draco olhava para ela pelo espelho. Seus olhos diziam que ele ainda não tinha se conformado com a recusa. Hermione se sentia extremamente frágil. Era incrível como, apesar de tudo, aquele olhar a fascinava, esquentava seu sangue. Virou-se, indo em direção à penteadeira. Olhava fixamente uma pequenina boneca, um presente de Henrique, que era a sua mascote.
- Feche a porta quando sair - disse rudemente. - Não quero mais receber visitas indesejáveis.
Draco não se movia.
- Boa noite! - ela insistiu, ainda de costas.
Sentiu que ele havia se aproximado, estava quase tocando-a. Ficou apavorada. Foi quando Draco a puxou, abraçando-a e tentando abrir-lhe o zíper do vestido.
- Não! - ela gritou, inutilmente. O zíper já estava aberto e o vestido caía ao chão.
- Não imagina como fica melhor assim, sem roupa.
Pelo espelho, se entreolharam. Ele viu o ódio que dominava a expressão daqueles lindos olhos ambares. Não satisfeito, abaixou a cabeça, começando a beijar-lhe sensualmente os ombros nus. Ela sentia como se alguma coisa a queimasse.
- Não! -implorou, tremendo de maneira incontrolável. Ele reagiu com força. com os cotovelos prendeu os braços de Hermione para trás, e suas mãos já passeavam pelo corpo dela, cobrindo-lhe os seios, enquanto os lábios mornos beijavam-lhe a nuca, orelhas, ombros...
- Odeio isso! Odeio você!
- Verdade, Hermione? - Ela estava rígida. Jogando a cabeça para trás, tentando impedir os beijos que ele agora dava em seu pescoço.
- Pare com isso! Por favor, pare! - Ele ergueu a cabeça. Pelo espelho, ela percebeu a profunda indignação, a expressão dura de seu olhar.
- Cretina! - ele deixou escapar pelos dentes cerrados. - Um dia desses eu quebro o seu pescoço! - E segurou a garganta dela, como se fosse cumprir ali, naquele momento, a ameaça.
Hermione tremia. Suas pernas fraquejavam. Num rápido movimento ele a virou de frente, colou sua boca à dela, entreabriu-lhe os lábios à força. Draco esperava que Hermione cedesse. Fazia pressão com ambas as mãos no rosto delicado, não lhe deixando escapatória. Ela moveu os lábios numa quase que involuntária retribuição ao longo beijo. Mas logo se recompôs, passiva, sem esboçar qualquer reação.
Quando ele, enfim, a deixou escapar, ondas de tontura escureciam-lhe a visão. Hermione deu um passo para trás, recostando-se à pia. Draco saiu, batendo a porta com força. Ela se jogou no sofá, chorando, confundida com suas lembranças.
Muitas vezes essa cena havia se repetido durante o breve período em que estiveram casados. Começou na lua-de-mel. Ela estava convencida de que amava Draco e seria capaz de enfrentar o casamento, mas já na primeira noite percebeu o quanto tinha se enganado. Durante o breve namoro, ele muitas vezes a beijava apaixonadamente e, embora estivesse sempre tensa nessas horas, ela gostava desses momentos de carinho e até os retribuía. Mas na noite de núpcias, quando ele entrou no quarto de pijama, não mais encontrou a noiva apaixonada que conhecia. Lá estava um bichinho apavorado, desorientado, agressivo, disposto a arranhá-lo e mordê-lo se ele tentasse algum tipo de aproximação... Draco ficou perdido. Implorou que ela se explicasse. E entre soluços e frases entrecortadas, Hermione tentava transmitir-lhe o que sentia.
Mas não tinha coragem de dizer tudo, e ele nunca soube realmente o que se escondia atrás daquele pavor doentio ao sexo.
Draco só perdeu a paciência mais tarde, quando, depois de muitas semanas, a situação continuou na mesma. Tentou forçá-la a procurar um médico, mas ela se recusava.
Achava que não teria coragem de suportar uma conversa sobre essa barreira.
Certa noite, Hermione acordou sobressaltada, com o marido entrando no quarto completamente bêbado e desesperado. Brigaram e ele saiu de casa dizendo que ia procurar outra mulher, já que ela não era capaz de dormir com ele. Depois que ele se foi, Hermione tomou uma superdose de calmantes, e quando, mais tarde, Draco voltou, ela estava em estado de coma. Ficou entre a vida e a morte durante várias semanas, e quando saiu do hospital, descobriu que ele havia abandonado a casa.
Algumas semanas depois, ele apareceu no clube onde ela estava cantando, acompanhado por Pansy Parkison. Pansy, uma belíssima mulher, estava declaradamente apaixonada por Draco, e as maneiras ardentes com que se acariciavam em público não deixavam dúvidas de que o interesse era recíproco. Hermione sabia perfeitamente que ele havia trazido a Parkison, naquela noite, para mostrar que nem todas as mulheres eram iguais a ela; enfim, para humilhá-la. No dia seguinte, procurou seu advogado e deu início à ação de divórcio.
