Assim que desceu para o hall, Harry mandou chamar Elspeth e Jesse e tratou de remover-lhes os grilhões. Entregou-os depois ao senescal, dizendo:
— Sir Finnigan, quero que isso seja registrado oficialmente nos anais da abadia: Elspeth, Jesse e Gina não são mais escravas. Se desejarem casar-se com homens ainda não comprometidos, farão a escolha por si mesmas e apelarão a mim para aprovação da união. E de hoje em diante receberão pagamento justo pelos serviços prestados a esta casa, enquanto aqui permanecerem.
Tendo estabelecido suas novas determinações, o duque anunciou que partiria em seguida para o norte do feudo, a fim de caçar e checar as armadilhas.
Elspeth foi encarregada de cuidar das provisões para a difícil viagem. A Gina nada foi dito ou pedido. Harry não parou para despedir-se dela, e nem mesmo demonstrou perceber-lhe a presença.
Também não disse quando voltaria.
Todas as noites, durante sua ausência, Gina recolhia-se aos aposentos dele, tal como lhe fora ordenado.
Ao libertá-las, porém, o duque deixara alguns detalhes não esclarecidos. E Gina acabara chegando a uma conclusão perturbadora. Harry não anunciara sua posição como governanta, conforme prometera no navio. Uma omissão proposital, com certeza. Para resumir, ele a deixara numa posição tão delicada quanto a de escrava: a de amante.
Partindo tão depressa, logo depois de anuncia libertação, o duque deixara-a sozinha para lutar suas próprias batalhas, para reivindicar a autoridade do cargo através de demonstrações de capacidade de caráter.
Em conversa, as três jovens concluíram que, na realidade, a única coisa que mudara fora ficarem livres do incômodo colar de ferro.
Gina decidiu também que, enquanto permanecer naquela terra miserável, não iria morrer de fome. Sendo assim, mandou que os aldeões matassem três porcos do mato, cuja carne seria defumada e salgada para ser usada aos poucos. Além disso, tratou de inventariar toda a quantidade de grãos e outros produtos a trazidos pelos camponeses, em rústicos carroções, a fim de serem armazenados.
Fez com que toda a torre fosse fumegada com cânfora e outras ervas aromáticas; os velhos colchões, queimados e substituídos por novos, feitos com palha fresca.
Quando um dos escudeiros apareceu com a pele de urso de Harry, Gina mandou que a levassem casa de banhos e a mergulhassem na piscina. Foi lavá-la quatro vezes antes que a enorme pele recuperasse seu incrível brilho e maciez, sendo então considerada por Gina como digna da cama do lorde.
Logo depois do meio-dia, o ruído dos cascos ferrados de Victory na ponte levadiça anunciou o retorno do Falcão. Inclinando-se sobre o caldeirão fumegante, Gina aspirou o aroma das ervas que acabara de adicionar à mistura, fingindo indiferença. Mas o coração traidor ameaçava saltar-lhe do peito.
— Ele está de volta — anunciou Elspeth, apontando para os portões.
Endireitando-se, Gina ficou observando Victory galopar em direção ao estábulo. Havia algo de diferente no animal. O pescoço arqueava-se, e a nobre cabeça erguia-se bem alta, orgulhosa, como se ele estivesse satisfeito com seu novo papel.
Apressado, o velho Heinz veio pegar as rédeas, enquanto, com agilidade felina, Harry desmontava. O cavalo de carga que seguia atrás vinha carregado de peles de animais. O olhar penetrante do duque percorreu todo o pátio, notando os servos diligentemente ocupados, e tomando conhecimento das tarefas em que se achavam empenhados.
Mas os belos olhos verdes passaram por Gina como se ela não tivesse importância maior do que o artesão que fazia barris, ou o ferreiro em sua quente e barulhenta forja.
Disfarçando a custo o desapontamento, Gina retornou a atenção para a cera quente. Se Harry decidira ignorá-la, ela podia muito bem fazê-lo experimentar uma dose do próprio remédio.
Piscando para afastar as lágrimas que teimavam em aflorar-lhe aos olhos, olhou para o céu carregado de grossas nuvens cinzentas. Uma tempestade estava se formando. Com esforço, conseguiu controlar a angústia e continuar a tarefa de produzir velas. Era o momento de testar se a consistência da cera atingira o ponto certo. Junto com Elspeth, começou a mergulhar os fios de algodão trançado que constituiriam os pavios. Ambas soltaram gritinhos de triunfo quando a cera quente aderiu aos fios, endurecendo e aumentando de volume a cada mergulho sucessivo.
— Parece que deu certo — comentou Elspeth, afastando uma mecha de cabelo do rosto afogueado.
Griselda, uma camponesa que, junto com a filha Trude, viera ajudá-las, encarregou-se então de mergulhar as fôrmas de metal com os pavios já presos em seu interior. As duas trabalhavam com facilidade, brincando uma com a outra o tempo todo e também com os jovens pajens reunidos à volta delas. Ao verem o duque, ambas o saudaram com afeição e respeito, a que ele respondeu com um alegre cumprimento. Harry ria com naturalidade juntando-se às brincadeiras e à animação de sua gente.
