A vontade de lorde Weasley era socar as cabeças das mulheres de sua família. Primeiro, a esposa o encostara na parede, pressionando-o com suas exigências. Em seguida, Gina retornara em um estado de fúria, que fizera Lord Malfoy retirar-se da mesa. Chocado, o pai vira a única esperança de um futuro respeitável para a filha caminhar a duras passadas para fora do hall. E isso não fora nem a metade do que ainda estava por vir.
O comportamento de Luna tornara-se deplorável. De livre vontade ela se atirou sobre o cavaleiro do futuro marido, o notório conquistador, Neville Longbotton. Lorde Weasley precisou de todo seu autocontrole para não agarrar a jovem pelas tranças e sacudi-la até enfiar-lhe algum juízo na cabeça desmiolada.
A interminável refeição afinal chegou ao fim, e lady Molly sugeriu em tom despreocupado que todos fossem dar um passeio pelos jardins. Nesse momento, Harry adiantou-se para ser apresentado às damas e de imediato interessou-se por Gina, oferecendo-lhe o braço para a caminhada em meio ao roseiral.
Lorde Weasley mal continha a própria raiva, alimentada pela reação de Gina. Mulher mais rebelde e voluntariosa ainda se achava por nascer. Estava quase sendo arrastada pelas alamedas, dando a impressão de que a qualquer momento pegaria aquela adaga sarracena que jamais abandonava para retalhar o atraente saxão. E Arthur não duvidava um minuto sequer de que o jovem duque adoraria a luta, caso ela assim procedesse. Nem por um segundo o Falcão afastava dela os olhos. Que confusão!
Pouco mais tarde retornavam ao hall, retomando seus lugares à mesa principal. Ao som das canções dos menestréis, a tensa noitada teve prosseguimento. Molly não cessava de cutucar o marido, como que dizendo: "Eu bem que avisei". Luna não olhou uma vez sequer para o duque de Emory. Achava-se fascinada por Neville Longbotton. No cômputo geral, tudo aquilo estava sendo uma provação para o pobre pai.
Se não estivesse vendo com os próprios olhos, não acreditaria na solícita atenção de Harry para com Gina. Na corte de Aachen, vira lindas mulheres atirando-se aos pés do belo saxão, sem que este lhes lançasse sequer um olhar de interesse. E agora isso! Para piorar as coisas, quanto mais Harry jogava seu charme sobre Gina, mais sombrio se tornava Draco Malfoy, e mais este bebia.
Enfim, para alívio de Arthur, as damas se retiraram para seus aposentos, deixando os cavaleiros entregues à bebida e às brincadeiras jocosas. Lorde Weasley ordenou que outra rodada de cerveja fosse servida. Se o duque de Emory estava mesmo interessado em Gina, era hora de iniciar as negociações, antes que essa atenção fosse desviada para outra mulher.
Sabendo muito bem o que ia acontecer, Harry tapou com a mão a caneca, recusando uma nova dose da potente bebida. Calmo, ficou aguardando o primeiro movimento do duque de Auvergne.
— Não vai beber mais?
— É uma bebida forte.
— Do jeito que eu gosto. Costumo avaliar o caráter de um homem por sua reação a ela.
— Nesse caso, encha minha caneca, mas só depois encher a sua.
— Você é esperto, Emory.
— Eu não diria isso. — Contando os homens à volta da mesa, Harry constatou o quão seriamente se acha em desvantagem.
Nesse instante, o anfitrião ergueu a mão, silenciando os músicos na galeria. Deixando os instrumentos, eles foram se retirando um a um. O mesmo fizeram os vassalos menos importantes, até que só restaram na sala lorde Weasley, seus filhos, Gui e Carlos, lorde Malfoy, sir Longbotton e o Falcão.
— Bem, você não tem nada a dizer? — perguntou Arthur.
— A uma noite muito agradável. — Harry ergue a caneca num brinde, sabendo que, em qualquer negociação, o primeiro a mencionar o prêmio cobiçado seria o perdedor.
