O paraíso era uma ilha deserta, no final das contas, decidiu Hermione várias noites depois, deitada nos braços de Harry. Ele tinha providenciado uma cama, espalhando samambaias na areia e cobrindo-as com toalhas. Cobertas enroladas transformaram-seem travesseiros. Tinhaaté mesmo estendido uma manta da cabine até a asa do avião para prover abrigo se chovesse durante a noite.
Choveu à tarde, uma chuva de verão de uma hora que foi embora junto com a nuvem escura. Tiraram as roupas ensopadas e ficaram nus. Hermione nunca tinha feito nada semelhante antes e estava atônita com a sensação de liberdade total. Duvidava esquecer-se um dia da experiência ou das carícias da chuva na pele desnuda, enquanto vivesse.
No momento, entretanto, não havia previsão de chuva. Uma lua crescente brilhava por cima da água, colorindo de prata as ocasionais nuvens no céu. O mar batia devagar na praia solitária. Era uma noite calma e silenciosa.
Eles prepararam o jantar — carne do isopor e batatas — usando a madeira recolhida por Hermione para acender uma fogueira. A chama há tempos se apagara, deixando um brilho alaranjado na areia não muito distante de onde estavam deitados. Ela estava de lado, o rosto recostado no peito de Harry e uma perna entre as dele, enquanto ele a mantinha colada a ele com um só braço. Embora ela vestisse uma das camisas dele e ele usasse shorts, a lembrança da pele contra a pele, como acontecera nos três dias desde que tinham pousado na praia, os mantinha aquecidos.
Ocorreu a Hermione que nunca se sentira tão em paz ou feliz, o que era especialmente notável já que não havia sinal de um transatlântico, de um veleiro e muito menos de um avião de resgate. Deveria estar preocupada. Mas não estava. Era cedo demais para se preocupar. Estava passando um tempo maravilhoso com Harry.
— Em que você está pensando? — ele perguntou, a boca colada em seu cabelo.
—Em como Rhode Islandparece tão distante... Não apenas em termos geográficos, mas emocionais. Como se fosse outro mundo. Como se eu tivesse entrado numa máquina do tempo.
— Deve ser conseqüência do trauma do pouso.
— O pouso não foi assim tão ruim — disse, percebendo um tom de perturbação na voz dele. Sim, ela tinha ficado chateada. Pensando melhor, entretanto, não houve um momento em que tivesse realmente acreditado no risco de um acidente. Harry estava no controle todo o tempo. — Acho que há uma enorme diferença entre este lugar e Rhode Island. Aqui não há a sensação de tempo. A vida é lenta, sem pressa. Fazemos o que queremos, quando queremos. Lá a vida obedece à agenda.
— Conte-me mais sobre essa vida, Hermione. Sobre como são os dias.
Ela moveu o rosto contra seu peito, adorando a sensação do pêlo, adorando a firmeza da carne, adorando o jeito com que ele fazia perguntas. Sendo um aventureiro, era naturalmente curioso, mas nunca pensara que a curiosidade se estenderia a detalhes de sua vida. Ainda assim, essa não era a primeira vez que ele fazia perguntas.
— Meu dia é muito organizado — começou. — Minha secretária prepara, todo dia, minha agenda antes de deixar o escritório. Assim, ao chegar na manhã seguinte, saberei exatamente o que fazer. Algumas vezes tenho relatórios para ler. Em geral, estou ocupada com reuniões e ligações.
— Onde são as reuniões?
— Às vezes na minha sala. Outras na sala de reuniões. Algumasem restaurantes. Muitasvezes em restaurantes — emendou indiferente. — Homens de negócios adoram uma desculpa para comer em alto estilo e mandar a conta para a empresa.
— Homens de negócios. Sei... E as mulheres de negócios?
— Nós, não. Estamos sempre fazendo dieta. Ficaríamos felizes em ter reuniões em nossos escritórios. É o lugar mais seguro.
— Por causa da comida?
