Prólogo
Inglaterra, 1181
Converteram-se em amigas antes de ser o suficientemente maiores para compreender que se supunha que deviam odiar-se.
As duas meninas se conheceram no festival anual que se celebrava na fronteira entre Escócia e Inglaterra. Era a primeira vez que lady Ginevra Hampton assistia aos jogos escoceses, e também era a primeira excursão verdadeira longe de seu isolado lar no Oeste da Inglaterra, e estava tão afligida ante toda essa verdadeira aventura que logo que podia manter os olhos fechados durante as obrigatórias sestas vespertinas. Havia tanto para ver e fazer e, para uma curiosa pequena de quatro anos, também havia muitos enredos nos que meter-se.
Hermione Jane Granger já se colocou em problemas. Seu pai lhe tinha dado umas boas palmadas nas nádegas para fazer que lamentasse sua má conduta, logo a jogou sobre o ombro como se fora um saco de aroz e cruzou com ela todo um largo terreno. A fez se sentar sobre uma rocha de superfície plana, longe das canções e os bailes, e lhe ordenou que ficasse quieta até que ele estivesse completamente disposto a retornar a procurá-la. Dispôs que devia utilizar esse momento de silêncio e solidão para meditar a respeito de seus pecados.
Já que Hermione Jane não tinha a mais mínima idéia do que queria dizer "meditar", decidiu que não tinha que obedecer aquela ordem. Dava exatamente o mesmo, porque sua mente já estava totalmente cheia de preocupação pela gorda abelha que lhe zumbia em círculos sobre a cabeça.
Ginevra tinha visto como o pai castigava a filha. Sentiu lástima pela estranha e pequena menina de cabelos castanhos. Sabia que ela certamente teria chorado se seu tio Herbert a tivesse golpeado nas nádegas, mas a morena nem sequer tinha feito uma careta quando seu pai a surrou.
Resolveu falar com a menina. Esperou a que o pai deixasse de repreender a sua filha e retornasse pelo campo. Levantou as saias e correu pelo caminho mais comprido para aparecer às escondidas por detrás da rocha.
-Meu pai nunca me pegou - alardeou Ginevra a maneira de apresentação.
Hermione Jane não girou a cabeça para ver quem lhe estava falando. Não se atrevia a tirar a vista da abelha, que agora vacilava perto de seu joelho esquerdo.
Ginevra não se intimidou ante o silêncio.
-Meu papai está morto – anunciou -. Desde antes de eu nascer.
-Então, como poderia saber se te pegaria ou não? - Ginevra se encolheu de ombros.
-Simplesmente sei que não o teria feito - respondeu-. Falas estranho, como se tivesse um pouco entupido na garganta. Tem-no?
-Não -respondeu Hermione Jane -. Você também fala estranho.
-Por que não quer me olhar?
-Não posso.
-Por que não? -perguntou Ginevra. Retorceu o bordo de seu vestido rosa e o enrugou enquanto esperava a resposta.
-Tenho que vigiar à abelha - respondeu Hermione Jane -. Quer me picar. Tenho que estar preparada para afastar a de um golpe.
Ginevra se inclinou mais perto. Descobriu à abelha revoando ao redor do pé esquerdo da menina.
-Por que não a afasta de um golpe agora? -perguntou em um sussurro.
-Tenho medo -respondeu Hermione Jane -. Poderia falhar. Então seguro que me picaria.
Ginevra franziu o sobrecenho ante aquele dilema durante uns instantes.
-Quer que a afaste de um golpe por ti?
-Quereria fazê-lo?
-Talvez - respondeu-. Como te chamas? -perguntou logo, fazendo tempo enquanto reunia valor para arremeter contra a abelha.
- Hermione Jane. E você?
- Ginevra. Como é que tem dois nomes completos? Nunca ouvi que ninguém tivesse mais que um.
