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13. Ninho de cobra


Fic: Mensageiro das Trevas: Portal do Tempo - ATT 03-04, cap.13!


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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“Quando capaz, finja ser incapaz; quando pronto, finja estar despreparado; quando próximo, finja estar longe; quando longe, façam acreditar que está próximo”


SUN TZU – A ARTE DA GUERRA


 


12 NINHO DE COBRA


 


  Era difícil não se deixar levar pela atmosfera da escola. Depois de tanto tempo longe, vivendo uma batalha que se arrastava por anos, Potter acreditava ter perdido a capacidade de viver como uma pessoa comum – ele, contudo, desenvolvera um senso de humor peculiar: o sarcasmo e a ironia às vezes se misturavam numa diversão sádica.


  O sorriso perigoso que sempre brincava em seus lábios, já famoso no boca-a-boca do local, era um que não conseguia conter; parecia demasiado irreal que as preocupações que o cercava se tratassem de “você viu, ela passou o dia chorando no banheiro” e “não acredito que estavam juntos”. Era como se estivesse numa espécie de realidade paralela.


  Bom… aquela era uma realidade paralela, de certa forma.


  Ele dobrou mais um corredor a caminho do salão principal e escondeu-se entre uma pilastra e uma armadura – a parte mais engraçada daquela realidade era como os comensais que antes haviam dado tanto trabalho, eram agora completos fracassos em suas incumbências.


  Bellatrix Lestrange e Lucius Malfoy, velhos conhecidos do rapaz, pareciam, contudo, acreditar fielmente em suas habilidades. Haviam passado toda a última semana seguindo o aluno novo para onde quer que fosse, aparentemente tentando desvendar o mistério que pairava sobre ele. Ciente disso, Harry os levara para uma espécie de perseguição sem sentido algum, provocando-os com falsas pistas – às vezes, ia até a biblioteca e fingia estudar, deixando páginas específicas marcadas em assuntos que alertaria a dupla. Entrava em salas vazias para meditar, fingia observar certos alunos e fazia questão de responder quem quer que o abordasse com sussurros, como se estivesse planejando algo.


  Eu não devia brincar tanto com a comida, riu-se silencioso, observando quando passaram confusos pelo corredor, olhando em volta. Bellatrix andou de um lado para outro, verificando até mesmo as estátuas no alto das paredes. Soltou um grunhido impaciente quando não o viu ali.


  — Pra onde é que ele foi? — Ela perguntou baixo, aproximando-se do rapaz de cabelos platinados. Malfoy procurou mais uma vez no corredor e contraiu os olhos em suspeita. Começou a elaborar uma resposta, mas foi interrompido antes.


  — Então — Começou Harry, saindo de onde estava com um giro rápido. Bellatrix deixou um pequeno grito de surpresa escapar, para a diversão do rapaz.        — Vão me contar por que estão me seguindo?


  — Como… Como você sabia…? — Malfoy tentara assumir controle da situação, sem muito sucesso.


  — Vocês talvez devessem considerar fazer um pouco menos de barulho quando andam. — Apontou colocando uma das mãos no queixo como se pensasse. — Provavelmente esperar voltarem ao salão comunal antes de fazer comentários, também. E, bem, sentar repentinamente ou encostar numa parede quando eu me viro não funciona muito bem – ou vocês sempre estarem no mesmo cômodo que eu é apenas coincidência?


  Bellatrix engoliu em seco quando o rapaz deu um passo em sua direção e fitou-lhe diretamente nos olhos. Eram hipnotizantes e ao mesmo tempo assustadores; os quatro segundos de contato visual pareceram uma eternidade. Quando ele ergueu as sobrancelhas e deixou que um “Então…? ” escapasse de seus lábios, piscou algumas vezes antes de conseguir responder.


  — Você é um sonserino. Mas é nascido trouxa. — Disse ela depois de limpar a garganta e se recompor. — Precisamos saber se é confiável… ou somente mais um sangue-ruim no lugar errado. — Ela terminou, agora com ar de superioridade. Harry gargalhou e cruzou os braços, como se estivesse desafiando.