Raposa velha na condução de transações de governo, lorde Weasley não se deu por achado.
— Qual sua opinião sobre as fortificações no castelo de Longervais?
— É a casa senhorial mais bem fortificada que já vi. Ainda mais por ter sido construída com a função principal de abrigar uma família. Acredito que resistiria bem a um cerco, ainda mais com a proteção de tantos guardas Se algum dia a guerra chegar a esta província, o senhor deve levar sua família para lá, para que fique em segurança
— Seria muito difícil arrancar minha Molly desta antiga casa. Nunca consegui convencê-la, nos vinte e sete anos em que estamos casados. Mas ela lutaria com unhas e dentes para defendê-la, e aos filhos, bem como aos velhos pais, que também habitam em Landais.
— O senhor é dono de uma riqueza incalculável, tendo uma mulher assim como esposa.
— Tem suas compensações. Embora eu seja obrigado a admitir que nossos gênios se chocam de vezem quando. Milady Molly é voluntariosa ao extremo.
— Uma mulher admirável. E extraordinária dona-de-casa. Fiquei impressionado ao ver uma tropa de cinqüenta homens chegar sem aviso na hora do jantar e haver comida mais que suficiente para todos.
— Ela foi avisada, embora não com muita antecedência. Mas é uma mulher que aceita qualquer desafio.
— Bem, continuo afirmando que é um homem de sorte, milorde. Ainda mais porque suas três filhas parecem ter saído idênticas à mãe.
Weasley brincou com a caneca, os olhos castanhos fitando com dureza de aço os verdes.
— Não pude deixar de notar que você se interessou por outra de minhas filhas, e não por aquela que havíamos decidido em contrato de noivado.
— Eu fiz isso? — Harry perguntou, com ar inocente.
— Confesse, homem, que achou Ginevra atraente.
— Foi assim tão evidente?
— Eu lhe ofereci Luna, antes de chegarmos aqui, e você concordou. Seu cavaleiro a roubou bem na sua frente, sem que você ao menos piscasse. E isso porque não conseguiu tirar os olhos de cima de Ginevra a noite toda!
A voz do lorde ressoou por toda a casa.
De repente, o ruído de uma caneca sendo batida com violência no tampo da mesa silenciou as risadas dos rapazes Weasley, diante da frustração do pai.
— Non! — Sir Malfoy levantou-se, desembainhando a espada, com ar ameaçador. — O senhor não pode dar a mais linda mulher do mundo para esse saxão maldito! Não vou admitir!
Um silêncio ameaçador seguiu-se ao desafio de Malfoy. Sem se perturbar, Harry esvaziou o conteúdo de sua caneca e aguardou a reação de sir Weasley às palavras de seu rival. Lorde Arthur, por sua vez, pôs-se de pé, com a caneca na mão. Os olhos castanhos brilhavam de raiva ao fitarem o cavaleiro mais jovem.
— Gina é minha filha, sir Malfoy.
— Mas estava prometida a mim. Fizemos um acordo há três anos.
— Não houve acordo algum. Apenas conversamos a respeito e eu lhe disse que Gina ainda era muito criança.
— Sim, muito criança para mim, mas não para ser violentada pelos vikings! Pagãos! Canalhas, todos iguais a esse saxão, sentado à sua mesa!
— Malfoy! — Gui Weasley se levantou, de espada em riste. — Meu pai pode ficar medindo palavras á você, mas eu não vou permitir que insulte a honra minha irmã e de minha família!
— Não insultei ninguém. Falei a verdade, por mais que lhe doa, jovem cavaleiro. Além disso, não é seu sangue que quero derramar, mas o desse maldito saxão.
— Você já derramou meu sangue o suficiente. — Por sua vez, Harry se ergueu, dominando a todos com a alta estatura e orgulhosa dignidade.
— Calem-se, senhores! — lorde Weasley gritou, buscando colocar um pouco de ordem no ambiente, antes que esse se desintegrasse de uma vez. — Em primeiro lugar, não se chegou a nenhum acordo, nem sequer definido se o Falcão deseja desposar Gina. Malfoy, vai respeitar a minha casa, ou terei que chamar meus homens para expulsá-lo?
