Capítulo 1
O galpão escuro se aproximava a cada passo dolorido que Hermione andava. Era notável que este anexo da mansão Malfoy havia sido construído a pouco tempo, mas ainda assim dava uma impressão sombria e abandonada. Quando ela e as demais prisioneiras estavam a alguns passos de um grande portão de ferro e madeira, os trestrálios foram soltos e pararam. O portão foi aberto e dele saiu uma mulher esguia usando um vestido preto com recortes. Atrás dela se postava um comensal mascarado e no cômodo do qual eles saíram via-se apenas escuridão.
- Fiquem em silêncio e estendam as mãos quando ele se postar ao seu lado. – a mulher anunciou olhando para a fila e para o comensal que se adiantava, parando ao lado da primeira garota da fila. Ele a olhou por alguns momentos e sacou um punhal das vestes. Hermione sentiu seu sangue congelar. Estava preparada para o pior, torturas, interrogatórios, humilhação e morte, mas quando o momento parece chegar é inevitável sentir um temor, ela pensou. O comensal fez um corte na palma de uma das mãos até que algumas gotas de sangue escorressem e caíssem na terra dura e fria. Hermione teve a impressão de que o chão emitiu uma fumaça.
O processo foi seguindo, idêntico, e a cada garota que o comensal se aproximava Hermione sentia que ia se despedindo da sua vida. Sabia que seria reconhecida, afinal era a sangue ruim mais odiada e não teria apenas um corte na palma da mão. Tentava se lembrar dos bons momentos e de tranquilidade, mas a realidade a impedia de concluir seus devaneios, quando o comensal se postou a duas garotas à sua frente.
- VOCÊ. Você é Clarissa Vane, irmã de Romilda Vane! Sua irmã faz parte do grupo rebelde! – berrou o homem e cortou a corrente que prendia a garota as correntes e a jogou no chão. Ignorando os lamentos e choros da garota, ele fez sinal para mais dois comensais que se aproximaram e a arrastaram para longe de vista. Hermione sentiu que começara a chorar. Não suportava a ideia de não poder ajudar alguém, ali, na sua frente. Não disse nada, não gritou porque não havia ninguém ali que poderia ajuda-la.
Além disso, se eles haviam feito isso com alguém que não pertencia a Ordem nem a AD e só havia parentesco com uma membra e apenas se escondia nos locais que protegiam ela nem queria imaginar o que fariam com ela.
O homem havia voltado a sua tarefa e olhava a garota a sua frente. “É agora” pensou Hermione. Ele cortou a palma da garota e Hermione viu claramente que o chão tremia de leve e uma fumaça escura e rala saía dele. Chegou a sua vez, o comensal a olhou, com os olhos um pouco desfocados e cortou a palma da sua mão direita. Ela nem sentiu dor perante ao alívio que sentiu naquele momento: ele não a reconhecera.
Assim que a última garota foi analisada, a mulher retomou a palavra:
- Excelente, agora prestem atenção: O ritual que acabaram de participar faz parte de um poderoso encantamento. O sangue de vocês agora é propriedade desta terra, sendo assim vocês não podem deixar esta propriedade, pelo menos não vivas. – ela dizia, como estivesse dando uma aula. Hermione buscou uma brecha, mas já estava tão exausta que não parecia ser mais capaz de pensar. Será que o que a mulher dizia era verdade? Estaria blefando? A garota Vane não passara pelo ritual, o que seria feito com ela?
- Venham comigo e mostrarei seus aposentos. – Continuou a mulher e as cordas que prendiam as garotas foram soltas. A custo, elas caminharam, mantendo a fila, sem nenhuma garota sequer cogitar fugir e adentraram o galpão escuro.
Havia cacarecos de todos os tipos: chaleiras, cestos, trapos, mas aparentemente nenhuma arma. Elas foram dirigidas a um corredor úmido, sem janelas cuja luz provinha de tocos de velas, composto de celas pequenas, mas aparentemente novo. Hermione entrou em uma mais ao fundo e viu que havia um bloco de pedra encostado na parede do fundo da cela e sobre ele havia um cobertor roto e desfiado, ao lado, no chão, um prato e um copo de metal. Assim que entrou por completo na cela as grades se fecharam, e quando todas já estavam trancadas, a mulher retomou a fala:
- Perfeito! Agora comam e tentem dormir um pouco, em algumas horas voltarei. – e deixou o corredor e deixou o galpão, pois houve um baque de algo pesado se fechando. Ao olhar no chão, ela pode ver que o prato e o copo foram preenchidos magicamente com pães velhos e água. “Elfos” pensou Hermione, certamente os comensais tinham dezenas de elfos ao seu dispor, o estranho era que dessem a elas uma parcela disso. Mesmo faminta a garota não comeu nem bebeu. Poderia haver soro da verdade ou algo pior. Pensava que o comensal não a ter reconhecido fosse parte de alguma armadilha. Ignorando a dor nos pés e na palma que sangravam ela se deitou e se enrolou no cobertor e cochilou por alguns momentos.
