Kingsley olhava impaciente pela janela do gabinete ansiando ver sua pupila, pois esperava que a mesma protegesse o filho do primeiro-ministro, e além disso que a auror finalmente esquecesse Sirius, o que não parecia disposta a fazer. Ele sempre soube do envolvimento dos dois, embora não soubesse a profundidade da relação.
Os minutos se arrastavam como se parecessem à eternidade, o tempo nunca parecia andar quando estava a espera de algo e, aparentemente, a figura de Dumbledore tirou-o de seu transe, sendo que sua atenção ainda estava na janela.
- Por que está tão pensativo? – perguntou o prestativo diretor. É claro que sabia o motivo, porém preferia que o próprio auror confessasse.
- Nada – ele ainda estava desconcentrado. Queria a todo custo tirar a melancolia que sempre via nos olhos de sua pupila.
- Pensando na Kammy? – os bondosos olhos azuis se iluminaram ao ver o outro voltar-se para si – Acha que foi má idéia entregar a Kammy tal responsabilidade? – o diretor pensava que a causa da preocupação do outro era a recente missão que a garota recebeu, não os sentimentos da mesma.
- Claro que não, confio inteiramente nela e sei que é capaz de protegê-lo.
- Conte-me o porquê de sua preocupação, meu caro.
- Ela nunca o esqueceu – o auror estava com um ar triste – Ainda sofre com a morte de Sirius – o mais novo também, por ver a garota se afundar novamente na escuridão que a tanto custo o maroto conseguiu tirá-la.
- Perder as pessoas que se ama não é fácil, principalmente quando elas estão próximas de si– desde o principio o diretor sabia que havia algo a mais que os unia além do simples laço consanguíneo.
- Falando assim até parecesse que eles eram mais que primos – o auror parecia ignorar o relacionamento que existia entre eles. Os dois já haviam deixado provas suficientes do quanto se amavam, mesmo que ambos negassem.
- Você sabe o quanto isso é verdade – tornou o diretor, sorrindo levemente – Sirius não era somente um primo, mas uma família, a única pessoa que a fez se sentir importante – o velho sabia que agora não era hora de falar do amor que ambos possuíam um pelo outro. Não era um sentimento nascido do sangue, mas do coração.
- E eu fui o quê? – pareceu indignado com insinuação do bruxo.
- São situações diferentes – esclareceu com paciência. Não era nada fácil deixar a máscara do preconceito para trás e Albus tinha plena noção disso.
- Como anda a Ordem? – ele queria fugir do assunto, pois admitir que estava errado era difícil, mais fácil colocar a culpa nos outros ou fugir do assunto, como Shacklebolt estava fazendo agora, do que admitir a verdade.
- Bem, na medida do possível.
- E Voldemort? – Kingsley parecia ter chegado ao ponto que queria desde o principio da conversa.
Antes que o diretor pudesse responder, uma figura pequena surgiu no meio da sala. Kammy havia aparatado, embora tivesse sido proibida por seu mestre de fazê-lo. Não que isso fizesse mal, contudo o primeiro-ministro ainda não havia aceitado de bom grado a presença de bruxos em sua vida, ainda mais que a nova garota não parecia tão confiável assim aos seus olhos.
- Dumbledore! – exclamou, surpresa. De todas as pessoas que esperava encontrar nessa reunião, certamente o diretor não era uma delas.
- Senhorita Black – o mais velho sorriu ao vê-la. Sirius estava certa ao dizer que ela era confiável, entretanto conseguia ver a escuridão bem no fundo de seus olhos azuis, causada pela perda do moreno.
- Faz tempo que deixei de ser uma Black – a loira sorriu aliviada – O que o trás aqui? – de novo deixou a curiosidade, que era seu maior defeito, dominá-la.
- E qual a sua opinião a respeito disso, senhorita? – devolveu a pergunta, pois queria ver até que ponto ela iria. Havia muito tempo que seus métodos o intrigava, muito mais do que os marotos.
- O Lorde das Trevas? – um sorriso brincava em seus lábios.
