NA: Olá!!! :D
Divirtam-se! Boa Leitura!!!
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CAPÍTULO CATORZE:
"Conversas, Ciúme e Arrebatamento". (Tem NC18)
- E deves lembrar-te do Dennis Malfoy,o pai de Dennis jr, que é pai de Lúcio, que partiu para a América... isto é, nenhuma de nós se lembra exatamente, pois já se passaram cinquenta anos, nem menos um dia, e ainda não havíamos nascido. Ou, no meu caso, ainda usava fraldas quando ele deixou Old Parish. Mas deves estar lembrada como disseram que ele ganhou uma fortuna com imóveis na cidade de Nova Iorque.
Kathy Duffy estava sentada na aconchegante cozinha dos Granger, a tomar chá e a comer bolo com glacê - a bem da verdade, tinha de reconhecer que a massa precisava de um pouco mais de baunilha - enquanto partilhava notícias e fofocas. Como estava acostumada a dizer dez palavras para uma de qualquer outra pessoa, ela não notou a distração da amiga, e continuou a falar, oferecendo o boletim noticioso mais quente de Old Parish.
- O Dennis sempre foi esperto. É o que diziam todos os que o conheciam. E casou com a Deborah Casey, que era prima da minha mãe, com a reputação de ter também uma boa cabeça em cima dos ombros. E lá foram eles atravessar o oceano com o primogênito ainda de calças curtas. Saíram-se muito bem na América, criando um bom negócio.
Conheceu a velha Maude, que foi noiva do John Malfoy, que morreu na guerra. Ele era irmão do Dennis. - Depois de lamber um pouco de glacê dos dedos, Kathy continuou - Durante todos esses anos, parece que o Dennis nunca se lembrou da Irlanda, nem do lugar em que nasceu. Mas teve um filho, e esse filho teve também um filho. É o rapaz que agora está olhando na direção certa. Ela esperou um instante.
Miranda reagiu, alteando as sobrancelhas e indagando: - É sério?
- Sim. E olhou para Ardmore. Planeja construir um teatro na aldeia.
- Ah, sim... - Miranda mexeu o chá, que ainda não provara. - Ouvi a Hermione falar sobre isso. - Ela poderia estar distraída, mas não tanto que não notasse a expressão decepcionada da amiga.
Apressou-se a acrescentar, para acalmar Kathy: - Não tenho os detalhes.
- Então pode ouvir-me. - Kathy inclinou-se para frente, com evidente satisfação. - Há uma negociação entre os Malfoy em Nova Iorque e os Potter. A notícia é de que o teatro será construído junto do pub . Uma espécie de music hall , pelo que dizem. Imagina só, Miranda, um music hall em Ardmore, e com a participação dos Potter.
- Se isso acontecer ficarei feliz por saber que um dos nossos pode influenciar o negócio. Sabe se o Jovem Malfoy virá a Ardmore?
- Não sei como ele pode evitar a viagem. Kathy recostou-se, alisando os cabelos. A sobrinha oferecera-lhe um permanente na semana anterior, e sentia-se muito satisfeita com o resultado. Cada cacho era como um soldado metido no seu saco de dormir.
- O Dennis jr e eu tivemos um pequeno flerte quando éramos jovens e tolos, e ele veio fazer uma visita no Verão, há muitos anos. - Os olhos de Kathy tornaram-se sonhadores, contemplando o passado. - Estava percorrendo a Europa e queria conhecer o lugar em que os pais nasceram e foram criados, onde ele próprio passara os primeiros anos da sua vida. Era um homem bonito, o Dennis Malfoy jr, pelo que me lembro.
- E, pelo que me lembro, você tive um flerte com todos os homens bonitos que apareceram aqui, antes de conquistar aquele que queria. Os olhos de Kathy exibiram um brilho divertido.
- Qual o sentido de ser jovem e tola se não se fizer isso? - Porque era uma das coisas que a preocupava, Miranda conseguiu dar um sorriso contrafeito, e deixou que a velha amiga continuasse a falar, sem prestar muita atenção.
Miranda tinha a certeza de que a filha mais velha tinha muito mais do que um flerte com Harry Potter. O fato em si não chegava a ser um choque; mas havia choque e preocupação por Hermione não conversar com ela a respeito disso. Criara as filhas para que soubessem que não havia nada que não pudessem partilhar com a mãe.