Uma expressão de angústia surgiu nos olhos de Draco, mas ele não se atreveu a desafiar o ministro do imperador.
Colocando a espada na bainha, saiu do hall pisando duro. A retirada teve lugar na hora exata, pois os guardas tendo ouvido o ruído da altercação, já se apresenta para cumprir as ordens do lorde. Arthur Weasley dispensou-os com um aceno de mão.
— Por tudo o que é mais sagrado, Emory, esse homem o odeia.
A constatação fez Harry rir.
— Sim, e por que, pergunto eu? Afinal, ele me venceu no último torneio.
— Pode ter conseguido o título de campeão, mas não o respeito do imperador. — Em seguida a essas palavras, Weasley tornou a encher as canecas de ambos. — A Gina! — brindou, erguendo a sua num brinde, que foi correspondido pelos demais.
De repente, o jovem Carlos tombou sobre a mesa, derrubando ao chão sua caneca de cerveja.
— Fracote! — O pai riu. — Gui, leve-o para a cama.
— Ufa! É pesadinho o menino — reclamou o filho. — Vamos, Longbotton, me dê uma mão aqui.
Neville trocou algumas palavras em voz baixa com Harry, antes de ir ajudar Gui a arrastar o jovem Carlinhos embriagado para os aposentos dele.
Assim que saíram, Harry retomou seu assento diante de lorde Weasley. Os dois eram agora os únicos no hall.
— Eu queria os rapazes longe daqui. O que tenho a dizer é confidencial, uma conversa de homem para homem, Falcão. E que, tem de permanecer apenas entre nós dois.
— Diga o que tem a dizer, mílorde. — Harry escondeu seus sentimentos atrás de uma máscara inexpressiva e preparou-se para o pior.
— É doloroso para mim ver seu interesse voltado para minha Gina.
— Um pai tem direito à sua filha favorita.
— Não se trata disso, embora Gina seja mesmo minha favorita. Aliás, de todos desta família, desde que nasceu. Ela quase foi atingida por um raio, quando era pouco mais que um bebê, e desde então tornou-se especial para todos os habitantes desta casa.
Harry franziu o cenho, impressionado ao descobrir quão pouco sabia sobre a mulher com quem vivera intimamente por quase um ano.
— Não sabia disso.
— Surpreende-me que Lotário não tenha lhe contado a história quando lhe falou sobre ela com tanto empenho.
— Não. O imperador só insistiu que era uma filha dedica e que daria uma excelente esposa.
— Oh, sim, ela seria … ou teria sido, até um ano atrás.. — O lorde ficou fitando a caneca com ar sombrio. — Poderia matar Malfoy pelo que ele gritou em alto e bom som há poucos instantes.
Os olhos cor de esmeralda de Harry não se afastaram dos de Weasley nem por um segundo, mas por dentro foi como se uma faca lhe retalhasse o coração, diante da execração da mulher amada e da dor daquele pai pelas quais era o responsável.
— Não costumo levar em consideração palavras de bêbados, milorde. Malfoy não sabia o que dizia
— Esse é o problema, Emory. A acusação de Malfoy é verdadeira. Nem pela honra de Gina posso negá-la, pois estaria mentindo. Daria minha vida para que não fosse verdade, e essa é uma das razões por que tenho de recusar-lhe Ginevra. Ela foi raptada há um ano por invasores vikings, e acaba de retornar para junto de nós.
Mergulhado em seu próprio sofrimento, lorde Weasley não notou a reação de Harry, ou a falta dela, à sua revelação.
— Milorde, posso entender por que não havia me contado isso até agora. Também entendo e compartilho sua dor. Tive minha própria cota de sofrimento nas mãos desses bárbaros. Minha família inteira foi chacinada por eles. Só me restou um jovem primo. Ainda choro a dor que sofri. Meus pais, meus irmãos… todos mortos de maneira terrível.
