O espetáculo de dança de Luna vai ser num teatro em Bloomsbury situado num pequeno pátio de cascalho, e quando chego encontro todo o lugar apinhado de advogados com ternos caros, usando seus celulares.
- ...cliente não quer aceitar os termos do acordo..
- ...atenção à cláusula quatro, vírgula, não obstante...
Por enquanto ninguém está fazendo a menor tentativa de entrar no auditório, por isso vou aos bastidores das a Luna o buquê que comprei. (Originalmente eu estava planejando jogar no palco no fim, mas são rosas, e fico preocupada com a hipótese de arranhar as coxas dela).
Enquanto passeio pelos corredores desenxabidos, o sistema de som cospe música e pessoas passam esbarrando em mim com fantasias brilhantes. Um homem com plumas azuis no cabelo está alongando a perna de encontro à parede e ao mesmo tempo falando com alguém num camarim.
- Então eu fiz ver àquele idiota de promotor que o precedente estabelecido em 1983 por Miller versus Davy significa... – Ele pára subitamente. – Merda. Esqueci meus primeiros passos. – Seu rosto fica branco. – Não consigo lembrar porra nenhuma. Não estou brincando! Eu dou um jeté e... Depois o quê? – Ele me olha como se esperasse que eu desse uma resposta.
- É... Uma pirueta? – Arrisco, e sigo depressa, quase tropeçando numa garota abrindo spaccatto. Então vejo Luna sentada num banco num dos camarins. Seu rosto está com maquiagem pesada e os olhos estão enormes e brilhantes, e ela também tem plumas azuis no cabelo.
- Ah meu Deus, Luna! – exclamo parando na porta. – Você está maravilhosa! Adorei o seu...
- Eu não vou conseguir.
- O quê?
- Não vou! – Repete ela desesperada, e se enrola com o roupão de algodão. – Não consigo lembrar nada. Minha mente está vazia!
- Todo mundo acha isso. – Digo em tom tranqüilizador. – Havia um cara ali fora dizendo exatamente a mesma coisa...
- Não. Eu realmente não consigo lembrar nada. – Luna me encara com os olhos selvagens. – Minhas pernas estão parecendo de algodão, eu não consigo respirar... – Ela pega um pincel de blush, olha para ele frustrada e depois o coloca de volta no lugar. – Por que eu concordei com isso? Por quê?
- É... Porque ia ser divertido?
- Divertido? – Sua voz cresce incrédula. – Você acha que isso é divertido? Ah meu Deus. – De repente seu rosto muda de expressão e ela sai correndo por outra porta. No instante seguinte ouço-a vomitando.
Certo, há alguma coisa errado aqui. Eu achei que dançar era bom para a saúde.
Ela aparece na porta de novo, pálida e trêmula, e eu a encaro ansiosamente.
- Luna, você está bem?
- Não posso fazer isso. Não posso. – Ela parece chegar a uma decisão súbita. – Certo, vou para casa. – E começa a pegar suas roupas. – Diga que eu fiquei doente de repente, que foi uma emergência...
- Você não pode ir para casa! – Exclamo horrorizada, e tento pegar as roupas em suas mãos. – Luna, você vai estar ótima! Puxa, pense bem. Quantas vezes você teve de se apresentar num tribunal importante e fazer um discurso imenso na frente de um monte de gente, sabendo que, se fizesse alguma coisa errada, um homem inocente poderia ir para a cadeia?
Luna me encara como se eu fosse maluca.
- É, mas isso é fácil!
- É... – Olho em volta, desesperada. – Bom, se você desistir agora, vai se arrepender para sempre. Vai sempre olhar para trás e desejar que tivesse ido até o fim.
Há um silêncio. Praticamente posso ver o cérebro de Luna trabalhando por baixo de todas as plumas e coisa e tal.
- Você está certa. – Assente ela por fim, e larga as roupas. – Certo. Vou fazer. Mas não quero que você assista. Só... Se encontre comigo depois. Não, nem faça isso. Só fique longe. Fique bem longe.
