NA: Acabei o capítulo agora são.... são 23:00 e eu ainda tenho que fazer um cartazes para amanhã, sou louca né?
Aí vai mais um capítulo!!!
Boa leitura gente!!! :D
------------------------------------------------------------------------------------------------------
CAPÍTULO DEZESETE: "Eu posso amá-lo".
Hermione foi cedo à missa. A pequena igreja, com a claridade fria da manhã a passar pelo vidro, recendia a cera de velas e água benta. Sempre tivera a impressão de que a água benta exalava um cheiro metálico. Quando era pequena, Miranda, sua mãe, dissera-lhe que era por causa das bênçãos que continha. Era algo de que Hermione se lembrava com frequência, em que encontrava conforto, quer mergulhasse os dedos na pia da igreja ou na Fonte de São Declan.
Um bebê agitava-se no último banco, com gritos impacientes, que a mãe tentava silenciar com murmúrios e carinhos. Hermione não se importava. Era raro comparecer a uma missa sem ouvir um bebê a chorar, sem crianças a contorcerem-se, roupas engomadas a rangerem contra bancos de madeira desgastados pelo uso. Ela gostava da familiaridade, tanto quanto do ritual. Eram um tempo e um lugar apropriados para pensar, o que para ela era a mesma coisa que orar, metade das vezes.
Tinha escolhas para fazer. E, se quisesse reparar os danos causados, precisava agir depressa. Quando havia uma rachadura em qualquer coisa, a tendência era desta se alargar, se a pessoa não tivesse cuidado. Se persistisse por tempo demais, uma rachadura transformava-se numa fratura, o que representava um problema muito maior.
Havia danos agora no seu relacionamento com Mary Kate, uma racha que poderia minar a fundação de sangue e coração. Ela tinha uma participação na causa. Se não fizesse nada, a rachadura poderia aumentar e fraturar todo o vínculo familiar. A forma como esse dano seria reparado determinaria se esse vínculo se manteria firme ou se ficaria com cicatrizes.
A mesma coisa acontecia com Harry. Havia uma fundação ali, construída sobre uma vida inteira de amizade, afeição e lembranças partilhadas. Ela não permaneceria de braços cruzados, observando-a a desmoronar-se.
Opções, pensou Hermione: por onde começar os reparos, e como agir. Cada opção exigia vários passos, e só ela poderia dá-los. E era melhor que começasse agora. Ela saiu poucos minutos antes de o serviço terminar. Dessa maneira, evitava quem quisesse conversar ou perguntar sobre a sua família. Seguiu diretamente para casa, um pouco nervosa na região do estômago, mas com a decisão tomada sobre o passo que daria primeiro.
– Já voltou. - Miranda, vestida para a missa, recebeu-a na porta. - Soube que saiu bem cedo.
- Fui à missa.
- Estamos de saída para a Igreja.
- A Mary Kate terá de ir mais tarde. – Hermione entrou em casa e começou a subir as escadas. - Ela pode usar a minha caminhonete.
- Hermione, não quero brigas nesta casa no dia do Senhor.
- Não vai haverá nenhuma briga. Hermione decidira que discutiria num outro lugar, se fosse necessário. Chegou ao cimo das escadas no momento em que o pai saía do quarto.
Mick tinha o rosto vermelho e lustroso da barba feita, cabelos que mostravam as marcas do pente, como sulcos num campo de trigo.
O coração de Hermione quase se desmanchou em amor por ele. - Pai...
Havia certo constrangimento, e ele imaginou que a situação entre os dois permaneceria assim por mais algum tempo. Mas havia lágrimas a transbordar dos olhos de Hermione. O que ele não podia suportar.
- A sua mãe está nos chamando para irmos à missa.
- Já fui.
- Ah... - Ele deslocou o peso do corpo de um pé para o outro. - Quero começar cedo amanhã. Os degraus dos fundos da casa dos O’Leary caíram finalmente, como vinham ameaçando já há bastante tempo. O O’Leary, é claro, caiu juntamente com eles, um castigo bem merecido por deixar os degraus apodrecerem daquela forma. Será a primeira coisa que vamos fazer.
Hermione sabia que qualquer um dos dois poderia tratar do serviço sozinho. O pai queria que trabalhassem juntos para que ela começasse a curar a ferida no seu coração.