  — O sangue-ruim aqui… — Respondeu com os olhos escurecendo e o sorriso crescendo em seu rosto. A dupla se entreolhou quando a ofensa não provocou sequer uma torcida de lábios. — …pelo visto é muito mais forte que vocês dois juntos. É claro que não posso obrigá-los a confiarem em mim, mas sugiro que não fiquem me irritando.


            — Essa eu pago pra ver. — Ameaçou o loiro enquanto enfiava sua varinha no queixo do rapaz, que sequer fez questão de parecer preocupado.


  — Quem sabe daqui a alguns anos você não se torne um adversário à altura. — Respondeu divertido. — Quanto a saber se sou confiável ou não… acredito que me seguir tenha se provado um tanto quanto… ineficaz, por assim dizer. Sugiro que pensem em novos meios. E quando descobrirem, faço questão que não me contem – tento me importar com sua opinião, mas acredito ser impossível. — Ele terminou com uma reverência profunda e um sorriso sarcástico, se despedindo com um “se me dão licença” e passos tranquilos. Malfoy apertou sua varinha com mais força e rangeu os dentes.


  — Eu não gosto desse moleque. — Disse destilando veneno suficiente para que tivesse sua língua bifurcada como de uma cobra. Ao seu lado, Bellatrix deixou um sorriso travesso escapar, seguido de uma mordida nos lábios.


  — Não posso dizer o mesmo. — Começou ela, atraindo o olhar incrédulo do parceiro. — Adorei esse moleque.


 


**


 


  — Como andam as coisas na Grifinória?


  Gina deu um pulo quando ouviu a voz de Harry. Ela fechou os olhos e respirou fundo, tentando conter-se. Enfurecer-se com ele definitivamente gerava as discussões mais frustrantes de sua vida, principalmente porque nada parecia atingi-lo. Quando abriu os olhos, encontrou aquele mesmo sorriso estúpido – foi o suficiente para que bufasse impaciente e seguisse seu caminho. Havia se separado dos amigos para ir ao banheiro antes do jantar e já se arrependia amargamente por isso.


  — Você tem que falar comigo, sabe. — Comentou ele andando alguns passos atrás. Ela parou.


  — Está tudo ótimo. — Disse com os dentes rangendo. — Mas eu apreciaria se você tivesse a decência de aparecer como um ser humano comum. — O rapaz respondeu com uma gargalhada e se colocou ao lado dela.


  — Eu é que estou ótimo. — Disse esfregando as mãos. — Já me sinto uma cobra.


  Gina parou de andar e franziu as sobrancelhas, a preocupação sobrepondo sua irritação. Uma cobra, ele disse? Demorou-se nos olhos do rapaz, tentando decidir se estavam mais escuros que o normal. Tudo o que encontrou foi mais frustração. Ela cruzou os braços e suspirou uma última vez, focando em seu problema.


  — E quando você realmente virar uma cobra? Como é que fica?


  Ele riu mais uma vez, deixando o sorriso alargar mais. Aproximou-se dela e passou um dos dedos por sua bochecha, inclinando os lábios para perto de seu rosto.


  — Não seria tão ruim, não é mesmo? — A ruiva gelou com a voz do rapaz e pareceu perder o fôlego por um instante. A voz era suave e irônica, com notas perigosas em seu tom. Seus ossos pareceram gelar e o medo que sentiu foi genuíno: ele não estava normal.


  O medo foi tanto que não questionou quando Harry passou um dos braços por cima de seus ombros e guiou a menina pelos corredores rumo ao salão principal. Gina se manteve calada o tempo todo, notoriamente em choque com a atitude dele. De repente, toda aquela história de encontrar o equilíbrio fazia sentido – ela só não fazia ideia de como faria aquilo.


  Fitou o rosto do rapaz mais uma vez. Ele também não falava muito, embora ocasionalmente expressasse seu ponto de vista acerca dos ocorridos no pouco tempo que estavam lá. Disse que estava satisfeito com seu rendimento nas aulas e que logo voltaria a ter controle sobre sua magia, e parabenizou pela aproximação à Lílian. A ruiva piscou os olhos confusos e franziu o cenho. O que diabos tinha acontecido com ele?