Soubera de tudo na noite em que Maureen se apaixonara, pois ela voltara para casa corada e rindo-se, radiante com aquela maravilha. E quando Kevin pedira Patty em casamento, soubera no instante em que a filha chegara a casa, para se lançar a seus braços, chorando. Era assim com as duas, Maureen rindo pelas alegrias, Patty chorando por elas.
Mas Hermione, a mais prática das suas filhas, não fizera nenhuma das duas coisas. Também não se sentara para conversar sobre o que havia mudado no seu relacionamento com Harry, como Miranda esperava.
Naquela mesma manhã, Hermione não saíra de casa avisando que passaria a noite com Gina, sem fitar a mãe nos olhos enquanto mentia? Doía saber que a filha precisava mentir.
- Para onde você foi?
- Hã? - Miranda tornou a focalizar o rosto de Kathy, Sacudiu a cabeça. - Desculpa. Não consigo manter a mente concentrada nestes dias.
- Não é de admirar. Tem uma filha que casou há poucos meses, e outra a planejar o casamento. Isso te deixa abatida?
- Acho que um pouco. - Porque deixara o seu chá esfriar e a xícara de Kathy estava vazia, Miranda levantou-se para despejar o seu na pia, e tornar a encher as duas xícaras. - Sinto orgulho delas, fico feliz por elas, mas...
- Elas crescem muito mais depressa do que imaginas que vai acontecer.
- É verdade. Num minuto estás a lavar rostinhos sujos e no instante seguinte dás por ti a comprar vestidos de noiva. - Para surpresa de Miranda, lágrimas de desamparo afloraram a seus olhos. - Oh Kathy...
- Calma, querida, calma... - Ela pegou nas mãos de Miranda e apertou-as.
- Senti a mesma coisa quando as minhas crianças deixaram o ninho. - É por causa da Patty. - Miranda tirou um lenço do bolso, fungando. - Nunca chorei com a Maureen, exceto no casamento. Pensei algumas vezes que ia enlouquecer, já que a Maureen não se contentava com menos do que a perfeição, e as suas ideias mudavam todos os dias. Mas a Patty desata a chorar se falamos sobre as flores no buque.
Juro, Kathy, que tenho medo de que a criança se desmanche em lágrimas enquanto percorre a nave, ao encontro do pobre Kevin. As pessoas pensariam que encostamos uma arma à cabeça dela, obrigando-a a casar.
- Nada disso vai acontecer. A Patty é a tua filha sentimental. Dará uma noiva adorável, com lágrimas e tudo.
- Sei disso. - Miranda permitiu que as suas próprias lágrimas corressem. - E há também a Mary Kate. Ela anda no mundo da lua... por causa de algum rapaz, suponho... sempre pensativa, trancando-se no quarto, para escrever no seu diário. Durante metade do tempo, não deixa a Alice entrar no quarto que as duas partilham.
- Só pode ser algum rapaz no hotel por quem ela fantasia que está apaixonada. Isso te preocupa?
- Não muito. A Mary Kate foi sempre reservada, e está numa idade em que a experiência de controlar a irmã mais nova é uma tentação.
- Problemas de crescimento. Fez um bom trabalho na criação das tuas filhas, Miranda. São uma valia para ti, cada uma e todas. Não que isso impeça uma mulher de se preocupar com a sua prole. Mas pelo menos a Hermione não te está a causar nenhum problema de momento.
Com todo o cuidado, Miranda levantou a sua caneca e tomou um gole.
- A Hermione é firme como uma rocha. Havia algumas coisas que não se podia partilhar, nem mesmo com uma amiga.
No Potter’s Pub.
Com o pub fechado por uma hora, entre os turnos, Rony estendeu a cabeça pela porta da cozinha.
- Pode interromper o trabalho por alguns minutos? Harry correu os olhos pela desordem geral, causada por uma tarde movimentada.
- Sem a menor hesitação. Por quê? - Preciso conversar sobre uma coisa e quero dar uma caminhada. Harry largou o pano de limpar os pratos. - Para onde?
- Vamos até à praia.
Rony atravessou a cozinha e saiu pela porta dos fundos. Parou ali por um momento, estudando o terreno um pouco inclinado, vazio, até alcançar um punhado de árvores, que o vento inclinava na direção do mar.
- Você mudou de ideia? - indagou Harry.
- Não... não sobre isso. Mas ele continuou a olhar e avaliar. As lojas e os chalés que se estendiam pelos lados do pub, os jardins nos fundos, o velho cão que procurava uma sombra para descansar, o canto oposto do terreno, onde beijara uma garota pela primeira vez.
