— O Senhor atendeu às minhas preces — sussurrou Ron , em tom reverente, a seus companheiros no bote.
Era a primeira incursão do jovem saxão. Seu coração batia disparado no peito, porque afinal avistava uma presa muito melhor do que meros sacos de grãos e sementes: mulheres, duas lindas mulheres francesas.
Manejando o leme na popa da embarcação, Harry não pôde deixar de concordar com o primo. Só que a atenção dele estava voltada para o belo garanhão cinzento, sem dúvida a resposta às suas preces. Desde que o enxergara, na curva do rio, seu olhar não mais se afastara do animal.
— Fique quieto, Ron — advertiu sir Neville Longbotton, mais experiente do que o rapaz em caçadas de qualquer tipo. — O som se propaga com facilidade através da água.
Ao contrário de Harry, o interesse de Neville e Ron concentrava-se nas duas jovens conversando animadas à beira da água, num ponto abrigado entre árvores. Correndo o risco de adernar o bote, Harry tocou o braço de Neville, desviando-lhe a atenção das mulheres.
— Olhe!
Voltando-se para a direção apontada pelo lorde, Neville avistou o grande cavalo cinzento, pastando descuidado junto a um rico campo de aveia.
— Que animal magnífico, não, Duque?
— O melhor que vi nos últimos tempos. — Harry tratou de ignorar a sela no lombo do garanhão.
— Eu quero a garota de tranças. — Num movimento súbito, Ron ergueu o tronco.
Com um tapinha, Neville obrigou-o a voltar à posição anterior e a ficarem silêncio. O duque não gostaria nem um pouco se a presa fosse alertada.
Nesse momento, uma das moças riu, e o cavalo ergueu a cabeça, olhando naquela direção. Depois, voltou sua atenção para os homens no bote, sem mostrar sinais do medo.
Harry perguntou-se se o animal estaria achando, tanto quanto ele próprio, uma distração interessante as duas garotas. Por um breve instante, seus belos olhos verdes voltaram-se para o abrigo entre as árvores. Mesmo na fraca claridade do crepúsculo, podia ver que elas eram jovens e sedutoras, principalmente a de cabelos ruivos em ondas pelos ombros.
Fosse pela demorada abstinência, ou pela rara beleza daquela moça, talvez uma ilusão causada pelas sombras do entardecer, o fato era que a jovem o tentava mais do ele gostaria de admitir.
Mais essa era uma tentação a que não podia se permitir. Não quando o prêmio maior da incursão pelo rio encontrava mais acima, pedindo para ser capturado e dominado.
Além disso, seu navio já se encontrava lotado de mulheres. Mas, para um prêmio daqueles, um extraordinário cavalo de guerra, ele faria coisa. Decidido, pegou o elmo viking, ajeitando-o na cabeça. Em seguida, conduziu com habilidade o bote para a margem.
Agarrando um rolo de corda, Neville preparou-se para o embarque. Um sorriso divertido surgiu-lhe nos lábios ao olhar para Ron, que se levantara , agarrado à borda. O rapazinho, assim como ele e Harry, vestia apenas uma tanga de pele à moda dos bárbaros vikings, e trazia na cabeça o elmo com chifres característico daqueles pagãos.
Erguendo-se em toda a sua alta estatura, Ron murmurou, olhando para a moça de tranças:
— Deus do céu, ela é linda!
— Ora, Ron, você vai matá-las de susto aparecendo com sua cara feia debaixo desse elmo! — Com um puxão na tanga do primo, Harry obrigou-o a abaixar-se. — Esqueça as mulheres e concentre-se no trabalho que temos a fazer. É o cavalo que quero levar.
— Cavalo? Que cavalo? — Ron virou a cabeça em todas as direções, até avistar o garanhão. — Oh!
A surpresa do rapaz fez Neville abrir um sorriso de dentes muito brancos em contraste com seu rosto moreno, emoldurado pela barba negra.
Apontando para o abrigo em meio às árvores, Ron insistiu: — Pois eu não troco aquelas duas por cavalo nenhum.
— Como sempre, você não passa de um tolo. ― O olhar severo de Harry silenciou o rapaz, enquanto o bote era conduzido para a terra. — Fique aqui e tome conta do barco.
