Aquele passado esquecido
Londres,
Outubro de 1931
Os passos ecoavam pelo corredor longo. Eram passos apressados. Botas de cano curto, em couro de dragão romeno. Um couro avermelhado e macio que lhe permitia correr e escapar sem ser visto.
Apesar daquela universidade ser relativamente menos austera que os demais colégios que freqüentara, por ser exclusivamente masculina, a Universidade de Bruxaria e Estudos Mágicos Sta.Helena de Dellámir, era sem dúvidas muito rigorosa sobre horários de seus alunos estarem em seus quartos dormindo.
Mas para quem não se importava muito com regras, isso não dizia nada. Depois de uma noitada num dos bordeis mais movimentados de toda Londres, chegara exausto e um tanto tonto de vinho e tabaco. Era jovem, vinte e três anos, e muito bonito.
Tinha olhos claros e cabelos escuros sempre presos dentro da boina do uniforme, que era seu esconderijo quando desejava passar desapercebido com seus amigos de farra, sempre escapando dos vigias!
Seu porte impressionava a maioria das mulheres, pois era elegante e suas costas retas e tensas mesmo quando divertia-se e ria com seus amigos.
Era uma figura curiosa. Intrigante. Misteriosa.
Aquela noite havia sido uma entre tantas que passara na esbornia, com seus fieis amigos, Jonh, Luky e Trevor.
Fora uma festa a abertura de um novo bordel, de Madame Alerdy, uma francesa extraordinariamente bela. E após cada um se acabar no salão de baile, nos vinhos e nos quartos bem decorados, os quatro tiveram de voltar.
Como sempre, era meio da semana, e os vigias estavam ainda mais atentos que de costume. Tinham uma técnica infalível. Um servia de isca enquanto os demais iriam para os dormitórios na surdina.
Sorriu na escuridão quando chegou finalmente a porta do dormitório. Entrou com o coração acelerado e observou em volta.
Seus amigos haviam chegado antes, pois hoje fora sua vez de ser isca.
Jonh estava caído sobre a estreita cama, babando abundantemente sobre o travesseiro ainda vestido com sua casaca, botas e na mão, perigosamente perto de cair, a bengala, que servia para demonstrar a privilegiada classe social a qual pertencia.
Luky, mais ordeiro que os demais, havia conseguido se trocar, ou ao menos tentara, uma vez que um de seus pés estava vestido com a meia e o outro não. Também se esquecera da calça e dormia apenas de ceroulas e a camisa mal vestida do pijama.
Sorriu, maneando a cabeça. Homens fracos. Alguns galões de vinho e estavam entregues.
Seu sorriso morreu ao observar Trevor. Ele sequer tentara se trocar. Havia deixado às roupas espalhadas por todo o quarto. Estava arrojadamente nu, e mal coberto pelo lençol fino. De bruços, abraçado ao travesseiro ele sussurrava palavras desconexas, ao que entedia como brevemente sendo coisas de baixo calão.
Tornou a sorrir. Tolos. Todos os homens eram, ou não? Perdidos em braços de cortesãs baratas, a fingir um grotesco sotaque francês, e com gestos falsos de nobreza os encantava e esvaziava suas carteiras, que eram sempre engordadas pelas grossas mesadas de seus pais iludidos.
Bem, não era assim na sua vida. Pais pobres. Suas notas impecáveis lhe garantiram uma bolsa de estudos e sabia muito bem aproveitar cada pequeno momento de aprendizagem.
Inclusive saber que era imprescindível estar com aqueles filhinhos de papai para poder crescer na profissão escolhida. Auror.
Porém aquele sentimento havia nascido em seu coração sempre amortecido pelas desgraças e pobreza. A amizade. Nascida do improvável. Do desconhecido. Assim como o amor.
Estranho amor. Estranho sentimento que não tinha lugar ali.
Deixou a casaca cair por seus ombros e cuidadosamente colocou sobre a cadeira ao lado de sua cama. As botas foram às próximas. Olhou em volta e eles todos dormiam tão pesadamente que sorriu novamente sentindo-se a vontade para deixar a boina sobre a cama, libertado seus longos cabelos encaracolados, que lhe caíram pelas costas nuas. Aproximou-se da penteadeira e observou-se. Puxou os cabelos para o lado e analisou sua feição suave e singela.
M.McGonagall quase não se reconhecia mais assim. Mulher. Há três anos era apenas ‘McGonagall’.
Graça ao seu talento irrepreensível com a varinha e um feitiço muito bem feito de ilusão, e o diretor da conceituada faculdade masculina a recebeu de braços abertos, sem sequer suspeitar que fosse mulher.
Era um momento difícil para mulheres como ela. De vida simples. Aquela universidade era a melhor do país, com um diploma em mão ela seria qualquer coisa que desejasse.
Sentou-se em frente à penteadeira e alisou os fios sedosos com uma escova de cabelos. Nem seus tão espertos colegas de quarto eram capazes de desmascará-la.
Minerva McGonagall era cuidadosa e impecável em seu disfarce.
Mais dois anos e sairia dali com o que viera buscar. Respeito e o diploma de auror.
Ouviu um ronco particularmente mais alto e olhou para Trevor. Ele havia erguido a cabeça e a olhava com olhos turvos, e sussurrou:
-Tão linda...
Por um momento olhou para sua varinha ali tão perto. Poderia fazê-lo esquecer rapidamente o que vira, mas relaxou.
Ele estava tão bêbado que caiu morto na cama no segundo seguinte.
Sorriu carinhosa enquanto suspirava.
Esse era outro de seus segredos. O mais bem guardado talvez. Trevor e seus olhos astutos e alegres. Trevor e a paixão que lhe despertava e a fazia quase enlouquecer tão perto e ao mesmo tempo tão longe.
Ele não apenas esnobava seu sentimento, como lhe tinha como um homem. Seu melhor amigo, companheiro de farra.
Mas não se pode ter tudo na vida, pensou, levantando-se e vestindo um pesado casaco sobre o pijama. Deitou-se e apagou a fraca luz do abajur.
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