Na manhã em que recebeu a notificação do juiz, Draco a procurou cheio de ódio.Hermione ainda tentou bater a porta mas, ágil e forte como era, ele a segurou e entrou.
- Que diabo significa isso? - Ele atirou os papéis em cima dela. Hermione passou as mãos nos cabelos , encarando-o, desafiante:
- O que lhe parece?
- Você está se divorciando de mim? Inteligente maneira de enriquecer...
- Não tocarei em um centavo seu!
- Mas, então, por quê? Por Deus, diga-me por quê?
Ele estava angustiado. Mas, mesmo num momento tão tenso, Hermione ainda reconhecia o expressivo olhar que a deixava confusa.
- Hermione... - ele murmurou, estendendo os braços em sua direção.
- Não faça isso!
Ela deu um passo atrás, encostando-se à parede e mordendo o lábio a ponto de fazê-lo sangrar.
- Perdoe-me, Draco. Nosso casamento foi um erro, nunca deveria ter acontecido. Um erro...
- Um erro! - Ele tentava extravasar sua fúria. - Sua frígida, vulgar!
Ela empalideceu diante do insulto, mas abaixou a cabeça sem se defender. Depois de um momento de silêncio, ele tentou desfazer a grosseria mas continuou, ainda um pouco rude:
- Sê a razão disso é Pansy, não precisa se preocupar. Só busquei uma maneira de provocar ciúmes...
Ela negou, com um movimento de cabeça.
- Não é a Parkison... Sou eu, Draco. Perdoe-me. Prefiro terminar nosso casamento. Eu sou culpada. Se você quer a iniciativa do divórcio, concordo. Só pensei que assim seria mais fácil...
- Você não me ama - ele concluiu, amargo.
Ela hesitou, não desejando mentir, mas sabendo que era preciso, para terminar de uma vez com a tragédia em que havia se transformado essa tentativa de vida em comum.
- Não, Draco, eu não o amo. - Ele agora tinha um ar selvagem.
- Você se casou comigo por dinheiro e não aguentou ir adiante. É nisso que devo acreditar? Há uma outra pessoa? Você se apaixonou por outro homem? Por Deus, Hermione, deve existir uma razão. – ele perguntou tentando conter o nó na garganta. Ela já não tinha forças.
- Por favor, vá embora...
- Ir embora? Sem explicações? Sem desculpas? Apenas ir embora assim?
- Eu já disse, desculpe-me por favor. Meu grande erro foi pensar que este casamento pudesse dar certo. Eu me arrependo amargamente...
- Queria ter coragem de assassiná-la... Mas, pensando bem, por que deveria desperdiçar minha vida com uma mulherzinha frígida, que sequer consegue levar adiante suas próprias mentiras e pretensões?
Essas foram as últimas palavras que trocaram. Ele saiu dali e da vida de Hermione. E somente hoje, no dia da notícia do acidente de avião, voltavam a se encontrar.
Quando as lágrimas cessaram, Hermione se recompôs. com o olhar distante, fixo em um ponto do infinito, ela continuava longe, perdida nas suas memórias infelizes. Uma batida seca na porta a fez retornar à realidade.
- Dou-lhe dois minutos para sair daí, ou serei obrigado a entrar de novo - disse Draco.
Ela o conhecia muito bem para saber que cumpriria a ameaça. Levantou, lavou o rosto com água fria, tentando apagar os sinais do choro, vestiu-se apressadamente.
Dependurou o vestido preto no cabide, pegou o casaco e já se dirigia à porta quando ela se abriu violentamente.
Draco a olhou de cima a baixo.
- De volta ao normal - disse. - Você deveria ser uma atriz, Hermione. Tem uma habilidade incrível para fingir...
- Não preciso de sua companhia, Draco. Por que não me deixa só?
- Meu carro está lá fora. - E segurou o braço dela com violência, levando-a em direção à saída.
Ela não podia fazer nada, senão obedecê-lo.
Quando passaram pela porta da sala de Henrique, ele os olhou com curiosidade. Pela sua expressão, Hermione percebeu que estava boquiaberto com o grande engano dos jornais ao anunciarem a morte de Draco. Henrique perguntou, preocupado:
- Você está bem, princesa?
- Ela está perfeitamente bem - Draco respondeu, de maneira rude. Ele não gostava de Henrique. Culpava-o pelo envolvimento de Hermione no mundo artístico. Desde que se conheceram eram hostis um ao outro.
