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2. "Lady Gwen"


Fic: Lágrimas da Lua


Fonte: 10 12 14 16 18 20
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Na:Aí está o Segundo capítulo! Se a História não estiver agradando, por favor, comentem que eu abandono e vou em busca de algo melhor...


Espero que gostem, eu particularmente acho essa a história mais divertida entre as três da Trilogia a última história,  "coração do mar" só vou adaptar depois de terminar "Diamantes do sol e Lágrimas da lua".


(são uns nomes meio piegas, mas tem haver com a lenda por trás da história e tal... é legal :D )


 


Boa leitura!


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CAPÍTULO DOIS:"Lady Gwen"


 


Como fazia frio e o vento soprava forte, Harry optou por preparar um mulligan, um cozido com vários ingredientes disponíveis. A manhã sossegada na cozinha do pub era um dos seus momentos prediletos. Enquanto cortava os legumes e dourava pedaços de cordeiro, ele desfrutava dos últimos minutos de solidão, antes que o pub abrisse as portas. Dali a pouco, Rony estaria a perguntar se ele fizera isto ou aquilo, se já tratara de alguma coisa. Depois, Gina começaria a movimentar-se lá em cima, os passos a ressoar pelo soalho, o eco da música mais condizente com o seu ânimo naquele dia a descer pela escada dos fundos. Mas, por enquanto, o Potter’s era todo seu.


Harry não queria a responsabilidade de dirigi-lo. Preferia deixar isso para Rony. Sentia-se grato por ser o segundo filho. Mas o pub era importante para ele, uma tradição que passava de geração para geração, desde que Shamus Potter, juntamente com a mulher, construíra o prédio na Baía de Ardmore e abrira as portas para oferecer hospitalidade, abrigo e bom uísque. Ele nascera filho de comerciante e compreendia que o trabalho ali era proporcionar conforto a todos os que entrassem no pub . Ao longo dos anos, o Potter’s passara a significar conforto para todos que o conheciam. Tornara-se famoso também pela sua música, o chamado seisiun , uma reunião informal de músicos tradicionais. Apresentava ainda espetáculos mais estruturados, com músicos contratados de todas as partes do país.


O amor de Harry pela música viera por meio do pub, ou seja, pelo sangue. Era parte dele tanto quanto os olhos verdes, ou o jeito do seu sorriso. Havia poucas coisas de que ele gostava mais do que trabalhar na cozinha ouvindo a música que alguém tocava no pub.


 É verdade que havia ocasiões em que se sentia compelido a largar o que fazia e a participar na música. Mas que mal havia, se todos acabavam por receber o que pediam, mais cedo ou mais tarde? Era raro - não impossível, mas raro - que ele deixasse alguma comida queimar na panela ou permitisse que um prato fosse servido frio. Afinal, orgulhava-se da sua cozinha e de tudo o que dela saía. Agora, o vapor começava a elevar-se da panela, impregnando o ar com um aroma apetitoso, enquanto o caldo engrossava. Harry acrescentou manjericão e alecrim, da horta que fizera. Era uma ideia nova usar aquelas ervas que ele cultivava; inspiração de Miranda Granger. Ele considerava-a a melhor cozinheira da paróquia. Também acrescentou manjerona, mas essa foi tirada de um pote. Tencionava plantá-la, usando o que Luna dissera ter o nome de growlight , uma lâmpada fluorescente que ajudava certas plantas a crescer. Depois de satisfeito com a mistura de ervas, verificou os outros pratos no cardápio. Começou a cortar repolho para a salada, que preparava aos quilos. Ouviu os primeiros passos lá em cima, depois a música. Música britânica hoje pensou Harry, reconhecendo a sucessão hábil e sofisticada das notas. Satisfeito com a escolha de Gina, ele cantou em conjunto com Annie Lennox, até que Rony entrou na cozinha. Ronald tinha vestida uma grossa camisona de pescador para se proteger do frio.  Rony era mais alto do que o irmão, com os ombros mais largos, olhos azuis (herdados do pai deles, que era um homem de tez branca, alto de olhos azuis e cabelos negros). Os cabelos eram de uma tonalidade de vermelho brilhante (herdados da mãe ruiva de olhos extremamente verdes), com reflexos loiros ao sol.


