Assim que lhe foi possível, Gina empurrou a coberta de pele para os pés da cama.
Deitado de costas, com uma das mãos sobre o coração agitado, Harry a observou, ainda sob o efeito do intenso prazer vivido momentos antes.
— Precisamos de um banho, milorde — Gina anunciou, franzindo com graça o nariz.
— Sim, mas não juntos, ou sairemos da casa de banhos com o mesmo cheiro de sexo que estamos exalando agora.
— Oh! Com certeza, milorde. — Mais que depressa ela saiu da cama e, envolvendo-se no lençol, dirigiu-se à bacia. — Ainda há hóspedes em sua casa à espera do desjejum. Perdoe-me por ir cuidar de outros deveres, meu senhor.
Harry desatou a rir, espreguiçando-se como um felino.
— Pode ir cuidar disso, minha pequena francesa. — falou, em tom afetuoso. Depois, rolando para o lado, apoiou a cabeça na mão para observá-la fazer as abluções. — Eu a terei de novo só para mim, assim que a maré subir e nossos hóspedes tiverem partido.
Gina sorriu, deliciosa.
— Como desejar, milorde.
A primeira pessoa que Gina avistou ao entrar, carregando uma pesada bandeja, no grande hall, foi Harry, de pé ao lado do rei dos dinamarqueses. Pareciam empenhadas em séria conversação. O Falcão de Emory estava usando seus mais finos trajes, uma túnica de veludo verde do tom exato dos seus olhos maravilhosos. Era toda debruada de arminho, tão suntuosa quanto as que ela vira na corte do imperador. Harry estava tão lindo que Gina ficou imóvel, olhando-o, deslumbrada.
Seu olhar apaixonado deteve-se na boca máscula, lembrando a sensação e o sabor dos beijos que haviam trocado durante toda a noite e uma boa parte da manhã. Ainda bem que ele pedira para remover-lhe a barba que lhe ocultava parte das belas feições. O lábio superior cheio e firme, curvava-se para cima nos cantos. Era uma boca feita para sorrisos, se Harry assim quisesse.
Enquanto ele escutava o que Herewald tinha a dizer, fundas linhas marcaram-lhe as faces, onde antes deviam ter existido irresistíveis covinhas.
Emocionada, Gina pensou: "Se eu conseguir fazê-lo voltar a sorrir como antes, ou aliviar de alguma forma seu sofrimento, Deus com certeza me perdoará o pecado de amá-lo sem a bênção do sacramento".
Com um aceno, Harry chamou-a para junto deles. Colocando a pesada bandeja sobre a comprida mesa Gina apressou-se em obedecer.
Com uma respeitosa reverência a ambos os lordes, fitou o rosto sério de Harry.
— Está precisando de mim, milorde?
— Ouí, Gina — Harry falou em seu excelente e modulado francês. — Le roi Herewald deseja falar com você. Quero que lhe dê toda a atenção e perdoe-lhe os parcos conhecimentos de seu belo idioma.
— Ouí, monseigneur. — Curvando-se em nova reverência e endereçando a Harry um brilhante sorriso, Gina voltou o olhar para o rei dinamarquês.
Herewald pigarreou e começou, num francês de sotaque gutural:
— Mademoiselle Gina, meu bom amigo Falcão parece não estar ligando para o interesse que tenho por você. Fiz a ele a mais generosa das propostas de compra da sua pessoa. Aliás, o Falcão insiste em dizer que você é uma mulher livre, capaz de escolher com qual de nós prefere ficar. Sou um homem muito rico e prometo cobri-la com as mais deslumbrantes jóias e os mais finos vestidos que uma mulher poderia desejar. Você aceita a minha proposta?
Gina olhou para Harry, mas as feições másculas estavam desprovidas de qualquer emoção. Baixando as pálpebras orladas de longos cílios, ela curvou-se perante o rei.
— Monsieur le roi, perdoe-me. Mas monseigneur Harry não falou toda a verdade. Estou profundamente ligada a ele, e não sou livre para escolher outro protetor, por maiores riquezas com as quais me queira honrar.
— Você está me recusando?! — Herewald perguntou estupefato.
— Mais non, monsiezir le roi, de forma alguma! Apenas dizendo que estou ligada a ele por laços intangíveis, mas muito poderosos.