  Quando chegaram ao salão, ela tomou maior consciência sobre a situação em que se encontrava. Os olhos curiosos dos alunos (e incrédulos vindos de Sirius e Tiago) encontraram o casal, mas ela não foi capaz de reagir – foi Harry quem falou com ela.


  — Quero você na sala precisa quartas e sextas, meia noite. Sem falta. E ao invés de dormir, tente meditar – todos os dias. Comece a tentar como manda o livro que te dei. — Apesar do tom sereno, sabia que aquilo era uma ordem. Ele terminou com um beijo em sua bochecha e seguiu caminho para a mesa verde e prata.


  Gina piscou algumas vezes antes de se dirigir à sua mesa, onde sentou ainda com os lábios entreabertos e o rosto um pouco pálido. Sirius e Tiago se inclinaram para ela, os olhos ardendo em fúria e desconfiança.


  — O que ele fez com você? — Começou Sirius.


  — Já posso encher o cara de porrada? — Completou o amigo.


  — Ei, ei, ei! — Chamou Lílian tentando ficar entre eles. — Vocês nem sabem se ele fez algo ou não, parem de falar como se ele fosse a pior pessoa nesse mundo! Ele não pode ser tão ruim assim. — Terminou falando baixo, olhando de soslaio na direção do rapaz. Tiago bufou em resposta.


  — Olha a cara dela. Sério. Só olhe. — Ele apontou. — Está branca. Isso não é normal, não pode ser. Eu aposto que ele fez alguma coisa. — Gina suspirou e respirou fundo.


  — Eu estou bem. Ele não fez nada, de verdade. — Garantiu. A outra ruiva encarou a dupla de amigos como quem diz “eu não falei? “ e voltou-se para a mais nova amiga como se esperasse uma continuação. — É só que… ele está tão estranho. Não sei. É esquisito ficar perto dele. — Terminou também falando baixo. Pelo menos dessa vez falava a verdade.


  Enterrou o rosto nas mãos, exausta. Será que era possível que tudo voltasse ao normal?


  Não, não é. Pensou ela com uma risada e desconversou o assunto anterior com perguntas sobre os professores e os anos anteriores dos garotos na escola. A quem eu estou tentando enganar? Estou falando com um monte de gente morta num tempo em que ainda estavam vivos – não tem é como ficar mais esquisito que isso.


  Do outro lado do salão, na mesa verde e prata, Harry comia em movimentos lentos, mantendo claro contato visual com a ruiva. Se pudesse se manter sempre distante e comportando-se de forma que a deixasse intimidada, poderia colocar um fim na hostilidade entre os dois. Não que fosse uma relação saudável, claro – mas não era disso que precisava. Era uma espiã e apenas isso: treinaria a garota para tal.


  Tomou um gole do suco de abóbora a sua frente e desviou o olhar para Bellatrix, que retribuiu com uma piscada e uma mordida de lábios quase pornográfica. Ele ergueu uma das sobrancelhas e desceu os olhos para o decote notoriamente mais profundo, retornando novamente para o resto angulado da garota. Balançou a cabeça num misto de negação e incredulidade enquanto ela mordia uma maçã ainda mantendo contato visual.


  — Que inferno você está fazendo?! — Harry ouviu Malfoy exclamar e tentou abafar o riso quando recebeu o olhar flamejante do loiro antes de ele se levantar e abandonar o salão em passos duros. Lestrange levantou também, fitando-o de cima abaixo de forma sugestiva e se despedindo com um movimento de dedos antes de deixar o local com o quadril balançando num arco amplo.


  O rapaz devolveu o aceno com um sorriso divertido no rosto e tomou mais um gole de seu suco antes de voltar o olhar para a ex-namorada ruiva na outra mesa. Seus olhos misturavam nojo e incredulidade enquanto ela deixava os lábios mexerem provavelmente de maneira inconsciente. Mesmo de longe, Harry conseguiu entender perfeitamente o que ela quis dizer e dessa vez não foi capaz de conter o riso.


  — Que nojo!! — Exclamou sem pensar. Lílian, que sentava ao seu lado, vira toda a cena e fitava a garota que saía do salão quase tão pasma quanto Gina. Marlene torceu o nariz.


