Lilá abraçou Gina, e disse com admiração:
— Você está angelica!!
— Mas não me sinto assim. — E não era culpa do vestido. As duas camadas de tecido cor de creme caíam-lhe soltas ao longo do corpo, disfarçando o ventre levemente arredondado, e assemelhando-se à túnica que provocara o comentário da irmã mais nova. Seu rosto achava-se muito pálido, e os cabelos ruivos, que ela jamais prendia ou trançava, estavam cobertos pela rede de malha fina, coroada por uma tiara de opalas. — Pareço abatida.
— Não, não parece. — Minerva colocou um manto de seda cor-de-rosa sobre os ombros de Gina, arranjou as pregas de modo artístico. O manto deu alguma cor às faces pálidas da jovem noiva.
Um largo cinturão, cravejado de pérolas, rodeava-lhe os quadris, e um broche de ouro e opalas prendia o no lugar.
— Não há palavras para descrever como você está linda — disse Minerva, enxugando as lágrimas com a ponta do avental. — Mas isso não é direito. Mal voltou para casa e já vai partir de novo.
— Agora não é hora de falarmos nisso ― censurou Gina, com gentileza. Suas próprias lágrimas haviam se esgotado.
— O que deu em Luna? — Minerva continuou. — Nunca a vi agir de modo tão atrevido, tão corajoso.
Gina não ousou dar opinião. Em vez disso, ocupou-se em ajeitar as tranças de Lilá, contente com o belo resultado das fitas que havia entremeado aos cabelos da caçula.
— Vou ficar tão sozinha sem Luna… — lamentou-se a menina.
— Não é fácil ser a última — consolou-a Gina.
Nesse momento, lady Molly entrou no aposento, parecendo uma rainha. Como Gina, trazia os cabelos presos numa rede de malhas de ouro. Seu vestido era de uma cor tão rara que lhe fazia os olhos brilharem.
Atraindo Lilá para perto e examinando-a dos pés à cabeça.
— Charmosa, inocente e doce, minha querida. E não fique tão triste. Sua vez chegará.
Voltando-se para Gina, ocupou-se em arranjar as pregas do manto.
— Pronta, minha filha?
— Vamos acabar logo com isso. — falou, com voz trêmula.
— Não eram essas as palavras que eu esperava ouvir. É para seu próprio bem, querida. A intenção de seu pai é boa. Não deve se sentir como se nós a tivéssemos. traído.
— Acho melhor irmos andando. — Gina sabia que, se permitisse tais demonstrações de carinho, toda sua coragem desmoronaria.
O que mais a enraivecia era o truque baixo usado por Harry contra sua família, que de nada suspeitava. E que ele tivesse arrastado a inocente Luna em suas maquinações era mais do que Gina podia suportar. Pensava que poderia silenciar a verdade para sempre, ligando Luna pelo casamento a seu cavaleiro? Ah, não, ela trataria de fazer aquele saxão arrepender-se do dia em que nascera.
— Você não mudou nada, Gina — cumprimentou lady Hélene, comovida. — A não ser por ter ficado ainda bonita. Vamos, seja bem-vinda à minha casa.
Dirigiram-se todas, então, para a capela.
Harry Potter, duque de Emory, uma visão de força e beleza máscula, magnificamente trajado, aguardava com o capelão no altar. A seu lado, Neville Longbotton.
Gina reparou que este último olhava para Luna fascinado, mas não se arriscou a erguer o olhar para Harry.
"Vou matá-lo", pensou, sentindo falta da adaga. Lorde Weasley conduziu ambas as filhas até os noivos, permanecendo junto delas até o momento em que foi solicitado a desistir de seus direitos sobre as duas. Para Harry, ele entregou a mão relutante de Gina. Luna, ao contrário, avançou ansiosa para o homem a quem o pai, de modo tão inesperado, concordara que desposasse. A atitude da irmã não fazia o menor sentido para Gina.
Apesar de tratar-se de um duplo casamento, a cerimônia foi a mais curta que Gina recordava haver assistido.
Apática, ela se viu festejada, brindada e beijada todos os presentes. Em seguida, vieram as danças e brincadeiras, e muita comida e bebida. Gina retraiu-se da festa, tornando-se uma participante contrariada e silenciosa da que jamais fora. Nem o imperador conseguiu arrancar um sorriso de seus lábios, quando colocou sobre sua cabeça o diadema do ducado de Larraine.
Antes do crepúsculo, Garth e o enorme cavalo de batalha de Harry foram trazidos para a pátio. Uma escolta de uma dúzia de soldadas iria acompanhá-los a cabana de caça de lorde Weasley, nas montanhas. Outra seguiria com Luna e sir Longbotton até o chalé emprestado a eles por sir Cavell.