— Sim, eu sei. Você é um homem perseguido por tragédia. E assim aconteceu com Gina. Lamento que não tenha se interessado por Luna. Ela é adorável. Até Lilá, com um pouco mais de tempo, daria uma boa esposa. Mas Gina, meu caro Falcão, essa você não pode ter.
As últimas palavras foram ditas num tom tão suaves, tão penalizado, que se tornaram ainda mais taxativas. Erguendo a caneca num brinde silencioso, Harry bebeu um longo gole. O mesmo fez o ministro imperial. Por um momento ficaram em silêncio.
— Por causa de um acordo prévio com Malfoy? ― o Falcão perguntou.
— Não! Gina o recusou em definitivo. E eu nunca a pressionaria a um casamento que a fizesse infeliz. Malfoy pode jurar amor eterno e dizer que não se importa com o que aconteceu, mas a raiva irá turvar-lhe para sempre o coração. Trata-se da natureza dele. Estava aqui quando Gina foi arrancada de minha proteção e se culpa por não ter podido fazer nada para salvá-la. E isso irá destruir o carinho que diz sentir por ela.
— Nesse caso, Ginevra está livre para aceitar-me.
— Não — contestou o pai, os olhos amargurados. — Ouça-me, Falcão, não posso garantira virgindade dessa filha. Para falar com franqueza, ela voltou para casa há tão pouco tempo que, pelo que sabemos, até pode estar carregando no ventre um bastardo.
Harry não conteve um tremor, diante da profunda dor daquele homem. "Louco, louco que fui", pensou. "Por ter concordado em fazer aquele trato com Gina. Não fosse a promessa, não estaria agora tendo de passar por isso". Pousando na mesa a caneca, o Falcão ficou algum tempo olhando para um canto afastado do grande salão.
O jogo de emoções em suas atraentes feições não passou despercebido por lorde Weasley. Raiva, ódio, compaixão, tudo isso se espelhou no rosto de Harry
— Milorde, peço-lhe que ouça com atenção o que tenho a dizer. Vim para a França, deixando para trás um feudo devastado, em vias de reconstrução, à custa dos maiores sacrifícios. E isso para obedecer à ordem de meu suserano, que me ordenou desposar uma mulher francesa. Nove entre dez pessoas em Emory foram chacinadas. Não nos restou uma criança sequer, nem uma menina risonha, ou um garoto travesso. Foi-me mostrado um filho, que seu imperador mantém como refém, para me obrigar a cumprir os desejos dele. Se sua muito amada filha Ginevra está esperando um bebê neste momento, juro que o criarei como se fosse meu. Eu lhe darei meu nome vendo assim a pecha de bastardo que cairia sobre o inocente. Um homem que passou pelo que passei precisa de cada filho e filha que se apresentar em seu caminho. Sob esses termos, consentiria em minha união com Ginevra.
Os olhos de Arthur fitaram intensamente os de Harry, tentando ler em suas profundezas. As palavras do Falcão tinham soado sinceras, e o que ele mais queria era ver a filha, que não fora capaz de defender, protegida pelo casamento. O sofrimento dela era como uma chaga em seu peito. Ainda assim, o feudo de Emory ficava distante… Talvez nunca mais visse a filha idolatrada.
Num impulso egoísta, respondeu:
— Procure uma esposa em outra casa de França. Eu me encarregarei de explicar a Lotário que não conseguimos chegar a um acordo.
— Lotário ordenou que eu me unisse à sua casa tão-somente. As razões dele são interesseiras e egoístas. Busca uma ligação que consolide feudos muito distantes com o propósito de manter seu império unido e com o tempo, uma de suas filhas se unirá a Malfoy. Quanto a mim, não pretendo perder meu filho, Eric, nem ser feito de tolo de novo. Uma vez que tenho de escolher uma noiva desta casa, quero Gina. As mais novas não me servem. Uma só tem olhos para outro homem. A outra é criança demais para as tarefas que terá de enfrentarem Emory. Não. Preciso de uma mulher forte, que saiba o que é sofrimento e como superá-lo.