Pegando outra fôrma, Gina tentou concentrar-se no tedioso trabalho, mas seus olhos pareciam ter vontade própria e voltavam-se o tempo todo para o atraente saxão. Com graça
masculina, o Falcão movia-se de um posto de trabalho a outro, inspecionando e elogiando as obras de cada um. Junto à forja, ele se deteve por um tempo maior, trocando animadas palavras com o ferreiro, sem parecer afetado pelo calor do ferro em brasa.
Por mais que Gina se esforçasse, a presença de Harry constituía uma distração irresistível. Suspirando, tratou de voltar a atenção para o que fazia.
— Cansada, Gina? — perguntou Elspeth, sem erguer o olhar dos pavios que estava prendendo no interior das fôrmas. — Não tem dormido bem à noite, tem?
— Você tem?
Elspeth deu de ombros.
— Sim, isto é … consigo descansar o suficiente assim que sir Finnigan vira de lado e adormece.
A vermelhidão do rosto de Gina acentuou-se, nada tendo a ver com o calor da cera derretida no caldeirão. Elspeth, por sua vez, olhou em torno do pátio cheio de gente, um tanto apreensiva. Só se sentia em verdadeira segurança quando sir Finnigan se encontrava por perto, mas ele havia saído logo cedo para uma inspeção nos campos.
Nesse instante, Jesse se aproximou, vinda da casa de banhos, onde estivera lavando roupa.
— Que cheiro gostoso!
— É hortelã, Jesse. Gina esmagou as folhas e acrescentou-as à mistura.
— Onde você arranja tantas idéias? — Jesse perguntou, curiosa.
— Fazemos assim em casa.
— Ah … casa — suspirou a jovem, cheia de melancolia.
— Não comece com isso — Elspeth advertiu.
— Sinto falta do meu filho.
— Pode ter outro aqui. — Como sempre, o espírito prático de Elspeth fazia-se presente.
— Elspeth! — protestou Gina. — Como pode dizer uma coisa dessas à pobre Jesse?
A moça loira olhou para as nuvens cinzentas que se agrupavam ao norte.
— Meu próprio filho foi tirado de mim pelo pai, a fim de ser criado no castelo, e não numa casa de servos. A mesma coisa vai acontecer com o filho de Jesse, cedo ou tarde. E ela sabe disso.
Gina jamais pensara nesses assuntos antes. Mas sabia que Elspeth falava a verdade. Mesmo em Landais, quando uma serva dava à luz um filho gerado pelo suserano ou outro homem da família, a criança não ficava sob a guarda da mãe por muito tempo. O casamento era a única garantia de proteção e de direitos respeitados que uma mulher podia obter.
— A que distância acham que estamos de nossas casas? — A pergunta saiu num impulso quase inconsciente.
— Como vamos saber? Afinal, viemos de barco. — Elspeth observou com apreensão o cenho franzido de Gina.
— A Saxônia não pode ficar tão longe assim. Que tal se roubassemos um barco de pesca?
Elspeth riu.
— E nós três iríamos conseguir manejá-lo em alto-mar?
— Poderíamos ficar perto da costa e seguir para o sul.
A idéia pareceu tão ridícula a Elspeth que ela resolveu entrar na brincadeira.
— Que maravilha! Fazendo velas num dia e transformadas em marinheiros no outro! Mas devemos planejar bem, meninas. Começando daqui a um mês, quando os primeiros sintomas de enjôo matinal vierem nos afligir.
Gina olhou-a, perplexa.
— O que está querendo dizer?
— Estou falando daquilo que acontece com o estômago da maioria das mulheres quando descobrem que vão ter um filho — Elspeth não se preocupou as palavras.
— Ter um filho?! Mas eu não sou casada.
— E daí? Você tem um homem, não tem? E ele vai plantar sua semente em você até um filho ser gerado. Foi para isso que nos trouxeram para cá. Para repovoar o feudo.
Gina deixou cair o pavio que estava segurando. Como pudera ser tão cega?
— Nesse caso, temos de apressar nossa fuga…
Elspeth sacudiu a cabeça, ao mesmo tem entregava à companheira o pavio que esta deixara cair.
— Tarde demais. O mal está feito. Fugir não resolve nada.
— Pelo menos cessaria o … o plantio.
— Oh … Seu fluxo mensal já chegou, Gina?
— Não, mas não está na época. Deverá chegar na lua minguante.
— Bem, essa é a questão. Se não chegar, é porque a semente foi bem plantada e um bebê se encontra a caminho.
— Quantas vezes são necessárias … antes que aconteça?
Elspeth deu de ombros.
— Depende.
Com as faces vermelhas como pimentão, Jesse admitiu:
— Meu senhor esteve comigo muitas vezes antes que meu filho fosse concebido. As outras criadas achavam que eu tinha sorte porque meus fluxos chegavam com regularidade. Então, quando milorde já não tinha interesse por mim e arranjado outra para sua cama, eles cessaram, e descobri que estava grávida.