Equipados com compridos rolos de corda, Harry e Neville avançaram em silêncio através das árvores ribeirinhas mergulhadas nas sombras crescentes da noite que caía.
Agachando-se de modo a não ser visto, Ron afastou os juncos, para ter uma visão completa do esconderijo das jovens. Talvez tivessem vindo até ali para banhar-se. Pelo menos era o que gostaria que acontecesse. Afinal, as duas criadas eram de uma beleza excepcional.
— Está ficando escuro, Gina. É melhor irmos para casa. — Sentada num tronco de árvore, Luna levantou a barra da saia para amarrar os sapatos enlameados. — Victory foi embora, pelo jeito.
— Non, ele deve estar por perto.
— Então chame-o. Já estamos atrasadas demais para ter de caminhar até em casa.
— Droga! Onde estão meus sapatos? — Depois de procurá-los por algum tempo, admitiu:— Não vou achá-los com essa pouca luz. Terei de voltar amanhã para procurá-los. Mas você tem razão. É melhor tratarmos de ir o quanto antes para casa. — Em seguida, enfiando dois dedos na boca, emitiu um agudo assobio. O ruído espantou os pássaros já acomodados nas árvores para dormir, fazendo-os sair em revoada.
E também sobressaltou Ron, que quase caiu de costas no lugar em que se escondia, a dois passos da moça de tranças. Um segundo assobio fez-se ouvir no momento em que ele se precipitou para adiante a fim de agarrar a jovem.
O olhar de Gina percorreu o barranco onde vira pela última vez Victory pastando. Mas o animal não se achava mais lá.
— Victory! Venha cá, rapaz. — Estranhando, emitiu pela terceira vez o agudo assobio.
Afinal ouviu o som tranqüilizador dos cascos do cavalo no terreno próximo dali. Aliviada, nem sequer reparou no gritinho abafado atrás de si.
— Espero que ele não tenha estado comendo aveia. Mamãe ficaria furio.. — O restante da frase se perdeu quando Gina, voltando-se para a irmã, avistou uma espécie de monstro chifrudo agarrando Luna e arrastando-a para trás dos altos juncos. — Luna!
Nesse instante, ouviu-se o zangado relincho de Victory, seguido pelo martelar dos cascos no barranco. Paralisada de choque, Gina só conseguiu virar a cabeça na direção do som. O que viu deixou-a ainda mais apavorada.
Dois homens altos e fortes, com elmos de chifres nas cabeças e seminus, haviam capturado seu cavalo. Enquanto os olhava, assombrada, o primeiro atacante desaparecia com Luna em meio à vegetação aquática.
— Mon Dieu! Vikings!
Lutando para livrar-se, Luna gritou, pedindo socorro. Sem pensar nas conseqüências, Gina atirou-se sobre o viking que aprisionara a irmã. Juntas, as duas jovens puseram-se a chutar e a arranhar o corpo desprotegido do captor. O ataque foi tão furioso que fez cair o elmo do rapaz. Com Luna a chutar-lhe as canelas, e Gina a socá-lo pelas costas, Ron perdeu o equilíbrio, caindo no lamaçal junto à margem, e arrastando com ele as duas irmãs. Aproveitando a oportunidade, Luna conseguiu se livrar das mãos enormes que a agarravam. Sentada, limpando a lama do rosto, pôs-se a gritar, histérica. Enquanto isso, montada nas costas do rapaz, Gina socava-lhe sem parar a cabeça descoberta.
— Corra, Luna! Vá buscar socorro! — Um soco certeiro de Gina atingiu o rosto de Ron, voltado em sua direção. Com um gemido, ele levou a mão ao nariz, que sangrava. — Corra! Eu posso controlar este bandido! Ele não passa de um menino!
Seguindo o exemplo da irmã, Luna bateu com o cesto de vime na cabeça de Ron. Ia mostrar-lhe que não eram tão indefesas assim!
Gina pensava ter a situação sob controle, quando o jovem viking, num golpe repentino, derrubou-a de costas e a prendeu sob o corpo. Um berro triunfante escapou da garganta dele.
— Largue minha irmã, seu bruto! — Frenética, Luna não parava de bater com o cesto na cabeça de Ron.
