CAPÍTULO QUINZE: " Descoberta e brigas de Família"
Hermione tinha o hábito de acordar cedo e começar logo com o que tinha para fazer nesse dia. Nas raras ocasiões em que dormia até mais tarde, era em geral porque bebera mais do que a sua dose tolerável na noite anterior. Por isso, embora não tivesse bebido mais do que água mineral com gás durante a noite, foi uma surpresa e tanto observar, ao abrir os olhos, que o sol já subira bastante pelo céu.
A segunda surpresa veio na esteira da primeira, quando notou que a única coisa que a impedia de cair da cama era o braço de Harry à sua volta. Ele esparramara-se no meio do colchão, empurrando-a para a beira. Mas, pensou Hermione, pelo menos fora bastante atencioso para arranjar forma de mantê-la na cama, em vez de a deixar cair de cara no chão.
Ela tentou virar-se. Empurrou-o, para se desvencilhar do seu braço para sair da cama. Só que ele apertou-a ainda mais, puxando-a de volta, até que ela se curvou contra o seu corpo, na posição de uma colher.
-Você pode ser do tipo preguiçoso, que passa metade da manhã na cama, mas eu não sou. – Hermione começou a contorcer-se, tentando-se desvencilhar. Foi quando descobriu o fato interessante de que nem todo o corpo dele dormia. - Já está disposto, hein? - Com uma gargalhada, ela empurrou os braços de Harry. - Pois eu não estou.
Quero tomar um ducha primeiro e descer para tomar um café. A resposta de Harry foi um grunhido, mas a mão estendeu-se para cobrir um seio.
- E guarda essas mãos para você mesmo. Não quero brincadeiras enquanto não tomar o meu café.
Harry simplesmente abriu as suas pernas e provou que ela era uma mentirosa. - Hum... - A voz saía pastosa de sono, mas o braço que a envolveu era bastante forte para mantê-la na cama.
-Vai ficar deitada sem fazer nada, enquanto me aproveito de você.
Mais tarde, quando cambaleou para o chuveiro, Hermione pensou que não seria tanto sacrifício ser usada daquela maneira, ao acordar, de vez em quando. Ela abriu a torneira, mantendo-a no lado da água fria enquanto a pele ainda estava quente.
Dentro da banheira, puxou a cortina, e baixou a cabeça para o jato de água mínimo. Não era fácil, com tão pouca água e tanto cabelo. Ela quase terminara de lavar a cabeça quando a cortina foi aberta. Abriu um olho para fixá-lo em Harry.
- Não acredito que me possa dar qualquer trabalho aqui, depois de tão pouco tempo.
- Quer apostar? - murmurou ele, entrando na banheira.
Ela teria perdido. Ainda sentia as pernas bambas quando pegou numa toalha.
- Fica longe agora - advertiu ela, enrolando a toalha no corpo, com os cabelos pingando por toda a parte. - Não tenho mais tempo para você. Preciso voltar para casa.
- Nesse caso, imagino que nem tem tempo para umas panquecas. – Hermione afastou os cabelos molhados dos olhos. - Vai fazer panquecas?
- Pensei em fazer. Mas como está com tanta pressa, só vou preparar ovos mexidos para mim. Harry já se enxugara e escovava os dentes, um ato de intimidade descontraída, que foi mal registrado.
- Acho que, afinal, não preciso me apressar tanto. Tem uma escova de reserva?
- Não. Mas creio que, dadas às circunstâncias, pode usar a minha. Ela guardava uma no apartamento de Gina, juntamente com alguns outros acessórios essenciais. Mas estava transtornada demais para se lembrar de pega-los na noite anterior.
- Será que se importaria se eu deixasse algumas coisas aqui, por uma questão de conveniência?
Harry estava inclinado sobre a pia, a bochechar, e por isso ela não viu a expressão de triunfo nos seus olhos. Outro passo, pensou ele.
- Tenho espaço suficiente. - Ele estendeu a escova. - Usa o que precisar agora. Vou descer para fazer o café.
- Obrigada.
