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ATENÇÃO: Esta fic pode conter linguagem e conteúdo inapropriados para menores de idade então o leitor está concordando com os termos descritos.

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Visualizando o capítulo:

5. “A proposta, planos e o sonho”


Fic: Lágrimas da Lua


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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NA: Aí está o capítulo 5!


Esse capítulo é ótimo, quando eu li pela primeira vez, cai na gargalhada com a situação entre o Harry e a Hermione.


Comentem, para eu saber se tá bom ou ruim!!! :D


São 01:27 gente, quero saber se o meu estado zumbificado está valendo a pena ou essa adaptação é que está uma porcaria e eu  devo tomar vergonha na minha cara e desistir... (X_______X)'''


Vale qualquer coisa, do tipo...


Tá ruim, desiste. (dá um avada logo na cara, (risos))


Tá mais ou menos.(manda logo Emoticom confuso ou um crucio de leve, kkk!)


Continua está boa.( Esse tipo de comentário faz a autora ficar com uma carrinha assim...) -> (*---------------*) (...Toda boba, emotiva e super-feliz, kkkk!)


Vou parar de enrolar... Comenta aí galera!!!


Boa Leitura! :D


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CAPÍTULO CINCO : “A proposta, planos e o sonho”


 


Harry deixou o chá em enfusão, até ficar tão denso, que dava para dançar uma jiga em cima. Pegou os bolinhos do dia anterior, que trouxera do pub. Tinha uma hora até ter de sair para trabalhar.


Tencionava desfrutar do seu breve pequeno-almoço, enquanto lia o jornal, que pegara na aldeia, depois da missa. O rádio no balcão tocava músicas gaélicas tradicionais. Um fogo de turfa crepitava na lareira da cozinha. Para ele, era como um pequeno pedaço do paraíso. Dali a pouco estaria a cozinhar para as multidões do domingo, com Gina a entrar e sair da cozinha do Potter’s, reclamando sobre alguma coisa ou de outra. E uma pessoa ou outra apareceria para lhe dizer alguma coisa. Era bem provável que Luna passasse uma ou duas horas na cozinha, e ele trataria de que ela tivesse uma refeição farta e saudável.


Não se importava com nada disso. Nem um pouco. Mas se não arranjasse um tempo só para ele de vez em quando, tinha a sensação de que o seu cérebro poderia explodir. Imaginava-se vivendo no chalé pelo resto da sua vida, com o gato laranja mal-humorado deitado ao lado da lareira, uma manhã sossegada seguida a outra.


A sua mente vagueava ao som das gaitas e flautas que saía do rádio. O pé começou a bater no chão, marcando o ritmo. Quando ouviu o baque forte contra a porta dos fundos, o coração quase lhe saiu pela boca. A enorme cadela amarela sorria para ele, com a língua a pender para fora, as patas enormes comprimidas contra o vidro.


Harry balançou a cabeça, mas levantou-se para abrir a porta. Nunca se importava com a presença da Betty dos Granger. Era uma boa companhia. Depois de alguns afagos, iria enroscar-se num canto e mergulhar nos seus próprios sonhos.


 Bichento arqueou as costas e sibilou, mas isso era rotina, e não irritação genuína. Como a paciente Betty não reagia, o gato simplesmente levantou o rabo e tratou de se limpar com a língua.


– Veio me visitar de novo, hein? - murmurou Harry, enquanto deixava Betty entrar, acompanhada por um vento firme, que anunciava uma chuva iminente. - Será sempre bem-vinda para partilhar um pão e fogo... e não importa o que aquele demônio ali pense sobre isso. Quando já ia fechar a porta de novo, ele avistou Hermione.


 A sua primeira reação foi uma vaga irritação. Afinal, Hermione não se contentaria com alguns afagos e exigiria uma conversa. Mas manteve a porta aberta, observando, o corpo interpondo-se entre o vento e o calor. Uns poucos fios de cabelos haviam-se soltado do boné e esvoaçavam em torno do rosto, castanho-claros brilhando como o mel. Hermione mantinha os lábios contraídos, levando-o a especular se ele - ou qualquer outra pessoa - havia feito algo para irritá-la. O que era fácil de acontecer, concluiu Harry, agora que pensava a respeito disso.