Contorcendo-se, Gina conseguiu colocar a mão no cabo do punhal preso em sua cintura. O rapaz era mais pesado do que ela imaginara. Nesse momento, a terra pareceu tremer sob seu corpo. Era Victory, precipitando-se barranco abaixo como o mais destemido dos cavalos de batalha, com um dos vikings a cavalgá-lo. Ao chegar perto, o animal empinou, soltando um feroz e assustador relincho.
— Gina! ― gritou Luna, voltando-se e deparando-se com o enraivecido garanhão e com o homem enorme que o montava.
Aquilo era cem vezes mais assustador do que o ataque do jovem viking, porque Luna sabia como Victory ficava descontrolado quando um homem tentava cavalgá-lo. Apavorada, começou a arrastar-se para trás no brejo, gritando:
― Socorro! Socorro! Gina! Victory vai nos matar!
O poderoso animal agitava as patas dianteiras no ar, perto da cabeça de Ron. O rapazinho não era idiota a ponto de permanecer deitado onde estava. Livrando-se de Gina, permitiu que esta também se colocasse a salvo do perigo. Afastando-se das patas do cavalo, ela se pôs de pé. Embora trêmula e ofegante, segurava com firmeza o punhal sarraceno.
O viking moreno, que viera correndo, deteve-se ao ver a arma. Num gesto de sensatez, ergueu as mãos vazias, para mostrar que se achava desarmado. Ofegante, Gina calculava o próximo movimento. De posse do punhal, ela, detinha um frágil equilíbrio de poder. O homem de cabelos escuros tinha recuado um passo, enquanto Ron tentava estancar o sangramento do nariz.
Restava ainda o mais perigoso de todos: o que montava Victory. Ele conseguira obrigar o cavalo a colocar as quatro patas no solo e o mantinha seguro, por pura força de vontade. O que Gina sabia, era um feito extraordinário. Victory jamais tolerara o peso de um homem em seu lombo, e por isso se tornara sua montaria particular.
Limpando o rosto na manga, ela tratou de colocar a irmã a salvo às suas costas. Luna tremia como vara verde, contorcendo as mãos em desespero. Gina, porém, não desviava os olhos do viking a cavalo.
Rompendo o silêncio carregado de tensão, ele falou, em excelente francês:
— Não queremos lhes fazer mal. Podem ir embora.
Na fraca claridade, Gina mal podia distinguir-lhe as feições. Ainda mais porque o elmo lhe cobria em parte do rosto. Mas o tom de comando na voz profunda era indiscutível. Mesmo contra a vontade, ficou olhando, fascinada, para o bárbaro de pele bronzeada, magnífico sobre o garanhão. Uma tanga de pele envolvia-lhe os quadris estreitos e um manto, também de pele, pendia-lhe dos ombros poderosos. Tiras de couro cruzavam o peito nu, bem como os musculosos braços, contraídos no esforço de manter o cavalo sob controle. Diante da força assustadora daquele selvagem, Gina sabia que a melhor atitude a tomar era pegar a mão de Luna e correr.
Contudo, algo em seu íntimo resistia ao comando daquele homem. Empertigando-se toda, retrucou:
— Não vou embora enquanto não devolver meu cavalo. Nunca desisto do que me pertence.
— Gina! Não seja estúpida! Não ouviu o que ele disse? Vamos sair daqui. — Agarrando o braço da irmã, Luna tentou tirá-la do local.
— Não! Vá você. Vá buscar papai. Não vou deixar que esses bárbaros roubem meu cavalo.
— Mon Dieu, é só um cavalo, Gina! Além disso, não posso ir sem você.
— Obedeça, minha irmã. Vá chamar papai e Gui. Posso muito bem mantê-los a distância com meu punhal.
Angustiada, Luna torcia as mãos, sem saber o que fazer. A decisão de Gina, porém, já estava tomada.
De repente, Luna ouviu o ruído inconfundível de metal raspando metal. O bárbaro montado em Victory acabava de sacar uma enorme espada da cintura. Era o que faltava para convencer a jovem a ir buscar socorro. Voltando-se, Luna começou a correr, desaparecendo em meio às árvores.
O coração de Gina batia tão forte que ela não escutou o ranger do metal. Mas foi-lhe impossível não ver a enorme espada na mão direita do magnífico guerreiro. Sua própria arma desaparecia, em comparação.
