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41. Capítulo 41


Fic: CIDADE DAS PEDRAS - Draco e Hermione - Concluída


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capítulo41











41. Capítulo 41


 


 


Hermione Malfoy


 


 


Encarou-se no espelho assim que terminou toda sua rotina. Sua roupa estava como devia estar, sua maquiagem, seu cabelo. Tudo estava no lugar. Se perguntava qual susto ou qual desespero teria que enfrentar aquele dia porque sentia que ela e Draco estavam tentando se equilibrar em cima de uma corda bamba ultimamente.


 


Fechou os olhos e respirou fundo. Precisava acreditar que tudo ficaria bem. Soltou o ar. Precisava acreditar que tudo ocorreria exatamente como planejavam que ocorresse. Abriu os olhos. Respirou fundo mais uma vez e soltou o ar. Mais um dia. Exibiu seu sorriso amarelo, aquele que mostrava que na verdade estava morta por dentro. Seria aquele sorriso que usaria para qualquer pessoa que aparecesse em seu caminho.


 


Deu as costas para o espelho e deixou o closet. A cama estava vazia e presumiu que Draco tivesse ido para o quarto dos filhos ou para o chuveiro. Eles pouco haviam trocado palavras na noite anterior, estavam exaustos, mal tinham tempo para eles e a tensão dos últimos meses só matava ainda mais a ânsia de darem a eles tempo para se sentirem, se aproveitarem, mergulharem na tão recente entrega que haviam feito um ao outro. Viviam uma vida muito prática, um calendário muito apertado, uma agenda muito restrita. Não tinham tempo para pequenas surpresas, ou para o espontâneo.


 


Foi até o banheiro e ele estava enrolado em sua toalha de frente ao espelho usando a lamina para se livrar da barba que deixara de fazer na manhã anterior. Ela o observou por alguns segundos deixando-se aproveitar do efeito que ele causava em seu estômago. Eles não tinham mais tempo um para o outro, mas podia dizer que Draco nunca havia conquistado seu coração tanto quanto nos últimos meses. A forma como ele falava baixinho com os filhos quando estava tentando fazê-los dormir. O modo como sorria ou gargalhava quando brincava com eles. Ou como parecia absolutamente orgulhoso quando os via descobrir algo simples, mas novo. O cuidado que ele tinha com eles. Com ela e com eles. Com a família que tinham. Aquilo lhe aquecia o coração, a alimentava confiança, lhe fazia crescer raízes.


 


Foi até ele, abriu um sorriso quando percebeu que ele a avistou pelo espelho, desceu as mãos por suas costas expostas, estalou um beijo calmo em seu ombro, passou os braços por seu tronco e o abraçou por trás. Inalou seu cheiro e deixou que aquilo a confortasse. Será que algum dia, antes de toda aquela loucura, ela imaginaria que o cheiro de Draco fosse confortá-la? Talvez ela nunca fosse se acostumar que se pertenciam agora.


 


Deu seu bom dia ali e ele murmurou algo em resposta que ela não conseguiu entender muito bem tentando se manter imóvel enquanto passava a lamina pelo pescoço. Ela o assistiu terminar todo o serviço, o que não demorou mais do que alguns segundo, estalou outro beijo mais rápido em seu ombro em sinal de despedida e deu as costas. Ele não deu mais de quatro ou cinco passos quando ele a parou pelo pulso, a fez se virar e estalou um beijo rápido em sua boca, lhe deu bom dia, elogiou-a e seguiu para o closet.


 


Ela ficou imóvel por alguns segundos quando por algum motivo seu cérebro a fez refletir que aquele seria o máximo de contato que teriam naquele dia. De repente ela percebeu que aquilo era errado. Ela queria mais dele e como não havia prestado atenção nisso antes? Certo que a vida deles era muito programática mas isso não justificava a ausência que estavam tendo um para com o outro. Como não havia se incomodado com isso antes? Na verdade, ela sabia que havia.


 


Fez o caminho de volta e parou assim que alcançou a porta do quarto. Por que ela não iria se manifestar a respeito de sua insatisfação? Sabia que no meio de tudo que viviam, exigir atenção para a relação deles poderia soar fútil demais, mas sabia que a relação que tinham ainda era frágil, negligenciá-la poderia criar algum efeito avalanche que ela realmente gostaria de evitar. Deu meia volta e foi até o closet.


 


-       Hey. – disse calmamente encostando-se no vão de entrada do closet.


 


-       Hey. – ele pareceu surpreso por vê-la quando a olhou por cima dos ombros enquanto fechava o cinto da calça.


 


-       Acaso percebeu que não temos mais tempo um para o outro? – ela jogou descompromissada.


 


Ele vestiu a camisa.


 


-       O que quer dizer? – jogou um rápido olhar para ela. – Dormimos juntos, acordamos juntos, comemos juntos, trabalhamos juntos.


 


-       Não, Draco. Quero dizer sobre dar atenção. Não damos atenção um para o outro.


 


Ele a olhou pelo espelho confuso enquanto fechava os botões um por um. Por alguns segundos ela percebeu a cabeça dele trabalhar em silêncio.


 


-       Te dou mais atenção do que já dei para qualquer outra pessoa, Hermione. – ele disse e aquela foi a maneira de informar a ela que não sabia qual era o ponto daquela conversa ou onde ela queria chegar. – Você sabe que não saí da minha cabeça.


 


Ela soltou o ar tentando ser paciente. As vezes era difícil conversar sobre relacionamento com Draco, ele parecia ser de outro mundo.


 


-       Eu sei. – suspirou. – Só não quero que nos foquemos tanto em passar por isso tudo sem perdermos nossas cabeças que sem querer nos deixemos de lado.


 


Ele franziu o cenho parecendo confuso.


 


-       Certo. – concordou.


 


Hermione pensou que ele tentaria discutir aquilo, mas pareceu engolir e passar por cima da curiosidade, das dúvidas e de toda a confusão que aquilo lhe causara quando puxou a gravata e se focou em fazer o nó perfeito de todos os dias. Ela se irritou por alguns segundos, mas também resolveu engolir e deu as costas seguindo para o quarto dos filhos.


 


Talvez ela precisasse aprender a lidar com Draco. Talvez ela precisasse aceitar que seria completamente diferente e que isso não significava que ela deveria se preocupar. Ele não era Rony ou Harry demandando atenção constantemente. Talvez ela precisasse apenas entender o lado dele. Entender que aquilo era novo, que ele estava tentando decifrar aquilo da melhor forma possível e que não estavam vivendo um momento muito próprio para que tudo aquilo acontecesse de forma natural. Ela não precisava se preocupar, não precisava que fosse mais um problema. Já tinha outros muito mais sérios para se dedicar.


 


Hera e Scorpius brincavam no tapete do quarto quando ela chegou. Tryn tentava servir de algum entretenimento e a elfa parecia se divertir com o fato de que eles a achavam engraçadíssima. Hermione não conseguia evitar sorrir toda vez que via os filhos. Principalmente quando eles gritavam de alegria ao vê-la. Ela se transformava. Adorava cuidar deles. Havia algo estranhamente recompensador que a enchia de alegria toda vez que se via cumprir o papel de mãe.


 


Vestiu-os com amor como fazia todos os dias. Sem pressa, aproveitando-os e sendo paciente, gravando em sua memória cada sorriso, cada som novo, cada nova reação. Ela era absolutamente apaixonada por eles. Os olhinhos cinzas e cheios de vida. Os fios frágeis e loiros do pouco cabelo que tinham. As covinhas de quando sorriam. Os dentinhos que nasciam. O cheiro. O jeito quieto e suspeito de Scorpius e a curiosidade infindável de Hera. As pessoas diziam que eram tão parecidos, mas ela os enxergava tão diferentes. Sempre acreditou que haviam várias formas de se amar, mas nunca havia imaginado que pudesse ser capaz de amar de tantas formas diferentes.


 


Eles eram parte dela e a enxia de orgulho a medida que cresciam. E como cresciam! E como o tempo passava tão rápido! Hera já conseguia se equilibrar em pé sem segurar em nada e Scorpius sabia mais palavras monossilábicas do que qualquer outro bebê de onze meses. Hermione pensava sempre no que podia fazer de melhor para eles. Se dedicava a montar uma tabela de horários, uma agenda bem restrita para os dois, os estimulava ao máximo e estudava sempre maneiras de ser a melhor mãe que podia ser. Draco tinha a sua própria maneira de lidar com os filhos. Ele nunca havia a criticado, pelo contrário, gostava que tivessem uma rotina muito apertada e que ela sempre exigisse o máximo de Scorpius e Hera, mas ele tentava lembra-la constantemente de que eles não eram robôs e que tudo ficaria bem se não conseguissem aprender matemática básica antes de completarem um ano ou decifrarem uma sequência de runas. Draco incentivava muito mais a independência deles e para Hermione, era evidente que ele cobrava muito mais de Scorpius do que de Hera. Já haviam tido discussões severas sobre isso, mas ele não parecia querer abrir mão de que Scorpius tinha muito mais responsabilidades para com o nome Malfoy do que Hera. Isso a irritava as vezes, mas como uma Malfoy, também não podia ignorar o fato de que Scorpius era realmente quem levaria o nome da família para a próxima geração.


 


Draco apareceu não muito tempo depois. Hera foi a primeira a engatinhar até ele. Por algum motivo ela tinha uma fascinação maior por Draco e isso não o incomodava nem um pouco, pelo contrário. O sorriso que ele abria ao ver os filhos derretia Hermione por completo. Ele era alguém que ela desconhecia totalmente. No entanto esse alguém era muito mais fácil de se amar, de se apegar, de se apaixonar. Ele era tão humano com os filhos, tão vulnerável e tão acolhedor, mesmo que conversasse com eles na maioria das vezes como adultos, mesmo que não mudasse a voz para se dirigir a eles, como ela, mesmo que pudesse parecer frio para algumas pessoas. Hermione se perguntava muitas vezes se aquele era o Draco genuinamente feliz. Porque ela sempre soubera que Draco não era feliz, mas não conseguia se lembrar da última vez que vira uma vida opaca no brilho dos olhos dele.


 


Ele levou Hera e Scorpius para seguir o resto da rotina. Ela desceu com Tryn para a cozinha onde revisou todo o cardápio do dia, escolheu as louças a serem usadas e como gostaria que a mesa fosse arrumada. Assim que terminou com todos os seus deveres de Sra. Malfoy, voltou para a sala de jantar. Draco já estava sentado em sua cadeira, entretido com o Diário do imperador nas mãos enquanto a esperava para tomar seu desjejum. Tryn terminava de fechar o babador de Scorpius enquanto Hera lhe puxava as orelhas pontudas. Eles estavam sentados em suas respectivas cadeiras altas e Scorpius, assim que viu Hermione, estendeu os bracinhos e começou a reclamar em sinal de que queria ser segurado. Foi quando Hermione sorriu. Ela não conseguia não sorrir. Apesar de todo o caos que vivia, não estava morta por dentro. Tinha apenas que mostrar que estava morta por dentro porque o mundo precisava saber que ela sofria, mas a verdade era que estava cheia e viva. Ela tinha Draco e tinha os filhos e por mais que fosse conturbado a própria relação deles, era o que ela tinha e de uma forma muito bonita e estranha, era especial.


 


Disse de modo muito disciplinar mas também amorosamente a Scorpius que era hora do café da manhã e sentou-se em sua cadeira. Draco dobrou o jornal, colocou-o ao seu lado e começou a se servir sem muito ritual.


 


-       Desculpe te fazer esperar. – ela comentou. – É o melhor tempo que tenho para resolver tudo da casa quando vou a Catedral.


 


-       Não se preocupe. – ele retrucou sem deixar de dar atenção a sua comida.


 


 Inspecionou com um olhar exigente enquanto Tryn colocava nas bandejas de Scorpius e Hera o que ela já separara para o café da manhã deles. Ela se serviu do seu somente quando viu as mãozinhas dos dois segurarem o pedaço de fruta e enfiarem na boca. Estavam famintos. Sempre estavam famintos. Sorriu e concentrou-se em sua comida. Puxou o jornal que Draco deixara de lado e avaliou a primeira grande imagem que chamava atenção. Uma multidão ainda montava acampamento na frente da Catedral. Ela não entendia como Voldemort ainda estava sendo complacente com aquilo. Muitos queriam justificativas e protestavam com a declaração pública e recente do mestre de que tomaria Scorpius Malfoy como propriedade assim que completasse um ano. O acordo era antigo e o herdeiro Malfoy era direito dele.


 


O povo não ficou feliz, para o alívio de Draco e Hermione. Montavam acampamento na porta da Catedral desde então. O extremismo daquela reação era perigoso e mais povo se sentia atraído a fazê-lo ao ver que Voldemort estava sendo complacente. Ninguém estava sendo punido, ninguém estava sendo expulso, ninguém estava sofrendo. Isso os assustava. Desde que Voldemort encontrara uma forma poder usar o sangue do filho sem criar qualquer tipo de conexão entre eles voltara a aparecer ao público com frequência, entretanto havia se recolhido desde sua declaração e não punira ninguém por mostrarem descontentamento a ela. Hermione estava preocupada com aquilo. Draco também estava, mas também lidava com outro conflito. Ele não conseguia medir o tamanho do boca-a-boca que estava acontecendo dentro de seu departamento porque tinha que fingir que estava alheio ao que comentavam ao seu respeito. Não fazia muito tempo que ele descobrira que alguns de seus soldados da zona sete haviam descoberto sobre a mudança do arco do véu das mãos de Harry Potter para sua casa na região do Vale do Bosque. Claro que isso da boca de seus soldados era traição demais para que se pudesse ser levado a sério. O fato de Draco Malfoy estar escondendo e protegendo Harry Potter das mãos de Voldemort era tão absurdo que poderia ser facilmente tomado como uma piada. Mas para o grupo fechado que sabia da verdadeira ligação de Draco agora, era um perigo eminente, um perigo que ele preferia confiar em acreditar que a fidelidade que lutara para criar todos esses anos falaria mais alto agora que precisava dela.


 


-       Alguma notícia de seu departamento? – ela perguntou. Draco sabia que o que ela queria com aquela pergunta era saber se alguém havia o encurralado a respeito do véu. A respeito de sua ligação com Harry. Se é que ela realmente existia.


 


-       Boatos, Hermione. – ele respondeu colocando mais chá preto em sua xícara. – É tudo que eu tenho. – tomou um gole. - Boatos.


 


Ela endireitou-se em sua cadeira. Ele não se mostrava abalado, mas ela sabia que ele estava. Quando a abraçava de noite antes de dormirem, ele sussurrava baixo que não sabia como conseguia dormir. A verdade é que não dormia na maioria das vezes. Nem ela. A vida dos filhos e a deles estavam em jogo. Ela não conseguia dormir direito. Ele não conseguia dormir direito. Convenciam a se mesmos que enquanto estivessem juntos seriam fortes, mas com tudo em jogo, chegavam a duvidar até mesmo disso.


 


-       Não me disse como se sente com relação a hoje. – ela soltou o que queria ter comentado no dia anterior.


 


-       Hoje vai ser só mais um dia, Hermione.


 


-       Voldemort exigiu que desse uma declaração ao povo que esta se acumulando na porta da Catedral hoje. Não é só mais um dia, Draco.


 


-       Não quero falar sobre isso.


 


-       Temos que falar sobre tudo.


 


-       Não precisamos conversar exatamente sobre tudo, Hermione. – ele lançou a ela um olhar muito rápido, mas por tempo o suficiente para que ela soubesse que não deveria insistir. – Já providenciei tudo que deveria ser providenciado de acordo com o plano que temos seguido desde sempre.


 


Hermione respirou fundo. Ela não gostava de sentir aquilo. Aquilo que vinha sentindo recentemente com relação a ele. Aquela sensação de que ele parecia estar se privando dela muito sutilmente.


 


Scorpius pegou um morango muito animadamente e o levantou acima da cabeça soltando uma exclamação em sua própria língua para chamar atenção.


 


-       Estão bons, não estão? – Hermione sorriu para o filho tentando de distrair de Draco.


 


-       Deveria comê-los, Scorpius. – Draco foi direto. Scorpius sorriu para o pai mostrando os poucos dentinhos que havia na boca e comeu o morango. Draco sorriu. – Esperto. – Hermione sorriu. Suspirou. Não deveria se preocupar. Aquela era sua família, deveria confiar nela.


 


A paz durou por apenas alguns minutos. Hera logo começou a reclamar da seleção de frutas em sua bandeja. Scorpius começou a tentar roubar as frutas de Hera e logo eles começaram a irritar um ao outro, reclamar e eventualmente chorar. Draco e Hermione trocaram olhares cansados logo no café da manhã quando tiveram que lidar com aquilo. Precisavam insistir a acostumá-los a se comportar na mesa. Não que não conseguissem comer por si mesmos, Hermione havia feito questão de ensiná-los a se alimentarem sozinhos, algo que agradava muito a Draco já que não precisavam de ninguém colocando comidinha amassada em suas bocas. Mas ele havia insistido que já pudessem fazer parte da mesa.


 


Os dois acabaram tento que sentar cada um de frente para uma criança e terminar o café da manhã supervisionando-os. O que Hermione achava muito mais divertido do que cada um em seu lugar, como se fossem robôs, tomando café da manhã no grande estilo Malfoy, mesmo que Draco insistisse para acostumar Hera e Scorpius. Mas ela gostava não só porque era um time com Draco toda vez que precisavam lidar com os filhos e gostava de viver momentos como aquele, mas também porque podia o ver Draco interagir com os filhos e momentos como aquele fazia com que seu coração se derretesse por ele. Havia algo na paciência que ele tinha, no tom de voz calmo e sério que usava para ensiná-los, ou nas pequenas gargalhadas que dava principalmente quando eles começavam a tentar conversar. Era como se apaixonar por ele de uma outra forma completamente diferente, era como conquista-la de uma forma indireta e completamente nova. As vezes, o tempo que ele dedicava para estar com ela e com os filhos, no meio de todo o conflito que viviam, ganhava mais o coração dela do que quando ele apenas lhe dava um beijo simples ou um presente sutil e carinhoso. Ela conseguia lê-lo quando ele estava com os filhos. Conseguia definitivamente ver através de todas as máscaras que ele tinha. Conseguia ver que Draco Malfoy sempre tivera um coração puro, ele nunca tivera a oportunidade de deixar que fosse genuíno porque o mundo ao qual pertencia o ensinara a maquiá-lo de várias formas


 


O que a frustrava era que agora que tinha muito mais confiança nele, sentia-se muito mais livre para firmar raízes com ele, sentia-se muito mais aberta para se entregar e era irritante ter a sensação de que ele se afastava. Não sabia se estava sentindo isso porque se via se entregar muito mais agora e seu subconsciente automaticamente exigia algo recíproco de alguém que pouco sabia se expressar sentimentalmente ou se realmente ele se entregara mais antes e estava recuando agora. Ela não conseguia distinguir e também não queria mergulhar naquilo porque já estavam afundados em drama o suficiente para querer cavar mais aquele buraco.


 


Narcisa chegou não muito tempo depois. Vê-la sempre a fazia lembrar de que Draco ainda não mencionara nada sobre a “conversa” que ele e Narcisa supostamente tiveram sobre ela. Aquilo a corroía por dentro sempre que vinha a sua mente. Céus! Era um péssimo momento para carregar mais aquele peso! Na verdade, era um péssimo momento para tentar saber se aquilo era realmente um peso a ser carregado ou não. Tudo que podia fazer por si mesma agora era tentar acreditar que estava alimentando uma paranoia sem real motivo. Narcisa era a pessoa em quem ela mais confiava para deixar os filhos. Ela tinha seu jeito único e especial de ser avó. Hermione não sabia se era porque Lúcio não estava por perto ou ela havia perdido um pouco da influência, mas agora se sentia mais livre para ser espontânea, amorosa e carinhosa. Ela se dedicava a Scorpius e Hera como se fossem seus filhos.


 


Seguiu para a Catedral logo em seguida. Seu coração doía todas as vezes que tinha que deixar os filhos em casa. Precisava lutar para não perdê-los e por isso mal tinha tempo para realmente ficar com eles. Scorpius era extremamente apegada a ela. Hera tinha personalidade mais aventureira e independente. Mas ainda assim os dois choravam e balbuciavam ‘ma ma ma ma’ sem parar toda vez que ela se despedia para passar o dia longe deles. Draco sabia que aquilo lhe cortava o coração e repetia inúmeras vezes que eles ficariam bem, que estavam bem, que isso era bom para eles, que precisavam ser independentes. Coisas que Hermione não necessariamente concordava, mas se sentia na obrigação de dar espaço para as coisas que ele acreditava também.


 


Deixar o conforto de casa, os filhos e tomar o caminho para a Catedral sempre a fazia colocar os pés no chão para a realidade que viviam, para a angustia constante que passavam, para a enorme aflição de não saber o que poderia acontecer daqui a cinco minutos. Era como se lembrar de que estavam encurralados porque quando estava em casa, com os filhos, com Draco, era mais fácil se distrair.


 


A viagem foi silenciosa. Draco estava silencioso fazia muitos dias. Na verdade, estava muito mais silencioso agora que era obrigado ser ignorante ao real estado de seu departamento com todos os rumores que percorriam o quartel do exército de Voldemort. Ele se dizia confiante da fidelidade de seus homens, principalmente das ultimas zonas. Mas parecia não estar querendo colocar a mão no fogo por eles. Estava silencioso também porque tinha que discursar para o aglomerado de protestos na porta da Catedral hoje e porque não era chamado para o gabinete de Voldemort fazia um bom tempo.


 


-       Não gosto do seu silêncio. – ela abriu a boca mais uma vez e esperou que aquilo não fosse trazer nenhum conflito. Ela nunca conseguia prever as reações de Draco num momento tão instável quanto aquele.


 


Ele tirou os olhos do discurso que tinha nas mãos e a encarou.


 


-       Estou tentando memorizar um discurso. – ele disse tentando lê-la.


