NA: Oi!!
Agora sim, mais uma fic. HH na área (risos). Divirtam-se com essa nova História. :D
Essa história nem os seus personagens (tanto os da JK quanto os da Nora Roberts) Não me pertence e blá, blá... (vocês sabem.)
Primeiro: Se você não curti Harry e Hermione, tudo bem é seu direito, mas não venha apenas para xingar ou algo do tipo.
Segundo: Estou tentando adaptar ao máximo a história, se você já tiver lido vai perceber que há pequenas mudanças mais nada que altere o final.
E terceiro e último: Essa é minha Terceira fic postada aqui, não é minha a história, é uma adaptação, mas eu li e gostei muito. Desculpem-me se tiver algum erro, pode apontar e principalmente se gostarem da história.
Shipper principal: Harry e Hermione.
Outros shippers: Rony, Luna e Gina aparecem como personagens, mas como é uma trilogia cada história vai focar um deles, ok?
Essa é a Segunda história da trilogia.
Vai ser o seguinte:
Trilogia do Coração-
Livro 1: Diamantes do Sol-( Rony e Luna)
Livro 2:Lagrimas da Lua-(Harry e Hermione)
Livro3:Coração do mar-(Gina e Draco)
Tipo: Romance, Universo alternativo com adaptações de personagens da história de Harry Potter.
Censura: NC18-Imprópria para menores de 18 anos. (os capítulos que tiverem vão estar assinalados com NC18), OK? Boa leitura!
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Trilogia do Coração --- Lágrimas da Lua --Vol. 2- Nora Robert---Título Original – Tears of the Moon.
Descrição:
Nas paisagens mágicas da Irlanda, mais precisamente para a pequena acolhedora vila de Ardmore. É aí que conhecemos Harry Potter, cozinheiro do pub local, que escreve canções e vive despreocupado sem pensar no futuro ou na sua amiga de sempre: a bonita e irreverente Hermione.
Hermione, no entanto, tem pensado muito em Harry. Na verdade, ela quer mais do que apenas a amizade que sempre tiveram. E quando ganha coragem para lhe dizer, Harry é apanhado de surpresa e vê o seu mundo estável e seguro a ruir. Mas numa terra onde a magia ainda não morreu; tudo conspira para uma maravilhosa história de amor. Até as lendas do passado e o s fantasmas de amores antigos...
“Para Bruce, o meu homem de todos os ofícios. Dá - me um beijo, amor, sente saudade, amor, e enxuga as tu as lágrimas amargas.”
- Canção Irlandesa de PUB.
Prezado Leitor,
Aqueles que sonham acordados trazem beleza ao mundo . A arte e a música, as histórias e o coração. A Irlanda sente um grande carinho pelos seus sonhadores. Apesar disso, ao mesmo tempo em que preza os seus poetas e artistas, a Irlanda também pode ser bastante prática. Por um lado, os irlandeses conservam a sua magia; por outro, trabalham arduamente.
Em Lágrimas da Lua, juntei as mãos do sonhador Harry Potter e da objetiva e pragmática Hermione Granger.
Carrick, o príncipe das fadas, terá muito trabalho com estes dois, se os quiser unir e dar o passo seguinte para romper o encanto que o separa do seu próprio amor e do seu destino. Ele tem um presente para os dois, que, no entanto, o devem aceitar- e um ao outro - com os corações desprendidos. Orgulho e ambição devem ser superados por amor e generosidade. Duas pessoas que se conheceram durante toda a vida terão agora que se contemplar com olhos diferentes. Muito acima da fascinante aldeia de Ardmore, num penhasco rórido pelo vento, perto da fonte de um antigo santo irlandês, há magia e música no ar . Sente-se no banco que há ali perto e escute.
- Nora Roberts.
CAPÍTULO UM: “Após o último outono...”
A Irlanda é uma terra de poetas e de lendas, de sonhadores e rebeldes. E a música envolve todos, por completo. São melodias para dançar ou chorar, para a batalha ou para o amor. Em tempos antigos, os harpistas viajavam de um lugar para o outro, tocando as suas melodias por uma refeição e uma cama, por alguma generosa moeda que as pudesse acompanhar. Os harpistas e os seanachais - os contadores de histórias - eram bem recebidos por toda a parte, num chalé, numa estalagem ou à beira de uma fogueira de acampamento. O dom que espalhavam pela Irlanda era sempre apreciado, mesmo nos palácios do mundo das fadas, sob as verdes colinas. E continua a ser apreciado. Certa ocasião, não assim há tanto tempo, uma contadora de histórias chegou a uma aldeia tranquila, à beira mar, e teve uma recepção afetuosa. Ali, ela encontrou o seu coração e o seu lar. Um harpista vivia na aldeia. Ali tinha o seu lar e era onde se sentia feliz. Mas ainda precisava encontrar o seu coração. Havia música a soar na sua cabeça. Às vezes surgia de uma forma suave e sonhadora, como os sussurros de uma pessoa apaixonada. Noutras ocasiões, aflorava como um grito ou como uma gargalhada. Uma velha amiga, a convidá-lo para tomar uma cerveja no pub. Podia ser doce, veemente ou transbordar de lágrimas de desespero. E ele sentia sempre imenso prazer em ouvi-la.
