Estavam todos no Caldeirão Furado, inclusive seus pais. Foi o único lugar neutro que ela conseguiu pensar onde aquele grupo inteiro pudesse se reunir. Sim, porque Draco estava irredutível. Ele não a deixaria sozinha com Elizabeth, ao menos por enquanto. Não até deixar tudo claro quanto aos seus planos, que ela temia só de pensar. Sendo assim, Blás e sua namorada estavam lá, ao lado do amigo loiro de cara amarrada.
As pessoas olhavam aquele grupo e achavam tudo muito estranho, mais ainda pela presença de trouxas e Malfoy e Potter numa mesma mesa. Fora aquela garotinha nos braços de Draco. Hermione estava odiando tudo aquilo.
- Eu realmente acho que devia ir pra casa agora. – Disse amarga encarando o loiro do outro lado da mesa. Ele ficou impassível. – Foi de fato muito bom ver todos vocês e sei que devo satisfações também. Mas estou terrivelmente cansada e acho que a minha filha também. E toda essa atenção que estamos chamando..
- Hermione tem razão. – Harry disse olhando para os lados. Mas os Weasleys apenas faziam barulho demais e queriam comer.
- Vamos jantar primeiro. Conversamos um pouco...- George arriscou.
- Não posso mais fazer parte desse circo, Granger. – Draco se manifestou desde que chegaram no aeroporto. Ele estivera mudo o tempo todo, mas jantar naquele lugar, ao lado dos ruivos já era pedir demais.
- Olha Malfoy, você.. – Mas Hermione interrompeu Ron.
- Ele tem razão. Isso virou um circo. – Ela se levantou cansada. – Vou para casa dos meus pais. Malfoy, Elizabeth precisa ir comigo. Eu não vou sumir, virar fumaça, ou coisa assim. O endereço é esse aqui. – Ela conjurou uma caneta e em alguns segundos rabiscou a localização para ele. – Por favor! – Chegou a suplicar. Todos os encaravam. Draco fitava fundo os olhos de Hermione como se procurasse algum vacilo da parte dela.
- Eu levo vocês. – Ela revirou os olhos e afastou a cadeira com força. Saiu de perto da mesa sem se despedir de ninguém e nem se dirigir ao seus pais que apenas, com o semblante sem graça, também se levantaram e a seguiram até a porta.
Ele finalmente havia indo embora. Todos finalmente haviam dormido. Finalmente estava sozinha como tanto ansiou nos últimos dias, mas não estava em paz. Podia ver por sua janela que nevava em Londres. Sentiu frio, muito frio, e não era por causa do inverno, era pelo medo que sentia de não saber o que mais podia acontecer. Não tinha mais as rédeas da própria vida. De certa forma estava nas mãos de Draco e isso era tão estranho. Estava se deixando estar, porque se sentia culpada e em divida com ele, e esperto como Malfoy era estava se aproveitando muito bem disso.
- Desculpe Hermione, mas aquele garoto está aqui. – Acordou com a voz suave da mãe perto de si.
- Mas já?! – Parecia que tinha acabado de dormir, e talvez fosse verdade. A última vez que se lembrava de ter visto as horas se aproximavam das 5h da manhã.
- Pode ir tranqüila que fico com Elizabeth. Ela ainda está dormindo.
- Claro que está.. o que Malfoy está pensando? – Ela apenas afastou as cobertas furiosa e sem ao menos calçar uma meia saiu do quarto pronta para uma briga, como as que tinham em Hogwarts. Ele já estava passando dos limites com toda aquela pressão e desconfiança que ela pudesse sumir a qualquer minuto. Desceu as escadas bufando, a sala de sua casa ainda na penumbra de uma manhã fria de dezembro.
- Você acha que é o que é? Pra vir aqui uma hora dessas, sendo que saiu daqui tão tarde? – Draco estava distraído olhando os tantos porta retratos que agora povoavam a sala da família Granger. Desde que Hermione sumira, há quase um ano, e a consciência dos pais dela pesara de saudade e solidão, a medida que foram recobrando suas lembranças e seus pertences deixados pela filha, eles redecoraram toda a casa com fotos dela em diferente idades.
- Não seja.. – Mas quando se virou ficou mudo. Hermione em seu rompante de raiva e sono mal dormido não percebera e não dera tempo para sua mãe alerta-la, mas estava apenas com uma blusa de seu pijama, sem a parte de baixo, estando vestida apenas de calcinha. Tinha tomado o habito de dormir com poucas roupas no Brasil. Suas pernas estavam a mostra, o cabelo um tanto bagunçado e estava bem ofegante pela corrida ate a sala e mesmo pela raiva que estava sentindo. Franziu o cenho perante o silencio repentino dele.