Tremendo dos pés à cabeça, Gina percebeu o imperdoável erro cometido ao deixar escapar a oportunidade de fugir. Mas recuperou o ânimo, dizendo a si mesma que até aquele momento tinha conseguido manter a distância dos dois atacantes apenas com seu pequeno e afiado punhal. O miserável que se atrevesse a chegar perto iria ter bons motivos para se arrepender. Tudo o que queria era ganhar tempo, impedindo-os de escapar antes que o pai e os vários cavaleiros de visita a Landais viessem em seu auxílio. O pensamento lhe deu coragem.
— Saiam daqui — o líder ordenou a seus homens, embaiando a espada, sem contudo desviar os olhos de Gina. — Vamos nos encontrar no navio.
Ron começou a afastar-se em meio aos altos juncos. Mas Neville permaneceu firme, guardando o terreno entre o líder e Gina. Esta, indiferente, manteve os furiosos olhos castanhos fixos no bárbaro montado em Victory.
Segurando as rédeas com firmeza, ele afundou os calcanhares no flanco da animal, obrigando-o a dar meia-volta.
— Seu miserável! Desça já do meu cavalo! ―Gina avançou impetuosa, tentando agarrar o freio do garanhão.
Em sincronia com os com os gritos da dona, Victory começou a dar pinotes e a escoicear, tentando livrar-se do inesperado cavaleiro. O viking, entretanto, ficou firme. Assustada, Gina viu-se obrigada a sair de perto do terrível combate. Tanto quanto o homem o animal estavam possuídos pela mais pura fúria, o primeiro empenhado em dominar, o segundo em recuperar a liberdade.
No ardor da luta, o elmo acabou sendo arremessado ao solo caindo perto dos pés de Gina. Os olhos castanhos se arregalaram quando, sem o metal que lhe encobria as feições, ela conseguiu reconhecer o invasor.
―Mon Dieu! Harry Potter, Duque de Emory!
“Mas o Duque está morto!" Contudo, as belas feições do lorde eram inconfundíveis. Os cabelos castanho-dourados, com reflexos mais claros devido à ação do sol, emolduravam-lhe o rosto. Os maravilhosos olhos verdes, rodeados de cílios fartos, destacavam-se no rosto bronzeado. Tinham a intensidade de um predador vigiando a presa e naquele momento estavam fixos em Gina. Ela pensou em fugir, mas suas pernas pareciam pregadas no lugar.
Com a respiração difícil, Victory submetera-se afinal à vontade mais forte que a sua. Engolindo em seco, Gina buscou forças para aproximar-se e dizer:
— Sr. Duque, suplico-lhe, não leve meu cavalo. É um bom animal e eu gosto muito dele.
Sentindo-lhe o toque da mão no flanco, Victory acalmou-se. Embora as pernas do garanhão tremessem devido ao enorme esforço para libertar-se, ele suportava o peso do homem em seu dorso com facilidade, como se tivessem sido feitos um para o outro.
Um arrepio estranho percorreu o corpo de Gina, que não lhe reconheceu o significado. Mas, ao mesmo tempo, um pensamento maluco cruzou-lhe a mente: seria ela também feita para aquele homem?
— Você me conhece? — perguntou Harry, tão selvagem e feroz quanto o garanhão que acabara de dominar.
— Sim, eu o conheço. Estava em Montigney, quando lutou contra lorde Malfoy e foi derrotado. Mas ouvi dizer que tinha morrido.
— Não senhora, não morri. Mas tenho vivido no inferno desde aquele dia. Por essa razão, vou levar o cavalo. Preciso dele.
As mãos de Gina se contraíram no bridão de Victory. Tinha de retê-lo, ganhar tempo.
— Pour quoi? O duque de Emory não deve ter motivo para roubar. Afinal, sempre foi o favorito do imperador Lotário.
As Palavras de Gina fizeram as feições másculas se contraírem de raiva. Num puxão, ele arrancou o bridão da mão dela, gritando:
— Neville, venha cá! Esta mulher me reconheceu. Amarre-a e leve-a para o navio.
Abismada demais para se mover, Gina lamentou de novo não ter fugido quando lhe fora permitido.