Herewald olhou para Harry, atônito.
— Prefere um duque a um rei? Ah, Falcão, você é mesmo um garanhão de sorte! Pelo jeito, a menina está apaixonada por você, mas não quer falar sobre isso na minha frente. — Com uma mesura cavalheiresca, o dinamarquês voltou-se para Gina, que aguardava em suspense — Mademoiselle, peço-lhe que aceite os presentes que ofereci a seu lorde. Não pretendo levá-los de volta. Aliás, tomaria isso como um insulto pessoal. Olhe e veja se gosta.
Confusa, sem saber o que fazer, Gina ficou olhando de um para o outro. Herewald apontou então para um enorme baú, colocado ao lado dos degraus que conduziam a galeria dos menestréis.
Frio, Harry indicou-lhe que fizesse o que o rei exigia. Gina ajoelhou-se junto ao baú e levantou a pesada tampa esculpida. Um perfume de rosas subiu-lhe às narinas. Dentro havia rolos dos mais finos tecidos, de Veneza, rendas francesas, linhos e lãs em todas as cores do arco-íris. Correndo os dedos por um rico tecido azul, Gina pôs-se a sonhar com uma nova túnica para Harry.
— Oh, monseigneur Herewald, não tenho palavras agradecer tanta bondade. Claro que aceito. Merci beaucoup.
Satisfeito, Herewald socou o ombro musculoso de Harry.
— Viu? Não há mulher no mundo que recuse um presente desses. Ótimo, estou contente. Pode ficar com ela por enquanto, Falcão. Talvez em minha próxima visita a jovem tenha mudado de idéia e prefira ir comigo.
— Isso é tudo, Gina — Harry falou, autoritário. — Pode se retirar. Mandarei levar o baú para cima. Agora Herewald, chega de conversa. Vamos comer.
— Ah! Confesse que eu o deixei preocupado, não deixei Falcão?
— Nem por um segundo.
Quando, afinal, Herewald e Harry encontram -se, sentados à longa mesa, Gina desaparecera havia muito do hall. E Harry tinha certeza de que ela continuaria longe dali até a partida dos hóspedes.
E não estava errado.
As fortes chuvas retornaram tão logo o navio de Herewald deixou o porto de Blackstone. Os campos achavam-se tão encharcados e escorregadios, que os homens não podiam sair da torre. Por dois dias, ficaram à toa no hall, bebendo cerveja, sentados nos bancos ao longo das mesas.
A chuva tinha danificado parte dos grãos, mas, com a volta do bom tempo, parecia a Ginaque a última colheita estava pronta para começar. Essa era também a opinião de Harry.
Já bem longe da aldeia, ele direcionou a montaria para as montanhas, com Gina na garupa, logo depois da missa dominical, a pretexto de mostrar a ela a vista do vale.
Na realidade, pretendia fazer-lhe uma surpresa: um piquenique junto à queda d‘água e à piscina natural formada pela fonte de água quente, a mesma que alimentava os banhos romanos.
O almoço era frugal, mas delicioso. Pão, queijo, vinho e maçãs. Eles nadaram juntos por um bom tempo, rindo e se divertindo como crianças despreocupadas. Depois fizeram amor à sombra dos pinheiros, comeram sentados na relva, contemplando a vista magnífica do vale.
— Este lugar é perfeito — comentou Gina saciada em todos os sentidos. — Posso entender o amor que você tem por sua terra, Harry. Seu povo também é bom. É uma vergonha o que os vikings fizeram a vocês.
— É o preço a pagar para vivermos aqui, e o que vem acontecendo muitas vezes ao longo dos séculos. Átila, o Huno, arrasou-nos, queimando metade das florestas em sua esteira de destruição. Carlos Magno fez o mesmo há cem anos. Quando isso acontece, o que resta é começar de novo. Não sou o primeiro Emory a ter de enfrentar o recomeço. A vida sempre continua.
— É verdade — concordou Gina, pensando que só faltava uma coisa para aquele ser o mais perfeito dos dias, passado ao lado do homem que ela amava, compartilhando não apenas da intimidade fisica, como também dos pensamentos dele: nenhum dos dois falara de amor.