-Tudo vai mudar... Vai mudar mais do que um pouco - acrescentou Rony.
- Tem razão. Mudou quando Shamus Potter ergueu as paredes ao pub . E todas às vezes, desde então, em que fizemos alguma remodelação. Esta é a sua mudança.
- A nossa - disse Rony no mesmo instante. - É uma das coisas sobre as quais precisamos falar. Não consigo entender a Gina. Ela parece deslocada. Como uma bola disparada de um canhão. Lembra que já brincamos aqui?
- Claro que me lembro. - Distraído, Harry coçou o nariz. - Não poderia esquecer.
Com uma súbita risada, Rony foi andando pelo lado do terreno. - Eu tinha esquecido isso. Jogávamos bola aqui, de vez em quando. Foi o lugar em que a Hermione acertou uma bolada na sua cara. Sangrou como um porco.
- O bastão era maior do que ela.
- É verdade. Mas aquela mulher sempre teve um braço firme. Lembro-me que você deitou no chão, gritando e sangrando. E quando ela viu que apenas tinha partido o nariz, te ordenou que parasse de gritar e que levantasse. Tivemos grandes jogos atrás do pub.
- A paternidade iminente anda te deixando sentimental.
- É possível. - Os dois atravessaram a rua, calma naquela hora do dia, naquela época do ano. - A Primavera está chegando - acrescentou Rony, enquanto desciam para a curva da praia. - E os turistas e os veraneantes voltarão. O Inverno é curto em Ardmore. Harry enfiou as mãos nos bolsos. Ainda havia bastante frio no vento.
- Não vai ouvir nenhuma queixa minha por isso.
A areia rangia sob os seus sapatos, enquanto caminhavam para oeste. No ponto onde se encontrava com o horizonte, a água era de um azul de sonho. Mais perto, onde deslizava sobre a areia, criava espuma, era branco contra verde, tangida por pequenas ondas encapeladas. As cristas faiscavam ao sol generoso.
Foram andando em silêncio, afastando-se dos barcos já atracados, pelo resto do dia, das redes estendidas para secar. Seguiram na direção dos penhascos, que subiam em camadas para o céu.
- Falei com o pai esta manhã.
- Ele está bem? E a mãe?
- Estão os dois ótimos. Ele deve reunir-se com os advogados no início da próxima semana. Os documentos, pelo menos alguns, já devem estar prontos para serem assinados. O pai decidiu aproveitar a ocasião para providenciar outros documentos. Para a transferência legal do pub para o meu nome.
- Já era tempo de acertar isso, pois sabemos que eles encontraram o seu lugar em Boston.
- Eu disse-lhe o que pensava, e vou repetir-te. Acho que seria melhor... e mais justo... se o pub fosse transferido para nós os três.
Quando uma concha atraiu a sua atenção, Harry baixou-se, pegou nela, examinou- a.
- Não é assim que costumamos fazer. O pai dissera exatamente isso. Rony deixou escapar um suspiro. Ele afastou-se alguns passos. Voltou.
- Você é o mais parecido com ele.
- Não parece um elogio para qualquer dos dois no momento. - Satisfeito, Harry permaneceu parado, enquanto o irmão dava mais alguns passos.
- E não foi dito como um elogio. Vocês, os dois têm a cabeça dura como um tijolo sobre certas coisas. Não foi você quem acabou de falar na mudança como uma boa coisa? Se podemos mudar o pub , porque não podemos mudar a forma como é passado de uma geração para a outra?
- Distraído, Harry guardou a concha no bolso. - Porque algumas coisas podem mudar e outras não.
- E pode dizer-me quem decide? - Harry inclinou a cabeça.
- Nós decidimos. E você está em minoria neste caso, Rony. Portanto, não insista. O Potter’s é teu e passará para a criança que a Luna espera. O que não faz com que deixe de ser nosso, meu e da Gina, na sua essência.
- Estou falando de uma questão legal.
- Sei disso. Vai ser uma noite fresca e agradável - comentou Harry, considerando a questão encerrada. - Deverá haver bastante movimento.
- O que me diz dos teus filhos, quando os tiver? Não quer que tenham algum direito legal ao pub?
- Porque tem de ser tudo legal de repente?
- Porque tudo vai mudar, Harry. - A exasperação dominou Rony, levando-o a erguer os braços. - O teatro muda Ardmore, muda o Potter’s. E modifica a nós também.