Harry Potter era um homem satisfeito com a vida. Naturalmente havia quem dissesse que ele se sentia feliz porque era raro ele sair dos seus sonhos para verificar o que acontecia no mundo. E Harry não se importava com essas pessoas. O seu mundo era a música e a família, o lar e os amigos é que contavam. Por que razão se deveria incomodar com qualquer outra coisa? A família vivia há gerações na aldeia de Ardmore, no condado de Waterford, na Irlanda.
Os Potter eram donos do pub local, oferecendo canecas de cerveja, uma boa refeição e um lugar para conversar a tanto tempo quanto a maioria das pessoas se podia lembrar. Desde que os pais se haviam mudado para Boston, algum tempo antes, cabia a Ronald (Rony, para os chegados), o irmão mais velho de Harry, dirigir o pub. O que era ótimo para Harry Potter, já que ele não hesitava em admitir que não tinha queda para os negócios nem queria ter. Sentia-se feliz em ser o homem da cozinha, pois cozinhar relaxava-o. A música era parte dele, no pub ou na sua cabeça, enquanto atendia aos pedidos ou preparava a ementa do dia. Claro que havia ocasiões em que a sua irmã, Ginevra (Gina para os amigos) - que tinha uma quota adicional de energia e ambição da família -, entrava na cozinha, enquanto ele preparava um guisado ou fazia um sanduíche, e provocava uma discussão. Mas isso servia para dar mais animação.
Harry não se incomodava em dar uma ajuda para servir os clientes, especialmente se alguém estivesse a tocar música ou houvesse pessoas a dançar. E ajudava na limpeza sem se queixar, depois de fecharem, pois os Potter mantinham o pub impecável. A vida em Ardmore convinha-lhe - o ritmo lento, as ondas a chocarem contra os penhascos, as colinas verdes ondulantes, que se estendiam até às montanhas escuras. A ânsia de conhecer outras terras, pela qual os Potter eram famosos, não se manifestava nele. Harry tinha raízes profundas no solo arenoso de Ardmore.
Não tinha o menor desejo de viajar, como fizera o irmão, Rony, ou como Gina planejava fazer. Podia encontrar ali mesmo tudo aquilo de que precisava. Não via sentido em mudar de paisagem. Embora, de certa forma, isso tivesse acontecido. Durante toda a sua vida, Harry olhara pela janela do seu quarto para ver o mar, que estava sempre ali, a desmanchar-se em espuma na areia, pontilhado de barcos, sereno ou furioso, com todos os ânimos intermediários. O cheiro da maresia era a primeira coisa que ele inspirava pela manhã, ao abrir a janela, inclinando-se para fora. Quando o irmão casara com Luna Lovegood, uma linda ianque, no Outono passado, pareceu-lhe apropriado promover alguns ajustes.
De acordo com o costume dos Potter, o primeiro a casar-se ficava com a casa da família. Por isso, Luna e Rony instalaram-se na casa enorme, na zona limítrofe da aldeia, quando voltaram da lua-de-mel em Veneza. Quando lhe ofereceram a opção entre o apartamento por cima do pub e o pequeno chalé que pertencia ao lado da família da avó paterna de Luna, Gina escolheu o apartamento. Pressionara Harry, e quem mais se deixara envolver pelos seus encantos, a pintar e remodelar, até que os aposentos, antes espartanos, de Rony, se transformassem no seu pequeno palácio.
Harry não se incomodara. Preferia mesmo o chalé na colina das fadas, com a vista dos penhascos, o lindo jardim e o bendito sossego. Também não se importava com o fantasma que vagueava pelo chalé. Ainda não o vira, mas sabia da sua presença. Era Lady Gwen, que se lamentava por ter rejeitado o seu amor, o príncipe das fadas. Esperava agora que o encanto chegasse ao fim, para libertar os dois. Harry conhecia a história da jovem donzela que ali vivera trezentos anos antes. Naquele mesmo chalé, naquela mesma colina. Carrick, o príncipe das fadas, apaixonara-se por ela. Mas, em vez de dizer as palavras certas, em vez de oferecer o seu coração, mostrara a grandiosidade da vida que proporcionaria à sua amada. Por três vezes levara a Lady Gwen, num saco de prata, as pedras mais preciosas do mundo. Primeiro, foram diamantes moldados no fogo do sol, depois as pedras feitas com as lágrimas da lua e, finalmente, as safiras arrancadas do coração do mar. Mas, duvidando do coração de Carrick e do seu próprio destino, ela recusara-o. E as pedras preciosas que ele despejara aos pés de Gwen, segundo a lenda, haviam-se transformado nas flores que ostentavam o jardim no chalé. A maior parte das flores dormia agora, pensou Harry, sob o vento frio do Inverno que soprava ao longo da costa.