— Por causa dos homens. Num escritório, a linha é bem delimitada. Eu sento em minha mesa e a outra pessoa senta do outro lado. Num restaurante, estas linhas se tornam indistintas. Sinto-me mais ameaçada com homens em restaurantes.
— Isso porque você é solteira.
— Imagino que sim.
— Isso ainda me surpreende. Não posso acreditar que nenhum cara incrível tenha aparecido e deixado você nas nuvens.
Ela deu uma risada.
— Os caras incríveis não estão sentados na cidade consumindo refeições por conta da empresa. Estão no Himalaia procurando a arca de Noé ou refazendo a expedição de Peary ao Pólo ou explorando o Amazonas. — Ela lhe deu um beliscão, provocando-o.
Ele não riu. Sério, perguntou:
— O que torna esses caras incríveis?
— São ativistas. Não conformistas. São interessantes. — Ela suspirou, sabendo o que tinha a dizer a seguir. — Não se prendem ao convencional, o que os torna ainda mais atraentes. Mas ir atrás deles é como tentar pegar o vento. Pará-los seria como prender um pássaro selvagem. — Exatamente como se sentia. Estava loucamente apaixonada por Harry, mas nunca iria prendê-lo, muito menos tentar. Sabia como ele se ressentia com os pais. Recusava-se a cometer os mesmos erros. As aventuras de Harry eram muito importantes para ele; não havia chance de vir a abrir mão delas.
Além disso, só porque estava apaixonadíssima por ele, não significava que ele sentisse nada além de atração e afeição por ela.
Forçou um suspiro.
— De qualquer forma, eu disse a você desde o início não estar à procura de marido. Não preciso de um. Tenho minha vida sob controle.
Ele ficou quieto por um minuto.
— Me pergunto como você vai fazer com o bebê Jogamos nossas regras por água abaixo.
— Eu sei. — Eles vinham fazendo amor quando e na posição que queriam, sem pensar no melhor para a concepção. Mas Hermione sabia que isso não importava. Nem mesmo trouxera o termômetro. Quando Harry lhe perguntou, ela respondera — com vergonha — saber que fariam amor com freqüência enquanto estivessem juntos. Então, saber o dia exato em que estava ovulando não faria diferença. Na verdade, não quis que Harry visse que a temperatura não tinha baixado nada aquele mês. Pelos seus cálculos, estava grávida de quatro semanas.
— Você está preocupada em não engravidar?
— Vai acontecer.
Ele ficou novamente quieto por um tempo antes de perguntar, com uma espécie de curiosidade relutante:
— Você pensa muito sobre o bebê? Quero dizer, não sobre ficar grávida, mas sobre o bebê em si?
Ela ficou surpresa e satisfeita por ele ter perguntado.
— Um bocado.
— Você quer um menino ou uma menina?
Ela dobrou a cabeça para encontrar-lhe os olhos.
— Deveria dizer que não me importo desde que o bebê seja saudável e uma grande parte de mim realmente pensa assim.
— E a outra parte?
— Quer uma menina.
— Por quê?
Ela voltou o rosto para seu peito. Devagar, para que ele não visse nisso uma queixa, uma crítica ou, pior ainda, alguma menção sutil, comentou:
— Imagino que seria mais difícil criar um menino sem uma figura paterna por perto. Não impossível. Apenas mais difícil. Por outro lado, há o companheirismo. Há uma mútua identidade com uma criança do mesmo sexo.
— Sempre há competição. Caroline e minha mãe costumavam enfrentar isso. Você e sua mãe não discutiam?
— Algumas vezes. Mas não muito. Suponho que me mimava por eu ser filha única. E porque passavam muito tempo ausentes.
— Para onde iam?
— Todos os lugares. Viajavam a negócios e sempre que podiam emendavam alguns dias extras. Diziam que eram segundas luas-de-mel. — Ela sorriu. — Devem ter tido uma centena de segundas luas-de-mel ao longo dos anos. Eram muito apaixonados um pelo outro. E também eram muito amigos. — Seu sorriso desapareceu e tornou-se pensativa. — Suponho que foi melhor morrerem juntos. Se um ficasse sem o outro, a dor seria intolerável.