Embora o rosto de Harry fosse mais enxuto, cabelos negros, os olhos de um tom de verde brilhante, os genes da família ainda predominavam. Ninguém que os observassem com atenção e os vissem juntos duvidaria de que eram irmãos.


Rony alteou uma sobrancelha. - Do que você está rindo?


 - De Você. - respondeu Harry, descontraído.


- Tem a expressão de um homem contente e satisfeito.


- E porque não deveria ter?


- Tens razão. – Harry despejou do bule para uma caneca, o chá que já preparara.


- E como se sente a nossa Luna esta manhã?


- Sentiu náuseas assim que se levantou, mas parece não se importar. - Rony bebeu um gole do chá. Soltou um suspiro. - Não me envergonho de dizer que sinto o estômago dar voltas ao vê-la empalidecer no instante em que sai da cama. Depois de uma hora, mais ou menos, ela volta ao normal. Mas é uma hora longa para mim.


Harry encostou-se ao balcão, também com uma caneca nas mãos.


- Não gostaria de ser mulher por nenhuma quantia de dinheiro do mundo. Quer que eu lhe leve o guisado para ela mais tarde? Ou talvez uma canja, se ela se sentir melhor com alguma coisa mais leve.


- Acho que ela pode aguentar o guisado. Tenho a certeza de que ficará agradecida... e eu também.


- Não há problema. Estou a fazendo um guisado mulligan, como prato do dia. Estou pensando em fazer também um pudim de pão e manteiga. Pode acrescentá-lo ao prato do dia.


O telefone começou a tocar. Rony revirou os olhos. - Espero que não seja o distribuidor avisando que temos outro problema. O nosso estoque de cerveja amanteigada preta é menor do que me agrada. E isso, pensou Harry, enquanto o irmão deixava a cozinha para atender ao telefone, era apenas um dos muitos motivos pelos quais se sentia contente em deixar que Ronald cuidasse da parte dos negócios no pub. Todos aqueles cálculos e planejamento pensou Harry, enquanto refletia sobre quantos quilos de peixe ele precisaria para fazer face ao movimento do dia. E Rony ainda tinha de lidar com as pessoas, argumentar, exigir, insistir. Não era apenas ficar de pé no outro lado do balcão, a encher canecas e a ouvir o velho Sr. Riley contar uma história. Havia outras coisas a considerar, como registros bancários, despesas gerais, taxa de manutenção e impostos. Era suficiente para deixar qualquer um com dores de cabeça, só de pensar nisso. Harry verificou o guisado. Mexeu uma vez rapidamente a enorme panela, depois foi até à escada dos fundos e chamou Gina, gritando para que deixasse de ser preguiçosa e descesse rapidamente. Falou assim por hábito, sem qualquer irritação. O insulto que ela gritou em resposta foi da mesma espécie. Satisfeito com o começo do seu dia, Harry deixou a cozinha, a fim de ajudar Rony a tirar as cadeiras de cima das mesas, como preparativo para o primeiro turno. Mas Rony estava parado ao lado do balcão, o rosto franzido, o olhar perdido no espaço. - Problemas com o distribuidor?


- Não, não foi isso. - Ronald olhou para o irmão. - Era uma ligação de Nova Iorque. Um homem chamado Draco Malfoy.


- Nova Iorque? É estranho, porque lá ainda nem são cinco horas da manhã.


- Eu sei. Mas o homem parecia bem desperto e sóbrio. – Rony coçou a cabeça. Sacudiu-a. Levantou a caneca com o chá. - Ele quer montar um auditório em Ardmore. - Um auditório? - Harry pôs a primeira cadeira no chão. Apoiou-se nela. - Para funcionar como cinema?


- Não. Para música... Música ao vivo. Talvez também apresente algumas peças de teatro. Disse que me estava a telefonar porque soubera que o Potter’s era o centro musical aqui. Queria a minha opinião acerca disso.


Pensativo, Harry pôs outra cadeira no chão. - E o que você disse?


- Não tinha nada para dizer, já que fui apanhado de surpresa. Pedi que me desse um ou dois dias para pensar sobre isso. Ele vai ligar-me de novo no fim-de-semana.