Os penhascos, onde se dizia que Lady Gwen passeava, em lágrimas, estavam áridos e inóspitos, sob o céu ameaçador. Uma tempestade concentrava-se ali, prestes a desabar. Era uma manhã gelada, com o vento a sacudir as janelas e a infiltrar-se por todas as frestas para esfriar o chalé. Como tinha a lareira acesa na cozinha e um chá bem quente nas mãos, Harry não se importava com o vento. Até apreciava a sua música arrogante, enquanto, sentado à mesa da cozinha, comia biscoitos e pensava na letra de uma melodia que acabara de compor. Só precisava ir para o pub dali à uma hora. Mas, para ter a certeza de que chegaria dentro do horário, ligara o alarme do relógio do forno. Como reforço, deixara o despertador também programado no quarto. Sem ninguém ali para arrancá-lo dos seus sonhos e dizer que tinha de sair, ele tendia a esquecer-se das horas por completo.
Já que Rony ficava irritado quando ele se atrasava e Gina aproveitava o pretexto para o criticar, Harry fazia o seu melhor para ser pontual. O problema era que ignorava o alarme e não ouvia a campainha do despertador quando ficava absorvido demais na música. Era o que acontecia agora, toda a sua atenção concentrada numa canção de amor, um amor jovem e confiante. O tipo de amor pensou Harry, caprichoso como o vento, mas divertido enquanto durava. Uma melodia para dançar, decidiu ele, que exigiria pés ágeis e rápidos, um flerte incessante. Poderia apresentá-la no pub , depois de limar um pouco mais as arestas. Talvez conseguisse persuadir Gina a cantá-la. A voz da irmã era a mais apropriada para a canção. Demasiado aconchegado na cozinha para se dar ao trabalho de ir até à sala, onde instalara o velho piano que comprara ao mudar-se para o chalé, Harry marcava o ritmo com o pé, enquanto trabalhava na letra.
Não ouviu as batidas na porta da frente, o barulho dos passos no corredor nem o resmungo irritado. Era típico, pensou Hermione. De novo perdido num mundo qualquer de sonhos, enquanto a vida continuava em seu redor. Ela nem sabia por que se dera ao trabalho de bater à porta. Afinal, Harry quase nunca ouvia; além disso, estavam os dois acostumados a entrar, sem bater, na casa um do outro, desde a infância. Só que já não eram crianças. Por isso, ela preferia bater antes de entrar, para não se deparar com alguma coisa que não gostasse de ver. Tanto quanto ela sabia, Harry poderia ter uma mulher no chalé. Ele atraía-as, como água com açúcar atrai abelhas. Não que ele fosse doce, necessariamente. Mas bem que poderia ser. Como era bonito! O pensamento aflorou espontaneamente na sua mente, e Hermione detestou-se por isso. Mas, no final de contas, era difícil não notar isso. Aquele lindo cabelo preto que parecia algo desleixado, já que Harry nunca se lembrava quando era tempo de o cortar. Olhos tranquilos, de uma cor verde esmeralda, intensa, devastadora e sonhadora ao mesmo tempo... A não ser quando alguma coisa o excitava, pois nessas ocasiões eram capazes de se inflamar, frios ou quentes, de igual forma. Harry tinha pestanas pretas e longas, pelas quais as quatro irmãs de Hermione venderiam a própria alma. A boca era cheia e firme; na opinião de Hermione, feita para beijos longos e palavras suaves. Embora ela não tivesse qualquer experiência pessoal, ouvira comentários.
O nariz era comprido e um pouco torto, resultado de uma Une drive, a bola arremessada no basebol que sai baixa, rápida e direta. Fora ela quem a lançara, quando jogavam juntos, há mais de dez anos. Tendo tudo em conta, Harry tinha o rosto de um príncipe do mundo das fadas. Ou de um galante cavaleiro andante numa busca interminável. Ou de um anjo um pouco desleixado. Acrescentando-se a isso o corpo comprimido e esguio, as mãos maravilhosas, de palmas largas, dedos de artista, a voz como uísque aquecido por fogo de turfa, a embalagem admirável estava completa.