 


-       Não estou falando de agora. – fez sua voz soar o mais suave possível. – Não consigo me lembrar da último vez que realmente conversamos. Uma conversa verdadeira.


 


Ela abaixou os papéis que tinha nas mãos.


 


-       Uma conversa verdadeira? – ainda parecia tentar lê-la.


 


-       Você tem vindo até mim contar aquilo que tem acontecido como se sua intenção fosse apenas me atualizar de fatos. Não escuto sobre seus planos faz tempo. Não escuto sobre suas expectativas. Não escuto sobre seus medos.


 


-       Não pensei que fosse necessário ser dito que temo pela minha vida, pela sua, pela dos nossos filhos, pelo legado do sobrenome pelo qual sou responsável agora.


 


Hermione suspirou. Precisou suspirar. Ele não entendia. Era como se estivessem conversando em línguas diferentes.


 


-       As vezes me pergunto quando vou sentir que estamos vivendo ambos na mesma página. – comentou.


 


Ele uniu as sobrancelhas num misto de frustração e raiva.


 


-       Já não é o suficiente tudo que está acontecendo, Hermione? Não tente fazer com que as coisas fiquem estranhas entre nós agora. – ele soltou como se já estivesse guardando aquilo fazia um tempo


 


A carruagem parou no mesmo minuto em que ela cerrou os olhos ao escutar aquilo. Ela quis retrucar imediatamente, mas ele não esperou que a porta fosse aberta, abriu-a ele mesmo e pulou para fora da cabine. Ela o seguiu. No momento em que desceu, sua cabeça rodou com milhares de pensamentos sobre o relacionamento deles. Céus! Não é possível que ele estivesse pensando que as coisas estavam bem entre eles quando ela claramente vinha se questionando isso fazia dias. Merlin! Quando ela aprenderia a decifrar Draco Malfoy? Por que ele tinha que ser tão infernalmente único?! Quando ela pensava que conseguia ler através do silencio dele, de sua expressão completamente inexpressiva e de seus olhos concentrados e vazios, ele a lembrava que talvez ela nunca fosse conhecê-lo por inteiro.


 


Cruzaram do portão privado até a frente da Catedral. Tudo já estava armado para o discurso dele. Voldemort havia ordenado que fosse sua primeira atividade do dia. Nada podia vir antes, nem mesmo um café no jardim interno, nem mesmo seu discurso com o exército, que na verdade era sua primeira atividade oficial do dia na Catedral todos os dias.


 


Toda a mídia já estava empilhada do lado de fora. Os protestantes estavam organizados de frente ao pequeno palanque usado para proferir pronunciamentos oficiais da Catedral a mídia. Tudo estava bem armado, e não era como se os protestantes ficassem o dia inteiro gritando aleatoriamente algum hino combinado. Eles apenas permaneciam boa parte do dia no pátio da Catedral discutindo com membros do círculo interno um modo de conseguir uma justificativa para o ato contra os Malfoy.


 


Draco subiu confiantes no pequeno palanque. Hermione o seguiu e ficou a sua direita alguns passos atrás. Encarou os rostos daquelas pessoas que a tempo esperavam por um comentário direto de um Malfoy que fosse. Elas esperavam por uma revolução. Esperavam por confusão. Esperavam para ter a certeza de que o braço direito daquela Império, o braço que tanto havia se sacrificado para dar a Voldemort a segurança do trono em que se sentava, estava sendo injustiçado. E só pelo ato de estarem ali, questionando um ato de injustiça, numa ditadura que já havia trazido injustamente tanta destruição e que já cortara a liberdade de expressão de muitos, assustava Hermione. Assustava porque se eles haviam ido tão longe, passando por cima de tanta repressão, para estarem ali, qualquer discurso que Draco proferisse seria interpretado como algo que Voldemort o mandara dizer. Draco sabia bem disso e estava usando a seu favor, mas isso significava que as coisas só piorariam para o lado deles aos olhos de Voldemort e por mais que precisassem chegar nesse ponto, por mais que fosse necessário e que tivessem trabalho para isso, seu coração acelerava, suas mãos suavam e ela se contorcia de pavor ao pensar que só faltava um mês e poucas semanas para que Scorpius e Hera completassem um ano.


 


Ela poderia estar feliz, poderia estar planejando uma imensa festa, poderia estar sendo a mãe orgulhosa que tinha prazer em mostrar o quanto os filhos eram perfeitos para cada alma do planeta terra, mas ao contrário disso, ela os mantinha o mais longe possível dos olhos de todos. Exceto quando precisava usar da mídia, como haviam feito pouco mais de um mês atrás quando abriram a casa para uma sessão de fotos, fotos que rodaram por Brampton Fort e todos os outros fortes por semanas. A perfeita família, de gêmeos raros e incrivelmente fofos foi divulgada para o mundo. Seus rostos rodaram por revistas e jornais por semanas. Era impossível de não serem adorados. Naquelas imagens não eram Draco, o herdeiro Malfoy que agora sentava no trono da família, Hermione, a fada humana descendente de Morgana, Scorpius e Hera os novos filhos da linhagem mais pura de Merlin que havia sobrevivido pelos séculos. Naquela imagem Draco era um pai, Hermione uma mãe, Scorpius e Hera os frutos do amor que os uniam. Naquela imagem eles eram uma família como qualquer outra. Uma família que se sacrificara e fora leal a um mestre por anos, e que agora estava a ponto de ser destruída pela ambição que esse mesmo mestre tinha pelos pequenos herdeiros dessa família. Essa era a imagem perfeita. A imagem que venderam. E por mais que ela não queria que os rostos de seus filhos fossem vendidos daquela forma, ela agora via o resultado logo a sua frente.


 


-       Abro esse pronunciamento em nome da Catedral, do Círculo Interno, dos Fortes de cada continente e especialmente do forte de Brampton Fort. - Começou Draco. – Torno essa declaração um documento oficial da Catedral liberado ao público para fim informativo e explicativo. – ele endereçou o protocolo. – Falo a todos como Comensal da Morte, general do exército, servo leal do império e dor imperador. Falo como herdeiro Malfoy e como o pai de duas lindas crianças que crescem mais rápido do que eu realmente gostaria que crescessem. – o tom dele era frio, imutável e neutro. Ele estava sendo o homem que o mundo sabia que ele era, mas também estava jogando indiretamente o charme da fragilidade de sua humanidade. Aquelas pessoas podiam ver que as palavras que estava prestes a proferir eram nada mais nada menos do que o que Voldemort o obrigara a dizer para acabar com toda aquela confusão. Draco precisava ser convincente de suas palavras, mas não podia deixar que todo aquele movimento morresse e precisava que aquele discurso desse, na verdade, mais força a ele. – Seria imprudência da minha parte se não fosse honesto sobre o quanto me enche de gratificação o suporte que tenho visto através dessa busca por respostas desde a declaração do mestre referente aos meus filhos, Scorpius e Hera. Antes de tudo também é necessário deixar claro e lembrar a todos de que não vivemos em uma democracia e que a partir desse meu pronunciamento, quem ousar levantar qualquer palavra de questionamento será caçado como um rebelde. – ele certamente não deixaria aquilo para o final porque até lá, todos já vão ter esquecido desse tão simplório detalhe. – Sou leal a esse império, ao mestre das trevas, Lord Voldemort. Meus planos e os da família Malfoy estão voltados a contribuir o máximo com seu governo, não só porque temos uma profunda aliança desde o início de tudo, mas porque concordamos com a política apresentada por ele. Qualquer ordem do Lord das Trevas é prioridade para os Malfoy. – ele fechou a pasta onde estava escrito as palavras que acabara de proferir evidenciando que nada daquilo vinha de seu coração, eram só palavras em um papel.


 


-       Isso significa que realmente vai dar seus filhos ao mestre? – uma voz gritou rebeldemente do fundo do aglomerado. Os guardas da Catedral encontraram o individuo em segundos e já estavam prontos para levá-lo quando Draco proferiu a ordem para que o homem fosse deixado em paz.


 


Draco voltou para sua posição de antes, tomou ar como se fosse responder a pergunta do homem mas hesitou. Tornou a fechar a boca. Esperou apenas um segundo e repetiu a última linha de sua declaração:


 


-       Qualquer ordem do Lord das Trevas é prioridade para os Malfoy.


 


Deu as costas e desceu do palanque. Hermione o seguiu em meio a uma chuva de perguntas que ela não conseguia distinguir. Assim que voltaram para dentro da Catedral seu estômago revirou ao ver Voldemort de pé os esperando. Ele estava em sua forma humana e não havia como negar que por mais que se parecesse tão normal, não deixava de ser menos intimidador. Ele voltara a usar seu disfarce de Tom Riddle quando havia encontrado uma forma de usar o sangue de Scorpius sem criar qualquer tipo de ligação. Sabia que quem estava trabalhando por trás de tudo isso era Severo Snape e ele estava tendo ajuda da Comissão. Hermione odiava vê-lo naquela forma. Tudo que conseguia pensar quando o via vestido de Tom Riddle, era que aquilo era possível só por causa do sangue de seu filho.


 


Draco seguiu seu caminho até ele sem vacilar, estendeu a pasta com seu discurso e Voldemort a pegou. Ele fez uma pequena reverência e só continuou seu caminho quando Voldemort fez um simples sinal de que ele poderia continuar. Ter Voldemort ali a fazia temer sobre o quanto ele estava se envolvendo com todo aquele assunto e o quanto ele estava preocupado em conter todo o alvoroço muito diplomaticamente. Esse não era a política de Voldemort. Ele sempre calava a boca de quem questionasse suas vontades, mas agora que tentava ser um governante aceito pelos seus reprimidos, dar espaço para justificativas e esclarecimentos parecia estar na sua pauta de opções.


 


Hermione foi direcionada para uma das salas de visitas onde uma equipe do Diário do Imperador a esperava. Draco seguiu seu caminho para cumprir seus deveres de general. Eles apenas trocaram um longo olhar ao se separarem. Ela se sentiu imediatamente mais vulnerável ao ficar longe dele, mas seguiu seu caminho para cumprir sua agenda. Apesar de ficarem longe, não deixavam de ser um time em busca de um objetivo. Ela precisava fazer sua parte.


 


A jornalista de sempre a esperava com seu usual humor simpático. De alguma maneira ela se mostrava bastante sentida pelos acontecimentos envolvendo sua família e durante toda a conversa que tiveram, ela arriscou sair do protocolo combinado mais de três vezes, o que certamente mencionaria em algum de seus artigos depois que aquela entrevista saísse. Hermione sabia que ela publicava sobre sua vida aventureira na Catedral já que tinha bastante acesso a ela, nem todos da mídia tinham a liberdade que ela tinha. Hermione se esforçou para ficar dentro do combinado da entrevista. Não podia sair do script e isso precisava ficar bem evidente. O mundo precisava sentir sobre o quanto Voldemort podavam suas asas.


 


Quando finalmente terminou seu tempo com a mídia depois do discurso de Draco sua agenda dizia para seguir até o andar da Comissão. Entretanto, assim que saiu dos olhos do público e da área mais movimentada da Catedral, parou e viu que tinha vinte minutos no relógio. Deu meia volta, tomou o rumo da ala oposta e seguiu até Whitehall.


 


Toda vez que se aproximava daquela área da Catedral suas pernas enfraqueciam. As memórias, a angústia e as perguntas que a acompanharam naqueles primeiros meses em Brampton Fort vinham a tona e ela se lembrava de quanta negatividade carregara aquela época. Passava por momentos tão piores agora, mas agora tinha Draco, tinha seus filhos, tinha o seu pequeno lar onde buscava e encontrava refúgio.


 


Não era a primeira vez que ia até Whitehall, mas também não era mais uma de muitas. Os homens que guardavam sua porta já não se importavam mais em interroga-la. Assim que entrou no quarto ela buscou por Gina na cama, porém ela não estava lá. Seus olhos caíram logo para a mulher largada sob o pé da cama. Ela estava mais apresentável do que da última vez que Hermione estivera ali. Draco deixava a porta dela acessível a qualquer um dos Comensais do círculo de Voldemort a mando dele. Inclusive Voldemort prestava visitas a ela e Hermione sabia que ele provavelmente se aproveitava dela. Gina era uma mulher bonita. Pelo menos costumava ser. Ela já estava meses naquele estado e estava claramente definhando.


 


Hermione aproximou-se carregando sua máscara mais neutra e mais indestrutível, parou, uniu os pés, juntou as mãos e manteve sua postura impecável diante dela. A voz de fundo era a de Draco. Ele fazia o fim de seu discurso diário com o exército no pátio da ala leste, o pátio que dava vista a Whitehall.


 


-       Eu o escuto todas as manhãs. – Gina começou numa voz rouca, sem encarar Hermione. – Ele tem uma voz forte.


 


-       Ele cumpre o papel de general que tem. – Hermione respondeu. Agradecia por não ser mais obrigada a ter que assistir as torturas diárias de Gina Weasley, mas sabia que elas não haviam parado. Sabia bem que ela só ocupada Whitehall para que os Comensais de Voldemort com interesse pudessem usá-la na cama ao invés do chão de terra frio de uma cela no subsolo da Catedral.


 


-       O fato de estar com ele só prova o quanto estou certa sobre você. – ela não gostava das visitas de Hermione e isso era bastante evidente. – Nenhuma boa alma poderia gostar de nada de Draco Malfoy que não seja a aparência. Ele se tornou alguém muito pior do que pensei que poderia se tornar.


 


-       Conhece apenas um lado de Draco Malfoy. – e Hermione sabia que era o lado torturador, o lado cruel, o lado Comensal, o lado general, porque esse era o papel que ele deveria cumprir com Gina Weasley e se havia algo que Draco era, era profissional. – Mas mesmo se ele realmente for ou não o pior dos monstros, tudo o que precisa saber é que ele é meu marido, minha família, o pai dos meus filhos. Não interessa que tipo de relação tenho com ele e não interessa o que isso diz respeito sobre mim ou não. Ninguém tem o poder de me definir.


 


Gina soltou um riso fraco pelo nariz, tossiu e tremeu. Ergueu os olhos para Hermione com um terrível desgosto estampado em seu rosto e cuspiu:


 


-       Faça logo o que veio fazer, Hermione. Seja o monstro que eu sei que é.


 


Hermione sentia seu coração apertar e sua garganta fechar sempre que era atacada pelas palavras de Gina.


 


-       Não precisa ser difícil se você decidir ajudar, Gina.


 


-       Eu não ajudo Comensais. Você tem o sangue ruim, Hermione. Tão ruim que vai dar os próprios filhos a Voldemort!


 


Hermione mordeu os dentes com força.


 


-       Não abra a boca para dizer sobre o que não sabe. Tudo o que sabe é o que consegue tirar daqueles que vem lhe fazer companhia! Um jornal aqui outro ali! Os discursos de Draco. Você não tem informação o suficiente para me julgar.


 


-       Vai mesmo dar os próprios filhos? Seus próprios filhos? Eu sempre soube que havia algo obscuro demais no seu espírito, Hermione!


 


NÃO! Era tudo que Hermione queria gritar quando ela insistia sobre a pergunta dos filhos. Era claro que ela jamais entregaria seus filhos! Mas Gina havia guardado rancor durante tempo demais para se convencer de que Hermione tinha potencial para ser a pior criatura a pisar na terra. Não podia se deixar ser atacada por ela. Tinha um objetivo ali e não era convencer Gina de que haviam coisas que ela jamais conseguiria entender. Primeiro porque não podia sair abrindo a boca dizendo a qualquer um, principalmente prisioneiros, que jamais entregaria seus filhos a Voldemort. Segundo porque tinha um objetivo e precisava ser eficiente a respeito dele. Precisava do cérebro de Gina e não podia deixar que ela fosse uma distração.


 


Engoliu a Hermione que ainda queria se justificar, porque sabia que essa Hermione jamais morreria, por mais que já tivesse perdido tanta expressão. Aproximou-se de Gina e notou que ela estava atada ao pé da cama. Ótimo. Um trabalho a menos. Abaixou-se odiou por ter que estar tão perto dela, mas precisava da energia. Gina desviou o olhar imediatamente.


 


Hermione não hesitou. Havia feito aquilo mais de uma vez. Precisava ir mais longe e mais fundo dessa vez e isso doeria em Gina, e doeria muito porque ela lutaria com força. Gina era difícil. Ela era forte. Na Ordem, quando faziam treinamentos para resistência a veritasserum e crucio, ela sempre se sabia bem. Os meses que ela passara em Brampton Fort só provava isso ainda mais. Ela era usada e abusada diariamente, enfrentara meses de tortura diária e mesmo assim ela ainda continuava forte. Hermione poderia ter feito o mesmo, mas não sabia se ainda seguraria aquele nível de sanidade.


 


Quando penetrou a mente de Gina, quebrando todas camadas de proteção que ela ainda insistia em manter, mesmo sabendo que Hermione podia facilmente vencê-las, as duas começaram a batalha de sempre. Gina tentava puxar Hermione para direções diferentes em suas memórias enquanto Hermione tentava não ser levada pela estratégia dela. Precisava vasculhar os lugares certos e na verdade, não era como se fosse realmente difícil. A vida de Gina foi resumida a Ordem da Fênix durante muito tempo e era dessas memórias que Hermione precisava, mas precisava daquelas em que ela não fazia parte. Precisava das memórias de quando Hermione já não fazia mais parte da Ordem.


 


E eram essas memórias que não abandonavam sua cabeça quando estava na cama tentando pegar no sono, ou amamentando no meio da noite, ou colocando a mesa de jantar em casa. Harry havia arrastado a Ordem ao fracasso. Impulsivo. Impulsivo demais. Frustrado demais. Arrasado demais. Raivoso demais. Curioso demais. Ele sempre havia sido assim. Sempre. Hermione sempre estivera ao seu lado o podando, o guiando, o alertando, o salvando. Era triste ter que assistir pedaços dos ataques de frustação de Harry, era triste ter que assistir a Ordem tomar péssimas decisões, principalmente a respeito de York, era triste ter que ver tanto poder ser tão mal administrado. E acima de tudo, era triste ver que ela podia ter levado a Ordem a um nível tão extraordinário com a magia que possuíam com o arco do véu que talvez Voldemort não tivesse tido chances.


 


Ela poderia ter tido uma vida muito diferente se não tivesse sido capturada no ataque ao Ministério. Pensar nisso a fazia querer conversar com Draco, mas Draco estava silencioso e ela já havia aprendido que invadir o espaço dele quando ele não queria que fosse invadido era uma dor de cabeça que ela não tinha paciência para enfrentar, não com o tanto de problema e pressão que carregavam agora.


 


De longe, enquanto vagava pela mente dela e tentava ignorar as memórias de distração que Gina lhe jogava, podia escutar suas arfadas, seus grunhidos e até mesmo berros de frustração vindo dela ao tentar lutar contra a invasão que estava sofrendo e contra a dor de ter a mente invadida daquela forma. Hermione conseguia sentir o esforço da concentração de Gina, mas sua concentração não era capaz de superar nem metade da que Hermione tinha.


 


Presenciou várias memórias de discussão entre Harry e Rony, entre Rony e Gina, entre Gina e Luna, Gina e Neville. A Ordem parecia estar mergulhada em rancor, mas Hermione precisava se lembrar de que estava na mente de Gina e talvez ela quem estivesse mergulhada em rancor com relação a Ordem. Hermione precisou revisitar algumas memórias para conseguir se direcionar especificamente para uma que lhe chamava atenção. Gina e Neville discutiam sobre Gina poder ter salvo todos os estudos que tinham feito com o sangue de Hermione no ataque a Ordem. Gina insistia em ser grossa e dizia não se importar, porque Hermione podia provavelmente saber do nível de controle que tinha sobre qualquer magia por seu sangue ser o que é. Que ela provavelmente havia enviando amostras do sangue e pedido para que fizessem estudos com ele para revelar a Ordem o que realmente é. Que Harry estava sendo idiota em acreditar que ela havia convencido Draco Malfoy de ajudar a Ordem. Que Hermione queria, na verdade, destruir a Ordem e destruir Voldemort para que pudesse governar.  O que soava absurdamente patético e mostrava a Hermione o nível e o tanto de rancor que Gina tinha guardado por achar que ela era a única coisa no meio do seu caminho e de Harry.


 


Essa memória lhe mostrava o caminho de outras que consistiam em Gina lendo fábulas antigas sobre Morgana, livros que não passavam de histórias de ficção. Estando na Ordem, ela não tinha acesso ao número de livros que Hermione tinha. Outras memórias que lhe chamavam mais atenção mostrava Gina e Neville chegando a conclusões sobre seu sangue que a assustava. Se os dois estivessem certos, Hermione tinha controle absoluto de tudo que acontecia em seu corpo e não só isso, tinha acesso ao controle de qualquer matéria e magia. Aquela conclusão era ridícula. Se a própria Morgana, que tinha o sangue de uma fada humana pura, tivesse todo esse poder, ninguém jamais teria sido capaz de destruí-la. Além do mais, Hermione confiava no poder da natureza e a ordem natural do mundo da magia nunca iria concentrar tanta capacidade mágica em um sangue só.


 


O que Hermione tentava fazer, era reproduzir os estudos feitos por Gina e Neville na Casa de Poções, no sótão de sua casa, torcendo para que Voldemort não tivesse a súbita ideia repentina de revistar os pertences e propriedades dos membros do círculo interno, o que já mandara fazer mais de uma vez. Mas para reproduzir esses estudos ela precisava das memórias de Gina. Precisava saber os passos que eles haviam tomado e tudo que haviam feito. A maioria das memórias eram claras, mas haviam partes perdidas e estimular Gina para que pudesse relembrá-las era uma tarefa um tanto quanto complicada.


 


Assim que saiu da cabeça de Gina, ela quase perdeu os sentidos. Hermione deu o tempo que ela precisava para se recuperar. Ela queria poder ter o dia inteiro para ficar ali, mas não queria que as pessoas acabassem sabendo que ela visitava Gina Weasley.


 


-       Preciso de suas memórias, Gina. – ela não sabia porque ainda insistia em dizer as mesmas coisas sempre. – Você sabe mais sobre mim do que eu mesma.