— É raro encontrar duas pessoas assim tão apaixonadas.
— Mmm.
— Você já desejou algo parecido?
— Tudo que quero é um bebê.
— Agora. Mas e em outras ocasiões? Você nunca sonhou em encontrar esse tipo de amor?
Apesar de Harry ser naturalmente curioso, Hermione ainda se surpreendeu por ele falar sobre amor. A maioria dos homens não o fazia. A maioria dos homens se sentia desconfortável discutindo o assunto. Usavam o termo normalmente na cama, antes ou depois do sexo, mas quando uma mulher perguntava o que queriam dizer, se fechavam como moluscos. Harry, ao contrário, buscava a discussão. Sentiu que lhe devia uma resposta honesta.
— Já sonhei em encontrar o amor — disse tranqüila. — Costumava sonhar todo o tempo. Mas como não veio, disse a mim mesma que podia viver sem ele.
— E pode?
— Tenho que viver, não tenho? — disse com uma risada que pretendia indiferente, mas saiu seca.
Harry não respondeu. Quando finalmente falou, fez outra pergunta:
— Acha que vai conseguir conviver com isso pelo resto da vida?
— Se eu tiver um filho...
Ele estava cético.
— Um bebê será o suficiente?
— Sim.
— E quando o bebê crescer e se mudar?
Eles tinham tocado no assunto em uma das primeiras conversas, em Rhode Island, quando Hermione tentava explicar porque queria tanto um bebê. Desde então, tinha se apaixonado por Harry. Ele a deixaria também, o que tornava a pergunta e a resposta ainda mais apropriadas.
— Quando o bebê, criança, adulto, se mudar, eu ainda terei meu trabalho, embora nunca vá deixar de ser mãe. Existe um ditado que diz que mãe é mãe pelo resto da vida. Certamente amarei sempre essa criança. Sempre me sentirei responsável por ela. Com um pouco de sorte, nós sempre seremos próximos.
— Você não vai querer outra?
Ela respirou fundo.
— Ah! Uma grávida sempre se faz se essa pergunta.
— Você vai? Se você encontrasse o amor de sua vida e não precisasse de um doador de esperma, você teria mais de uma criança?
Sem hesitar, ela respondeu.
— Teria. Teria pelo menos duas ou três. Se eu encontrasse o amor de minha vida, também gostaria de viajar com ele, mas não ia querer que um filho meu sofresse de solidão como eu sofri. Não estou criticando meus pais. Eles sempre me deixaram bem cuidada. Mas eu sentia saudade deles quando não estavam por perto. Se eu tivesse tido um irmão ou irmã, talvez não tivesse sido tão doloroso. — Ela suspirou. — Mas isso realmente não vem ao caso. Ficarei contente com uma criança apenas. Vamos fazer companhia um ao outro.
Vários dias depois, Harry a surpreendeu ao voltar a tocar no assunto do bebê. Estavam sentados na areia molhada à beira da água, brincando com conchinhas e algas, desenhando e rabiscando na areia. Divertiam-se a cada onda apagando o que tinham feito e formando algo ainda mais interessante e atraente do que eles tinham começado. E claro que voltava a mudar com a nova onda, e diminuía a cada onda sucessiva, mas isso não importava. Eles simplesmente começavam tudo de novo.
— Quando você pensa sobre o bebê — perguntou — pensa em fazer coisas como essa?
Ela não estava pensando no bebê naquela hora. Não estava nem mesmo pensando sobre Harry, embora ele fosse seu parceiro na arte. Ela estava envolvida na atividade, sentindo-se despreocupada e satisfeita. Brincaria desse jeito com o bebê?
— Adoraria. Crianças ficam fascinadas com as alterações na areia. — Ela riu quando uma nova onda bateu. — Eu fico fascinada. Olhe. — Ela dobrou um joelho para deixar a onda passar e viu um novo desenho emergindo na areia.