- Certo. – Eu hesito. – Se você realmente quer que eu...
- Não! – Ela se vira para mim. – Você não pode ir! Eu mudei de idéia. Preciso de você lá!
- Certo. – Digo ainda mais hesitante, no momento em que o alto-falante na parede berra: “Cinco minutos para o início!”
- Então vou indo. Vou deixar você se aquecer.
- Hermione. – Luna agarra meu braço e me fixa com um olhar intenso. Está me segurando com tanta força que dói. – Hermione, se algum dia eu disser que quero fazer alguma coisa assim de novo, você tem de impedir. Independentemente do que eu disser. Prometa que vai impedir.
Que coisa! Nunca vi Luna desse jeito. Enquanto volto ao pátio, que agora está apinhado de gente ainda mais bem vestida, também estou com os nervos estourando. Ela não parecia capaz de ficar em pé, quanto mais de dançar.
Por favor, não deixe que ela estrague tudo. Por favor.
Surge uma imagem horrível de Luna parada como um coelho assustado, incapaz de lembrar os passos. E a platéia simplesmente olhando para ela. A idéia faz meu estômago embolar.
Certo. Não vou deixar isso acontecer. Se algo der errado vou causar uma distração. Vou fingir que tive um ataque cardíaco. É. Vou desmoronar no chão e todo mundo vai me olhar durante alguns segundos, mas a apresentação não vai parar nem nada, porque nós somos ingleses, e quando todo mundo voltar a olhar para o palco Luna terá lembrado os passos.
E se me levarem ao hospital ou algo assim, só vou dizer: “Eu tive uma dor terrível no peito!” Ninguém poderá provar que eu não tive.
E mesmo que possam provar com alguma máquina especial, eu só vou dizer...
- Hermione.
- O quê? – Respondo distraída. E meu coração pára.
Draco está a três metros de distância. Veste o uniforme usual, jeans e camisa de malha, e se destaca a quilômetros de todos os advogados de terno. Quando seus olhos escuros encontram os meus eu sinto toda a dor antiga jorrando de volta no peito.
Não reaja, digo a mim mesma rapidamente. Encerramento. Vida nova.
- O que você está fazendo aqui? – Pergunto dando de ombros meio tipo “não estou realmente interessada”.
- Eu achei o panfleto na sua mesa. – Ele levanta um pedaço de papel, sem afastar os olhos dos meus. – Hermione, eu realmente queria conversar.
Sinto uma súbita pontada por dentro. Ele acha que pode aparecer e que eu vou largar tudo para conversar? Bem, talvez eu esteja ocupada. Talvez eu tenha ido adiante. Será que ele pensou nisso?
- Na verdade... Eu estou aqui com alguém. – Respondo num tom educado, ligeiramente de pena.
- Verdade?
- É, estou. Então... – Dou de ombros e espero que Draco vá embora. Mas ele não vai.
- Quem?
Certo, ele não deveria perguntar quem. Por um momento não tenho muita certeza do que fazer.
- É... Ele. – Aponto para um cara alto em mangas de camisa, parado no canto do pátio, olhando para o outro lado. – Na verdade é melhor eu ir para lá.
De cabeça erguida giro nos calcanhares e começo a andar para o sujeito em mangas de camisa. Vou perguntar as horas a ele e de algum modo envolvê-lo numa conversa até Draco ir embora. (E talvez rir alegre uma ou duas vezes para mostrar como estamos nos divertindo).
Estou a poucos metros quando o sujeito em mangas de camisa se vira, falando num celular.
- Oi! – Começo animada, mas ele nem ouve. Dá um olhar vazio na minha direção, depois se afasta ainda falando, no meio da turba.
Sou deixada sozinha no canto.
Porra.
Depois do que parecem várias eternidades, volto o mais casualmente que posso.
Draco ainda está ali parado, olhando.
Encaro-o furiosa, todo o corpo pulsando de embaraço. Se ele rir de mim...