 


-       E é exatamente por isso que não quero te ajudar. – Gina não queria encará-la.


 


Hermione ergueu-se para buscar paciência.


 


-       Eu não tenho todo o poder que acha que tenho, Gina. É ridículo. Nem mesmo Morgana tinha o poder que acha que eu tenho. – as vezes todo o rancor de Gina a irritava.


 


-       Sim, você tem. – ela ofegava.


 


Não que Hermione duvidasse da inteligência de Gina, mas podia facilmente aceitar que o que quer que Gina tivesse visto de tão extraordinário em seu sangue podia ser apenas um caso de leitura mal interpretada. Tomou o ar para começar mais uma sessão com Gina. Abaixou-se novamente. Gina não queria encará-la.


 


-       Você me deixa sem escolha. – disse e preparou-se para concentrar.


 


-       Não. – Gina resmungou. – Por favor. – quase inaudível.


 


Hermione parou por um segundo. Aquela era a primeira vez que Gina pedia para que parasse. Gina nunca pedia para que parasse. Ela era sempre forte. Será que ela tinha medo? Ela tinha mesmo medo que Hermione chegasse nos resultados que ela havia chegado?


 


-       Eu não sou perigosa, Gina.


 


Gina riu e tossiu.


 


-       Está precisando reavaliar o papel que está desempenhando nesse exato momento antes de dizer isso, Hermione.


 


Ah, sim. Ela era a vilã agora. Ela era a Malfoy, a comensal, a descendente de Morgana. Não tinha créditos para convencer ninguém de que não era um perigo eminente. Levantou-se novamente. Respirou fundo. Fechou os olhos por dois segundos. Puxou o ar mais uma vez e quando abriu os olhos aceitou que sim, ela era a vilã agora. Gina iria morrer de qualquer jeito. Voldemort estava apenas esperando a próxima Cerimônia de Inverno. Ela tinha pouco tempo para tirar do cérebro da ruiva condenada a morte, todas as informações que precisava. Não tinha tempo para pensar no bem estar dela, até porque se fosse o oposto, Gina não tomaria tempo para pensar no seu bem estar. Seria a vilã sim e quando estava pronta para abaixar-se e invadir a mente dela novamente sem sentir o mínimo nível de culpa, a porta se abriu e por ela passou Theodoro Nott.


 


Hermione o encarou por alguns segundos sem qualquer reação apesar de estar surpresa. Theodore a encarou de volta e em seu olhar havia um brilho de satisfação por saber que estava a surpreendendo.


 


-       Eu não sabia que podia prestar visitas a essa velha amiga sua, Sra. Malfoy. – Nott soltou.


 


Hermione estreitou os olhos.


 


-       Por que o deixaram entrar quando claramente sabiam que o quarto já estava ocupado? – ela não tinha o porque se justificar. Theodore sabia que Gina era prisioneira de seu marido e que ela não era proibida de estar ali.


 


-       É fácil convencer qualquer um de que eu e você temos uma história, Sra. Malfoy. Ninguém iria gostar de ficar entre nós. Nem mesmos os guardas de seu marido. – ele se aproximou.


 


-       Que tipo de história tem com ela? – Gina indagou numa voz fraca para ele e aquilo pegou Hermione completamente de surpresa. Era só uma pergunta e Hermione já foi capaz de notar a estranha intimidade entre eles.


 


-       Não temos nenhuma história. – Hermione soltou com desgosto para Theodore.


 


-       Sim, nós temos. E é uma que o seu marido não gosta de lembrar. – ele aproximou-se de Gina e se sentou ao lado dela. – Veja bem, Gina Weasley. Em Brampton Fort, aqueles que sentam no topo da cadeia alimentar brincam entre si um jogo de interesses. A história que tenho com Hermione é apenas mais um desses jogos. O problema de brincar com uma mulher como Hermione é que você acaba facilmente sendo arrastado pelo feitiço dela e quando isso acontece ela tem total controle sobre você. O que significa que ela vence. – ele sorriu para Hermione. – Será que vence mesmo?


 


Hermione entendeu o que ele estava fazendo, e não fazia o menor sentido.


 


-       O que está fazendo, Nott? Que tipo de monstro quer alimentar na cabeça dela? Gina está fadada a morte.


 


-       Está mesmo?


 


Ela não gostava de quando ele se enchia de mistérios.


 


-       Não jogue esse jogo, Nott. Eu o aconselharia a parar.


 


Ele continuou a sorrir.


 


-       E por isso mesmo irei continuar. – levantou-se. – Eu sei o chão que estou pisando.


 


Estreitou os olhos.


 


-       Você quer vingança? Será que você foi tão ferido assim por não ter seus tão ardentes sentimentos correspondidos, Nott? Eu sei bem que nada sobre você é verdadeiro. – encarou Gina. – E não tente usá-la. Ela não pertence a você.


 


-       Ainda. – foi tudo o que Theodore disse.


 


Hermione não entendia aquilo. Não precisava, na verdade. Theodore e Gina era a menor de suas preocupações. O que quer que estivesse acontecendo ali, não andaria muito longe. O inverno estava chegando e logo Gina seria apenas passado. Deu as costas para aquela perda de tempo e deixou Whitehall.


 


-       Fiquem de olho nos dois e no que andam fazendo. – ordenou aos guardas indo embora.


 


-       Já recebemos essa ordem, Sra. Malfoy. – um dos guardas disse.


 


Hermione parou. Draco deveria ter dado aquela ordem, o que significava que ele tinha desconfiança nas intenções por trás das visitas de Theodoro.


 


-       Ótimo. – disse e seguiu seu caminho.


 


Hermione simplesmente odiava que estivessem tão desconectados. Por que ele ainda não havia dito a ela nada sobre aquilo? Sobre Theodoro estar visitando Gina! Sobre Gina ter um grau de intimidade com Theodoro! Sobre ele saber disso e não se importar! Ou será que se importava? Ela acaso deveria se preocupar com isso? Não! Ela não precisava adicionar mais nada a sua lista de preocupações!


 


Seguiu direto para o andar da Comissão. Trancou-se em seu laboratório quando tentou ser abordada por inúmeras equipes exigindo sua participações no desenvolvimento das pesquisas e descobertas que vinham fazendo. Respirou fundo, fechou suas janelas, bloqueou as passagens de áudio e torceu para que Voldemort não resolvesse aparecer. Ele mostrava o rosto pela Catedral e passeava para cima e para baixo constantemente agora que tomara a forma de Tom Riddle.


 


Desfez os feitiços de proteção e distração que criara ao redor de todo o seu laboratório e trouxe para a bancada todo o estudo que vinha desenvolvendo nas últimas semanas. Draco e ela haviam sido proibidos de deixarem Brampton Fort já fazia um bom tempo. Voldemort não simpatizara com as idas e vindas constantes que eles vinham fazendo desde que assumiram uma propriedade fora do forte e desde que as políticas de circulações haviam mudado. Por causa disso, quando Harry finalmente decidiu liberar o arco do véu, quem foi colocado entre o fogo cruzado fora Isaac Bennett, o Ministro da Magia.


 


Hermione odiou a ideia, mas precisou confiar no que haviam construído até ali. Isaac garantiu que o trânsito do misterioso artefato fosse feito no mais absoluto sigilo para a casa que possuíam no Vale do Bosque. E trouxe com ele para Brampton Fort, um frasco de uma poção que Harry pedira que fosse entregue nas mãos dela. Prometia enfraquecer a ponte de ligação entre a Marca Negra e Voldemort. Isso significava a liberdade de muitos, mas pelo que Hermione havia visto, era uma poção e instável e longe do absoluto. Podia muito bem funcionar com uns e não funcionar com outros. Estudando aquela poção Hermione entendeu o porque houve uma época em que a Ordem parecia capturar mais Comensais do que realmente era necessário. Talvez eles estivessem fazendo testes com aquelas poções. Talvez eles estivessem tentando aprimorar aquela poção que ainda era tão primitiva e eles já chamavam de solução.


 


Ela tinha que fazer com que aquela poção fosse absoluta. Mesmo que já tivesse a replicado e passado para Draco, precisava encontrar uma forma de fazer com que ela pudesse funcionar em qualquer pessoa com a Marca Negra, simplesmente porque não adiantava que tivessem aliados se no momento em que eles se rebelassem a marca que os ligava a Voldemort tivesse o poder de matá-los.


 


Trabalhou naquela poção a manha inteira. Perdeu seu horário de almoço e entrou em contato com Narcisa apenas duas vezes para saber se tudo estava bem com Scorpius e Hera. Ela sabia que estava correndo contra o tempo. Assustou-se e se deu conta do quanto estava sendo imprudente quando bateram em sua porta. Não podia se dar o luxo de trabalhar em algo extremamente confidencial e perigoso como aquele por tanto tempo assim.


 


Um toque de sua varinha e em segundos tudo em cima de sua bancada mudou. Aquilo que precisava se esconder sumiu e aquilo que precisava aparecer apareceu. Ela abriu a porta e deu espaço para que uma mulher de sua antiga equipe entrasse.


 


-       Está presa aqui já faz um bom tempo. – comentou ela.


 


-       Aposto que estão comentando isso aí do lado de fora desde que me tranquei aqui. – disse Hermione.


 


-       Não vou negar. – sorriu a mulher.


 


-       Não os culpo.


 


A mulher suspirou.


 


-       Queríamos que fizesse parte dos nossos projetos novamente. Precisamos de você, do seu cérebro, dos seus conhecimentos, dos seus palpites. Sabe de todos os avanços que tivemos desde que chegou. Sentimos falta de todas as descobertas que fazíamos todos os dias.


 


Hermione afastou o caldeirão próximo a ela e se deixou pensar por um segundo. Um apenas.


 


-       Meu tempo na Catedral é inconstante. Tenho dois filhos que dependem muito de mim agora e eu os assumi como prioridade. Minha família é minha prioridade. A guerra está ganha, as coisas estão mais calmas e eu confio no trabalho e no cérebro de todos vocês. Eu tenho trabalhado para responder perguntas que carrego comigo. Tenho projetos pessoais.


 


A mulher assentiu. Respirou fundo. Desviou o olhar e se aproximou.


 


-       Nós todos sentimos que você parece estar tentando correr contra o tempo. – encarou-a. – Nós todos sentimos a tensão. – ela pareceu hesitar, mas disse mais: - Queremos fazer parte disso.


 


Hermione não precisou fazer nenhum esforço para entender o que ela estava jogando ali, isso a assustou completamente. Será que era assim que Draco trabalhava? Será que era com esse tipo de direta que ele separava aqueles em que podia confiar dos que não podia? Seu estômago revirou e ela soube que precisava sair dali rápido.


 


-       Não sei do que está falando. – fez-se de idiota. – Mas aposto que se soubesse diria que são parte disso e que saberiam o que fazer quando o momento chegasse. – arriscou.


 


A mulher pareceu confusa, mas assentiu. Hermione passou por ela e deixou seu laboratório na bagunça em que estava. Precisava encontrar com Draco, não porque sentia que precisava vomitar mil coisas em cima dele, o que seria algo que ela aprendera que não deveria fazer, com ele nem com ninguém, mas porque sentia-se mais forte ao lado dele e ela precisava se sentir mais forte, por mais que tudo estivesse um tanto quanto confuso.


 


Foi até a torre dele para ouvir de Tina que ele estava no subsolo do quartel em uma das salas de simulação com o remanescente da zona sete que estava em Brampton Fort e não em ação. Fez todo o seu caminho até lá para encontra-lo revisando um plano de coleta de informações sobre Potter no centro de Londres. Obviamente ninguém parecia estar realmente prestando atenção, o que fazia Hermione questionar até onde aqueles homens sabiam que Draco sabia onde Potter estava e que tudo aquilo era apenas uma distração.


 


Draco parou de falar no segundo em que ergueu os olhos para ela. Ele perguntou preocupado se tudo estava bem. Perguntou como as crianças estavam. Hermione logo tratou de se desculpar por interromper, disse que tudo estava bem, queria apenas ficar por perto e ver o trabalho do grupo da Comissão operando na sala superior. Draco apenas assentiu e ela fez seu caminho até a sala superior, onde pode assisti-lo dali.


 


Trocou um simples diálogo com o pequeno grupo da Comissão que dirigia a simulação da sala oposta e começou a avaliar as enormes planilhas abertas numa mesa de centro. Draco provavelmente tivera algum tipo de reunião ali não fazia muito tempo. A primeira planilha contava as datas e os planos de ação em uma região ao norte de Londres, por baixo dela havia uma mostrando a rotatividade das zonas em planos de ação no mês, A por baixo dessa tinha uma divisão de nomes que não fez o menor sentido para ela. Parou de tentar entender todas aquelas enormes folhas e números e apenas começou a virá-las uma a uma por curiosidade. Teve que pausar receosa no momento em que se deparou com uma onde mostrava a planta do enorme terreno da propriedade que haviam assumido fora de Brampton Fort. Aquilo era pessoal. O que estava fazendo ali?


 


Puxou a enorme folha para o topo da pilha e passou os olhos por todo o desenho da região do Vale do Bosque. Havia riscos, setas e marcações por todos os lados. Da distante queda d’água a densa vegetação ao fundo do enorme jardim de fundos da casa.


 


-       Hey. – Draco apareceu e ela se viu ser arrastada do transe de sua confusão ao olhar aquilo para a realidade daquela sala. – Algo errado? – perguntou.


 


-       Sim. – respondeu. Havia muita coisa errada. Ele pareceu confuso e ela apenas levantou a folha que havia acabado de achar para que ele pudesse entender do que ela estava falando. – O que isso está fazendo aqui?


 


Ele respirou fundo. Olhou para o pequeno grupo de três bruxos da Comissão no fundo da sala que pareciam lançar algumas distraídas e curiosas olhadas para os dois e aproximou-se dela. Devolveu a folha para a mesa.


 


-       Agora não é hora. – ele usou um tom discreto.


 


-       Quando vai ser a hora então? – ela não se importava que não estivessem sozinhos. – Por que sinto que se depender de você essa hora nunca vai chegar.


 


Draco estreitou os olhos imediatamente. Aproximou-se mais dela e abaixou ainda mais o tom de voz.


 


-       Não use sua língua afiada em mim agora, Hermione. Sabe muito bem que estou tentando salvar nossa família.


 


-       Por que está tentando fazer isso sozinho? Eu pensei que fossemos um time. – usou o mesmo tom que ele.


 


-       Nós somos um time.


 


-       Não parece que somos. Costumávamos ser. – ela puxou a folha novamente. – Eu não faço a mínima ideia do significado disso. Do que isso possa estar fazendo aqui. Não faço a mínima ideia de como está domando o caos no seu departamento. Nossa situação com Voldemort, com o mundo, com a mídia, muda todos os dias e eu não tenho a mínima ideia do que se passa na sua cabeça. Tenho tentado adivinhar seus planos pelas suas ações tudo porque nós simplesmente não conversamos mais!


 


-       É claro que conversamos, Hermione!


 


-       Sobre o que vai ter para o jantar! Sobre que horas pretendo ir a Catedral! Sobre Scorpius e Hera! Sobre o progresso dos meus trabalhos! – naquele momento se viu cansada de tentar ser compreensível. – Eu nem mesmo sabia que estava dando ordem aos seus homens para ficar de olho nas visitas que Theodore tem prestado a Gina.


 


Ele soltou o ar quase revirando os olhos.


 


-       Não se preocupe com Weasley e Nott.


 


-       Por que? Por que eu não devo me preocupar? – esse era o ponto de toda a questão. Ele parecia esconder os porquês. – Eu sinto como se estivesse com uma venda tentando adivinhar qual caminho está tomando para poder te seguir. E não finja que não sabe disso porque se tem algo que sei que é, é observador, e para o bom observador que é, dizer que a nossa falta de comunicação é imperceptível é uma constatação muito estúpida.


 


Ela ficava surpresa por vê-lo se irritar tanto quanto ela, quando na verdade, queria que ele tentasse ser compreensível como ela havia sido por todo o tempo que em que ele estranhamente decidira se silenciar.


 


-       Tudo que eu tenho feito é meu trabalho. – ele pegou a folha. – Eu preciso disso para mostrar para as pessoas certas como agir a nosso favor quando a hora chegar. Não quero depender apenas de feitiços de proteção para nossa casa. E tudo que Nott tem feito é tentar encontrar uma forma de usar Weasley para nos atacar, o que é uma completa perda de tempo visto que o destino dela já foi escrito em decreto oficial da Catedral. É isso que quer saber? É disso que precisa?


 


Ela parou incrédula por alguns segundos. O que era aquilo? Aquilo não era ele? Por que ele estava agindo assim?


 


-       Por que diabos está fingindo não entender o que estou querendo discutir aqui?


 


-       Por que você está fazendo isso agora? Por que está tão empenhada em tornar as coisas difíceis entre nós? Será que todo resto estar difícil já não é o suficiente?


 


Ela lutou contra a fúria.


 


-       Por que acha que eu não tenho razão? – Céus! Aquilo não os levaria a lugar nenhum!


 


-       Sr. Malfoy. – interrompeu um dos líderes das zonas do exército ao chegar a sala. – Sinto muito ter que interromper. – ele direcionou o olhar a ela. – Sra. Malfoy. – mencionou-a ao abaixar a cabeça respeitosamente. Hermione engoliu sua raiva e recuou um passo sinalizando que ele poderia aproximar-se, o que ele fez sem esperar. – O portão norte é sua saída. – ele falou muito baixo lançando um olhar para o distante grupo de bruxos que controlada a simulação da sala oposta. – Acabamos de mudar a escala de agentes e comensais operando nos portões para os próximos meses, mas o aconselharia a ir pelo portão norte.


 


Draco assentiu de modo solene em agradecimento. O homem lançou um rápido olhar para ela, respirou fundo e tornou a encarar Draco. Puxou o ar.


 


-       Se me permite, general, gostaria de aconselhá-lo a não esperar. – ele quase cochichou.


 


-       Deixar Brampton Fort quando minhas ordens claramente são contrárias, acompanhado da minha família, é a gota d’água no ponto em que estamos agora. Preciso ser cuidadoso. – Draco usou um tom tão semelhante quanto o dele. O homem assentiu, pediu permissão para deixa-los e Draco o liberou.


 


Hermione se viu surpresa pelo que acabara de presenciar. Ela jamais imaginara que aquele comensal em especial pudesse estar do lado deles. Ele sempre parecera muito sério, muito fechado, reservado demais, mesmo que ela soubesse que ele tinha uma relação com a família Malfoy que datava de muito tempo. Mas não importava. Não importava. Metade de Brampton Fort tinha relações com a família Malfoy e muitos dessa boa metade tinham algum tipo de sucesso e proteção graças a família Malfoy. Não era apenas graças ao bom trabalho que haviam feito com a mídia no último ano que existiam pessoas levantando bandeiras em favor dos Malfoy agora que aparentavam estar em risco. Se o navio Malfoy afundasse, muitos outros pequenos barcos também iriam junto. Alguns simplesmente não tinham escolha e eram com esses que Draco mais trabalhava, porque os que secretamente compartilhavam de um ideal contra o de Voldemort simplesmente encontravam uma forma de aparecer conforme a roda girava.


 


-       Portão norte? – indagou Hermione.


 


-       Vamos deixar Brampton Fort. – respondeu Draco.


 


-       Sei disso. – era o plano desde o começo. Desde quando escolheram a grande mansão do Vale do Bosque como lar permanente.


 


-       Vamos deixar Brampton Fort essa semana. Não podemos mais adiar isso.


 


Aquela foi uma informação pesada e ela precisou de alguns segundos para escolher que reação deveria ter. Respirou fundo.


 


-       Quando pretendia me dizer isso?


 


-       Acabei de te dizer. Não é isso que importa? Não estava planejando um dia especifico ou uma hora específica, estava apenas planejando te dizer.


 


Por um segundo Hermione se sentiu inclinada a agir como a antiga Hermione que aos poucos era enterrada. Aquela Hermione que tinha pouco controle emocional quando se via envolvida sentimentalmente. Aquela que chorara de soluçar dezenas de vezes na frente de Rony quando não sabia como lidar quando entravam em conflitos. Aquela que era tão vulnerável que se deixava se expor completamente quando queria apenas mostrar que um pedaço de si estava ferido.


 


Mas Hermione se segurou. Engoliu o nó que subiu em sua garganta e concentrou-se para não deixar os olhos enxerem d’água. Respirou fundo e resolveu mostrar o seu lado ferido de modo sensato e lógico, porque sabia que Draco era atacado pela sensatez e não por emoções. Aproximou-se novamente.


 


-       Até dois minutos atrás um pouco de mim questionava que talvez tudo isso fosse uma fantasia da minha cabeça e que talvez eu realmente estivesse criando um conflito entre nós que não existia. Tudo isso porque você questionava a coerência do que eu estava tentando expor. E de pensar por um segundo que você está jogando comigo, me fazendo acreditar em algo para esconder outro, me faz pensar no Draco que eu odeio.


 


Ele soltou o ar.


 


-       Hermione...


 


-       Não. – ela o cortou incrivelmente séria. Ainda a assustava o quanto ela conseguia erguer uma barreira tão facilmente para se proteger de Draco Malfoy. Havia feito isso durante tantos anos de sua vida que mesmo depois da vida que tinham agora ainda conseguia sem a menor dificuldade, levantar seu escudo contra ele. Queria poder jogar sobre ele o vomito de palavras que tinha preso em seu estômago naquele momento, sobre sua indignação, mas sabia que ele sabia tudo que estava preso dentro dela. Seria um desgaste completamente desnecessário. – Estou indo para casa. – deu as costas a ele e seguiu seu caminho porque essa era a melhor opção para ela naquele momento.


 


**


 


Quando a carruagem parou de frente a sua casa, a lembrança de ver todo o aglomerado de pessoas ainda na porta da Catedral já era algo distante em sua memória, mesmo que fosse preocupante para a situação em que se encontravam, mesmo que Voldemort estivesse esperando que, com o discurso de Draco naquela manhã, nenhum deles estivesse mais pensando em perturbar a ordem do Império.