 De qualquer forma, era uma boca bonita, quando se encontrava tempo para a contemplar. Para uma mulher pequena, ela tinha passadas largas, observou Harry. E determinadas. Andava como se tivesse alguma coisa para fazer e quisesse acabar com aquilo o mais depressa possível. Conhecendo muito bem a Granger, ele não tinha a menor dúvida de que ela lhe diria qual era o problema, da forma mais sucinta possível.


Hermione contornou a plantação de ervas, que ele estava a pensar em expandir para uma horta completa. O vento pusera um pouco de cor no seu rosto. Por isso, quando ergueu a cabeça para o fitar, ela exibiu as faces rosadas.


- Bom dia para você, Hermione. Se saiu para dar um passeio com a sua cadela, parece que ela já se cansou. Entrou para se deitar por baixo da mesa.  O Bichento resolveu ignorá-la, como se ela não valesse o seu tempo.


- Ela é que quis passear comigo.


- Posso imaginar. E se andasse de vez em quando, em vez de marchar, acho que a Betty poderia fazer-te companhia por mais tempo. Entra e sai do vento. - Harry começou a recuar, quando ela alcançou o alpendre dos fundos. Parou de repente e inspirou. Não pôde deixar de sorrir. - você tem o cheiro de flores e graxa de eixo ou algo parecido.


- É óleo de carburador e o que restou do perfume com que a Alice me impregnou esta manhã.


- Uma combinação e tanto. - E típica de Hermione Granger, pensou Harry, enquanto ela entrava no chalé. - Quer um chá?


- Quero. Hermione tirou o casaco e pendurou-o num cabide. Depois, um pouco atrasada, lembrou-se do boné, e tirou-o também. Harry sentia sempre uma pequena contração no estômago ao contemplar aqueles cabelos a derramarem-se. O que era um absurdo. - pensou ele enquanto pegava no bule. - Sabia que os cachos castanhos estavam ali, por baixo daquele boné azul horrível. Mas cada vez que Hermione os deixava cair, era uma nova surpresa. - Tenho bolinhos.


- Não quero, mas obrigada. – Hermione teve vontade de limpar a garganta, que parecia coberta por alguma coisa grossa e quente. Em vez disso, sentou-se à mesa, empurrando a cadeira para trás. Decidira, enquanto caminhava, fazer tudo da forma mais descontraída que pudesse. - Queria saber se você vai querer que eu dê uma olhada no seu carro esta semana. Da última vez em que o ouvi, parecia estar prestes a emperrar.


- Não me importaria, se tiver tempo. Ele observou Bichento aproximar-se, para se esfregar nas pernas de Hermione, e depois pular para o seu colo. A Granger era a única pessoa que o gato apreciava. Harry concluíra que era pelo fato de serem ambos mal-humorados.


- Não vai estar ocupada na casa, renovando o quarto para o bebê da Luna?


Hermione afagou a cabeça de Bichento, que ronronou como um comboio de carga.


- Tenho tempo suficiente. Harry sentou-se no outro lado da mesa. Betty levantou-se, suplicando por um pedaço de bolo, que ele lhe deu.


- Como vão as coisas? Ele decidiu que até era agradável, no final de contas, sentar-se com Hermione na cozinha aquecida, em companhia dos animais.


- Muito bem. A maior parte do que a Luna quer não é uma obra grande, serve apenas para ajeitar e embelezar. Mas ao melhor estilo das mulheres, ela já começou a pensar que os outros quartos vão parecer vergonhosos assim que o do bebê fique pronto. E agora quer renovar também o quarto principal.


- O que há de errado com ele? – Hermione encolheu os ombros.


- Nada que eu possa ver. Mas a Luna e a Gina já descobriram uma dúzia de coisas para mudar. Papel de parede novo, outra pintura para os remates, lixar o soalho. Comentei de passagem que a vista das janelas da frente era maravilhosa. A Luna disse no mesmo instante que gostaria de ter um banco perto da janela. Respondi que seria bem simples fazê-lo. E antes que eu pudesse pestanejar, ela pediu-me para fazê-lo. Distraída, Hermione pegou em metade de um bolinho e deu uma mordidela.


- Aposto que o pai e eu teremos de mexer em todas as divisões daquela casa, de alto a baixo. Agora que a Luna tomou o gosto. Acho que é como arrumar o ninho.


- Se isso lhe agrada, e o Rony não se importa... Harry parou de falar, tentando imaginar como seria a vida no meio de todo o barulho de martelos e serrotes. Preferia ser assado vivo em fogo lento.