- Nada precisa mudar, não da forma como te preocupa neste momento. Mais pessoas virão, por razões diferentes. - Harry tentava imaginar o que aconteceria. - Outro hotel pode ser construído, e talvez alguém se sinta disposto a abrir mais uma loja na praia. Mas o Potter’s continuará a servir bebidas e comida, a oferecer música, como sempre fez. Um de nós estará no balcão, servindo a cerveja. E os barcos continuarão a sair para o mar, as redes serão lançadas. A vida continua como deve ser, independentemente do que fizer.
- Ou do que não fizer?
- Alguns podem discordar nesse ponto. É o negócio que está pendendo para você, Rony. E acho melhor que seja em ti do que em mim. Com toda a sinceridade. Carregar o nome Potter já é suficiente para as minhas necessidades.
Harry virou-se para contemplar o pub, a madeira escura, as pedras redondas, o vidro com gravuras que faiscava com os reflexos do sol. - Tudo correu muito bem até agora, certo? Quando chegar o momento, os teus filhos, os meus e os de Gina encontrarão as suas soluções.
- Pode casar com uma mulher que pense de uma maneira diferente.
Harry pensou em Hermione. Sacudiu a cabeça.
- Se uma mulher não acreditasse o suficiente em mim e na minha família para confiar nesse acordo, eu não teria razão para casar com ela.
-Você não sabe o que é estar apaixonado além da razão. Eu sairia daqui, me afastaria de todos, se ela me pedisse ou quisesse.
- Ela não pediu e não quer. Você poderia desejar uma mulher assim, Rony, mas não perderia o coração por ela.
Rony fez menção de falar, mas deixou escapar um suspiro primeiro. - Tem uma resposta para tudo. E é um pouco irritante que cada uma pareça certa.
- Tenho pensado bastante sobre isso. Agora, quero a sua resposta para uma pergunta. Quando se ama uma mulher, além da razão, isso dói, ou proporciona prazer?
- As duas coisas... e, com muita frequência, ao mesmo tempo. - Harry balançou a cabeça, enquanto começavam a voltar. - Achei que poderia ser assim, mas queria ouvir uma confirmação.
Foi mesmo uma noite clara e agradável, com um movimento intenso, enquanto o vento soprava sobre o mar. A música atraiu os clientes. Alguns apenas escutavam, enquanto tomavam a sua cerveja; outros participavam no coro, e mais do que uns poucos descobriam que a música os atraía para se levantarem e dançarem.
Apesar do movimento, Harry encontrava sempre tempo para sair da cozinha de vez em quando. E numa dessas ocasiões, ao observar Hermione circular entre as mesas numa valsa animada, com o velho Sr. Riley, ele teve uma ideia.
- Pensei numa coisa, Rony. - Harry serviu pessoalmente, no balcão, dois pedidos de peixe e batata frita. Pegou num copo para servir-se de uma Harp, a fim de matar a sede. - Viu a Hermione dançando?
- Vi, sim. - Rony tirou a espuma da última camada de duas Guinness. - Mas não creio que ela vá fugir com o Sr. Riley para o condado de Sligo, por mais que prometa. - As mulheres nascem para enganar um homem. - Sem se apressar, Harry tomou um gole da cerveja, enquanto se divertia a observar Hermione nos braços magros do velho.
- Mas, observando os dois e outros que, de vez em quando, se levantam para dançar, pus- me a imaginar se não seria interessante, quando planejarmos o teatro, providenciar também um lugar para se dançar.
- Não é para isso que o palco serve?
- Não a dança profissional, é mas deste tipo. Como costumam ter numa cervejaria. Mas estou pensando numa coisa mais íntima.
- E pensou como uma possibilidade concreta. - Rony fez uma pausa, observando os rostos, considerando. - Podemos apresentar o assunto a Malfoy, quando discutirmos o projeto.
- Por falar nisso, a Hermione teve uma ideia, que pôs no papel. Ainda está lá na cozinha. Talvez queira dar uma olhada. Se gostar, pode ser que esteja interessado num projeto mais formal, que eu lhe pedi para ela preparar.
Intrigado, Rony desviou os olhos dos dançarinos, para fitar o irmão. – Você pediu a ela?
- Pedi, porque acho que a Hermione sabe o que queremos, e o que o Malfoy deve construir. É um problema para você?