Mas ele não está rindo.
- Hermione... – Ele se adianta até estar a menos de um metro, com o rosto franco. – O que você disse. Ficou comigo. Eu deveria ter compartilhado mais com você. Não deveria ter mantido você de fora.
Sinto um dardo de surpresa, e em seguida um orgulho ferido. Então ele quer compartilhar comigo agora, é? Bem, talvez seja tarde demais. Talvez eu não esteja mais interessada.
- Você não precisa compartilhar nada comigo. Seus negócios são seus, Draco. – Eu lhe dou um sorriso distante. – Não têm nada a ver comigo. E provavelmente eu não entenderia mesmo, já que eles são tão complicados e eu sou uma tapada completa.
Viro o rosto decidida e começo a me afastar andando pelo cascalho.
- Eu lhe devo pelo menos uma explicação. – A voz seca de Draco me segue.
- Você não me deve nada! – Levanto o queixo, orgulhosa. – Acabou, Draco. E nós dois poderíamos muito bem... Aargh! Me solta!
Draco segurou meu braço e agora me puxa para encará-lo.
- Eu vim aqui esta noite por um motivo, Hermione. – afirma ele em tom sério. – Vim dizer o que eu estava fazendo na Escócia.
Sinto um choque mais portentoso, que escondo do melhor modo possível.
- Não estou interessada no que você foi fazer na Escócia! – Consigo dizer. Puxo o braço e vou andando do melhor modo que consigo em meio ao aperto de advogados com celulares.
- Hermione, eu quero contar. – Ele está vindo atrás de mim. – Eu realmente quero contar.
- Bem, talvez eu não queira saber! – Respondo desafiante, pisando no cascalho e espalhando pedrinhas.
Estamos nos encarando como dois duelistas. Minhas costelas sobem e descem rapidamente.
Claro que eu quero saber.
Ele sabe que eu quero saber.
- Então conte… – Digo por fim, e dou de ombros, de má vontade. – Pode contar se quiser.
Em silêncio, Draco me leva até um lugar calmo, longe da multidão. Enquanto andamos, minha bravata some. De fato estou meio apreensiva. Até apavorada.
Será que realmente quero saber o segredo dele, afinal de contas?
E se for algum trambique, como Luna falou? E se ele estiver fazendo alguma coisa fraudulenta e quiser que eu participe?
E se ele armou alguma coisa embaraçosa e eu começar a rir por engano?
E se for outra mulher e ele veio me dizer que vai se casar ou algo do tipo?
Sinto uma minúscula pontada de dor, que controlo. Bem, se for... Vou ficar na minha, como se soubesse o tempo todo. Na verdade vou fingir que eu também tenho outro amante. É, vou lhe dar um sorriso torto e dizer: “Sabe Jack, eu nunca presumi que nós fossemos exclusivos...”
- Bom.
Draco se vira para me encarar, e eu decido instantaneamente que, se ele cometeu assassinato, vou entregá-lo, com ou sem promessa.
- É o seguinte. – Ele respira fundo. – Eu fui à Escócia visitar uma pessoa.
Meu coração mergulha.
- Uma mulher. – Digo antes que possa me controlar.
- Não, não era uma mulher! – Sua expressão muda, e ele me encara. – É isso que você pensou? Que eu estava traindo você?
- Eu... Não sabia o que pensar.
- Hermione, eu não tenho outra mulher. Eu estava visitando... – Ele hesita. – Você poderia chamar de... Família.
Meu cérebro dá uma reviravolta gigantesca.
Família?
Ah meu Deus, Pansy estava certa, eu me envolvi com um mafioso.
Certo. Não entreem pânico. Eu posso escapar. Posso entrar para o esquema de proteção de testemunhas. Meu nome novo pode ser Megan.
Não, Chloe. Chloe de Souza.
- Para ser mais exato... Uma criança.
Uma criança? Meu cérebro salta de novo. Ele tem um filho?