 


Viu a carruagem dos Bennett estacionada no pátio e imaginou que Astória estivesse lhe fazendo uma visita. Apressou-se para entrar e assim que foi recebida por Tryn, foi informada de onde Narcisa e Astória se encontravam com todas as crianças.


 


Livrou-se do salto como sempre fazia, prendeu os cabelos e subiu as escadas. Chegou na sala de brinquedos e foi recebida com a animação impagável de Hera e Scorpius ao vê-la. Narcisa e Astória tomavam chá sentadas em uma pequena mesa ao lado da lareira, bem próximo a janela. A babá de Astória dava atenção a Elise enquanto dava mamadeira para a pequena Eva e tentava ajudar Scorpius e Hera encontrarem o melhor caminho para engatinhar até Hermione.


 


Hermione apressou-se para ajudá-la sentando-se no enorme tapete ignorando o fato de saber que Narcisa não ficaria contente que ela não tivesse dado a devida recepção a visita. Mas Hermione não se importava, até porque Astória já a conhecia bem, tanto que sem se importar, ela levantou de sua cadeira com sua xícara de chá bem contente e sentou-se elegantemente no sofá, onde podia interagir com Hermione no tapete tentando segurar Scorpius e Hera ao mesmo tempo sem deixar que os dois reclamassem por estarem dividindo a atenção da mãe.


 


-       Eu não sabia que continuava indo a Catedral. – comentou Astória.


 


-       Não vou todos os dias. – basicamente porque queria ficar com os filhos. E não que não confiasse em Narcisa para ficar com eles, sabia que Hera e Scorpius preenchiam muito do vazio de Narcisa, mas tinha consciência de que dois bebês ao mesmo tempo dava muito trabalho e Narcisa era acostumada a babás e como não tinha uma, muito provavelmente usava e abusava de Tryn, que era apenas uma elfa. – Eu não sabia que estava de volta em Brampton Fort.


 


-       Vou embora amanhã. Isaac não queria que eu ficasse muito tempo. – ela tomou ar para dizer mais coisa, mas logo fechou a boca e sorriu lançando um olhar discreto a sua babá. Sorriu elegantemente para Narcisa quando ela sentou na outra ponta do sófa e limpou a garganta. – Setine, porque não vai dar uma volta com Elise no jardim de inverno? Eu posso terminar com a mamadeira da Eva. – sugeriu ela num francês perfeito para a babá.


 


-       Sim, madame. – a babá respondeu num francês nativo e passou Eva para o colo de Astoria. – Gostaria que eu também levasse os dois, Sra. Malfoy?


 


-       Não, obrigada. Quero um tempo com eles. – Hermione usou seu francês enferrujado. – Se quiser, pode levar Elise a biblioteca também. Acabamos de criar uma área infantil no mezanino e eu gostaria de receber uma boa avaliação do espaço. – Hermione sorriu para Elise.


 


A garotinha, agora já tão grande, começou a implorar no seu melhor francês a babá para que fosse levada até lá, e assim as duas deixaram a sala. Astoria voltou-se para Hermione assim que a porta foi fechada. Pareceu resistir por alguns segundos mas então finalmente abriu a boca:


 


-       Como que você está lidando com a ansiedade, Hermione? – ela quase sussurrou.


 


Hermione mal podia acreditar que ela estava convivendo com o medo. Eles haviam se mudado para uma casa enorme próxima a Londres, uma zona inteira do exército composta pelos homens de mais confiança de Draco faziam as rondas de segurança na propriedade deles e ela ainda se dava tempo para ter medo?


 


-       Eu me mantenho ocupada. – foi tudo o que disse. Tinha dois filhos.


 


-       Meu marido é o Primeiro Ministro. Se qualquer coisa acontecer, ele será o primeiro a ser culpado.


 


-       Os Bennett não são o alvo, Astoria. – Narcisa se pronunciou.


 


Astoria soltou o ar ajeitando Eva em seu colo.


 


-       Eu sei. Os Malfoy são o alvo. – ela encarou a filhinha em seu colo, tomando pacificamente o leite da mamadeira. Eva nascera não fazia muitos meses e Hermione sabia que num futuro Astoria tentaria de tudo para fazer com que a filha mais nova chamasse atenção de Scorpius. Ela não havia conseguido ser uma Malfoy, mas talvez a filha tivesse alguma chance. – Eu quero ter certeza de que minha família está segura. Me assusta quando as vezes vejo que Isaac não consegue dormir.


 


-       Mas ele sabe que vale a pena. – Hermione disse. – Seu marido é um homem inteligente.


 


-       Sim. O homem mais inteligente que conheci. – ela soava muito apegada a ele.


 


-       Ele está apostando a segurança de sua família nisso, Astoria. Ele não estaria fazendo metade disso se não acreditasse que vale a pena.


 


Ela soltou o ar angustiada.


 


-       Eu sei. Eu sei. – assentiu. – Mas o mestre... Ele parece estar em todo lugar agora que assumiu de volta a forma de Tom Riddle. – suspirou. – As custas dos seus filhos. – a genuína expressão de angústia que ela fez moveu Hermione. Era claro que Astoria como mãe sabia se colocar no lugar de Hermione e por mais que Hermione não concordasse com o tipo de relação de interesses que os Bennett tinham com os Malfoy, Astória era o mais próximo de uma amiga que Hermione tinha. – Era diferente quando ele ficava preso naquela torre, na Catedral, e se mostrava apenas para o grupo recluso e exclusivo de Brampton Fort.


 


-       Ele é mais fraco do que você imagina, Astoria. Não importa onde ele está preso a torre dele ou aparecendo nos jornais do mundo todo. Ele só está sentado onde está sentado, ele só tem todo o Império que tem porque tem suporte. Ele é muito dependente de pessoas.


 


-       Ele nos possuí, Hermione. – ela mostrou a marca em seu braço. – Não é como se tivéssemos qualquer outra opção além de erguer o império dele!


 


-       É só uma marca. – e Hermione também a temia. – Se tirá-la da equação tudo que ele tem são pessoas revoltadas por terem sido controladas.


 


-       Ele ainda tem seus fiéis cães, Hermione.


 


-       Eu não acredito que ninguém além de Bellatrix morreria por, Voldemort. – Hermione disse. Suspirou cansada. – Eu vivo com os meus medos assim como você, Astória. Por favor não me convença de que não posso controlá-los.


 


O silêncio correu a sala por alguns segundos.


 


-       Estou surpresa que ele ainda não nos declarou traidores. – Narcisa comentou. – Com todos os boatos circulando, com toda a evidente divisão no departamento de Draco, com toda a mídia em cima de nós, e toda pressão popular na porta da Catedral. Eu realmente estou surpresa.


 


Hermione sabia que ele estava guardando algo especial. Uma surpresa. Voldemort havia dado a ela um ano com os filhos só para que fosse mais duro a separação. Ela sabia, assim como Draco também sabia e esperava, o dia em que os filhos completassem um ano. O que não faltava pouco mais do que alguns semanas. Talvez esse dia fosse o dia em que Voldemort decretasse o inferno sobre eles.


 


Ela quis que as duas fossem embora, mas depois alguns longos minutos, a única que levantou-se e informou que tinha planos com Bellatrix para o jantar foi Narcisa. Hermione agradeceu pelo tempo que ela havia disponibilizado para estar com os netos e Narcisa apenas perguntou se poderá voltar no dia seguinte. Hermione assentiu sabendo que mesmo que fosse ficar em casa, Narcisa precisava de distrações.


 


 


-       Como estão você e Draco? – Astória perguntou minutos depois que ouviram a carruagem de Narcisa partir do pátio de entrada.


 


Hermione suspirou. Não queria entrar em detalhes sobre sua relação com Draco com Astória. Sentia que já era obrigada a ser aberta com a mídia mais do que gostaria. Não queria entrar em detalhes sobre nada que acontecia entre ela e Draco simplesmente porque parecia que nada realmente acontecia entre eles.


 


Suspirou.


 


-       Como estão você e Isaac? – foi o que ela retrucou.


 


Astória desviou o olhar quase imediatamente. Soltou o ar prolongado e encarou a filha em silêncio por um bom tempo.


 


-       É difícil. – ela soltou numa voz baixa. – As vezes me pergunto se foi uma boa escolha voltar para o Reino Unido. Isaac fica o tempo inteiro no Ministério, ele parece estar cuidando de mais do que realmente consegue. Quando está em casa, fica preso no escritório, trabalhando, ou remoendo a angústia de não saber se está fazendo a melhor escolha para a segurança da nossa família. – ela parecia extremamente perturbada por aquilo. – Ele mal dorme, mal come, mal conversa, mal me toca.


 


Hermione se perguntou se ela não estava descrevendo Draco. Se perguntou se era isso que estava o silenciando. Talvez ele se perguntasse se todo aquele risco era realmente necessário, se não havia outro caminho mais simples, menos estressante.


 


-       Não é difícil só para vocês. – Foi tudo que Hermione disse.


 


-       Eu sei que Draco pode ser irritantemente reservado.


 


-       Draco é sempre irritantemente reservado.


 


Astória sorriu e assentiu.


 


-       Ele gosta de ser um mistério.


 


Hermione não achou engraçado.


 


-       É irritante. – disse.


 


Astória a encarou novamente.


 


-       É sexy, Hermione. – e se levantou ajeitando a filha no colo.


 


-       Não em um relacionamento.


 


-       Devo concordar. Mas estando a parte de vocês dois, tenho o direito de achar sexy, sem deixar de amar meu marido. – ela tentou descontrair. Hermione forçou um sorriso não querendo desmerecer o esforço dela embora fosse bem invasivo. – Bem, eu sei que tem outras coisas para fazer. Não quero tomar seu tempo. Queria ter certeza de que eu estava sendo boba em querer perder a cabeça por causa de tudo isso. – ela deu um sorriso sincero. – Queria muito ser forte como você. Eu jamais saberia ser uma Malfoy como você.


 


Hermione quis rolar os olhos. Ela não perdia a chance de mostrar o quanto a rejeição de Draco fizera um grande papel em sua vida.


 


-       Você aprenderia. – teve que dizer. Astória apenas encolheu os ombros não muito certa daquilo e juntou suas coisas. Hermione não quis que ela fosse embora por mais incomodo que Astória pudesse ser as vezes. De alguma forma Hermione se sentia conectada a ela agora. Era confortante saber que Astória não vivia uma situação muito diferente da dela. – Vocês podem ficar para o jantar. – convidou.


 


-       Não podemos. – Astória se mostrou feliz pelo convite. – Já marquei de me encontrar com alguns amigos de Isaac para o jantar. Preciso garantí-los de que Isaac está negociando uma forma de conseguir permissão para que eles também se mudem para fora de Brampton Fort.


 


Hermione assentiu e deixou que ela fosse embora. Pediu para que Tryn encontrasse Elise e a babá e as acompanhassem até o pátio. Quando se viu sozinha com os filhos sentiu o vazio e a aflição lhe fazerem companhia novamente. Tentou se distrair com os filhos, mas não era raro pensar no quanto era bom ser inocente sempre que recebia o sorriso impecável deles.


 


Era crianças felizes e era o seu raio de sol no meio de toda aquela vida cinza que a cercava. Eles era completamente alheios a toda a opressão no qual eram obrigados a viver, eles eram alheios a toda a conspiração, a todo o medo, a toda ameaça do qual faziam parte. Hermione se sentia responsável por assegurar que a benção da ignorância fosse algo duradouro.


 


Era graças a ignorância deles que eram livres e graças ao amor dela que se sentiam seguros. Scorpius podia ser o Scorpius que era, apegado a ela, dependente de afeto e aceitação e Hera podia ser a pequena aventureira independente que gostava de ser. Bobos e felizes. Eles a faziam sorrir mesmo quando a angústia lhe fazia companhia.


 


O relógio não parou e ela subiu com as crianças não muito tempo depois. O jantar era sempre um evento. Aprendera isso quando se tornara uma Malfoy. Vestiu Hera e Scorpius no figurino que separara para a ocasião na noite anterior. Tryn sempre a ajudava, o que tornava a situação menos caótica mais divertida.


 


O drama começou quando chegou a hora dela se arrumar. Draco era parte da rotina para o jantar e quando o sol começou a se por e a carruagem dele não apareceu no pátio de casa, o relógio interno de Hera e Scorpius começou a reclamar pela falta do pai. Ele ficava com os dois na cama enquanto Hermione tomava seu banho e se trocava e quando não podia estar em casa, Tryn era obrigada a tentar distraí-los no tapete da lareira do quarto enquanto Hermione apressava-se para se apresentar impecável para o jantar sem querer deixar os filhos chorando por colo.


 


Hermione soube que Draco não apareceria para o jantar no momento que terminou de se arrumar e Draco ainda não havia chegado. Normalmente quando se atrasava, ele sempre chegava quando ela estava se arrumando. Naquele dia, no entanto, ela desceu com Scorpius e Hera cansados de serem impedidos de deixarem o tapete do quarto por Tryn enquanto ela se arrumava. Sentou os dois em suas respectivas cadeiras altas, vestiu-os com seus respectivos babadores e encarou o enorme relógio ao fim da sala de jantar. Era hora de servir a refeição e Draco ainda não estava em casa.


 


Esperar por ele nunca havia sido um problema para ela antes. Mas agora que tinha dois filhos pequenos era muito diferente. Draco nunca havia perdido um jantar desde que os filhos haviam nascido, consequentemente seus filhos não sabiam o que era estar sentado na mesa de jantar esperando pelo pai. Aquilo não era parte da rotina e seu coração pesou quando eles se mostraram extremamente frustrados por estarem sentados a mesa sem estarem comendo. Hermione não soube se deveria sentir raiva ou complacência. Sabia que deveria esperar, mas ao mesmo tempo não deixaria seus filhos passarem por aquilo. Eles não entendiam que tinham que esperar. Ela era firme com rotina. Draco sabia que ela era firme com rotina.


 


Recebeu o recado de Tryn vindo de Draco o que pareceu uma eternidade depois, embora fossem apenas alguns poucos minutos depois da hora marcada do jantar. Ele não conseguiria chegar a tempo do jantar.


 


Fechou os olhos soltando o ar enquanto escutava Hera e Scorpius reclamar a todo pulmão da falta de comida em suas mãozinhas. Deixou que a raiva remoesse dentro de si por alguns segundos e depois tomou força para passar por cima dela. Puxou o ar, abriu os olhos e deu a ordem para que o jantar fosse servido.


 


Mas era fácil demais construir e destruir o humor de bebês. A esse ponto, Scorpius e Hera já estavam irritados. Eles não cooperaram com o jantar e Hermione começou a se questionar se talvez todo o drama fosse porque Draco não estava ali e não porque foram obrigados a terem que esperar. Scorpius se recusou a comer. Hera comeu, mas estava mais empenhada em fazer uma bagunça e tornar tudo mais difícil.


 


Hermione desistiu do próprio jantar e tentou lidar com os filhos sozinha. Ela nunca havia feito o jantar sozinha. Ela nunca havia feito nenhuma refeição sozinha desde que os filhos passaram a ser introduzidos a alimentos sólidos. Talvez aquilo tivesse sido um erro. Ou não. Eles não estavam nem um pouco felizes que Draco não estava participando daquele momento. Aquilo foi apertando o coração de Hermione gradualmente ao ponto em que cobriu o rosto e se permitiu chorar junto com os filhos.


 


Eles eram dependentes dela. Dependentes dela e de Draco. Eles eram apegados a ela e a Draco. Qualquer sinal de desestrutura parecia fazer com que o mundo deles desabasse. E Voldemort queria tirá-los dela. Queria tirá-los dela e de Draco. Como isso seria? Quem se importaria de que eles não ficariam felizes? Quem se importaria de dar segurança a eles? Quem se importaria com eles?


 


Respirou fundo buscando ser forte. Tinha que ser forte. Tinha que fazer aquilo por eles. Procurou se colocar no melhor estado que poderia se colocar naquele momento e tentou fazer com que Scorpius comesse. Ser boa em improvisos foi sua aliada naquela hora. Tryn foi uma ótima ajuda na hora do banho, na hora da troca de pijama e na hora de ir para cama.


 


Os dois lutaram para dormir embora estivessem extremamente cansados. Hermione havia os acostumado a dormirem em seus respectivos berços. Abaixava a luz do quarto, dava a cada um sua mamadeira e os deixava dormir por si só, o que eventualmente, sem drama, faziam. Obviamente Draco e ela estavam juntos para o diário ritual da leitura da história, de balançar na cadeira até se acalmarem e de irem para o berço. Tudo isso tornava o momento de deixarem o quarto completamente livre de drama, reclamações ou choro. Eles sabiam que era hora de dormir. No entanto não ter Draco ali batia neles um sinal de anormalidade que ameaçava a base de conforto e segurança que Draco e Hermione haviam construído.


 


Quando ela deixou o quarto dos dois eles ainda choravam. Hermione não queria que eles acabassem dormindo de tanto chorar, mas precisava se afastar. Tryn continuou com eles. Ela foi para o seu quarto sem saber o que fazer. Carregou com ela um espelho para poder espiar o reflexo do quarto dos filhos, onde eles davam trabalho a pobre elfa que tentava fazer com que deitassem e dormisse. Hermione tirou sua maquiagem, trocou seu vestido pela longa camisola de cetim, colocou seu robe por cima, fechou os olhos e respirou fundo. Seus filhos iam fazer um ano e ela nunca havia percebido o quanto ela e Draco haviam sido parceiros durante todo aquele ano. Nunca havia percebido o quanto haviam assumido aquelas crianças juntos e como havia sido natural. Eles haviam treinado como trabalhar juntos antes, haviam aprendido a serem profissionais, e talvez tivessem feito o mesmo com os filhos. Eram eficientes juntos. E agora que não o tinha, sentia-se fraca.


 


Encarou-se no espelho do banheiro. Quis desabar outra vez. Respirou fundo e tentou se construir mentalmente. Era capaz de fazer aquilo. Era capaz de ser mãe. Por mais difícil que parecesse as vezes, e mesmo que dessa vez não fosse Ela e Draco se encarando no meio da noite sem saber o que fazer enquanto os filhos choravam, mesmo que estivesse só, ela era capaz. Não era a primeira vez que se sentia sem ferramentas e sem soluções e não seria a última.


 


Deu as costas e voltou para o quarto dos filhos. Hera já estava entregue no berço, mas ainda estava acordada. Scorpius ainda se mantinha em pé, segurando nas grades do berço, firme e forte em seu protesto. Hermione dispensou Tryn sabendo que a elfa não precisava passar por aquilo. Já havia feito demais por ela hoje. Quando a elfa relutantemente foi embora, Hermione tentou trabalhar com o que tinha.


 


Tirou Scorpius do berço, sentou no chão ao lado do berço de Hera, enfiou o braço por entre as grades e segurou a mamadeira para ela tentando fazer com que ela tomasse ao menos um pouco antes de dormir. Enquanto isso, deitou Scorpius em seu colo e com o queixo segurou a mamadeira dele. Torceu para que ele se contentasse com a mamadeira pelo menos por tempo o suficiente até que Hera dormisse, assim ela teria apenas que lidar com ele.


 


Hera se entregou exausta não muito tempo depois sem tomar nem mesmo um terço da mamadeira, o que não era um bom sinal visto que isso só daria alguns horas de sono até que ela acordasse novamente no meio da noite de estômago vazio. Mas ao menos dormiu a tempo de Scorpius cuspir a mamadeira e reclamar que aquilo estava o querendo fazer dormir e esse não era seu objetivo.


 


Hermione o levou para fora do quarto temendo que ele fosse acordar Hera e que ela tivesse que lidar com dois novamente. Andou de um lado para o outro no corredor tentando fazer com que ele dormisse, mas ele não dormiu. Lutava bravamente. Ela conseguia ver todo o esforço que ele fazia para chorar e se manter acordado toda vez que estava prestes a fechar os olhos e se entregar.


 


Voltou para o quarto quando o as reclamações dele não passavam de apenas alguns grunhidos que ele usava para se manter acordado. Sentou-se na poltrona para balança-lo. Foi quando escutou a carruagem de Draco estacionando no pátio do lado de fora. Scorpius também escutou e ergueu a cabeça para trocar um prolongado olhar com ela.


 


-       Sim, é o seu pai. – sussurrou para o ele. – Finalmente. – soltou cansada.


 


Ele encostou a caça pesadamente em seu colo novamente e ficou quieto. Hermione torceu para que ele dormisse agora que talvez soubesse que o pai estivesse ali, mas quando quase fechou os olhos, resmungou novamente e coçou os olhos tentando chorar, mas estava cansado demais para se esforçar demais.


 


Ela escutou os passos de Draco se aproximando pelo corredor quando Scorpius já não tinha mais energia  para continuar tentando se manter acordado. Ela escutou a porta do quarto se abrindo muito devagar e foi quando viu a silhueta de Draco aparecer na luz baixa do quarto. Ele se aproximou em silêncio. Inclinou-se sobre o berço de Hera e tocou seu rostinho muito cuidadosamente sem acordá-la. Foi até Hermione e abaixou-se ao lado dela na poltrona.


 


Scorpius o encarou com seus olhinhos cansados, esticou o pequeno braço e segurou o nariz do pai. Draco sorriu e segurou sua mãozinha. Ah, se Hermione soubesse descrever a cor dos olhos de Draco quando ele escarava os filhos. Ela queria que ele pudesse se ver.


 


-       Eu estou em casa, filho. – ele sussurrou, no tom baixo, suave e denso. Aquele era o tom que mais abalava as estruturas de Hermione. Era genuíno. Ele usava esse tom com ela quando tinham seus momentos e ela se derretia feito floco de neve no verão.


 


Scorpius se entregou quase no mesmo segundo, fechando os olhos e finalmente dormindo. O silencio foi quase fatal. Draco ergueu os olhos para ela. A brilho mudou quase que instantaneamente. Hermione sentiu seu coração apertar.