— Tem certeza de que o dote prometido por Lotário não entra nesse raciocínio? No caso de Gina ser a escolhida, o dote é muito maior.
Apesar de ofendido, Harry podia entender a preocupação daquele pai e o respeitava por sua sinceridade.
— Não. O ouro de Lotário em nada influenciou minha decisão. Senti por Gina uma imediata afinidade, de uma indiscutível atração por sua incomparável beleza. Tenho certeza de que vamos nos relacionar muito bem. As intrigas de Lotário não me seduzem. — A honestidade das palavras dele era indiscutível. — Além disso, ambos sabemos por que ele está fazendo isso. Para manter-me aqui. Mas eu partirei, com ou sem sua permissão.
— Levando Gina com você. Vai me obrigar a entregá-la, mesmo depois de tudo o que falei que ela representa para nós?
Nesse instante, Harry deu-se conta dos verdadeiros motivos da objeção de lorde Weasley.
— Sua objeção seria tão forte se eu concordasse em deixar a decisão de partir ou ficar nas mãos de Gina?
Lorde Weasley parecia ter levado um golpe em pleno peito.
— Dá a sua palavra de honra de que não a obrigará a deixar esta província se este for o desejo dela?
Harry pensou com cuidado, antes de dar sua resposta.
— Desde que ela permaneça sob a proteção da família, e a criança que possa estar trazendo no ventre seja criada com todas as honras que a posição da mãe e a minha merecem. Nessas condições, o senhor tem minha palavra de que a decisão caberá a Gina.
Mas lorde Weasley ainda tinha uma dúvida.
— Acha que poderá convencê-la a amar você?
— Quem pode responder a uma coisa dessas? — Harry estendeu as mãos. — No meu entender, não se trata de amor, e sim de confiança mútua. Se não conseguir convencê-la a confiar em mim, ela permanecerá na casa da mãe. Como o senhor disse, já basta ter sido arrancada daqui à força uma vez.
— Suponha que ela se recuse a desposá-lo, como fez com Malfoy. Gina é uma mulher voluntariosa.
— Assim como o senhor, como o pai dela. Ousará desobedecer a uma ordem sua, desafiando-o?
— Não, isso seria ir muito longe, mesmo para alguém como Gina.
— Talvez só precise mostrar-lhe que esse casamento será de interesse dela, assim como meu. Jamais usarei contra ela a questão da perda da virgindade. Ao contrário, vou apreciá-la e respeitá-la ainda mais por ter passado por esse sofrimento.
— Nesse caso, Harry Potter, duque de Emory, concedo-lhe minha filha Ginevra em casamento. O mais rápido possível, eu lhe peço.
Lorde Weasley levantou-se, erguendo a caneca brinde:
— A Gina!
Ambos esvaziaram o conteúdo e tornaram a se sentar, encarando-se.
Nova rodada de cerveja teve início. Antes de beber Harry falou:
— Meu leal cavaleiro, Neville Longbotton, pediu que falasse em seu nome, a respeito de sua outra filha lady Luna.
Enquanto os dois duques discutiam, as três irmãs todas juntas na mesma cama, não conseguiam dormir:
— Mamãe vai matar papai por ficar tão bêbado. — sussurrou Luna.
Do outro lado do leito, Gina não deu resposta, estava ocupada em recordar se alguma vez vira Harry embriagado. Não, isso nunca acontecera, mas, diante dos brindes gritados a plenos pulmões e das batidas das canecas, os dois homens já deviam ter bebido um tonel inteiro.
Apertada no meio das duas irmãs, Lilá chorava sem parar, dizendo que jamais encontraria um marido.
— Pare com isso, bebê chorão! — ordenou Luna, pela enésima vez.
Não agüentando mais a gritaria, Gina levantou-se, colocando o robe.
— Aonde você vai? — perguntou Luna.
— Falar com mamãe.
— Também vou.
— Não, você fica aqui. Trata-se de uma conversa particular.