- O nome dela é Alice. – Draco dá um sorriso minúsculo. – Ela tem quatro anos.
Draco tem uma mulher e uma família inteira da qual eu não sei, e esse é o segredo dele. Eu sabia, eu sabia.
- Você... – Lambo os lábios secos. – Você tem uma filha?
- Não, eu não tenho uma filha. – Draco olha o chão por alguns segundos, depois levanta a cabeça. – Pete teve uma filha. Alice é filha do Pete Laidler.
- Mas... Mas... – Encaro-o, confusa. – Mas... Eu nunca soube que Pete Laidler tinha uma filha.
- Ninguém sabe. – Ele me dá um olhar longo. – Essa é a questão.
Isso é tão completa e absolutamente diferente do que eu estava esperando!
Uma criança. A filha secreta de Pete Laidler.
- Mas... Mas como ninguém sabe dela? – Pergunto bobamente. Nós nos afastamos ainda mais da multidão e estamos sentados num banco debaixo de uma árvore. – Quero dizer, sem dúvida as pessoas iriam ver a menina.
- Pete era um cara fantástico. – Draco suspira. – Mas o compromisso nunca foi seu ponto forte. Quando Marie, a mãe de Alice, descobriu que estava grávida, eles nem estavam mais juntos. Marie é uma daquelas figuras defensivas, orgulhosas. Estava decidida a fazer tudo sozinha. Pete a ajudava financeiramente. Mas não se interessava pela criança. Nem disse a ninguém que era pai.
- Nem a você? – Eu o encaro. – Você não sabia que ele tinha uma filha?
- Só depois que ele morreu. – Seu rosto se fecha ligeiramente. – Eu adorava o Pete. Mas acho isso difícil de perdoar. Assim, uns meses depois de ele ter morrido, Marie apareceu com aquele bebê. – Draco solta o ar com força. – Bem. Você pode imaginar como todos nós nos sentimos. Dizer que ficamos chocados é pouco, mas Marie foi clara dizendo que não queria que ninguém soubesse. Queria criar Alice como uma criança normal, e não como a filha bastarda de Pete Laidler. Não como a herdeira de uma fortuna gigantesca.
Minha mente está atolada. Uma criança de quatro anos recebendo a parte de Pete Laidler na Corporação Panther. Que loucura!
- Então ela vai receber tudo? – pergunto hesitante.
- Tudo, não. Mas uma grande parte. A família de Pete foi mais do que generosa. E por isso Marie está mantendo-a longe dos olhos do público. – Ele abre as mãos. – Eu sei que não podemos mantê-la oculta para sempre. A coisa vai ser revelada cedo ou tarde. Mas quando descobrirem, a imprensa vai pirar. A menina vai disparar para a lista dos mais ricos... As outras crianças vão pegar pesado com ela... Ela não vai ser mais normal. Algumas crianças conseguem enfrentar isso. Mas Alice... não é uma delas. Ela tem asma, é meio frágil.
Enquanto ele fala, minha mente se enche de lembranças dos jornais depois da morte de Pete Laidler. Todos tinham uma foto dele na primeira página.
- Eu protejo demais essa criança. – Draco dá um sorriso tristonho. – Eu sei. Até Marie diz isso. Mas... Ela é preciosa para mim. – Ele olha em frente por um momento. – Ela é tudo que resta do Pete.
Encaro-o, subitamente comovida.
- Então... Eram sobre isso todos aqueles telefonemas? – Murmuro. – Por isso você teve de ir embora naquela noite?
Draco suspira.
- As duas tiveram um acidente na estrada há alguns dias. Não foi sério. Mas... Nós ficamos sensíveis demais, depois do que aconteceu com o Pete. Só queríamos garantir que elas tivessem o tratamento certo.
- Sei. – Encolho um pouco. – Dá para entender.
Há silêncio por um tempo. Meu cérebro está tentando juntar todas as peças. Tentando deduzir.
- Mas não entendo. – Continuo. – Por que você me pediu segredo sobre a Escócia? Ninguém iria descobrir, com certeza.