E chegou o momento de dizer adeus aos familiares e convidados. Gina correu para Luna, a quem abraçou dizendo:
— Não tenha medo, querida irmã. Sempre cuidarei de você, sempre.
— Não estou com medo, Gina. — O sorriso de Luna era radiante. Ela nunca parecera tão feliz. — Este casamento é tudo o que eu sempre quis.
Enquanto abraçava a irmã, Gina sentiu a mão de Harry apertar-lhe o cotovelo. Um aviso, talvez, para nada dizer, nada revelar? Podia apenas supor, já que mal olhavam um para o outro. Voltou-se então para sir Longbotton, e a expressão de seu olhar fez com que o cavaleiro erguesse uma sobrancelha.
— Espero que não pretenda ser uma cunhada intrometida, lady Ginevra.
— Não me dando motivos, sir Longbotton. — respondeu Gina, com um sorriso, em benefício dos convidados que se aproximavam, vindos de todos os lados, para ver a partida dos noivos.
— Boa sorte para você, Neville. — Harry deu um tapa amistoso nas costas do cavaleiro, dissipando a tensão do momento anterior com Gina. Em seguida, com toda a calma, pegou a esposa no colo. — Acho que chega de despedidas. — E colou os lábios aos dela, num beijo ousado e dominador, que foi saudado por gritos entusiasmados dos convidados.
— Pode esperar, Harry Potter! — sussurrou ela, de encontro à boca máscula.
— Não consigo, doce esposa. — Sem esforço, ele a colocou sentada sobre o cavalo. Em seguida, montou o seu, com os guardas da escolta correndo para acompanhá-los.
Harry não se achava disposto a desperdiçar nem mais um minuto. Com uma palmada no flanco de Garth, estabeleceu o ritmo, avançando em direção aos portões. Dessa forma, Gina não teve tempo para mais que um aceno de despedida em direção da família.
A expressão de Harry era impenetrável. Não haviam trocado uma palavra o dia inteiro, com exceção dos votos matrimoniais e do tenso e curto momentos antes.
Naquela manhã, Gina havia se sentado no gabinete de trabalho de lorde Weasley, ouvindo a leitura dos termos do contrato nupcial, feita pelo escrivão. Muitos acres de terra e títulos acompanhavam a propriedade, além de uma fortuna em ouro e havia ainda as pessoas que iriam acompanhá-la: dez cavaleiros, setenta e cinco vassalos uma centena de servos, com suas esposas, filhos e pertences pessoais.
E os animais: cavalos de raça, vacas leiteira, porcos, cabras, galináceos. E para terminar a lista de mobiliário e de roupas para a casa, baú porcelanas de Limousin, linhos, tapetes persas, e baixelas de ouro e prata. Tudo isso saíria em cinco navios da própria frota de Weasley para a Saxônia. Sem falar, claro, no dote de Luna.
Harry de Emory tinha encontrado a rica esposa que fora à França procurar.
A cabana de caça ficava num vale, rodeada de altos e imponentes olmos. Suas paredes de estuque e madeira e o teto coberto de palha confundiam-se a rústica paisagem. Faias e samambaias cobriam o chão do bosque, chegando até as paredes, suas folhas ondulando à brisa de verão.
No interior do alojamento, lamparinas acesa davam as boas-vindas. Os homens da escolta os deixaram na clareira, retornando em seguida a Longervais e comemorações do duplo matrimônio.
Gina e Harry ficariam sozinhos na cabana como convinha a um casal em lua-de-mel.
Desmontando, Harry amarrou seu cavalo a um poste. Antes que pudesse voltar-se para oferecer ajuda a Gina, esta já havia pulado para o chão. E também não ficou aguardando, cerimoniosamente. Ao contrário, tratou de conduzir Garth para o estábulo, ao lado da cabana. Tinha começado a desencilhar o cavalo, quando Harry se aproximou.
— Deixe que eu faço isso, Gina.
— Ah, vai ser assim agora, milorde?
Vendo Gina determinada a fazer as coisas do seu jeito, Harry ficou de lado. Aquela era uma mulher diferente da garota com quem convivera de modo tão íntimo por quase um ano. Ou não era?
— Cuide de seu próprio cavalo, milorde. Meu período de servidão terminou.
— Gina … — Harry deu um passo à frente para interceptá-la. Precisavam conversar, e quanto antes melhor.
— Não me toque! — Ela encolheu-se toda, e o ódio em sua voz o manteve a distância.
— Gina, nós precisamos …
— Não precisamos de nada! — Cobrindo as delicadas orelhas com as mãos empoeiradas, tentou não ouvi-lo. — Você, milorde, já conquistou o que o fez vir até a França:
uma esposa com um dote digno de um rei! Agora, faça o favor de manter-se longe de mim e de cumprir o acordo que fez com meu pai. Nunca mais serei obrigada a fazer o que quer que seja. Dessa vez, Harry, você foi longe demais, e jamais vou perdoá-lo!