Tão ocupados estavam todos com seus afazeres, que mal notaram a mudança da estação. O outono se foi e a fúria hibernal chegou na forma de gélidas nevascas, que cobriram a terra de branco.
Graças à providência de Harry todos possuíam calçados. Botas, sapatos e chinelos de solas macias, além de longas meias de lã, mantinham pernas e pés aquecidos e secos.
O novo mobiliário foi chegando da oficina da abadia tão logo o telhado desta ficou pronto. Frei Laurence fez questão de acompanhar cada peça que era entregue, na opinião de Gina com a intenção de ser convidado para almoçar, o que sempre acontecia.
Quando o rio começou a congelar junto ao porto, todos barcos já estavam guardados em docas secas. O estoque de lenha e de cerveja era imenso.
Os pajens e escudeiros retornaram ao treinamento de combate durante uma boa parte do dia. Sir Longbotton era o encarregado de supervisionar essa importante tarefa.
Cada uma das mulheres da vila recebeu uma ocupação a ser completada dentro de casa, durante o inverno. As que sabiam lidar com uma roca fiavam, outras teciam em rústicos teares, tricotavam ou faziam belas rendas. O produto final era trazido de tempos em tempos para a torre, conferido e estocado.
Os tecidos eram cortados de acordo com a necessidade e transformados em roupas. Embora as cores fossem limitadas a escuros tons de terra, ninguém deixou de ficar convenientemente vestido e aquecido.
Até que Gina começasse a registrar tudo, Harry não fazia idéia do que era cuidar todo dia do bem-estar de sua gente.
Ele também a surpreendia quando, ao examinar-lhe os registros, encontrava erro numa conta, coisa que havia passado despercebida a ela. Nada escapava à perspicácia e à inteligência brilhante do Falcão de Emory. Gina ficou admirada ao descobrir o quanto ele era letrado e culto. Sempre acreditara que os saxões fossem ignorantes, quase bárbaros. Harry, porém, passava horas trabalhando em seus próprios pergaminhos. Embora não mostrasse seus projetos e desenhos a ela, com freqüência os discutia com sir Longbotton, sir Finnigan e com o primo Ron ouvindo suas idéias e sugestões para a execução dos planos que imaginara.
Fechada dentro da torre a maior parte do tempo, algumas vezes Gina sentia-se de novo prisioneira, como nos primeiros dias de sua captura. Não fosse pelo ritual da missa aos domingos, teria perdido toda a esperança.
Na véspera do dia da Epifânia, uma pesada tempestade de neve prendeu a todos dentro da torre. Harry, que fora até o depósito com os registros de Gina, voltou impressionado com a enorme quantidade e a riqueza das peles trazidas por seus caçadores nos últimos dias.
— Acho que na primavera vou me transformar em mercador, em vez de pirata — brincou.
— É melhor ficar aqui e cuidar da defesa do feudo. — replicou sir Finnigan. — Os vikings podem retornar, na esperança de termos restaurado nossas possessões.
A afirmação deixou Gina com um mau pressentimento.
Sempre capaz de ler as menores expressões do rosto dela, Harry acariciou-lhe a mão.
— Não se preocupe, Gina, dessa vez, se eles vierem, não conseguirão sequer chegar ao porto.
Gina pôs-se a imaginar se a calma segurança do Falcão teria fundamento. O navio de Herewald de fato havia encalhado ao lado da ilha. Mas e se os noruegueses fossem mais espertos?
Ela estava aguardando, em tensa expectativa, sem dizer uma palavra sobre o acordo ou sobre o teste a que havia sido submetida, embora não conseguisse pensar em outra coisa. Naquela noite, não conseguiu dormir, tantas eram as dúvidas que lhe povoavam a mente.
O dia da Epifânia amanheceu claro e muito frio, e, por ser dia santo, nenhuma refeição seria servida antes de irem para a igreja. Harry levantou-se primeiro e, depois de acender uma vela no quarto ainda escuro, foi avivar o fogo da lareira. Voltando-se para Gina com um sorriso, chamou-a para vir sentar-se com ele na cadeira. Ela obedeceu, trazendo consigo a pele de urso para cobri-los.
Tomando-lhe as mãos, Harry examinou por um longo e silencioso instante as palmas calosas devido ao trabalho rude. Afinal, com expressão solene, fitou-a nos olhos.