 


-       Você não quis voltar para casa. – ela falou tão baixo que sua voz quase não saiu.


 


-       Estava preso na Catedral. – ele respondeu no mesmo tom.


 


-       Você não quis voltar para casa. Não minta.


 


Ele suspirou.


 


-       Não aqui. Não agora. – ele se levantou e saiu do quarto.


 


Eles não discutiam perto de Scorpius ou Hera. Sequer gostavam de mostrar qualquer sinal de tensão ou conflito quando tinham os filhos por perto mesmo que eles não entendessem, era algo negativo demais que eles não precisavam realmente acordar se queriam que os filhos fossem expostos a isso ou não, era mais um dos acordos silenciosos que tinham.


 


Hermione abraçou Scorpius em seu colo e fechou os olhos. Seu pequeno garoto forte. Havia lutado tão bravamente para não dormir sem ver o pai. Doía nela saber que ele iria precisar de toda aquela força quando crescesse. Era um Malfoy e se eles fossem vitoriosos contra Voldemort, ele quem seria responsável por levar o nome da família. E não era qualquer nome. Não era qualquer família. Hermione sabia que Draco se sentia muito mais responsável por ele do que por Hera e era visível o tanto que isso afetava o relacionamento dele com os filhos. Draco mimava Hera. Era evidente e Hermione se sentia obrigada a ter que alertá-lo disso constantemente, porque quando ele tinha que lidar com Scorpius, ele parecia estar sempre querendo ensinar uma lição, mesmo que o filho ainda não tivesse nem um ano.


 


Para ela, era difícil convencer Draco de que ele deveria tratar os filhos por igual quando na cabeça dele, o papel que os dois assumiam dentro da hierarquia familiar no qual fora criado eram completamente distintos. Assim, de um lado ele tentava convencê-la de que não fazia sentido que ele tratasse os filhos por igual já que eram duas pessoas completamente diferentes e do outro Hermione tentava convencê-lo de que não era saudável dar privilégios a um e privar o outro. Eles defendiam lados diferentes e ela sabia que encontrariam um equilíbrio assim como haviam encontrado em outras áreas, porque apesar de terem ideais tão diferentes, eles se escutavam e se esforçavam para se compreenderem.


 


Colocou o filho no berço com muito cuidado. Usou a varinha para isolar o lado acústico dele e dela, para que quando Hera acordasse e reclamasse de fome, ele não acordasse com o choro dela. Respirou fundo com uma sensação de vitória ao vê-los dormindo e deixou o quarto.


 


Encarou o corredor a sua frente. Suspirou prolongado e avançou até a porta do escritório de Draco. Tentou preparar-se psicologicamente para o que quer que tivesse que enfrentar e entrou.


 


Ela se surpreendeu por ver todas as coisas da mesa dele esparramadas no chão. Draco estava sentado em sua confortável cadeira com os pés em cima da mesa e uma garrafa de whisky na mão. Sua camisa meio aberta e a gravata desatada pendurada no pescoço. Hermione estaria bem se as coisas dele não estivessem no chão porque para elas estarem ali, Draco teria que tê-las derrubado ali e essa imagem discordava daquilo que ela sabia que Draco era. Ele acreditava no auto controle, na raciocínio lógico, no racional. Ela não conseguia ver Draco derrubando tudo aquilo no chão. Não fazia sentido. Não ele.


 


-       Hey. – ela se aproximou cuidadosamente.


 


Ele se recusou a direcionar o olhar para ela. Apenas tomou um gole da garrafa em sua mão. O que era outra lei que ele quebrava. Draco Malfoy não bebia da garrafa. Era algo grosseiro. Hermione aproximou-se ainda mais desviando do que estava no caminho ate chegar ao lado aposto da mesa.


 


-       Desculpe ter falhado com você. E com as crianças. – ele soltou cansado.


 


Hermione não soube como reagir. Draco Malfoy não pedia desculpas. Nunca pedia desculpas. Ela não conseguia se lembrar de alguma vez que Draco havia dito a palavra “desculpa”. Ele dizia “sinto muito”, mas nunca “desculpa”.


 


-       Essa é a primeira vez que pede desculpas por algo?


 


-       Não. - Ele ainda continuava sem encará-la. – Peço desculpas quando reconheço que o erro cometido foi inteiramente causado por mim. – suspirou. – E quando isso me incomoda o suficiente. – colocou a garrafa sobre a mesa e a encarou. Pausou como se estivesse lendo todo o rótulo da bebida. – Quantas vezes na sua vida você já se sentiu culpada por algo?


 


-       Culpada?


 


-       Sim. – ele a encarou. – Culpa. – enfatizou. – Quantas vezes na sua vida já sentiu o peso da culpa.


 


-       Desde que fui trazida até aqui, perdi as contas das inúmeras vezes que já carreguei culpa. – respondeu ela. – Não que eu nunca tenha carregado culpa antes disso. - acrescentou


 


Ele tornou a desviar o olhar.


 


-       Então talvez você me entenda.


 


Entenda o que? Entenda o porque ele agia como se ela não existisse as vezes? Entenda o porque ele não se esforçava em comunicar ultimamente? O porque ele a deixou em casa sozinha para colocar as crianças na cama porque não queria voltar para casa? O porque ele fugia dela quando ela o confrontava? Deu a volta na mesa e sentou-se nela ao lado de Draco sabendo que aquela poderia ser uma longa conversa. Ela realmente torcia para que fosse.


 


-       Você precisa que eu te entenda?


 


Ele negou com a cabeça.


 


-       Não.


 


Ela suspirou cansada e ajeitou os cabelos confusa e de alguma forma impaciente.


 


-       Então posso culpar o quanto te sinto distante na sua culpa? – Draco deu de ombros como resposta e ela sentiu seu coração apertar pela falta de cooperação da parte dele. – Então me dê umas justificativa, Draco. Por favor. Uma que faça sentido. Porque eu sinto que tenho dado tanto de mim! E não que eu tenha tido qualquer expectativa de receber o mesmo, eu já aprendo que tudo com você é uma surpresa. Mas eu sei que nós já fomos diferentes disso. Foi pouco e foi por pouco tempo, mas eu me lembro de quando disse que me deixaria ter seu coração, e eu sinto que realmente o tive. Mas eu não sito que o tenho agora. Não mais. E se isso não fizer sentido para você, se quiser que eu entre dentro do seu vocabulário, devo lembrá-lo de que tínhamos um acordo. Você me daria seu coração se também tivesse o meu, e vice versa. Preciso que me diga quando devo tomar o meu de volta porque eu não sinto mais que esse acordo está correndo como deveria correr originalmente.


 


Draco soltou um riso fraco e tomou um gole de sua bebida.


 


-       Você é uma mulher fantástica. – ele comentou.


 


Ela lutou com sua paciência e tomou a garrafa da mão dele.


 


-       Eu tentei falar na sua língua, Draco. Você poderia, por favor, tentar falar na minha? – pediu por atenção.


 


Ele suspirou e a encarou rendendo-se ao limite que ela estava querendo tornar visível. Pareceu pensar por um momento.


 


-       O dia que eu perder o seu coração, o dia em que eu te perder, Hermione, será o dia em que eu irei perder minha melhor escolha.


 


-       Por favor, Draco. – ela soltou o ar exausta. – Como espera que eu vá acreditar nisso? Toda vez que você me toca, eu sinto como se estivesse, de alguma forma... – ela queria encontrar outra palavra. - ...com raiva. - Ele desviou o olhar outra vez e isso lhe quebrava o coração. A rejeição foi como uma facada em seu estômago ao qual ela se via obrigada a reagir silenciosamente. – Eu só queria uma justificativa honesta Draco. Só uma. - Ele se silenciou. Ela quis chorar. Mas não chorou. Deu a ele um bom minuto e levantou-se quando viu que não teria uma resposta. – Boa noite, Draco.


 


Foi em direção a porta.


 


-       Tenho receios quanto a você, Hermione. – ele disse antes que ela deixasse o escritório dele. Ela parou. – Tenho receios de quem é. Tenho receio de todo o seu poder. Tenho receios da sua inteligência. Tenho receios e isso as vezes me deixa confuso. Confuso sobre o quanto eu sinto que te pertenço.


 


Pensou se deveria ou não gastar seu tempo com aquilo.


 


-       Draco. – soltou o ar e voltou-se para ele. – Você deveria saber que quem tem o direito de se sentir confuso e com receio de quem sou, sou eu mesma.


 


Ele uniu as sobrancelhas nem um pouco contente com a falta de compreensão da parte dela.


 


-       Primeiramente, Hermione: Você é minha esposa, minha mulher, minha família! Eu tenho o direito de ter meus questionamentos sobre você! – defendeu-se. - Eu sei que nunca conversamos sobre isso, Hermione. Mas sei muito bem que você sabe o que pessoas como eu fazem com pessoas como você.


 


Hermione travou ao escutar aquilo quando a ficha caiu. Ele só podia estar brincando. Sim, ela sabia que Malfoys eram responsáveis por dizimar todos os descendentes de Morgana, mas isso era algo que ficara no passado.


 


-       Você não pode estar falando sério. – ela soltou. – Isso é algo milenar que morreu no passado.


 


-       Isso não morreu no passado! Esse é mais um dos deveres que eu tenho como um Malfoy, Hermione.


 


Ela ficou confusa por um segundo, mas não por muito mais do que isso porque seu cérebro logo lhe jogou a peça que estava faltando. Foi como um clique. Era isso! Só podia ser isso! Era essa peça que ela estava procurando para fazer a pergunta certa! Aproximou-se novamente da mesa, dessa vez ela estava pronta para ter sua resposta e se não tivesse, ela faria Draco a cuspir. Seu corpo parecia pegar fogo.


 


-       Você sabia disso quando disse que se dedicaria a nós dois! Sabia do seu dever e sabia quem eu era! Vai me dizer o que mudou e porque mudou ou eu vou fazê-lo dizer! Não pense que tem o direito de esconder isso de mim!


 


Ele se fechou tão rapidamente quanto ela. Tirou os pés de cima da mesa.


 


-       Como você ousa pensar que isso é sobre você, Hermione? – ele parecia tão curioso quanto ela.


 


-       Como você ousa pensar que não é? Acaso tem se educado mais a respeito do seu precioso dever de me dezimar? Eu pensei que fossemos um time, Draco! Pensei que estava me ajudando a entender mais sobre quem eu sou, me ajudando a descobrir como vim parar aqui, me ajudando a aceitar tudo isso! Eu pensei que... – oh não! Ela não queria chorar! – Eu pensei que estava do meu lado!


 


-       Hey! – ele se levantou com raiva. – Eu estou do seu lado, mas você já parou para pensar o que isso significa para mim?


 


-       Draco...


 


-       Não! – ele a cortou rispidamente. – Você me escuta agora! E nem pense em derramar uma lágrima enquanto estiver me fazendo pensar o que estou pensando agora porque isso vai me fazer te odiar muito! – Céus! Será que ele não entendia que ela sentia que estava o perdendo e que era isso que lhe doía? Mas ele continuou. - Você pensa que esse relacionamento gira em torno de você porque por muito tempo você nunca me fez nada e eu sempre encontrava uma oportunidade de lhe fazer mal! Não pense que só porque eu finjo ignorar que as vezes sinto que me olha e se pergunta se eu quem matei seus pais que eu não sei que carrega essa dúvida com você e tem medo de saber a resposta. Não pense que eu não sei que você se sente no direito de carregar muito mais culpa por estar envolvida comigo por causa de tudo que já te fiz do que eu! E por causa de tudo isso, eu fico em silêncio e procuro ser o mais compreensivo possível quando você me olha diferente, quando as vezes me dá as costas, quando as vezes não quer que eu a toque. Eu entendo a carga que tem que engolir quando me retribui afeto, Hermione! Eu só gostaria que me entendesse tão igual quanto! Não que você tenha me feito algo, mas será que consegue por um segundo se colocar no meu lugar? Você sabe que uma parte muito grande de mim é o meu orgulho e não pense que porque agora sei que na verdade nunca foi uma Nascida Trouxa, as coisas se tornaram mais fáceis. E não ouse me julgar pelo meu orgulho, Hermione! Você tem um tão mal fundamentado quanto o meu! – ele disse antes mesmo que ela tivesse a chance de revidar. - Você é uma descendente de Morgana! Acaso já se passou pela sua cabeça que o fato de não conseguir segurar a pedra da minha família por muito tempo é culpa de quem você é? A história do passado dos Malfoy não são livros, documentos e artefatos, Hermione! Aconteceu! Eu sou responsável por contribuir com um pedaço a mais da impecável linhagem que me antecede! Você pode não entender isso porque não é você que carrega esse peso. Eu estou do seu lado, Hermione! Eu não conseguiria não estar, nem que eu me esforçasse para isso. Mas essa minha decisão muda uma história de séculos! – ele tomou ar cansado. – Já parou para pensar o porque meu pai quis me casar com você sabendo bem quem você era? Ele nunca quis um final feliz, Hermione. Meu pai não acredita em nada relacionado a amor. Ele quer um final forte. Ele quer o nome Malfoy mais forte e ele acredita, junto com Voldemort, que Hera e Scorpius é esse final. Não eu e você. Não você. – ele precisou desviar o olhar rapidamente antes de continuar, como se não tivesse certeza se tinha coragem de continuar. Aquilo bateu nela como um forte empurrão. Ela podia querer diminuir o quanto quisesse toda aquela história de passado Malfoy, mas ela não havia sido criada como Draco fora criado e ela não conhecia o peso que Draco conhecia quando lidava com aquilo. Será que ele estava finalmente mostrando o outro lado da moeda? Por que se ele realmente estive, ela estava começando a se sentir acuada por não ver o que esperava que fosse ver. – Eu nunca fui contrário ao meu pai quando se diz respeito ao legado da família. Tudo isso que estamos fazendo contra o Império de Voldemort é resultado da minha fiel obediência as convicções do meu pai sobre o que é melhor para a história que vamos deixar no legado Malfoy. Tudo isso que estamos passando, tudo o que vamos passar, as vitórias que vamos ter, a segurança dos nossos filhos, a liberdade que virá depois... Tudo isso começou com o meu pai, Hermione. Eu posso odiá-lo o tanto que for, mas ele sempre soube cumprir com a responsabilidade do papel que ocupava e eu jamais vou ousar contradizê-lo porque ele se dedicou mais do que qualquer Malfoy um dia se dedicará a história dessa família. Ele sempre lutou pelo legado custe o que custar, doa a quem doer, e eu sei que grande parte do que ele é vem das duras e cruéis decisões que ele teve que tomar para se comprometer de verdade com a responsabilidade que lhe foi dada. E ele plantou isso em mim, Hermione. – e ela sabia bem o quanto aquilo era um fardo para ele. - Eu posso odiar muito do que ele colocou em mim, mas ao mesmo tempo, eu não posso rejeitar. – E era por isso que ela chamava de fardo. - Não posso nem mesmo ignorar. Eu estou provando o gosto do que é sentar na posição que ele sentou sendo o cabeça da família Malfoy e me assusta o tanto que a referência mais viva que eu tenho do que é ser o cabeça da família Malfoy é meu pai. Ele construiu mais coisa em mim do eu pensava. E eu não ousaria ir contra a palavra dele. Mas também jamais encontraria coragem para levantar um dedo contra você, Hermione. Consegue entender o que é carregar isso? Será que consegue entender agora? Será que... por favor... – soltou o ar. – Eu tenho minhas barreiras. Você tem as suas. Eu dou espaço para os seus momentos. Você dá espaço para os meus.


 


Depois de todo aquele monólogo para se fazer ser compreendido, ela finalmente se viu sem venda nos olhos. Era isso? Era isso que estava o segurando? E... Ela também nunca percebera que também já havia o afastado dela por carregar suas culpas, seus pensamentos contra ele, seus receios e seus questionamentos. Será que agora ela estava sentindo a dor que ela já havia lhe causado em alguma outra ocasião? Seria hipócrita se dissesse que não conseguia resgatar nenhuma memória de ter se afastado dele por um tempo por não estar conseguindo lidar com alguma característica da personalidade dele. Talvez ele estivesse se afastando por ainda estar lidando e processando o peso da decisão de estar do lado dela. Será que ela havia exagerado ao reagir sobre a distância dele? Será que só parecia um enorme oceano de distância por causa de todos os outros problemas, pressões e tensões que também estava tendo que lidar?


 


-       Isso é louco, Draco. – ela passou as mãos pelo rosto confusa e frustrada. – Será que eu posso dizer, sem ser julgada por tudo isso que você disse, que durante todo esse tempo em que eu fui privada da sua verdade, tudo o que eu senti é que estava te perdendo e que isso me doía?


 


-       Sim. – ele assentiu. – Eu sei que estava sentindo que estava me perdendo. Por isso te pedi desculpas. Por isso te peço desculpas e vou continuar te pedindo desculpas, porque enquanto eu tento lidar com tudo isso, não consigo achar uma solução para concertar nós dois. – ele disse mostrando a dor que aquilo lhe causava.


 


Oh não... Não. Não! Ela não queria que aquilo lhe apavorasse tanto, mas a apavorava. Ela não tinha forças para lidar com isso agora. Ela não tinha forças para tirar seu coração das mãos dele.


 


-       Isso não está funcionando, Draco. – ela lutou para dizer. Sua garganta ardia.


 


-       Não está. – ele concordou e ela quase desmoronou. – Mas quem disse que deveria? Quem disse que iria? – ela ergueu os olhos imediatamente para ele. E quem disse que deveriam desistir por causa disso? – Nós sabíamos desde o começo que não fomos feitos um para o outro. Continuo preferindo passar por cima disso do que ignorar tudo que já construímos. – será que ela quem não estava passando por cima de tudo aquilo? - Nós não fomos feitos para dar certo, Hermione. Eu não acho que algum dia nós vamos dar. Mas se eu tenho a opção de continuar tentando essa é a opção que eu vou escolher, porque se eu desistir, o que é que eu vou fazer com tudo que existe dentro de mim por você? Não é como se eu simplesmente pudesse ignorar e tentar esquecer. Eu já tentei essa opção.


 


Ela nunca se sentiu tão chacoalhada na vida. Sua cabeça dava milhões de voltas e ela se perguntava como estava conseguindo processar tudo aquilo. Ela precisava de paz! Céus! Tudo que ela precisava era esquecer por um segundo, tudo que vivia, e ter paz!


 


-       Draco. – ela fechou os olhos, respirou fundo sem presa e tornou a encará-lo. Abriu a boca para dar continuidade aquela exaustiva troca de palavras, emoções, frustrações e expectativas. Mas calou-se. Ponderou por mais um segundo e disse: - Quer saber? – soltou o ar cansada. – Eu vou para cama. – deu as costas e saiu do escritório dele tendo tempo para ouvi-lo se jogar novamente em sua cadeira.


 


Sua cabeça borbulhava com mil pensamentos. Fez uma rápida viagem ao quarto dos filhos para checar o sono deles. Chegou em seu quarto, tirou seu robe, deitou na cama, se cobriu com seu cobertor e fechou os olhos. Sua cabeça fervilhava. Apertou os lábios e chorou silenciosamente.


 


Não chorou por Draco, não chorou por toda a confusão de estar tentando descobrir quem era, não chorou pela ameaça de Voldemort sobre seus filhos, não chorou pela tensão que vivia com toda a conspiração dos Malfoy contra o Império... Ela chorou de cansaço. Chorou de exaustão por ter que carregar tudo aquilo e ainda andar no seu salto como se estivesse tudo sob controle. Chorou por ter que chorar em silêncio. Chorou por ter vergonha de chorar. Chorou. Chorou até que parou.


 


Parou e cochilou. Cochilou até escutar Draco. Ficou meio acordada e meio dormindo enquanto o escutava tomar seu banho e se mover pelo quarto. Quando ele tomou o seu lado da cama, ela buscou pelo espelho do seu lado da cabeceira para espiar Hera e Scorpius em seus sonos. Moveu sua atenção para Draco e ele fez o mesmo. O silêncio entre eles foi confortável.


 


-       Você chorou? – perguntou ele no cochicho condizente ao silêncio do quarto.


 


-       Uhum. – ela respondeu num murmúrio rouco pelo sono.


 


Ele respirou fundo.


 


-       Tudo bem. – Passou os braços por ela e a trouxe para si. – Eu também.


 


Ela não quis fazer seu cérebro trabalhar e apenas aceitou que os dois tiveram o espaço que precisavam. Acomodou-se confortavelmente sobre ele e fechou os olhos.


 


Paz.


 


Era tudo o que ela precisava e era o que ela sentia quando estava nos braços dele mesmo em meio a toda guerra que viviam, mesmo com o conturbado relacionamento que tinham. Dormiu.


 


**


 


Hera acordou duas vezes durante a noite. Draco cuidou das duas. Scorpius só acordou cedo pela manhã, quando o sol dava sinais de que acordaria em pouco tempo. Hermione foi pelos corredores escuros da casa para busca-lo comemorando a rara noite completa de sono de seu filho.


 


Ele sorriu quando a viu e tentou dar pulinhos enquanto segurava as grades do berço. Hermione sentiu seu coração se encher pela alegria dele. Pegou Scorpius no colo, interagiu com toda a energia dele, trocou sua fralda e seguiu de volta para o quarto.


 


Draco ainda dormia quando ela colocou Scorpius na cama. Ele engatinhou com pressa em direção ao pai, mas não o escalou ou tentou acordá-lo brutamente. O filho apenas colocou seu rosto próximo a do pai deitando de bruços abraçado ao seu travesseiro, o encarou e começou a balbuciar em sua própria língua baixinho, exatamente como Draco fazia com ele. Hermione não conseguiu segurar o próprio sorriso. Draco abriu o dele antes de abrir os olhos para ver o filho ao seu lado.


 


-       Você dormiu a noite inteira, não foi? – conversou com o filho em sua voz rouca e grossa da manhã. Scorpius gargalhou como se o pai tivesse contado uma piada. Draco riu da reação dele. – Deveria ensinar sua irmã a fazer o mesmo.