Não que ela tivesse algum interesse pessoal. Apenas apreciava as coisas que eram bem feitas. E era uma mentirosa incorrigível. Até para si mesma mentia. Sentia atração por Harry antes mesmo de acertar com a bola no seu nariz... E tinha catorze anos contra os dezenove dele na ocasião. Uma atração assim tendia a tornar-se algo mais quente, mais intenso, quando a moça se tornava uma mulher de vinte e quatro anos.
Só que Harry nunca a contemplara como mulher. Ainda bem, Hermione pensou, enquanto mudava de posição. Não tinha tempo para perder com homens como Harry Potter. Algumas pessoas precisavam trabalhar.
Com um sorriso irônico, ela baixou devagar a caixa com as ferramentas, para depois a deixou cair, com o maior estardalhaço. O fato de ele ter saltado como um coelho ao ouvir um disparo deixou-a satisfeita.
- Santo Deus! - Harry virou-se na cadeira, num movimento brusco. Apertou o peito, como se estivesse a fazer com que o coração batesse de novo.
- O que aconteceu?
- Nada. - Hermione manteve o sorriso. - Escorregou. - Ela falou num tom doce, tornando a pegar na caixa. - Tomou um susto, hein?
-Você quase me matou.
- Eu bem que bati na porta, mas você não teve o trabalho de levantar e abrir.
- Não ouvi. - Harry suspirou. Empurrou os cabelos para trás. Franziu o rosto. - A Granger veio fazer uma visita. Tem alguma coisa quebrada aqui?
- Muito engraçado, na tua cabeça é que falta um parafuso. - Hermione tirou o casaco e largou-o no espaldar de uma cadeira. Acenou com a cabeça para o fogão. - O teu forno não funciona há uma semana. E a peça que encomendei acaba de chegar. Quer que o conserte ou não?
Ele soltou um grunhido de concordância, acenando com a mão.
- Biscoitos? – disse a Hermione, enquanto ela passava pela mesa.
- Que tipo de café da manhã é esse para um homem crescido?
- Estavam aqui. - Harry sorriu, da forma que a deixava com vontade de aconchegá-lo no seu colo. - É uma chatice, cozinhar apenas para mim de manhã. Mas, se estiver com fome, posso fazer alguma coisa para nós os dois.
- Não precisa se incomodar. Já comi. - Ela voltou a largar a caixa no chão, ao lado do fogão. Abriu-a e começou a vasculhar lá dentro. – Você sabe que a minha mãe faz sempre mais comida do que é necessário. Ela ficaria feliz se aparecesses por lá qualquer dia para um café da manhã.
- Dispara um foguete de sinalização quando ela fizer aquelas panquecas especiais. Mas não quer tomar um chá? O bule ainda está quente.
- Não me importaria. - Enquanto escolhia as ferramentas e pegava na peça nova, Hermione observou os pés de Harry, a circular pela cozinha.
- O que estava fazendo? Compondo?
- Estava procurando palavras para a letra de uma melodia. - respondeu ele, distraído. Os seus olhos haviam focado o voo de um pássaro solitário, preto e lustroso, contra o céu cinzento. - Parece que está muito frio lá fora.
- Frio e úmido. O Inverno ainda mal começou e já estou torcendo para que acabe.
- Aquece um pouco os ossos. Harry baixou-se com uma caneca de chá, preparado da forma como sabia que ela gostava, forte, com bastante açúcar.
- Obrigada. O calor da caneca passou para as mãos de Hermione quando pegou nela. Ele permaneceu agachado, tomando o seu chá. Os joelhos encostavam-se, numa atitude de companheirismo.
- O que vai fazer com esse ferro velho?
- Que importância tem isso para você, desde que volte a funcionar? - Shawn alteou uma sobrancelha.
- Se eu souber o que você fez, posso ser eu a consertar na próxima vez. O comentário a fez rir muito, teve de se sentar no chão, para não perder o equilíbrio.
- Você? Oh, Harry, não é seria capaz de dar um jeito na sua unha partida.
- Claro que sou. Sorrindo, ele fez o gesto de roer uma unha, o que levou Hermione a uma nova gargalhada.
- Não te metas no que vou fazer nas entranhas desta coisa, e eu também não me envolverei com o próximo bolo que você preparar aqui. Afinal, cada um tem as suas habilidades.
- Até parece que nunca usei uma chave de fendas. - murmurou ele, pegando numa das que estavam na caixa.
- E eu também já usei uma batedeira. Mas sei qual das duas coisas se ajusta melhor na minha mão. Hermione tirou-lhe a chave de fendas. Mudou de posição, enfiando a cabeça dentro do forno, para começar a trabalhar.