- Que que foi Malfoy?! – Colocou a mão na cintura, e foi então que percebeu os trajes que estava. Sentiu o rosto queimar de vergonha. Queria ser engolida pelo chão naquele momento.
- Acho que talvez você queira voltar e se vestir.- Ele disse alguns segundos atrasado. Sentia a garganta seca. Hermione era tão linda, mesmo acabando de acordar e descabelada. E ela tinha que esfregar isso na cara dele. Sentiu raiva e se forçou a lembrar porque simplesmente não a agarrava ali mesmo.
- Não, eu não quero. Você que talvez queira ir embora de uma vez! Já chega disso tudo! – Hermione resolveu que a vergonha estava passada e que ele já a tinha visto em situações muito piores. Apenas queria por um fim naquilo tudo. Viu quando ele respirou fundo e lentamente.
- Você vai ter que trocar de roupa de qualquer maneira, ao não ser que sair na rua assim te agrade. – Ela não entendeu.
- Como que é?
- Vamos registrar Elizabeth como uma Malfoy que ela é. – Então ela recomeçou a sentir o frio da noite passada e percebeu que aquela roupa de fato não era nada apropriada. Mas se sentou.
- Draco, e nem me olhe como se tivesse te matando por te chamar assim, a gente precisa conversar. – Ele a olhava como se a garota a sua frente fosse louca.
- Conversar sobre o que? Não há nada a ser discutido sobre isso, ela..
- Chega! Não estou negando que Elizabeth é sua filha, que vai ser registrada! Caramba! Eu quero saber até onde você vai com isso! Estou cansada de suas surpresas, de suas ironias, de visitas de madrugada. – Ele deu um sorriso meia boca que derreteu Hermione, porque, por Deus e Merlim, como Malfoy era lindo.
- Até onde vou? Eu sou pai. É até onde vou. Serei o pai dela, Granger. Tudo que me compete quanto a isso. TUDO.
- Então teremos que nos organizar, porque não é como se fossemos nos casar... – Ela jamais soube por que disse aquilo, mas disse, apenas para se arrepender. Ouviu a gargalhada fria dele.
- Você já foi mais inteligente Hermione. – O viu se aproximar pela primeira vez. Draco até se sentou na mesinha de centro para ficar na altura dela. – Não, me casar com você? Por quê? Você não tem nada que uma mulher precisa para ser uma esposa minha. Fatalidade ter gerado um fruto meu. E usar isso para tentar me prender, tsc, truque mais velho que Hogwarts, não seja tão estúpida. – Então sussurrou. - Nosso sexo até que é bom, mas casar, precisa mais que isso.. você não.. – Ela não deixou ele terminar, ergueu o braço para bater com toda força em seu rosto, mas Draco foi rápido e segurou com força seu punho. – Eu já avisei que você não vai mais me bater. – Disse firme e gélido. Ela tremia, segurava seu choro bravamente.
- E você não vai me ofender dentro da minha casa! – O loiro riu novamente soltando o a mão de Hermione e se levantando.
- Não sabia que dizer que não ser possível se casar comigo é uma ofensa. – Ela se levantou.
- Não seja tão ridículo.
- Essa conversa que está sendo. Vamos fazer o que tem que ser feito, por favor. – Usou um tom mais doce. Mas não adiantou.
- Não vou a lugar algum com você. Estou exausta. Você terá seu registro. Na próxima segunda. Nos encontraremos no Ministério e então faremos o registro formal de Elizabeth. Tenho que firmar que Harry é o padrinho dela de qualquer forma. Antes disso, Malfoy, apenas esqueça que eu existo! Saia da minha casa. EU NÃO QUERO SABER! – Ela gritou quando ele esboçou que iria protestar. Apenas apontou a porta para ele, que bufando e com o rosto vermelho de raiva saiu da casa dela. Por fim, Hermione deu vazão a suas lágrimas quentes.
- Você tem certeza que pode fazer isso? – Ron perguntou depois de ler o memorando e o entregando para Harry.
- Absoluta? Não. Mas acredito que é o certo. É apenas uma mudança de datas Ron. Isso de fato foi achado no escritório de Lucius da Mansão Malfoy. – Harry tirou os óculos cansado. Sabia que nevava lá fora, mas seu escritório parecia quente.
- Sim, e na época você fez vista grossa.
- Porque eu sabia que era coisa de Lucius e não queria que Narcisa se encrencasse mais ainda. Você sabe..- Ele recolocou os óculos, mas não olhou o amigo.