 


Hermione quem riu dessa vez. Draco desviou sua atenção para ela e seu olhar trocou de tom. O sorriso ainda era caloroso, o olhar ainda era denso, mas havia algo a mais quando ele olhava para ela. Havia algo ardente, havia uma conexão, uma cumplicidade. Céus! Como ela se sentia especial quando ele a olhava!


 


-       Quer que eu traga café? – ele perguntou para ela.


 


Ela negou com a cabeça acomodando-se novamente em seu lado da cama.


 


-       Ainda é cedo. – ela recebeu Scorpius quando ele fez seu caminho até ela. – Fique aqui. É domingo.


 


Draco não tirava dias de folga, mas desde bem antes dos filhos nascerem, quando ele e Hermione começaram a ter uma relação diferenciada, ele se permitia ser devagar nas manhãs de domingo.


 


Ele checou o espelho em sua cabeceira para poder espiar Hera ainda dormindo em seu berço. Acomodou-se novamente em seu travesseiro e fechou os olhos enquanto Hermione se ajeitava para amamentar o filho ansioso. Ela podia dizer sem nenhuma vergonha que amamentar fora seu maior desafio. Tudo é bem mais complicado quando se tem dois bebês ao mesmo tempo. Não se sentia derrotada por considerar a mamadeira sua melhor amiga, mesmo que os filhos ainda não tivessem um ano.


 


Ela ainda se esforçava para amamenta-los, mas era pouco, o que consequentemente tornava sua demanda pouca, e ela sentia que diminuía cada vez mais. Mas tudo isso a facilitava em sua rotina com os filhos, no bem estar deles, dela e de Draco, que com muita paciência aceitava o corpo dela na fragilidade em que estava. O que ela sabia que para ele era um desafio, o que tornava tudo muito animador, e facilmente decepcionante as vezes.  


 


Hermione esticou o braço e brincou com o cabelo de Draco ao seu lado enquanto tinha seu momento especial com Scorpius. Draco segurou sua mão um tempo depois e entrelaçou seus dedos nos dela.


 


-       Que horas minha mãe vai vir hoje? – ele perguntou sonolento.


 


-       Antes do almoço. – respondeu ela.


 


-       Você vai para a Catedral?


 


-       Não pretendo.


 


-       Vocês duas poderiam ficar aqui de tarde. Minha mãe tem passado muito tempo com tia Bellatrix. Eu sei que isso é importante para assegurar nossas conexões com alguém tão próximo do mestre, mas não quero que Bellatrix entre dentro da cabeça da minha mãe. Ela está passando por um momento complicado com tudo isso envolvendo meu pai.


 


-       Deveria dar mais crédito para o bom senso de razão da sua mãe.


 


-       Eu dou, Hermione. – ele abriu os olhos para encará-la. – Mas minha tia e minha mãe são irmãs. Elas tem uma conexão. Minha mãe pode acabar baixando a guarda estando perto dela por muito tempo apenas por se sentir confortável com ela. E eu sei que minha tia Bellatrix nunca abaixa a guarda. – Hermione poderia concordar com aquele pensamento. Além do mais, Draco conhecia mais sobre a mãe do que ela. – Eu só quero que ela tenha algum tipo de equilíbrio. Estar com você a faz lembrar com mais frequência de que estamos em uma missão. Ela tem mais tendência para esquecer disso agora porque está tentando não dar atenção para o meu pai e ele era a principal conexão que ela tinha com a responsabilidade do seu papel como uma Malfoy. – Hermione as vezes tinha vontade de rolar os olhos quando ele começava com aquele discurso familiar. – Acha que pode cuidar disso para mim?


 


Ela suspirou e assentiu. Ela não podia pará-lo, não podia detê-lo, não podia fazer nada. Ele já acordava trabalhando, ele já acordava sendo o patriarca Malfoy. Não precisava estar na Catedral ou em uma reunião oficial de família. Podia apostar que por trás do silêncio dele, já estava designando ordens e planejando tudo o que faria naquele dia. O cérebro dele não desligava. E ela não o culpava por isso, porque não havia um momento em que o dela conseguia desligar. Nem quando dormia, descansava.


 


-       Sim. – respondeu. Como podia dizer não para o modo como ele tão gentilmente a designava para aquela tarefa? Ele definitivamente aprendera que ele não podia simplesmente designar ordens a ela como fazia com seus homens em seu departamento. E podia dizer que era uma vitória que ele tão detalhadamente justificasse o porque era necessário que ela fizesse isso. Era quando ele se preocupava em incluí-la em seus planejamentos que ela conseguia entrar dentro da cabeça dele e entender suas emoções, medos e expectativas. E também não podia negar que se sentia bem por saber que ele confiava a ela, suas preocupações com a mãe. – Como você acha que o dia vai sorrir para nós hoje? – perguntou e ele suspirou e fechou os olhos novamente como resposta. - Eu não acho que seu discurso de ontem atingiu as expectativas de Voldemort.


 


-       Nunca foi a intenção atingir as expectativas dele. – Draco abafou a resposta no travesseiro.


 


Ela deixou o silêncio ter a fala por alguns segundos.


 


-       Você não tem medo?


 


Ele soltou o ar a abriu os olhos novamente, mas não a encarou.


 


-       Você costumava ter medo de enfrentar Voldemort? – ele perguntou depois de um tempo.


 


-       Não. – ela respondeu. – Mas eu era alguém sozinha antes.


 


-       Eu também não costumava ter. – ele respondeu. – Eu entrei nessa grande conspiração sabendo que eu nunca teria nada a perder, Hermione. Essa foi a maior revelação que Voldemort já teve sobre mim. Ele sabia que eu não tinha nada a perder indo contra ele. Ele sempre tentou me comprar com poder, com posição, com influência, mas ele sabia que eu teria tudo isso com ele ou sem ele. Eu nunca vou deixar de ser um Malfoy. Eu nunca vou perder poder ou influência. Nunca vai me faltar uma posição grandiosa. – ele suspirou. – Por isso ele me deu você. – ele esticou a mão e tocou a cabeça de Scorpius muito cuidadosamente e gentilmente. Brincou com os poucos fios loiros. – As vezes o medo me tira o sono. Eu antes não tinha nada a perder. Agora eu tenho tudo. Esse foi o jogo dele. Ele sabia muito mais sobre mim do que eu mesmo e as vezes quando olho para trás, consigo ver o quanto ele estava muito mais a frente do que eu imaginava. Todos os testes, todos os desafios, todos os sacrifícios que tive que passar só provaram para ele o quanto eu estava me envolvendo com você. O que era exatamente o que ele queria. – Hermione estava surpresa de estar escutando aquilo. – Ele sempre soube que eu era vazio. E ele sempre soube que eu era diferente do meu pai porque meu pai é completamente vazio, mas ele nunca realmente se importou de ser o que é.  Voldemort sabia que eu me importava, e sempre tentou me convencer de que eu era exatamente como meu pai, para que eu nunca pudesse perceber o que realmente estava acontecendo quando as coisas entre eu e você começaram a tomar significado. – ele se espreguiçou e sentou. Puxou os cabelos para trás e bocejou. Inclinou-se sobre ela. – As vezes, quando estamos aqui, eu, você, Scorpius e Hera, quando estamos tentando dar banho nas crianças antes de coloca-las na cama, ou quando tomamos café da manhã juntos domingo, ou todos os dias quando acordo e te vejo dormindo, me perguntou se é realmente necessário colocar tudo que eu temos em jogo. As vezes me pego pensando se talvez tudo não fosse mais fácil se comprássemos uma casa maior aqui mesmo e passássemos a ser apoiadores devotos e sem nenhum questionamento do Império de Voldemort. Nós temos a nossa família. Eu tenho você, nós temos nossos filhos, temos influência aqui, temos poder aqui, e quem sabe Voldemort deixasse de lado toda essa fascinação em te fazer sofrer se você se comprometesse a ser fiel a ele. As vezes eu me pego pensando se esse não seria o caminho mais sábio e mais seguro a tomar para conseguir viver finalmente a nossa vida perfeita. Penso nisso até perceber o quanto é insano imaginar que isso funcionaria. Voldemort precisa da importância do nosso nome para o Império dele e isso o irrita, e enquanto nós formos uma pedra no sapato dele, nós nunca vamos dormir debaixo de um teto seguro. – inclinou-se sobre ela, tirou os cabelos dela do caminho e lhe deu um beijo simples, mas sem pressa nos lábios. – Vou buscar café da manhã para nós.


 


-       Hey. – ela tocou seu rosto tentando impedir que ele fosse embora rápido. – Eu definitivamente me comprometeria a ser uma fiel serva de Voldemort se eu tivesse certeza que isso nos garantiria a vida perfeita. Eu me tornaria um dos cães dele se fosse preciso.


 


Ele riu.


 


-       Eu sei que faria, Hermione.


 


-       Eu faria por você. Faria pelos nossos filhos. Eu daria o que fosse preciso pelo que temos, Draco.


 


-       Eu sei que daria. – deu mais um beijo nela, dessa vez rápido. – Vamos ver se o tempo acaba colocando a mesa para nós.


 


Ele deixou o quarto. Hermione observou Scorpius por mais alguns poucos minutos enquanto sua cabeça passava de um pensamento para o outro numa velocidade irritante. Tudo que ela podia concluir era que sentia que seu pequeno mundinho estava prestes a entrar em colapso. Ela sentia que deveria estar contando os minutos para ser atingida por uma bomba. Em seu cabeça, fazia todo o sentido que ela fosse surpreendida por algo. Não podia esperar que Voldemort também não tivesse o próprio jogo dele, e depois de tudo que ele estava tendo que engolir com a veneração que o mundo havia criado em cima da nova família Malfoy, num império onde somente ele podia brilhar, fazia completo sentido que ele estivesse guardando sua reação contra tudo aquilo para algum momento especial.


 


Conseguiu distrair-se quando olhou o espelho da cabeceira de Draco e viu Hera acordada em seu berço. Ela achava engraçado como a filha gostava de ser independente. Muito diferente de Scorpius, Hera muito dificilmente chorava quando acordava pela manhã. Ela gostava de brincar, se distrair e explorar seu espaço em seu espaço. Muitas vezes acabava dormindo novamente, mas quando Draco voltou carregando um pequeno banquete e viu Hera acordada em seu berço, ele não esperou muito para ir busca-la.


 


Hera era fã do pai. Não que ela não gostasse de Hermione, mas se ela tivesse que fazer uma escolha, ela sempre escolheria Draco. Talvez porque ele era obrigado a não ser tão presente quanto Hermione, algo clicava na filha para estar mais perto dele quando tinha a chance. Draco adorava abusar disso. Adorava mimá-la. Ele se dava e se doava muito a ela e Hermione se sentia completamente apaixonada por ele quando observava em seu canto todo esse cuidado. Ela sabia que ele faria o mesmo por Scorpius se, ao contrário de Hera, a escolha dele sempre fosse a mãe.


 


Eles bagunçaram a cama e sujaram todo o lençol enquanto comiam, conversavam, riam e dividiam preocupações sem se preocupar com o tempo. Eles tentavam se distrair com histórias de pessoas estranhas pela Catedral, ou de convites bizarros que recebiam. Discutiam sobre as notícias que rondavam o mundo e sobre o que saia no Diário do Imperador. Eles nunca mencionavam Hogwarts. Nunca tocavam no passado. Sempre que davam a volta quando qualquer assunto começava a leva-los para a rota de Hogwarts. Haviam sido partes muito significativas na vida dos dois, mas elas sempre remetiam a família de amigos que Hermione havia deixado para trás e a lista de mulheres, preconceitos e estupidez comportamental de Draco. O clima entre eles mudava quando chegavam muito próximo do assunto.


 


Draco a ajudou a limpar a boca e a mão das crianças na pia do banheiro. Os quatro seguiram de volta para o quarto de Scorpius e Hera onde todo o ritual da manhã deles foi atuado um pouco fora de horário, o que era caso normal para um domingo. As vezes, quando eles viviam aqueles momentos simples, ela se pegava sentindo sua cabeça explodir quando a informação de aquela era sua família e que o homem a sua frente era Draco Malfoy processava rápido demais. Aquela era sua família, aqueles eram seus filhos, seus filhos tão perfeitos, tão saudáveis, tão fortes, tão inteligentes e espertos. E aquele era Draco Malfoy! Draco Malfoy! Seu marido, o pai de seus filhos. E ela o queria! Céus, como ela o queria! O queria sempre e todos os dias! Draco Malfoy!


 


Quando os filhos já estavam vestidos e alimentados, Hermione os levou para o andar de baixo, onde os deixou na sala de piano com Tryn para a diária atividade de coordenação motora fina que Hermione cuidadosamente selecionava para os filhos.


 


Draco já estava no chuveiro quando voltou para o quarto. Ela se despiu e juntou-se a ele calmamente. Aquele era o momento deles. Só deles. Havia demorado um bom tempo desde que tivera os filhos para voltar a apreciar momentos como aquele em sua totalidade. Não podia negar que no começo, por alguns meses, tudo que ela queria era que por um segundo alguém não quisesse algo que seu corpo tão sensível pudesse oferecer. Mas agora que tudo aquilo havia passado, a intimidade deles era outra e era tão melhor. Ele já havia a presenciado em tantas situações frágeis que agora era como se ela não tivesse qualquer mínima insegurança.


 


-       Quatro anos. – ela disse quando eles se abraçaram debaixo do chuveiro.


 


-       Quatro anos? – ele indagou curioso a encarando.


 


-       Estamos casados a quatro anos. Vamos entrar no nosso quarto inverno juntos agora.


 


Ele sorriu.


 


-       Não parece tanto tempo assim.


 


-       Eu sei. – ela concordou. – tivemos dois primeiros anos muito tranquilos.


 


Ele riu e ela o seguiu. Ele se inclinou e a beijou.


 


-       Acho que li em algum lugar que depois de 40 anos podemos conseguir divórcio oficial. – ele sussurrou contra a boca dela.


 


Hermione riu.


 


-       Quem dera.


 


Ele se afastou e cerrou os olhos rindo.


 


-       Não me provoque, Hermione.


 


Ela ficou na ponta dos pés para alcançar a boca dele novamente.


 


-       Você sabe como isso funciona. – e o beijou.


 


Em momentos como aquele ela os sentia tão forte. Sentia como se nada pudesse derrubá-los, como se fossem uma muralha que já haviam enfrentado tudo quanto é tipo de batalha e que não era nenhuma pouca besteira que os derrubaria. Mas ainda assim não podia ignorar que a realidade era diferente e que demoraria muito para deixarem de ser frágeis. As vezes ela até se perguntava se algum dia, o relacionamento deles conseguiria ser realmente forte, inabalável, completamente estável, sem qualquer defeito.


 


Tentou limpar sua mente para sentir a reação de seu corpo com o toque dele. As mãos dele eram firmes e ela gostava de sentir o toque gentil mas cheio de personalidade. Ele a tocava com propriedade, e sempre deixava mostrar que era bom saber que ela era só dele. Ele a fazia se sentir especial. Sempre. Sabia que ela involuntário dele, mas era isso que a fazia se sentir mais especial ainda. Ele havia sido fiel a Pansy Parkinson pela convivência e experiência que tinham mesmo que tivesse sido uma fidelidade diferente e única. Ele havia sido fiel a Narcisa quando decidira que queria viver algo diferente. Ele era fiel a mãe pelo enorme significado que ela tinha. Agora Hermione... Ele não era fiel a ela. Ele era dela e isso vinha com toda a exclusividade que qualquer tipo de fidelidade poderia ter. Quando ela sentia o toque dele, sentia que era isso que ele a dizia e que ele queria que não fosse diferente daquilo.


 


Ela perdeu seus dedos por entre os cabelos molhados dele e ele puxou as pernas dela para envolverem seu quadril. Exploraram o território bem conhecido de suas bocas e sem pressa fizeram amor.


 


**


 


Ela se despedira dele aquela manhã no vestíbulo, acompanhada de Hera e Scorpius. Observou-o descer a enorme escadaria da frente até sua carruagem tentando ensinar os dois a como acenarem “tchau” para o pai da estreita janela do vestíbulo. Trocou um último e calmo olhar com o marido da distância em que estavam antes dele entrar na cabine de sua carruagem e partir para a Catedral. Tudo que Hermione conseguia pensar era que iriam deixar Brampton Fort aquela semana Voldemort liberando a saída deles ou não.


 


Ele tinha sua reunião semanal com Voldemort aquela manhã sobre seus progressos com o exército na intensa busca por Harry Potter. A busca que Draco se esforçava para que fosse sempre muito imperceptivelmente mal sucedida. A tensão entre Voldemort e Draco sempre a incomodava e ela sabia que incomodava o marido tão igualmente e ela só torcia para que Voldemort não estivesse carregando nenhuma carta debaixo da manga que fossem os pegar de surpresa.


 


Assim que Draco foi embora, ela se dedicou ao seu trabalho incessante dentro de casa. Tinha em sua cabeça a memória de sua mãe sempre ocupada tomando conta da limpeza dos móveis, dos tapetes, dos quadros sobre a lareira, dois livros na pequena estante que tinham no escritório de seu pai. Ela sempre estava presente. Sempre cuidava da saúde dela e do pai, sempre se dedicava a preparar todas as refeições, sempre se enforcava para ser uma boa tutora e mãe para ela, uma excelente esposa para o pai, e uma perfeita profissional. Hermione as vezes desejava que pudesse ter a vida dela com Draco e seus filhos e muitas vezes lutava além de suas capacidades para que realmente conseguisse.


 


Mas era impossível. Ela não tinha uma casa de dois andares e alguns cômodos, não era mãe de uma filha única, não tinha um marido conhecido no mundo inteiro e não era parte de uma família cujo as tradições datavam de séculos. Ainda assim, ela relutava a se entregar. Passou boa parte de seu tempo desenvolvendo atividades com Scorpius e Hera. Atividades de coordenação motora, redirecionamento e identificação. Assim que eles deitaram para o primeiro cochilo do dia, Hermione inspecionou cada cômodo da casa ao lado de Tryn para ter certeza de que a limpeza estava sendo feita exatamente como ela ordenava que fosse, ficou uma longa hora na cozinha discutindo o planejamento das refeições para a semana seguinte e quando estava pronta para listar quais conjuntos de prataria usaria para a mesa do dia a hora do cochilo dos filhos havia passado. Eles ainda dormiam, mas ela os acordou porque precisava seguir a rotina. Precisava que eles tivessem sono o suficiente para o próximo cochilo e sono o suficiente para irem para cama de noite. Terminou de listar a prataria para Tryn enquanto organizava os livros da biblioteca de volta as prateleiras na ordem que gostaria que ficassem ao mesmo tempo que tentava manter um olhar restrito em Hera e Scorpius que se aventuravam sobre o tapete de texturas que ela fizera para os dois.


 


Narcisa chegou quando ela estava tentando dar almoço para os filhos, o que não era exatamente uma hora muito perfeita. E Narcisa claramente notou o mesmo quando chegou a sala de jantar e percebeu a bagunça ao fim da mesa, onde Hera e Scorpius faziam a festa com a variedade de vegetais que tinham a disposição.


 


-       hum... – Narcisa se aproximou calmamente caminhando sobre seu olhar avaliador. – Podia pedir que alguém a ajudasse a colocar comida na boca deles, Hermione.


 


-       Eles são perfeitamente capazes de comer por eles mesmos. – ela respondeu.


 


-       Não sem fazer essa bagunça e eu tenho visto que isso não tem melhorado.


 


Hermione soltou o ar cansada.


 


-       Quantas vezes vou ter que te convencer do método que venho usando com eles? O benefício é a longo prazo. Quero que eles sejam capazes de explorar opções, de decidirem por si só o que gostam e o que não gostam, de terem algum senso de independência, de perceberem suas próprias competências...


 


-       Sim, sim, sim. – Narcisa a cortou. Respirou fundo e avaliou mais uma vez a cena a sua frente. – Bem, vejo que está ocupada. Quando vamos poder almoçar?


 


-       Eu estou almoçando. – Hermione respondeu. - Pode se juntar a nós se quiser.


 


A mulher ergueu as sobrancelhas.


 


-       O que te faz pensar que eu me juntaria a isso, Hermione? Eu participo de almoços civilizados.


 


Hermione revirou os olhos.


 


-       É só um almoço, Narcisa! Seguimos o protocolo da civilidade no jantar. Prometo. – tentou trazer algum humor para a conversa porque se ela se deixasse irritar, seu dia seria reduzido ao stress.


 


Narcisa ergueu nariz julgador e apertou os lábios. Hermione esperou que ela fosse ceder, porque normalmente ela cedia.


 


-       Vou te esperar na sala de piano. – ela estava séria. – Precisamos conversar.


 


Hermione franziu o cenho.


 


-       Tenho que limpá-los agora e o próximo cochilo deles é só as três.


 


-       Eu sei bem a rotina deles, Hermione. Tenho certeza de que Tryn pode administrar isso bem por alguns minutos.


 


Ela ia abrir a boca para rebater, mas Narcisa deixou a sala antes que ela pudesse dizer qualquer coisa. Soltou o ar derrotada, encarou os filhos e eles a encararam de volta em silêncio.


 


-       Sim, eu sei que conhecem a vó que tem. Mas ela vai ter que esperar. – comentou com eles e sorriu. Puxou o ar e terminou sua refeição, deu tempo para que Scorpius e Hera terminassem a deles. Limpou-os e os passou para Tryn com a tarefa de mantê-los ocupados por alguns minutos enquanto ela dava atenção para Narcisa.


 


Encontrou-a na sala de piano depois de tê-la feito esperar. A mulher havia arranjado uma mesa de almoço para as duas, chá e um display de torradas. Hermione parou diante daquilo e se sentiu irritada.


 


-       Essa é a minha casa, Narcisa. – soltou.


 


-       Sim. – ela disse de volta. – E não pense que não me sinto envergonhada por ter que lhe mostrar como receber uma visita propriamente.


 


-       Você não é uma visita.