- Não, não é absolutamente um problema. Está me fazendo pensar, Harry, que tinha razão quando disseste que os aspectos legais não mudam a essência. Eu gostaria muito de ver o que a nossa Hermione imaginou.
- Combinado. E, se gostar, pode enviar para a avaliação do Malfoy.
- Posso enviar, mas ele deve ter os seus arquitetos.
- Nesse caso, teremos de encontrar um meio de o persuadir a aceitar a nossa ideia, se for o que queremos. - Ainda observando Hermione, Harry acrescentou: - Não pode fazer mal nenhum participar nesse aspecto desde o início.
- Tem razão - concordou Rony. Pois muito bem que Hermione pudesse dançar, porem Rony precisava que ela voltasse para trás do balcão. Os seus olhos encontraram-se, e ele fez um sinal discreto. Mas, antes da resposta de Hermione, ele viu o olhar dela deslocar-se para Harry.
Embora fosse apenas um espectador, Rony pôde sentir o calor.
- Eu agradeceria se não distraísse a minha empregada quando estamos lotados.
- Só estou parado aqui, tomando a minha cerveja.
- Toma na cozinha, a menos que prefira que metade dos clientes fique observando vocês dois.
- Não me incomodaria. - Harry manteve o olhar por mais um momento, numa espécie de teste. - Mas ela não gostaria. Porque acabaria irritado, se falasse mais no assunto, Harry voltou para a cozinha.
Não era um problema manter-se ocupado até à hora de fechar. Ele calculou que precisaria de mais uma hora, pelo menos, para limpar tudo, antes de poder dar a noite por encerrada. Estava esfregando as panelas quando um membro da banda entrou.
Era uma linda loira chamada Eileen, com feições bem delineadas e cabelos curtos a realçá-la. Tinha uma voz firme e clara, além de uma disposição afetuosa.
Harry admirara a primeira e aproveitara a segunda, de uma maneira amigável, quando a banda fora contratada antes pelo Potter’s.
- Acho que nos saímos bem esta noite.
- É verdade. - Harry enxaguou a panela. Virou um pouco o corpo para ela, enquanto começava a lavar outra panela.
- Gostei do arranjo que vocês fizeram para Foggy Dew.
- Foi a primeira vez que tocamos essa música fora dos ensaios. - Ela foi-se encostar ao balcão, de lado, enquanto Harry continuava a trabalhar. - Ando ensaiando alguns outros números. Não me importaria de apresentá-los para você. - Ela desceu com as pontas dos dedos pelo braço de Harry. - Não preciso voltar esta noite. Não gostaria de ficar comigo, como fizemos na última vez?
Na última vez, haviam desfrutado a música e um ao outro durante metade da noite. A mulher, Harry podia recordar, não era nem um pouco inibida com os seus talentos. A lembrança o fez sorrir, mesmo enquanto procurava uma maneira polida de recusar.
A única coisa que Hermione viu - além do vermelho - quando entrou na cozinha carregando a última bandeja de copos vazios foi a forma como Harry baixara a cabeça, enquanto a loura punha a mão no seu braço.
Ela avançou, pôs a bandeja no balcão, ao lado da pia, batendo com força suficiente para fazer os copos tremerem. - Quer alguma coisa daqui?
Eileen percebeu no mesmo instante a ameaça naqueles olhos ardentes de ciúme, o significado que havia por trás.
- Já não. - Num gesto jovial, ela apertou o braço de Harry. - Acho melhor regressar. Até outro dia, Harry.
- Ahm... - Ele tinha uma fracção de segundo para tomar uma decisão. Seguiu o instinto, assumindo uma expressão culpada e contrafeita.
- Bem... - É sempre um prazer vir até ao Potter’s - acrescentou Eileen, enquanto passava pela porta.
Ela tratou de reprimir a gargalhada, enquanto especulava como a pequena mulher de cabelos castanho-claro faria Harry sofrer.
- É a última bandeja? Harry voltou a esfregar a panela, como se tivesse dedicado a sua vida a esse único propósito.
- É, sim. Pode me dizer qual é o problema?
- Que problema?
- O que há entre você e aquela cantora de peitos grandes e cabelos de homem.
- Ah, a Eileen... - Harry limpou a garganta, num gesto deliberado, enquanto largava a panela e começava a lavar os copos. - Ela veio apenas dizer boa noite.
- Hum... – Hermione beliscou uma as costelas dele, provocando um sobressalto. - Se ela chegasse mais perto, ficaria dentro da sua pele.