Voltou-se então para enfrentar a nova ameaça, o punhal seguro com firmeza. Quando sir Longbotton tentou agarrá-la, atacou golpeando-lhe a mão.
Neville desviou-se com facilidade e avançou de novo para ela. A longa saia enrolou-se nas pernas de Gina quando esta tentou recuar, derrubando-a. O atacante, que havia se jogado em sua direção, não conseguiu parar a tempo , caindo sobre Gina. E o punhal, que ela segurava com firmeza, enfiou-se no corpo dele.
— Ah! Meu Deus! — exclamou o homem, levando as mãos à barriga.
— Pour l’amor de Dieu, você recebeu o que merecia!
— Sangue de Cristo! — Harry gritou por sua vez. ― Ron, volte aqui! A miserável conseguiu ferir Longbotton!
Com dificuldade Gina ficou de joelhos, libertando a saia do peso do homem ferido.
— Oh não! — sussurrou, temendo pela própria vida. Depois se pondo de pé, tentou fugir, enquanto perguntava, entre soluços. — O que foi que eu fiz?
Mal dera três passos, quando um braço vigoroso a levantou do chão. Num piscar de olhos, Gina viu-se colocada sobre o lombo de Victory. Com os dentes muito brancos brilhando no rosto bronzeado, o duque informou:
— Acaba de ser feita prisioneira, mulher.
O socorro chegou tarde demais para Gina. Cada um dos escudeiros que percorriam com tochas nas mãos as margens do rio tinha chegado a essa conclusão.
Havia sangue num determinado local à beira da água. Com o rosto contorcido, lorde Weasley ajoelhou-se para examinar a mancha escura. O filho mais velho, sir Guilherme, envolveu Luna, que não parava de chorar, num abraço protetor, enquanto a mãe, lady Molly, permanecia de pé, olhando para a correnteza.
— Não perca tempo com lágrimas inúteis, Luna — disse lorde Weasley, rompendo o silêncio. — Descreva a aparência dos homens que atacaram vocês.
— Eram enormes, monstruosas criaturas, papai. Usavam elmos com chifres e quase não tinham roupas. Apenas… algumas peles de animais. — Mergulhando o rosto no peito do irmão, Luna concluiu, desesperada: ― Por que fui deixar Gina sozinha com eles?!
— Vikings! — Draco Malfoy adiantou-se, zangado, conduzindo o cavalo pelas rédeas. — Temos de ir atrás deles, lorde Weasley, antes que a maré suba demais.
— O que eles vão fazer com Gina, papai? — choramingou Luna.
Lady Molly, cujo olhar cheio de tristeza tinha estado fixando por longo tempo o rio, voltou-se, afinal, para a filha.
— Gina se foi, Luna. Receio que nunca mais vá rever sua irmã.
— Non. — Lorde Weasley se pôs de pé. — Vou encontrá-la. Atrás deles! Victory deixou rastros bem nítidos.
— Eles vieram de barco, milorde. — Lady Molly apontou para os juncos esmagados junto à margem, indício seguro da existência de uma pequena embarcação.
Quando o punhal sarraceno de Gina foi encontrado, manchado de sangue, bem próximo da água, a pobre mãe não pôde deixar de cogitar se o marido estaria pensando o mesmo que ela. Seria sangue de Gina aquele que manchava a lâmina? Mas se a filha estava morta, por que não haviam encontrado o corpo em parte alguma?
A busca fora intensa. Nenhuma evidência que comprovasse a morte de Gina fora encontrada, o que não trazia conforto algum à angustiada mãe.
— Você não vai escapar assim tão fácil! — Gina estava tomada de fúria.
Detendo o garanhão no alto de um barranco sobre o estuário, Harry percorreu com o olhar a superfície das águas até divisar o que procurava: o bote.
Imóvel, ele aguçou os ouvidos. Os sinos da abadia, a muitas léguas de distância, permaneciam silenciosos. Nenhum alarme fora dado até então.
Gina contorceu-se toda, testando as amarras que a prendiam. Depois, passando a língua pelos lábios secos, repetiu o desafio:
— Você ouviu, Duque de Emory? Falei que não vai conseguir se livrar depois de raptar uma mulher e roubar um cavalo. Será perseguido até o fim da terra.