- Estarei pronta. Pai...
- Vamos chegar atrasados à missa se não te despachares! - gritou Miranda.
- Amanhã é um dia tão bom quanto outro qualquer - murmurou Mick, tocando levemente no braço da filha ao passar.
Hermione respirou fundo. - Não para tudo. Ela foi abrir a porta do quarto das irmãs., Alice esperava, pacientemente, sentada no lado da cama, com os melhores sapatos engraxados, os cabelos escovados até um brilho castanho-dourado.
Mary Kate arrumava-se diante do espelho, acrescentando rímel às pestanas. Os olhos ainda estavam um pouco inchados do choro. A boca contraiu-se numa linha fina quando viu Hermione.
- Alice, querida, a mãe está te chamando. Pode descer. - Mary Kate alisou os cabelos mais uma vez.
- Vou contigo, Alice.
- Não vais, não. – Hermione colocou-se em frente à porta. - Terá que ir a uma missa mais tarde.
- Não tenho de fazer o que me diz. - Pode sair comigo e resolver tudo longe de casa, já que eu prometi à mãe que não haveria discussão aqui. Ou pode passar dia e noite de mau humor, como uma criança. Se quer se tornar uma mulher, Mary Kate, estarei à espera na caminhonete.
Passaram menos de cinco minutos até que Mary Kate saísse de casa e entrasse na caminhonete. Ela aplicara batom, notou Hermione, ao sair em alta velocidade para a estrada, como sempre fazia. Não podia compreender como tantas mulheres consideravam a maquilagem como uma espécie de escudo ou arma. Por outro lado, sabia que os seus antepassados costumavam pintar-se de azul antes de se lançarem numa batalha.
Como calculou que era um terreno neutro ou então a pender um pouco para o lado de Mary Kate, ela seguiu até ao hotel no penhasco. Parou a caminhonete. Saiu e começou a andar, sabendo que a irmã a seguiria.
- Para onde vai? - perguntou Mary Kate. - Para algum lugar onde me possa atirar de um penhasco?
- Para um lugar que eu acho que ambas respeitamos o suficiente para não começarmos a puxar os cabelos uma da outra, e trocar socos. Seguiram pelo trilho, cruzando os penhascos.
O ar ainda estava frio ali. Parecia que o Inverno não estava disposto por enquanto a dar lugar à Primavera. Mas as flores silvestres já começavam a mostrar-se, e os pássaros cantavam, tão alto quanto os gritos estridentes das gaivotas.
Hermione passou pela ruína da catedral, outrora construída em nome de São Declan. Seguiu além da sua fonte, além das três cruzes de pedra, até ao terreno que abrigava os mortos e as suas lápides.
- Este é um terreno santo - começou Hermione. - E é aqui que eu te digo que agi de uma forma errada contigo. É minha irmã, do meu sangue, e não tive consideração pelos seus sentimentos, não da forma como deveria ter tido. Peço-te desculpa por isso.
Mary Kate ficou surpreendida, o que era suficiente, por si só, para que a sua raiva aflorasse de novo.
- Pensa que isso põe tudo bem?
- Estou pensando que é a única coisa que posso fazer.
- Vai desistir dele?
- Pensei nisso - murmurou Hermione. - Em parte por orgulho. “Vou renunciar ao Harry por ela”, pensei. “Então ela saberá como estou disposta a sacrificar-me pela sua felicidade.” A outra parte foi o sentimento de culpa, por ter feito algo que te magoou. Romper com Harry seria a minha penitência.
- Acho que há mais culpa do que orgulho pela forma como se comportou. A raiva aflorou uma vez, com um brilho de advertência nos seus olhos.
Depois, Hermione reprimiu-a. Conhecia a irmã, e sabia como Mary Kate podia ser esperta, incitando a raiva para prevalecer sobre a razão do adversário. - Não me sinto culpada pelo que aconteceu entre mim e o Harry, mas apenas porque isso te magoou e embaraçou. - O discurso frio aumentava o impacto das palavras. - E por causa disso estava disposta a afastar-me dele, como amante, talvez também como amiga.
Mas reconsiderei, e concluí que fazer isso seria quase como ceder ao ataque de raiva de uma criança. O que não é o seu caso e aos sentimentos com o devido respeito.