— Você mora na beira do mar. Vê isso todo o tempo.
— Mas você conhece nossa areia. É diferente. Mais grossa. Além disso, acho que nunca sentei assim na minha cidade. Nunca tenho tempo. Quando o bebê chegar, vai ser diferente. — Presumindo que conseguiria voltar para Rhode Island. O fato de que nem mesmo um barquinho a vela tivesse passado a preocupava de tempos em tempos. Mas Harry dissera que seriam resgatados, então eles iriam ser resgatados. Se ele não estava preocupado, ela também não ficaria. Era bem mais divertido colocar novas conchas em seu desenho na areia.
Estranhamente, ele parecia preocupado com o bebê.
— Vai ficar nervosa criando uma criança pequena tão perto da água?
— Você foi criado perto da água. E eu também. Nenhum de nós se afogou.
— Cheguei bem perto mais de uma vez. Meus pais nunca me deixaram esquecer. Dizem que deviam ter adivinhado o tipo de adulto que eu seria quando continuava a testar a sorte daquele jeito. E se você tiver um menininho como eu?
Ela sorriu para ele.
— Eu adoraria ter um menininho como você.
— Você ficaria cheia de cabelos brancos.
— Talvez não. Talvez ele me mantivesse jovem.
— Você é jovem. Muito jovem.
— Só seis anos mais nova do que você.
— Nesse exato momento, você parece ter uns 12 anos. — O olhar tocou-lhe os seios. — 14. — Ele franziu a teste e levantou-se. — Você está ficando vermelha. Vou pegar o protetor. — Caminhou para o avião.
Hermione o seguiu com o olhar por um minuto. Estava contente por sua sunga não ser minúscula como a usada em Creta anos atrás. Sungas minúsculas ficavam bem em adolescentes e em homens na faixa dos 20, mas o biótipo de Harry exigia algo mais clássico. Como a sunga que usava. Era um short ajustado que lhe realçava o corpo.
Caramba, ele estava certo. Os preparativos que ela fizera para a viagem — manicure e pedicure, limpeza de pele, corte de cabelo — foram totalmente desnecessários. Se não fosse por seus seios, ela ainda teria aparência mais jovem, com certeza, e não precisava de um espelho para comprovar. Não usava maquiagem nem jóias. Na cabeça, para proteger os olhos do sol, usava um boné de beisebol de Harry com o rabo de cavalo saindo pelo buraco. Seu biquíni — do qual usava apenas a parte de baixo — era do departamento infantil e por que não? Ela estava aproveitando o tempo perdido. Quando adolescente, era muito gorducha para usar qualquer coisa pequena. Por um longo tempo depois de ter emagrecido, continuou a se sentir gorda, imaginando dobras que as amigas garantiam não ter. Gradualmente, passou a sentir-se confortável em seus ternos bem cortados. Apenas nos últimos anos usou biquínis e só diante de seleta companhia.
Harry era a companhia mais seleta que conseguira. Ele a tinha visto sem nada tantas vezes que nem poderia contá-las. Ele não lhe lançava olhares maliciosos. Simplesmente gostava de olhá-la. Ela tinha a impressão de que ele gostava tanto de ver-lhe o corpo quanto de ver como ela se sentia confiante em exibir-se sem roupa.
Ela tinha percorrido um longo caminho, pensou com um sorriso e o viu retornar pela areia. Ele agachou-se e ela ficou entre seus joelhos. Colocou o protetor em seus ombros, fechou a tampa e começou a espalhá-lo por sua pele.
— Você cuida muito bem de mim — disse sentindo-se mimada.
— Queimadura de sol não é nada divertido.
— Pensei que estivesse ficando morena.
— Está. Debaixo do vermelho.
Suas mãos hábeis a massageavam, espalhando-lhe o protetor nos ombros, costas e peito. Ele demorou bastante em seus seios para deixá-la arrepiada. Mostrava-se ávido, e não importava se era meia-noite ou meio-dia. Ela tinha se tornado positivamente devassa.