- Eu sei, e sei também que você precisa acabar com isso, Harry. Vai ficar se cobrando até quando? Ela te salvou, ok, mas ela mesma te falou que nem foi por você! Foi pra achar o filhinho dela!
- Não seja tão grosso Ron! Ela fala isso mais pra ela mesma! Narcisa acharia Draco de qualquer forma. E eu já tinha dado a resposta que ela queria, se ele estava bem e vivo. Ronald, Narcisa poderia ter me entregue a Voldemort naquela floresta sem problema algum. Tudo bem, não estou falando que ela me ame. Só acredito que ela estava tão cansada da guerra como todos nós e foi inteligente suficiente para perceber que Voldemort vencer não era uma opção agradável. – Ron ficou calado por algum tempo até que se levantou da cadeira que estava, do outro lado da mesa.
- Isso nem é importante Harry. Eu vim aqui na verdade pra te entregar isso. – Então tirou do bolso da calça um envelope já um tanto amassado. O deu ao amigo.
- Que é isso? – O rapaz de óculos foi abrindo o papel amassado e se assustou quando viu o brasão do Ministério, era afinal, um documento oficial.
- Estava esperando essa situação da Hermione ter uma resolução. Bem, afinal, ela está de volta. – Ele foi dizendo a medida que Harry lia as poucas linhas do papel.
- Ronald Weasley? Que porcaria é essa? – O moreno se levantou.
- Você é meu chefe imediato e eu tinha que entregar isso a você. É a minha a carta de demissão. Vou embora Harry, eu preciso ir embora.
Aquele ano definitivamente não tinha sido normal, em nada. Suspeitava que nunca mais teria uma ano normal, então estava pensando seriamente em deixar definitivamente Hogwarts. Talvez estudar em alguma escola em outro país, talvez viajar por algum tempo. A verdade é que ela já não tinha mais certeza de nada.
Desde que voltara do Brasil, depois que deixara Draco resolver seus problemas por suas próprias pernas quis se desligar daquela historia. Tudo aquilo doía demais. Toda aquela confusão, todo aquele amor, aquele ódio, todos os diálogos nunca ditos e frases engasgadas.
O trem deslizava cada vez mais lento sinalizando sua chegada a Londres. Seu coração não queria que ela chegasse. Astória não entendia aquele pressentimento. Era a semana de recesso do natal e era bom estar em casa com a família afinal. Por que então um gosto ruim na garganta?
Tinha conseguido se concentrar nos estudos. Fazer mais amigos. Ir a festas proibidas em Hogwarts. Se alegrar. Deixar Draco no fundo do seu cérebro e coração. Ir a Londres por alguns dias e convencer a seus pais que o melhor para ela não estava em Hogwarts não poderia ser tão ruim, poderia?
A plataforma já ia se esvaziando, a fumaça tomando conta de tudo novamente, pois o trem já estava de partida mais uma vez e nem sinal de seus pais. Dafne já tinha avisado que não viria. Voltou a ficar aflita e preocupada. Onde estavam?
- Oi Astória. – Ela não quis se virar ao som daquela voz, mas percebeu rápido demais que não tinha outra opção. Apertou com força a alça de sua bagagem para tomar coragem e se voltou tentando afastar de seu rosto qualquer expressão.
- O que você está fazendo aqui? – Ele sorriu e se aproximou tirando do seu aperto sua mala.
- Vim te buscar, oras. Dafne me disse que você viria para o natal.
- Onde estão os meus pais? Eles deveriam estar aqui.
- Vou começar a achar que você não está gostando nem um pouco de me ver aqui. – Ela olhou fundo nos olhos dele, queria entender o que tudo aquilo significava.
- E não estou mesmo. – Então ele devolveu o olhar para ela um tanto surpreso.
- Sinto muito. Seus pais estão em casa te esperando. Dafne disse que te buscaria, mas trocou de lugar comigo.
- Minha irmã como sempre uma idiota!
- Você está muito amarga Astória. Vem, vamos caminhando. Está nevando horrores.
- Acho que sei o caminho da minha casa sozinha. – Ela tentou pegar a mala das mãos dele, que com muita facilidade a escondeu atrás de si.
- Você não costuma ser infantil assim Grengrass. Por favor. Tem menos idade, eu sei, mas..
- Oh.. apenas me da a mala e me deixe partir! – Ela se inclinou na tentativa de pegar a maleta, mas o rapaz muito mais rápido que ela a enlaçou pela cintura e sem perder um segundo a beijou sem cerimônia.
-As..rum.. Astória?! – Ela se empurrou com certa dificuldade dos braços do primo. Se não esperava encontra-lo na estação, menos ainda..