- Está distorcendo tudo, para que possa ter o que quer.
Subitamente, os quatro anos que as separavam pareciam ser quarenta. O que deixou Hermione insuportavelmente cansada. Havia lágrimas na voz de Mary Kate, ardentes e rancorosas, que fizeram com que Hermione se lembrasse das ocasiões em que haviam discutido por causa de um brinquedo novo ou do último biscoito na lata.
- Quer saber se eu quero o Harry? –Quero, sim. Ainda não pude definir tudo, mas o anseio existe, e não posso negar. Aqui, de mulher para mulher, posso dizer-te que ele também me quer.
-Sinto muito, Mary Kate, pela infelicidade que isso possa te causa, mas o Harry não olha para ti dessa maneira.
Mary Kate ergueu o queixo. -Hermione pensou que teria feito a mesma coisa, naquelas circunstâncias.
- Ele poderia olhar, se você não tivesse aquecido a cama dele.
Hermione sentiu um frio no estômago, mas balançou a cabeça em concordância.
- É verdade, ando aquecendo a cama de Harry. E não vou sair para te dar o lugar. Poderia ter feito isso ontem, porque não suportava ver-te tão magoada, sabendo que eu era parte da causa. Mas agora, Mary Kate, vejo-te aqui, com clareza, com a cabeça erguida. E agora não está magoada. Apenas com raiva.
- Como sabe o que sinto por ele?
- Não sei. Diz-me.
Mary Kate ergueu a cabeça, com os cabelos a esvoaçar ao vento firme. - Eu amo-o.
Era uma declaração apaixonada, quase que docemente dramática. Hermione concedeu- lhe o reconhecimento máximo, sabendo que ela própria nunca poderia ter falado de uma forma tão impressiva.
- Porquê?
- Porque ele é bonito, sensível e gentil.
- Tem razão, ele é todas essas coisas... como o cão dos Clooney. Quais são os defeitos?
- Ele não tem nenhum.
- Claro que tem. - A existência dos defeitos acalmou os nervos de Hermione e fez com que se sentisse estranhamente sentimental. - Ele é teimoso, demora a agir, e também distraído. Há ocasiões em que você fala com ele, e é como se estivesse falando sozinha, pois o pensamento dele está longe.
O Harry carece de ambição e precisa ser estimulado a cada passo, caso contrário sentir-se-ia feliz em permanecer no mesmo lugar para sempre.
- É assim que você o vê.
- Eu vejo-o como ele é, não como uma linda ilustração de um livro. Mary Kate... - Ela avançou, sabendo que ainda era muito cedo para tentar qualquer contato físico.
- Vamos ser francas, as duas. Há algo na forma como o Harry olha para a gente, na sua aparência, que faz uma mulher desejá-lo. Posso compreender como ele te faz sentir nessa área. E já desejo o Harry desde que tinha a idade da Alice.
Alguma coisa faiscou nos olhos de Mary Kate.
- Não acredito. Você nunca espera por nada.
- Pensei que iria superar isso. E depois, pensei que faria papel de idiota. – Hermione empurrou os cabelos para trás, desejando ter-se lembrado de os prender, antes de subir para o penhasco. - No final, era mais do que um desejo. Era uma necessidade.
- Você não o ama.
- Acho que posso amá-lo. No instante em que as palavras saíram, Hermione comprimiu a mão contra o coração, como se alguém tivesse acabado de desferir um golpe ali. - Acho que posso amá-lo - repetiu ela, para depois cair de joelhos.
- Oh, Deus Todo- poderoso, o que vou fazer?
Mary Kate fitava a irmã, com a boca escancarada em surpresa.
Hermione empalidecera, balançava de joelhos, comprimindo o peito, como se estivesse a sofrer um ataque.
- Pára com isso. Está fingindo.
- Não estou, não... e não consigo respirar direito.
- Desconfiada, Mary Kate avançou e deu uma pancada vigorosa nas costas da irmã.
- Pronto. O ar saiu dos pulmões, zunindo.
Quando Hermione voltou a inspirar, havia um som agudo.
- Obrigada. - Ela moveu-se para trás, sentando-se nos calcanhares. - Não posso lidar com isto agora. Não posso mesmo. Não deveria acontecer. A situação já era ruim como estava, e isto só vai piorar. Não resolve nada, apenas muda as circunstâncias.