- Porque pensaria um homem de Nova Iorque em construir um auditório aqui? Não pensaria logo em Dublin? Ou então em Clare ou Galway?


- Foi parte do meu argumento. - Explicou Rony. - Ele não se mostrou uma grande fonte de informações, mas deixou bem claro que queria esta área em particular. Comentei que talvez ele não soubesse que somos apenas uma aldeia de pescadores, não mais que isso. Claro que temos turistas nas praias, enquanto outros vêm visitar a catedral de São Declan, tirar fotos, essas coisas. Mas não se pode dizer que temos por aqui uma multidão animada. Rony encolheu os ombros, enquanto contornava o balcão para ajudar Harry a arrumar as mesas.


- Ele limitou-se a rir. Disse que sabia de tudo isso, mas estava a pensar numa casa em pequena escala, para espetáculos mais íntimos.


- Posso dizer-te o que penso? - Quando Rony balançou a cabeça, Harry acrescentou:


- Acho que é uma grande ideia. Se vai ou não dar certo, não sei, mas é uma grande ideia.


- Tenho de avaliar algumas coisas primeiro - murmurou Rony.


- É mais do que provável que o homem reconsidere e opte por outro lugar mais movimentado. Mas se isso não acontecer, convence-o a construir a casa atrás do pub. - Como parte da rotina, Harry começou a pôr cinzeiros nas mesas. - O terreno ali é nosso. Se o auditório ficar ligado de alguma forma ao Potter’s, seríamos os mais beneficiados.


Rony pôs a última cadeira no chão, sorrindo. - É uma boa ideia. Surpreendeu-me, Harry, pensando como um homem de negócios.


- De vez em quando, uma ou outra ideia costuma aflorar na minha cabeça. Mas ele não pensou muito a respeito disso depois de o pub abrir e os clientes começarem a entrar.


Ainda teve tempo para uma rápida e divertida briga com Gina, que lhe proporcionou o prazer de vê-la sair da cozinha em fúria, jurando que só voltaria a falar com ele depois de ele ter estado já seis anos na sepultura. Harry duvidava de que tivesse tanta sorte. Ele serviu o guisado, fez peixe frito com batatas, preparou sanduiches com presunto e queijo quente. O zumbido constante de vozes no outro lado da porta era companhia suficiente. E durante a primeira hora do turno do almoço, Gina cumpriu a palavra, de cara zangada, furiosa, enquanto entrava e saía, trazendo e levando os pratos. Olhava para a parede ao comunicar os novos pedidos. Harry estava achando tão engraçado, que a agarrou e beijou na boca, ruidosamente, quando ela voltou à cozinha com os pratos vazios.


- Fala comigo, paixão. Está partindo o meu coração.


Gina empurrou-o, bateu em suas mãos, irritada. Mas depois mudou de ideias e riu-


se.


- Está bem, volto a falar contigo, seu casmurro. E agora quero que me solte.


- Só depois de prometeres que não vai partir qualquer coisa na minha cabeça.


- O Rony vai descontar do meu salário tudo o que eu quebrar, e tenho de poupar para um novo vestido. Gina atirou para trás a massa de cabelos ruivos sedosos, torcendo o nariz para o irmão.


- Nesse caso, estou absolutamente seguro. Harry largou-a. Virou a posta de linguado que fritava na frigideira.


- Temos um casal de turistas alemães a querer experimentar o teu guisado, com pão d e Graham e salada de repolho. Estão hospedados no hotel. - Gina falava sem parar, enquanto o irmão enchia as tigelas. - Disseram que vão para Kerry amanhã, e depois vão seguir para Clare. Se fosse eu, a ter férias em Janeiro, passaria o tempo todo na ensolarada Espanha ou em alguma ilha tropical, onde não se precisa de mais nada além de um biquíni e um protetor solar.


Ela vagueava pela cozinha enquanto falava, uma mulher de rosto deslumbrante, a pele cremosa, os olhos azuis a faiscar. Tinha uma boca cheia, com uma sensualidade ostensiva, quer estivesse de cara zangada ou a sorrir. Pintara-a de vermelho-ardente naquela manhã, a fim de se manter alegre num dia tão frio e horrível. Tinha um corpo que não deixava qualquer dúvida sobre a sua feminilidade. A paixão pela moda concentrava-se em roupas de cores fortes e tecidos leves.