Ele saiu do banheiro. Vestiu uma calça e uma camiseta. Se não tivesse que ir para o pub, arranjaria uma forma de persuadi-la há passar o dia na sua companhia. Como não era possível, só dispunham de mais uma hora. Mas Harry viu, com absoluta nitidez, como poderia ser a vida para os dois.
As manhãs daquela forma, a começarem com amor e passando para a rotina fácil de uma refeição, antes de partirem para os respectivos trabalhos. Hermione sentada na cozinha do pub à noite, durante algum tempo, enquanto ele trabalhava. E sabendo que a encontraria à espera quando voltasse para casa. Ao descer, ele lembrou a si mesmo que ainda restavam alguns passos, antes que pudessem chegar a esse estágio. Mas não podia acreditar, não queria acreditar, que pudesse estar tão apaixonado por uma mulher, sem encontrar um meio de passar o resto da sua vida com ela.
Eles precisavam da sua própria casa, uma casa que lhes pertencesse. Uma cozinha grande, quartos suficientes para a família que teriam. Ele tinha as economias necessárias para comprar um terreno.
Pôs água ao lume, para o café, e também começou a preparar um chá, pois preferia começar o dia com chá. Pegou os ovos, a farinha de trigo, o leite.
Quase deixou cair o pacote de leite ao ouvir a batida na porta dos fundos.
- Desculpa. - Com o riso na voz, Mary Kate abrindo a porta. - Não tive intenção de te assustar. - Ela tinha as faces rosadas da caminhada até ao chalé, os olhos brilhantes e joviais. - Saí para dar uma caminhada, já que é o meu dia de folga, e pensei em vir até aqui para conversar.
A mente de Harry disparou, à procura de uma maneira rápida e suave de fazê-la sair, sem que qualquer mal fosse causado. Mas, antes que lhe ocorresse alguma coisa que não gritar Fogo! , já era tarde demais.
- Porque não estou sentindo o cheiro de café? - indagou Hermione- Usa um corpo antes das dez horas da manhã, e depois não é sequer capaz de... A voz definhou quando ela entrou na cozinha e deparou com a irmã.
Toda a cor de felicidade se esvaiu das faces de Mary Kate. Os olhos arregalaram-se, tornaram-se turvos e magoados. Por um momento, ninguém se mexeu. Atores numa peça nefasta, a aguardar pela cortina, sabendo que viria o desastre no momento em que fosse aberta.
Harry estendeu a mão para o braço de Mary Kate. - Mary Kate... Ele falou gentilmente, com profunda compaixão. O tom arrancou-a do choque. Ela deu uma palmada para afastar a mão do seu braço, e virou-se para a porta.
- Mary Kate, espera! Hermione avançou apressada, mas parou de repente, quando a irmã se tornou a virar.
Havia cor no seu rosto de novo, a cor intensa e incontrolável que derivava da vergonha e fúria.
- Está dormindo com ele. É uma mentirosa e hipócrita. - Ela desferiu uma bofetada com toda a força. Como Hermione não estava preparada, nem tentou esquivar-se, o golpe atirou-a no chão.
- E uma puta, ainda por cima.
- Já chega! - Com uma expressão sombria, Harry pegou no braço de Mary Kate. - Não tem o direito de agredir a sua irmã, nem de lhe falar dessa forma!
- Não tem importância. Hermione ficou de joelhos. Era o máximo que o peso horrível no seu peito permitia.
- Importa muito para mim - declarou Harry. - Pode sentir toda a raiva que quiser contra mim, Mary Kate. E lamento mais do que posso dizer se te magoei de qualquer forma. Mas o que existe entre mim e a Hermione não tem nada a ver contigo.
Ela queria gritar, queria chorar... e tinha medo de fazer as duas coisas. Com um esforço intenso para manter um resquício de dignidade, Mary Kate ergueu a cabeça, dando um passo para trás.
- Não precisava me levar a fazer papel de idiota. Sabia dos sentimentos que eu tinha. E ainda tenho... só que agora te odeio. Odeio os dois.
Ela empurrou a porta aberta e fugiu.