Draco revira os olhos, lamentando.
- Isso foi culpa minha, por estupidez. Eu tinha dito a umas pessoas que ia a Paris naquele dia, como precaução extra. Peguei um vôo anônimo. Pensei que ninguém saberia. E quando entrei no escritório... Você estava lá.
- Você desabou.
- Não exatamente. – Ele me encara. – Eu não sabia muito bem o que fazer.
Sinto uma cor súbita me subindo ao rosto, e pigarreio sem jeito.
- Então... É... – Digo, desviando o olhar. – Então é por isso...
- Eu só queria evitar que você saísse falando: “Ei, ele não estava em Paris, estava na Escócia!” e desse início a uma intriga gigantesca. – Draco balança a cabeça. – Você ficaria espantada com as teorias que as pessoas inventam quando não têm coisa melhor para fazer. Sabe, eu já ouvi de tudo. Que estou planejando vender a empresa... Que sou gay... Que sou da Máfia...
- É... Verdade? – digo, e aliso uma mecha de cabelo. – Nossa. Que gente idiota!
Duas garotas se aproximam, e nós dois ficamos quietos um tempo.
- Hermione, desculpa se não pude contar isso antes. – Diz Draco em voz baixa. – Eu sei que você ficou magoada. Sei que foi como se eu estivesse deixando você de fora. Mas... Não é uma coisa que a gente compartilhe com facilidade.
- Não! – Respondo rápido. – Claro que você não poderia ter feito isso. Eu fui uma boba.
Roço o pé sem jeito no chão de cascalho, sentindo um pouco de vergonha. Eu deveria saber que era uma coisa importante. Quando ele disse que era complicado e delicado, só estava dizendo a verdade.
- Pouquíssimas pessoas sabem. – Draco me encara, sério. – Pessoas especiais, de confiança.
Há algo em seu olhar que faz minha garganta ficar meio apertada. Encaro-o de volta, sentindo o sangue subir nas bochechas.
- Vocês vão entrar? – Pergunta uma voz animada. Nós pulamos, eu ergo a cabeça e vejo uma mulher de jeans preto se aproximando. – A apresentação vai começar! – Ela sorri de orelha a orelha.
Sinto que ela me acordou de um sonho, com um tapa.
- Eu... Tenho de ir ver Luna dançar. – Digo atordoada.
- Certo. Bem, então já vou. Era só isso que eu tinha a dizer. – Lentamente Draco fica de pé, depois se vira para mim. – Há mais uma coisa. – Ele me olha durante alguns momentos em silêncio. – Hermione, eu sei que esses últimos dias não foram fáceis para você. O tempo todo você foi o modelo da discrição, enquanto eu... Não fui. E eu só queria pedir desculpas. De novo.
- Está... Tudo bem. – Consigo dizer.
Draco se vira de novo, e eu o vejo andando devagar pelo cascalho, sentindo-me totalmente dividida.
Ele veio até aqui para contar seu segredo. Seu segredo grande, precioso.
Ele não precisava fazer isso.
Ah meu Deus. Ah meu Deus...
- Espera! – Ouço-me gritando, e Draco se vira imediatamente. – Você... Você gostaria de vir também? – E sinto uma onde de prazer quando o rosto dele se abre num sorriso.
Enquanto andamos juntos pelo cascalho, junto coragem para falar.
- Draco, eu também tenho uma coisa a dizer. Sobre... Sobre o que você falou. Sei que falei no outro dia que você arruinou minha vida.
- Eu lembro. – Diz Draco sem jeito.
- Bem, pode ser que eu esteja errada sobre isso. – Pigarreio, sem graça. – Na verdade... Eu estava errada. – Olho-o com franqueza. – Draco, você não arruinou minha vida.
- Não? Eu tenho outra chance?
Mesmo contra vontade, um risinho me sobe por dentro.
- Não!
- Não? Essa é a sua resposta final?