- Se ele se importar? – Hermione soltou uma gargalhada desdenhosa. - O Rony apareceu durante uma das nossas discussões. Limitou-se a sorrir, como um idiota. Está completamente apaixonado. Se a Luna dissesse que deveriam virar a casa para o outro lado, ele não hesitaria em concordar. - Ela suspirou e tomou um gole do chá, antes de murmurar: - É lindo ver aqueles dois juntos.


- A Luna era o que o meu irmão esperava. - Harry balançou a cabeça, diante do olhar perplexo de Hermione. - Claro que ele estava à espera. Bastava observá-lo para perceber. Quando a Luna entrou no pub, naquela primeira noite, foi o momento da decisão. A vida mudou a partir daquele instante, embora nenhum dos dois soubesse disso na ocasião.


- Mas você sabia? -perguntou ela.


- Não posso dizer que sabia com precisão. Apenas pressenti que tudo mudaria.


 Intrigada, Hermione inclinou-se para frente. - E você, o que está esperando?


- Eu? - Harry franziu as sobrancelhas. - Gosto das coisas como estão.


- É esse o seu problema, Harry. – Hermione espetou um dedo nele. - Caminha pela mesma linha até que se torne uma rotina. Nunca percebe, porque vive com a cabeça nas nuvens.


- Se é uma rotina, é minha, e me sinto bem nela.


- O que precisa mesmo é  assumir o comando. - Ela se lembrou das palavras do pai. - E avançar. Se não avançar, ficará sempre no mesmo lugar.


Com olhos suaves e divertidos, Harry pegou no seu chá. - Mas gosto de como está.


- Eu estou pronta para mudar, para avançar. - Os olhos estreitaram-se enquanto o estudava. - E não me importo de assumir o comando, se é assim que tem de ser.


- E desta vez pretende assumir o comando de quê?


- De você. - Ela recostou-se, ignorando o sorriso de Harry, enquanto tomava um gole do chá.


- Acho que devemos fazer sexo. Harry engasgou-se. Derramou o chá quente na mão e no jornal, num violento ataque de tosse.


Ela soltou um grunhido contrariado. Pôs no chão o irritado Bichento, para se levantar e bater com firmeza nas costas de Harry.


- Não pode ser uma perspectiva assim tão terrível.


- Jesus! - Foi o máximo que ele conseguiu balbuciar. - Doce Jesus Cristo! – disse ele quando Hermione voltou a se sentar, ele continuou a fitá-la com os olhos esbugalhados, ainda lacrimejando. No final, respirou fundo e soltou o ar devagar.


- Como pode dizer uma coisa dessas?


 - É simples e objetivo.


Determinada a controlar os nervos e a impetuosidade, Hermione estendeu o braço por cima do encosto da cadeira. - A verdade é que sinto algum desejo por você. Um anseio profundo. E já há algum tempo. - Desta vez ele ficou boquiaberto.


O choque no seu rosto fez com que a fúria de Hermione se aproximasse da superfície. - Em que está pensando? Que só os homens podem se mexer quando sentem um frenesi?


Claro que Harry não pensava assim. Mas também não achava que uma mulher pudesse entrar assim na cozinha de um homem e fazer um anúncio desse tipo.


- O que pensaria a sua mãe se te ouvisse falando assim? – Hermione inclinou a cabeça.


- Ela não está aqui, está?




 Harry empurrou a cadeira para trás, de uma forma tão abrupta que fez Betty levantar-se de um pulo. Como nenhum dos pensamentos que se agitavam na sua cabeça parecia querer se acalmar, ele encaminhou-se para a porta.


- Preciso de um pouco de ar fresco.


Por um momento, Hermione continuou sentada. Ordenou a si mesma que respirasse devagar, bem fundo, até ter a certeza de que poderia manter o controle. Que seria razoável, madura e lúcida.


 A razão lutou contra a raiva por quase dez segundos, antes de meter o rabo entre as pernas e abandonar o campo de batalha. A desfaçatez do homem! O descaramento! O que era ela afinal, alguma espécie de gárgula que um homem nem podia pensar em acariciar?


 Precisaria desfilar de saia curta, com o rosto todo pintado, para que Harry Potter percebesse que ela é uma mulher? Não faria isso de forma alguma!