- Gostaria de ouvir isso dela - disse Henrique. E, olhando para Hermione: - Você parece precisar de uma boa dose de uísque. Não quer toma-la comigo?
Draco já quase não podia controlar sua irritação.
- Vamos - disse, forçando Hermione a continuar caminhando para a saída.
Nesse momento, algumas pessoas da plateia apareceram no final do corredor, rindo e fazendo barulho. Henrique foi obrigado a mandá-las embora, dizendo que não deviam invadir a área reservada para os artistas. Enquanto ele se ocupava com isso, Draco e Hermione já ganhavam a rua. Entraram num luxuoso carro prateado, estacionado bem próximo à saída.
Ele deu a partida no automóvel.
- Eu moro... - ela começou, mas ele cortou imediatamente suas palavras, sem fitá-la.
- Eu sei onde você mora.
O tráfego agora estava calmo. As calçadas também estavam vazias; uma chuvinha fina caía lentamente sobre a cidade. Alguns grupos de jovens apareciam aqui e ali,
conversavam e riam. Uma luz amarela vinha dos postes, colorindo a avenida.
- Sua carreira está indo bem - comentou Draco, com os olhos fixos na pista.
- Sim, vai muito bem. Graças a James Kent.
O empresário de Hermione era um homem criativo. Estava sempre procurando uma novidade, algo que marcasse e desse um novo impulso à carreira dela. Hermione sabia que ele era considerado um homem sem escrúpulos, mas, com ela, tom havia sido muito gentil, atencioso e extremamente honesto. Já há
três anos trabalhavam juntos e ela não tinha a menor queixa
- Se você continuar cantando como hoje, acabará se tornando uma grande estrela - Draco comentou secamente. - Eu podia ter acendido o cigarro no sujeito que estava sentado a meu lado. Pensei que ele fosse pegar fogo quando você começou a tirar as luvas. De quem foi a idéia das luvas? Não foi sua, espero.
- Foi de James.
- Rapaz inteligente! Essa cena é uma dinamite. Um excitante início de strip tease...
- Não é um strip tease!
- Mas você sabe que provoca a plateia. Todos esperavam que continuasse... Não era essa a intenção?
Na verdade, Hermione não tinha gostado dessa cena quando James a sugeriu. Mas ele insistiu tanto que aceitou a idéia e se acostumou a fazer o número, embora sempre se esquecesse de pegar as luvas quando ia entrar no palco, como se tivesse um bloqueio interno. Aliás, lamentava-se por Henrique ter se lembrado delas essa noite. Estava um pouco envergonhada pelo fato de Draco tê-la assistido. De qualquer forma, foi uma sorte só ter notado a presença dele no final do espetáculo. Caso contrário a apresentação poderia ter sido um desastre total.
Ele estacionou o carro em frente ao prédio em que ela morava.
Hermione levou a mão à maçaneta.
- Boa noite, Draco.
Ele não respondeu. Apenas saiu do carro, fechando a porta. Hermione também saiu, com o coração batendo forte. Estava em pânico novamente.
- Nós não temos nada a conversar, Draco. Nunca tivemos. Por favor, não torne as coisas mais difíceis do que são.
- Só pensei que talvez você pudesse me oferecer um cafezinho. - Ela tremia.
- Desculpe-me, mas estou muito cansada.
- Existe muita coisa ainda não esclarecida entre nós, Hermione. Um dia você terá que enfrentar tudo isso. Se pensa que saí completamente da sua vida, engana-se. Não abandono nada do que quero sem lutar.
- Já se passaram três anos desde que nos separamos... Esqueci que você existia, acredite. Para que trazer à tona assuntos já enterrados?
Subitamente, ele corou.
- Esqueceu! Você mal consegue mentir!
Ela entrou no prédio, ouvindo os passos firmes que a acompanhavam. Queria fugir naquele momento. Alcançou a porta do apartamento, com Draco colado às suas costas.
Voltou-se para ele, o rosto pálido.
- Você não vai embora?
Ele, mais uma vez, fitou-a com uma expressão que era uma mistura de raiva e desejo.
- Só você consegue fazer com que eu me sinta assim. Mas você não cede em nada, absolutamente nada, e eu não consigo deixar de desejá-la, Hermione...
Ela aproveitou o momento para entrar rapidamente no apartamento. Quando tentou fechar a porta, ele a prendeu com o pé. Ela se encostou à parede, tremendo convulsivamente, as mãos à frente para impedi-lo de tocá-la.
- Não, não, por favor... - gemia, desesperada.
Draco a observou por um momento, imóvel. Então balbuciou algo ininteligível, expressando desgosto e raiva, virou-se e saiu.
Hermione deixou que as lágrimas caíssem por seu rosto, enquanto ouvia os passos dele se afastando.
Então, fechou a porta e caminhou automaticamente para seu quarto.

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