 Possuía o anseio dos Potter em viajar e a determinação de fazê-lo no estilo com que sonhava. Na mais alta classe. Como hoje não era o dia para isso, ela pegou na bandeja com a comida. Já ia deixar a cozinha, quando Hermione entrou.


- Onde se meteu desta vez? - Perguntou Gina. - Está com o rosto todo preto.


- Fuligem. - Hermione fungou e passou o dorso da mão pelo nariz. - O meu pai e eu fomos limpar uma chaminé. Estava com muito lixo. Já consegui limpar-me quase completamente.


- Pensa assim porque ainda não se olhou no espelho. - Gina deixou a cozinha, passando longe da amiga.


- Ela passaria o dia inteiro se olhando no espelho, se pudesse escolher. - Comentou Harry. - Veio almoçar?


- O meu pai e eu vamos querer o guisado. O aroma está delicioso. - Hermione avançou, a fim de se servir. Mas Harry interpôs-se entre ela e o seu precioso fogão.


- Prefiro servir eu mesmo, já que não se limpou de toda a fuligem daquela chaminé.


- Está bem. E também vamos querer um chá. Antes que eu me esqueça, preciso conversar contigo mais tarde. Harry olhou para trás.


- Porque não podemos conversar agora? Estamos ambos aqui.


- Prefiro deixar para um momento em que não esteja tão ocupado. Voltarei depois do turno do almoço, se não te importar.


- Sabe onde me encontrar, certo? - Harry pôs o guisado e o chá numa bandeja.


- Claro que sei. Hermione pegou na bandeja e levou-a para o último compartimento do pub, onde o pai esperava.


- Aqui está, pai. Guisado quente, saído diretamente da panela.


- E cheira como o paraíso.


Mick Granger era como um garnisé, pequeno e magro, com uma massa de cabelos louro-avermelhados, olhos sempre animados, que oscilavam, como o mar, entre o verde e o azul. Tinha um riso que parecia o zurrar de um burro, mãos como as de um cirurgião e um ponto fraco por histórias românticas. Era o amor da vida de Hermione. - É bom sentirmo-nos aquecidos e aconchegados agora, não acha, pequena Jean?


- Tem toda a razão, pai. Hermione pegou num pouco do guisado com a colher. Soprou com todo o cuidado, pois o aroma, embora fosse tão apetitoso, deixava-a com vontade de correr o risco de ter a língua queimada.


- E agora que estamos aqui, prestes a encher a barriga, porque não me contas o que tanto te preocupa? O pai percebia tudo, pensou Hermione. O que às vezes era um conforto, mas em algumas ocasiões poderia ser inconveniente. - Não é uma preocupação tão grande. Lembra-se de que nos contou que aconteceu quando era jovem e a sua avó morreu?


 - Lembro-me muito bem. Eu estava aqui mesmo, no Potter’s P u b. Claro que foi no tempo em que Tiago Potter trabalhava aqui, antes de partir para a América com a mulher. Você não era mais do que um desejo no meu coração e um sorriso nos olhos da sua mãe. Eu estava consertando a pia, que não parava de pingar, o que levou o Potter’s a pedir a minha ajuda. Ele fez uma pausa para provar o guisado. Depois, passou o guardanapo pelos lábios, já que a esposa era rigorosa com os modos à mesa, e o treinava de acordo com isso.


- Eu estava deitado no chão. Levantei os olhos e avistei a minha avó, a usar um vestido florido e um avental branco. Ela sorriu para mim. Quando tentei falar com ela, ela sacudiu a cabeça. Depois, levantou a mão, num gesto de despedida, e desapareceu. Compreendi naquele momento que ela havia morrido. Acabara de ver o seu espírito, que viera despedir-se. Eu era o seu neto predileto.


- Não era minha intenção te deixar triste. - Murmurou Hermione.