Hermione levantou-se e saiu pela porta, avançando contra o vento.


- Se não está interessado, tudo bem. Basta dizer.


Ela alcançou-o. Parou diante dele, que resolveu o problema ao virar-se e caminhar na direção inversa. E poderia considerar-se um homem de sorte porque Hermione não tinha uma arma na mão.


- Não se afaste de mim dessa maneira, seu covarde miserável! - Ele olhou para trás, com os olhos verdes a faiscar.


- Deveria ter vergonha de si mesma. Harry voltou a virar o rosto e continuou a andar. Sentia-se mortificado, até aos ossos. E que Deus o ajudasse, porque também... Sentia-se excitado. Recusava-se a pensar em Hermione dessa maneira. Sempre se recusara. E, se uma ou outra vez os seus pensamentos se desviaram dessa direção,  Não se apressara em interrompê-los, com firmeza e rapidez? Era o que faria agora.


- Vergonha? - A voz dela era agressiva como um punho a golpear. - Quem é você para decidir o quê devo ter vergonha?


 - Sou o homem a quem acaba de se oferecer, com a mesma facilidade de quem oferece uma cerveja e um prato de batatas fritas.


Hermione alcançara-o de novo, mas as palavras deixaram-na atordoada, drenaram toda a cor do seu rosto.


- É isso o que você pensa? Que não há mais nada além disso? Nesse caso, é você quem deveria sentir vergonha. Harry percebia a mágoa nos seus olhos, o que aumentava ainda mais a confusão em que se sentia emaranhado.


- Hermione, você não pode sair por aí dizendo a um homem que quer fazer sexo com ele. Não está certo.


- Mas está certo um homem dizer isso a uma mulher?


- Não. Também não acho correto. É um... Deveria ser... Santa Mãe de Deus... Não posso ter uma conversa dessas contigo. É quase da família!


 - Porque os homens que conheço não podem falar de sexo como uma função humana normal? E eu não sou da sua família.


Poderia ser covardia, mas era também uma questão de prudência. Ele deu um passo para trás.


- Fica longe de mim.


- Se não quer ir para a cama comigo, basta dizer que não sente a mínima atração por mim dessa forma.


- Eu não penso em você dessa forma. - Harry deu outro passo para trás, pisando o pequeno canteiro de ervas. - É praticamente minha irmã.


Hermione mostrou os dentes, um sinal infalível de explosão de raiva prestes a ocorrer. - Mas eu não sou sua irmã, não é mesmo?


O vento fez os cabelos de Hermione esvoaçarem, deixando Harry com vontade de pegar neles... Algo que poderia ter feito numa centena de outras ocasiões, em que seria um gesto inofensivo. Agora, ele tinha receio, nada mais entre os dois voltaria a ser inofensivo.


- Não, não é minha irmã. Mas tenho pensado em você... Tenho tentado pensar... Como minha irmã, durante a maior parte da minha vida. Como espera que eu mude de repente e... Não posso fazer isso. - Harry sentiu que o seu sangue recomeçava a ferver. - Não está certo.


- Se não quer fazer sexo comigo, o problema é seu. – Hermione balançou a cabeça, com absoluta frieza. - Outros vão querer. Com isso, ela virou-se e começou a marchar de volta para casa.


- Ei, espera aí! - Harry era capaz de se movimentar depressa quando era necessário. Segurou Hermione pelo braço antes que ela desse três passos. Virou-a e segurou também o outro braço, com firmeza.


- Se pensa que vou te deixar ir embora com isso na cabeça, está muito enganada. Não vou admitir que se ofereça a qualquer homem só porque está zangada comigo.


O brilho nos olhos de Hermione deveria ser aviso suficiente, mas a sua resposta saiu tão calma, tão fria, que ele não notou.


- Você acha que é o máximo, Harry Potter. Se eu quiser ir para a cama com um homem, pode ter a certeza de que irei. E você não vai poder dizer nada. Pode ser um choque para você, mas já fiz sexo antes, e gostei. Farei de novo, quando tiver vontade.


Foi como se ela tivesse acertado com um martelo na barriga de Harry.


- Você... quem...


- É um assunto que diz respeito apenas a mim. - interrompeu Hermione, com uma expressão presunçosa. - Não é da sua conta. E, agora, quero que me largue. Não tenho mais nada a dizer.