- Modo, Engels – reprovou o auror, sem se dar conta do pequeno jogo travado pelos dois – O que Dumbledore faz ou deixa de fazer não é da sua conta – um dos maiores problemas de Shacklebolt era sua dedicação exclusiva ao trabalho.
- Deixe que a garota fale, meu jovem, perguntas são a chave para a sabedoria – ele sabia respeitar as pessoas, além disso ajudava a descobrir o que se passava com elas.
- Kammy lhe deve respeito.
- Idade não é sinonimo de sabedoria ou prudência, Kingsley – o mais velho sabia isso melhor do que ninguém, já que foi adolescente e isso provou ser a sua ruína.
O semblante da auror se entristeceu. Aquela simples frase lhe lembrava uma que seu primo havia dito há quase dois anos. A morte de Sirius lhe afetava constantemente e mesmo em seus sonhos o moreno a desestabilizava, da mesma maneira que fazia quando era vivo.
- O que foi Kammy? – Shacklebolt foi o primeiro a notar o estado de sua pupila.
- Nada – a pequena forçou um sorriso que era capaz de enganar qualquer um, menos o diretor de Hogwarts. Já estava acostumada a esconder seus verdadeiros sentimentos.
- Talvez você precise parar de associar tudo que acontece ao seu redor a ele – compreendia muito bem a dor que a garota sentia. Do mesmo jeito que a Black, perdera tudo que amava numa única noite. Ariana, o apoio de Alberfoth e o amor de Grindelwald.
Os dois ficaram intrigados com aquilo. O auror por não entender o significado por trás daquelas palavras e a loira por que não sabia como o bondoso velhinho havia descoberto seus sentimentos somente por suas expressões. Claro que a garota conhecia o suficiente de Oclumência para esconder de quase todo mundo seus verdadeiros pensamentos, porém não imaginava que haveria um falha em sua educação mágica. Mesmo que não gostasse, Kammy tinha semelhanças demais com os Black para negar que era uma.
- Tenho que retornar aos meus afazeres – Albus sorriu para ambos – Passei para ver como estavam.
- Tudo sob controle – devolveu Kingsley.
Um ruido vindo da porta foi ouvido. O barulho de passos fez seus corações acalentados pela visão do bruxo acelerar de modo considerável e, assim que voltaram para o lugar onde Dumbledore estava, perceberam que ele havia sumido. Suspiraram aliviados sem notar que ainda havia um problema a ser resolvido.
- Interrompo? – uma voz os fez voltar à realidade de tal modo que a loira levou um susto.
Ambos voltaram-se para a porta. O homem que agora caminhava em direção a eles era alto, moreno e aparentava ser mais velho do que realmente era. Apesar de ser bem apanhado, havia algo em suas roupas que denunciava sua importante posição.
- Claro que não – o auror sorriu ao vê-lo – Só estávamos divagando – o trouxa não precisava saber que eles discutiam sobre o maior bruxo maligno que o mundo já havia visto. A loira forçou um de seus sorrisos, já bem conhecidos por seu mestre.
- Posso saber sobre o quê? – como sempre o ministro gostava de saber onde pisava e mesmo com estranhos o moreno era assim.
- “Maldita curiosidade” – pensou a garota – Sobre o futuro, de como seria se não estivéssemos protegendo-os, seu mundo seria um caos - a auror tinha o dom de encontrar a saída certa mesmo em apuros, em sua própria visão dos fatos.
- Não se esqueça que meu mundo está um caos graças ao seu – Keenan tinha uma inteligência mais aguçada do que a maioria das pessoas ao seu redor.
- E o seu mundo seria perfeito se o meu não existisse? – como sempre a Black a não conseguia ficar de bico fechado e controlar sua impulsividade.
Kingsley tinha que admitir que sua protegida tinha um gênio difícil que pareceu ter se acentuado após a convivência com Black. Nem mesmo seu primo foi capaz de domá-la, pelo contrário, parecia que o maroto a tornara mais feroz e complicada.