Como Hermione não dava a impressão de tencionar levantar-se, Mary Kate sentou-se ao seu lado. - Acho que eu poderia perdoar-te se estivesses apaixonada por ele. Está a dizendo isso só para que eu te perdoe?
- Não... E não disse que estava apaixonada, mas apenas que poderia amá-lo. - Desesperada, Hermione pegou na mão da irmã. - Não conte a ninguém. Quero a sua
palavra de que não vai dizer nada ou eu vou te estrangular enquanto estiver dormindo. Jura que vais ficar calada.
- Oh, pelo amor de Deus! Porque eu contaria a alguém? Para me fazer ainda mais de idiota?
- Provavelmente vai passar.
- Porque haveria de querer isso?
- Apaixonada pelo Harry Potter... – Hermione esfregou as mãos sobre o rosto. Passou-as pelos cabelos. - Seria a maior das confusões. Levávamo-nos um ao outro à loucura num ano... eu sempre a querer que as coisas sejam feitas, ele a sonhar enquanto o tempo passa. O homem não é capaz de se lembrar de ligar alguma coisa à tomada, quanto mais consertar uma que avariou.
- Que diferença faz isso? Você pode consertar. E ele continuaria a sonhar. De que outra forma poderia ele compor todas aquelas canções?
- E qual o sentido de compor a música se não faz nada com ela? – Hermione sacudiu a mão, para descartar o assunto. - Não importa. Não é o que qualquer dos dois procurava quando começamos. Estou deixando me levar pela tendência feminina, o que me deixa verdadeiramente irritada. Porque precisam as mulheres transformar atração em amor?
- Talvez houvesse amor escondido por trás da atração desde o início.
Hermione ergueu o rosto. - Porque se tornou tão sensata de repente?
- Talvez porque já não me esteja tratando como uma criança retardada. E talvez porque, ao olhar para ti agora, me tenha ocorrido que poderia não ser amor o que eu sentia por ele. Não me fazia empalidecer nem tremer. E também... - Mary Kate inclinou-se para trás, com um ligeiro sorriso desdenhoso. - Talvez porque seja satisfatório, dadas as circunstâncias, ver-te parecer fraca e apavorada. Quase arrancaste os meus cabelos pelas raízes ontem.
- Também acertou alguns golpes.
- Foi você quem me ensinou a lutar. - Com a lembrança, lágrimas sentimentais surgiram nos olhos de Mary Kate. - Peço-te desculpa por te ter chamado puta. Chamei, pela primeira vez, por raiva, e nas outras vezes por rancor. - Ela fez uma pausa, enxugando os olhos. - E também lamento as coisas que escrevi a teu respeito no meu diário... pelo menos algumas.
- Não vamos deixar que isso interfira. - As irmãs deram as mãos.
Hermione acrescentou: - Não quero que ele ou qualquer outra pessoa se interponha entre nós. Mas tenho de te pedir para não me obrigar a rejeitá-lo.
- Para que possa ficar indignada, enquanto eu acato com o sentimento de culpa? Não há a menor possibilidade. - Uma insinuação de sorriso contraiu os cantos dos lábios de Mary Kate. - Posso conquistar o meu próprio homem, quando quiser. Mas... há uma coisa que eu gostaria de saber.
- O quê?
- O Harry beija tão bem quanto dá a impressão de ser capaz?
- Quando ele se empenha por completo, é capaz de derreter todos os ossos do seu corpo.
Mary Kate suspirou. - Foi o que imaginei. Ela seguiu a pé para o chalé. Ao chegar, porém, não sentia a mente mais lúcida do que estava ao partir.
Uma chuva seria iminente, não muito forte, pensou Hermione, a julgar pela maneira como o sol ainda projetava os seus raios através das nuvens.
Um bom dia para se enroscar ao lado da lareira, pensou ela. Mas é claro que não havia nenhuma fumaça saia pela chaminé do Faerie Hill Cottage.
Harry esquecia-se de acender o fogo na lareira duas vezes mais do que se lembrava. O carro não estava ali.
Hermione calculou que ele fora à missa. Ela esperaria. Passou pelo portão do jardim e levantou os olhos, meio à espera de encontrar os olhos azuis de Lady Gwen, a observá-la lá de cima. Mas não avistou qualquer movimento, de mortal ou fantasma.