Esse era outro assunto com que até então Gina não se preocupara. Mas estava claro que Harry tinha perdido o interesse por ela. Observando a pálida beleza de Elspeth e a doce vivacidade de Jesse, pela primeira vez as encarou como possíveis rivais.
— Nós três fomos feitas escravas por lorde Emory. Isso significa que ele pode levar cada uma de nós para sua cama? E vocês se submeteriam, caso ele assim o desejasse? - Indagou Gina.
— Gina, lorde Emory é o suserano. Claro que teríamos de nos submeter à sua vontade. — Jesse sacudiu a cabeça, como que insinuando que aquela fora uma pergunta idiota.
— Nós, e qualquer outra mulher deste feudo que despertar o interesse dele — acrescentou Elspeth.
— Nesse caso, minha sorte está decidida. Vou embora o quanto antes. Não fico nem mais uma noite debaixo deste teto! — Gina ergueu o queixo em desafio, recusando-se a tomar conhecimento da expressão severa de Elspeth.
— Não seja tola! Imagina que vai conseguir chegar sozinha a sua terra? Parece que não aprendeu nada com o que lhe aconteceu, a não ser o que milorde lhe ensinou na cama. Deve ter agradado a ele a ponto de fazer com que lhe retirasse o colar de escrava do pescoço. E os nossos também. Mesmo assim, é obtusa demais para ver o que está bem diante do seu nariz! Ele é o duque de Emory. Olhe ao seu redor! Os vikings destruíram-lhe o feudo até quase nada mais restar, e no entanto o duque continua agarrado ao que lhe pertence. O homem não vai abrir mão de você. Fuja e ele irá caçá-la nos confins do mundo.
Gina ficou olhando para o caldeirão de cera fervente em sombrio silêncio, enquanto as palavras duras de Elspeth penetravam fundo em sua mente. Penalizada, Jesse pousou a mão no braço dela, dizendo:
— Vamos, deixe que eu fique em seu lugar. Vá lá para dentro e tome um copo de água. O calor está muito forte aqui.
— Vou lavar paredes. — O trabalho árduo a impediria de pensar em sua terrível situação. Pelo menos era o que esperava.
O grande hall estava deserto. Gina olhou em volta á procura do que fazer, e decidiu-se pela escadaria, começando a esfregar com vigor os degraus. Sentia-a atormentada. Mal conseguia absorver todas as informações que lhe haviam sido fornecidas.
Depois de terminar a faxina, ficou algum tempo sentada, pensativa, recordando a última noite passada na cama com Harry. Um forte rubor subiu-lhe às faces ao lembrar das liberdades que lhe concedera. Como pudera permitir que o Falcão fizesse tudo aquilo com ela? Não tinha orgulho? Ou vergonha? Afinal, era uma Weasley. E todas as vezes que concedesse a Harry intimidades, correria o risco de ter a semente dele plantada em seu corpo.
Seu olhar percorreu toda a grande extensão do hall. A cada dia de trabalho o lugar ia recuperando o passado esplendoroso. O piso deixava ver agora toda a sua fantástica beleza, com os quadrados de mármore preto-e-branco brilhando devido à cera que ela mesma preparara e ajudara a passar.
Estendendo as mãos, Gina examinou as palmas avermelhadas e calosas. Já não eram as mãos alvas e macias de uma dama, e sim tão maltratadas quanto as de uma serva.
Seu olhar foi atraído para o ventre plano. Não suportaria jamais a vergonha de dar à luz um bastardo saxão. Deus do céu, era a filha de um duque, ministro do mesmo imperador de quem Harry fora o campeão!
Como pudera cometer uma estupidez tão grande não lhe revelando, desde o primeiro momento, a verdadeira identidade? Por recear que pedisse resgate por sua pessoa? Ao menos, ser raptada em troca de resgate era uma fatalidade que não a desonraria. E de novo, quando chegara a Blackstone usando um grilhão de escrava, fora o orgulho que a cegara. Poderia ter pedido proteção e refúgio aos monges, apenas revelando-lhes o nome verdadeiro. Mas estava tão furiosa, tão insultada, que se recusara a fornecer o nome do pai a qualquer saxão que dele pudesse tirar proveito.
Tinha tentado apegar-se à raiva e ao ódio, como armadura para defender o coração contra a atração que sentia pelo Falcão, mas falhara até nisso.
Passara cada uma das últimas cinco noites, tremendo em seu leito, ansiando por ele. Querendo que voltasse logo e a tomasse nos braços, saciando o desejo ardente que a consumia e não a deixava dormir.
Agora que Harry estava de volta, sabia sem sombra de dúvida que se rebaixaria por completo diante dele, entregando-se com prazer às menores vontades daquele homem.
Por outro lado, o que ele lhe dera? Nem ao menos um sorriso, desde que chegara.
Sim, sua decisão era correta. Precisava partir de Emory o mais rápido possível, antes que o inverno chegasse.