No quarto da mãe, Gina bateu, antes de entrar. Molly achava-se sentada num pequeno sofá, junto à lareira, bordando.
— Entre, querida, eu estava mesmo esperando você.
— Você não pode descer e pôr um fim a essa abominação?
— Sabe que não.
— É uma vergonha papai embriagar um homem para obrigá-lo a se casar comigo.
— Seu pai não está fazendo isso. Está agindo com honestidade. Além do mais, um pouco de cerveja não vai nem abalar aquele gigante saxão.
— Ele nunca vai me amar, mamãe.
— Sabe muito bem que seu pai a ama de todo o coração.
— Não se faça de desentendida, mamãe. Sabe a quem me refiro.
— Gina, você precisa com urgência de um marido. E tenho certeza de que esse jovem duque saxão abriga mais do que um simples interesse por você no coração. A maneira como ele se comportou esta noite me leva a crer num futuro feliz para ambos. Não tenha medo. Além disso, o duque não será enganado. Vai saber tudo a seu respeito, em confiança.
— E acha que vão chegar a um acordo?
— Tenho certeza de que já chegaram.
Gina deitou a cabeça no colo da mãe, que passou a acariciar-lhe os cabelos, suavemente. Estava quase dormindo, quando a porta do quarto foi aberta com violência.
— Papai! — Gina gritou, assustada.
— O que você está fazendo aqui?
— Esperando para saber o que foi que decidiram a meu respeito.
— Você ficará sabendo na hora certa.
— Por que não agora? — rebelou-se Gina.
— Molly, minha mulher, você educou mal essa daí. — O pai deu-lhe as costas, desafivelando o cinturão que prendia a espada. — Não ouviu, Gina? Vá para a cama, já! Antes que eu perca a paciência. ― Segurando-a pelo braço, lorde Weasley arrastou-a até a porta, que fechou logo em seguida com tanta força que quase a arrebentou.
— Que valoroso cavaleiro, aterrorizando crianças!
— Seja gentil, meu amor, sinto uma terrível dor de cabeça prestes a chegar. Prometa-me uma casa silenciosa amanhã, está bem?
— Posso muito bem decidir aumentar seu sofrimento batendo panelas, se você não me contar já o que decidiu quanto à nossa filha.
— Filhas, meu amor, filhas. Sente-se para não cair mulher. Casadas as duas, amanhã. O duque levou tudo. Luna, para seu cavaleiro, Neville Longbotton. Gina para ele próprio, sem repercussões quanto à perda da virgindade. E se já houver um bebê a caminho, será bem vindo. A decisão de segui-lo até a Saxônia ou permanecer em Landais será de Gina. O que acha disso?
— Acho que bebeu tanto que está sonhando.
— Posso ter bebido, mas o contrato, com todas essas condições, está escrito e assinado.
— Pela sua mão, depois de toda aquela cerveja? Ninguém vai conseguir lê-lo amanhã.
— Acha que sou tolo? Quem redigiu foi meu escriba. O Falcão e eu apenas assinamos e colocamos nossos sinetes. As casas de Emory e Weasley estão ligadas não uma, mas duas vezes. O que acha disso?
— Acho que está na hora de dormir, milorde.
— Só se me der um beijo, primeiro. ― Arthur puxou-a para baixo das cobertas, junto dele.
Molly o beijou, mas percebeu que o marido já fechara os olhos, começando a ressonar. Mais que depressa, pulou da cama, ansiosa para dar a notícia às filhas.
Deviam ter sido boas notícias, mas, no quarto em que as três garotas se encontravam, ela só viu lágrimas. Gina desatou em pranto, Lilá choramingava que ia morrer solteirona, e Luna correu para a galeria, chorando de felicidade. Molly não sabia qual consolar primeiro.
Dirigiu-se então para a que parecia mais angustiada: Gina. E não conseguia entender seu histérico soluçar. As únicas palavras que ela repetia sem parar eram as mesmas de Luna, durante o último ano: "Foi tudo culpa minha. Nunca vou me perdoar."