- Isso não é hora para vocês discutirem o que os trouxas chamam de filosofia – olhava diretamente para a loira – E você controle seu gênio – era o que ele vivia mandando a quase três anos. Engels bufou em resposta e encostou-se à parede, pois nunca conseguiu controlar por completo seu gênio, o que a trazia sérios problemas - Estamos aqui para discutir um assunto sério – retomou o auror. Tudo o que queria era que sua pupila finalmente entendesse a gravidade da situação e colaborasse um pouco ao invés de complicá-la ainda mais.
- Estou ciente disso, é a segurança do meu filho que está em jogo – respondeu o ministro.
- Não parece – comentou a pequena, contudo o trouxa não entendeu o significado das palavras que ela proferiu. Infelizmente a garota possuía mais traços dos Black do que ousava admitir.
- O quê disse? – Keenan estava começando a ficar irritado. Sua paciência era muito parecida com a da auror.
- Exatamente por isso devemos ter toda a calma – Shacklebolt olhou reprovadoramente para a loira. Conhecia os dois o suficiente para saber que se sua pupila não controlasse o seu gênio eles não teriam nenhum acordo.
- Acha que vou ter calma com ela cuidando do meu filho? – Keenan perdeu o pouco controle que lhe restava ao mesmo tempo que indicava a bruxa com a cabeça – Além de intrometida e desequilibrada, tem algo mais que eu deveria saber? – o trouxa esqueceu do fato que a auror já havia sido acusada de ser uma comensal.
- Eu quase fui uma comensal e tenho parentesco com o notório assassino Sirius Black – disse, amarga. Como sempre, Kammy não conseguiu ficar de boca fechada. O trouxa não percebeu a ironia contida em sua voz, talvez se percebesse o primeiro ministro não teria falado a frase que viria a ser seu maior erro.
- Bem, o seu ministro disse que ele era inocente, mas nada me convence do contrário – sorriu, triunfante – Bem feito, mereceu ter morrido – a pouca calma que restava a bruxa foi pelos ares, pois havia tocado em sua maior ferida, mesmo sem ter noção disso.
- NUNCA FALE DO SIRIUS DESSE MODO NA MINHA FRENTE! – a varinha tremia em sua mão, apontada para o homem. Ela também se descontrolou, só que ao contrário do Lancaster, era muito mais perigosa sem ela do que quando a tinha.
O moreno ficou branco ao ver a arma dos bruxos apontada para si, pois não pensara que os dois pudessem ser tão unidos ao ponto dela perder a compostura. O ódio corria forte nas veias de Engels, visto que não tinha culpa de ser o que era nem de ter perdido seu grande amor.
- Ataque... – começou Moody, todavia parou ao ver a cena. Alastor sabia que a bruxa não possuía controle de suas emoções, contudo não pensava que poderia perdê-lo tão fácil, ainda mais numa situação tão delicada como a que se encontravam. Todos viraram em sua direção, a espera do complemento da frase - De comensais.
- Onde? – a atenção da auror voltou-se para o recém-chegado. Talvez fosse sua oportunidade de finalmente se vingar daquela que destruiu sua vida.
- Na zona sul da cidade há dois quilômetros daqui – seu rosto estava sério e concentrado – Kingsley, permaneça com o primeiro ministro e sua família – o outro assentiu com a cabeça – Kammy, você vem comigo – assim como Kingsley, ele tinha plena noção de que deixar os dois no mesmo ambiente não era nada saudável.
Aparataram com dois “cleck” idênticos, deixando para trás somente Shacklebolt e o trouxa. Nenhum dos dois sabia como quebrar o clima tenso que se formara, pois o auror tinha plena noção que sua pupila pôs tudo a perder e o trouxa não sabia mais o que pensar sobre o fato que seu filho realmente precisava de um bruxo para protegê-lo, porém não conseguia admitir que essa pessoa fosse a loira.
- Você confia nela? – o trouxa ainda não tinha se recuperado por completo do susto. Seu encontro com Fudge não fora o primeiro encontro com bruxos que ele teve na vida e seu anterior não saiu e nem iria sair tão cedo de sua memória.