Ele esfregou o braço embaixo dos seios, levantando-os ligeiramente.
— Isso sempre me surpreende. Só de tocar neles sabia que eram firmes, mas não tinha imaginado que fossem tão grandes.
Eles estavam maiores do que há um mês e Hermione sabia o motivo. Entretanto, a barriga continuava lisinha, o que significava que Harry não adivinharia seu estado. Quando ela não ficasse menstruada em dez dias, ele saberia, mas tudo bem. Seria a melhor maneira de descobrir. Afinal, não saberia se o bebê chegasse um mês adiantado. Não estaria por perto.
— Quando você me toca — disse meiga — eu me excito. Quando você está perto, eu me excito.
Ele pressionou a boca em sua nuca. As palmas da mão moveram-se em círculos, uma delas nas costas, a outra na barriga. Depois de um minuto, ele soltou um suspiro trêmulo.
— Meu Deus.
Algo no tom da voz a assustou, superando a excitação.
— Alguma coisa errada?
Os olhos verdes faiscaram.
— Eu quero você. Eu sempre quero você. Já deveria ter superado isso.
Quando a confissão saiu, o coração de Hermione parou, pois demonstrava perturbação e isso não era algo que normalmente associasse a Harry. Ele sempre era forte e seguro. Sua perturbação era desconcertante.
Mas as palavras fizeram seu coração cantar de alegria.
Ela queria lhe dizer que o amava tanto que podia sentir o gosto das palavras na boca. Mas não podia dizer nada. Não ousava. Ele não queria ouvir. Chegaria o momento — ela se permitiu pensar por um breve minuto antes de afastar o pensamento da mente — em que ele desejaria essas palavras da forma como lhe desejava o corpo. Até então, ela só podia fazer a segunda melhor coisa, que era amá-lo sem que ele soubesse, com a boca, as mãos e o corpo que ele treinara tão bem.
Não apareceu um avião de resgate. Não apareceu um transatlântico, nem um barco a vela, nem um de turismo. Estavam na ilha há dez dias e mesmo Harry começava a demonstrar dúvida. Ele tentou esconder, mas ela percebia o olhar preocupado quando ele se sentava na praia olhando o mar, com as pernas dobradas e os cotovelos nos joelhos. Ela tinha parado de perguntar, em parte porque ele nunca admitiria a inquietação, em parte por não querer que ele admitisse — porque estava no paraíso.
Hermione já tinha tirado férias antes, mas nunca como essas. Nenhum dos dois usava relógio. Acordavam de manhã quando estavam descansados e iam dormir à noite quando estavam cansados. Os dias eram preenchidos caminhando, nadando e pegando sol. Liam bastante: tanto Harry quanto Hermione tinham trazido livros e os gostos eram parecidos o suficiente para trocarem os favoritos. Ocasionalmente escutavam o toca-fitas com bateria, embora ambos concordassem que a música natural da ilha era preferível.
Quanto às necessidades, estavam bem melhor do que ela jamais esperou. Tinham se alimentado primeiro com a comida fresca trazida por Harry. Agora comiam enlatados e comida congelada, cuja presença a surpreendera. Harry lhe contou que comia comida congelada nas viagens e tinha um fornecedor fantástico em Nova York, motivo pelo qual trouxera um suprimento com ele. Ela pensou na feliz coincidência. As comidas congeladas, acondicionadas em quentinhas, eram comidas na própria embalagem. Ele tinha o suficiente para um mês de alimentação regular e não estavam nem mesmo comendo-as regularmente. Uma vez por dia, Harry mergulhava na extremidade da ilha, cercada de recifes e rasa, e pescava. Limpava e cozinhava os peixes. Hermione nunca havia provado nada tão fresco nem tão gostoso. Sabia que parte se devia ao ambiente da ilha. Sentiu-se parte do meio ambiente, uma criatura a mais lutando pela sobrevivência.