Hermione entrou no chalé, quase tropeçando nas botas de trabalho que ele tirara na noite anterior, com uma camada de lama nos calcanhares. Empurrou-as para o lado, com a ponta do pé, e foi até à pequena sala na frente, para acender a lareira. Havia partituras espalhadas por cima do piano. Numa mesa pequena, ela avistou uma caneca esquecida, na qual ele deveria ter tomado chá. Uma jarra verde, quadrada, continha um punhado de flores do jardim da frente.
Harry pensava nessas coisas, refletiu ela. Não se lembrava de limpar as botas - nem ela, na maioria das vezes - mas encontrava tempo e disposição para colher flores no jardim.
Porque ela não pensava em coisas assim? Gostava de uma casa com flores e com velas por toda a parte. E das fragrâncias que criavam juntas, tornando o ar tão agradável. Pensaria em limpar a chaminé, em providenciar turfa ou lenha, mas nunca se lembraria daqueles pequenos toques, que transformavam uma casa num lar.
Ter cortinas era uma coisa, refletiu ela. Pensar em renda era outra muito diferente. Depois de acender o fogo na lareira, ela foi até ao piano. Teria Harry trabalhado ali na noite passada? Estava furioso com ela. Trabalhava para descarregar a raiva, além de sonhar? O coração dele está na canção.
Hermione franziu o rosto, enquanto folheava as pautas, com notas e palavras. Se era verdade, porque deixava ele as músicas abandonadas daquela forma? Porque não fazia alguma coisa com as canções?
Como podia ela gostar tanto de um homem que carecia de uma determinação básica? Afinal, não era suficiente que um homem tivesse tanta luz interior, se a não usasse para alguma coisa.
- Estas pérolas que ponho a teus pés são apenas lágrimas que a lua derramou - murmurou ela, lendo a letra de uma música. - E cada vez que o meu coração bate, chora por ti ao longo dos anos. O encantamento persiste, noite após noite, até o dia em que o amor romper com o passado.
Ele canta sobre lendas, pensou Hermione... e está à espera de quê? Ela largou o papel quando ouviu o carro a aproximar-se.
Harry avistara a fumaça e sabia que só podia ser Hermione. Não sabia o que faria. Tinha a esperança, como acontecia com a sua música, que o trecho seguinte lhe ocorresse de repente.
Entrou no chalé. Virou-se quando Hermione apareceu na porta da sala.
- As manhãs ainda são frias. Por isso, acendi a lareira. - Ele balançou a cabeça em concordância.
- Quer um chá?
- Não. – Hermione não podia ler o seu rosto, o que a preocupava. - Ficou zangado comigo ontem à noite. Ainda está zangado?
- Não tanto.
- Bem... - O sentimento de constrangimento era uma novidade, não muito agradável. - Pensei que te deveria dizer que conversei com a Mary Kate esta manhã. Uma conversa particular.
- Então a situação entre vocês está melhor.
- Sim, está.
- O que me deixa contente. Com o passar do tempo, espero que ela também volte a sentir-se à vontade comigo.
- A Mary Kate vai continuar embaraçada por mais algum tempo, mas quanto ao resto... Depois de ter enumerado os seus defeitos, ela acha que, afinal, talvez não esteja apaixonada por ti.
Ele alteou as sobrancelhas. - Foi uma manobra hábil.
- Harry... - Ela pôs a mão no seu braço quando ele fez menção de entrar na sala. Por isso, ficaram parados na porta. - Lamento muito a forma como deixamos as coisas na noite passada. Eram palavras que não saíam com facilidade da boca de Hermione, como ele sabia. O que as tornava mais significativas.
- Eu também lamento.
- E não me importo muito com os teus defeitos... pelo menos com a maioria deles. Hermione recendia a domingo, a xampu e sabonete. Um pedido de desculpa irradiava dos seus olhos. - Isso significa que a situação entre nós também melhorou?
- Eu quero que melhore. Ele foi sentar-se na única cadeira que não estava ocupada por partituras.
- Porque não te vem sentar um pouco comigo, Mione? - Os olhos dela faiscaram, num alívio profundo. Pensava que sabia o que Harry queria. E não podia imaginar uma forma melhor de fazer as pazes. Foi sentar-se ao seu colo, de lado, ficando os rostos quase juntos.