-Todos me perguntam isso - disse Hermione Jane. Deixou escapar um suspiro melodramático-. Jane era o nome de minha mamãe. Morreu quando dava a luz. Hermione era o nome de minha avó, e morreu exatamente da mesma maneira. Não puderam ser enterradas em terreno consagrado porque a igreja disse que não eram puras. Papai espera que comece a me comportar e que logo vá ao céu, e que quando Deus ouça meus dois nomes se lembre de minha mamãe e minha avó.
-Por que disse a Igreja que não eram puras?
-Porque estavam dando a luz quando morreram -explicou Hermione Jane -. Não sabe nada, menina?
-Sei algumas costure.
-Eu sei exatamente tudo -vangloriou-se Hermione Jane -. Ao menos, papai diz que indubitavelmente assim acredito. Até sei como chegam os bebês ao estômago da mamãe. Quer ouvi-lo?
-Ah, sim.
-Uma vez que se casam, o papai cospe dentro de sua taça de vinho e logo faz que a mamãe beba um bom gole. Assim que traga, tem um bebê dentro do estômago.
Ginevra fez uma careta ante aquela informação emocionantemente desagradável. ia rogar lhe a sua amiga que lhe contasse mais quando de repente Hermione Jane deixou escapar um forte gemido. Ginevra se aproximou até mais. Logo também deixou escapar um gemido. A abelha se instalou na ponta do sapato de sua amiga. Quanto mais a olhava Ginevra, mais parecia crescer em tamanho.
A conversação sobre o nascimento foi deixada de lado imediatamente.
-Vais espantar de um golpe? -perguntou Hermione Jane.
-Estou-me preparando para fazê-lo.
-Tem medo?
-Não -mentiu Ginevra -. Não tenho medo de nada. Tampouco acredito que você o tenha.
-Por que não?
-Porque não chorou quando seu papai te pegou - explicou Ginevra.
-Isso é porque não me pegou forte -explicou Hermione Jane -. Papai nunca me pega forte. Também lhe dói mais que a mim. Ao menos, isso é o que dizem Gavin e Kevin. Papai tem as mãos muito ocupadas comigo, dizem, e me está arruinando de tudo para o pobre homem com o que me tenha que casar quando crescer, porque papai me consente.
-Quem são Gavin e Kevin?
-Meus meio irmãos -explicou Hermione Jane -. Papai também é seu papai, mas tiveram uma mamãe diferente. Morreu.
-Morreu dando a luz?
-Não.
-Então, por que morreu?
-Só se esgotou -explicou Hermione Jane -. Papai me disse isso. Agora vou fechar os olhos muito forte se por acaso quer espantar a abelha.
Já que Ginevra estava tão decidida a impressionar a sua nova amiga, não pensou mais nas conseqüências. Estirou-se para golpear a abelha, mas logo que notou o bater das asas contra a palma da mão, sentiu tantas cócegas que instintivamente fechou os dedos.
Logo começou a uivar. Hermione Jane saltou da rocha para ajudar a da única maneira que conhecia. Começou a uivar também.
Ginevra correu uma e outra vez ao redor da rocha, gritando tão forte que logo que podia manter o fôlego. Seu amiga a perseguia e gritava com a mesma ferocidade, embora de compreensão e medo mais que de dor.
O papai de Hermione chegou correndo através do prado. Primeiro apanhou a sua filha e, depois de que esta balbuciasse seu problema, correu detrás o Ginevra.
Em questão de minutos as duas pequenas tinham sido adequadamente tranqüilizadas. De Ginevra tiraram o ferrão da palma da mão, e lhe aplicou barro úmido. O papai de sua amiga lhe secou brandamente as lágrimas com o bordo do tartán de lã. Agora estava sentado sobre a rocha de castigo, com sua filha sentada em sua perna direita e Ginevra na esquerda.
Ginevra nunca tinha visto ninguém fizer tanto alvoroço por ela, voltou-se bastante tímida por toda a atenção que estava recebendo. Contudo, não se separou daquele consolo e, de fato, inclusive se aproximou um pouco mais.