Não. Lutando não. Harry estava certo. Eles tinham comida e abrigo. Não corriam perigo. Na verdade, deixando de lado a preocupação quanto ao resgate, ela estava vivenciando o melhor período de sua vida. Agora conhecia a ilha e apreciava a beleza até mesmo dos recantos a princípio considerados sem graça. Sem contar aqueles considerados lindos desde o início.
A cachoeira era um desses lugares. Ficava localizada no ponto mais alto da ilha. Tinham-na descoberto no segundo dia, quando seguiram o riacho até o topo onde brotava através de uma grande formação de rochas. E era o mais próximo do Éden que Hermione jamais imaginara. As árvores eram altas e verdes, o piso atapetado com musgo. As rochas eram lisas, algumas altas, algumas lisas e a água que jorrava do ponto mais alto era mais suave e refrescante do que qualquer chuveiro onde se banhara. Eles criaram o hábito de subir a colina ao final do dia, não apenas para tirarem o sal e a areia dos corpos, mas para ver o pôr-do-sol no oceano.
Nesse dia, Hermione tinha curtido em especial a cortina de água que caía no cabelo, descendo pelos ombros e corpo. Acordara tonta naquela manhã e conforme o dia progrediu, o calor a incomodou mais do que de costume. Agora, deixando o sabonete escorrer, sentia-se renovada.
Harry tinha terminado o banho. Era mais rápido do que ela, mesmo nos dias em que se sentia melhor, mas nunca a apressava. Pelo contrário: quando terminava, estirava-se na maior e mais lisa das pedras e a admirava. Ao terminar, enxugou o rosto com a toalha enquanto ele torceu seu cabelo para retirar o excesso de água.
— Se você tiver uma filha, ela vai ter o cabelo assim. Você já pensou nisso? Já imaginou como nossa criança vai ser?
Hermione não respondeu imediatamente. A palavra "nossa" reverberava em sua mente. Ele nunca a usara antes, nem quando fizera outras perguntas. E como perguntava! Para um homem que proclamava não querer saber de crianças, Harry tinha desenvolvido um surpreendente interesse na de Hermione. Mas nunca dissera "nossa" antes.
Era como a expressão "fazer sexo", meditou. Com o tempo, tinha se tornado "fazer amor" e fazia sentido, já que ela estava apaixonada. Mas Harry fora o primeiro a usar o termo e ele não estava apaixonado — e se estivesse era um amor que vinha em segundo lugar, depois do trabalho — o verdadeiro amor de sua vida.
Ela o imaginou partindo em novembro para explorar o galeão espanhol. Depois o imaginou partindo no ano seguinte em outra exploração. Nessa altura, o bebê teria nascido. Ela o imaginou também e sentiu uma onda de serenidade.
— Cachos — ela disse. — Eu tinha cachos quando era pequena. Menino ou menina terá cachos. E cabelo escuro. Nós dois temos. Assim como a pele clara.
— Eu não tenho a pele assim.
— Tem sim.
— Aonde?
Ela virou a cabeça e o olhou maliciosa.
— Na virilha.
— Você é observadora...
— Hum-hum. — Na verdade "observadora" não era o termo adequado. Suspeitava conhecer melhor o corpo de Harry do que o seu. Podia certamente vê-lo mais facilmente, em particular quando ele se esticava e a deixava olhá-lo, o que fazia quase sempre. A única regra era ela não parar de olhar. Ela não a tinha quebrado uma única vez.
Agora ela franziu a testa.
— Se for uma menina, vai ser maravilhosa. Os caras vão correr atrás dela. Você vai precisar tomar cuidado, Hermione. Eu sei o que os caras fazem. Eu era uma peste quando criança.
— Quando era criança? — perguntou alegre.
Se ele ouviu, fingiu não ter ouvido.
— Todo mundo fala sobre sexo seguro, mas os jovens ainda se julgam imortais.