- Jesus Cristo! - inclinou-se para ajudar Hermione a se levantar. Pôs a mão levemente no seu rosto, com a marca vermelha do estalo.
- Sinto muito. Ela não estava falando sério.
- Claro que falou. Saiu do fundo do coração dela. Sei como é. Tenho que ir atrás dela. - Vou com você.
- Não. - Uma parte do coração de Hermione dilacerou-se quando se afastou dele. - Tenho de fazer isto sozinha. Só a magoaria ainda mais se nos visse juntos. Em que estava eu pensando? - Ela fechou os olhos pressionando os dedos por cima. - Em que eu estava pensando?
- Estava pensando em mim. Pensávamos pensando um no outro. Temos esse direito.
Hermione baixou as mãos. Abriu os olhos. - Ela pensa que te ama. Eu deveria ter pensado nisso também. Tenho que ir agora, para fazer o que for possível.
- Enquanto eu fico aqui, sem fazer nada?
- Ela é minha irmã.
Hermione bem que correu, mas Mary Kate tinha uma boa vantagem e pernas mais longas. Quando Hermione a avistou, ela já descia a encosta para o quintal dos fundos da casa, com a cadela amarela a correr atrás de si, como retaguarda.
- Mary Kate, espera! – Hermione acelerou ainda mais e alcançou a irmã na beira do pátio. - Espera por favor. Tens de me deixar explicar.
- Explicar o quê? Que anda fodendo com o Harry Potter? Isso ficou evidente pela forma como entrou na cozinha, com os cabelos ainda molhados.
- Não é bem assim. Mas não fora exatamente assim que começara?, pensou Hermione. Não fora apenas isso no início?
- Vocês os dois devem ter rido muito à minha custa.
- Isso jamais aconteceu. Nunca pensei...
- Nunca pensou em mim? - Mary Kate virou-se para ela, gritando tão alto agora que a cadela tratou de se afastar, à procura de um lugar para se esconder. - Isso faz com que tudo esteja certo. Dormiu como uma puta com um homem por quem sabia que eu tenho sentimentos, não pensou em mim em nenhum momento sequer.
Um brilho intenso surgiu nos olhos de Hermione. Uma advertência.
-Me chamou disso antes e eu aceitei. Me atirou no chão e aceitei isso também. Disse tudo o que queria. Agora, terá que me ouvir.
- Vai para o inferno! Ela deu um empurrão em Hermione, virou-se e encaminhou-se para a porta.
O ar escapou dos seus pulmões, ruidosamente, quando a irmã a derrubou por trás.
- Se quer resolver o problema com pancada e empurrões, por mim tudo bem.
Ela agarrara um punhado dos cabelos de Mary Kate e dera um puxão firme e satisfatório, quando a mãe abriu a porta e saiu correndo.
- Mas o que está acontecendo aqui? Sai de cima da sua irmã, Hermione! Imediatamente!
- Só depois de ela me pedir desculpa por me chamar puta duas vezes esta manhã.
- Puta! - Lágrimas de dor e raiva turvavam os olhos de Mary Kate, mais ainda assim conseguiu gritar. - Agora são três vezes!
As duas rolaram pelo chão, num furioso emaranhado de pernas e braços.
Sem a menor hesitação, Miranda avançou e agarrou cada uma, pelo que conseguiu pegar, separando-as. E como era a mesma coisa que manter gatas raivosas separadas, ela acrescentou um cascudo na cabeça de cada uma, para mantê-las quietas.
- Eu sinto v-e-r-g-o-n-h-a das duas. E se disserem qualquer coisa antes de eu o permitir, vão conhecer o peso da minha mão.
Mary Kate levantou-se, limpou as roupas, de cabeça baixa. Quando os seus olhos se encontraram com os de Hermione, os lábios enunciaram silenciosamente a palavra “puta”.
Ela teve a sombria satisfação de observar Hermione fazer menção de agredi-la e levar outra lapada da mãe.
- Uma mulher adulta... - murmurou Miranda, conduzindo as filhas para dentro de casa.