— Fique quieta. Mulher — ameaçou, ―se quiser, posso ficar aqui, desfrutando à vontade de seu corpo, até o sol nascer. E ninguém virá me privar desse privilégio.
O protesto ultrajado que escapou dos lábios de Gina o divertiu. Ela estava furiosa. Agarrando-lhe o queixo teimoso, Harry obrigou-a a virar a cabeça, fazendo com que os lábios vermelhos e sensuais ficassem ao alcance dos seus.
O luar era suficiente para que ele distinguisse o brilho dos olhos castanhos e a alvura do lindo rosto em contraste com os cabelos ruivos.
Com os lábios de Harry encostados em sua boca, Gina cravou as unhas nas coxas nuas e musculosas, preparando-se para rasgar-lhe a carne.
― Não faça isso — ele falou, de encontro aos lábios dela – ou vou possuí-la aqui mesmo, no chão.
O corpo de Gina tremia dos pés à cabeça, na ânsia de fazer alguma coisa contra o captor. Abriu a boca para xingá-lo, mas, nesse instante, os lábios masculinos cobriram os seus com a precisão do falcão descendo sobre a presa. Chocada, Gina não conseguiu reagir. Nunca fora beijada daquela maneira por homem algum. Beijos eram para serem dados nas faces ou nas mãos de uma dama, de modo respeitoso.
De repente, assim como começara, Harry interrompeu a carícia. Rindo, fincou os calcanhares nos flancos do cavalo, incitando-o a prosseguir. Mas via-se obrigado a dar algum crédito à prisioneira. Ela possuía mais coragem do que qualquer outra mulher capturada naquela aventura maluca que tinha o objetivo de arranjar esposas para os homens do feudo.
Em curto espaço de tempo, o garanhão percorreu a distância que levava até a pequena enseada onde o navio saxão se achava ancorado. Com pulso firme, Harry ia mantendo controle sobre o animal, enquanto este corria pela orla da praia. Do mesmo modo, seu domínio continuava a ser exercido sobre à prisioneira.
Enfim, puxando com força as rédeas, ele deteve o cavalo a poucos passos da embarcação. A bordo, a tripulação, alertada por Ron, já iniciava os preparativos para zarpar.
— Pode descer mulher.
Gina voltou-se, olhando-o, indignada, por sobre o ombro.
— Não posso descer de uma altura dessas com as mãos amarradas. Vou cair e me machucar nas pedras.
Os dedos fortes de Harry se apertaram em torno do braço delicado. Em seguida, colocou-a sobre sua coxa direita.
— Você só vai cair se tentar algo estúpido. Vamos, trate de obedecer.
Na verdade, a intenção de Gina era fazê-lo desmontar em primeiro lugar. Victory obedeceria a qualquer sinal que ela desse, e, se ficasse sozinha sobre o inteligente animal, teriam uma grande chance de escapar. Uma vez em disparada, ninguém conseguiria alcançá-los. E sua única preocupação seria manter-se montada.
— Não posso. Tenho medo. — Gina estava disposta a usar qualquer mentira para alcançar seu objetivo. — Não sei nadar.
— Nesse caso, vai ser a primeira pessoa a se afogar num palmo de água. — De repente, Harry rodeou-lhe a cintura estreita com o braço, e, retirando-a do lombo do cavalo, ficou a sustentá-la no ar.
Gina reagiu com gritos ultrajados:
— Não se atreva a me deixar cair na água!
Pois ele se atreveu, e simplesmente largou-a. Gina não teve a menor chance de fazer a descida com dignidade. Um de seus pés descalços pisou sobre uma rocha aguçada. O outro escorregou na areia instável, afundando e ocasionando sua queda, de cabeça para baixo, nas ondas espumantes.
Com a boca cheia de água salgada, Gina conseguiu afinal sentar-se, tossindo e cuspindo.
Rindo, Harry desmontou e entregou as rédeas a um dos membros da tripulação que tinha vindo encontrá-lo na praia. Depois, tirando o manto de pele, passou-o às mãos do homem mais próximo, satisfeito por poder livrar-se do calor desnecessário.
— Use isto para cobrir a cabeça do cavalo antes que ele suba à prancha de embarque.
Enquanto o homem se apressava a cumprir a ordem, Harry voltou-se, com a mão direita sobre o punho da espada para encarar a encharcada prisioneira.