Ela tinha mãos pequenas, pensou Harry. Um homem poderia considerá-las delicadas, se não soubesse o que eram capazes de fazer. Já a observara a manejar um martelo, a empunhar um berbequim, a levantar madeira, a apertar uma rosca. Na maior parte do tempo, aquelas pequenas mãos de fada estavam cortadas, arranhadas ou lesionadas nas articulações. Era uma mulher pequena para o trabalho que escolhera... ou fora o trabalho que a escolhera, pensou Harry, enquanto se erguia. Sabia como isso era.
O pai de Hermione consertava tudo, e a filha mais velha saíra a ele. Assim como se dizia que Harry saíra à mãe da sua mãe, que muitas vezes se esquecia de lavar a roupa ou fazer o jantar, enquanto tocava a sua música. Enquanto ele começava a recuar, Hermione mexeu-se, com o traseiro moldado pelo jeans apertado ao fazer força para tirar um parafuso. Harry franziu as sobrancelhas, no que considerou ser apenas o interesse reflexivo de um homem por uma parte atraente da anatomia feminina.
Afinal, Hermione tinha um corpo esguio e firme. E um homem poderia apalpar tudo aquilo com apenas uma das mãos. Mas, se alguém tentasse, Harry imaginava que Hermione Granger o deixaria estendido no chão, inconsciente. A ideia o fez sorrir.
De qualquer forma, preferia sempre contemplar o rosto de Hermione. Era extraordinário. Os olhos faiscavam, de um tom de âmbar profundo, sob sobrancelhas elegantes, apenas um pouco mais escuras do que os cabelos castanhos- claro lustrosos. A boca estava sempre preparada para sorrir, entreabrir-se em desprezo ou contrair-se em fúria.
Hermione raramente usava batom - ou qualquer outra maquilagem no resto do seu rosto, diga-se de passagem -, embora fosse unha e carne com Gina, que não punha os pés fora de casa enquanto não estivesse pintada com perfeição. O nariz era pequeno e arrebitado, com a tendência para tremer em desaprovação ou desdém. Na maioria das vezes, os cabelos ficavam presos sob o boné azul turquesa, onde ela prendera a pequena fada que Harry lhe havia dado, anos antes, por algum motivo que já não se conseguia lembrar. Mas, quando Hermione tirava o boné, parecia haver quilômetros de cabelos de um castanho claro forte e brilhante, todo ondulado que caiam em cachos deslumbrantes.
O que combinava com ela. Como queria ver de novo aquele rosto, antes de partir para o pub, Harry encostou- se ao balcão, relaxado. Sorriu na expectativa.
- Ouvi dizer que está saindo com o Simas Finnigan.
Hermione levantou a cabeça abruptamente, batendo na parte superior do forno, com um estrondo.
Harry estremeceu. Por uma questão de sensatez, tratou de reprimir o riso.
- Não ando, não! - Como ele esperava, Hermione tirou a cabeça de dentro do forno. Havia um pouco de fuligem no nariz. Enquanto esfregava a cabeça dolorida, ela entortou o boné.
- Quem disse?
- Hum... - Com ar inocente, como três cordeiros, Harry encolheu os ombros e terminou de tomar o chá. - Pensei ter ouvido por aí, em qualquer lugar. Sabes como são essas coisas.
- Vive com a cabeça nas nuvens e não presta atenção em nada. Não estou saindo com ninguém. Não tenho tempo para essas idiotices. Irritada, Hermione voltou a enfiar a cabeça dentro do forno.
- Nesse caso, estou enganado. O que pode acontecer com a maior das facilidades hoje em dia, numa altura em que a aldeia está cheia de romance. Noivados, casamentos e bebês a caminho.
- Pelo menos essa é a ordem apropriada. Harry soltou uma gargalhada. Voltou a ajoelhar-se ao lado de Hermione. Num gesto cordial, pousou a mão no quadril dela, mas não notou que ela ficou subitamente imóvel.
- O Rony e a Luna, já estão a escolhendo os nomes, e ela mal completou dois meses de gravidez. Formam um casal adorável, não acha?
- Acho. - Hermione sentia a boca ressecada com o anseio, perigosamente próximo da necessidade.
- É bom vê-los felizes. A Luna gosta de acreditar que o chalé é mágico. Apaixonou-se pelo Rony aqui, iniciou uma vida nova, escreveu o seu livro. Diz que todas as coisas com que tinha até medo de sonhar aconteceram ao mesmo tempo. Tudo aqui. - É um chalé adorável. Tem algo de diferente. - Harry falava em parte para si mesmo. - Pode-se sentir em momentos inesperados. Quando se cai no sono ou se acaba de acordar. É como... Uma sensação de espera. Com a nova peça no lugar, Hermione tirou a cabeça do forno. Ele subiu a mão pelas suas costas, tranquilo, depois a afastou.
- Já viste a Lady Gwen? -pergunto Hermione ainda sentindo-se estranha com o toque dele.