- Pois eu tenho muito mais a dizer! Só que ele não conseguia pensar em nada, não com a imagem de Hermione abraçada a um homem sem rosto a arder no seu cérebro. Ela inclinou a cabeça para trás e voltou a fitá-lo nos olhos.


- Quer ou não fazer sexo comigo?


Verdade ou mentira? Harry pensou que qualquer resposta o enviaria diretamente para o inferno. - Mas achou que a mentira era mais segura. - Não.


- Nesse caso, acabou. Humilhada e furiosa, ela empurrou-o.


Depois... talvez fosse por orgulho, ou apenas por necessidade, mas ela agiu antes de pensar. Num salto ágil, estava nos braços de Harry, as pernas a envolvê-lo pela cintura, a boca a fundir-se com a dele. Teve a impressão de ouvir Betty latir... uma vez, duas, três, em rápida sucessão, quase como uma gargalhada. Agarrava-se como um carrapicho, enquanto Harry cambaleava.


Deu uma mordidela, não muito leve, no seu lábio inferior. Alguém gemeu, e ela não sabia nem se importava quem fora. Despejou tudo o que sentia naquele encontro ardente dos lábios.


Hermione apanhara-o de surpresa. Era por isso que ele não se desvencilhava. Claro que era. Era apenas uma reação instintiva ao contato com aquele bumbum maravilhosamente firme em suas mãos, que logo subiram pelas costas de Hermione e se perderam nos seus cabelos. E sentiu um choque no momento em que inspirou. Não era culpa sua que a fragrância intensa dos cabelos dela o envolvesse por completo, deixasse a sua cabeça girando. Tinha de parar. Pelo bem de Hermione, tinha de parar agora... Só mais um pouco. Mais cedo ou mais tarde.


O vento açoitava-os em rajadas frias. O sol escondeu-se por trás das nuvens, deixando na sua esteira uma claridade frágil e tremeluzente. Uma chuva fina começou a cair. Harry sentiu o sangue quase a esvair-se da sua cabeça, deixando-a vazia... a não ser pela imagem de levar Hermione no colo para o chalé, subir as escadas, largá-la na cama, e saborear ainda mais. Mas nesse instante ela soltou-o, voltou a pôr os pés no chão.


Embora o desejo turvasse os seus olhos cor de âmbar, Harry ainda pôde ver a expressão desdenhosa que ela exibiu.


- Pensei que você deveria ter uma amostra do que rejeitou. Enquanto ele permanecia imóvel, tão excitado que nem conseguia falar.


Hermione sacudiu a manga da sua camisa xadrez azul-marinho.


 - Eu dou uma olhada no teu carro quando tiver um tempo livre. É melhor descer já para a aldeia. Já está atrasado.


Harry não disse nada, enquanto ela se afastava. Continuava parado, sob a chuva fina, quando Hermione e a cadela amarela desapareceram ao longe.


 




No Potter’s Pub.


- Está atrasado - disse Rony, no instante em que Harry passou pela porta da cozinha do pub.


- Então pode me despedir ou sair da minha frente.


Rony alteou as sobrancelhas, diante da inesperada resposta rígida. Observou Harry a abrir o frigorífico, e a começar a tirar os ovos, o leite e a carne.


- É difícil despedir um homem que tem uma participação na firma igual à minha. Harry bateu com uma panela no fogão.


- Então compra a minha parte. Porque não faz isso?


Quando Gina entrou na cozinha, Rony ergueu a mão, balançou a cabeça, e fez sinal para que ela recuasse. Gina não ficou nada satisfeita, mas obedeceu.


 - Qual é o problema?


- Não há problema nenhum. Apenas tenho coisas na cabeça e trabalho para fazer.


- Pelo que sei, nunca foi incapaz de falar e trabalhar ao mesmo tempo.


- Não tenho nada para dizer, e preciso preparar um pastelão de carne. Mas, afinal, que raio se passa com as mulheres? - Ele virou-se, olhando para o irmão com o rosto franzido.


- Primeiro é uma coisa, depois outra, e nunca se sabe o que vão fazer em seguida.


- Ah, isso... A preocupação de Rony transformou-se em divertimento. Ele serviu-se de chá e encostou-se ao balcão, enquanto Harry continuava a trabalhar e resmungar.