Mick esperava, de pé, fazendo um esforço para exibir uma cara de desaprovação. Alice observava assustada, enquanto Patty espiava por cima do ombro do pai, com a sua melhor expressão de estou-acima-de-tudo-isso.
- Sentem-se! - Miranda apontou um dedo para a mesa, depois lançou um olhar severo para as outras filhas. - Patty, Alice, creio que vocês têm outras coisas para fazer. Se não tiverem, posso arranjar o suficiente para ocupa-las um bom tempo!
- Ela conseguiu acertar-te em cheio, Hermione.
Alice estalou a língua, enquanto estudava o rosto de Hermione.
- Não vai acertar pela segunda vez.
- Calem-se! - gritou Miranda, com a paciência quase no fim. - Saiam!
Ela apontou para a porta.
Patty pôs a mão no ombro de Alice.
- Vamos embora, Alice. Não há sentido em ficar olhando para as pagãs.
Depois de saírem, as duas agacharam-se perto da porta, para ouvir tudo o que pudessem. Mas quando Michael Granger se encaminhou para a porta, Miranda o deteve com um olhar furioso.
- Nada disso, Michael Granger. O problema é tanto teu como meu. Muito bem. - Ela pôs as mãos nas ancas. - O que levou a isto? Hermione?
- É um problema pessoal entre mim e a Mary Kate. Ela fitou a mãe, depois o pai, quando ele foi pegar no bule para se servir de mais chá.
- Quando é um problema em que uma irmã insulta a outra dessa maneira, e as duas se engalfinham como gatos de rua, já não é pessoal. Podes ter quase vinte e cinco anos de idade, Hermione Jean Granger, mas ainda vive sob este teto, e não vou tolerar tal comportamento.
- Peço desculpa. Hermione cruzou as mãos sobre a mesa, preparada para se manter firme.
- Mary Kate, o que tem a dizer em sua defesa?
- Que se ela continuar a viver sob este teto, eu não quero mais permanecer nesta casa.
- A decisão será sua - declarou Miranda, com toda a frieza agora. - Todas as minhas filhas podem morar aqui enquanto quiserem.
- Até mesmo as putas?
- Vê lá como fala, menina. - Mick avançou-se. - Dar bofetadas e engalfinhar é uma coisa. Mas tem de falar com respeito na presença da sua mãe, e não vou admitir que use essa linguagem com a sua irmã.
- Ela que negue.
- Mary Kate... A voz de Hermione era quase um sussurro, mais de súplica do que advertência.
Embora os lábios de Mary Kate tremessem, ela não podia resistir à raiva.
- Ela que negue que passou a noite na cama do Harry Potter.
A caneca de chá partiu-se, quando Mick a largou de alguma forma no balcão.
Hermione só podia fechar os olhos, enquanto a vergonha e o pesar a dominavam.
- Não vou negar. Também não vou negar que já estive lá antes, e que em todas as ocasiões foi por minha livre e espontânea vontade. Sinto muito se isso te magoou. - Ela levantou-se, tremendo. - Mas gostar dele não faz de mim uma puta. E sabe que, se me obrigar a escolher entre vocês dois, eu o deixarei.
Hermione precisou de toda a sua coragem para virar-se e confrontar os pais. A compreensão nos olhos da mãe podia ser um bálsamo, se não fosse pelo choque nos olhos do pai.
- Lamento por tudo isso. Lamento não ter sido franca com vocês. Não posso falar mais nada a respeito disso agora. Simplesmente não posso. Ela saiu apressada. Teria passado direito pelas irmãs, se Patty não a detivesse.
- Está tudo bem, querida. - murmurou ela, dando um abraço apertado a Hermione. O gesto desencadeou as lágrimas que ardiam na garganta e no fundo dos olhos de Hermione. Ofuscada pelas lágrimas, ela subiu correndo.
Na cozinha, Miranda não desviava os olhos de Mary Kate. O seu coração confrangia-se pelas duas, mas conforto e disciplina teriam de ser aplicados em separado. O único som agora era a respiração entrecortada de Mary Kate.
Miranda manteve o silêncio por mais um momento, sentando-se na cadeira que Hermione abandonara. Ninguém notou quando Mick saiu pela porta dos fundos.