- Não. Às vezes sinto uma espécie de movimento no ar, à beira do meu campo de visão. Mas, quando viro a cabeça, não vejo nada. - Harry afastou-se dela. Sorriu e levantou-se. - Talvez ela não queira que eu a veja.
- Eu diria que é o candidato perfeito para um fantasma com o coração partido. - Hermione desviou os olhos da expressão surpresa de Harry. Mexeu nos botões do fogão, enquanto acrescentava. - Agora já deve funcionar em condições. Vamos ver se vai voltar a aquecer.
- Pode verificar para mim, querida? - O alarme do forno tocou, provocando um sobressalto em ambos.
- Tenho de ir agora. Ele inclinou-se para desligar o alarme.
- É esse o teu sistema de alerta?
- Um deles. - Harry levantou um dedo. Como se fosse uma deixa, o despertador no quarto começou a tocar. - É a segunda ronda. Mas vai desligar-se automaticamente, quando a corda acabar. Se não fosse assim, eu teria de subir e correr para desligar todos os dias.
- Quando precisa é bastante esperto, não é?
- Tenho os meus momentos. O gato saiu. - Harry pegou no casaco, pendurado num gancho.
- Não tem pena dele, se voltar para arranhar a porta.
-O Bichento sabia no que se estava metendo quando insistiu em se mudar para cá comigo.
- Se lembrou de lhe dar comida?
- Não sou um idiota tapado, mione. - Sem se sentir ofendido, Harry passou o cachecol em torno do pescoço. - Ele tem comida suficiente... e se não tiver, vai suplicar na porta da sua cozinha. É capaz de fazer qualquer coisa só para me envergonhar. - Harry colocou o boné na cabeça, enquanto acrescentava: - Vai aparecer no pub?
- É bem provável. Hermione não suspirou, até ouvir a porta da frente ser fechada. Qualquer anseio por Harry Potter era um absurdo, disse ela a si mesma. Pois Harry jamais sentiria a mesma coisa por ela. Pensava nela como uma irmã... ou, pior ainda, compreendeu Hermione, como uma espécie de irmão honorário. E era também culpa dela, admitiu Hermione, olhando para as gastas calças de trabalho e as botas arranhadas. Harry gostava do tipo feminino, e ela estava longe disso. Poderia tentar arranjar-se. Entre Gina e as suas irmãs, além de Luna, é claro, não haveria limite de consultas sobre o embelezamento de Hermione Granger. Mas, além do fato de ela detestar todo esse trabalho e confusão, qual seria o sentido? Se, por acaso, se arranjasse e se maquiasse, se apertasse e se enfeitasse para atrair um homem, ele não seria atraído pelo que ela era de fato. E, de qualquer maneira, se pusesse batom e usasse joias, acompanhando algum vestido insinuante, Harry provavelmente riria até não poder mais, para depois fazer qualquer comentário idiota, que não lhe deixaria outra opção senão acertar-lhe com um soco na cara.
Não fazia mesmo qualquer sentido. Deixaria a fantasia para Gina, que era a campeã da aparência feminina. E para as suas irmãs, que gostavam dessas coisas, pensou Hermione. Quanto a ela... Continuaria com as suas ferramentas. Hermione voltou a concentrar-se no forno. Ligou-o em diferentes temperaturas. Verificou a grelha, apenas por precaução. Satisfeita por estar a funcionar em ordem, desligou-o e guardou as suas ferramentas. Pretendia sair sem demoras. Afinal, não havia qualquer motivo para ficar por mais tempo. Mas o chalé era muito aconchegante. Um lugar em que sempre se sentira à vontade. Quando a velha Maude Fitzgerald vivera ali, por mais anos do que Hermione poderia contar, Hermione aparecia com frequência para uma visita. Depois, Maude morrera, e Luna viera dos Estados Unidos para passar uma temporada no chalé. Haviam-se tornado amigas. Por isso, fora fácil retomar a rotina de parar ali de vez em quando, ao voltar para casa ou a caminho da aldeia.
Hermione ignorava o impulso de parar com mais frequência, agora que Harry morava ali. Mas era difícil resistir. Gostava do sossego do chalé e de todas as coisas bonitas que Maude acumulara ao longo dos anos. Luna deixara tudo no lugar, e Harry parecia contente em fazer a mesma coisa. A pequena sala continuava alegre como sempre, com os seus adornos, as estatuetas encantadoras de fadas e magos, com os livros e o velho tapete desbotado. É verdade que agora, após Harry ter posto o piano em segunda mão no espaço restrito, quase não dava para uma pessoa se virar. Mas Hermione achava que o piano aumentava o charme. E a velha Maude sempre gostara de música.