- Ora, ela e eu somos apenas amigos.
- Quero que te lembre de uma coisa. Enquanto nós dois estivermos nos divertindo entre os lençóis, trata de te manter à distância desse tipo de amizade.
Mesmo sentindo uma imensa satisfação, Harry empertigou-se, lentamente. - Está me acusando de alguma coisa, Hermione? - Ele conseguiu encontrar a mistura certa entre magoado e insultado. - De abordar outra mulher, enquanto estou contigo? Não sabia que tinha tão pouca consideração por mim.
- Eu vi o que vi. Ele estudou-a por um momento, depois começou a limpar os balcões, com uma expressão insultada. Seria interessante, pensou Harry, verificar até que ponto ela se empenharia para mudar o seu ânimo.
- Ela estava te tocando.
- Mas eu não estava tocando nela, não é?
- Não mas... Hermione parou de falar, irritada. Cruzou os braços. Descruzou-os. Enfiou as mãos nos bolsos. Tivera vontade de cravar as unhas no rosto da loira. Ainda tinha, admitiu para si mesma. O que não era o seu estilo. Não que costumasse esquivar-se de uma briga, mas nunca tomava a iniciativa de começá-la. E muito menos por causa de um homem. - Mas estava sorrindo para ela.
- Terei o cuidado de não sorrir para ninguém, a menos que você aprove antes.
- Pareciam muito íntimos um com o outro. – Hermione ainda tinha as mãos fechadas nos bolsos. Se não se sentisse tão tola, poderia ter cedido ao impulso de lhe bater. - Pediço desculpas, se tiver entendido mal.
- Está bem. - Harry deixou a conversa por aí. Foi até à porta, para desejar boa noite aos outros.
Quando se virou, Hermione parecia tão frustrada e infeliz, que ele quase afrouxou. Mas um homem tinha de terminar o que começara. Falou num tom frio e incisivo, o suficiente para que ela soubesse que ainda precisava de se empenhar um pouco para fazerem as pazes:
- Prefere passar a noite aqui com a Gina?
- Claro que não.
- Então vamos embora. Ele foi abrir a porta dos fundos e esperou. Hermione pegou o casaco e o boné, depois saiu para a noite fria.
Nenhum dos dois falou ao entrarem no carro.
Hermione abriu a janela do seu lado, enquanto deixavam a aldeia e percorriam a estrada até ao chalé. Disse a si mesma que tivera uma reação perfeitamente normal. E mudando de posição no banco, afirmou isso a Harry. Como ele não respondia, ela teve de fazer um esforço para não se contorcer.
- Podemos concordar que é um território novo para nós os dois?
- Era o rumo que ele esperava, pensou Harry. Lançou um olhar rápido e sereno para Hermione, depois acenou com a cabeça. - Você queria sexo. É o que temos. Pelo canto do olho, ele percebeu que Hermione se encolhia. Perfeito.
- É verdade, é verdade... - murmurou ela, quando Harry parou à frente do chalé.
Começava a sentir um pouco de enjoo. - Mas eu... acontece apenas que eu... – Hermione soltou um grunhido e apressou-se em sair do carro para o acompanhar.
- Mas que droga! Podia pelo menos me ouvir!
- Estou te ouvindo. Quer um chá? Ele fez a pergunta com uma polidez insidiosa, assim que entraram.
- Não, não quero um chá. E tira esse ar de presunçoso da cara por um minuto. Se não teve o bom senso de perceber que aquela mulher queria saltar em cima de você, é tão cego como seis morcegos e duas vezes mais tapado.
- Eu gostaria que fosse mais objetiva. - Harry começou a subir as escadas.
- Ela é muito bonita.
- E você também é. O que isso tem a ver com a história?
Enquanto a boca se escancarava, Hermione demorou um longo momento para mexer os pés. Em todos os anos em que o conhecia, Harry nunca lhe dissera que era bonita. A declaração agora a deixou desconcertada. Podia sentir a mente a confundir-se, enquanto tentava recuperar o controle.
- Você não pensa assim de mim, e eu não me incomodo. Não é o que estou tentando conseguir.
Harry daria um jeito de voltar àquele assunto. Por enquanto, limitou-se a pôr em cima da cômoda o que tinha nos bolsos, enquanto perguntava:
- E o que está tentando conseguir, Hermione?