- Sei o que é ter sentimentos por alguém - começou Miranda, com uma voz suave. - Ver a pessoa como a luz mais brilhante, aquela que responderá a todas as perguntas, preencherá todos os vazios, quer tenha vinte ou quarenta anos. Não estou duvidando do que tem no seu coração, Katie.
- Eu amo-o. - O desafio, ainda o seu único escudo, impregnava a voz, mas uma lágrima solitária foi derramada e desceu pelo rosto. - E ela sabia disso.
- É difícil ter esses sentimentos por alguém que não os tem por ti.
- Ele poderia ter, mas a Hermione atirou-se a ele.
- Katie, querida...
Havia muitas coisas que Miranda poderia ter dito. O homem era velho demais para você, essa paixão vai passar, se sentira atraída por um homem meia dúzia de vezes antes de encontrar aquele que realmente importa. Em vez disso, ela pegou na mão de Mary Kate, e murmurou, gentilmente:
- Harry sentiu-se atraído pela Hermione. O que já acontece há muito tempo. E vice- versa. E nenhum dos dois é do tipo indiferente, que não se importa de magoar os outros. Você sabe disso.
- Eles não se importaram comigo.
- Só tinham olhos um para o outro, e por algum tempo não viram.
Era pior, cem vezes pior, ser olhada com compaixão, e ainda sentir-se como uma tola. - Fala como se tudo estivesse certo, como se não houvesse qualquer problema no fato de os dois dormirem juntos.
Um terreno delicado e instável, pensou Miranda. - Não foi o que eu disse. O que aconteceu, é problema da Hermione, da sua consciência e do seu coração. Não te cabe julgá-la, Mary Kate. Nem a mim. Não lançamos pedras em ninguém nesta casa.
As lágrimas corriam mais depressa agora, acompanhadas pelo ressentimento.
- Isso significa que está do lado da Hermione.
-Se engana nesse ponto. Tenho duas filhas magoadas e amo cada uma da mesma forma. E, se a questão é tomar um lado, a Hermione já tomou o dela. Você não tem como saber quais são os sentimentos dela pelo Harry, até onde são profundos, mas a Hermione se afastara dele por sua causa. É isso que você quer, Mary Kate? Aliviaria o seu coração e o teu orgulho?
O turbilhão interior envolveu-a por completo. Ela encostou a cabeça à mesa e chorou como uma criança.
Enquanto isso...
Não havia opção para um homem, para um pai, a não ser enfrentar aqueles problemas. Mick teria preferido quebrar os dedos, um de cada vez, a usá-los para bater à porta do Faerie Hill Cottage. Mas não poderia deixar de fazê-lo. A filha entregara-se a um homem, fora conquistada, o que destruía as suas confortáveis ilusões sobre a primogênita.
Não era um homem estúpido. Sabia que as mulheres, jovens e velhas, assim como todas as outras nas faixas intermédias, tinham certas necessidades.
Mas, quando se tratava do seu orgulho e alegria, ele não queria que essas necessidades fossem esfregadas na sua cara. E sabia, tão bem quanto qualquer outro, sobre as necessidades de um homem. Podia sentir uma profunda afeição por Harry Potter, mas isso não invalidava o fato de o desgraçado ter posto as mãos no bebê de Michael Granger. Por isso, ele bateu à porta, disposto a cuidar do problema de uma maneira franca e civilizada. Quando a porta foi aberta, Mick deu um soco na cara de Harry.
A cabeça de Harry foi atirada para trás. Ele cambaleou, mas não caiu. Mais duro do que parece, concluiu Mick, tornando a levantar os punhos. Afinal, e ele sabia, fora um soco que lhe acertara em cheio.
- Vamos, seu filho da puta, trata de te defender. Vou limpar o chão contigo.
- Não, senhor. - Harry sentia a cabeça zumbindo. Queria muito movimentar os maxilares para ter a certeza de que não havia nenhuma fratura, mas não o fez. Permaneceu parado, com braços baixados. - Pode dar-me outro soco, se quiser, mas não vou lutar.