- Podemos conversar durante o dia inteiro e metade da noite, Harry, sem sequer chegarmos perto de resolver esse enigma. O problema é complexo demais. Mas não concorda que é mais agradável ter uma mulher a causar problemas do que não ter mulher alguma?


- Neste momento, não, não acho. - Rony riu.


 - Qual delas te deixou tão angustiado?


 - Ninguém. Não houve nada. É tudo ridículo.


- Hum... se não quer dizer. - Rony tomou um gole de chá, enquanto considerava a situação. - Nesse caso, deve ser muito sério.


- É fácil para você sorrir, com essa expressão presunçosa. - A voz de Harry tinha uma irritação amargurada.


- Só porque está muito feliz com a tua Luna Lovegood.


- É verdade. - Rony balançou a cabeça. - Mas nem sempre foi assim, e você me deu um bom conselho quando eu estava desesperado. Talvez devesses encontrar tempo para dar os conselhos a você mesmo, se não quiser ouvi-los de mim.


- Não quero uma mulher na minha vida neste momento - murmurou Harry. - Muito menos esta em particular.Não quero sequer saber.


Ele tentou não pensar naquele beijo ardente e frenético, no modo como o corpo compacto de Hermione se comprimira contra o seu. - De forma alguma! - Reiterou ele.


Harry ajustou o fogo sob a panela da carne, enchendo-a com movimentos rápidos.


- Sabe melhor do que ninguém, o que te convém e o que não te convém.  Posso apenas te dizer que vai chegar um momento em que a cabeça vai estar te dizendo uma coisa, mas o resto de ti não vai querer ouvir.  Um homem pode tornar-se uma criança quando se trata de uma mulher, querendo o que não deve ter e pegando mais do que aquilo com que pode lidar. Saber que uma coisa não é boa para você não te impede de querê-la.


- Eu não seria bom para ela. - Mais calmo agora, Harry pegou numa tigela para preparar a massa do pastelão. - Mesmo que não houvesse outros fatores envolvidos, eu não seria bom para ela. Ponto final.


Com a farinha de trigo e a água misturadas numa massa firme, ele cobriu a tigela e guardou-a no frigorífico. - Também vou fazer bolinhos - declarou Harry, enquanto misturava manteiga e banha para a próxima fase do pastelão. - E tenho guardado em potes de conserva funcho- marítimo que o jovem Brian Duffy colheu para mim. Vou servi-lo juntamente com o salmão que comprou esta manhã. Diz à Luna para ela aparecer, que eu faço um prato especial.


- Está bem. Obrigado. E Harry... - Rony parou de falar quando Gina voltou a passar pela porta, com uma expressão magoada.


- Você pede para eu descer mais cedo e depois me expulsa da cozinha. Se vocês dois vão ficar trancados aqui contando segredinhos de homens, vou subir para pintar as unhas, já que só abrimos daqui a uma hora.


-Me deixa te servir uma caneca de chá, querida, já que abusei de ti de uma forma tão lamentável. - Rony tocou levemente no rosto da irmã e depois puxou uma cadeira, com um floreio, para que ela se sentasse.


- Vou tomar o chá, mas também quero biscoitos para acompanhar. Gina cruzou as mãos sobre a mesa depois de se sentar, lançando um olhar desafiante a Rony.


- Muito bem, os biscoitos. - Ele pegou numa lata e a colocou na frente da irmã.


- Preciso conversar com vocês dois, já que envolve o pub.


- Então vais ter de falar enquanto eu trabalho. Harry tirou a tigela do frigorífico e começou a amassar a massa com o rolo. - Porque chegaste atrasado, não é assim? - Murmurou Rony, jovial. – Vocês lembram-se do Draco Malfoy, aquele homem de Nova Iorque? Ele está interessado na ideia de ligar ao Potter’s o teatro que planeja construir aqui. Pensei em arrendar-lhe o terreno, num contrato de longo prazo, mas ele quer comprar. Se vendermos, ficamos sem o terreno, e sem qualquer controle que pudéssemos vir a ter sobre o teatro.


- Quanto ele quer pagar? - Perguntou Gina, mordendo um biscoito. - Por enquanto, não entramos em detalhes mais concretos sobre as condições. Mas tenho a impressão de que ele aceitará o que pedirmos. Preciso telefonar ao pai e à mãe, mas o pub está em nossas mãos agora, para decidirmos tudo.


 - Se ele pagar bem, acho que devemos vender. Nunca usamos aquele terreno para nada.