— É Epifânia Gina. O dia em que nós dois teríamos algumas coisas a acertar.
Incapaz de pronunciar uma palavra, devido à ansiedade, Gina limitou-se a um aceno de cabeça.
Erguendo-lhe as mãos, Harry as beijou.
— Não vai me perguntar se passou no teste?
Gina fez um gesto de negação. Tinha medo da resposta. Suspirando, o Falcão curvou-se para pegar a espada que todas as noites colocava no chão ao alcance da mão. Tirando-a da bainha, aproximou de ambos o punho cravejado de pedras preciosas.
— Você se manteve fiel a seu voto, Gina, provando que sua palavra merece crédito e que é uma mulher de honra. Cedeu a todos os meus desejos, proporcionando-me todos os prazeres de seu corpo com um ardor que excedeu as minhas maiores expectativas. Nesse momento, juro que se um dia tiver de deixar Blackstone para buscar uma esposa na corte, uma dama que atenda às exigências financeiras do feudo, eu a levarei de volta até a margem do rio onde a encontrei e capturei.
Trazendo a espada para junto do rosto, beijou a relíquea do punho, tal como Gina havia feito. Depois, tornou a colocar a espada no chão, atraiu Gina para bem junto de si, sob o calor da pele de urso.
— Agora você tem meu juramento, Gina, em cumprimento a nosso acordo. — E nada mais foi dito enquanto o Falcão a beijava com ternura na testa.
Em profunda gratidão, Gina ergueu o rosto e beijou-o na boca.
— Quero que saiba de uma coisa — disse o duque assim que seus lábios se separaram do demorado e doce beijo que selou a promessa. — Eu gostaria que as coisas continuassem para sempre como são entre nós, que nunca mudassem. Se não fosse obrigado pelas necessidades do povo de Blackstone, viveria com você, nessa rica pobreza, até os últimos dias de minha vida.
Em silêncio, Gina fitou-o com os olhos cheios de lágrimas. Depois de algum tempo, dominando a emoção, ela sorriu e deu início às atividades do dia.
O inverno se prolongou além do esperado e, de repente, Gina se deu conta de algumas mudanças ocorridas entre o pessoal da torre e da vila. No final de fevereiro, tornou-se óbvio que todas as mulheres em Emory pareciam estar grávidas, com exceção da velha Petúnia e de Gina.
Numa manhã gelada, com tudo coberto de neve, sir Finnigan e Harry saíram juntos para uma caminhada. Enquanto isso, Elspeth ficou torcendo as mãos, com os nervos à flor da pele.
Preocupada, Gina perguntou-lhe o que estava acontecendo. Com o rosto tenso, a amiga confidenciou:
— Sir Finnigan decidiu pedir a lorde Harry permissão para nos casarmos. Implorei para que não o incomodasse com um pedido desses, mas ele não me deu atenção. Disse que não quer que nosso filho nasça como um bastardo.
— Oh … — Gina surpreendeu-se por não haver notado antes como a cintura de Elspeth havia engrossado e não soube mais o que dizer.
Sempre a pessoa a confortar as demais, Jesse se aproximou e deu um abraço apertado na amiga, dizendo-lhe para não se preocupar.
Os homens só retornaram no fim da tarde, sacudindo a neve dos pesados casacos de pele e das botas: Entre eles, frei Laurence, livrando-sé também da neve que cobria seu hábito de lã e a cabeça calva.
Harry chamou a atenção de todos que estavam reunidos no grande hall, anunciando:
— Meus amigos, aproximem-se. Um casamento será celebrado neste momento.
Em seguida, chamando Elspeth, perguntou-lhe:
— Jovem, dou-lhe permissão para escolher qualquer saxão que ainda esteja solteiro. Tem certeza de que é este velho urso que deseja por marido?
Como resposta, Elspeth abraçou os ombros eretos de Sir Finnigan, beijando-o na face coberta por uma curta barba grisalha.
Frei Laurence então oficiou a cerimônia, dando bênção aos noivos. E a comemoração se iniciou, prosseguindo noite a dentro.