- Sei que quando começamos... quando eu comecei... nunca disse o que esperava. - Ela passou a mão pelos cabelos, desejando ser mais hábil com as palavras. - O que estou querendo dizer é que, enquanto permanecermos juntos desta maneira, até que um dos dois, ou ambos decidam que o relacionamento se esgotou, eu não consideraria a possibilidade de pensar em outro homem.
Harry sentou-se no baú ao pé da cama, para tirar os sapatos.
- Está querendo dizer que essa área do nosso relacionamento deve ser exclusiva? Que nenhum dos dois deve encontrar-se com outra pessoa? É isso?
- É o que eu sinto.
Seriam exclusivos um do outro. A ideia era de Hermione... mais do que isso. Uma exigência. Um primeiro passo vigoroso, pensou Harry, no rumo em que queria que ela o conduzisse. Ele demorou um pouco a responder, deixando-a acreditar que considerava a resposta.
- É o que eu também sinto. Mas...
- Mas o quê?
- Como podemos saber, e quem decide quando isso muda, Hermione?
- Não tenho uma resposta para essa pergunta. Nunca imaginei que seria tão complicado. Não sabia que era, até que vi aquela cantora se atirando para você. Não gostei.
- Enquanto eu estiver contigo, não tocarei em outra mulher. Tem que confiar em mim.
- Eu posso confiar em você, Harry. - Mais relaxada agora, ela deu um passo à frente. - O meu problema é com loiras de peitos grandes.
- Recentemente, o meu gosto virou para morenas compactas.
- Porque se sentia aliviada ao constatar que o frio desaparecera dos olhos de Harry, ela riu. - Compacta coisa nenhuma! Fizemos as pazes?
- É um começo. - Ele bateu levemente no espaço ao seu lado. - Vamos tirar os seus sapatos e faremos as pazes por mais algum tempo. Feliz em atender ao pedido, ela sentou-se e desapertou os cordões.
- Magoei os seus sentimentos. Peço desculpa por isso.
- Não me importo de discutir contigo, Mione. - Harry passou a mão pelos cabelos dela. - Mas não gosto que imagine que posso pensar em outra mulher dessa forma enquanto estiver contigo.
- Então não vou pensar. - Depois de tirar os sapatos, ela endireitou-se. Os seus olhos tornaram-se cautelosos no instante em que percebeu que ele a observava.
- O que foi?
- Gosto de olhar para você.
- Não há nada de novo para ver aqui.
- Talvez seja parte da atração. - Harry emoldurou o rosto dela entre as mãos. Empurrou os cabelos para trás com os dedos. - Conheço este rosto tão bem como o meu - murmurou ele. - Posso projetá-lo na minha mente, acompanhar a curva da face até ao queixo. - Ele deslizou os lábios pela curva. - Conheço o formato e a cor dos olhos, todos os ânimos que eles exibem.
Naquele momento, ele podia constatar, o ânimo era de surpresa, um pouco apreensivo. - A boca... - Harry roçou os lábios levemente, recuando quando ela entreabriu a boca. - As curvas e depressões... É um rosto adorável. Não me canso de admirá-lo, mesmo quando não está presente.
- É um estranho comentário... Ela parou de falar quando a boca de Harry voltou a encontrar-se com a sua, ali perdurando por um longo momento.
- E há todo o resto de ti. - Ele desceu as mãos, com um ligeiro contato das pontas dos dedos. Pegou nas mãos de Hermione antes que ela pudesse tirar a camiseta.
- Não... me deixa fazer isso... - Harry levantou-a. Puxou a camiseta, lentamente. - Sinto um grande prazer em te descobrir, remover as camadas de roupa, até alcançar o seu corpo maravilhoso. Fico louco com a forma como você o esconde.
Hermione poderia ter ofegado de espanto, se naquele momento não estivesse tão ocupada respirando.
-É sério?
- Estou sempre pensando que sei o que há por baixo de tudo. - Ele desbotou a calça jeans, largas, de Hermione. - E que já tive tudo por baixo de mim.
- A calça caiu, formando uma poça em torno dos seus pés.
- Dá um passo para o lado querida... - murmurou ele, puxando a bainha da própria camisa.
- Tenho o corpo de um menino de quatorze anos.
- Como alguém que já foi um menino de quatorze anos... - Ele puxou o fecho do sutiã branco de Hermione e contemplou-a de alto a baixo. - Posso garantir-te que não é o caso. Pele macia e ombros fortes. - Harry inclinou a cabeça, encostando os lábios num ombro, depois no outro. - E aqui... - Lentamente, as mãos subiram da cintura até aos seios, levando-a a prender a respiração, soltá-la num suspiro, estremecer toda. - Macios, firmes e sensíveis.
