Balancei a cabeça enquanto abria a porta da sala dos professores, lá estava James Potter conversando com outros dois professores: o primeiro tinha cabelos escuros e grandes, porém bem tratados, eu o vira de relance na manhã passada, já o segundo, tinha cabelos castanhos claros, magro e alto, este eu nunca vira antes. Tentei entrar despercebida, sem interrompê-los para pegar uma xícara de café, mas parecendo sentir minha presença, Potter virou-se para me encarar assim que a porta se fechou atrás de mim, à atitude dele fez com que os outros dois professores me encarassem também. Droga!
– É a professora de História, pegou a turma 1302... – Riu-se Potter. – Coitadinha da ruivinha. – Contei mentalmente até dez para não responder nada mal educado, o segundo homem também parecia não ter achado aquilo engraçado e fazia uma careta quando respondeu.
– Sinto muito. – Disse o de cabelos curtos. – Eu também peguei essa turma, mas depois de muito custo consegui fazer com que eles se comportassem... Meu nome é Remus Lupin, sou professor de Inglês.
– Lílian Evans. – Sorri para ele, tentava ignorar a risada de Potter e do primeiro homem, mas sem conseguir controlar minha língua afiada, acrescentei. - Você é o único com educação nessa sala? Obrigada por se apresentar, Lupin. – O homem deu um sorriso sem graça, corando.
– Pode me chamar de Remus...
– Pode me chamar de Lily, então. – A forma como me apresentei para Remus Lupin chamou a atenção de Potter e do outro professor.
– Lily, apelido legal... – Comentou o professor ainda sem se apresentar, ergui uma das sobrancelhas quando olhei pra ele.
– Já você, pode me chamar de senhorita Evans ou professora Lílian. – Corrigi, fazendo-o ficar surpreso e mudo. Potter riu e olhou dentro dos meus olhos, meu coração disparou, fiz de tudo para não demonstrar. O que estava acontecendo comigo?
– E eu posso te chamar de Lily? – Perguntou com seu jeito arrogante. Pensei por poucos segundos, aquilo era absurdo, é claro que não podia!
– Claro. – Me ouvi dizendo com um sorriso malandro no rosto.
Potter não conseguiu esconder o espanto, arregalou os olhos para minha resposta, sabia que ele tinha certeza que diria o contrário. Algum tempo depois, sorriu, um sorriso sincero desde a primeira vez que o vira. Olhou para o amigo cujo nome ainda não sabia.
– Está vendo, Sirius? Posso chamá-la de Lily. – Disse ainda sorrindo. – Pode me chamar de James, Lily.
– Assim você me magoa, senhorita Evans. – Sirius fingiu estar magoado. – Por que não posso chamá-la de Lily também?
– Afinal, quantos anos vocês têm? Como conseguiram emprego? – Não consegui refrear minha língua mais uma vez, Potter riu e ergueu uma das sobrancelhas. – O que foi, James?
– Na-nada... – Gaguejou fazendo-me rir. Passei entre os três homens, peguei um copo descartável e me servi de um pouco de café. – Bem, tenho que ir. – Anunciei indo para a porta.
– Você não vai querer beber isso... – Potter, Remus e Sírius falaram olhando para meu copo, suspirei, resolvi não fazer perguntas quando joguei o copo no lixo.
– Acho que vocês também deveriam ir para suas salas. – Falei saindo sem encará-los. Segui pelo corredor que levaria para minha sala, sentei em minha cadeira aguardando a turma da sexta série. Pensei em James gaguejando pela primeira vez comigo, estava até começando a achar que poderíamos nos tornar bons amigos, mas estava tão enganada...
Liberando a turma da quinta séria para o recreio vi uma briga no meio do corredor, fui até lá para aparar os dois alunos, ao mesmo tempo em que James fazia o mesmo. Sim, já estava me acostumando a idéia de chamá-lo pelo primeiro nome. A única coisa que achava que não sabia sobre ele, era qual disciplina ensinava. Chegamos no momento em que os dois alunos começariam a se bater. Meu segundo dia e já estava impedindo uma briga! Segurei um aluno de minha turma enquanto James segurava o outro.
– O que está acontecendo aqui? – Perguntamos ao mesmo tempo, com James me olhando de canto de olho. Quem respondeu foi o aluno que ele segurava, ainda tentando agarrar o outro estudante.
– Esse idiota disse que você é um péssimo professor! – O menino respondeu. – Disse que só sabe fazer nada! – James me olhou de testa franzida enquanto o aluno que eu segurava se manifestou.
– Só porque ele se intrometeu na minha conversa! Disse que a senhorita era careta de mais... Quem fala o que quer escuta o que não quer, não é esse o ditado? – Queria rir daquela situação, mas James tinha de abrir a boca e estragar tudo.
– Ah, mas todos nós sabemos que eu não sou assim, não é mesmo? – Sorriu para os alunos. – Sou o professor mais legar e Lily é um pouco irritadiça... – Sussurrou a ultima parte de forma que todos os que estavam perto puderam escutar. Soltei o garoto enquanto cruzava os braços encarando aquele projétil de professor.