Mick soltou um suspiro. - Era uma boa mulher. Teve uma vida longa e proveitosa. Mas os vivos sentem sempre saudade dos que já não estão aqui. Hermione lembrava-se do resto da história. Como o pai deixara o trabalho e correra até à pequena casa em que morava a avó, viúva há dois anos. Encontrara-a na cozinha, sentada à mesa, de vestido florido e avental branco. Tivera uma morte tranquila. - Às vezes, aqueles que morrem sentem saudades dos outros. - Comentou Hermione, escolhendo as palavras com o maior cuidado. - Vi Lady Gwen esta manhã, no Faerie Hill Cottage.


Mick balançou a cabeça. Inclinou-se para a frente, a fim de ouvir melhor o relato da filha. - Pobre mulher... - murmurou ele, quando Hermione acabou. - É muito tempo para esperar que as coisas aconteçam.


- Algumas pessoas esperam muito. – Hermione olhou para Harry, que saía da cozinha com uma bandeja cheia de pratos. - Quero conversar sobre isso com o Harry, depois que o movimento no pub diminuir. A Gina diz que uma torneira no apartamento dela não está a funcionar em condições. Acho que vou subir para dar uma vista de olhos, assim que acabarmos de almoçar. E depois poderei conversar com o Harry. A menos que tenha outra coisa que eu precise fazer hoje.


- Hoje, amanhã... - Mick encolheu os ombros. - O que não fizermos num momento, faremos no outro. Vou dar um pulo até ao hotel no penhasco para saber se eles já decidiram que quarto vão remodelar primeiro. - Ele fez uma pausa, piscando o olho à filha. - Podemos ter um bom trabalho durante todo o Inverno. Num lugar quente e seco.


- E onde possamos esgueirar-nos para dar uma olhada na Mary Kate, que passa o dia inteiro no escritório a mexer naquele computador. Mick sorriu, contrafeito.


- Eu não iria até lá muitas vezes. Mas fico satisfeito que ela tenha decidido aceitar um emprego perto de casa, depois de concluir a Universidade. Espero que ela encontre em breve um trabalho mais apropriado a tudo o que aprendeu, em Dublin ou Waterford City. Todas as minhas meninas estão a voar do ninho.


- Eu continuo. E ainda terá a Alice por muitos anos.


- Mas sinto saudades do tempo em que tropeçava numa das minhas cinco meninas cada vez que me virava. Agora, Maureen já é casada, e a vez de Patty chegará na próxima Primavera. Não sei o que farei, querida, quando te ligares a um homem e me deixares.


- Ainda estou encalhada em casa, pai. - Ela cruzou os pés, ao terminar o guisado. - Os homens não perdem a cabeça ou o coração por mulheres como eu.


- O homem certo perderá. Hermione teve de recorrer a todo o seu esforço para não olhar na direção da cozinha.


- Não vou prender a respiração enquanto espero. De qualquer maneira, somos sócios, não é assim? - Ela levantou os olhos e sorriu para o pai. - Portanto, com homem ou sem homem, será sempre Granger e Granger. E era assim que ela queria, pensou Hermione, enquanto usava o banheiro de Gina para lavar o resto da fuligem. Tinha um trabalho que lhe agradava, e a liberdade de ir e vir, que seria impossível para uma mulher presa a um homem. Teria o seu quarto em casa enquanto quisesse. A companhia da família e dos amigos. Deixaria todos os problemas de cuidar de uma casa e agradar a um marido para as suas irmãs Maureen e Patty. Tal como deixaria para Mary Kate o problema de sair do escritório e marcar a hora no relógio de ponto. As suas ferramentas e a caminhonete eram tudo aquilo de que precisava para sobreviver. E o seu anseio por Harry Potter só lhe trazia frustração e irritação. Imaginava que um dia isso acabaria passando. Como conhecia muito bem Gina, Hermione teve o cuidado de deixar tudo limpo. O lavatório branco ficou impecável, e ela usou os seus próprios panos para enxugar o rosto e as mãos, em vez de pegar nas toalhas franjadas que Gina deixava ao lado do lavatório.