Enquanto ele me olha, há uma pergunta maior em seus olhos, e eu sinto uma pequena aguilhoada, meio esperança, meio apreensão. Durante longo tempo nós dois não dizemos nada. Estou respirando depressa.
De repente o olhar de Draco cai com interesse na minha mão.
- “Eu superei o Draco” – ele lê em voz alta.
Porra.
Todo o meu rosto está em chamas.
Nunca mais vou escrever nada na mão. Nunca.
- Isso é só... – Pigarreio de novo. – Isso foi só um rabisco... Não quer dizer...
Um toque agudo do meu celular me interrompe. Graças a Deus. Quem quer que seja, eu amo você. Pego-o depressa e aperto o botão verde.
- Hermione, você vai me amar para sempre! – Exclama a voz penetrante de Pansy.
- O que é? – Encaro o telefone.
- Resolvi tudo para você! – Revela ela em triunfo. – Sabe, eu sou uma estrela, você não saberia o que ia fazer sem mim...
- O quê? – Sinto uma pontada de alarme. – Pansy, de que você está falando?
- Da sua vingança contra Draco Malfoy, idiota! Como você ficou parada feito uma imbecil, eu tomei a coisa nas mãos.
Por um momento não consigo me mexer.
- É, Draco... Com licença um momento. – Dou-lhe um sorriso brilhante. – Eu preciso... Atender a esse telefonema.
Com as pernas trêmulas corro até o canto do pátio, bem longe do alcance dele.
- Pansy, você prometeu que não ia fazer nada! – sibilo. – Você jurou pela sua bolsa Miu Miu de couro de pônei, lembra?
- Eu não tenho uma bolsa Miu Miu de couro de pônei! – Grasna ela em triunfo. – Eu tenho uma bolsa Fendi de couro de pônei.
Ela é louca. É completamente louca.
- Pansy, o que você fez? – Consigo dizer. – Conte o que você fez!
Meu coração está martelando de apreensão. Por favor não diga que ela arranhou o carro dele. Por favor.
- Olho por olho, Hermione! O sujeito traiu você totalmente, e nós vamos fazer o mesmo com ele. Bom, eu estou aqui sentada com um sujeito bacana chamado Mick. Ele é jornalista, escreve para o Daily World...
Meu sangue gela.
- Um jornalista de tablóide? – Consigo dizer finalmente. – Pansy, você está maluca?
- Não seja tão suburbana e de mente estreita. Hermione, os jornalistas dos tablóides são nossos amigos. São como detetives particulares...Mas de graça! Mick fez um bocado de trabalhos para mamãe antes. Ele é maravilhoso em rastrear as coisas. E está muito interessado em descobrir o segredinho de Draco Malfoy. Eu contei a ele tudo que nós sabemos, mas ele gostaria de trocar uma palavrinha com você.
Estou quase desmaiando. Isso não pode estar acontecendo.
- Pansy, escute… – Começo num tom rápido e baixo, como se tentasse persuadir um lunático a descer do telhado. – Eu não quero descobrir o segredo de Draco, certo? Só quero esquecer isso. Você precisa impedir esse cara.
- Não! – Responde ela, como uma criança petulante de seis anos. – Hermione, não seja tão patética! Você não pode deixar que os homens pisem em você sem fazer nada em troca. Você tem de mostrar a eles. Mamãe sempre diz... – Há um guincho súbito de pneus. – Epa! Uma batidinha. Eu ligo para você de volta.
O telefone fica mudo.
Estou entorpecida de horror.
Digito freneticamente o número dela no celular, mas cai direto na caixa postal.
- Pansy! – Digo assim que o aparelho solta um bipe. – Pansy, você tem de parar com isso! Você tem... – Paro abruptamente quando Draco aparece na minha frente, com um sorriso caloroso.
- Já vai começar. – Informa ele, e me dá um olhar curioso. – Está tudo bem?
- Ótimo. – Respondo numa voz estrangulada, e guardo o telefone. – Está tudo... Bem.