- Acha que se não confiasse designaria para protegê-lo? – indagou descrente o bruxo. Depois de tudo que sua pupila passou e sofreu, é claro que Kingsley confiava inteiramente nela. Foi preciso ver Sirius morrer bem diante dos olhos dela para o auror, por fim, dar-se conta da maravilhosa pessoa que sua pupila era.
- Leve-me para casa, por favor – pediu o ministro sem responder a pergunta que lhe foi feita. Por hora preferia não pensar na loira, cuidaria da segurança de seu filho no dia seguinte. O auror atendeu de pronto o seu pedido, ele tinha razão, se as recentes tragédias já ocupavam sua cabeça diariamente, imagine agora que existia a possibilidade de perder seu primogênito.
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Assim que chegaram ao local, Kammy percebeu que a situação era difícil, mais do que imaginava. A Ordem, como sempre, estava em grande desvantagem, contudo, desta vez, parecia maior do que sempre fora. Os dois aurores correram ao encontro dos comensais, para ajudar seus amigos. Lealdade era um dos pré-requisitos para se entrar na organização e com toda certeza os dois a possuíam.
- Impedimenta! – gritou a loira, o que impediu um comensal de atacar Tonks por trás. A raiva que sentia naquele momento era maior do que sua inteligência. Ela deveria lutar a base de feitiços não verbais, ao invés de ficar murmurando ou gritando aos quatro ventos.
A sorte era que o local estava deserto àquela hora, pois uma chuva de feitiços e faíscas irrompia das varinhas. A luta estava acirrada, como sempre, era uma desvantagem numérica de três contra um e Moody realmente lutava contra três comensais. Mesmo que estivessem em menor número, a Ordem possuía mais talento e organização que os comensais da morte, pelo menos até aquele momento. A jovem Black foi a primeira a notar a gélida névoa que encobria tudo a sua volta. O frio causou lhe um arrepio na espinha e o ar tornou-se gelado de repente. Kammy conhecia muito bem as sensações, não porque de fato fora parar em Azkaban, mas pelas descrições de seu primo.
Os comensais sorriram triunfantes, pois a chegada dos dementadores marcaria sua vitória. Seus rivais não conseguiriam dar contar de lutar contra os dementadores e ao mesmo tempo ainda lutar contra eles.
- É uma pena que você morrerá, maninha – Bellatrix gargalhou debochadamente. Todos os presentes sabiam da ironia contida na voz da comensal, pois elas se odiavam. Era impossível dizer qual das duas tinha mais aversão a outra.
- “Sectusempra!” – o frio já estava começando a atingi-la, porém ela não deixaria essa oportunidade única de ter sua irmãzinha tão perto e não fazer nada. O feitiço passou raspando pela Black e a atingiu no braço, o que causou um profundo corte no membro. Por ter sido um feitiço não-verbal, a mais velha não conseguiu bloqueá-lo.
- É só isso que você sabe fazer? – gritou irritada, sua voz perdeu o tom de deboche – Então você não merece ser uma Black! – passou a varinha em cima do ferimento e no mesmo instante este começou a se cicatrizar.
- Nunca quis... Fazer parte... Dessa família... Mesmo – os dementadores estavam próximos demais da garota para que a mesma pudesse ordenar um pensamento corretamente. Aquela maldita noite no ministério voltara a sua mente, devido ao poder daqueles demônios, sufocando, trazendo lágrimas em seus olhos.
Os comensais aparataram e os membros da Ordem lutavam contra o frio e suas piores lembranças. Fiapos de fumaça saíam das varinhas, contudo somente alguns tomaram forma. Dois lobos, uma doninha e um carneiro que pertenciam respectivamente a Remus Lupin, Nymphadora Tonks, Arthur Weasley e Alastor Moody.
- KAMMY... – a auror gritou desesperada o nome da companheira. Havia comensais demais para que os quatro desse conta. A voz de Tonks a trouxe de volta para a realidade, o brilho da noite entrou no campo de visão da auror, que juntou toda a felicidade que restava e gritou.