Hermione sentia-se à deriva agora, flutuando sob o impulso maravilhoso daquelas mãos. Soltou um grito sufocado, meio em surpresa, meio em divertimento, quando ele a levantou e a pôs em cima de um baú. Mas o humor que faiscava nos seus olhos turvou-se quando Harry fechou a boca sobre um seio, pegando no mamilo entre os dentes, com extrema delicadeza. - Oh, céus...
- Quero te provar, quero que sinta. - Ele passou um dedo pela peça de algodão que ainda a cobria, a boca descendo. - E quero que grite o meu nome enquanto eu te provo.
Um dedo esgueirou-se por baixo do algodão, até o lugar em que ela já estava quente e úmida. Hermione se arqueou contra ele, num movimento brusco, enquanto os seus dedos apertavam os ombros dele. Ele continuou tocando-a, provando-a, sentindo o seu gosto. O prazer inundou-a tão depressa que quase acarretou o pânico. Foi tão intenso que se perguntou se o corpo seria capaz de sobreviver. E foi o nome dele que Hermione gritou. Estava caindo ou voando? Sentiu que as pernas cediam, como se os ossos derretessem. Tentou concentrar-se quando Harry a levantou e levou para a cama.
- A luz... Ele estendeu-a na cama. Ajoelhou-se ao lado.
- A luz ficará acesa, para podermos nos ver com toda a nitidez desta vez. - Harry tirou a sua calça jeans, observando-a. - Pode imaginar como é excitante saber que te posso ter, muitas e muitas vezes? Que tem tudo isso para me oferecer?
Ela estendeu os braços para puxá-lo. - Quero-te dentro de mim.
- E eu quero-te fraca primeiro... - A boca de Harry começou a saborear, as mãos vaguearam. - E a balbuciar o meu nome.
- Seu desgraçado... - Ela falou num gemido, o que o deixou bastante satisfeito. - Tenta para ver se é capaz.
Harry achou que era um desafio irresistível, empenhando-se em responder. As mãos eram leves como as asas de uma fada num momento, firmes como aço no seguinte. E cada carícia era uma emoção separada. Harry tinha um jeito que ela nunca imaginara quando o fantasiara como amante.
Os homens que conhecera antes não lhe haviam proporcionado aquilo, nem a haviam seduzido para oferecer tanto. Havia liberdade ali, com Harry. Uma estranha mistura de surpresa sensual com um reconhecimento fácil. E confiança. Uma confiança absoluta. Hermione se abriu para ele, de bom grado. Talvez, pela habilidade de Harry, ela fosse incapaz de reagir de outra forma. Mas estava disposta a aceitar tudo o que ele oferecia, e a reagir da mesma forma. E, com os choques de sensações a espalharem-se pelo seu corpo, ela cedeu.
Era uma rendição que não tivera com mais ninguém. Como se sentisse isso, ele possuiu-a de novo, desta vez devagar, de uma maneira quase torturante, deixando o seu corpo como uma massa em carne viva, os nervos a tremer. Ela tinha a pele úmida e escorregadia. O calor quase fizera o seu coração parar com a necessidade.
Movia-se contra ele, por baixo dele, num ritmo feminino, suave e sinuoso, que o deixava ansioso pela união total. À luz do abajur, os olhos de Harry contraíram- se, sempre focalizados no rosto dela, enquanto mergulhava para atender à sua própria necessidade, ao mesmo tempo em que a fazia tremer, à beira do orgasmo.
E, tremendo toda, Hermione balbuciou o seu nome. –Harry... - Ele penetrou-a mais fundo, com mais vigor do que tencionava. Mas ela arqueou-se para encontrá-lo, aceita-lo, acompanhando o ritmo desesperado de carne contra carne, coração trovejando contra coração. Na exultação do prazer, Harry ergueu os quadris, para ir mais fundo, levando ambos ao delírio.
- Ninguém além de você, Mione. - A pulsação no seu sangue era como batidas de tambor, primitiva, constante. - Diz para mim. Diz a mesma coisa.
- Ninguém além de você, Harry. E no instante em que ela falou, o seu mundo explodiu. Dominado pelo amor, Harry esvaziou-se nela.
(Fim do capítulo).