- Mas é nosso terreno - declarou Harry, olhando para Gina, enquanto cobria o retângulo de massa com a mistura de banha e manteiga. - Nosso terreno. Sempre foi nosso.


- E o dinheiro também será. Dinheiro nosso.


- Tenho pensado muito nos dois lados. - Rony contraiu os lábios, enquanto girava a caneca de chá.


- Se não quisermos vender, o Pettigrew poderá encontrar outro terreno para o seu projeto. E o teatro pode beneficiar o pub, se tivermos alguma ligação.


O Malfoy me parece muito inteligente. Já lhe disse que prefiro negociar pessoalmente, em vez de usar apenas o telefone. Mas ele diz que não pode viajar neste momento. Tem outros negócios em andamento e não se pode ausentar enquanto não concluir tudo.


- Então me mande para Nova Iorque. - Gina bateu as pestanas muito pretas, realçadas pela mascara de cílios preta. - E vou usar toda a minha sedução para que ele abra a carteira.


Rony assobiou. - Não creio que a sedução funcione com um homem assim.


Em minha opinião, só o dinheiro lhe interessa. Estou pensando em pedir ao pai para dar um pulo até Nova Iorque e se encontrar com Malfoy.


Afinal, o pai é tão esperto como qualquer negociante ianque. Mas, antes de fazer isso, precisamos decidir o que queremos nós três desse negócio.


 - Lucro - respondeu Gina sem hesitar, enquanto acabava de mastigar o biscoito.


- Claro que isso também, mas que mais, em longo prazo?


- Reputação - declarou Harry. Quando Rony o fitou, ele explicou: - Temos trabalhado durante os últimos anos para transformar o Potter’s num centro de música. Não conseguimos incluir o pub nos guias turísticos, como um lugar de boa comida e bebida, com a melhor música da região, que nós mesmos tocamos ou contratando outros? Não há bandas ou agentes das mesmas a telefonar-te constantemente para falar sobre apresentações aqui?


- É verdade - confirmou Rony. – Temo-nos saído muito bem nessa área. - Se esse tal de Malfoy está pensando em expandir as apresentações de música em Ardmore, isso pode atrair mais turistas, mais clientes, aumentando a nossa reputação.


Harry dobrou a massa em três, fechou as extremidades e voltou a colocá-la no frigorífico. - Mas tem de ser feito à maneira dos Potter, certo?


Rony recostou-se na cadeira, enquanto Harry levava as batatas do depósito para a pia, começando a lavá-las.


- É uma constante surpresa para mim, Harry. Tem toda a razão. À maneira dos Potter, ou nada feito. O que significa tradicional, moderado e irlandês. Não queremos nada espalhafatoso e absurdo vinculado ao nosso pub.


- O que significa que tem que o convencer de que precisamos trabalhar em conjunto - acrescentou Harry. - Já que conhecemos Ardmore e Old Parish, enquanto ele não conhece.


- A nossa participação é indispensável - declarou Rony. - E teremos uma percentagem do teatro. Essa é a minha ideia. Quero transmitir tudo ao pai e pedir-lhe que converse com o Malfoy, em Nova Iorque.


Gina tamborilou com os dedos sobre a mesa. - Ou seja, venderemos o terreno pelo nosso preço ou faremos um arrendamento de longo prazo, sob a condição de termos uma participação no prédio, no planejamento e nos lucros.


 - Muito bem resumido. - Rony piscou o olho à sua irmã. Gina tinha mesmo um cérebro arguto e frio para os negócios. - É a maneira dos Potter. - Ele levantou-se, indagando: - Estamos de acordo?


 - Concordo - respondeu Gina, pegando outro biscoito. - Vamos  ver se esse Malfoy nos pode deixar ricos.


 Harry colocou as batatas na água a ferver. - Também concordo. Agora, quero que os dois saiam da minha cozinha.


- Com todo o prazer. Gina atirou um beijo galante a Harry e saiu, já a sonhar com a forma como gastaria o dinheiro do ianque. Uma vez que considerava que Rony tinha tudo sob controle, Harry não voltou a pensar na venda do terreno, na construção do teatro e na participação nos lucros.