- EXPECTRO PATRONUM! – a loira precisou de mais de uma tentativa para que ao menos algo saísse de sua varinha. Só conseguiu ter sucesso quando se lembrou da fisionomia de Sirius, principalmente na primeira noite de amor dos dois.
Um fio de prata saiu de sua varinha e tomou a forma de um cachorro e se juntou aos demais. Todos olharam espantados para a garota, pois não sabiam desde quando o patrono dela havia mudado de forma. Estavam por demais acostumado ao pequeno lince para não se espantar com o enorme cão que agora corria ao encontro dos demais. Com esforços conjuntos, conseguiram espantar os dementadores. Todos puderam respirar aliviados, até a voz grossa e cavernosa de Olho-Tonto invadir a noite.
- Você vai ter que se explicar assim que chegarmos à sede – Moody falou extremamente sério e o mesmo poderia ser dito de sua postura. Era a único que pensava que, na verdade, a pequena era uma espiã. A principio não pensava que seria a auror, mas esse novo patrono mudava tudo.
Todos seguiram o auror, deixando a jovem Black perdida em pensamentos. A mesma aparatou, porém foi para a casa de seu tio em vez da dos Weasley. Como iria se explicar sem que tivesse que revelar seus verdadeiros sentimentos a eles? Não estava nem um pouco preparada para enfrentar a realidade, aliás, nunca esteve.
- Pensei que tivesse me esquecido – o Black não se assustou ao ver uma garota aparatar bem no meio da sua sala, enquanto escorava-se na porta. A distância física os separava, mas seus corações e mentes permaneciam unidos. Mesmo que sua sobrinha não desse o ar de sua graça sempre, o bondoso velhinho ficava feliz ao saber que era para seus braços que a auror corria quando estava com problemas, era nele que confiava.
- Alphard! – a loira correu em sua direção e o abraçou forte. Mesmo que tentasse esconder de todo mundo ainda era a garotinha insegura e geniosa que o Black conheceu.
- Minha pequena – ele correspondeu ao abraço de sua sobrinha – Algum problema? – sabia que quando a garota o visitava e o abraçava daquela maneira tinha sérios problemas a resolver. Aliás, Kammy só o visitava quando tinha problemas, não que ele reclamasse.
- Bem, sim – separou-se do abraço e sentou-se no sofá, sendo acompanhada por seu tio – Eu não faço a mínima idéia de como explicar o porquê do meu patrono ter mudado de forma – perto dele, a loira conseguia ser ela mesma, sem máscaras nem disfarces.
- Diga a verdade – ele suspirou. Era tão simples que se espantava que ela não tivesse pensado nisso antes. O que Merlim deu de inteligência a seus sobrinhos não deu nem um pouco em discernimento.
- Não posso – murmurou pesarosa. Depois de Sirius, Alphard era a única pessoa que conhecia a sua vida, ou quase toda, pois certas coisas ela só conseguira se abrir com o moreno.
- Por que não? – ergueu uma das sobrancelhas, surpreso. De todas as respostas que imaginou ouvir certamente a que ela deu não era uma das opções.
- Ele é meu primo – mesmo que existissem casos de incesto na família Black, o resto da sociedade bruxa e consecutivamente da sociedade inglesa não via isso com bons olhos.
- Sirius ou Harry ou... – calou-se na hora, antes que falasse mais do que deveria.
- Ou? – seu olhar voltou-se para ele, curiosa. Até onde ela sabia só tinha dois primos e isso já lhe causava problemas suficientes. Na realidade, ser uma Black já lhe causava mais problemas do que ela poderia agüentar.
- Esqueça – pegou a xícara de chá que o elfo trazia e tomou um gole – Qual dos dois? – seu olhar voltou-se para ela, curiosíssimo. Seria ainda seu sobrinho preferido ou ela resolveu atacar seu outro primo.
- Além de fazer parte do meu karma, ele é muito mais velho do que eu – a auror preferiu não dizer de uma vez que a causa de seu problema ainda era aquele belo moreno de olhos acinzentados.