-São um par de gralhas - disse o papai quando deixaram de soluçar e puderam escutá-lo-. Gritavam mais forte que os trompetistas que anunciavam o jogo de lançamento de tronco de pinheiro, e corriam em círculos como galinhas com as cabeças cortadas.
Ginevra não sabia se o papai estava zangado ou não. Sua voz tinha sido rouca, mas não tinha franzido o sobrecenho. Hermione Jane começou a rir bobamente. Ginevra decidiu que, depois de tudo, o papai de sua amiga devia estar brincando.
-Estava-lhe doendo muito, papai - anunciou Hermione Jane.
-Estou seguro.- Voltou o olhar para Ginevra e a surpreendeu com os olhos fixos nele-. É uma moçinha muito valente por ter ajudado a minha filha – elogiou -. Mas se houver uma próxima vez, tente não apanhar à abelha. Esta bem?
Ginevra assentiu solenemente.
Lhe deu uma palmada carinhosa no braço.
-É uma menina muito bonita -sublinhou-. Qual é seu nome, pequena?
-Chama-se Ginevra, papai, e é minha amiga. Pode jantar conosco?
-Bom, isso depende de seus pais - replicou o papai.
-Seu papai está morto -anunciou Hermione Jane -. Não é uma lástima, papai?
-É obvio que sim - concordou. - Entretanto, tem os olhos azuis mais bonitos que já vi.
-E eu, papai, não tenho também os olhos mais bonitos que viu alguma vez?
-Sim, Hermione Jane Tem os olhos castanhos mais bonitos que tenha visto. É Obvio que sim.
Hermione Jane ficou tão agradada pelo elogio de seu pai que espremeu os ombros para cima e voltou a rir bobamente.
-Seu papai morreu antes de que ela nascesse -disse-lhe logo Hermione Jane. Nesse momento tinha recordado essa informação e estava segura de que seu pai quereria sabê-lo.
Ele assentiu.
-Bom, filha, quero que fique bem calada enquanto falo com seu amiga -disse logo.
-Sim, papai.
Voltou a emprestar atenção ao Ginevra. Encontrava um pouco desconcertante a maneira em que Ginevra cravava o olhar nele com tanta atenção, Era uma pequena tão seria para alguém de tão curta idade.
-Quantos anos têm Ginevra?
Ginevra levantou quatro dedos.
-Papai, vê-o? Tem justo minha idade.
-Não, Hermione Jane, não tem justo sua mesma idade. Ginevra tem quatro anos e você já tem cinco. Não te lembra?
-Sim me lembro papai.
Sorriu a sua filha, e uma vez mais tentou conversar com o Ginevra.
-Não me tem medo, verdade?
-Não tem medo a nada. Há-me dito isso.
-Shh, filha. Quero ouvir que sua amiga diga uma ou duas coisas. Ginevra, sua mamãe está aqui?
Gina sacudiu a cabeça. Começou a retorcer um cacho de cabelo ruivo como fogo ao redor do dedo em um gesto nervoso e, contudo, mantinha o olhar completamente fixo no pai. O rosto do homem estava talher por umas costeletas ruivas e, quando falava, as penugens se agitavam com rapidez. Desejou poder tocar a barba para saber como era ao tato.
-Ginevra? Sua mamãe está aqui? -repetiu o papai.
-Não, mamãe fica com o tio Bilius. Não sabem que estou aqui. Vai ser um segredo, e se o digo nunca mais vou poder vir ao festival. Tia Muriel me disse isso.
Uma vez que começou a falar, desejou contar tudo o que sabia.
-O tio Bilius me diz que é como meu papai, mas só é o irmão de minha mamãe, e eu nunca me sinto sobre seus joelhos. Não quereria, embora pudesse, mas não posso, assim não importa verdade?
O pai do Hermione Jane tinha problemas em seguir a explicação, mas sua filha não tinha nenhum. Também estava cheia de curiosidade.
NA.: Espero que tenha ficado legal...logo posto o cap um...
beijao
|