Hermione não podia pensar tão à frente, quando tinha tanto a enfrentar primeiro. Ela tirou o resto da água do corpo, depois pegou a loção que sempre carregava. Ele tinha rido da primeira vez que ela o fez, dizendo que sua loção corporal era totalmente inadequada numa cachoeira, mas tinha sido o primeiro a lembrá-la de trazê-la na vez seguinte.
— É barra criar uma criança nos dias de hoje — prosseguiu. — Mesmo numa família com pai e mãe. Tem certeza de que será capaz de cuidar de tudo sozinha?
— Aha. — Ela esfregou a loção nas pernas e na barriga.
— Bebês são totalmente dependentes. Precisam de cuidado constante. Não vai ser árduo?
— Não mais do que para qualquer mãe.
— Como vai sair? Bebês choram por qualquer coisa.
— Eles choram se estão cansados, famintos ou molhados. Vou cuidar para que isso não aconteça, pelo menos, não por muito tempo e não se eu o levar comigo. — Ela espalhou a loção nos ombros.
— Você vai pendurá-lo nas costas em um daqueles cangurus?
Ela sorriu.
— Parece divertido.
— Mas como vai conseguir? Não precisa de duas pessoas para colocá-la nas costas?
Ela voltou a olhá-lo.
— Você precisa de ajuda para colocar sua mochila nas costas?
— Não.
Ela levantou a sobrancelha, depois voltou a espalhar a loção nos braços, mas o pensamento continuou preso às perguntas. Algo passava pela cabeça dele. Se estava tentando sugerir que ela precisava de um marido, ele estava indo pelo caminho errado. Se estava tentando se convencer que bebês davam mais trabalho do que valia a pena e, portanto, estava certo em não querer participar, não receberia nenhum encorajamento. E se estava tentando desencorajá-la a ter um bebê, era tarde demais.
— Não se pode levar um bebê aonde eu vou — ele declarou.
Ela passou o hidratante nas mãos.
— Não se pode ter uma mulher aonde eu vou — acrescentou.
Ela tirou o creme de entre os dedos.
— Algumas vezes estou a quilômetros da civilização — continuou indiferente. — Não há telefone, banho ou cama.
Hermione podia jurar que ele tentava justificar não ter esposa e família, mas o descrito não era nada diferente do vivido no momento. Tudo bem: ela não era esposa dele, mas não estava se importando com a vida ali. Não tinha reclamado uma única vez.
— Se ficar doente — argumentou — não pode correr para a farmácia para comprar um anti-histamínico. Não pode correr para um restaurante para jantar se estiver cansada de cozinhar. Não pode ir ao cinema se estiver entediada ou a uma livraria comprar algo para ler.
— Me parece uma vida bem difícil — disse Hermione.
— E é difícil. Há dias em que eu ando quilômetros e quilômetros com uma mochila pesada nas costas. Uma mulher não poderia fazer isso, muito menos com um bebê. — Ele gargalhou. — Parece que estou vendo você parando no meio da tundra para amamentar. — Ficou imóvel. — Você está planejando amamentar, não está?
— Estou.
— Bem, você não pode amamentar aonde eu vou. Normalmente caminhamos doze horas por dia. — Ele gargalhou de novo, mais alto desta vez. — Você pode imaginar como uma mulher no final da gravidez poderia levar essa vida?
Calmamente, ela respondeu:
— Não posso imaginar a vida de uma mulher no final da gravidez em nenhuma circunstância, já que é minha primeira. — Mal as palavras saíram, o coração começou a palpitar. Será que ela tinha se denunciado? Ele tinha percebido?
Quando ele não respondeu, olhou por cima do ombro. Ele parecia confuso. O coração bateu mais forte.
— Está com medo?
— Medo?
— Do último mês.
Ela deixou escapar um suspiro suave.
— Um pouco.