- Sirius – o velho sorriu amavelmente. Não precisa pensar muito para achar a resposta. Sirius não era o único Black que era primo dela, porém era o único que conhecia.
- Odeio essa sua mania de advinhar o que se passa na minha mente – a pequena bufou claramente irritada. Claro que se esqueceu que, além dele ser um bruxo, a auror não tinha boa memória.
- Não é mania, é dedução. Você me falou que seu carma eram os Black – o mais velho deu um leve sorriso – Até onde eu sei o Harry não é um Black – era uma lógica tão simples que se assustou dela não ter pensado nisso antes.
- Ok. Você me convenceu – bufou contrariada. Não gostava nem um pouco de estar errada. Outro defeito de sua família era sua falta de humildade. Mesmo sendo uma, Alphard conhecia muito bem sua própria família para afirmar isso.
- O que pretende fazer? – estava preocupado, além de Sirius, a garota era a única sobrinha com quem tinha contato, pois desde seu casamento que Andromeda não aparecia mais em sua casa. Já que não teve seu único filho perto de si, gostava de ter a companhia de seus sobrinhos.
- Não sei – a garota terminou o chá que havia em sua xícara. Como dizer que ainda amava um homem morto que acima de tudo era seu primo. Não havia a menor chance de contar a verdade.
- Os patronos mudam de forma quando o conjurador sofre grandes emoções – sorriu e esperou que sua sobrinha compreendesse de uma vez por todas. A pequena até poderia ser uma das melhores aurores do ministério, mas não usava sua inteligência e seu poder mágico a seu favor.
- O que quer dizer com isso? – a auror o observava, confusa. Ainda não tinha chegado a sua conclusão definitiva.
- Pense um pouco e descobrirá – o Black jamais deu as respostas que ela procurava. Somente dava dicas e a deixava tirar suas próprias conclusões. Bebericava o chá enquanto esperava uma resposta.
- Você quer dizer que meu patrono mudou de forma por causa do meu amor pelo Sirius? – foi a única conclusão que pode tirar de toda a conversa. Mas isso ainda não resolvia seu problema principal.
- Exatamente.
- Como vou explicar isso a um bando de bruxos que tenho certeza que não aceitaria esse envolvimento? – indagou, desesperada. Tudo que precisava agora era de uma solução para seus problemas.
- A Ordem precisa saber que a causa é o Sirius? – ergueu as sobrancelhas, descrente. Não entrava em sua cabeça como a garota ainda não havia pensado nisso. Era tão óbvio. Tinha certeza que eles sabiam dessa possibilidade, afinal sua garotinha era atraente até demais.
- Você não existe – Kammy abriu-se em sorrisos para o tio. Não pensara nisso, de forma que pulou em seu colo e o abraçou distribuindo beijos por toda a sua face. Ele começou a gargalhar, isso causava cócegas em sua pele. O melhor de tê-la em sua companhia era vê-la feliz como estava agora.
- Pare, Kam – pediu entre os risos.
A Black parou com os beijos, contudo permaneceu em seu colo e o bruxo a puxou para seus braços e aconchegou-a como se fosse uma filha, visto que a mesma substituia o filho que não pode cuidar.
- Por que você não entra para a Ordem? – a loira voltou a se entristecer. Seria tão mais simples tê-lo perto de si, sempre, assim não precisaria atravessar um país inteiro somente para vê-lo.
- Talvez algum dia eu entre, por hora prefiro minha tranqüilidade – sorriu e escondeu seus verdadeiros motivos, não precisava colocar mais uma preocupação sobre a cabeça dela.
- Por que me trata tão bem? – a auror tentava controlar as lágrimas, em vão.
- Porque você representa o filho que eu não pude criar – o bruxo pareceu pesaroso e relutante ao dizer isso. Sabia muito bem da inteligência aguçada que sua sobrinha possuía, logo, não demoraria para descobrir a verdade
- Você tem um filho? – os orbes azuis voltaram-se para seu tio, surpresa. De todos os motivos que ela pudesse imaginar para esse imenso carinho, certamente esse não era um deles.