- Draco?! - Ela disse ofegante e ficando vermelha e olhando de um rapaz para o outro. Douglas olhava o loiro com curiosidade e certa raiva enquanto Malfoy devolvia o olhar.
- Ora, ora.. Draco Malfoy, hum.. Enfim conheço em carne e osso.
- Quem é você?!
- Draco, o que você está fazendo aqui? – Astória se jogou entre os dois. Douglas era impulsivo e temperamental, sabe-se lá o que ele poderia dizer.
- Vim na esperança de acha-la, lembrei que hoje era dia de começar o recesso de Hogwarts. – Ele parecia não conseguir terminar o que quer que fosse. A olhava um tanto assustado, ela continuava vermelha. A boca ainda marcada pelo beijo exagerado que estava dando ou recebendo, ele não soube precisar.
- E a achou, mas ela já está de saída. – Douglas mais uma vez puxou Astória pela cintura e já ia a arrastando estação afora, mas ela se desvencilhou.
- Para com todo esse show Doug. E da aqui a minha mala. – Ela arrancou com força a maleta das mãos dele. – Acho melhor você ir embora.
- Quê? Ta me mandando embora?
- Estou. A gente se vê no natal. – Astória parecia ansiosa e preocupada. Olhava de um para o outro. Douglas tinha que ir embora logo. Adorava seu primo. Sim. Não soube porque afinal foi misturar sua amizade de confidencias com os beijos irresistíveis dele, mas agora que tinha feito essa besteira não podia mais voltar atrás. E por estar tão distraída não percebeu quando ele a enlaçou mais uma vez para um beijo de despedida, que até tirou os pés dela do chão.
- Nós vemos no natal com certeza, baby, olha o que vai fazer com esse idiota. – E deu mais um selinho antes de andar lentamente ate virar e sair pela passagem que dava na parte trouxe da estação. Astória se sentia perdida.
- Acho que estou sobrando.
- Draco. Desculpe... ah.. o Douglas.. ele é muito exagerado. A gente tem que sair daqui de qualquer forma, a passagem se fecha em cinco minutos. – Malfoy não olhou mais pra ela, porém seguiu até a passagem, Astória foi logo atrás.
- Puxa, realmente está bem frio aqui. – Ela disse quando já estavam na rua andando sem rumo, com o loiro mudo ao seu lado.
- É. – Foi tudo que ele disse. Então ela parou de andar e deu um sorriso triste e deu meia volta, Draco a olhou pela primeira vez desde que saíram da 9/3 4 . – Onde você vai?
- Para casa. Estou com frio, fome e sem paciência para criancices. Não te devo satisfações. Já fiz tanto por você. Já abri mão de tantas coisas por você. Agora mesmo, ao invés de simplesmente ir com meu primo e te deixar sozinho no meio da estação. Então Draco, ou você fala o que quer comigo, ou adeus.
- Isso se chama tortura, e eu não vou participar. – Agora eles estavam devidamente quentes e alimentados em um café. Draco fizera um resumo de seu encontro e volta com Hermione para casa e o que ele queria fazer.
- Como tortura? Eu quero você do meu lado Astória. Não entende?
- Sinceramente? Não. Você querer eu conheça Elizabeth, quem eu já conheço, diga-se de passagem, é uma coisa. Não é isso. Você quer que eu vá no dia do registro. Ora Draco, a menina nem deverá estar lá. Você é quer ficar me mostrando para Hermione. Ridiculo.
- Você acha que preciso fazer ciúmes na Granger? – Ele realmente riu. Ela o olhou confusa.
- E não é?
- Claro que não. Astória, entre mim e Granger não há nada. Acabou. Vou aproveitar a nossa ida ao Ministério para o registro de Elizabeth para oficializar meu pedido de casamento a você. Já deixar tudo marcado. A não ser claro que o “Doug” possa ser um empecilho. – Astória teve que piscar algumas vezes antes de dizer qualquer coisa.
- Isso é um pedido de casamento? Você tem noção do que está falando? Fazendo? Draco?! – Ele pegou em sua mão e a beijou delicadamente.
- Claro. Você é a mulher certa para ser a minha esposa. Que sempre me apoiou em tudo. Que chama a minha atenção quando preciso. Que trás sonho e realidade. Você é a medida certa Astória para ser a senhora Draco Malfoy. Apenas lembre que eu tenho como extra, uma filha, que é linda como eu, tenho que dizer. – Os olhos dela se encheram de água e ela teve que sorrir.
- Você tem certeza desse absurdo?
- Absoluta! Só vamos esperar você ficar maior. E aí, aceita?! – Astória apenas o beijou apertando forte os olhos querendo muito acreditar naquela loucura.