— Fico imaginando se vai ficar muito barriguda. — Ele pegou-lhe o braço e a girou. Os olhos tocaram-lhe os seios e depois repousaram na barriga. A mão fez o mesmo trajeto. Ele esfregou a pele macia abaixo de seu umbigo. A voz não passava de um murmúrio quando disse: — Na tribo que estudei, vi garotas grávidas. Elas não usavam mais roupas que as outras, então dava para ver as barrigas. Algumas vezes um cotovelo ou um joelho ficavam visíveis e eu costumava ficar fascinado. — A mão deslizou mais para baixo, os nós dos dedos esfregando um ponto perto de onde o bebê de Hermione sairia. — Elas me deixaram ver um parto uma vez. Foi incrível.
Hermione engoliu em seco. O coração tinha dobrado de tamanho, motivo pelo qual disse sem pensar:
— Você pode ver o nascimento de seu bebê se quiser.
A mão imobilizou-se, depois se retirou. Ele a colocou na pedra, ajeitou os ombros e levantou os olhos para os seus.
— O acordo era que eu a engravidaria. Só isso.
Ela ficou magoada. Rapidamente disse:
— Eu sei e posso me cuidar sozinha, mas você disse achar incrível ver um parto, então pensei...
— Pense apenas na gravidez. — Ele levantou-se. — Quando vai saber?
Ela afastou a mágoa.
— Cinco dias. Ou seis. — Não tinha certeza. Era difícil ter noção do tempo. Um dia se fundia no próximo.
Ele acenou e virou-se para pegar a toalha. Sem esperar por ela, começou a descida da colina.
Hermione acordou na manhã seguinte nauseada. Melhorou tão logo tomou o café da manhã, então Harry não percebeu. Sentia-se infinitamente agradecida. Ele não estava no melhor dos humores quando voltaram para o avião na noite anterior e embora a tivesse abraçado durante a noite e parecesse mais calmo pela manhã, não queria se arriscar.
A náusea voltou no final da tarde. Comeu vários biscoitos, o que funcionou.
Na manhã seguinte, todavia, não teve tanta sorte. Voltou a acordar nauseada. Pensou em ir até a fossa que usavam como banheiro, mas a meio caminho, mudou de direção e despejou o conteúdo do estômago na floresta.
Quando voltou, Harry estava de pé esperando.
— O que houve?
— Não estou me sentindo bem. — Passando por ele, voltou rápido para a praia, querendo apenas molhar e rosto e lavar a boca.
Ele estava bem atrás.
— Você vomitou?
— Sim.
— Alguma coisa que comeu?
— Não sei.
— Você se sentiu mal de madrugada?
— Não.
Ela apressou o passo na areia. Quando alcançou a água, ajoelhou-se e jogou água no rosto. Ele ficou de cócoras a seu lado.
— Hermione?
— Me dê um minuto — murmurou fraca. Ainda se sentia enjoada, embora não tivesse mais nada no estômago.
— E cedo demais para os enjôos matinais, não é?
Ela não respondeu. Estava fraca e de repente cansada de manter o segredo.
— Não é, Hermione?
— Não sei.
— Você disse que os enjôos matinais só começavam com cinco ou seis semanas de gravidez. Você me disse isso antes de ir para Hong Kong, se lembra?
Ela concordou. A água ajudava. Jogou mais na testa, na boca, na nuca.
— Se aconteceu enquanto estamos aqui, só estaria grávida de uma semana e meia.
— Talvez seja uma aberração.
— Talvez estivesse grávida antes de pôr o pé em meu avião. Isso explica porque os seios estavam maiores do que eu me lembrava.
Ela jogou água no rosto uma última vez e o escondeu entre as mãos.
— Hermione?
Ela não sabia o que dizer.
— Droga, Hermione — ele murmurou. — É verdade, não é? — Pegou-lhe os pulsos e afastou-lhe as mãos do rosto. — Você está grávida?
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OI, PODEM ME MATAR, ESFOLAR, O QUE QUISEREM! SUAHSHAUSHA me desculpem a SUPER, HIPER, MEGA demora para atualizar, mas sim, OS ESTUDOS me fez atrasar não só nesse projeto, mas em outros. Prometo atualizar o mais rápido possível, juro. E A FIC TÁ ACABANDO! Beijo! (e desculpem pelos erros também)