- É uma longa história, outra hora te conto – beijou a testa de sua sobrinha – Agora você tem que ir – lembrou-a do verdadeiro motivo de tê-lo procurado.
- Eu... Eu... Não quero – gaguejou, não se sentia pronta para enfrentar a Ordem naquele momento.
- Você precisa lutar contra seus problemas e sabe disso, aja como uma Black mesmo que não goste de ser uma – disse firme, o que fez a loira engolir o choro e secar as lágrimas.
- Você tem razão Al – a garota beijou sua bochecha – Você é meu tio preferido.
- Boba, eu sou seu único tio – Alphard sorriu agradecido pelo carinho. Valia a pena se sacrificar somente para vê-la feliz.
- Mesmo se não fosse, continuaria sendo meu preferido - Kammy aparatou em seguida, e o deixou imerso em seus pensamentos.
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Neowën Lancaster era um jovem de 21 anos que cursava Agronomia em Oxford. Era moreno, rosto quadrado, lábios relativamente carnudos, pequenos olhos castanhos amendoados, nariz fino e reto. Era quase da altura de seu pai, Keenan Lancaster, o Primeiro-Ministro. Olhava para o céu, enquanto caminhavalentamente pelas ruas da cidade. Estava exausto. Não imaginava que fazer um curso de nível superior pudesse exauri-lo tanto, embora o cansaço mental não se devia somente a faculdade, mas também as recentes brigas que teve com seu pai.
- Está cansado, Neowën? – perguntou docemente a morena. Rosalie Hallemberg tinha cabelos longos, levemente ondulados nas pontas, olhos castanhos claros, nariz pequeno e arrebitado, lábios pequenos. O sutiã preto aparecia, mesmo que ela estivesse vestindo uma camisa branca de botões, além disso trajava uma calça jeans colada ao corpo e uma sandália levemente alta nos pés. Eles eram melhores amigos há muito tempo e a garota conhecia bem demais a fisionomia dele para saber seu estado de espírito.
- Você sabe que sim, Rose – o filho do Primeiro-Ministro não queria ser grosso com a amiga, mas seu atual estado o deixava um pilha de nervos pronto a explodir a qualquer momento.
- Não precisa ser grosso – disse, levemente irritada. Era muito prática para saber dar indiretas.
- Desculpe – suspirou – Não foi minha intenção – realmente não fora. Odiava descontar sua frustração nas pessoas e ultimamente isto estava acontecendo com freqüência.
- Tem algo te preocupando, não é? – advinhou na primeira tentativa
- Não tem como esconder algo de você, certo? – o moreno sorriu ao observar que Rosalie ainda sabia lê-lo como ninguém.
- Eu sou sua melhor amiga, esqueceu? - a garota possuia olhos escuros e cursava Engenharia Mecânica.
- Claro que não – deu um leve sorriso – Meu pai quer colocar um guardacostas atrás de mim – achou melhor contar a verdade, assim diminuiria o peso que estava em suas costas, além da raiva que sentia do velho.
- Como assim? – indagou confusa, ainda não tinha entendido o X da questão.
- Ele acha que eu corro perigo sendo seu filho – desabafou. Isso tinha rendido a maior briga entre os dois. Nunca, em treze anos, Neowën pareceu estar ameaçado por conta da carreira política de seu pai e não entendia o que havia mudado.
- Quem correria perigo sendo filho de um cara tão legal como ele? – assim como o amigo, Rose também não via nenhuma ameaça.
- Não acho meu pai tão legal assim – disse o jovem, e realmente não achava. Seu pai teve problemas em sua adolescência que não havia superado até hoje, e descontava tudo isso em cima dele. A verdade era que o rapaz não estava tão errado assim, porém ainda não havia se dado conta do imenso amor que Keenan possuía por ele.
- Você bebeu? – a morena ergueu uma de sua sobrancelhas, descrente. Conhecia o Primeiro-Ministro há muito tempo para aceitar o que seu amigo estava dizendo sem pestenejar.