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Gina passava pelos corredores do Largo Grimmald como se procurasse alguém, mas antes disso foi interrompida por Dino Thomas.
- Gina, hei, eu precisava falar com você sobre...
- Dino, eu estou ocupada, a não ser que seja alguma pista sobre Mione ou... você sabe... – a ruiva o interrompeu pois ultimamente o garoto vinha tentando se aproximar dela com mais frequência, e ela não queria dar a ele nenhuma falsa esperança.
- Não é isso, mas igualmente importante. Malfoy foi visto aqui na Inglaterra. – ele disse, apreensivo, mas esperando que essa notícia a fizesse falar mais atentamente com ele. – Acabei de falar com o Lino, ele o viu enquanto buscava fatos para falar na rádio. A sorte é que foi só isso mesmo hoje, o programa vai falar sobre feitiços defensivos mesmo, nada de notícias hoje.
Gina refletiu por um momento. Fazia quase dois anos que Draco Malfoy tinha sumido do mapa. Como a guerra atingia o mundo todo e haviam grupos de comensais tanto quanto da Ordem por todo o globo eles imaginavam que ele tivesse saído da região para recrutar outros em demais países. Agora que voltara poderia tentar contatá-lo, afinal ele tinha uma dívida com Harry e talvez pudesse trocar por alguma informação sobre Hermione, quem sabe...
- Vou conversar com Ron, mas obrigada Dino. – retrucou ela e continuou seu passeio pelos corredores, desceu as escadas e chegou a cozinha, que tinha as portas fechadas, mas como agora haviam as Orelhas Extensíveis 2.0, nenhum feitiço poderia impedir que ouvisse. Como questão de segurança esses itens não seriam vendidos e só serviam aos interesses da Ordem.
- Lilá, você não entende? Hermione está desaparecida! Não sei se ela está viva! Me diga, qual é a prioridade se não encontrá-la? – ela ouviu a voz exaltada de Ron pela porta.
- Talvez o que nós temos feito desde que Você-Sabe-Quem assumiu o poder? Proteger todos que se opõe no mundo mágico? Não é porque Harry se foi e Hermione sumiu que iremos desistir. As pessoas precisam de nós e nós precisamos de você, eu preciso de você Uon... Ron quer dizer. – finalizou Lilá dramática. Antes que Ron explodisse Gina guardou as orelhas e abriu a porta. Os dois se viraram para ela e ela pediu uma palavrinha ao seu irmão, fazendo Lilá sair cabisbaixa da cozinha.
Após se certificar que nem Lilá nem qualquer outro estava escutando atrás da porta, Gina prosseguiu:
- É péssimo dizer isso, mas ela está certa, Ron. Eu sei que isso tudo é horrível. – acrescentou ao vê-lo ainda mais furioso e com as orelhas cor de tomate. – Acredite, eu sei exatamente pelo que você está passando. Eu sinto o mesmo. Mas é nosso dever terminar o que começamos. Falta só a cobra para matarmos, lembra? A Mione duvidava que ele tivesse feito mais Horcruxes. Nós conseguimos dar esperança para os nascidos trouxas e mestiços, em todo mundo há grupos como nós que resistem. A AD é o nosso maior orgulho. Tivemos muitas perdas, eu sei. Porém temos que seguir em frente! Era isso que eles queriam: Sirius, Moody, Lupin e Tonks, Dumbledore, Harry, Hermione, Fred, Mamãe e Papai. – disse a ruiva, agora com lágrimas nos olhos. – Não podemos desistir, devemos isso a eles. Eles acreditavam em nós.
- O seu discurso é inspirador, Gina. Mas são apenas palavras, nada além disso. São as ações que importam, e eu...mais uma vez falhei em proteger as pessoas mais importantes da minha vida. No início eu achei que fosse mais fácil aceitar as perdas com o passar do tempo, mas não. Cada vez é mais difícil, o peso na minha consciência é maior. Hermione é ... ela sempre foi o cérebro da equipe, todas as ideias vinham dela.
- Isso não é totalmente verdade, você teve grandes ideias também.
- Então elas vinham por causa dela. – ele fez uma pausa e continuou, dessa vez se virando de costas para a irmã e contornando a mesa. – O pior de tudo é essa incerteza, sem saber se está viva ou morta.
- Ron se ela estivesse morta você não acha que já teriam anunciado a todos que a nascida trouxa mais procurada de todos os tempos tinha sido liquidada? – Gina falou enquanto se aproximava dele e tocava seu ombro fazendo-o se virar. Mesmo nessas horas, Ron não gostava que o vissem chorar e enxugou os olhos e encarou a irmã, assentindo. – Eu tenho certeza que ela está viva, e onde quer que esteja ela deve estar se virando muito bem. Ela é forte, você sabe. E quanto ao Harry, bem, você sabe a minha opinião. Não importa o que digam ou o que eu tenha visto. Há coisas que não compreendemos, mas de uma coisa eu tenho certeza: Não é possível acreditar em uma realidade em que Harry Potter não exista.