Preparou os pratos que planejara, mantendo a cozinha quente e impregnada dos aromas deliciosos quando o pub abriu as portas. Começou a preparar os pedidos, entrando na rotina sem qualquer dificuldade. Mas a música que sempre ressoava na sua cabeça insistia em esquivar-se. Imaginava uma melodia enquanto trabalhava e deixava que as notas e o ritmo seguissem o seu caminho.


 Mas de repente voltava à chuva fina, com Hermione a envolvê-lo, e a única música que restava agora era o zumbido do seu próprio sangue. E isso não lhe agradava nem um pouco. Hermione era sua amiga, e um homem não poderia pensar numa amiga dessa forma. Mesmo que ela tivesse começado tudo. Crescera a zombar dela, como se fosse sua irmã. Sempre que a beijava, o que acontecera muitas vezes, era um beijo fraternal. Como poderia voltar a essa situação, agora que sabia qual era o sabor de Hermione? Quando sabia como as bocas se ajustavam uma à outra e quanto... quanto calor havia dentro daquela embalagem pequena? E como poderia livrar-se da intensa e ardente consciência do seu corpo, algo que ele nunca pedira? Hermione não era o seu tipo... nem de longe. Apreciava as mulheres macias, bem femininas, que gostavam de fazer flerte e aconchegar-se. E, acima de tudo, mulheres que o deixassem tomar a iniciativa. Afinal, ele não era um homem? E um homem deveria usar o romance para levar uma mulher para a cama, não ouvir que deveria ir porque ela sente... como foi que Hermione lhe havia dito? Um anseio. Um frenesi. Mas ele não seria o frenesi de ninguém, disse a si mesmo. E disse também que se manteria a uma boa distância de Hermione Granger, por um bom tempo. E não ficaria na expectativa de ver aquele boné horrível ou ouvir a sua voz, cada vez que saísse da cozinha para o pub. Ainda assim, os seus olhos esquadrinharam a multidão, os ouvidos aguçaram-se. Mas Hermione não apareceu no Potter’s naquela noite de domingo.


Harry fez o seu trabalho, e aqueles que o experimentaram, durante a noite, voltaram para casa de barriga cheia e em profunda satisfação. Depois de arrumar a cozinha, foi a sua vez de voltar para casa. Só que sentia a barriga vazia, apesar da refeição que tivera, e a satisfação parecia muito distante. Tentou de novo perder-se na música e passou quase duas horas ao piano. Mas as notas pareciam, de alguma forma, amargas, as melodias dissonantes. A determinada altura, quando os dedos deslizavam sobre as teclas e sacudia a cabeça porque os acordes não lhe proporcionavam qualquer prazer, sentiu uma mudança no ar. A mais tênue palpitação de movimento e som. Mas, quando levantou os olhos, não havia nada ali, apenas a sala do chalé, e o vão da porta que levava ao corredor.


- Sei que está aqui. - Harry falou baixinho. Esperou um pouco. Não houve resposta.


- O que quere que eu saiba? Enquanto o silêncio se prolongava, ele levantou-se para apagar o fogo, ouvindo o sussurro do vento. Embora tivesse a certeza de que se sentia nervoso demais para dormir, subiu e preparou-se para se deitar. Quase no mesmo instante em que a cabeça se encostou à travesseira, ele mergulhou num sonho com uma mulher adorável, parada no jardim, com o luar a pratear os seus cabelos dourados. As asas do cavalo branco agitavam o ar, aquietando-se no momento seguinte, quando os cascos tocaram no chão. O cavaleiro só tinha olhos para a mulher. Quando desmontou, o saco de prata na sua mão faiscava, irradiando luz, como se fossem pequenas chamas. E aos pés da mulher ele despejou as pedras da lua, com seus reflexos azulados, como os reflexos da luz pura do luar refletidos no mar. Mas a mulher virou-se, nem sequer olhou para a beleza deslumbrante das pedras. Por trás do movimento amplo da sua camisola, as pedras da lua desabrocharam em flores, que faiscaram como fantasmas na noite. E naquela noite, cercado pelas flores que o luar banhava, Harry avançou em direção à mulher. Os cabelos loiros que caiam lisos transformaram-se em castanho-claros caindo em cachos, os olhos azuis suaves tornaram- se penetrantes na cor mel, como a gema âmbar. Foi Hermione quem ele puxou para os seus braços, foi Hermione quem ele abraçou. No sonho, onde não há lugar para a razão e a lógica, foi Hermione quem ele saboreou.


 


(Fim do capítulo).


 

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