- Então é um covarde. Mick entrou na casa, como um pugilista preparando-se para o próximo assalto. Desferiu um golpe rápido no peito, simulou outro contra o rosto. Uma relutante admiração aflorou. O garoto não se mexera.
- Você está defendendo a honra da sua filha. Não posso lutar contra o que eu mesmo faria, se estivesse no seu lugar. - Mas um pensamento horrível aflorou de repente na mente de Harry, fazendo-o cerrar os punhos. - Levantou a mão contra a sua filha por causa disto?
O insulto misturou-se com a frustração. - Claro que não, rapaz. Nunca levantei a mão contra nenhuma das minhas filhas. Deixo isso com a mãe, se houver necessidade.
- Quer dizer que ela está bem? Pode dizer-me isso?
- Não, não está. Batemos na cabeça dela com uma pá e espalhamos o cérebro por toda a parte. - Com um suspiro profundo, Mick baixou os punhos. Não tinha ânimo para usá-los de novo. Mas estava longe de acabar. - Tem algumas respostas para me dar, jovem Potter.
Harry inclinou a cabeça em concordância. - Tem razão. Quer que eu fale tudo aqui, na porta, ou prefere na cozinha, sentados, tomando um uísque?
Pensativo, Mick esfregou o queixo, enquanto avaliava o homem. - Aceitarei o uísque. A raiva ainda borbulhava dentro de si, mas seguiu Harry para os fundos do chalé.
Esperou que a garrafa fosse tirada do armário, e o bom James oris servido em dois copos pequenos.
- Não quer sentar-se, Sr. Granger? - É incrível que ainda tenha boas maneiras, num momento como este. - De cara séria, Mick pegou no seu copo. Fitou Harry por cima.
- Puseste as mãos na minha filha.
- É verdade. Mick rangeu os dentes. Fechou a mão de novo, pronto para reiniciar o combate. - E quais são as suas intenções em relação à minha Hermione?
- Eu amo-a e quero casar-me com ela.
Mick soltou um assobio. Passou uma das mãos pelos cabelos, enquanto tomava o resto do uísque. Depois, estendeu o copo, querendo outra dose.
- Então porque não disse logo?
- Hum... - Cauteloso, Harry levou a mão ao queixo dolorido, deslocou-o de um lado para o outro. Não havia nada partido, decidiu ele. Apenas dorido. - Há um pequeno dilema.
- E qual é?
- Ainda não abordei o assunto com a Hermione. Se o fizer, ela tomará a decisão de seguir na direção oposta. Tenho vindo empenhando-me em inverter a situação, para dar a impressão de que a ideia foi dela. Assim, a Hermione vai transformar a minha vida num inferno, até eu concordar.
Mick fitou-o aturdido, balançando a cabeça. Largou o copo de uísque.
- Por Jesus, a conhece muito bem, não é?
- Conheço. E amo-a com todo o meu coração. Quero passar a minha vida com ela. Não há nada que eu queira mais. Por esse motivo... - Exausto, Harry tomou o resto do seu uísque. - Isso é tudo.
- Sabe como deixar um homem desarmado. - Mick bebeu de novo. - Eu amo as minhas filhas, Harry. Cada uma delas é uma jóia para mim. Quando levei a minha Maureen pela nave da igreja e a entreguei ao seu noivo, senti o maior orgulho, mas ao mesmo tempo fiquei com o coração partido. Saberás como isso é um dia. Terei de fazer a mesma coisa com a Patty em breve. As duas escolheram homens aos quais tenho a maior satisfação em chamar de filhos.
Ele estendeu o copo. Esperou que Harry o enchesse de novo. - A minha Hermione tem tanto bom gosto e bom senso quanto as irmãs, se não mais.
- Obrigado. - Aliviado, Harry resolveu tomar outra dose de uísque. - Eu gostaria que ela mudasse de ideia mais cedo em vez de mais tarde, mas é uma mulher difícil, teimosa como uma mula, se não se importa que eu diga isso.