- Amigos de novo?
- Sempre fomos.
- Quase não dormi, preocupada com a possibilidade de nunca mais termos este relacionamento descontraído, embora soubesse que prometemos que continuaríamos amigos.
- E continuaremos. Mas a amizade é tudo o que quer neste momento?
Como resposta, Hermione diminuiu a distância entre os rostos, até que os lábios se encontraram. O seu suspiro entrou em Harry, quente, agora familiar. Ele apertou-a, prolongando o beijo, suave e doce, antes de subir os lábios para a sua testa. Depois, ele colocou a cabeça de Hermione no seu ombro, envolvendo-a com os braços. Confusa, ela ficou imóvel, esperando que as mãos de Harry se deslocassem de um lado para o outro, acariciando os lugares que podia prever. Mas ele limitou-se a abraçá-la, enquanto o fogo crepitava, a chuva tamborilava no telhado e escorria pelos vidros. Pouco a pouco, Hermione relaxou, afundando-se no conforto e aconchego, embalada pela intimidade do silêncio. Nunca tivera um amante como Harry, alguém que a compreendia, que se contentava em aconchegá-la numa manhã de chuva. Fora por isso que se apaixonara por ele? Ou sempre sentira a mesma coisa, sem saber? Qualquer que fosse a resposta, precisava ser considerada, explorada e avaliada, até que todas as peças encaixassem.
- Eu queria saber se pode ter uma folga amanhã à noite, para ir comigo a Waterford City - murmurou Hermione. - Eu te levo para jantar.
Ele sorriu para os cabelos de Hermione. Ela demorara para começar a cortejá-lo, mas aquele era um bom começo. - Vai usar aquele mesmo vestido que tinha para te encontrar com o dublinense?
- Posso usá-lo.
- Gosto da forma como fica em você.
- Se tenho que usar um vestido, é melhor irmos no seu carro. Vou fazer-lhe uma boa revisão hoje. O motor falha de vez em quando, e é preciso mudar o óleo. Pela olhadela rápida que dei, eu diria que as ligações da bateria foram limpas pela última vez quando eu mesma tratei disso.
- Prefiro deixar essas coisas para quem sabe.
- É preguiçoso, nesses assuntos.
- Isso também. Foi um dos defeitos que levaram a Mary Kate a reconsiderar?
- Sim, foi. É do tipo irresponsável, Harry Potter.
- Irresponsável é uma palavra muito forte.
- Peço desculpa se te insultei. – Hermione mudou de posição. Não parecia minimamente arrependida. - Mas tem que admitir que a ambição não é o seu forte.
- Tenho bastante ambição para as coisas que têm importância.
- A sua música tem importância?
Harry tinha-se inclinado para frente, a fim de morder a sua orelha. Mas a pergunta abrandou o seu ritmo. - O que tem a minha música a ver com isso?
Tenha muito cuidado, Hermione, pensou ela. Desmonta tudo, mas não danifique nada. - Você senta aqui, compões as músicas, e depois deixa tudo espalhado de qualquer maneira.
- Sei onde está cada uma.
- Mas o que fazer com as suas canções?
- Aproveito o prazer que me proporcionam.
Havia um bloqueio ali, pensou Hermione, estudando a forma como ele fechava o rosto. Precisaria de habilidade para contorná-lo... mas ela estava determinada a fazê-lo. Era um dos passos que precisava dar.
- Isso é ótimo. Mas não quer ganhar dinheiro? Não quer que as outras pessoas também tenham o prazer de as ouvir?
-Você nem sequer gosta da minha música.
- Quando é que eu disse isso? - Ao sorriso de Harry, ela encolheu os ombros e continuou: - Se disse, foi apenas para te irritar. Gosto muito. E quando toca uma das suas canções, no pub ou num ceili, outras pessoas também gostam.
- Amigos e familiares.
- Exatamente. Sou sua amiga, não sou?
- Claro.
- Então pode dar-me uma canção?
Foi à vez de Harry mudar de posição, inquieto. - Como assim?
- Apenas o que eu disse. Dá-me uma das suas canções. Uma troca, pelo conserto do carro. - Num súbito impulso, Hermione levantou-se. Gesticulou para o piano.