Ela ficaria satisfeita, pensou Hermione, enquanto passava um dedo pela madeira preta escalavrada, porque havia alguém a fazer música no seu chalé outra vez. Distraída, ela deu uma vista de olhos pelas partituras que Harry deixara em cima do piano. Ele estava sempre a compor uma nova canção ou a mudar alguma coisa numa canção antiga. Hermione franziu o rosto, enquanto estudava os rabiscos e os pontos. Podia cantar, é verdade, de preferência uma canção de protesto, sem fazer com que algum cachorro uivasse em resposta. Mas tocar era muito diferente. Como estava sozinha, ela decidiu satisfazer a sua curiosidade. Tornou a largar a caixa de ferramentas no chão, pegou numa partitura e sentou-se ao piano. Com alguma dificuldade, mordendo o lábio, encontrou o dó médio no teclado. Lentamente, começou a tocar, uma nota de cada vez. Era adorável, é claro. Tudo o que Harry compunha era lindo. Nem mesmo a maneira lamentável como ela tocava poderia acabar com a beleza da música. Ele acrescentara palavras àquela melodia, como fazia com frequência. Hermione limpou a garganta e tentou adaptar a voz a cada nota.
“ A noite, quando estou sozinho e a lua derrama as suas lágrimas,
Sei que o mundo voltaria a ser maravilhoso se estivesses aqui.
Sem ti, o meu coração fica vazio, apenas com as lembranças que guarda.
Você, só você, existes dentro de mim, à noite, quando a lua chora.” Hermione parou. Suspirou, já que não havia ninguém que a ouvisse.
As canções de Harry deixavam-na sempre comovida, mas desta vez era um pouco mais profundo. E um pouco mais genuíno. Lágrimas da lua, pensou ela. Pedras das lágrimas da Lua para Lady Gwen. Um amor que pedia, mas não conseguia ser atendido. - É muito triste, Harry. O que há dentro de ti para compor uma música de tanta solidão?
Por melhor que o conhecesse, Hermione não sabia qual era a resposta para essa indagação. E bem que gostaria de saber. Sempre quisera conhecer a chave para Harry. Mas ele não era como um motor ou uma máquina, que ela podia desmontar para saber como funcionava. Os homens eram mais complicados, enigmas frustrantes.
Era o segredo de Harry, o seu talento, pensou Hermione. Todo o seu interior é mistério. Enquanto as suas próprias habilidades eram... Ela olhou para as mãos pequenas e eficientes. As suas habilidades eram as mais simples possíveis. Mas pelo menos ela tirava um bom proveito e ganhava a vida com o que sabia fazer.
E o que Harry fazia com o seu enorme talento, a não ser sentar-se e sonhar? Se ele tivesse um pingo de ambição, ou um pouco de orgulho sincero pelo seu trabalho, venderia as suas canções, em vez de apenas compô-las e guardá-las em caixas. O homem precisava de um bom pontapé no traseiro por desperdiçar o talento que Deus lhe dera. Mas isso, pensou Hermione, era uma irritação para outro dia. Agora, tinha o seu trabalho para fazer. Ela começou a levantar-se, estendendo a mão para a caixa de ferramentas. E foi nesse instante que um movimento atraiu a sua atenção. Empertigou-se toda, mortificada ao pensar que Harry voltara - ele passava a vida a esquecer-se de algo - para surpreendê-la a tocar a sua canção. Mas não era Harry quem parara à porta.
A mulher tinha cabelos dourados, mais para o claro, caindo em torno dos ombros. Usava um vestido cinzento, simples, que descia até ao chão. Os olhos eram de um azul suave, o sorriso tão triste que partia o coração ao primeiro olhar. Reconhecimento, choque e uma exaltação inebriante envolveram Hermione ao mesmo tempo. Ela abriu a boca, mas o que quer que fosse que tencionava dizer saiu num chio, enquanto o seu coração disparava. Tentou de novo, um pouco embaraçada ao descobrir que os seus joelhos tremiam.
- Lady Gwen... - balbuciou ela. E achou que era admirável ainda ter conseguido dizer isso, ao deparar-se com um fantasma de trezentos anos. Enquanto a observava, uma única lágrima, brilhante como prata, deslizou pelo rosto da mulher.
- O coração dele está na canção. - A voz era tão suave como pétalas de rosa, mas, mesmo assim, deixou Hermione a tremer. - Preste atenção.
- O que... Mas antes que pudesse concluir a pergunta, Hermione descobriu-se sozinha, apenas com a fragrância de rosas silvestres a pairar no ar.
- Essa não! - Ela tinha de se sentar. Não havia como evitar. E sentou-se no banco do piano. - Essa não! - Murmurou outra vez. Teve de respirar fundo, várias vezes, até o coração parar de bater fortemente dentro do peito. Quando achou que as pernas seriam capazes de sustentá-la de novo, decidiu que era melhor contar a história a alguma pessoa, sábia, sensata e compreensiva. E não conhecia ninguém que se ajustasse a esses requisitos tão bem como a sua mãe.