 


-       Sim, eu sou. E mesmo se morasse aqui, eu seria. Essa é a sua casa, não a minha. – Hermione teve que lutar para não revirar os olhos novamente. Não estava pronta para recebeu uma lição de Narcisa. – Sente-se, Hermione. – ela apontou para a cadeira oposta da mesa. Hermione sentou-se contrariada. Narcisa puxou o ar e com cuidado continuou. – Eu acho admirável o que tem feito pelos seus filhos. Eles, de fato, merecem todo o cuidado e atenção que podem ter. – suspirou. – Você sempre me deu boas lições, Hermione. Eu a escutei. Quero que entenda que não estou querendo te condenar. Quero a orientar. Sempre me achei nesse papel com você desde o começo. – ela ajeitou-se em sua cadeira. – Você é mãe de dois filhos da mesma idade. É esposa de um herdeiro Malfoy. Tem uma posição enorme na Catedral. Tem uma posição mais grandiosa ainda na mídia. Tem uma posição nessa família. Fora todas as complicações de uma vida pessoa. Nunca lhe ocorreu que isso tudo é muito e que você é só uma?


 


-       Está sugerindo que eu abra mão de alguma dessas posições? Eu não acho que isso seria possível.


 


-       Estou sugerindo que aceite ajuda, Hermione.


 


-       Ajuda? – uma enorme interrogação apareceu em sua cabeça. – Em qual dessas áreas está sugerindo que eu aceite ajuda? Eu não acho que ninguém tenha a capacidade de me substituir como Hermione Malfoy.


 


-       Não é isso que estou querendo dizer. Eu sei que você e Draco tem tentado aproveitar o máximo possível de tempo com Hera e Scorpius possível por receio da ameaça que tem sobre eles. É sem dúvida admirável que vocês dois foram capazes de administrar isso tão bem até agora. Eu fico surpresa sempre que vejo Draco tão ativo em cuidar dos filhos como você. Lúcio nunca se dispôs a se responsabilizar por algumas tarefas que vejo você e Draco executarem. Na verdade, nem mesmo eu me dispus a me responsabilizar por algumas tarefas que você e Draco executam. – ela limpou a garganta e se acertou na cadeira. – Mas é insano a ideia de quererem criar os filhos sozinhos, Hermione. Você e Draco já estão carregando pratos muito cheios. Vocês não são apenas pais. Vocês tem outras responsabilidades enormes, tem outros papéis enormes, carregam outros títulos tão grande quanto. Scorpius e Hera precisam de pelo menos uma tutora. Não estou dizendo para encontrar uma babá. Estou sugerindo ao menos uma tutora.


 


-       Acaso trouxe esse assunto hoje porque Astória te mostrou ontem a entrevista que deu sobre como encontrou a babá de Elise e Eva?


 


Narcisa soltou o ar frustrada.


 


-       Você sabe que eu sempre jogo indiretas sobre esse assunto para você e Draco, Hermione. Não desmerecendo o ótimo padrão de qualidade que Astória colocou para encontrar a babá das filhas, claro. Um padrão no qual você certamente deveria se inspirar. Ela fez um excelente trabalho. Eu tenho certeza que pode pegar ótimas dicas com ela. – Narcisa apertou os lábios quando viu Hermione revirar os olhos. – Veja bem, Hermione. Você sabe que me sinto no papel de te guiar. Não pense que pode se mudar para uma casa como a que tem no Vale dos Bosques e ter uma vida onde só vai existir você, Draco, os filhos e Tryn. Irá precisar de empregados!


 


-       Sim. Eu sei que irei precisar de empregados. Eu e Draco já discutimos sobre isso. Estou muito familiarizada com o estilo de vida da aristocracia bruxa para saber que tipo de ajuda vamos contratar e qual não quando o momento certo chegar. Ele ainda não chegou. Por agora eu e Draco estamos trabalhando bem com as opções de ajuda que temos a nossa disposição. – Hermione viu que Narcisa ainda não estava satisfeita. – Escute. Não se preocupe. Scorpius e Hera vão ter uma lista de tutores extremamente competentes. Eu terei a ajuda do número de babás necessário. Nossa casa terá o número perfeito de empregados, elfos domésticos, jardineiros e qualquer cargo possível que esteja na sua cabeça agora. Não pense que vou morar sozinha com meus filhos e Draco em uma casa como Caverna de Vidro.


 


Ela terminou de dizer aquilo e Tryn entrou apressada dizendo que dois homens da Catedral a esperavam na sala de entrada da casa. Hermione e Narcisa se levantaram imediatamente. Hermione perguntou o que eles queriam para a elfa e ela disse que não foi confiada a informação. Sua cabeça foi inundada de dúvidas e ela logo dispensou a elfa para voltar a dar atenção aos filhos com urgência.


 


Foi até a entrada seguida de Narcisa. Os dois homens estavam de pé esperando por ela. Vestiam a farda do exército o que indicavam que eram homens do departamento de Draco. Homens do exército. Hermione os reconhecia. Mas o que era estranho era que eram homens de zonas altas. Um era membro da zona seis e outro da zona cinco. Membros de zonas altas ficavam em campo de ação, não passando informações dentro de Brampton Fort.


 


-       Tenho um pedido do mestre para te escoltar até a Catedral para uma audiência fechada no salão principal. – o homem da zona seis se dirigiu a Hermione após fazer uma respeitosa reverência as duas. – As ordens do general foram para que eu garantisse sua máxima proteção.


 


-       Por que toda essa formalidade? – ela raramente era escoltada para eventos obrigatórios criados de ultima hora por Voldemort.


 


-       Porque o mestre quer garantir sua presença na audiência e ele está bem consciente da tensão que tem crescido entre a casa Malfoy e o Império. – explicou o homem. – Mas temos ordens do general para garantir sua segurança também. Comensal Thomas recebeu a ordem de ficar em sua casa para garantir isso para seus filhos e para a Sra. Malfoy, se ela, claro, decidir ficar.


 


-       É claro que eu vou ficar. – Narcisa pronunciou-se.


 


-       Não. Espere. – será que era só Hermione que sentia o cheiro estranho daquilo. Ela estreitou os olhos e leu a identificação no uniforme do comensal. – Desculpe-me mas eu não vou para lugar nenhum, Comensal Devon. Não vou deixar meus filhos aqui para ir para Catedral quando é preciso que meu marido mande comensais para garantir a segurança deles quando os deixar.


 


-       É só uma medida de precaução, Sra. Malfoy. – garantiu Devon. – O general tem se preocupado em reforçar o cuidado com a família com as últimas notícias que tem rondado a mídia. E infelizmente, não acredito que seja possível que simplesmente ignore uma intimação do mestre.


 


Sim. Ela sabia que não tinha opção diante de uma intimação de Voldemort. Ela não sabia que seguia o script de que não tinha nada a temer, ou se deveria seguir o instinto que crescia dentro dela.


 


-       Hermione. – Narcisa pronunciou-se novamente. – Não se preocupe. Sabe que posso ficar com Scorpius e Hera. Conheço a rotina deles.


 


Ela não queria ceder, mas sabia que tinha que seguir o script. O script era a peça de teatro que tinha os levado até ali. Ela não podia sair do personagem, não agora. Precisava assegurar que as coisas não explodissem e estourassem até que estivessem bem longe de Brampton Fort, o que Draco já havia dito que não passaria daquela semana. Ela tinha que segurar só mais um pouco.


 


Suspirou.


 


-       Quanto tempo essa audiência vai levar? – perguntou.


 


-       Ninguém tem certeza, Sra. Malfoy. Nós todos sabemos como o mestre pode ser imprevisível. – Devon declarou.


 


Ela assentiu.


 


-       Vou trocar de roupa. – anunciou sua decisão.


 


Subiu as escadas até seu quarto com o coração e a mente apreensivos. A roupa que havia separado para ir a catedral no dia seguinte teve que servir para a ocasião já que seu tempo era curto. Ela vinha negligenciando a troca de estação do seu guarda roupa fazia algumas semanas pois sabia que a próxima fase de seu guarda roupa precisava expressar uma mulher diferente, uma mulher poderosa, e o estilista responsável por essa fase dela já havia enchido seu guarda roupa da casa nova, não daquela casa onde estava. Enquanto estivesse em Brampton Fort, precisava ser a cheia de personalidade, mas frágil e emotiva, Hermione Malfoy para a mídia.


 


Colocou um vestido perolado que escurecia a medida que descia para o fim da saia. Era drapeado e leve com um decote canoa um tanto baixo e de mangas simples o que a obrigou a carregar um pouco mais nas joias e no peso da capa que usaria para aguentar o frio do lado de fora. Não via a hora de se mudar definitivamente para a casa nova bem longe de Brampton Fort e não era só para ter acesso as suas novas roupas e a nova personalidade que iria expor a mídia, mas para simplesmente mudar de fase. Ela estava curiosa para saber como realmente era o fundo do precipício do qual ela e sua família se jogaria.


 


Refez sua maquiagem o mais rápido que pode, pegou Hera e Scorpius para despedir-se e entrega-los a Narcisa. Os filhos entenderam que ela estava deixando a casa pelo modo como os abraçara. O choro foi inevitável e Hermione teve que partir como coração doendo. Desceu e entrou na carruagem da Catedral acompanhada do Comensal Devon. O outro ficou com Narcisa, Scorpius e Hera.


 


Na saída do condomínio da Vila dos Comensais, Hermione notou duas outras carruagens da Catedral passarem por eles na direção contrária. Ela os espiou pela pequena janela da cabine por alguns segundos e se sentiu curiosa.


 


-       Para onde equelas carruagens estão indo? – ela perguntou para Devon.


 


O Comensal do exército de Draco olhou para a janela e esticou o pescoço para poder ver as duas carruagens que haviam acabado de passar por eles.


 


-       É domingo, madame. A maioria dos Comensais estão em casa. Não duvido que o mestre tenha pedido para que alguns deles também fossem escoltados até a Catedral.


 


Hermione viu sentido naquela resposta.


 


-       Quem te deu a ordem de me escoltar? O mestre ou meu marido?


 


-       O mestre. Mas tive direcionamentos do general.


 


Aquilo era o que acalmava o coração dela. Ir para a Catedral sempre crescia nela ansiedade. Ela tinha sua própria maneira de se preparar psicologicamente para quando tinha trabalho a fazer lá, mas isso tinha como requisito antecedência e aquela surpresa de ir para a Catedral sem estar preparada, sem tempo para poder acalmar seu psicológico tornada tudo pior.


 


Ela não estava realmente prestando atenção, mas havia feito o caminho para Catedral tantas vezes que mesmo não olhando para a janela, percebeu quando a carruagem tomou uma entrada diferente. Ela estranhou. Olhou pela janela e confirmou que o caminho era diferente. Procurou não se importar. Talvez ele estivesse tomando uma rota diferente ou quisesse percorrer um caminho menos movimentado ou cortar pelo parque de inverno.


 


Hermione não andava com uma bússola, mas tinha bastante noção espacial e quando viu que quanto mais andavam mais longe ficavam da direção da Catedral, ela não conseguiu mais se convencer de que não deveria se importar.


 


-       Para onde está me levando? – manifestou-se mais do ataque do que na defensiva.


 


-       Eu disse que recebi direcionamentos do general, madame. – respondeu o Comensal Devon.


 


-       Que tipo de direcionamentos?


 


-       Prefiro mantê-los sob confidencialidade.


 


-       Sinto muito, mas isso não funciona comigo.


 


-       Funciona comigo, madame.


 


-       Para onde está me levando? – ela se irritou. – Não me faça usar magia.


 


-       Senhora, eu aconselharia a manter-se o mais ignorante possível. Apenas coopere. Eu tenho a missão de te manter segura.


 


-       Eu posso me manter segura eu mesma. – ela ainda não sabia porque não havia parado aquela carruagem ainda ela mesma. – Não quero seguir seu conselho. Me diga para onde está me levando. Acha mesmo que vou confiar em um Comensal?


 


-       E o que a senhora acha que é, madame?


 


-       Não escolhi ser uma Comensal.


 


-       E acha que eu também escolhi? Duvido se até mesmo membros do círculo interno escolheram a marca que carregam no braço. Os únicos seguidores verdadeiros do mestre foram os primeiros. O que veio depois disso foi a opressão do Império, a guerra, o ‘salve-se quem tiver influência’, o ‘ajoelhe-se ou morra’.


 


Hermione calou-se e ficou sem reação por alguns segundos depois de ter recebido aquela declaração. Por um lado ela quis pular a e abraça-lo por saber que ele estava do seu lado, mas por outro ela duvidou se ele só estivesse fazendo aquilo para ganhar a confiança dela, porque não duvidava que quem fosse realmente inteligente já tivesse captado a mensagem subliminar que ela e Draco vinham jogando na mídia já fazia um bom tempo.


 


-       Para onde está me levando? Me responsa agora ou eu vou tirar essa resposta de você e acredite, não é agradável.


 


O homem suspirou.


 


-       Eu não duvido que consiga. Queria apenas te dar a oportunidade de cooperar. – e sem muitas voltas ele apenas respondeu. – Estou te levando para o portão norte. Tenho ordens do general para te tirar de Brampton Fort o mais rápido e mais imperceptível possível.


 


Hermione sentiu seu sangue gelar e não era o frio na cabine porque sua capa fazia o bom trabalho de lhe esquentar.


 


-       Pare agora. – foi sua primeira reação. – Eu não vou para nenhum lugar onde meus filhos não estejam, eu não vou para nenhum lugar onde meu marido não esteja, eu não vou para nenhum lugar longe da minha família! Eu não me importo com nenhuma ordem que tenha recebido! Me leve até a Catedral agora! – ela precisava ver Draco. Precisava falar com Draco. Precisava de alguém em quem ela podia confiar. – Meu marido jamais daria uma ordem dessas. Meu marido jamais me separaria dos meus filhos! Me leve para a Catedral. – o Comensal a sua frente parecia calmo demais para o nível do seu nervoso. – AGORA!


 


Ele soltou o ar um tanto quanto cansado. Deu duas batidas na madeira da cabine e logo a carruagem estacionou.


 


-       Senhora. – seu tom de voz não mudava. – Eu não vou lutar contra a sua vontade. Eu não posso lutar contra você. Se quiser ir a Catedral, eu vou te levar a Catedral. Mas preciso que entenda que o general, seu marido, sempre esteve esperando da parte dos aliados dele que a segurança de sua família fosse mantida intacta e sempre em prioridade no momento em que estivesse exposta a qualquer eminente perigo. Eu não acabei de receber nenhuma ordem direta dele para te tirar de Brampton Fort o mais rápido possível. Não precisei. Todos nós recebemos o sinal de que era hora no momento em que ele voltou do gabinete do mestre. Ninguém sentou e montou qualquer plano sobre como prosseguir tudo isso, mas somos treinados e somos bons, sabemos o que fazer e como agir em situações como essa. Agora, será que é preciso que eu a lembre da situações em que os Malfoy tem se colocado diante do mestre nos últimos meses? Eu sei que sabe bem do que estou falando e deveria temer sua vida e a de sua família por isso. Principalmente agora. Vou tornar a colocar os fatos novamente na mesa, Sra. Malfoy. Nós vamos tirar você, seus filhos e seu marido de Brampton Fort hoje. Vocês não podem ficar mais aqui um dia que seja. Estamos a cinco minutos do portão norte onde temos uma chave de portal aberta te esperando. O esquadrão de plantão são aliados em potencial e vão ser responsáveis por manter sua saída fora dos documentos pelo máximo de tempo possível. Mas a escolha é sua.


 


-       Onde está meu marido nesse exato momento? – foi o que ela perguntou mesmo depois de tudo o que ouvira.


 


-       Na Catedral.


 


-       Então me leve a Catedral. – finalizou ela.


 


O homem a sua frente ficou em silêncio por alguns segundos completamente sem expressão.


 


-       Senh...


 


-       Me. Leve. Até. Catedral. Agora! – ela foi ríspida.


 


Ele soltou o ar. Fechou os olhos por alguns segundos absorvendo o peso daquela decisão dela. Uma reação que não havia funcionado se caso o intuito fosse de mostrar o erro que acabara de cometer. Ele colocou a cabeça para fora da janela e anunciou um simples “Catedral” para o condutor. A carruagem logo começou a se mover novamente.


 


-       O que pretende fazer com os meus filhos? – suas mãos suavam.


 


-       Eles vão ser levados em carruagens diferentes sob a escolta de comensais diferente para o portão norte. Suas chaves de portais estão sendo preparadas.


 


-       Eles não vão ser levados a lugar nenhum! – ela tinha que chegar logo na Catedral! Não podia deixar que aquilo fosse adiante! Precisava que Draco desse ordem ao seus homens! Precisava que eles parassem! Precisava saber o que estava acontecendo!


 


-       Talvez a madame não entenda, mas quatro alvos em um mesmo lugar é muito mais fácil de ser destruído do que quatro alvos em lugares e momentos diferentes.


 


-       Eu não sou idiota. – ela retrucou. – Eu não vejo necessidade em nada disso. Por pior que seja a nossa situação! Mande homens imediatamente para minha residência. Reforce as entradas e portões. Não deixe com que ninguém chegue perto dos meus filhos!


 


-       Eu não tenho poder para dar ordens como essa, madame.


 


Hermione queria rugir, mas conteve-se.


 


-       Eu juro que se escutar sua voz mais uma vez, vou cortar sua língua eu mesma.


 


O homem apenas acenou com a cabeça em reverencia a ela, o que apenas a irritou mais ainda. Durante o trajeto ela colocou a cabeça para fora mais de uma vez pedindo para que o condutor se apressasse. E ele realmente se apressou. Ela não conseguia olhar para o Comensal Devon e durante todo aquele tempo ela só pensava nos filhos. Ela tinha que chegar a Draco, tinha que parar tudo aquilo e tinha que voltar a tempo para o filhos!


 


Pulou da cabine e voou para dentro da Catedral assim que a carruagem estacionou em um dos portões privados da ala leste, a ala do Q.G. Devon veio atrás dela mantendo o mesmo ritmo de seus passos. Draco foi o primeiro rosto que viu no momento em que avistou a entrada do Q.G. Ele saía acompanhado de um grande número de membros da zona seis. O segundo em que ele e o resto que o acompanhava a avistou, os passos desaceleraram junto com os dele. As sobrancelhas de Draco se uniram e os olhos apertaram. Ele logo avançou em direção a ela e a Devon.


 


-       Por que você deixou que ela te convencesse? – o tom feroz que ele usou foi para Devon enquanto se aproximava


 


-       Ela não poderia lutar contra ela. Ninguém engana sua mulher, general. – O comensal justificou-se.


 


Draco pegou Hermione pelo braço e a empurrou com ele para longe. Ela lutou até conseguir se soltar. Ele não conseguira a levar muito longe.


 


-       O que diabos está fazendo com tudo isso? – ela cambaleou tentando recobrar seu equilíbrio. Se tivesse coragem para cuspir nele, cuspiria.


 


-       O que diabos você está fazendo aqui? Eu preciso que saia desse lugar o mais rápido possível!


 


-       E de que universo você tirou a ideia de que eu iria cooperar com a forma como está trabalhando para me tirar daqui?


 


-       Eu não estou trabalhando em nada, Hermione! Eu estou contando com o apoio de quem está disposto a me apoiar agora! A nos apoiar! Estou confiando em quem posso confiar! Estou dando um tiro no escuro e estou confiando no treinamento que dei para meus homens! Eu não podia te mandar nenhuma nota explicativa, não podia mandar nenhum memorando, nenhuma coruja, nenhum sinal do que está acontecendo! Não posso dar mais chances de fazer com que Voldemort perceba tudo isso antes da hora do que já existe com toda a movimentação de homens que está acontecendo. Não é hora para me dar lições de como me comportar com você! Voldemort quer Scorpius. Ele quer Scorpius agora!


 


Hermione gelou. Scorpius ainda não havia completado um ano!


 


-       Leve reforços para a nossa casa! Não deixe ninguém passar dos nossos portões!


 


Draco soltou uma risada forcada, sem ver graça nenhuma e um tanto quanto chocado.


 


-       Você é mais inteligente do que isso, Hermione. – ele soltou com desprezo. – Você precisa sair daqui agora! Os Comensais estão se mobilizando para tirar Hera e Scorpius daqui logo depois que você for. Eu preciso de vocês longe daqui, Hermione! Para o bem da minha sanidade! Vá embora antes que isso chegue nos ouvidos do mestre!


 


-       General! – uma mulher da zona sete veio correndo até ele. Hermione a reconheceu. – As carruagens foram paradas. Ninguém saí sem autorização direta da torre. O mestre sabe que a Sra. Malfoy acabou de pisar na Catedral.


 


Draco não esboçou nenhuma reação de imediato, mas Hermione pode ver que um balde de água fria havia acabado de cair sobre ele pelo simples olhar vazio e opaco que ele deu depois de um piscada inconsciente. O olhar dele foi para Devon, depois para o grupo da zona seis parado na saída do Q.G. Ele deu um passo inconsciente para próximo dela e Hermione sentiu o instinto protetor quando ele a tocou inconscientemente novamente na cintura.


 


-       Devon. – Draco chamou. – Meus filhos. Eles estão a caminho do portão norte?


 


-       É esperado que estejam, senhor. A ordem do mestre sobre as carruagens aqui na Catedral não interfere neles. – respondeu Devon.


 


-       Eu sei que não interferem. – Draco apertou os dentes. – Como eu posso ter certeza de que meus filhos estão a caminho do portão norte?


 


-       Senhor, sabe bem que nossas formas de comunicação são restritas uma vez que estamos separados. Qualquer sinal pode chegar ao conhecimento do mestre. Não queremos que ele interfira em nossa ação. Mas as ordens são claras. Tirá-los de Brampton Fort.


 


-       Draco. – Hermione quis a atenção do marido. – Quão bem confia nos comensais que estão com Scorpius e Hera?


 


-       Confio neles. – Draco respondeu.


 


-       Quão bem confia neles? – ela insistiu.