- Não, não me importo. E é uma coisa que me deixa orgulhoso. - Mick franziu um pouco o rosto. - Isto que está a acontecer entre vocês... eu não aprovo. - Ele notou que Harry era bastante homem para fitá-lo nos olhos, mas também bastante sensato para não fazer qualquer comentário.
Quem poderia imaginar que Hermione encontraria alguém à sua altura naquele homem? - Mas ela é maior de idade, e você também - acrescentou Mick - A minha aprovação ou desaprovação não vai impedi-los de... Bem, não quero dizer mais nada a esse respeito.
Os dois beberam num silêncio cauteloso.
- Sr. Granger...
- Com tanta coisa mudando, acho que devia chamar-me de Mick.
- Lamento muito sobre a Mary Kate, Mick. Juro que nunca...
Mick acenou com a mão antes que Harry pudesse concluir. - Não posso culpar-te por isso. A nossa Katie tem fantasias, e um coração jovem e suscetível. Não gosto de saber que está magoada, mas a culpa não é de ninguém.
- A Hermione vai se culpar e se afastar de mim. Se eu não a amasse, poderia deixar assim.
- Tempo... - Mick tomou mais uma dose do uísque, decidindo que era uma boa manhã para ficar bem bêbedo. - Quando for mais velho, vai aprender a confiar no tempo. Mas não quero com isto dizer que deve se sentar de braços cruzados e deixar o tempo passar.
- Estou procurando um terreno - anunciou Harry, abruptamente. O uísque começava a fazer efeito, e ele não se importava nem um pouco.
- Como?
- Quero comprar um terreno. Para a Hermione. Não acha que ela vai querer construir a sua casa?
Lágrimas emocionadas afloraram aos olhos de Mick - Ela sempre teve o sonho de fazer isso.
- Sei que ela sonha em ter um terreno para construir alguma coisa. Torço para que tenha a oportunidade de fazer isso com o teatro.
- Estou ajudando-a no projeto do prédio.
- Poderia arranjar uma forma de me entregar o projeto, para que eu possa encaminha-lo? Talvez a Hermione já não tenha vontade de continuar, depois do que aconteceu.
- Receberá o projeto amanhã.
- Obrigado. O teatro é importante, para a Hermione, para nós, para Ardmore. Mas uma casa, um lar... é sempre mais importante do que um lugar de negócios. - Seria tão importante para ela quanto para você. - Se souber de alguma coisa que ache que possa ajudar, será que me poderia dizer?
Mick tirou o lenço do bolso. Assuou o nariz. Ficou satisfeito ao ver que Harry enchia o seu copo sem ter pedido.
- Está bem. - Com os olhos contraídos, um pouco brilhantes do uísque, ele examinou o queixo de Harry. - Como está o teu rosto?
- Dói e lateja como uma cadela no cio.
Mick soltou uma gargalhada exuberante. Bateu com o seu copo no de Harry. - Então não é pouca coisa.
Enquanto Mick e Harry, com o James orís , forjavam a sua aliança, Miranda estava muito ocupada.
Precisou de quase uma hora de afagos e compaixão até conseguir levar Mary Kate a conseguir dormir um pouco. Sentia muitas dores de cabeça, mas comprimiu os dedos contra os olhos, para aliviar um pouco a pressão, antes de ir para o quarto de Hermione.
Lembrou a si mesma que quisera ter as suas crianças... e muitas, ainda por cima. Fora abençoada. E sentia-se grata. Mas, por Maria Abençoada, como se sentia cansada!
Hermione estava enroscada na cama, com os olhos fechados. Alice estava sentada ao lado, de pernas cruzadas, acariciando os cabelos da irmã mais velha.
Patty estava ao pé da cama, a enxugar os olhos. Era uma cena de imensa ternura.
Patty era uma romântica, e automaticamente ofereceria o seu coração a Hermione, naquela situação. Alice não suportava ver qualquer coisa ou qualquer pessoa sofrendo.
Miranda só precisou gesticular para que Patty e Alice saíssem.
- Desculpa. – Hermione manteve os olhos fechados. A voz saiu rouca e nervosa. - Não sei mais o que dizer, mas sinto muito. Não me odeie.