Gina permanecia sentada, furiosa, sacudindo a cabeça para afastar do rosto os cabelos molhados.
Sem conseguir conter-se, Harry desatou numa sonora gargalhada.
— Como se atreve a rir de mim?! — Enraivecida, Gina chutou água em direção a ele, que permanecia de pé à sua frente, dominando-a com a alta estatura. ― Seu… seu … saxão miserável!
— Ora, ora, que boca suja você tem, pequena. — Segurando-lhe o braço, Harry foi ajudá-la a levantar-se, mas Gina recuou, fugindo ao toque. — Da próxima vez que eu lhe der uma ordem, trate de obedecer.
— Vou matá-lo por isso, duque!
Como reação à ridícula ameaça, Harry apenas a colocou de pé, fazendo-a andar com um ultrajante tapa nas nádegas ensopadas. Segurando-a pelo braço, começou a arrastá-la para o navio.
Seguindo as ordens, o cavalo, com a cabeça coberta, estava sendo conduzido prancha acima.
Diante da cena, Gina olhou desesperada para a praia, rezando para que alguém viesse acudi-la.
A água agora atingia-lhe as coxas, e o peso das saias molhadas dificultava-lhe o caminhar. Mas o aperto firme em seu braço a obrigava a acompanhar o ritmo do duque, que apresentava a vantagem de ter os pés calçados com sólidas botas. O mesmo não acontecia com ela. De repente, Gina voltou a tropeçar numa pedra pontiaguda, caindo na água. Antes que sua cabeça se afundasse, Harry levantou-a, jogando-a por sobre o ombro.
― Não!
Agarrando-a com firmeza pelas coxas, ele esperou até que a tripulação colocasse o assustado cavalo a bordo. Não queria que nenhum acidente acontecesse com o esplêndido animal. Já a mulher de cabelos ruivos, que tentava fincar os dentes em seu ombro, era outra coisa. Sentia-se tentado a andar até a beira do cais natural e jogá-la na água.
Nesse momento, a voz preocupada de Ron o alcançou.
— Milorde, sir Longbottonl perdeu os sentidos!
— Você se lembrou de colocar uma atadura no ferimento, antes de trazê-lo para cá? — Harry gritou de volta, começando a subir a prancha.
— Não! Não houve tempo. O que eu podia fazer?
— Vou cuidar disso.
Um dos membros da tripulação teve então o bom senso de jogar uma corda, que Harry agarrou com a mão livre, usando-a para puxar-se prancha acima. Gina, porém, não colaborava, se debatendo, tentando livrar-se.
De repente, Gina lançou-se para o lado, fazendo Harry perder o equilíbrio. Seus pés escorregaram sobre a prancha, que perdeu seu apoio na borda da embarcação.
E num átimo, ele viu-se caindo na água. Tocando o fundo conseguiu pôr-se de pé. A profundidade atingia pouco mais de um metro e meio, mas o repuxo era forte e traiçoeiro. Consciente do perigo, Harry olhou em torno, procurando por Gina. As pesadas saias tinham se enroscado na prancha e ela estava sendo jogada de encontro ao casco do navio pelo movimento das ondas.
Quando Harry conseguiu retirá-la do mar, verificou que Gina achava-se inconsciente.
— Joguem a escada — ordenou ele, segurando nos braços da jovem desacordada e tentando mantê-la acima da água.
A escada de corda foi então jogada por sobre a borda. Escalando-a com agilidade o duque entregou a carga nas mãos prestativas de seus homens, pulando em seguida para bordo.
— O bote está preso?
— Está Lorde. E a última carga já foi embarcada.
— Ótimo. Suspendam a âncora e icem as velas. Vamos voltar para Emory.
Um brado de alegria saudou as últimas palavras.
Sorrindo Harry retomou Gina dos braços do marinheiro que a carregava. Um rápido exame mostrou que ela estava respirando normalmente. Havia um pequeno corte em sua têmpora esquerda, de onde um fio de sangue escorria testa abaixo.
— Abram aqui — pediu Harry, dirigindo-se para a portinhola da proa. — Quero levar a cativa para baixo. Temos uma dura noite de trabalho pela frente, homens.
Então, descendo com passos firmes os degraus, ele desapareceu no interior do navio.