Na opinião de Hermione, era um completo desperdício de pano, porque ninguém que, de fato, precisasse, usaria toalhas assim. A vida seria muito mais simples se todos comprassem toalhas pretas. - Não haveria gritos e insultos quando as toalhas brancas felpudas acabassem por ficar encardidas. Ela passou alguns minutos a trocar a tomada da sala. Estava a aparafusar o espelho quando Gina entrou.


 - Eu tinha mesmo esperança que cuidasse disso. Já começava a irritar-me. - Gina despejou o dinheiro das gorjetas naquilo a que chamava pote dos desejos. - Antes que eu me esqueça, o Rony pediu-me para te informar de que ele e a Luna querem renovar o quarto que será do bebê. Vou visitar a Luna agora. Se quiseres vir comigo, poderás saber o que ela quer.


- Tenho outra coisa para fazer antes, mas podes avisá-la de que passarei por lá mais tarde. - Mas que droga, Hermione! Deixou as marcas das suas botas sujas por todo o chão! Hermione estremeceu, enquanto se apressava a terminar de aparafusar o espelho da tomada.


- Peço desculpa, Ginny. Mas limpei o lavatório com todo o cuidado.


-Também pode limpar o chão. Não tenho a menor intenção de lavar o que suja. Porque não usou o banheiro do pub? É a semana do Harry limpar.


- Não me lembrei. E pára de reclamar, vou limpar tudo antes de sair. Deveria me agradecer pela tomada que acabei de consertar, antes que desse um curto-circuito.


- Obrigada por isso. - Gina voltou-se, vestindo um casaco de couro que comprara como presente de Natal para si mesma. - Eu te espero na casa de Luna.


- Está bem. – Resmungou Hermione, irritada com a perspectiva de lavar o chão do  banheiro. Ela continuou a resmungar enquanto trabalhava. Disse alguns palavrões, furiosa, quando notou que também havia terra e lama ressecada no assoalho da sala. Para não provocar a ira de Ginevra, pegou no aspirador e limpou tudo. Em consequência, o pub estava silencioso quando ela desceu. Harry quase acabara de lavar a louça.


- Quer então dizer que a Gina te contratou para fazer faxina no apartamento?


- Sujei tudo com lama. - À vontade, ela serviu-se de uma chávena de chá. - Não pretendia demorar tanto. E não quero te atrapalhar aqui, se precisar fazer alguma coisa antes de começar o movimento do jantar.


- Não tenho nada para fazer. Mas quero tomar uma caneca de cerveja. Vai continuar com o chá?


- Por enquanto.


- Vou buscar a cerveja. Sobrou um pouco de pudim, se quiser. Hermione não queria verdadeiramente, mas como tinha uma fraqueza por doces, serviu algumas colheradas numa tigela. Estava sentada quando Harry voltou com uma caneca de Harp. - O Tim Riley garante que o tempo vai melhorar amanhã.


- Parece que ele acerta sempre.


- Mas teremos umidade por muito mais tempo. - Harry sentou-se em frente de Hermione. - O que aconteceu?


- Eu já te conto. -Hermione experimentou uma dúzia de maneiras diferentes para começar, na sua mente. Optou pela que parecia melhor. - Depois que você deixou o chalé, esta manhã, fui até à sala para dar uma vista de olhos no tubo da chaminé. Era uma mentira, claro, e ela estava preparada para confessá-la ao padre. Mas não poderia dizer a Harry que quisera tocar a sua música. O orgulho valia a penitência. - Está em condições. - Eu sei. - Hermione encolheu os ombros. - Mas é sempre melhor verificar essas coisas de vez em quando. Seja como for, quando me virei, deparei-me com ela na entrada da sala.


- Ela quem?


- Lady Gwen.


- Você a viu?


Harry largou a caneca, a louça a ressoar ao bater na madeira.


- Tão bem como estou te vendo agora. Ela estava ali parada, a sorrir para mim, muito triste. E depois... Hermione não queria contar o que ouvira, mas sentia-se na obrigação. Uma coisa era dizer uma pequena mentira, outra coisa era enganá-lo.


- Depois o quê? A rara demonstração de impaciência de Harry deixou Hermione contrariada. - Eu já ia dizer. E depois ela falou comigo.