- Tem dezenas, ali, abandonadas. Eu gostaria de ficar só com uma.
Ele não acreditava que fosse assim tão simples, mas não conseguia perceber a armadilha.
- É um estranho desejo, Granger, mas está bem. Eu vou dar-te uma canção.
Harry também se levantou. Mas, quando ele começou a folhear as pilhas de papéis, ela bateu na sua mão.
- Nada disso. A escolha é minha. Assim é que é justo. – Hermione pegou na que acabara de ler, a que tocava no piano quando Lady Gwen lhe aparecera pela primeira vez.
- Gosto desta.
- Ainda não está acabada. - Harry não podia entender a pontada de pânico. Sabia apenas que a sentia.
- Preciso trabalhar nela mais um pouco.
- É esta que eu quero. Não vai voltar atrás no acordo, não é?
- Não, mas...
- Ainda bem. – Hermione dobrou as folhas, de uma maneira que o fez estremecer, e guardou-as no bolso de trás da calça.
- É minha agora. Obrigada. - Ela ergueu-se na ponta dos pés para beijá-lo levemente.
- Eu levo-te até ao pub, deixo-te no trabalho. Assim posso levar o teu carro para a minha casa, onde deixei as ferramentas. O carro vai ficar perfeito.
- Ainda tenho algum tempo.
- O que não acontece comigo. Tenho muito a tratar hoje. Se eu levar o carro até ao pub antes da hora de fechar, me dá carona de volta?
Harry tentou tirar a canção dos pensamentos. Concluiu que ela a esqueceria rapidamente.
- De volta para onde? - Ela sorriu. - Até aqui seria suficiente.
Ela tinha mais uma parada a fazer, antes de seguir para casa, trocar de roupa e pegar nas suas ferramentas. Com Harry no pub, Hermione foi até à casa de Luna.
A amiga encontrava-se no jardim da frente, ocupada com o início da Primavera. Já tinha as luvas sujas de terra. Havia vários desenhos no caminho ao seu lado. Com a aproximação de Hermione, ela sentou-se, levantando o chapéu de palha que usava para proteger a cabeça da chuva fina.
- Algum problema com a sua caminhonete?
- Não. Vou consertar o carro do Harry, já que ele prefere ser devorado por formigas a levantar o capô. Os seus desenhos estão se molhando.
- Eu sei. Tenho de parar agora. Mas queria começar a preparar tudo com bastante antecedência.
- Desenhou as suas ideias para o jardim, não foi? – Hermione agachou-se, usando as costas para proteger os papéis. - Como uma planta de construção. Uma boa ideia.
- Ajuda-me a visualizar como vai ficar. Vamos entrar, para sair da chuva. - Luna começou a levantar-se. Mas mudou logo de posição, pondo a mão na curva da barriga. -O meu centro de gravidade está mudando.
- Mais alguns meses e terá que usar uma corda e uma roldana para te levantar quando ficar de joelhos. Pode deixar que eu leve isso.
Hermione pegou nos desenhos e no cesto de jardinagem de Luna.
- Vi a Colleen Ryan a entrar no mercado no outro dia. Deve estar prestes a ter o bebê. Ginga ao andar, vai ser cesariana - comentou Luna, ao entrarem em casa.
- É uma cena querida, mas prefiro parto normal, como a Madonna, esperando até ao final.
- Continua pensando assim, querida.
Hermione levou o cesto para a pequena sala ao lado da cozinha e espalhou os desenhos ao longo do balcão, para que pudessem secar. A chaleira apitou. A lata de biscoitos foi para a mesa.
- Eu disse ao Rony que almoçaria no pub. - Com um sorriso contrafeito, Luna deu uma mordidela num biscoito doce. - Mas agora estou sempre com fome. Nada estraga o meu apetite.
- A gravidez combina muito bem contigo, Luna. Lembro-me da primeira vez em que te vi, há um ano, parada sob a chuva, na porta do Faerie Hill Cottage, parecia perdida. Você se descobriu agora.
- É uma forma muito querida de se expressar. Tem razão, me encontrei. As coisas que eu queria, que mal poderia admitir sequer para mim mesma que queria, aconteceram.
-Você fez com que acontecessem.