 


-       Confio neles, Hermione. – ele respondeu. – É o mais longe que posso ir.


 


É o mais longe que ele podia ir. É o mais longe que ele podia ir? Ela sentiu um vácuo em seu estomago.


 


-       Como você ousa... – se viu quase sem ar e voz. – Como você ousa... – fechou o punho contra ele. – COMO VOCÊ OUSA! – gritou e bateu forte contra a muralha que ele era. – COMO OUSA COLOCAR NOSSOS FILHOS NAS MÃOS DE QUEM APENAS “CONFIA”? – ela não controlou a série de socos e empurrões que vieram do fundo dos nervos que corriam sua pele. – COMO OUSA FAZER ISSO COM NOSSOS FILHOS? COMO OUSA? – alguém a segurou e a afastou. Ela lutou. – COMO OUSA? SÃO NOSSOS FILHOS, DRACO! NOSSOS FILHOS! – gritou.


 


-       Tire as mãos dela! – Draco ordenou para quem quer que estivesse a segurando.


 


Hermione recobrou o equilíbrio quando foi soltada e chorou. Chorou de raiva. Tentou ir contra ele novamente, mas estava sem força agora.


 


-       General. – outro homem se aproximou. Fox. Hermione o reconheceu. – O mestre está pronto para a audiência fechada no átrio principal.


 


Hermione sentiu-se desesperar mais ainda.


 


-       Hermione. – Draco pronunciou depois de respirar fundo. – Eu preciso confiar em quem eu confio. Eu não tenho outra opção. Nós não temos outra opção. Eu não podia deixar que estivessem juntos, que vocês três fossem um alvo só. Seriam três coelhos em uma cajadada só para Voldemort. Seria estúpido. Eu estaria violando um princípio básico que me foi ensinado. Preciso confiar em quem confio! Entende? – ele aproximou-se dela. Aproximou-se bastante. – Pare de chorar. – ele ordenou numa voz baixa. – Eu preciso que saía daqui porque Scorpius e Hera precisam de você quando eles saírem. Preciso que você foque. Preciso que esteja lá para eles. – ele levantou os olhos para Fox. – Fox e Devon. Peguem uma carruagem e a levem para o portão norte. Matem quem precisar ser morto. Tire-a daqui.


 


**


 


Ela apertava o passo para acompanhar os dois homens que a apressavam. Sua cabeça estava nos filhos. Havia uma pressão em seu peito que consumia seus nervos. Ela queria explodir. Mas não podia. Tinha que aguentar a pressão. Tinha que controlar seus nervos. Tinha que ser forte. Ela sabia. Sabia desde sempre que em algum momento a bomba iria explodir. Sabia que seria feio, que ela não estaria pronta e que não saberia como reagir. Tudo que ela podia fazer agora era confiar que tudo ficaria bem. Eles haviam trabalhado muito espertamente para que quando o momento chegasse, tudo ficasse bem. Mas ela duvidava. Duvidava porque por mais que tivessem se desgastado e trabalhado com tanto afinco e empenho em garantir a segurança da família para quando o grande momento chegasse, por mais que tivessem conseguido fazer tudo que fizeram oitenta vezes melhor, nunca conseguiriam ter cem por cento de certeza de que tudo daria certo. Isso matava Draco. Matava a ela também.


 


-       Olá! – Theodore apareceu quando fizeram a curva para cruzarem de ala. Vinha acompanho de três homens da zona cinco, o que estranhou Hermione imediatamente. O que os homens de Draco estavam fazendo na companhia de Theodore? – É sempre bom te ver, Hermione. Você é sempre uma bela visão.


 


Hermione não parou porque Fox e Devon não pararam.


 


-       Não tenho tempo agora, Nott. – ela continuou focada.


 


-       Eu acredito que encontrará tempo...


 


Ele foi cortado quase que imediatamente quando Devon e Fox sacaram a varinha e estuporaram os homens da zona cinco que começavam a formar uma barreira impedindo a passagem deles. Hermione sacou sua varinha num reflexo confuso. Ela não estava esperando por aquilo. Queria repreender Devon e Fox por começarem um ataque desnecessário. Sua saída era para ser sutil! Mas não teve tempo porque os homens de Theodore que haviam conseguido se manter de pé foram tão rápidos para sacar a varinha e contra atacar quando Fox e Devon para atacar.


 


-       Você não luta! Você foge! – Fox a lembrou quando ela, um tanto confusa e receosa avançou para tomar a frente daquela confusão. – Devon!


 


Devon a segurou pelo braço e servindo como escuro a encurralou para os espaços que Fox estava criando em seu ataque.


 


-       Acredite em mim, Hermione! Você não vai querer ir embora! – Theodore gritou por cima do barulho de colisão de feitiços. Tudo acontecia tão rápido que Hermione não tinha tempo de reagir contra ninguém. A verdade e que se descobria com um medo que nunca havia sentido antes quando via todos aqueles feitiços e toda aquela ação ao seu redor. Ela aceitava ter Devon como escuto. Aceitava ser protegida e direcionada porque nada podia acontecer a ela. Se algo acontecesse a ela, o que seria de Scorpius e Hera? Seus filhos precisavam dela! Entrou em conflito consigo mesma viu que aquela não era ela. Ela nunca havia recuado. Nunca recuava! – PAREM! EU NÃO ORDEM PARA NENHUM ATAQUE! – Theodore bradou tão frustrado com aquilo quanto ela. – ELA NÃO VAI A LUGAR ALGUM! ISSO É TOTALMENTE DESNECESSÁRIO!


 


Os homens da zona cinco se reposicionaram na defesa em obediência a Theodore. Foi quando Hermione concluiu que Fox era definitivamente no mínimo duas vezes melhor do que cada um daqueles homens. Era apenas um e conseguia estar em posição de ataque e não defesa.


 


Devon quis aproveitar quando eles recuaram para apressá-la, mas ela acabou parando e forçando a Devon a parar com ela quando escutou da boca de Theodore:


 


-       Acabei de ver seu filho sair de uma das carruagens no pátio principal.


 


-       Ele está mentindo. – Devon soltou quase que imediatamente e forçou Hermione a seguir caminho.


 


Ela não teve muito tempo, mas tentou se convencer de que aceitava aquilo porque tinha que aceitar aquilo. Tinha que seguir caminho. Mesmo que seu coração estivesse querendo sair pela boca com a ideia de seu pequeno e indefeso menino ter sido levado a Catedral.


 


-       Eu não posso... – ela soltou por baixo de sua respiração, muito baixo, enquanto seus passos relutavam a ideia de ser tirada dalí.


 


-       Seus filhos estão a caminho do portão norte, Sra. Malfoy. – Devon tentou ajuda-la a se convencer. – Nott tem tentado tomar o lugar do general há um bom tempo dividindo o exército. Não acredite no jogo dele.


 


Hermione entendeu finalmente o porque Fox não hesitou sequer um segundo para iniciar conflito então. O ressentimento da divisão e da tomada de lados era clara para ela agora.


 


-       Thomas! – Theodore apressou-se enquanto tinha segundos para se fazer manifestar. Devon desacelerou quase que imediatamente ao escutar o nome. Hermione não entendeu. – Ele está do meu lado, Devon!


 


-       Devon! – Fox lhe chamou atenção. – Nós não temos tempo!


 


-       Quem é Thomas? – Hermione fez a pergunta no automático e quase que imediatamente seu cérebro lhe mandou a imagem de Devon chegando em sua casa horas antes, acompanhado de uma outro homem do exército de Draco que tinha na tag de seu uniforme o nome ‘Thomas”.


 


Hermione sentiu seu estômago cair, seu coração pular, seu cérebro dar voltas e sua visão escurecer.


 


-       Vamos. – Devon somente deu as costas e tentou redirecioná-la.


 


-       Não. – dessa vez ela não poderia tentar se convencer de mais nada. Sentia um terrível monstro acordar dentro dela. Uma força que tinha o poder de projetar fogo em qualquer um que cruzasse seu caminho. Voltou-se para Theodore. – Onde ele está?


 


-       Ele está mentindo! – Devon insistiu relutando com si mesmo se deveria ou não usar a força contra ela.


 


-       Você sabe bem onde seu filho poderia estar, Sra. Malfoy. – Theodore soltou com um sorriso nojento enquanto se aproximava.


 


-       Devon! – Fox irritou-se tentando segurar a posição que estava para dar vantagem a ela e Devon. – Temos uma ordem!


 


Devon segurou o braço dela com força, mas antes que fosse puxada Hermione sacou sua varinha contra Devon e se livrou dos dedos dele. Não iria pedir desculpas porque não tinha tempo. Sim, ela entraria no jogo de Theodore. Sabia que era burrice, mas o monstro dentro de si jamais deixaria que qualquer informação sobre seu filho, por mais mentirosa que pudesse ser, fosse ignorada. Se Scorpius estivesse realmente ali, ela só sairia com ele nos braços.


 


Ela ainda escutou Fox soltar um palavrão, escutou Devon retrucar algo grosseiro e a chuva de feitiços que certamente voavam contra os dois, impedindo que conseguissem ir atrás dela. Era burrice não ter ninguém para defende-la, era burrice sair do plano que havia acordado com Draco minutos atrás, mas ela não podia lutar contra o instinto do monstro que rugia dentro dela. O que estava fazendo era exatamente o que Nott queria, mas algo que Nott não sabia era que ela não precisava de ninguém para defendê-la.


 


Seus pés a carregaram direito para o átrio principal onde sabia que não deveria ir de forma alguma, mas por algum motivo, por algum instinto, ela sabia que era ali que seu filho estaria.


 


Fox conseguiu alcança-la. Devon veio logo atrás. Ele foi agressivo e sem hesitar Hermione retrucou sem sequer precisar sacar sua varinha. O que o fez recuar imediatamente ao se lembrar de quem ela era. Ela era poderosa e o maior enigma do mundo bruxo.


 


-       Você pode segurar quantos homens for, mas não consegue me segurar. Nem tente. Você pode me dizer que isso vai me cair morta em segundos, mas não vai me convencer de deixar o meu filho para trás. Eu não vou deixar essa catedral sem ele se ele estiver aqui!


 


-       Esse é exatamente o que pensamento que Nott quer que tenha. – Fox parecia furioso. – Nós temos ordens para passarmos por cima do que for para te tirar daqui. Eu nunca falhei com o general. Não será agora que irei falhar! Se seu filho estiver aqui, o resto de nós fará o que for para tirá-lo daqui porque essas são as ordens do general. Esse é o plano. Sempre foi. Precisa confiar no que foi construído até aqui!


 


-       Não tente me convencer disso quando acabei de ter a maior prova de que o exército está dividido e nem vocês mesmos sabem quem está do lado de quem! Não tente me parar. Sou uma mãe bastante furiosa no momento! Não tente. – ela deu as costas e seguiu seu caminho.


 


Surpreendentemente eles não se meteram no caminho dela. O que na verdade lhe serviu de aviso porque Hermione sabia muito bem que eles não iriam simplesmente desistir da ordem que haviam recebido.


 


As portas do átrio principal estavam fechadas com avisos de audiência interna. A sua esquerda ela viu comensais de Draco esgueirarem figuras da mídia para dentro do salão pelo mezanino. Hermione avançou sem medo e sem hesitar por qualquer mínimo segundo que fosse, escancarou a porta trancada usando a magia vinda pelo seu sangue em suas próprias mãos.


 


Chocou-se com a cena que apareceu diante dela e ficou completamente imóvel, sem reação. Seus olhos caíram primeiro em Draco, suando como se estivesse debaixo de tortura, preso por três pares de mãos usando uniformes da zona três, sem sua varinha. No momento em que Hermione entrou, ele conseguiu se esquivar de algumas mãos, foi com o punho fechado contra aqueles que o seguravam, atingiu um, mas foi segurado de volta por dois. Ele desmoronou como se aquele pequeno movimento tivesse acabado com suas forças. Hermione não entendeu o porque dele estar naquele estado, mas sua atenção, que quis se fixar em Voldemort para buscar respostas, foi levada pelo som do choro desesperador de Scorpius, entrando no salão por um dos acessos laterais. Ele estava sendo muito mal carregado pelo comensal Thomas. O que havia entrado em sua casa horas mais cedo acompanhado de Devon.


 


Foi naquele segundo que o monstro dentro de Hermione rugiu. O sangue subiu quente pelas suas veias e ela sentiu o chão tremer sob seus pés. O sorriso de Voldemort quando avançou fez com que ela sacasse a varinha. Iria mata-lo! Não se importava com profecia! Não se importava com a ordem mágica ou com Harry! Ela iria mata-lo!


 


-       SOLTE-OS AGORA! – Ela jurou que escutou sua voz projetar-se num eco muito maior do que a capacidade daquele salão.


 


Voldemort apenas juntou as mãos numa palma para que a varinha dela escapasse de sua mão. Hermione não se deixou intimidar e extraiu a magia que conseguia puxar de dentro de si para externar. Os bancos nas galerias, assim como as tapeçarias, os candelabros e os lustres voaram sequencialmente contra ele, mas aquilo foi muito pouco para a figura impecável de Tom Riddle abaixo de seu trono.


 


Foi enquanto ele se defendia e quando ela estava quase terminando de cruzar todo o salão que ele realmente jogou a carta que guardava com todos aqueles de seu Império. A dor foi tão aguda que ela perdeu a visão por alguns segundos e foi de encontro ao chão perdendo as forças da perna. Foi como se a marca em seu braço explodisse em crucio por todo o seu corpo. Hermione escutou Draco soltar uma suplica muito abafada que ela não foi capaz de processar pela perde do seu senso cognitivo. O choro de Scorpius sumiu e seu mundo rodou.


 


Ela lutou para não perder os sentidos. Lutou com todas as suas forças. Fazia tantos anos que ela não tinha os treinos de resistência a tortura que quase diariamente praticava na Ordem, mas mesmo assim, ela ainda conseguia se lembrar que a chave número um era buscar forças para não perder os sentidos. Precisava lutar contra aquela magia. Precisava usar seu corpo para isso. Começou por sua respiração.


 


Desfocou-se de tudo, concentrou-se em sua respiração e tentou levar toda aquela dor para segundo plano. Por algum motivo seu cérebro a levou de volta para o dia de seu parto. Lembrou-se de como respirava para passar pelas dores das contrações e quase que automaticamente o sistema de defesa de seu corpo começou a fazê-la encontrar o melhor caminho para repetir aquelas respirações. Só começou a abrir seus sentidos para o que acontecia a sua volta quando se sentiu confiante o suficiente em sua própria respiração para saber que precisaria mais do que aquilo para perder o sentidos.


 


-       ...e tudo que eu estava esperando era você. Senhora Malfoy. Descendente de Morgana. Fada-Humana. Eu precisava apenas de você para selar esse acordo que fizemos há tanto tempo. – Hermione só era capaz de escutar a voz de Tom Riddle soar distante. – Vamos só pausar um segunda para eu apreciar a preciosa família Malfoy sob o meu controle. – ela teve que se concentrar para não deixar a raiva fazer com que ela fugisse do ritmo de sua respiração. – A punição é bem maior para aqueles que sentam mais alto na hierarquia, Draco. E agora é bem melhor saber que finalmente tenho uma arma para usar contra você. Talvez assim aprenda a não ser tão infernalmente rebelde. A era em que me fazia te tratar como alguém especial por ser um Malfoy finalmente chegou ao fim! Seu jogo acabou. – havia um tom de enorme satisfação naquilo que ele proferia. – Bella! – ele berrou. – Tome a criança e faça com que ele cale essa maldita boca!


 


-       NÃO! – Hermione perdeu todo o seu controle. Sua respiração foi pelos ares e a dor voltou a ser o foco principal a lhe consumir. Lutou para não perder o sentido quando quase voltou a perder a visão novamente. – NÃO TOQUE MEU FILHO! – Ela chorou. Desesperou-se.


 


Conseguiu ver a sombra de Bellatrix passar por ela. Ergueu os olhos para poder se mover até ela e impedi-la de chegar até seu filho. A dor a consumia fazendo-a ficar mais fraca cada vez mais. Ela era incapaz de retornar ao seu estado de concentração com o tamanho do desespero de ver os filhos nos braços de Bellatrix, de vê-lo ser passado para os de Voldemort, de perder o filho, de não poder mais ser a mãe que sempre havia sido para ele no tão pouco tempo de vida que tinha.


 


Ela chorou por cima da dor, chamou por Draco, tentou mover-se, mas tudo que conseguiu só a fez perder mais e mais força. Estava sendo vencida pelo fogo que a consumia por baixo da pele. Pelo sangue que parecia ácido em suas veias, pelo gosto amargo na boca, pelo volume do ruído em seus ouvidos, pelo desespero. Considerou até mesmo cortar o próprio braço com a Marca Negra fora.


 


Mas foi quando se sentiu a pior mãe a pisar no planeta terra, a mãe mais fraca e incapaz de todas, a mãe sem forças que era consumida pela sua falta de forma e preparação para proteger o filho, a mãe que estava prestes a ser dada como morta, que um avalanche de feitiços voou por cima de sua cabeça. Sua pouca visão só distinguiu vultos e sombras saindo das galerias e do mezanino com força total.


 


Foi muito rápido. Foram questão de segundos. Os olhos dela só estavam grudados em Bellatrix e por causa disso, ela só viu a bruxa sacar a varinha e se preparar para o que parecia um intenso combate. Mas inesperadamente a visão de Hermione foi borrada por Fox que avançou contra ela pelo lado mais fragilizado. Bellatrix foi pega de surpresa e antes mesmo que pudesse usar seus habilidosos dotes em magia contra ele, Fox arrancou de sua mão a varinha e a enfiou, sem qualquer dó, em sua garganta no sentido mais gráfico, físico, perturbador e repugnante possível.


 


O urro furioso que Voldemort rugiu acompanhou a intensidade do crucio que saia da Marca Negra no braço de Hermione. Ela não conseguiu segurar o seu próprio grito quando achou que fosse morrer com o nível da dor que caiu sobre ela. Seus olhos se fecharam e seus sentidos apagaram com a última visão de Bellatrix no chão não muito distante dela sendo afogada pelo próprio sangue.






















NA: Oi. Quanto tempo! :)
Sei que o capítulo demorou bastanteee pra sair, mas como eu disse na página do facebook, tive que tirar um tempo para mim e espero que possam respeitar e aceitar isso.
As postagens ainda vão continuar meio bagunçadas, sem um dia definido por enquanto, mas entendam que nunca se passou pela minha cabeça a ideia de desistir da fic.
Quanto ao capítulo, as coisas vão mudar DRÁSTICAMENTE depois desse capítulo. É impossível contornar toda a situação agora. A bomba explodiu. Agora é separar o joio do trigo e ver quem ta realmente do lado Malfoy e quem ainda é devoto a Voldemort, ou com interesse no novo jogo Nott e Voldemort.
Quanto a Draco e Hermione, deu pra ter uma ideia mais ou menos de como eles tem tido suas dificuldades em ser um casal, mas ainda assim deu pra ver que eles não estão dispostos a desistir. Que família mais fofa. E nada comum. haha
Torcam pelo bem de Hera e Scorpius. A vida deles ficou bem em jogo com esse final de capítulo. Tadinha da Hermione.
No mais, aguardem o próximo capítulo. Acho que vamos ter um encontro que muito de vocês queria que acontecesse faz TEEEMPOOOO!

No mais, FELIZ 2017!


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Comentários: 6

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Enviado por LelecrisMalfoy em 11/03/2017

Eu sou completamente apaixonada por essa fic....Esse capítulo foi arrebatador,estou com o meu emocional abalado depois que terminei de ler.
Você é  uma escritora maravilhosa e eu estou mais do que ansiosa por um capítulo novo,por favor não abandona essa fic não.Seus fãs são apaixonados por ela e suas outras fics.Bjos. ❤❤

Nota: 5

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:: Página [1] ::

Enviado por Biib's Malfoy em 18/01/2017
Pelo amor de Merlin mulher, não faz isso comigo!!!! SEN-SA-CIO-NAL!!!!!!!
Nota: 0

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Enviado por Dark Moon em 05/01/2017
nossa esse capitulo valeu qualquer espera. Sensacional mesmo. nem preciso disser como admiro vc e as historias que escreve. Ver o Draco falando "não fomos feitos pra dar certo. Não acho que vamos dar certo" foi como uma facada no meu coração.. dai depois ele diz que vai continuar tentando enquanto puder foi woowwww e quando ele admitiu que chorou tbm eu ja estava em lagrimas. Esse cap teve de tudo, um pouco da familia malfoy, um pouco mais do complexo draco e esse final me deixou de boca aberta. rsrsrsrs Estava esperando a mione ficar locona de raiva, perder o controle da magia e matar geral rsrsrsrsrs mas sei que o que esta por vir é ainda melhor. Não tenho facebook mas tudo bem que precisava do seu tempo e que não post regularmente. SO de saber que nao vai desistir eu ja fico pulando de alegria, ja vi tantas fics perfeitas que o pessoal precisou desistir ou mesmo não quis, fico muito muito feliz q nao pensa em desistir. Pq tem muita gente que ama loucamente suas histórias. Feliz ano novo e que 2017 seja perfeito pra vc obrigada pelo presente! Cap incrível.
Nota: 5

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Enviado por Pessoa em 02/01/2017

Capítulo  emocionante!! Valeu a pena esperar!
Aguardo ansiosamente o próximo!
Feliz ano Novo! 

Nota: 5

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Enviado por S.M.F. em 01/01/2017

Ainda processando o capítulo...
Que capítulo intenso e sensacional, me faltam palavras para descrever a perfeição dele.
Valeu a pena cada minuto de espera e cocm certeza, vai valer esperar os próximos.
Espero que meu coração aguente a ansiedade até o próximo.
Feliz Ano Novo!!! 

Nota: 5

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Enviado por S.M.F. em 01/01/2017

Que início de ano maravilhoso. Fiquei tão feliz pelo capítulo e tão ansiosa para não saber que era um "capítulo adeus" que fui certificar e agora começo a ler.
Feliz 2017! 

Nota: 5

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