Acalmou-se ainda mais no curto percurso até à sua casa. Ficava fora da estrada, quase como se fosse um quebra-cabeça, com peças acrescentadas aqui e ali ao longo dos anos. Ela própria ajudara a construir algumas. Quando o pai tinha uma ideia para aumentar a casa, Hermione tinha o maior prazer em ajudá-lo, serrando e martelando.
Algumas das suas lembranças mais felizes eram do trabalho ao lado de Michael Granger, que gostava de assobiar enquanto fazia as coisas. Ela parou atrás do carro velho da mãe. Precisávamos pintar aquela lata velha, pensou Hermione, distraída, como sempre fazia.
A fumaça saía pela chaminé. Lá dentro, havia aconchego e calor, o cheiro da comida da manhã. Ela encontrou a mãe, Miranda, na cozinha, tirando o pão do forno.
- Mãe...
- Santo Deus, menina! Deu-me um susto. Com uma gargalhada, Miranda colocou o tabuleiro em cima do fogão. Virou-se para a filha, sorrindo. Tinha um rosto bonito, ainda jovem e liso, com os cabelos castanhos- claro que legara à filha presos no alto da cabeça, por conveniência.
- Desculpa. Você estava ouvindo música.
- A música é uma boa companhia. - Miranda estendeu a mão para desligar o rádio. Por baixo da mesa, Betty, a cadela amarela da família, virou-se e soltou um gemido. - Porque voltou tão cedo para casa? Pensei que tinha trabalho para fazer.
- Tinha. E tenho. Preciso ir à aldeia ajudar o pai. Mas passei no Faerie Hill para consertar o forno do Harry.
- Hum... -Miranda virou-se, para tirar os pães do tabuleiro, e deixá-los numa armação até esfriarem.
- O Harry saiu antes que eu acabasse. Por isso, fiquei mais algum tempo no chalé. - Quando Miranda voltou a soltar o mesmo grunhido distraído, Hermione mudou de posição.
- E quando eu já ia sair... Lady Gwen apareceu.
- Hum... Como? Finalmente registrando as palavras da filha, Miranda virou a cabeça para fitá-la.
- Eu vi-a. Eu estava a tocar algumas notas no piano. Quando virei a cabeça, avistei-a na entrada da sala.
- Deve ter sido um susto e tanto. Hermione suspirou. Sua mãe, Miranda Granger era mesmo uma pessoa sensata, abençoada fosse.
- Fiquei tão atordoada que quase engoli a língua. Ela é mesmo muito bonita, como a velha Maude costumava dizer. E triste. Uma tristeza tão profunda que parte o coração. - Sempre tive a esperança de vê-la. - uma mulher prática, Miranda serviu duas xícaras de chá e levou-as para a mesa. - Só que isso nunca aconteceu.
- Sei que o Rony falou durante anos que a via. E depois foi a vez da Luna, quando se instalou no chalé. - Relaxada de novo, Hermione sentou-se à mesa. - Eu tinha acabado de conversar com o Harry sobre Lady Gwen. Ele disse que nunca a vira... Sentia, mas não vira. E, de repente, lá estava ela, a aparecendo para mim. Por que razão acha que isso aconteceu?
- Não sei, querida. O que sentiste?
- Além de um choque pela surpresa, acho que compaixão. E depois perplexidade, porque não entendi o que ela me disse.
- Lady Gwen falou contigo? - Os olhos de Miranda arregalaram-se.
- Nunca soube que ela tenha falado com qualquer pessoa. Nem mesmo com Maude, que me teria contado. O que disse Lady Gwen?
- O coração dele está na canção. E acrescentou que eu deveria prestar atenção. Quando recuperei o controle, para perguntar o que isso significava, ela já havia desaparecido.
- Já que é o Harry quem ali mora agora, e era o piano dele que estava tocando, eu diria que a mensagem foi bastante clara.
- Mas eu ouço a música dele durante todo o tempo. Não se pode ficar cinco minutos na companhia de Harry sem a ouvir.
Miranda tinha intenção de falar. Mas mudou de ideias, Limitou-se a colocar a mão sobre a da filha. A sua querida Mione, pensou ela, tinha a maior das dificuldades em reconhecer qualquer coisa que não pudesse desmontar e montar de novo.
- Eu diria que vai acabar por perceber, quando chegar o momento.
- Ela faz com que a gente sinta vontade de ajudá-la. - murmurou Hermione.
- É uma boa menina, minha querida filha. Talvez, antes de tudo acabar, possa mesmo ajudá-la.
(Fim do capítulo)