- Falou contigo? Harry empurrou a cadeira para trás. Levantou-se e começou a andar de um lado para o outro da cozinha. Era uma reação tão inesperada, que Hermione ficou espantada.


- O que foi, Harry?


- Sou eu quem mora no chalé, certo? Ela aparece para mim? Fala comigo? Não. Espera até você ir consertar o forno e dar uma olhada no tubo da chaminé para se mostrar.


- Lamento muito ter sido a escolhida pelo seu fantasma, mas não pedi isso, pedi? Hermione encheu a boca com o pudim.


- Está bem, está bem... Não precisa discutir comigo. - Com o rosto franzido, ele voltou a sentar-se. - O que disse ela? Hermione olhou além de Harry, enquanto comia o pudim. Quando Harry revirou os olhos, ela pegou no chá e bebeu um gole. - Desculpa, mas estava falando comigo? Ou há alguma outra pessoa aqui com quem tenha decidido gritar sem qualquer motivo?


- Eu é que peço desculpa. - Harry mostrou um sorriso, porque quase sempre funcionava. - Pode me contar o que ela te disse?


- Já que decidiu pedir polidamente, vou dizer. Lady Gwen murmurou: “O coração dele está na canção” Pensei que ela se referia ao príncipe do mundo das fadas. Mas quando contei à minha mãe, ela comentou que poderia ser uma referência a você.


- Se é verdade, não faço a menor ideia do que significa.


- Também não entendi. Mas queria saber se não te importarias se eu aparecesse por lá de vez em quando.


- Já aparece quando quer. - Hermione irritou-se com o comentário. - Se não quer a minha presença, basta dizer.


- Não foi isso que eu disse. Comentei apenas que você já aparece de vez em quando.


- Pensei em ir até ao chalé também durante a sua ausência. Como hoje. Só para saber se Lady Gwen voltará a aparecer. E posso aproveitar para arrumar algumas coisas enquanto estiver lá.


- Não precisa procurar trabalho para aparecer. Será sempre bem-vinda. Hermione acalmou-se não só por ele ter dito isso, mas também porque era sincero. - Eu sei, mas gosto de me manter ocupada. Assim, farei alguma coisa quando passar por lá de vez em quando, se não te importar.


- E vai me contar se voltar a vê-la?


- Será o primeiro, a saber. - Hermione levantou-se, para levar a caneca e a tigela até à pia.


- Você acha... A voz hesitou. Ela sacudiu a cabeça.


 - O que foi?


- Nada. Bobagem.


Harry aproximou-se por trás. Pressionou a nuca de Hermione com os dedos ágeis. Ela teve vontade de se arquear toda e ronronar como uma gata. Mas sabia que não devia fazê-lo. - Se não pode falar bobagens a um amigo, com quem vai poder falar?


- Eu estava a pensar se o amor realmente dura assim tanto, além da morte e do tempo. - É a única coisa que realmente dura.


- Já estiveste alguma vez apaixonado?


- Nada que fincasse raízes... e, se isso não acontecesse, acho que não é amor.


Hermione soltou um suspiro que surpreendeu os dois. - Se finca raízes em um, mas não no outro, deve ser a pior coisa do mundo. Harry sentiu o coração palpitar. Achou que a reação era de compaixão.


 - Mione, querida, será que você se apaixonou por mim? Ela virou-se abruptamente. Harry fitava-a com tanta... Com tanta afeição, tanta paciência e compaixão, que ela teve vontade de espancá-lo. Em vez disso, limitou-se a empurrá-lo.


Pegou sua caixa de ferramentas. –Harry Potter, definitivamente você é um idiota-tapado! Com o nariz empinado, as ferramentas a fazer um enorme estrondo na caixa, ela saiu da cozinha.


Harry apenas balançou a cabeça. Depois, foi terminar de lavar a louça. Com o coração a palpitar de novo, especulou por quem Granger estaria apaixonada. Quem quer que fosse, pensou Harry, batendo a porta de um armário com algum exagero, era melhor que o homem se mostrasse digno dela.

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Comentários: 1

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Enviado por r.ad em 01/10/2013

Tadinha da hermione!!
Espero  que harry perceba por quem ela está apaixonada logo!!

Nota: 5

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