- Não, mas é uma ótima idéia... Topa? – seus olhos brilhavam consideravelmente. Era em horas como essa que duvidava do vínculo existente entre pai e filho. Keenan era concentrado, reservado e politicamente correto, já o Lancaster era seu completo oposto.
- Claro – sua melhor amiga sorriu-lhe. Tinha suas dúvidas, entretanto adorava sentir o gosto do álcool percorrendo sua garganta tanto quanto o moreno.
Depois de reunirem seus amigos, todos seguiram para um barzinho no subúrbio de Londres. Não queriam ser reconhecidos, e se fossem para o centro, isso não demoraria a acontecer.
Beberam e dançaram muito, para espantar seus problemas, principalmente o moreno que ainda não tinha engolido muito bem aquela história de guardacostas. Neowën chegou em casa depois do habitual, o que deixou seu pai preocupado. Esse também era um dos motivos das brigas entre eles.
- Onde pensa que vai? – Keenan interrogou-o assim que chegou em casa, isso que seu filho nem havia subido as escadas – Não é só por que você já é maior de idade que pode sumir sem dar satisfações – começou seu longo sermão, que só fora acabar dez minutos mais tarde.
- Eu ainda não morri – suspirou cansado dessas brigas diárias. Poderia estar exausto, mas certamente não obedeceria a rígida disciplina que seu pai impunha.
- Modos, Neowën – replicou – Enquanto você ainda morar comigo vai me dar satisfações.
- Então não se preocupe, porque logo eu sumo da sua vida – não tinha mais paciência para ouvir tudo que o velho dizia de bico calado.
O jovem agronomo sumiu pelas escadas deixando seu pai extremamente preocupado. Sua relação com o velho estava mais abalada que antes, nunca foi fácil ser filho dele e agora estava mais difícil. Tudo que o moreno queria era um pouco de paz e sossego, e talvez, um pai menos chato e implicante também ia bem.
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Kammy aparatou próxima a Toca, pois os feitiços de proteção a impediam de aparecer dentro da propriedade. Juntou o resto de dignidade que lhe restava e respirou fundo para poder enfrentar seus problemas. Dizer a seus amigos a verdade estava fora de cogitação. Caminhava lentamente na esperança de encontrar uma solução, mas parecia que, a cada passo, isso se encontrava mais distante. Mesmo que Alphard houvesse lhe dado uma, sabia que não seria tão fácil quanto ele fizera parecer.
Todos os membros eram aurores, ou então sabiam muito mais de magia e duelos que a maioria dos bruxos. Tinha certeza que a Ordem não engoliria um simples “Meu ex-namorado”.
Parou em frente à entrada. Deveria realmente fazer isso?
Antes que pudesse decidir, a porta foi aberta por dentro e a figura de seu amigo lobisomem se fez presente.
- O que Sirius lhe deu de presente no seu aniversário de 17 anos? – perguntou com a varinha apontada para a garota.
- Um colar de prata lavrado pelos duendes no formato de coração – o nó em sua garganta se embargou.
- Pode entrar, Kammy – abriu um sorriso e deu passagem.
Sem alternativas, foi obrigada a fazer o que o bruxo lhe sugeriu. Assim que chegou a cozinha, viu que toda a Ordem estava a sua espera.
Não estava pronta para responder as perguntas. O que fazer? Como fazer?
- Por que seu patrono mudou? – Moody pronunciou-se primeiro.
N.A.: Novamente o cap foi mantido e aumentado. A capa da fic ainda é a mesma de sempre, feita por uma grande amiga minha, Deh xD
Como muitas das coisas contidas nesse cap já foram traçadas e alinhadas com a fic não estranhem se estiver muito diferente do primeiro rascunho desse cap. Espero que continuem curtindo.
E agora, como a Kammy vai escapar dessa? Ela realmente vai dizer a verdade ou uma parte dela como o Alphard sugeriu?
Beijos e continuem acompanhando.