- Algumas. - Ela mastigava o biscoito, enquanto Hermione andava de um lado para o outro na cozinha. - E outras coisas tinham de acontecer. Mas é preciso estar disposta e ter coragem para deixar que aconteçam.
- Quando descobriu que amava o Rony, contou para ele? Expressamente?
- Não. Tive medo de dizer. Não confiava em mim. - Os olhos de Hermione contraíram- se. - Ou nele?
- Ou nele - admitiu Luna. - Antes de vir para cá, nunca fiz com que as coisas acontecessem. E não tinha coragem de deixar que acontecessem em meu redor ou comigo. Era medo e passividade. Tive de aprender a diferença. Assumir o controle de algumas coisas e confiar que outras se ajustariam aos devidos lugares.
- Mas precisa dar os passos necessários.
- Tem razão. Está apaixonada pelo Harry? – Hermione sentou-se, franzindo o rosto.
- Parece que sim. Não me sinto envergonhada por dizer que é um choque para mim.
- O amor fica bem em você, Hermione. – Hermione soltou uma gargalhada.
- Só que não me sinto bem. Mas acho que acabarei por me habituar. - A chaleira apitou.
- Vou servir o chá.
- Continua sentada. Já contou a ele?
- Claro que não. - Quando um pensamento lhe ocorreu, Hermione lançou um olhar rápido a Luna, que preparava o chá. - Sei que os casais casados tendem a contar um ao outro a maior parte das coisas, mas...
- Não quer que eu conte isso ao Rony.
- Não gostaria.
- Então não vou contar.
- Obrigada. – Hermione deixou escapar um suspiro. - Agora é uma questão de dar os passos necessários, e descobrir o que acontece. Se bem o conheço... estou a falar de Harry... ele não é tão previsível como eu pensava antes... antes de as coisas entre nós mudarem.
- A dinâmica entre amantes é diferente da que existe entre amigos. Mesmo amigos de longa data.
- Foi o que descobri. De qualquer forma, sei que muitas vezes ele precisa de um bom pontapé na bunda para começar a movimentar-se, em algumas áreas. Darei o primeiro passo com uma coisa que me incomoda profundamente. E acho que, no fundo, é a coisa que mais significa para ele. Hermione levantou-se um pouco, tirando as folhas de música do bolso das calças.
- Uma das canções de Harry?
- Pressionei-o até que me desse. Ele tem talento, não tem, Luna?
- Acho que sim.
- E porque ele não faz algo a respeito disso? Você sabe como a mente funciona.
- Está perguntando a uma medíocre ex-professora de psicologia. - Luna pôs o bule na mesa e foi pegar nas canecas. - Mas o meu palpite, baseado em tudo o que sei, é que ele tem medo.
- Medo de quê?
- De fracassar na coisa que mais lhe importa. O que acontece se a música não for suficientemente boa? E se ele não tiver o talento que imagina? São muitas as pessoas que contornam esse abismo, Hermione. - Ela serviu o chá. - Você não é uma delas. Trata de arregaçar as mangas e constrói uma ponte para transpor o abismo.
- Pois estou com vontade de construir uma ponte sobre o abismo do Harry. Ele deu- me esta canção, e posso fazer o que quiser com ela. Quero enviá-la para alguém que saiba dessas coisas. Que saiba se vale a pena comprá-la.
- Sem dizer ao Harry.
- Não vou me sentir culpada por isso - murmurou Hermione. - Se não der certo, ele nunca saberá, não é? E se der certo, como poderia ele não ficar satisfeito? Não sei como fazer isso, ou a quem mandar. Pensei que tivesse uma ideia.
- Eu estaria perdendo o meu tempo se te tentasse dissuadir?
- Absolutamente.
- Luna balançou a cabeça. - Nesse caso, nem sequer vou começar. Não sei nada sobre a indústria da música. Poderia perguntar à minha agente, mas acho que ela... - Luna parou de falar, quando uma ideia aflorou na sua mente. Pensou um pouco. - O que me diz do Malfoy? Ele já construiu vários teatros. Deve conhecer pessoas nos meios musicais. Talvez tenha algumas ligações.
- É uma boa ideia.
- Posso dar-te o endereço. Escreve para ele.
Hermione passou os dedos pelas notas e palavras no papel à sua frente.
- Demoraria muito tempo. Tem o número de telefone do Malfoy?
(Fim do capítulo)