  — Vocês estão vendo o jeito que ela está andando? — Criticou. — Pelo amor de Merlin, aquilo devia ser proibido numa escola. — Sirius franziu as sobrancelhas e procurou o alvo de tantos elogios. Rolou os olhos e bufou ao ver sua prima utilizando seu clássico rebolado.


  — É uma piranha, mesmo. — Disse como se fosse totalmente normal. — Desde os 13 anos essa menina anda desse jeito sempre que quer impressionar alguém. Até que funciona, se for algum total dissimulado, poderoso, nobre, rico e de “sangue puro”.


  — Mas é aí que está a questão! — Exclamou Tiago erguendo o dedo indicador como se fosse apontar algo de extrema importância. — Pra ela, quanto mais estragado melhor! — Ele concluiu, sua gargalhada misturando-se à do amigo.


  — Eu geralmente daria uma bronca vocês por tratarem de uma mulher assim…, mas, bom, é da Bellatrix que estamos falando. Fiquem à vontade. — O fato da colocação ter sido feita com Remo pareceu fazer dela ainda mais engraçada, e até mesmo Lílian teve trabalho contendo a risada. — E quem é o sortudo da vez?


  — É o boy magia de vocês dois. — Riu Marlene. — O tal do Granger.


  — Ah, fala sério! Quando você acha que não dá pra gostar menos de uma pessoa…


  — Ele vai lá e te dá mais uma lista de ótimas razões. — Tiago completou a frase do amigo também rolando os olhos. — Mas veja só… pelo menos eles se merecem, não é mesmo?


  — Como vocês são ruins! — Contestou Lílian, que não parecia muito convincente com o sorriso ainda nos lábios. — Nem sabem se ele está interessado de verdade.


  — Veja só, minha cara foguinho… — Tentou Tiago enquanto gesticulava com as mãos. Ela torceu o nariz diante do apelido. — Quando se trata de Bellatrix… só o fato de ela querer já explica muita coisa. — A ruiva olhou para Gina como se pedisse desculpas por não conseguir defender o rapaz.


  — Não tem problema… Só ouvi verdades.


  A resposta de Gina provocou gargalhadas nos marotos e até mesmo em Lílian, que parecia decidida que Harry Granger não era tão ruim assim. Ela tentou sorrir, mas permanecia com os pulsos fechados dolorosamente sobre o colo – a forma como Harry olhara para Lestrange… não, aquilo era inadmissível.


  Encheu o pulmão de ar e soltou lentamente pela boca, numa vã tentativa de acalmar-se. Bellatrix fora responsável pela morte de dois de seus irmãos, além de ter tentado matá-la pelo menos quatro vezes durante a guerra – sangue de Weasley, para ela, parecia ter um gosto especialmente delicioso.


  E agora isso? Era sério, aquilo? Harry Potter flertando abertamente com Bellatrix Lestrange? Fora um golpe baixo até mesmo para ele. Não interessava pelo que havia passado ou quais seus interesses naquilo – não havia razão no mundo que explicasse uma atitude assim. Ela balançou a cabeça tentando ignorar a visão que tivera, perdendo a fome para o estômago embrulhado. Harry, entretanto, parecia não querer sair de sua mente tão cedo: ouviu suas palavras bem claras, como se tivesse acabado de dizê-las.


 


“Ao invés de dormir, tente meditar”


           


Os dentes de Gina rangeram com ódio. Meditar? Era incrível como ele conseguia tirá-la do sério. Aquela ideia estúpida ficaria para depois, bem depois – nessa noite tinha um encontro marcado com a sala precisa. Fuzilou o rapaz com o olhar através do salão e recebeu um aceno como resposta. Levantou-se abruptamente e deixou o salão em passos largos, anotando mentalmente que devia um agradecimento à Lílian por ter impedido que os rapazes fossem atrás dela.


“Preciso explodir alguma coisa antes que faça isso com esse imbecil


E pensar que apenas algumas noites atrás, admitira para si mesma que ainda o amava. Era hora disso mudar, decidiu.

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Comentários: 1

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Enviado por MatheusMD em 03/04/2016

Ótimo cap., aguardando o próximo ; ))

Nota: 5

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