- Oh, mas que absurdo! -Miranda falou num tom mais incisivo do que aquele que usara com Mary Kate. Sentou- se na cama. Deu uma pequena sacudidela no ombro de Hermione. - Porque haveria eu de te odiar? Acha que sou tão velha que não compreendo os sentimentos que se agitam numa mulher?
- Claro que não! - Desesperada, Hermione enroscou-se ainda mais, mudando de posição para poder pôr a cabeça no colo da mãe. - É tudo minha culpa, mãe. Fui eu que comecei. Queria o Harry. Por isso, procurei-o e disse-lhe, expressamente. E insisti até que... Afinal, ele é apenas um homem.
- É tudo o que há entre vocês, Hermione? Apenas a necessidade do ato?
- Sim... e não. - Ela comprimiu o rosto contra o aconchego da mãe. - Não sei. E agora não é importante.
- Nada pode ser mais importante.
- Não posso ficar com ele. Não o verei mais. Se visses como ela olhou para nós... para mim... Toda a mágoa no rosto dela, antes que a raiva aflorasse. Nunca pensei nela. – Hermione estendeu-se de costas na cama, olhando para o teto. - Pensei apenas em mim e no que acontecia dentro de mim quando me encontrava com o Harry. Por causa disso, menti para você e para o pai. Como pode confiar de novo em mim?
- Não estou dizendo que mentir foi correto, mas eu sabia que estava mentindo daquela vez.
- Ela quase sorriu quando Hermione arregalou os olhos, virando a cabeça para fitá-la. - Pensa que contei à minha mãe quando saí às escondidas de casa, numa noite quente de Verão, para me encontrar com o Michael Granger, para que ele fizesse a minha cabeça girar com tantos beijos? - Os olhos de Miranda brilharam com a lembrança.
- Estamos casados há vinte e seis anos, e trouxemos cinco filhas para este mundo, mas até hoje a minha mãe acredita que eu permanecia casta na minha cama, todas as noites, antes do casamento.
Com um longo suspiro, Hermione sentou-se na cama. Abraçou Miranda, e encostou a cabeça ao seu ombro.
- Preciso dele, mãe, é uma imensa necessidade. Pensei que passaria depois de algum tempo, que voltaríamos a ser apenas amigos, como antes. Mas não está passando. E eu estraguei tudo por não dizer à Katie: “Este é meu. Arranja outro.” Ou qualquer outra coisa que eu pudesse fazer ou dizer. Agora, não posso voltar para o Harry.
- Quero que me respondas a uma pergunta, com toda a sinceridade. - Miranda afastou um pouco a filha, estudou o seu rosto. - O Harry teria olhado para a Mary Kate se não te interpusesses entre os dois?
- Mas isso não é...
- Responde, simplesmente, Hermione.
- Não. - Ela deixou escapar um suspiro angustiado. - Mas ele nunca a magoaria, se não fosse por mim.
- Não há como negar que erros foram cometidos. Mas a Mary Kate é tão responsável pelo seu coração e pelas suas mágoas como qualquer pessoa. Estar agora a martirizando- te, não vai mudar o que foi ou o que é. Descansa um pouco. - Miranda comprimiu os lábios contra a testa de Hermione. - Vai pensar com mais lucidez quando a sua cabeça não estiver doendo. Quer que eu traga chá e torradas?
- Não, obrigada. Eu te amo muito, mãe.
- Não comece a chorar de novo. Mais lágrimas hoje, e vou precisar de um remo. Vamos lá tira as suas botas e se apronte para dormir.
Como fizera com Mary Kate, Miranda puxou, esticou, e ajeitou Hermione sob os cobertores. Continuou sentada na cama por mais algum tempo. Assim que Hermione adormeceu, levantou-se para deixar que o sono efetuasse a sua parte na cura. Ao passar pela janela, parou de repente, voltou, e olhou para a cena do marido voltando para casa, cambaleando de um lado para o outro.
- Por todos os santos no paraíso, o homem está embriagado e ainda nem é meio-dia! - Miranda passou a mão pelos cabelos. - Que família!
(Fim do capítulo).