– Ei, ei, quem disse isso? – Indaguei com raiva, ele riu.
– Está vendo? – James piscou para o garoto, fazendo não só ele mas todos os outros rirem.
– James Potter! O que quer dizer com isso? Está insinuando que você é melhor do que eu?
– Ora essa! Admita pelo menos que você é um pouco careta... – Confirmou Potter.
– Não sou careta! – Exclamei indignada. – Você que é muito arrogante.
James soltou o garoto, provavelmente por causa da nossa discussão, as crianças esqueceram que elas que deviam estar brigando. Nos encaramos, e mesmo que ele fosse bem mais alto do que eu, não podia levar esse fator como vantagem, pois eu nunca fraquejaria.
– Não sou arrogante! Você que é a pessoa mais irritadiça que já tive o desprazer de conhecer em toda a minha vida.
– Até parece que você conhece tantas pessoas assim, senhor Sou-Melhor-Em-Tudo!– Retruquei com raiva. – Nunca saiu de Londres, nem uma única vez!
– Ah, e você me conhece há bastante tempo, senhorita Metida-A-Ser-Certinha – Ironizou Potter, revirando olhos.
– Achei que podia ser sua amiga. – Atirei contra ele. – Mas estou vendo que estava errada, você é o cara mais imbecil que já conheci! E que deve ensinar algo muito irrelevante para dizerem que você não quer nada! – Potter me fuzilou com os quatro olhos que tinha, enquanto me mantinha firme.
– E você que ensina a matéria mais chata de todos os tempos? História? História é para os fracos. Quero ver você ficar duas horas pendurada em uma barra para poder passar em um exame. – Berrou tanto que ficou vermelho pelo esforço.
– Se não fosse pela História, você nem ao menos existiria! Aposto que você teve de estudá-la para poder ensinar, seja lá o que leciona. – Falei calmamente, minha postura irritando ainda mais o Potter, que furioso, se aproximou mais de mim.
– Ah é? E quem lhe garante isso? – Nós estávamos a apenas cinco centímetros de distância agora.
– Argh! E eu pensando que você teria maturidade suficiente para ser meu amigo, mas só agora eu vejo o quanto eu estava enganada! Você é... – Diria que ele era tão criança quantos os alunos da escola, mas queria as crianças do meu lado, e não do dele.
– E você é sempre cheia de “EU” – Debochou. – Não sabe falar em conjunto como “Nós” e “Todo mundo”?
– Infantil. – Retorqui.
– Egoísta.
– Idiota.
– Chataa. – Falou demoradamente.
– Preguiçoso.
– Maluca...
– Criança.
– Gorda. – Por incrível que pareça, bastou somente essa palavra para me tirar do sério, de vez.
– Professores! – Chamaram os alunos que observavam nossa briga, por um instante esqueci que estavam ali, mas estávamos com tanta raiva um do outro que olhamos para eles e gritamos um: “Calados!” Em uníssono.
– Senhores. – Uma voz conhecida disse às nossas costas, fiz uma careta ao mesmo tempo em que Potter, e nos viramos para olhar envergonhados para a diretora. – O que está acontecendo aqui? – Potter abriu a boca, porém, eu fui mais rápida.
– Nada. – Respondi tentando fazer cara de santa. Alice ergueu uma das sobrancelhas, balançou a cabeça suspirando. Parou na nossa frente, mas antes de dizer qualquer coisa para nós, ordenou que os alunos voltassem para a aula.
– Saibam que escutei a briga de vocês. – Começou ela. – Seja lá o motivo que desencadeou essa discussão, peço que a deixe para fora dos portões desta escola. – Nunca imaginara que ela podia falar assim, talvez agisse dessa forma por que realmente passamos dos limites. – Aqui vocês são profissionais, entenderam?
– Sim, diretora. – Respondemos juntos mais uma vez. Alice nos lançou outro olhar decepcionado antes de partir sumindo de vista.
Olhamos um para o outro fazendo careta, dei as costas para ele para entrar em minha sala, quando ele perguntou:
– Ainda posso te chamar de Lily?
– Não!
Mais tarde, depois de liberar minha ultima turma um pouco mais cedo, fui de sala em sala procurar por Potter, queria descobrir o que ele ensinava, contudo, não o encontrei no prédio. Já havia desistido quando escutei sua voz, então me dirigi para o ginásio e lá estava ele, apitava um jogo de basquete, o que deixou mais do que obvio que dava aula de Educação Física. E pelo pouco que vi, ficou claro que não era nem um pouco preguiçoso, na verdade, parecia bem bonito, digo, profissional.
Odiava estar errada, e me peguei pensando mais uma vez se o julgara precipitadamente, mas nunca admitiria isso. Para minha surpresa ele se virou de repente, mas, antes que me visse, saí da quadra sem dizer nada. Não podia demonstrar o quanto me abalara vê-lo daquele jeito. Amanhã eu o trataria do jeito de sempre, antes da discussão, do jeito que nos conhecemos.