Gina desempenhou suas tarefas de modo automático sem cometer erros, mas o casamento de Elspeth, de certa forma, a havia perturbado. Não que seu coração abrigasse outro sentimento que não os melhores votos de felicidade para o novo casal. Era a expressão do rosto atraente Harry durante e depois da cerimônia que a preocupava. Mas só ao se recolherem a seus aposentos foi ele lhe deu uma indicação do que estava sentindo.
Um belo fogo crepitava na lareira, tornando o quarto quente e aconchegante. Abrindo a janela, Harry ficou algum tempo olhando para fora. Envolvendo-se num xale, Gina foi juntar-se a ele, imaginando se diria o que o estava perturbando.
Em meio aos flocos de neve caindo, a noite estava calma e silenciosa. Abaixo, na aldeia, colunas de fumaça subiam dos fogos acesos em cada cabana.
— Algo errado, milorde?
Girando nos calcanhares, Harry ficou a encará-la, o rosto, uma máscara inexpressiva.
— Você está grávida também, Gina? — perguntou sem o menor preâmbulo.
— Não, milorde.
Ela o observou com atenção, para ver se descobria nas belas feições, algum tipo de emoção que servisse de indicação para os sentimentos dele. Mas o rosto másculo permaneceu indiferente, distante.
Num movimento brusco, o Falcão tornou a voltar para a janela, fechando-a com firmeza, dessa forma bloqueando o frio. Depois, arrancou o xale que a envolvia e, segurando-a pelos ombros à distância de um braço, estudou-lhe o corpo nu.
— Quando desceu seu último fluxo?
— Eu … nunca fui muito regular. Pode vir a qualquer momento, quando menos espero, ou ficar alguns meses sem vir.
A resposta deixou-o desapontado. Abraçou-a. Deveria ter notado, supunha, se fosse o caso, já que passava um tempo considerável observando-lhe os seios e a cintura, para ver se aumentavam de tamanho.
— É uma pena — comentou, carregando-a para a cama: — Todas as outras mulheres estão. Acho que estou farto de me perguntarem se não estou cumprindo meu dever.
— Eles se atrevem a lhe perguntar tal coisa?! — Gina quis saber enquanto Harry a cobria até o queixo com a coberta de pele e, depois de despir-se, vinha juntar-se a ela.
Deitado de costas, com as mãos por baixo da cabeça, Harry ficou olhando para o teto, enquanto contava os meses que lhes restavam. Março e, se a primavera tardasse a chegar, abril, antes que o porto descongelasse. Haveria tempo suficiente para engravidá-la, e assim retê-la em Blackstone por mais dois anos, até o bebê ser desmamado?
Ao lado de Harry, Gina permanecia calada. Quando o Falcão se voltou e colocou a mão sobre a suave curva de seu ventre, ela não se afastou, mas também não se aconchegou a ele, como de costume.
— Quero ter um filho seu — Harry anunciou, com firmeza, o olhar ainda voltado para a barriga de Gina. — Mas talvez você seja estéril.
— Está aborrecido comigo,Harry ?
— Não, Gina, você não tem culpa. Temos de esperar o curso da natureza. Mas Blackstone precisa tanto de crianças … e gostaria de que uma delas fosse minha.
A cada domingo, depois da missa, as mulheres se juntavam para falar dos bebês a caminho. Elspeth fazia parte do grupo, radiante por estar carregando no ventre um filho de um cavaleiro da importância de sir Finnigan. Jesse, que não tinha certeza de qual dentre alguns escudeiros era o pai de seu filho, proclamava, alto e bom som, que a alegria da maternidade era o bastante para ela.
Em meados de março, a parteira estava metida até o pescoço com mulheres dando à luz, ou prestes a fazê-lo. O frio intenso chegara ao fim, e o cheiro da primavera enchia o ar. Era a época ideal para colher ervas medicinais e repor o estoque quase acabado da torre. Gina agitava-se no interior das altas muralhas de Blackstone, ansiosa por explorar os pequenos riachos e as matas em busca de raízes e ervas.
Harry, porém, achava-se muito ocupado supervisionando as construções para poder acompanhá-la fora das muralhas em busca de plantas medicinais. A cada vez que Gina insinuava o quanto os estoques estavam baixos no baú de medicamentos, o Falcão respondia que talvez, no dia seguinte, pudesse encontrar algum tempo livre para levá-la até as montanhas.
O dia seguinte, Gina receava, poderia ser tarde demais.