Antes que ele pudesse dizer uma palavra, Gina deu-lhe as costas e deixou o estábulo. Seguindo direto para a cabana, escancarou a porta e bateu-a com força atrás de si.
Na cabana, Gina começou a andar de um lado para outro, nervosa demais para comer alguma coisa ou permanecer sentada. Todo o esforço para parecer composta evaporou-se. E quando, afinal, a porta foi aberta, ela não se achava preparada. Sobressaltada, girou nos calcanhares, vendo-se cara a cara com o marido.
A luz das velas nos candelabros acentuava-lhe a cor dourada de sol da pele. O rosto, de uma beleza que nunca deixava de fasciná-la, tinha a dura e rígida expressão dos primeiros tempos. A expressão do guerreiro preparado para a guerra. Bem, eles estavamem guerra. E ao entrar no chalé, Harry cruzara as linhas de batalha.
— Madame, a seu serviço. — Batendo os calcanhares ele curvou-se em saudação, as plumas do chapéu varrendo o chão. Endireitando-se, fitou-a com atrevimento nos olhos. Em seguida, atirou o chapéu através do aposento sem se preocupar onde pudesse aterrissar. A magnífica capa de viagem seguiu o mesmo caminho.
Com passadas duras, o Falcão dirigiu-se para a mesa bem servida, percorrendo-a com um rápido olhar. Estendendo a mão para uma caneca, encheu-a até a borda de cerveja espumante. O conteúdo foi bebido de uma só vez. Depois, foi sentar-se.
Estendendo as longas e vigorosas pernas, cruzou os tornozelos e enfiou os polegares no cinturão que lhe cingia a cintura estreita. Era a própria imagem da indiferença.
— Olhe para mim, Gina — ordenou, num tom que não admitia contestação.
— Estou olhando. Embora não tenhamos nada a dizer um ao outro.
— Au contraire, minha dileta esposa. Em primeiro lugar, quero saber por que não me disse quem era. — de repente ele se pôs de pé, usando a alta estatura para intimidá-la. — Lady Ginevra Weasley, marquesa de Guyenne e duquesa de Lorraine, filha de poderoso duque de Auvergne, ministro do imperador Lotário, governanta de Blackstone, escrava e amante do duque de Emory. Por qual desses títulos gostaria de ser chamada?
A cada um de seus títulos, pronunciados com desprezo, Gina estremecia.
— "Mulher" ou "criada" não servem mais? Eu não queria que nada disso acontecesse. Foi você quem quis.
— É verdade. — Harry usava um tom mais indiferente do que pensava ser possível. — Quer dizer que nega participação no complô armado contra mim por sua família?
— Não tive nada a ver com isso. O acordo que fez com meu pai é mais do que compensador para você, mas em nada altera a ofensa, o ultraje feito a mim.
— Pensa mesmo assim, milady? Mas suponha que eu quisesse uma esposa de verdade, que vivesse onde eu vivesse, que fosse para onde eu fosse. Para me amar e honrar, conforme os votos sagrados que pronunciamos. Ora, Gina, por que não me disse quem era?
— Não teria feito diferença na maneira como você me tratou.
— E isso é motivo para me escravizar agora nesta teia de intrigas da corte?
— A única intriga de que tenho conhecimento é a que existe entre você e seu cavaleiro, Neville Longbotton. Acaso teve medo de que Luna o reconhecesse, Harry? Foi por isso que o fez conquistá-la?
— Gina! — Harry avançou, ameaçador e perigoso, na direção dela. — Se tivesse sabido seu nome, teria tomado todas as providências para que nossos caminhos jamais tornassem a se cruzar.
Gina estremeceu dos pés à cabeça. A verdade crua feriu-a tão profundamente que lhe parecia impossível não estar sangrando. Qualquer esperança que pudesse haver morreu diante da frieza dos verdes olhos dele. Incapaz de continuar a encará-lo, baixou o olhar, enquanto escolhia as palavras para responder, com todo o cuidado.
— Então parece que estamos predestinados, senhor meu marido. Agora, se me der licença, vou deixá-lo com sua ceia e sua bebida.
Dando as costas a Harry, subiu para o sótão aconchegante, onde a cama havia sido preparada. Uma camisa de dormir de seda fora estendida sobre o leito, à espera dela. Depois de despir o rico traje do casamento, Gina vestiu-a com gestos automáticos e rígidos, tentando ignorar a dor que parecia devorá-la. Se ao menos ele tivesse dito que a amava de verdade, que não podia viver sem ela… Tudo seria muito diferente.